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Airo Zamoner






Não sou mais presidente!

Parado a um metro da janela imperial, olhou o jardim e não entendeu porque estava lembrando do Albari. Amigo verdadeiro, aquele! Lembrou muito bem dos momentos de dificuldade lá dos velhos tempos. Quantas vezes ele deixava tudo para estar presente nas horas de tristeza e morte. Quando morreu o pai, lá estava o Albari. Quando morreu a mãe, também. Aquela briga com a namorada, como era mesmo o nome dela? Ah, Germínia! Puxa! Que nome! Sofri tanto, mas o Albari veio correndo. Largou tudo. Tudo mesmo! Estava fazendo um concurso e nem se importou. Perdeu o concurso! Que amigo, o Albari! Que paixão aquela minha pela Germínia. Agora, o Albari sumiu...
O presidente se olhava no espelho e as lembranças se espalhavam pelos cantinhos livres da memória enquanto as batidas na porta ecoavam na consciência. Há muito, mas muito tempo, aprendera a apagar a consciência. Por isso as batidas não o agitavam. Força do ofício. Aplicava essa habilidade sempre que desejava. Foi assim que passou a não ouvir mais os nervos dos assessores do outro lado da porta. Do outro lado do mundo.
Continuou a se olhar no espelho e aprofundou o olhar na turbulência vazia de seu interior. Uma vontade imensa de renunciar a tudo e viver sua vida perdida na busca da própria vida. Caminhou passos pesados e atirou o olhar janela afora. Respirou profundamente, ansiando pela liberdade largada nas frestas da ambição, a impregnar os meandros de suas conjecturas juvenis. Agora, nos píncaros do poder, a frustração o atormentava. Ao examinar sua glória, percebera seu arcabouço feito de perdas que a barganha inevitável impôs dia a dia, degrau a degrau.
No espelho, conseguiu ver a carcaça de seu corpo, tentando, em desespero, segurar uma alma extraviada, descasada de um corpo e mente desconexos, sem opções de fuga eficiente.
Sofria naquela manhã bonita de sol abundante. Novamente a janela e o olhar caindo distante. Perdido de amores buscados e contaminados. Examinou lá fora e ficou invejoso do casal que passeava de mãos dadas, acariciando sorrisos leves, na troca de olhares ingênuos, sinceros, felizes. Nada disso era mais possível. Fizera trocas. Muitas trocas.
Os amigos eram tantos, mas não eram amigos. A cada palavra, um olhar desconfiado. A cada gesto, a busca da segunda intenção. Sim, sempre é preciso desconfiar. Sempre existe a segunda intenção. É fundamental saber qual é. É preciso manter o espírito armado, pôr em guarda todas as ferramentas, e as armas, e as habilidades, e a desonestidade intrínseca do poder, para rebater à altura e preservar o escudo protetor do próximo estágio de poder. O poder traz em si mesmo a imperiosa necessidade de se auto-alimentar de mais poder. Senão, perde seus efeitos e enfraquece os poderosos.
O presidente caminha pelo quarto imenso, tentando lembrar dos amigos. Hoje, só lembrar já o conforta. Não quer lembrar desses que vivem sorrindo a seu lado, sem dar espaço, afogando-o. Quer os antigos, os autênticos. Será que teve algum amigo um dia? Amigo de verdade, era o Albari. Recusou todos os convites de partilhar o poder, aquele ingrato. Suspirou entristecido porque agora vê que o poder contamina a amizade. A amizade não convive com troca e o poder não vive sem ela. Trocas! Como aprendeu tão bem a fazer trocas! Longas negociações sempre terminando no ajuste das trocas. No ajuste das perdas. No começo não pensava nas perdas porque os ganhos sempre indicavam mais poder e era isso, apenas isso, que precisava ser feito.
Voltou para o espelho! Voltou a ouvir a ansiedade da agenda lá fora. Tantos tormentos o assaltavam naquela manhã. Tanto trabalho o aguardava. Trabalho de convencer que era competente, embora soubesse que não era. Sua competência se restringe a conquistar o poder e depois a se manter nele, custe o que custar.
Cabelos brancos. Muito brancos. Pele plissada, mal disfarçada. Como estarei lá por dentro? Pareço apodrecido aqui por fora! Que saudades da Germínia!
Enjoado com a assessoria, gritou:
– Não adianta bater mais forte! Enquanto não encontrarem o Albari, não sou mais presidente!

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