Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







clara elise santos






O Relogio amaldiçoado

 

O RELÓGIO AMALDIÇOADO

 

Prisca, mulher de quarenta e sete anos, funcionária pública de um setor medíocre, onde os funcionários intercalam o orgulho pela estabilidade profissional e o temor dos inquéritos administrativos, já que o lema do governo é “ Funcionário público não erra, frauda ! “

Esta mulher vive como uma máquina, onde a bateria inesgotável para tanta força é o amor pelo três filhos, que não foram acidentais, foram desejados e planejados.

São cinco horas da manhã e o dia amanhece, Prisca levanta-se de sua cama box com colchão improvisado num pedaço de espuma; movimenta-se dentro de casa sem fazer barulho, para que seus filhos possam continuar dormindo; faz sua higiene rotineira e enquanto a água ferve para o café, dá inicio a arrumação da sala, já que seus filhos largam tudo fora do lugar.

Desliga o computador que dormiu ligado, coloca o telefone no lugar, pega os controles remoto da TV e do DVD jogados no chão e os coloca em seus devido lugares, guarda os CD e dá uma geral em tudo. Partindo finalmente para as roupas jogadas, dando assim inicio a segunda etapa de serviço. Prisca, cata e dobra as roupas, tendo o cuidado de verificar os bolsos, para que nada se perca na máquina de lavar roupa.

O trabalho é automático todos os dias, só que nesta manhã cinza de outubro, algo inesperado acontece.

A mãe que esqueceu o que era ser filha, mulher, irmã e amiga; acha no bolso da calça Jeans de seu primogênito, um pedaço de papel dobrado em quatro.

Prisca, abre o papel e lê ; sua pernas ficam bambas, a vista fica turva e rapidamente ela coloca aquele pedaço de papel no mesmo lugar. Caminha até a varanda, seu lugar predileto, na frente de sua casa. Senta-se e observa o cenário a sua frente; aquele cenário tão seu e começa agrupar em sua retina o mesmo céu, o mesmo coqueiro, o mesmo pinheiro, a mesma mangueira, os pássaros no fio da rua, o jardim de sua casa. A dor na alma é tão grande que Prisca deixa rolar duas lágrimas que a transportam ao passado de trinta anos atrás.

 

 

...

......

A jovem Prisca, sentada na varanda lendo um livro ( O elogio da Loucura), vez por outra para a leitura e observa o pequeno coqueiro a sua frente, o pinheiro que já esta na altura do telhado da casa, a mangueira cheia de mangas e o céu, cada vez mais belo.

Prisca, disfarça enquanto espera o belo Jonek passar e assim poderem conversar por alguns instantes, apesar de toda a pressão familiar, pois seu amor é negro e semi analfabeto, apesar do belo nome, escolhido pela mãe também analfabeta.

O pai de Prisca quebra o silêncio.

  • Prisca, vamos na casa de seu avô, ele chegou de viagem e quero reve-lo.

  • Agora pai ?

  • Sim, já estamos saindo. Vá se arrumar.

  • Papai, posso ficar ?

  • Não.

  • Sim. Estarei pronta em dois minutos.

Prisca veste-se como o pai; calça Jeans e camiseta e os dois seguem por um hora de ônibus até chegarem a casa do velho Gerdes.

Gerdes Fisser, o velho alemão; desembarcou no aeroporto internacional do Rio de Janeiro, após um longo mês de visita a sua terra natal.

Passaram-se quarenta e cinco anos sem rever sua guerreira Alemanha.

Gerdes, fugiu para não morrer enforcado, conseqüência de lutas políticas nos momentos finais da primeira guerra mundial. Esta fuga não o deixou presenciar os últimos dias de seu bravo pai Hermann, de sua doce mãe Anne, com cheirinho de tortas quentes e seus dois irmãos mais velhos, restando vivo, apenas i irmão Klaus..

Gerdes era o quarto filho do casal, tendo nascido quando seus irmãos já se faziam adultos.

O velho Gerdes Fisser, ao desembarcar reencontra os seus no Brasil; seus filhos, esposa e a vida medíocre que havia conquistado.

Chega em casa e pode reconhecer o seu ambiente acolhedor, enfim pode relaxar e contar para todos as descobertas que fez ao se afastar do Brasil.

  • Filhos, eu descobri que sou brasileiro. Que amo esta terra quente e que precisava voltar para morrer aqui, na minha pátria de coração.

  • Papai, conte nos tudo o que pode viver por lá.

