Tânia Gabrielli-Pohlmann






A SUPERFÍCIE

A manhã tranqüila convidada à meditação.
Dois pescadores, assim entendendo a mensagem, permaneciam calados e entregues à linguagem do anzol, sem as expectativas de grandes pescados.
O mar, igualmente sereno, absorvia os minutos e pensamentos de ambos. Em determinado momento, um deles interrompeu o silêncio e o fluxo do tempo:
- Esta tranqüilidade parece absurda!
O outro pescador, sem deixar-se abalar, permaneceu calado.
- Estamos aqui, confortavelmente abraçados pelo sol e pela
brisa, enquanto muitos sofrem e enfrentam conflitos...
Percebendo que o silêncio não teria muita chance de sobrevivência, o outro resolveu dialogar, porém em tom suave e equilibrado:
- Não se culpe pela beleza que a vida nos oferece. Aquiete o
coração e vivencie a plenitude...
- Mas como posso vivenciar a plenitude, se conheço as aflições
que os outros enfrentam neste mesmo instante?
- Você apenas conhece os conflitos; não os compreende em
profundidade...
- Não os compreendo? Se não os compreendesse não os estaria
considerando reais!
- A realidade que você define é o espelho da superfície...
- Então o mar também não compreende a profundidade da vida...
Veja: ele está sereno em sua superfície. O que me diz?
- Cada ser espelha o que compreende profundo.
- A superfície está serena, mas as águas profundas acolhem o
tubarão...
- As águas profundas acolhem o tubarão, assim como acolhem
as pérolas escondidas entre as duras superfícies das ostras...

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