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Airo Zamoner






A lista do Malaquias

O parlamentar parecia solitário, macambúzio. Pudera! Malaquias, vindo lá dos fundos do país para a capital, freqüentemente extraviava-se nos corredores decorados do magnífico edifício do Congresso e perdia-se nas conversas ininteligíveis de pomposas excelências que falavam, riam, cochichavam, conspiravam.
Difícil acostumar-se com a mudança na vida e com os novos costumes naqueles papos descontraídos que contradiziam descaradamente os discursos oficiais. Malaquias sempre foi rude, mas homem de uma só palavra. Retraía-se, ao sentir que os discursos eram falsos, hipócritas, mentirosos.
Foi complicado internalizar que agora era uma autoridade. Incomodava-o perceber que o procuravam tanto, oferecendo tanta coisa de graça.
Nas conversas, perdia muitas palavras que não sabia o significado. Para quem mal terminou a quarta série, nem poderia ser diferente. Vocabulário limitado e fora de seu mundo, o linguajar escapava de sua plena compreensão. Nunca teve pendores políticos, nem liderança significativa. Mas tinha amigos, muitos amigos.
Tudo começou quando um desconhecido o convidou para se candidatar e para isto receberia uma boa grana. Simplória, sua mãe agradeceu a seu Deus. É a sorte grande! Vá, meu filho! O velho pai, cansado, calou-se. E ele foi...
O dinheiro pagou a hipoteca do sítio. Ainda sobrou para um pequeno trator e uma gorda caderneta de poupança. Ensinaram o que ele deveria fazer e o fez religiosamente bem. Foi eleito com facilidade. Não entendeu quando o carregaram em desfile pelas vielas da pequena cidade. As pessoas que o homenageavam eram desconhecidas, nem viviam por ali. Não ficou sabendo quem e porquê votaram nele. Mas, afinal, estava ajudando a família a superar as dificuldades, ter uma vida bem melhor. Valia o sacrifício.
Obediente, Malaquias fez tudo o que ensinaram as velhas raposas do poder. O dinheiro entrava a rodo em sua conta recém-aberta, misturando o devido com o desconhecido. Ele desconfiava.
Tímido e bronco, sentia falta de seu lugar, de sua gente, de seus bichos, de seu canto. A solidão traduzia-se em feições taciturnas, logo percebidas pelos funcionários do hotel, principalmente Jonas, que foi se achegando aos poucos à nova “excelência”. Acabou por entregar-lhe um bilhete com uma sigla e o número de um telefone. A sigla GMC, o parlamentar novato pensou ser daquela fábrica de caminhões de antanho. Mas não. Era, sim, de uma distinta senhora, explicou-lhe Jonas com paciência de vendedor. Poderia arranjar companhia de alto coturno, muita diversão. Acabaria com o que já parecia início de uma triste depressão. Dando certo, teria comissão garantida. E das gordas.
Numa daquelas noites insones, Malaquias lembrou-se do bilhete. Tomou coragem e ligou para GMC. Com voz aveludada, alguém identificou-se por Geane. Entendeu, afinal, o que era aquele G do bilhete amigo. Ela foi amável, como poucas pessoas haviam sido com ele. Convidou-o para uma festa que estava acontecendo naquele exato momento. Prontificou-se a buscá-lo. Duas lindas moças, decotes generosos, saias curtíssimas, pernas longas, tentadoras, sorrisos cativantes, ombros nus a chamar carícias, conduziram Malaquias para o luxuoso apartamento cobertura onde a tal festa corria solta. Ficou assustado, o nosso Malaquias. Teve a impressão que se tratava de uma reunião do Legislativo em conjunto com o Executivo completo. Quase todos que conhecera nos últimos dias estavam lá. Cada um agarrado a uma, ou duas, daquelas lindas moças, insinuando-se libidinosamente. Num canto da grande sala, sobre um elevado, uma banda tocava música suave. Três moças nuas, dançando como serpentes, deixaram Malaquias paralisado. E pior: eram alisadas, na frente de todos, por alguns parlamentares que se revezavam. Malaquias teve um choque. Empurrou as duas anfitriãs com certa rispidez. Tirou do bolso um pequeno bloco e um lápis. Molhou a ponta na boca e fez uma lista completa dos convidados. Prometeu revelar suas anotações em discurso no plenário.
Os palácios estão em pânico. Querem destruir a lista de Malaquias e o próprio Malaquias antes que seja tarde...

Airo Zamoner é autor do livro “Contos de Curitiba”

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