  • Calma, Fred. Amanhã. ... Trouxe presentes e algumas jóias de família; meu irmão fez questão de que eu trouxesse, para que continuasse na mãos dos Fisser.

  • O que trouxe vovô ? Pergunta Anelise, a filha mais velha de Fred.

Tinho, o primogênito chega com sua sua filha Prisca; os irmãos, cunhados e sobrinhos, olham os dois com desprezos, já que Tinho é a banda pobre daquela pobre família.

Os três filhos conversam com o Pai por longas horas..., na tentativa de lucrarem algo (os presentes).

  • Meus filhos ! Preciso descansar, amanhã conversaremos mais.

Os filhos, Tinho, Fred e Brasa se vão, demonstrando enorme decepção.

O velho Gerdes recolhe-se com Clara (sua esposa). Precisava sentir-se em casa, sentir o cheiro que somente nossa casa tem e relaxar, pois sabia-se muito doente. A morte não tardaria.

No dia seguinte acontece a reunião tão esperada pelos filhos, noras e netos.

A casa esta cheia, o falatório e grande e todos esperam os presentes.

Gerdes reúne toda a sua família na sala e comenta sobre sua terra. Fala da beleza, dos costumes que havia esquecido e principalmente de seu irmão Klaus e sua cunhada Mariech. Ressaltando sempre a saudade que teve do Brasil.

O velho Gerdes caminha até seu quarto, pega uma saco abóbora e retorna até a sala emocionado.

  • Filhos, aqui tenho um tesouro. São as jóias que minha amada mãe e irmã usaram, durante toda a vida.

Devo distribui-las conforme a tradição da família.

... Este anel é de minha Clara, pois pertenceu a minha mãe... que faleceu logo após a morte de minha única irmã.

... Esta pulseira é para minha primeira filha – Johanne (Lisa) – que não esta aqui no momento, mais farei com que chegue em suas mãos; foi de minha irmã que faleceu no final da 1ª Guerra Mundial, vitima de Tuberculose, meses após o final da guerra.

... Este Anel é para minha Segunda filha - Wilmke (Brasa), esta jóia também foi de minha irmã.

... Esta pulseira é para minha primeira neta , que possui o nome de minha mãe – Anne, filha de meu primogênito – Hermann (Tinho).

A distribuição prossegue, em toda a ala feminina da família.

  • Comunico para meus filhos que não trouxe jóias para vocês. Apenas recebi de meu irmão este relógio de ouro.

Neste momento, o velho Gerdes mostra um relógio de bolso todo de ouro, com uma bela corrente de ouro.

A inveja e a cobiça impregnam a atmosfera daquela casa. Os familiares se unem na inveja e na astúcia.

  • Filhos, este relógio foi de meu avó Paulus, passando para meu pai Hermann, por ser ele o primogênito;

... antes quero contar a vocês a trajetória desta jóia.

... Um Ourives alemão, em meados do ano de 1.864, fez este relógio de forma artesal, para presentear seu único filho, que misteriosamente apareceu morto no rio. O irmão do ourives tentou comprar a jóia, porém o artesão resolveu se desfazer da peça, pois julgava o relógio amaldiçoado pela beleza e principalmente, por suspeitar de seu próprio irmão, no envolvimento da morte de seu filho.

... Os irmão tornaram-se inimigos para sempre.

... O artesão vende o relógio para meu avô, o velho Paulus, em 1.865 por um preço simbólico. Que guarda a jóia como um tesouro dos céus, sem imaginar que seus dois filhos Hermann, meu pai e Peter, meu tio, fossem brigar pelo relógio, como duas feras; após uma grande disputa no ano de 1.892, a peça vai para meu pai; pois foi o primeiro a se casar. Meu pai passa para o primogênito Adolf, meu irmão, que faleceu na 2ª Guerra; o sucessor foi Klaus, meu segundo irmão e herdeiro, que sempre ambicionou a jóia.

... Klaus, torna-se o guardião do relógio; não permitindo que essa jóia maravilhosa se perdesse ao longo dos anos.

... Como meu irmão nunca teve filhos e esta muito velho, achou por bem passa-lo para mim, para que possa continuar nas mãos dos Fisser.

Naquele exato momento a semente da cobiça instala-se no coração de seus filhos, Fred e Tinho, sem falar no genro Osvaldo (mestiço orgulhoso que procura humilhar a todos da família Fisser).

O dia transcorre normalmente, todos almoçam, perguntam da viagem e com a chegada da noite, cada um segue para sua casa.

No caminho, enquanto dirige seu carro, Fred comenta com sua esposa Sara.

