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Airo Zamoner






Leocadita

Apressada, Leocadita atravessou a praça Zacarias, carregando suas sacolas repletas de bugigangas. Sentou-se na mureta do chafariz e escarafunchou sua bagagem em busca do sanduba que enfiara nalgum canto. Já passava das quatorze horas. O estômago, há tempo, reclamava com roncos e vazios. Não atendido, esboçava dor de advertência. Teve que parar e por que não, ali mesmo?
Assim que o pão com margarina saiu do papel de embrulho, os pombos descarados, teimosos freqüentadores da praça que há anos perderam a vergonha e o medo, vieram em bandos cercar os pés de Leocadita. Incomodou-se com as aves famintas. Incomodou-se com a inconveniência de ser observada por uma platéia intrometida, ciscando a seus pés.
Olhou em volta, mirou a refeição, sorrindo tentações implacáveis. Na primeira mordida, nem uma pequena lasca se desprendeu. Pudera! Pão amanhecido umas duas ou três vezes, viajando entre bagagens estranhas, jamais abriria mão de qualquer migalha.
Não se incomodou com o cheiro rançoso, o gosto envelhecido. Devorou tudo com sofreguidão. Respirou fundo. Fechou as sacolas. Mergulhou os olhos nas sandálias gastas e viu seus dedos encardidos. Caiu nas cavidades de uma história bispada.
Leocadita vai ser bailarina.
Leocadita vai ser professora.
Leocadita vai ser uma lady.
Leocadita vai ser modelo.
Nas profundezas de suas catacumbas, acreditava em todas as profecias. Brincava de escolher uma delas e vestia-se com os trapos da imaginação. Desfilava nos palcos, nas festas, nas passarelas. Pés delicados, cobiçados, habilidosos, admirados, perfeitos.
Leocadita vai ser sacoleira.
Leocadita vai ser uma tonta.
Leocadita vai ser mendiga.
Leocadita vai ser prostituta.
Das profundezas de suas catacumbas, olhava para aquela sandália de tiras vermelhas arranhadas; olhava para suas unhas pintadas e descascadas, de um vermelho sangue-velho; olhava para os pés de bailarina, de modelo, de lady e sentia a realidade das profecias, esmagando alguma coisa valiosa que se extraviara numa curva imperceptível de sua meninice.
Amassou o papel manchado da gordura velha; enfiou-o nas brechas da sacola; espantou os pombos atrevidos. Com as costas da mão encardida, raspou sua boca de prostituta. Levantou-se e saiu desfilando, tal qual modelo exuberante, mas baixinha, gorducha, desleixada, cômica.
Os pombos aumentaram o arrulhar gozador.
As filas dos ônibus explodiram numa gargalhada que se alastrou pela praça. Os pombos reagiram num vôo curto. Rebolando, Leocadita desapareceu em direção à Boca Maldita.

Airo Zamoner é escritor
http://www.protexto.com.br

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