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Airo Zamoner






Luiz Lázaro traiu Poliana Volnéia

Foi na igreja que o primeiro encontro aconteceu. Poliana Volnéia ainda usava aquele véu extemporâneo de filha de Maria. Virgem recatada, mãos postas, rezava contrita, maltratando seus joelhos sedutores no genuflexório purificante. A dor física amainava desejos, enquadrava pensamentos carnais, santificava e glorificava o Criador.

Luiz Lázaro, em pé no corredor lateral, alternava seus olhares investigativos entre devoções à cruz imponente ao fundo do altar e o rosto angelical e olhar feiticeiro da jovem religiosa que mal disfarçava paixões enrustidas.

Como entender a complexidade dos sensores femininos? Eles indicavam alguma energia a dançar a seu lado, chamando por ela, implorando por ele. Não resistiu. Desviou seu nínfio olhar esverdeado, atingindo em cheio a luz azulada dos melosos olhos de Luiz Lázaro.

Foi algo lampejoidal de uma efemeridade sutil, mas gravou-se definitivamente nas áreas pouco espirituais daqueles dois. Sim, foi esse o primeiro encontro.

Das missas dominicais às novenas diárias, as chispas de olhares geraram códigos de comunicação inimagináveis entre Luiz Lázaro e Poliana Volnéia. O encontro atrás da sacristia foi acertado sem palavras e sem palavras pesquisaram-se anos sem conta.

A ansiedade de Luiz Lázaro levou-o a cometer um ato de vandalismo egocêntrico, maldosamente interesseiro, quebrando a pedradas, madrugada adentro, as parcas luzes do fundo da sacristia. Sorrateiro, preparava o ambiente para pesquisar aquele corpo saboroso que só permitia carícias de olhares rápidos, primeiro deixando cair o véu que desnudou seu rosto encabulado, depois avançando pretextos, polegada por polegada, arrepio por arrepio até chegar despudorado ao consolo dos joelhos feridos.

O mistério das luzes destruídas no longínquo despertar de suas histórias foi esquecido deslavadamente, quando Luiz Lázaro tocou a pele de Poliana Volnéia pela primeira vez. Ela se viu mergulhada num mundo estranho, diabólico, sedutor, irresistível. Não mais combateu seus apelos. Desnudou-se de seus recatos. Entregou-se devotamente aos desejos, aos sonhos, às esperanças das orgias mais pródigas.

Desgastada a fase dos olhares e toques, Luiz Lázaro, que desejava avançar muito mais, submeteu-se à vontade feminina e dedicou-se relutante às pesquisas anímicas e, ladino, sabia dizer a palavra esperada, aprofundando certezas num futuro de bonança. Intuitivo, sabia romancear calculadamente suas virtudes e desfilar os valores indestrutíveis de suas pretensas concepções. Foi o que bastou para que a avassaladora paixão da ingênua Poliana Volnéia abrisse todos os caminhos.

Nas vésperas do nascimento do primeiro rebento, a verdadeira história se desenhou abjeta. Poliana Volnéia, viu estarrecida seu amado Luiz Lázaro mostrar-se um vândalo, revelando como se livrara das luzes da sacristia e mostrando que seus princípios navegavam sob as ordens fortuitas do vento.

Deslumbrado por exibir-se ao lado da mais linda jovem do país, seu companheiro esqueceu-se das promessas feitas nas alcovas improvisadas, e revelou-se por inteiro um folgazão arredio aos estudos, adepto das noitadas intermináveis, dos amigos interesseiros, da preguiça irresponsável, provocando o choro convulsivo da companheira.

Poliana Volnéia se derreteu em lamúrias, assistindo Luiz Lázaro desfilar o esbanjamento de seus favores femininos, negando um a um seus sagrados princípios, na verdade nem sagrados, nem princípios, apenas um conjunto de engodos armados ardilosamente para obter a posse e depois se deliciar nas curvas do corpo voluptuoso de Poliana Volnéia, irremediavelmente traída.

Daquele dia em diante, o casal sofreu as maledicências de muitos, que impuseram a eles, apelidos fáceis, montados na justaposição de cada uma das sílabas iniciais de seus inusitados nomes.

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