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Marilena Orsoni






MAGISTÉRIO: PROFISSÃO OU SACERDÓCIO?

Aquele não era um trabalho de conclusão de curso. Tampouco, uma retomada da bibliografia trabalhada em sala de aula. Era um desabafo de Francine. Um depoimento de uma professora com quase duas décadas de vivência na docência. Uma professora confusa, desestimulada, e desesperançosa.

Francine, após concluir seu curso de Jornalismo, numa das mais renomadas universidades do Estado de São Paulo - foi trabalhar na área - embora sua grande vocação de vida fosse História.

Após o nascimento de sua primeira filha (e sem marido, lar ou qualquer estrutura de sustentação), decidiu prestar FUVEST e realizar seu grande sonho: Encarar uma Faculdade de História. Prestou e passou (embora estivesse sofrendo uma grande pressão por parte de seus familiares que sonhava em vê-la trabalhando com comunicação, ou então, na área de Medicina – sonho de avô materno - Não se intimidou com as críticas e iniciou o curso que era seu sonho.

Foram tempos muito difíceis para essa jovem que morava muito longe da Universidade e, raramente conseguia ficar até o fim da aula - geralmente pedia dispensa antes do término das aulas. O primeiro ano se passou e, ela continuava firme em seus propósitos.

No segundo ano da faculdade, por ter apresentado um excelente trabalho, foi convidada a fazer iniciação científica pelo CNPq – “Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico”. Ficou trabalhando nesse departamento até o terceiro ano, apesar de que, o que mais queria era poder dar aulas.

Mandou vários currículos para várias escolas e, na mesma semana, foi chamada por uma das escolas, na zona sul da capital de São Paulo. As aulas eram de História, em um curso de suplência. Foi uma grande experiência para ela.

A primeira vez que entrou numa sala de aula, como professora, foi surpreendente. Foi contratada pela escola, para substituir um dos professores que estava deixando as aulas. Assim que chegou à escola, a diretora pediu que entrasse no 3º ano e cobrisse a falta de um professor.

Imagina só: 60 alunos, adultos, e eu aqui, sem ter a mínima idéia do que fazer. Dizia ela, para ela mesmo.

Aquela turma estava estudando getulismo e, ela, não sabia nada sobre aquele assunto. Mas, Francine não deixou transparecer sua ignorância sobre aquele assunto. Os alunos tinham um questionário para estudar – dado pelo antigo professor de História – e pediram ajuda na resolução das questões. Não foi muito fácil a experiência, mas ela conseguiu passar pelo teste.

Logo nos primeiros meses, começou a se diferenciar do restante dos docentes do colégio: seus métodos eram pouco ortodoxo. Sua relação com os alunos era ótima e cada vez mais o gosto por dar aula ia aumentando. Para se ter uma idéia, a filha da diretora que estudava num dos mais caras colégios do Estado de São Paulo, ia exclusivamente naquele colégio para assistir suas aulas.

“Não existe professora como a senhora, professora Francine”. Era o que mais ouvia por parte de seus alunos. Ela nunca enxergou os alunos da suplência como incapazes (discurso da maioria dos professores da área), muito pelo contrário: suas avaliações tinham por volta de 6 páginas. Suas aulas eram puxadas e exigiam muita atenção. Ela enchia a lousa várias vezes, levava filmes, fazia excursões e etc.

Seus alunos gostavam tanto de suas aulas de História que os turnos nas fábricas onde trabalhavam (boa parte deles vinha de convênios entre empresas e a escola) eram determinados pelos dias que os alunos tinham aula com Franchini, para que ninguém precisasse faltar.

Apesar de sua competência e destaque, ganhava pouco, pouco mesmo. Por 20 horas/aula ela não tirava nem R$ 400,00, já que não existia piso salarial para professores de suplência. Muitas vezes, ela caminhava para não gastar o dinheiro da condução. Dobrou a carga horária no colégio, e isso começou a complicar seus estudos na universidade. Já não conseguia fazer as matéria que precisava e a licenciatura ficou para depois. Francine foi obrigada ficar nesta escola por 5 longos dias. Mas, sentirá saudades daquele tempo tão marcante em sua carreira de professora.

No ano que se formou na universidade, decidiu procurar outra escola para lecionar. Já não dava mais para viver dando somente quarenta/horas/aula e recebendo menos de R$ 800,00. Conseguiu aulas em duas escolas de ensino regular e lá foi ela. Ali começaram seus grandes problemas, desta vez, de saúde e graves.

Nesta ocasião, já casada, ela e seu marido encontravam-se desempregados. Francine nem poderia pensar em largar uma das duas escolas e fazer a licenciatura.

Em uma das escolas sua carga horária era de 20horas/aula. Uma escola não muito grande, particular, mas de classe média baixa. O número máximo de alunos por sala era de 25, o que possibilitava um ótimo trabalho. O coordenador pedagógico era um professor de matemática e mantinha aquela escola com um rígido código disciplinar. Em dois anos que Francine trabalhou lá, se viu esse homem sorrir duas vezes foi muito.E com esta mesma austeridade ele tratava os alunos. Chilique de aluno ou chilique de pai e mãe não tinham vez ali. Pais descontentes eram convidados a retirar seus filhos do colégio. Expulsão de classe, advertência, eram procedimentos totalmente apoiados pela direção escola. A meninada sabia que naquele ambiente não tinha folga. Resultado? Que alunos Francine encontrou ali? Os melhores, mais interessados, mais gentis, com mais caráter que ela jamais achou que pudesse existir. Educados, participativos: em alguns momentos eram tantos a querer participar da aula que Francine muitas vezes se sentia até perdida. Eles liam (por vontade própria) os conteúdos antes da aula, traziam material de Internet e biblioteca, emprenhavam-se como malucos em trabalhos. Em palavras, é impossível descrever o que aquela criançada era. Abriram comunidades no Orkut para sua professora e, no dia que Franchini comunicou a seus alunos que precisava sair da escola por que seu marido havia conseguido um bom emprego numa cidade do interior de São Paulo, teve alunos que ficaram doentes e teve caso até de hospitalização.