  • Sara, eu sou o único filho que deu um neto ao papai, neto que continuará com o sobre nome Fisser. Logo, é justo que aquele relógio venha para minhas mãos mais tarde. Concorda ?

  • Claro. Sem falar no valor da peça. É todo de ouro.

  • Vamos ver como tudo caminhará. Vamos ficar atentos Sara, devemos ser espertos.

Tinho, reúne sua família, esposa e três filhas, e segue para o ponto do ônibus.

  • Mirtes !

  • Diga, Tinho.

  • Aquele relógio é lindo, não é ?

  • Muito bonito.

  • Ele será meu um dia. Eu sou o primeiro filho homem de papai.

  • Talvez ! Para que serve um relógio de ouro se vivemos com tanta dificuldade.

  • Eu quero aquele relógio. Ele é meu. É algo forte...

  • Deixe de bobagem e vamos logo pois nossa pequenina Saarje esta cansada e com frio.

Brasa, segue de carro para sua casa, seu marido Osvaldo dirige como louco, esta revoltado pois esperava muito mais, sem falar que suas três filhas Elizabeth, Vitoria e Catarina ( que tinham nomes de rainhas ) não ganharam nada.

  • Brasa.

  • O que é Osvaldo ?

  • Considero um absurdo aquele relógio ir parar nas mãos de seus irmãos. Um é bêbado, o outro vagabundo que caminha para o alcoolismo. Aquela peça merece quem de valor.

  • Não se meta Osvaldo.

  • Meto-me sim.

  • Chega Osvaldo.

  • Aquele relógio deveria ser seu Brasa; você é a filha que mais cuida de seus pais, sem falar que sua mãe adoro muito mais nossas filhas.

  • Osvaldo, eu quero aquele relógio, so que não quero falar agora. Precisamos apenas chegar em casa, as meninas já estão dormindo.

  • Tudo bem Brasa, na hora certa tomarei uma atitude.

Passam-se alguns dias e o velho Gerdes telefona para seu filho Tinho.

  • Tinho !

  • Sou eu Papai, o que deseja ?

  • Quero que venha aqui em casa o mais rápido que puder.

  • O que o Senhor deseja ?

  • Venha e pronto.

Tinho, que esta em casa de bobeira, arruma-se e vai na mesma hora acompanhado de sua filha Prisca, que mais parecia sua sombra. Os dois viviam juntos.

  • Cheguei ! Vim o mais rápido que pude. O que deseja Papai ?

  • Tinho, estou doente e não terei muito tempo.

  • Pare de falar bobagens... o senhor é forte.

  • Cale-se. Me deixe falar. Vou precisar de dinheiro e quero ser franco. Quero te vender o relógio de ouro que trouxe da Alemanha. Estais interessado.

  • Como assim ?

  • Quero que compre o relógio. Ele deverá ficar em suas mãos.

  • Claro que sim. Claro que quero. Aquele relógio é um tesouro. Quanto o Senhor deseja por ele ?

  • Quero mil marcos. Podes pagar.

  • Posso, sim. Tio Klaus, mandou-me dinheiro e poderei compra-lo.

  • Então venha com o dinheiro e o relógio será seu, apenas peço que não comente nada disto com seus irmãos.

  • Mãe ...

  • O que é Tinho ?

  • Vou ficar com o relógio; papai vai vender-me. O que acha ?

  • Por direito aquele relógio não seria seu ? Não acho nada, apenas seus irmãos não vão gostar nada desta transação.

  • Tudo bem. Depois papai comunica a meus irmãos. Afinal ele seria meu mesmo.

Tinho, volta para casa fazendo contas. Queria a relógio mais que tudo na vida. Chegando em casa procura aconselhar-se com sua esposa Mirtes.

  • Mirtes, papai vai vender-me o relógio de ouro, aquele da família.

  • Vender ? Ele não seria seu de direito ?

  • Não sei bem, apenas sei que quero aquele relógio, pela beleza da peça e por ter sido dos meus antepassados. Ele é um pedaço de mim.

  • Quanto ele pediu.

  • Mil marcos.

  • O que ? É um roubo. Seu pai é um grande espertalhão.

  • Não, ele vale muito mais. Nos temos este dinheiro.

  • Prefiro não opinar.

No dia seguinte, Tinho pega no fundo do armário os mil marcos e vai com sua filha Prisca até a casa de seu pai; vai de encontro a sua desgraça.

