Tânia Gabrielli-Pohlmann






VIDA DIFÍCIL

Marilena chegava em casa lá pelas seis da manhã, arrumava a mesa, que o garoto seu filho tinha que tomar café e ir pra escola, coitadinho, debaixo desse frio danado. Tinha pra si que um dia conseguiria um apartamento nos Jardins, perto de tudo que sempre quis ver ao abrir a janela de seu quarto... Antes que Reginaldo acordasse, corria para o banheiro, tirava a maquiagem e mudava de roupa, senão o moleque ía começar o dia com perguntas que ela não queria responder. Não para seu filho, que nada a tinha a ver com o que com ela se passava… Aliás, era por ele que ela dava um duro danado, mas o que se há de fazer…
A noite até que foi produtiva – e teria sido muito menos entediante, não fosse o bêbado que tentara aborrecê-la. A carteira escondida no porta-absorventes, ela agora podia contar o dinheiro com mais calma e já saber se ía ter de fazer muita hora extra durante a semana que só estava começando…
Precisava pagar a escola do filho e sua faculdade, que ela não era besta de achar que seu corpinho ía durar durinho para sempre… Cursava Processamentos de Dados, que era a profissão do futuro e fazia curso de inglês à tarde, antes de pegar no pesado.
- Acorda, meu anjo, que já está na hora de ir pro colégio… Vamos rapidinho, que a mãe precisa chegar cedo na faculdade.
Tomou um banho bem quente, resmungou o arranhão na coxa esquerda, secou o cabelo e se aprontou para sair. Deixou o filho no colégio, entrou no carro e seguiu para a faculdade. Era a última prova do semestre; em uma semana estaria se formando e finalmente sendo alguém na vida. Não tivesse esquecido sua carteira de documentos em casa. Foi enterrada como indigente;nas noites seguintes seus clientes sentiam sua falta e ironizavam sua ausência: mulher de vida fácil é assim mesmo; trabalha quando quer e depois que põe fogo na gente, some, desgraçada…

CopyRight © Cepedê Sistemas & WebSites - Comércio eletrônico.