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MARCOS DAVID BITTENCOURT LEAL






CADAVER SALGADO

Cadáver Salgado
 
 
 
 
 
     Sete de Setembro, que dia admirável!
 Passei toda a manhã na varanda da minha casa a contemplar o tempo, vê ás pessoas que passavam e assistir a morte lenta e preguiçosa do inverno. Gosto desta região porque aqui vivem as minhas raízes, aqui se encontra meu passado, passado que liga um homem á terra onde nasceu e moram seus ancestrais.
    E muitas vezes numa dessas viagens surgem fatos interessantes que nos obrigam a registrá-los circunstancialmente.
Já por volta do meio dia começa repentinamente uma chuva fina e continuada. E á procura de abrigo encostam-se algumas pessoas ao beiral da varanda.
 

  • Entrem, por favor !

Relutaram, porém com o aumento do temporal, aceitaram.
A chuva tornou-se ainda mais intensa, forçando-os há permanecer mais tempo. E nesta permanência um senhor simpático dirige-se a outro ainda mais velho.
 

  • Você sabe a história do fio de Abelardo?
  • Não o que foi?
  • Então não sabe dos parentes dele que mora pras banda do ribeirão? 
  • Sei não.

    Responde dolentimente, com o olhar pregado nas goteiras que desce do telhado  respingando na calçada.
   A minha curiosidade era tanta que me irritou o desinteresse do interpelado pelo desfecho dos fatos, porém para a minha alegria o senhor que começou a conversa continuou:
 

  • Pois é um tio dele trabalhava lá pra aqueles lados. Ele vinha há muito tempo com problemas de saúde, melhorava voltava ao trabalho, depois de algum tempo caia de novo doente e foi assim esta labuta por mais de ano, inté que veio a morrer, você sabe né, quem vive da diária do campo só ganha pra comer.

    Balancei a cabeça afirmativamente.
 

  • Então com a morte dele a família coitada não tinha dinheiro nem para comprar o caixão.

“- Meu Deus o que vou fazer?”
    Desabafa em prantos a esposa ao pé da cama junto do falecido.
    Deu uma pausa. Pediu licença para acender um cigarro, que concordei imediatamente aguardando o desfecho da história. Enrolou seu cigarro, acendeu calmamente sem dá uma palavra. Soltou algumas baforadas para o ar.
 

  • Oia vosmecê  num sabe, num tem coisa pior no mundo qui nem gente pobre.
  • Ë`...

 Afirmei.
 

  • Bom, vio modesto, então diante da situação com o irmão de Abelardo morto dentro de casa, sua mulé sem dinheiro para resolver ás coisas, ela resolveu ir até a Cidade á procura do prefeito.
  • E ela foi.

    Depois de tanta apatia Modesto resolve entrar na conversa.
 

  • Inhô sim foi, e num sabe o sinhô, na prefeitura cheia de gente, dizem que tinha inté
  •  Político da capitá.

    Ela entrou pediu para falar com o dito cujo. Ele atendeu na porta do gabinete.
Então ela falou:
“- Seu Prefeito, meu marido acaba de morrer, não tenho condições de fazer o enterro, vim aqui mode o sinhô me ajudar.”
    Ele sem dá muita importância á necessitada, disse:
“- Olha minha Senhora infelizmente a prefeitura está sem verbas para lhe  atender , volte a semana que vem e veremos o que pode ser feito.”
“- Mas, vortar pra semana como...
    Ele não esperou a conclusão e o argumento dela.
“- Infelizmente Senhora.
    Virou ás costas  para conduzir ao interior do gabinete algumas pessoas que estavam na recepção.
    Desolada ela ficou só no salão.
 
E Voltando-se para mim falou soltando fumaça pela boca.
 

  • Já viu moço como são os políticos, antes prometem tudo, depois viram ás costas.
  • É... E o que ela fez?

    Perguntei já totalmente envolvido no assunto.
 

  • Nem queira saber o Sinhô, ela voltou a bater na porta. Ele abriu...

“- A Senhora de novo?”
    Enxugando ás lágrimas com o dorso da mão ossuda, olhou em seus olhos  e falou:
“- Já qui o sinhô não tem como me atender, me dá ao menos dez real.”
    O prefeito franziu a testa.
“- Dez reais, a Senhora antes queria o funeral do seu marido - agora só quer dez reais?
“– E seu prefeito, dez real para poder comprar sal.
“- Sal, não entendi, mas pra que a senhora quer tanto sal?
    Perguntou o prefeito curioso.
“- É mode eu salgar o cadáver para quando o sinhor  puder dar o dinheiro do caixão.
 


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