Além disso, fizeram uma festa para ela, na quadra do colégio. Os pais compareceram e foi um dia que Francine jamais esquecerá.

Isso não quer dizer que Francine não tivesse tido problemas naquela escola, teve sim. Mas quando havia problema com algum aluno, a direção do colégio não hesitava em tomar as atitudes cabíveis. Não importava muito quem tinha culpa. A cultura neste colégio era: Não enfrente seu professor, mesmo que você tenha razão. Converse com ele e com a direção. E num diálogo e fora da situação, resolveremos. E funcionava? Sim. A despeito de toda teorização possível, sim. Apesar dos alunos serem extremamente críticos: quando não estavam satisfeitos com um professor, não manifestavam isso com indisciplina. Eles conversavam, argumentavam e, se tivessem mesmo razão, eram entendidos.

A outra escola era bastante diferente. Salas com 34, 45 alunos de classe média alta. Uma mensalidade caríssima, estruturada pedagógica completa ( l computador por aluno, data show, TV e vídeo em cada sala de aula, espaço de projeção de cinema, biblioteca completíssima e sempre aberta). Professores formados nas melhores universidades, muitos com mestrado e doutorado. Poderíamos dizer que se tratava quase de um colégio de aplicação. Mas como eram as aulas e os alunos? Para Franchini, os alunos da suplência tinham melhores aulas. Os professores se sentiam desmotivados e até apavorados, uma vez que eram tratados pelos alunos como seus empregados. Fenômenos de indisciplina e violência eram normais, quase corriqueiros. Naquele colégio acontecia de tudo. Das normais pichações, até colocação de bombas em banheiro (igual ao que acontece em escolas públicas) arremesso de carteira pelas janelas, confrontos físicos entre alunos, bate-boca, brigas, discussões, gritaria. E etc. Todo o estereótipo da escola pública poderia ser visto ali. Aluno que saia da sala para reclamar de professor, e o professor era chamado atenção na frente da sala inteira. Não era difícil o professor ser obrigado a pedir desculpas a um aluno por ter alterado a voz com ele. Com Francine não foi diferente. Várias vezes, se viu em situações idênticas. A rotatividade de professores ali era grande, e os pedidos de afastamentos também.

Francine permaneceu naquele colégio por volta de 2 anos. Durante sua permanência ali, teve de socorrer professor com hemorragia estomacal dentro de sala de aula. Outra professora teve um AVC numa discussão com um aluno. O carro de seu marido foi riscado e amassado. Sua filha foi ameaçada de sequestro e morte. Muitos foram os reflexos em sua saúde: 40 quilos adquiridos, pressão alta, síndrome do pânico. Corria para debaixo da cama quando passava um avião. Foi um verdadeiro caos. Depois de todos esses incidentes, Francine teve de passar por tratamento psiquiátrico .

Por mais incrível que possa parecer, com o trabalho desenvolvido com aqueles mesmo alunos que quase levaram-na à loucura, a medida que o tempo foi passando, os mesmos acabaram se tornar seus fãs e amigos. Quando ela deixou aquele colégio, os alunos fizeram uma grande festa e até um vídeo com depoimentos sobre ela eles lhe deram de presente e recordação.

Mas que preço ela pagou? Quem devolverá sua saúde? Ninguém. Tomará remédios pelo resto de sua vida, diariamente. Hoje, quando vai àquela região, em São Paulo, desvia o caminho para não passar em frente daquela escola.

Para Francine completar seu curso de licenciatura não foi muito fácil. Ela não aceitava certas idéias propagadas lá, pois sabe o que é passar na pele os resultados delas. Não aceitava quando era ensinada a compreender a indisciplina como uma reação negativa ao trabalho do professor. Não aceitava a tese de que o foco deva ser deslocado ( acreditava que todas as partes são igualmente importantes). Acreditava que punições são (infelizmente) necessárias. E diz mais: Não trabalhará nunca mais onde alunos dão as ordens.

Hoje em dia, se quiser, Francine pode até escolher onde quer dar aula. Mas fica pensando naqueles pobres professores que, como ela um dia, precisam sobreviver de qualquer forma, e acabam aceitando situações de trabalho terríveis, quase sub-humanos.

Se lhe perguntarem: Como esse curso de licenciatura contribuiu para sua formação? Francine diz que a resposta é muito difícil. Sente-se hoje mais confusa do que quando entrou, até solitária. As vezes chega a pensar que ela deve ser uma espécie de maluca que não enxerga a realidade; outras, sente-se revoltada, querendo mudar as coisas, as situações,e usar suas experiências para resgatar o valor do professor e da escola.

Francine tem sua opinião formada a respeito do que ocorre dentro dos recintos de ensinos públicos ou privados: “Os teóricos da educação e os professores que trabalham com a formação, deveriam ter a consciência de que suas idéias possuem uma ressonância enorme na escola. E deveriam colocar os pés nas escolas e ver o resultado que essas idéias têm lá e não somente saberem o que acontece por lá através dos relatórios de estágios. Ou então, através da ação mediadora de pós-graduandos impregnados por essas mesmas idéias. Franchini não vê solução.

Talvez um dia Francine consiga seus objetivos ou então, abandona de vez sua profissão, e abra uma loja, ou arruma um emprego qualquer, bem longe de uma escola. Não se enquadra mais nessa nova escola”.

Quem não morre, abandona ou se resigna. É assim que pensa hoje em dia, Francine.-


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