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Ilza Maria Saldanha Ribeiro






Menino Misterioso

Carolina já não sabia mais o que fazer. Seu dia a dia era uma loucura! Viúva, mãe de Júlio e Juliana. Trabalhava oito horas por dia em uma fábrica de papel para sustentar a família. Em consequência de seu falecido esposo não ser empregado antes de morrer, é claro, não recebia nenhuma contribuição financeira de sua parte. Ainda pequenas, as crianças ficavam com uma vizinha, uma senhora muito boa que se prontificou a ajudar Carolina. Tudo ia bem. A distância da casa da jovem mãe à fábrica era favorável para que ela almoçasse com as crianças e voltasse para o trabalho. Então, Carolina trabalhava diariamente, à noite cuidava dos afazeres domésticos: a faxina, o almoço e o jantar. Seu único lazer era assistir um pouco de TV antes dormir. Ficava ansiosa pela chegada do final de semana para descansar e passar o dia com os filhos. Júlio tinha apenas cinco anos de idade quando sua mãe percebeu algo estranho em seu comportamento. Como a família morava em uma cidade do interior, a casa tinha um quintal grande com muitas bananeiras e outras plantas. Júlio que gostava de ficar em frente à TV assistindo desenho animado, não se encontrava na sala, não tinha mais o mesmo interesse. Sua mãe procurou em todos os cômodos da casa, porém não o encontrou. Foi procurá-lo no quintal, quintal era bastante  grande. Muito grande! Ela o chamou várias vezes.
___Júlio!Júlio...!
Depois de muito tempo, a criança respondeu com uma voz bem fraquinha, que parecia virde muito longe:
___ Tô aqui mamãe!
A mãe preocupada procurou por todo quintal, até o encontrou deitado, com a cabeça apoiada nos braços, embaixo de uma torcera de bananeira, de olhos arregalados, olhando para o céu. Ela disse:
___ Filho o que você está fazendo aí, deitado embaixo dessas bananeiras? É perigoso menino! Vamos para casa. È hora de dormir!
Ogaroto olhou para a mãe como quem estivesse embriagado e disse:
___Mamãe, me deixe ficar mais um pouquinho! Aqui tá tão bom! Só um pouquinho, só um pouquinho, deixa mamãe, vai!!!
Carolina não entendia porque seu filho, de apenas cinco anos de idade, insistia para que ela o deixasse ali naquele lugar, onde só havia pés de bananeiras, e falou em voz alta:
___Ah meu Deus! O que há agora? Despreocupei-me por tê-lo encontrado, mas por outro lado acho estranho o comportamento de Júlio.Em seguida fez de conta que concordou com o garoto e disfarçadamente afastou-se, pôr-se de longe, sem que o menino percebesse, a espiar seus movimentos, o que ele fazia ali e se havia alguém por perto. E nada! Era impressionante! O  rapazinho continuava deitado olhando para o céu até que adormeceu. Ela o pegou no colo, levou para casa, com muito pelejar deu banho e colocou na cama. Dormiu como um anjo! No dia seguinte ele acordou bem, fez suas atividades, normalmente, como nos dias anteriores.
À noite no mesmo horário sentiram falta de Júlio em casa. Carolina foi à sua procura no mesmo lugar de antes e não o encontrou. Começou a chamar:
___ Júlio é hora de dormir, venha para casa!
O garoto não respondia.
___Júlio venha tomar banho para dormir, menino! Eu sei que você está se escondendo, por favor, filho! Eu preciso acordar cedo para trabalhar. Apareça!
Nada! O pequeno não dava sinal de vida. Carolina fica desesperada, ainda mais depois de saber sobre o corpo de uma criança encontrada em um matagal próximo à sua casa, e o desaparecimento de outras crianças na cidade, através de um jornal da TV.
Sua filha Juliana entra e diz:
___Mamãe Júlio tá dormindo lá na calçada. Ele tá lá de papo pro ar, roncando feito um porquinho. Ele é mesmo um anjinho, mas só dormindo, porque, acordado é um pestinha!
Aliviada, a mãe do garoto dá uma risada, vai à calçada e vê seu filho dormindo sozinho na mesma posição que ela o encontrou embaixo da torceira de bananeira. Ela respira fundo, apanha o filho  e leva para o quarto. E diz:
___ Será que esta criança não ficou com medo de ficar sozinho embaixo daquelas bananeiras?É estranho. Um garoto de cinco anos...
Todo o dia à noite, às vezes fazendo frio, Carolina encontrava seu garoto fora de casa, no meio do tempo, e, quando ele não estava dormindo, estava de olhos bem abertos olhando o céu. Perguntava ao menino o que ele fazia ali, ele respondia simplesmente, que era bom.
Em uma bela noite de lua, a claridade mostrava uma linda paisagem que envolvia não apenas as bananeiras como também as laranjeiras do quintal, estava o menino a declamar:
___ Oh lua! Um dia serei seu e você será minha. Vou subir num foguete como o Apollo 11 e dentro de você vou tomar sorvete. Mamãe falou que você é a dama mais linda da noite. As nuvens passam por você. Se eu fosse uma nuvem, abraçaria você, sabia? Não vá embora! Não deixe de aparecer!!! Eu amo você.
A mãe que no dia seguinte iria levar o filho ao psicólogo, ao ouvir aquelas palavras proferidas pelo filho, sentiu-se atônita ao perceber sua sensibilidade.Carolina sentiu-se como se tivesse tirado um grande fardo de suas costa ao descobrir o mistério das saídas de seu pequeno Júlio à noite.

Ilza Saldanha


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