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Airo Zamoner






CARDÁPIO DE GARIMPEIRO

– Por que esta cara de preocupado?
– Ora essa! Você não desconfia?
– Nem um pouco! Qual é, cara?
– É que...
– Desembucha de uma vez... O que houve?
– É que está chegando o momento de nos travestirmos outra vez de garimpeiros. E isto sempre me preocupa.
– Por quê?
– Nunca encontramos a pepita certa!
– Tenho que ser repetitivo. Por quê?
– Ora! Porque, ou estão muito escondidas, ou não existem.
– Se não existem, nós fazemos o papel de idiotas...
– Agora você está entendendo minha preocupação.
– Talvez devêssemos usar uma lanterna...
– Em pleno dia?
– Sim. Por que não?
– Imitar Diógenes? De jeito nenhum!
– De que ferramentas dispomos, então?
– Deixe ver... serra...
– É! Pode servir pra alguma coisa... Mas, vamos ter que serrar pedras...
– É elétrica? Eu não ando com muita resistência pra fazer força...
– Se não for elétrica, a gente pega o primeiro garotinho que passar. Geralmente eles são malhados e podem servir...
– Pode dar cadeia...
– Como assim?
– Trabalho escravo e ainda infantil...
– É mesmo! Que mais temos?
– Bem, pode ser que na hora da garimpagem surjam nuvens brancas, tênues...
– Cirros? Sim, pode ser. Em formato de gomos?
– E interessa o formato, ora essa!
– Não!
– Além do mais precisamos de ferramentas...
– É verdade! O que interessa é outra coisa!
– Será que Diógenes tinha razão?
– Sobre o quê?
– Procurar os honestos com lanterna em pleno dia?
– É melhor voltarmos para as pepitas...
– Bem já temos alguma coisa: serra, cirros...
– Alguém pra manobrar a serra...
– Só ser for adulto. Não quero saber de cadeia!
– É mesmo! Agora estou como você... Que saco!
– Preocupado, não é?
– Não quero mais pensar nisso!
– Mas vamos ter que enfrentar... Tá chegando a hora!
– Preocupação me dá fome...
– O que temos pro almoço?
– Almoço? Não tenho boas notícias...
– Não vai dizer que é risoto de lula outra vez!


Airo Zamoner é escritor
airo@cepede.com.br

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