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Renato Prado






VIAGEM AO HUMOR

 

Quando entrei naquele ônibus a caminho do centro da cidade, não podia imaginar a grande viagem ao mundo do humor que estaria a caminho. 

Entrei e não consegui nem me sentar, pois, o bus estava praticamente lotado, com várias pessoas de pé.  O amigo leitor deve saber que ônibus em grandes cidades estão sempre lotados e com um cheirinho muitas vezes não muito agradável. Em muitos deles as pessoas estão de caras amarradas e com grande; imensa vontade de chegar a suas casas. Impossível saber como foi o dia de cada um até a entrada no “bus”. Muitos trabalharam bastante e estão, agora, indo para casa descansar, pensando em como se livrar daquele chefe mal humorado e sacana. Outros; estão se separando de suas esposas; perderam a casa ou o emprego; alguns nem casa tendo dormem pela rua mesmo e contribuem bastante para aquele cheirinho, no ônibus, que mencionei; são chefes de famílias; garotos; estudantes; bandidos; amigos e inimigos. Todos ali. Sentados em seus bancos ou amassados na multidão. Bom! Mas vamos aos detalhes desta aventura:

  Tratei logo de me segurar a um pequeno espaço na barra de ferro na parte superior do “busão”, depois de pagar a passagem.  - Vale lembrar que a barra estava um pouco melada de suor de mãos. 

              Até o centro seriam uns trinta minutos. Os dez primeiros foram sem maiores acontecimentos e mudos. La pêlos vinte e poucos minutos de “viagem” começou toda a historia, com um senhor de chapéu marro me pedindo auxilio:

-         Este ônibus pára dentro do terminal central?

-         Ele pára na porta do terminal II e passa enfrente ao terminal central!

-         Eu preciso ir para o outro terminal! Que pena! Eles mudaram a rota de todos esses ônibus daqui da cidade. Ta uma enorme bagunça! Vou Ter que andar um bocado a pé!

-         É verdade! Ninguém entende mais nada. Eu mesmo outro dia me confundi também.

-         Moro aqui nesta cidade há 20 anos. Mas me mudei de bairro há pouco tempo. E esses ônibus agora, meu deus, tá uma loucura só. Mas tudo bem, gente mal informada tem que apanha mesmo. – disse ele olhando para o lado.

-         Isso acontece! – tentei aliviar o clima.

Paramos no mesmo ponto e descemos cada um para o seu lado.

Depois de fazer meus afazeres na cidade fui ate o terminal para pegar um ônibus que me levaria de volta para casa. Ao adentrar o terminal e parar no local de pegar o bus, Para minha agradável e imprevisível surpresa, dou de cara com o mesmo senhor, com seu chapéu marrom e envolto de várias sacolas de compras e boletos de contas pagas.

E ele foi logo dizendo:

-         Meu jovem me lembrei de você! Você é você mesmo NE? - Balancei a cabeça em sinal de concordância.

-         Bom! Agora o 1.21 me leva de volta para casa! E você também vai nele?

-         Sim! Esse é o que me leva também – respondei já imaginando o que aconteceria adiante.

-         Você viu meu filho, a guerra entre os camelôs e as lojas que tá tendo no centro da cidade? – ele me perguntou com simplicidade e simpatia.

-         Sim! Que confusão dos diabos! Há espaço para todos. Mas eles só querem para si próprios. Por isso essa confusão toda.

-         É uma briga idiota!

-         É verdade! – concordei.

O ônibus chega e eu entrei. Desta vez consegui um bom lugar para sentar e sobrou ate espaço para outra pessoa sentar ao lado se quisesse. – Ele deve se sentar aqui pensei comigo!

Não deu outra. Em menos de um minuto lá estava o senhor ao meu lado com suas sacolas e chapéu marrom. E começou, com espontaneidade e voz alta:

-         Rapaz! Voltei com minha ex. namorada! A “veinha” é demais! Trabalhei muitos anos como mestre de obras. Deus que me livre. É um serviço que mata! Agora quero é monta um barzinho para mim. Ela disse que vai me ajudar. A “veinha” é demais cara – dizia dando risada e esbanjando felicidade.

-         Legal! Mas o senhor vai se estressa muito com bar, não acha?

-         “Quê nada” rapaz! Eu já tive bar antes. Sei lidar com bêbado. Cliente ruim não volta mais no meu bar não. Deus ajuda! Sei como se faz!

 

O ônibus continuava seu caminho e o velho continuava seu agradável e divertido assunto aos berros próximo a minha orelha esquerda. Suas palavras exalavam por todo o “busão” e se estourava em meu ouvido. Algumas garotas que estavam perto se divertiam ouvindo a prosa. Onde só havia praticamente uma pessoa falando, sem dar tempo para maiores comentários.

-         Como é mesmo seu nome, meu filho? – quando eu ia abrindo a boca para dizer, ele entrava de sola atropelando qualquer palavra que ainda estava na minha garganta.

-         Então bicho! Eu tenho que da valor naquela “veia” cara. Ela me perdôo e tá me ajudando demais. Não posso sacanear desta vez. – mais uma tentativa de abrir minha boca.  – Escuta! E ela ainda tá cheia de amor para da- dizia ele “aos berros” e dando gargalhadas. – Ta vendo estas contas aqui? Então! Eu fui à cidade pagar para ela! Eu to meio velho mais ainda do no coro! O filho dela não sei o que ta achando disso não mas eu conquisto o garoto. A “veinha” eu já conquistei. Ela já disse que me ama. Que nunca me esqueceu. (Risos)...  Já tive muitos problemas. Mas agora, “puta que pariu”, tá indo tudo uma beleza! Eu adoro essa vida! A “veinha é demais”. Vou monta um barzinho! Na boa! (risos)...

Vendo aquela Sena acontecer ali ao meu lado. Não pude deixar de pensar em como o amor muda e deixa as pessoas felizes. Não importa raça, idade ou qualquer outra coisa! Com Amor não há timidez e nem medo de se expor ao ridículo, próximo a quem que quer seja!

O ônibus se aproximava de onde eu desceria e ele continuava eufórico. Como se me conhecesse há mil anos. Como se todos ali naquele ônibus fossem de sua família. 

O meu ponto chega. Agradeci a companhia dele com palavras e sorrisos e desci do ônibus pensando que isso daria um belo conto.


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