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Vicência Jaguaribe






Crônica, conto e outros gêneros... uma relação para lá de promíscua

  Crônica sempre será tudo aquilo que seu autor batizar com o nome de crônica.(Calcado em Mário de Andrade.)                Cheguei à casa de uma amiga e o filho mais novo dela – meu afilhado – abriu-me a porta com a seguinte informação, seguida de uma pergunta:            - Tia, ontem entrou uma barata pela janela – eles moram no terceiro andar de um prédio de apartamento – . Você não vai fazer uma crônica, não?            De imediato entendi a ironia do rapazinho. Por mais de uma vez me apropriei dos pequenos episódios do cotidiano de sua família e transformei-os em crônica. Um deles foi a invasão do apartamento por um vaga-lume. Não, não fiz uma crônica sobre a visita da barata. Não gosto de baratas, aliás, elegi-as inimigas figadais. Mas isso não impede que qualquer dia desses, deixando a aversão pra lá, eu me ponha a falar desse “ortóptero onívoro, de corpo achatado e oval”, como o define mestre Aurélio.            Mas a intervenção do meu afilhado Artur me levou a querer falar um pouco sobre crônica e as confusões instauradas pelas tentativas de compreensão daquilo que, na realidade, faz com que uma crônica seja uma crônica e não outra coisa. Muito já se falou da confusão existente entre conto e crônica e dos limites tênues e, às vezes, até inexistentes entre os dois. É claro que nem todo conto se confunde com crônica. Há contos que são indiscutivelmente contos, e crônicas que são indiscutivelmente crônicas. Mas há outros que, pelo amor de Deus! Por isso disse Mário de Andrade, não sei exatamente onde nem quando (cito de terceiros), que conto sempre será tudo aquilo que seu autor batizar com o nome de conto. Estaria Mário de Andrade brincando, ironizando a preocupação das pessoas em rotular todas as coisas? Ou falaria sério?            O que sei, no entanto, é que, se Mário de Andrade disse isso sobre conto, poderíamos nós dizer algo semelhante sobre a crônica: sempre será tudo aquilo que seu autor batizar com o nome de crônica. Para comprovar o acerto dessa afirmação, contamos o seguinte episódio: Moacyr Scliar publicou recentemente uma coletânea de contos intitulada Histórias que os jornais não contam. Pois não é que, na ficha catalográfica, aparecem como crônicas as pequenas narrativas, que são indiscutivelmente contos! Todas as histórias partem de uma notícia de jornal e, na mão do escritor, transformam-se em arte. O próprio Moacyr Scliar redige a introdução da obra, mostrando a diferença entre o real e o ficcional:  Descobri que, atrás de muitas notícias, ou nas entrelinhas destas, há uma história esperando para ser contada, história essa que pode ser extremamente reveladora da condição humana. O jornal funciona, neste sentido, como a porta de entrada para uma outra realidade – virtual, por assim dizer. Neste momento o texto jornalístico, obje­tivo e preciso, dá lugar à literatura ficcional. À mentira, dirá o leitor. Bem, não é propriamente mentira; são histórias que esqueceram de acontecer. O que o escritor faz é recuperá-las antes que se percam na imensa geleia geral composta pelos nossos sonhos, nossas fan­tasias, nossas ilusões.              Como se vê, não parece passar pela cabeça do autor que, partindo das notícias jornalísticas, irá produzir crônicas. Ao contrário, parece concentrar-se no ingrediente central do conto, a história, “que pode ser extremamente reveladora da condição humana”. Aí fica a dúvida: será que a própria editora é a responsável pelo rótulo de crônica, e o autor não tem nada a ver com essa história? Não sei.Antes que alguém contra-argumente, digo saber que a narrativa pode aparecer como um ingrediente da crônica, mas não é a preocupação primeira do cronista. A narrativa, quando aparece, parece o pretexto para o objetivo maior da crônica – o comentário. Bem, é isso que acho. E, como ninguém sabe mesmo, com absoluta certeza, o que é uma crônica, sustento esse ponto de vista até que alguém mais sabido do que eu apareça com um argumento mais convincente.Mas vamos um pouco à história da crônica, para pescar subsídios que nos ajudem a entendê-la nos tempos modernos.O vocábulo crônica vem do grego krónos, que quer dizer tempo. Segundo Massaud Moisés, no início da era cristã, era a designação que se dava a uma relação de acontecimentos, dispostos na sequência linear do tempo. Esses relatos, que não aprofundavam as causas dos fatos nem lhes davam qualquer interpretação, foram tidos como anais ou incluídos na História. Após o século XII, na Espanha e em Portugal, distinguiu-se a crônica da crônica breve ou cronicão. A primeira ficava no campo da História e apresentava abundância de pormenores dos fatos, acrescentando-lhes uma interpretação. A segunda constituía “simples e impessoais notações de efemérides”, nas palavras de Massaud Moisés.Foi o segundo modelo que chegou ao século XIX ostentando “personalidade literária”. Com essa característica, a crônica foi inaugurada pelo francês Jean Louis Geoffroy, no Journal des Débats, em 1880. No Brasil, ela passou a ser praticada depois de 1836, com o nome de “folhetim”. Somente no final do século é que a palavra crônica aparece, para nomear