Vicência Jaguaribe






De predador a protetor

Recebi de um amigo um clipe em que um leopardo surpreende e mata um babuíno. Era um predador em ação, que atendia aos apelos dos instintos e da espécie. O babuíno era a caça que naquele momento atendia as necessidades do caçador. Era o mais fraco que se deixava aprisionar pelo mais forte. Era a lei da selva. Era a lei da vida – vence o mais forte: Ao vencedor, as batatas, nas palavras do mestre.Morta a presa, o predador transporta-a a um lugar seguro, onde possa saboreá-la sem dividi-la. Mas eis que, chegando ao local do banquete, o leopardo vê, desprendendo-se do espesso pelo do animal morto, onde até aquele momento estivera protegido e invisível, um filhote de babuíno. Naturalmente assustado ou, pelo menos, surpreso, o leopardo abandona a caça morta e volta-se para o pequeno animal. Mas, surpreendentemente, não o ameaça, não o ataca. Aproxima-se dele e tenta conquistá-lo. Age como uma mãe. Leva-o a um lugar seguro e fica de vigília. Mas o animalzinho é esquivo e não quer papo com o predador. Em determinado momento, tenta fugir e fica em perigo, quase escorregando de um galho alto. O leopardo segura-se em um galho mais baixo e luta para resgatar o pequeno babuíno, puxando-o pelo rabo. Finalmente consegue pôr o bichinho em lugar seguro e deita-se a seu lado. Na noite fria, o babuíno deixa-se aquecer pelo calor daquele predador de coração materno. E os dois – predador e presa – dormem juntinhos, como se fossem mãe e filho.Parece história de carochinha, mas não é. Também não é a primeira vez que se ouve história de animais que protegem bebês de outra espécie. Lembro-me, neste momento, de pelo menos três: a loba que acolheu, protegeu e criou Rômulo e Remo, os lendários irmãos gêmeos que teriam fundado a Cidade Eterna, Roma. O casal de macacos ou uma fêmea, não sei bem, que salvou da morte certa um pequeno lorde inglês, e o criou como se fosse um de sua espécie – Tarzan, personagem de ficção criado por Edgar Rice Burroughs. E, finalmente, Mowgli, o menino indiano, criação de Rudyard Kipling, que, perdido na floresta, foi encontrado e criado por uma família de lobos. Fica claro, acho, que as lendas modernas de crianças criadas e protegidas por animais foram inspiradas na lenda romana de Rômulo e Remo.Mas a história que inicia este texto não é lenda. Quem quiser pode vê-la em um clipe. Bem, pelo menos acho que não é montagem. E essa historinha ilustra muito bem o instinto materno, que pode ser despertado não só nos seres humanos, mas também nos animais. E mais: que esse instinto não está necessariamente relacionado com a genética. Quero dizer: podemos amar como filho uma criança que não foi gerada por nós, que não tem nosso sangue. O amor nada tem a ver com a genética, ou pelo menos não obrigatoriamente.Quando vi o clipe que mostra o encontro do leopardo com o pequeno babuíno, lembrei-me de que escrevera, às vésperas do dia das mães, um texto intitulado Uma homenagem às especialíssimas mães dos filhos dos outros, onde teço louvores às mulheres que adotam e amam crianças que não foram geradas em seu útero e que, portanto, não têm seu sangue. Centralizo a homenagem na senhora Gercila Rodrigues Vieira, que dedicou sua vida a essa missão.Para mim, não há ação mais humana, mais engrandecedora nem mais merecedora de louvores do que a de adotar uma criança. Mas adotar e amá-la como se filho fosse. E não é toda mulher que consegue essa façanha. Em algumas fica sempre o ranço, o desgosto por não ter gerado um filho de seu próprio sangue. Mas, graças a Deus, temos muitas Gercilas neste mundo recheado do imprevisível, que quebram as barreiras dos preconceitos e amam, educam e protegem crianças que, sem essa oportunidade, estariam perdidas. Louvem-se essas mães dos filhos dos outros.Mas, enquanto existem mulheres magnânimas como essas, existem psicopatas, ou simplesmente pessoas más, como a Procuradora de Justiça, Vera Lúcia Sant’Anna Gomes, de 57 anos, que, sob o pretexto de que querer adotá-la, levou para casa uma menina de apenas dois anos e descarregou sobre ela sua sanha e seu desequilíbrio mental. A criança, seriamente agredida, seria, segundo boatos dos vizinhos, sacrificada em um ritual de magia negra. É, assim como nem todo leopardo transpõe os limites do predador e acolhe o filhote da caça que acabara de matar, nem todo ser humano fica dentro dos limites da humanidade. Alguns transpõem esses lindes e entram no perigoso território – não digo da animalidade, porque estaria sendo incoerente com o que acabei de mostrar aos leitores – mas da loucura ou da maldade. Mas não. Fiquemos com a maldade e esqueçamos a loucura. A maldade pura e simples. O mal pelo mal. E, nesse território instalados, são capazes de agir contra quem deles se aproxima. Passam a ser predadores, à espreita de uma caça desprevenida. Não por necessidade, mas por maldade. Maldade pura e simples. É, porque, se vocês ainda não acreditam que o mal existe – nele e por ele mesmo – estão perdendo tempo. Passa da hora de acreditar. 

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