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Valéria Luciane Okano Halila






BRAÇOS CRUZADOS

– Vovó! Tem um moço aí na frente, procurando a senhora!
– O que o bastardo quer? Diga pra sua mãe resolver.
– É só com a senhora.
– Malditos vendedores! Não se pode dormir em paz!
– Dona Claudete?
– Quem é?
– Meu nome é Rui. Acabo de comprar a propriedade ao lado e gostaria da sua ajuda. Disseram que trabalhou no prédio por muitos anos.
– E daí? O dono é você, não eu.
– Por favor. É assunto delicado...
– Posso ao menos vestir meus chinelos, ou vai me arrastar descalça?
Em cinco minutos estavam dentro do que havia sido o lar de alcoólatras, viciados e dementes. O lugar estava de pernas para o ar. A mulher foi levada entre os corredores de paredes acinzentadas até uma pequena salinha. Lá estava. Um esqueleto recostado à parede, do lado oposto à porta. Ao vislumbrá-lo, a mulher parou de resmungar e deixou seu rosto chupado transparecer certa comoção. O silêncio logo foi dissipado. Sua língua entrou em turbulência:
– Moleque safado!
– Conhece? – perguntou o acompanhante.
– Esse aí é bicho ruim! É seu Luizinho, filho do patrão. – resmungou a velha – Dá pra ver pelos braços cruzados. Mora aqui desde que a vaca da mãe fugiu com o vizinho. Bem que avisei seu Chico pra não casar com a cretina. Era muito nova pra ele. Um homem tão bom! Não merecia! Sem ter onde enfiá-lo, trazia o guri pro hospício. Enquanto trabalhava, o menino fazia arte. Corria com cadeiras de rodas. Enchia-se de ataduras. Trocava os comprimidos dos pacientes. Pior, achou as camisas de força. Não tinha quem pegasse! Usou tanto aquele troço, tirou, esqueceu de mexer os braços. Ficou assim, torto. Eu falava pra ele: pare de firula. Dava as costas. Escola, só noutra encarnação. Tentei ensinar as letras. Dizia nada aprender por não conseguir segurar o lápis. Seu Chico era tão estressado, coitado. Nós, enfermeiras, tínhamos que criar o pestinha. Já marmanjo, nada fazia sozinho. Dávamos comida na boca e até banho. Quando virou rapazote, só queria as moçoilas lavando suas partes. Pra Claudete sobrava limpar essa bunda! O asno não se mexia nem no banheiro. Vivia com os doentes. Pensei ter melhorado ao chegar a tal Ana. Moça nova, bêbada. Judiação! Gritava tanto. Passou dias amarrada na cama. Luizinho a deixava calminha. Parecia estar cheia de Valium. Gostou dela também. Primeiro, falavam muito e nos davam sossego. Depois, ao ficarem quietos, tinha de arrancá-la aos berros do colo do maldito. Sem vergonha! Mesmo com as coisas pra fora, dizia não ter culpa. Permanecia imóvel na sua condição. Durou pouco. O desaforado largou a menina sem lhe dar um abraço... Sequer estendeu-lhe a mão.
– Como faleceu? – interrogou Rui afobado.
A negra prosseguiu de cara feia:
– Assim que seu Francisco morreu, Deus o tenha, isso virou um inferno. Até a ex, alegando jamais ter se divorciado, voltou pra reclamar as posses. O descendente não estava incluído no pacote. Pedi minhas contas. Era tempo de me aposentar. Tentei levar o patrãozinho comigo. Recusava-se a sair do hospital. Dizia não alcançar a maçaneta. Brigaram tanto pelo dinheiro! Ninguém administrava essa pocilga! Tudo parou. Chutaram os enfermos. Alguns se suicidaram pra não voltar pra casa. Depois disso ninguém queria esse muquifo. Diziam ser mal assombrado. Deve ter pagado uma titica.
– E Luiz? – perguntou o homem impaciente.
– Ah! No meio da confusão devem ter esquecido de abrir a porta, ele ficou. - gemeu amarga.
– Vou dar-lhe um enterro decente. Deixá-lo repousar no Cemitério Municipal – reinou o abutre temeroso. Caso a história vazasse, o shopping, tão sonhado, ia naufragar antes mesmo de vislumbrar o horizonte.
– Pode saber. Em cemitério não fica! Se tentar levá-lo, volta e faz estrago. – decretou a bruxa.
Foi enterrado no futuro estacionamento.


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