Vicência Jaguaribe






Papai Noel passou por aqui

 (Vicência Jaguaribe)   Minha boneca de pano
Mistura de chita e cetim
Minha boneca de pano
É um pedaço de mim ...
(Mena Moreira)                Ela sentou-se no chão, puxou a caixa grande – que o bodegueiro da esquina lhe havia dado, embalagem de arroz – e começou o trabalho do dia. Ganhava a vida com aquele artesanato. Trabalhava umas seis horas por dia, mas, quando se aproximavam os festejos do fim do ano e a festa da padroeira, trabalhava de oito a dez horas.            Naquele dia, terminava uma encomenda de uma senhora que morava no Rio de Janeiro e queria levar umas lembranças diferentes para as netas e para as sobrinhas. Era uma encomenda relativamente grande, e ela sentia dor nas costas. Finalmente terminou a última peça, embrulhou tudo e foi deixar à freguesa, que viajaria no dia seguinte.            Precisava comprar mais material, estava quase sem tecido e sem algodão.  Dias difíceis aqueles, e ela tinha dificuldade para vender as peças que fazia. A chegada dos tempos modernos dificultara a sua vida. Aquele era o único trabalho que sabia fazer. Se a coisa se complicasse mais, como iria sobreviver? Recebeu o dinheiro da encomenda, passou na loja onde costumava comprar a fazenda e foi para casa. À noite, teria que estar na banca da pracinha, com sua mercadoria.            Era Natal, e na cidadezinha ainda se conservava o costume de armar bancas ao redor da praça, para vender tudo que se imaginasse – dos bolos típicos aos brinquedos baratos de plástico e aos pequenos aparelhos eletrônicos que fascinavam as crianças. Chegou com a neta mais nova, que sempre a acompanhava, armou a mesinha e nela espalhou sua mercadoria. Logo pararam mães acompanhadas de filhos, adultos desacompanhados ou crianças sozinhas. Pegavam no produto, examinavam-no e, com cara de desprezo, o repunham na mesinha. Poucos compravam. Somente os moradores dos distritos, pobres coitados, que não tinham condições de presentear com algo melhor os filhos. As crianças muito pobres, que ficavam rodeando a mesa, olhavam para aquelas peças como se fossem as coisas mais preciosas do mundo.            Já perto de começar a missa do galo, aproximou-se um casal bem vestido, puxando uma menina de uns sete anos pela mão. Não eram da cidade. Deviam estar na casa de um parente, comemorando as datas de fim de ano. A mãe se aproximou, pegou uma das peças e mostrou-a à filha:            - Veja, filha, como é bonitinha. Diferente de tudo que você tem. Vai fazer o maior sucesso entre suas amigas. Vamos comprar?            - Eu, mãe!? Não vou pagar esse mico, não. Se eu chegar com um troço desses, as meninas vão cair em cima de mim. Deus me livre! Isso é horrível! – E a menina, sem olhar para trás, deixou os pais e aproximou-se de uma banca que vendia brinquedos eletrônicos. Os pais pediram desculpas e foram-se.            A dona da banca olhou com tristeza para aquelas peças que lhe haviam dado tanto trabalho. Assustou-se quando sentiu uma mãozinha suave pousar no seu braço, como se fosse um passarinho. E ouviu uma vozinha fina e baixa, como o trinado de uma rolinha:            - Não se importe com o que aquela menina disse, não, dona Marietinha. Ela estava mentindo. Eu acho elas muito bonitas. – E a menina desanuviou o semblante da artesã, com o sorriso aberto e com o brilho dos olhos.            Meteu a mão no bolso e contou as moedas. Faltavam cinquenta centavos. O sonho ficaria para depois. Foi-se encaminhando para o meio da praça, quando ouviu a dona da banca chamá-la. Reaproximou-se da banca e recuou com o susto. Dona Maietinha acabava de embrulhar uma de suas peças. Com a alegria manifestando-se em cada gesto, a artesã lhe entregou o pacote.            - Feliz Natal, querida! Papai Noel passou por aqui.            A menina, meio confusa, não falou, mas os olhos devolveram os votos de Feliz Natal da mulher. Foi direto para casa, onde a mãe já havia armado as redes dos seis filhos, que dormiam em um minúsculo aposento que dava para o quintal. Nenhum dos irmãos ainda havia chegado. Ela acendeu o bico de luz e rasgou o papel que embrulhava sua prenda. Era linda! Vestida de cor de rosa, com os negros cabelos presos em duas tranças, parecia uma princesa. A menina abraçou-a e aconchegou-se a ela. Logo dormia e sonhava com o mundo cheio de bonecas de pano feitas por dona Marietinha. Mas nenhuma delas era tão bonita quanto a sua. A sua boneca. A sua boneca de pano.           

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