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Airo Zamoner






A TRAIÇÃO

Quando o encontrei pela primeira vez, Clápsio era um homem literalmente destruído. Relampejos de ódio e rasgos de pranto convulso se alternavam num semblante em frenesi de contrastes. Aviso claro de colapso iminente. Cabelos recentemente amarfalhados. Desejos de vingança e suicídio projetando-se dos olhos vermelhos, úmidos de dor. Corpo no limiar da velhice, fetalmente encolhido, clamando silencioso por socorro.
Abaixei-me até seu inferno e ouvi, paciente, suas desgraças. Não eram poucas. Começavam por seu nome. Clápsio suscitava risadas desde os bancos escolares. Frustraram-se tentativas sucessivas de mudança, menos por boa vontade do sistema, mais por titubeio das alternativas.
Ouviu-me atento dizer coisa nenhuma. Provoquei-o, fazendo-o extravasar suas aflições. Seu rosto amainara o sofrimento. Acalmara o pranto. O ódio, contudo, tomava o lugar das mágoas e crescia robusto.
Encontramo-nos outras vezes. Trocamos endereços. Conversamos. A traição era seu fanatismo. Não conseguia esquecê-la, perdoá-la. Mas seu rosto abria um sorriso juvenil ao lembrar das carícias imensas de Clemence, a consolá-lo nos momentos cruciais de sua recente e irreparável perda.
Clemence, no frescor da impubescência, arrebatou-o em suas profundas paixões. Tirou-o do padecimento da viuvez num transe de magia. Clápsio descobriu o ardor da juventude perdida na sede lasciva que a amante demonstrava em suas noites de intermináveis amores. Durava pouco o sorriso e a fisionomia logo se acinzentava, arroxeava-se, impregnava-se de labaredas diabólicas.
A avalanche das paixões vividas com Clemence, seguida de sua sarcástica traição, arrebatava-o. Seus olhos reviviam a cena bruta onde sua doce e jovem amada ria às gargalhadas enquanto expunha, insolente, sua nudez e sua traição desinibida. Seu rosto crispava-se de rancor e seu inferno ressuscitava fortalecido.
Clápsio se dividia entre o ódio e a dor, enquanto eu me desdobrava em artimanhas, em frustrantes tentativas para tirá-lo do buraco demoníaco em que se debatia. Crescia a olhos vistos seu ódio perturbador, único lenitivo para suas mágoas.
Não respondeu mais a meus apelos. Fugiu dos meus encontros. Recusou-se em receber-me. Enclausurou-se em seu martírio.
Agora, esse novo encontro! Vejo o rosto de Clápsio e não o reconheço. Corpo ereto e altivo. Não há mais dor nem ódio a pular de sua fisionomia fria. Não abaixa a cabeça e seus olhares furam o infinito. Sua boca disfarça um sorriso malicioso. Ignora todos os presentes. Minha surpresa não resiste.
– Clápsio!
Seu rosto vira lentamente e me encontra. Não diz palavra e seu olhar de pedra se esmigalha aos poucos. O sorriso maroto se perde em lábios trêmulos. Os olhos, há pouco envoltos em geleiras, deixam escapar um esboço de choro infantil. Tento me aproximar, me impedem. Clápsio tenta atravessar a barreira e achegar-se. Impossível. Ergo os braços num aceno ele ergue suas mãos algemadas. Pergunto aos berros o que ele fez e me respondem agressivos.
– Esquartejou uma tal de Clemence!


Airo Zamoner é escritor
airo@protexto.com.br


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