esse tipo de produção, que, entre nós, ganhou prestígio literário: “De lá para cá, o prestígio da crônica não tem deixado de crescer, a ponto de haver os que a identificam com a própria Literatura Brasileira ou a consideram nossa exclusividade”, informa o mestre Moisés.Considero que a grande dificuldade de se definir o gênero crônica está exatamente na grande diversidade que ele assume. Massaud Moisés classifica-a como uma “expressão literária híbrida, ou múltipla”, assumindo a forma de alegoria, necrológio, entrevista, invectiva, apelo, resenha, confissão, monólogo, diálogo com personagens reais e/ou imaginárias, etc. Importante considerar o que diz Moisés, naturalmente percebendo o grande problema que a teoria e a crítica literária não conseguem solucionar – a relação promíscua entre a crônica e o conto:  A análise dessas várias facetas permite inferir que a crônica constitui o lugar geográfico entre a poesia (lírica) e o conto: implicando sempre a visão pessoal, subjetiva, ante um fato qualquer do cotidiano, a crônica estimula a veia poética do prosador; ou dá margem a que este revele seus dotes de contador de histórias. No primeiro caso, o resultado pode ser um autêntico poema em prosa; no segundo, um conto. Quando não se define completamente por um dos extremos, a crônica oscila indecisa numa das numerosas expressões intermediárias. Não sei se todo esse lero clareia as idéias do leitor ou as confunde mais ainda. Para mim, no entanto, é a linguagem, em si, o tom que se imprime ao texto, que vai caracterizar a crônica. Mas, ainda assim, ficam muitas dúvidas. Há, ainda, a considerar a aproximação da crônica com o artigo de opinião e com o ensaio, por exemplo; e até com o editorial. Se você fica só no campo da teoria, é fácil distinguir. Mas vá para o texto vivo, pulsando a seus olhos. Duvido que a coisa seja fácil.O que facilitaria mesmo seria que deixássemos essa mania de querer rotular tudo o que nossos olhos distinguem. Isso em literatura, e em arte de maneira geral, é terrível. Devíamos dar mais valor à qualidade do texto, à sua capacidade de prender o autor e influir em sua vida. Porque, ao fim e ao termo, a crônica, ou seja lá o que determinado escrito seja, só tem valor quando consegue transpor os limites do circunstancial e atingir o perene, por meio da recriação da linguagem. Se isso não acontecer, a crônica, em particular, deixará sempre a sensação de que estamos diante de um gênero menor do que a poesia, o conto, a novela o romance e o teatro.Para não ficar só na teoria, termino esta crônica (será crônica mesmo?) com um texto de minha lavra, que acho ser uma crônica. Vamos ver, leitor, qual a sua opinião.   O gato Gabriel   Ele aparecera na garagem do prédio. Vindo não se sabe de onde. Trazido não se sabe por quem. Era um bebê ainda, de ralos pelos brancos enfeitados com pequenas manchas escuras. Os olhos, de um amarelo-brilhante, olhavam para as pessoas como a pedir-lhes que o aceitassem.Alguém fez o primeiro comentário, de teor utilitarista: Os ratos agora vão desaparecer daqui. Não se sabe se ele ouviu, muito menos se um gato-bebê ou um bebê-gato espanta rato. Mas o certo é que o Gabriel – assim alguém o nomeou – despertou a simpatia de todo mundo... ou de quase todo mundo.Mas foi a Cris, a filha adolescente da síndica, quem o adotou oficiosamente, e era uma boa mãe. Dava-lhe carinho e cuidava para que não fosse maltratado. Descia com comida e água, que ele ficou morando mesmo na liberdade ampla da garagem. Um regime de convivência que devia deixar feliz o Gabriel, que, como bom bichano não se prestava a confinamento e a horários pré-estabelecidos. Gato gosta mesmo é de sair na hora em que bem quer, para dar seus passeios em cima dos telhados e fazer suas conquistas, sem horário para chegar em casa. Pega a liberdade na pata e a expõe como um troféu.O Gabriel cresceu e mostrou serviço – não se via mais rato pelo subsolo do prédio. E quase sempre quando se chegava, lá estava ele dando as boas vindas; e ficava fazendo-nos companhia até o elevador chegar. Nunca se ouviu falar, por outro lado, que ele se intrometesse nos espaços que não lhe cabiam. Por exemplo, nunca entrou no elevador nem subiu as escadas – pelo menos nunca ouvi comentários a esse respeito – para bisbilhotar na porta dos apartamentos.Era um gato educado e gentil. Um dia até posou para uma sessão de fotografias, sem nenhuma objeção ou exigência de pagamento. E saíram boas fotos.Mas o Gabriel era mesmo um gato, e a natureza falou mais alto. Ele deve ter achado que podia andar por cima dos carros como andava por cima dos telhados e dos muros. Talvez até tenha pensado que aquelas superfícies eram um tipo de telhado especial, mais sofisticado. E tibum!!! Lá estava o Gabriel querendo achar uma namorada em cima dos carros.Os proprietários dos veículos não gostaram da novidade e solicitaram providências da síndica – àquelas alturas, sentindo-se avó do Gabriel. E o bichano teve que se mudar, indo miar em outra freguesia. Que saudade, Gabriel!  Bem, se “O gato Gabriel” for mesmo uma crônica, aí teremos algo inusitado (será mesmo inusitado?) – uma crônica dentro de outra crônica. Algo como sanduíche de pão com pão.                   

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