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Airo Zamoner






Nada mais será
como antes

Jeremias caminha de um lado para o outro. Inquieto. Azedo. Resmungão. Tem uma sensação muito forte de que está perdendo alguma coisa importante. E porque perde aos poucos, devagarinho, imperceptivelmente, sorrateiramente, vai se acostumando.
Enfiado na luta do dia-a-dia, nada percebeu. E se percebeu, aceitou. Pouco a pouco.
Mas Jeremias não quer mais se acostumar como tantos outros.
Quer rebelar-se.
Quer arrebatar a vizinhança próxima e remota para a nova causa que nasce em seu peito traído.
Quer reconquistar a liberdade que perdeu quando solaparam a segurança.
Quer resgatar a cidadania de seus filhos, dos filhos de sua gente, perdida quando vilipendiaram a educação com escancarada zombaria.
Quer devolver a saúde dos velhos pais e dos velhos de seu povo, que se arrastam pelos becos das lembranças e dos corredores de hospitais decrépitos, esgotados nas falcatruas criminosas dos palácios.
Quer ressuscitar a esperança e o brilho nos olhares opacos das crianças prostituídas, mortas nos casebres sem chaves: brindes arrogantes dos planos habitacionais mentirosos.
Jeremias interrompe sua caminhada intermitente. Pára diante da janela pequena. Olha um horizonte imaginário. Seu pensamento ferve revoluções imaginárias.
Não aceita mais estar nas mãos do crime que se propaga e toma pedaços cada vez maiores de nosso território físico e mental.
Não aceita mais assistir à droga penetrar no coração das crianças perdidas no perdido futuro.
Não aceita mais assistir às organizações criminosas invadirem governos que escancaram seus líderes-bandidos, sem máscaras aparentes, zombando dele, de sua família, de seu povo.
Não aceita mais entregar parte nobre de seus minguados ganhos para ser usada, sem piedade, em cuecas, malas, bacanais e contas bancárias espúrias, que tira, na mais grossa desfaçatez, a necessidade primária de um povo cansado de ser escravizado durante o dia com o disfarce criado nas noites das palavras macias, das promessas demoníacas, do endeusamento da ignorância, das utopias malandras a funcionar como cenoura na ponta da vara, conduzindo um povo desgraçado na correria insana que vai sustentar o luxo dos criminosos de gravata.
Maria achega-se, aos poucos, às costas de Jeremias. Afaga seu dorso. Acaricia os cabelos brancos e ralos. No silêncio dos dois, o entendimento profundo de que nada mais será como antes.

Airo Zamoner é autor do livro “Contos de Curitiba”

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