A transação é concluída com conhecimento da velha Clara (mãe de Tinho e esposa de Gerdes) e o testemunho da neta Prisca, que na época tinha 17 anos.

Tinho vem para casa com seu tesouro no bolso. Sentia-se um super herói. Poderia morrer por aquele relógio, tão valioso era para ele. Nunca havia tido nada tão valioso.

Chegando em casa, mostra para esposa e filhos o mais novo membro da família.

Mirtes, pega a jóia e admira.

O casal resolve guarda-lo muito bem. Era o primeiro tesouro da família, em valor monetário e valor sentimental.

O relógio passou a ser um membro da família.

As semanas correm e o câncer pulmonar do velho Gerdes adianta-se levando o alemão brasileiro a morte exatamente trinta dias após seu retorno ao Brasil.

A morte chega quando está sozinho com Prisca e Renata. As Netas amparam o corpo morto e chamam os familiares. As netas, os filhos e os vizinhos choram, pois a morte automaticamente provoca lágrimas e uma falsa dor momentânea.

Como de costume é a maior correria para o funeral, para as despesas e para o sepultamento. A família sofre com cifras na mente, imaginando que aquela dor seria acalentada por algumas notas de marco alemão, que com certeza seu irmão rico enviaria para a família.

No final do sepultamento, algumas pessoas se dirigem para a casa do velho Gerdes. Seguem Prisca, sua neta. Brasa (sua filha) e Osvaldo (seu genro mestiço) juntamente com as três filhas mestiças de canelas grossas (com nomes de rainhas), Fred e a viúva Clara.

Neste momento não havia mais lágrimas, apenas o senso prático.

Brasa, pergunta a mãe.

  • Mamãe, cadê o relógio de ouro do papai ?

  • Filha não sei.

A neta Prisca olha espantada para sua avó, ela havia presenciado toda a transação do relógio com seu filho Tinho. Não poderia ficar calada, pensa a neta.

Fred então levanta-se e diz.

  • Vamos procura-lo.

Como aves de rapina, Fred e Brasa, os irmãos rapina, procuram por todo o lado e a velha Clara permanece calada.

Enquanto a velha Clara permanece calada, Prisca observa a avó com desprezo, pois podia prever problemas sérios no futuro próximo. Ali Prisca teve a confirmação do mal caráter de Gerdes e da covardia da velha Clara. O nojo e o desprezo pela família aumentam.

Surge então a pergunta fatal.

  • Será que papai foi enterrado com o relógio ? Diz Brasa.

Mesmo assim a velha Clara, permanece calada.

Prisca retorna para sua casa indignada e relata tudo para seu pai. Que fica assustado.

No dia seguinte, Tinho telefona para Fred e Brasa, comunicando que estava com o relógio, pois havia comprado de seu pai, por mil marcos alemãs. A notícia voa como poeira ao vento.

A semente do ódio, que hibernava durante anos, entre os irmãos, encontra solo fértil para crescer.

A guerra esta instalada.

Fred e Sara, Brasa e Osvaldo, Johanne a filha que morava em São Paulo. Todos são categóricos e afirmam que Tinho havia roubado o relógio.

Mesmo assim a velha Clara Fisser permanece calada, não tendo movido um dedo para defender seu primogênito.

A neta Prisca, fica indignada e revoltada, pois ela havia presenciado a negociata do avó com seu pai, e sabia que a avó tinha consciência do ocorrido.

Tinho é humilhado, chegando a ser crucificado por todos.

Osvaldo, chama Tinho em sua casa e o humilha de todas as formas, o chamando de bêbado e ladrão.

  • Tinho, te chamei para conversar pois eu sei, você melhor do que ninguém sabe que o relógio foi roubado.

  • Mentira ! Papai me vendeu.

  • Onde está o dinheiro ou ele nunca existiu ?

  • Mamãe foi testemunha de tudo.

  • Não minta, além de bêbado agora você também é mentiroso ?

... Você é uma vergonha para família, só dá problemas e prejuízo, e quando ninguém espera mais uma atitude nojenta de sua parte; você consegue se superar e roubar toda a família.

  • Eu não roubei. Eu comprei o relógio...

As ofensas são muitas. De longe Prisca pode perceber que seu pai chora e ao final da conversa ele sai cabisbaixo e completamente arrasado.

A tristeza nos olhos de Tinho são fortes, a tal ponto que Prisca sente medo. Parecia que seu pai estava morto.

Fred, esbraveja, alegando que era o único merecedor, pois seu filho era único neto de Gerdes, assim o relógio deveria passar para ele.

A confusão é grande; mesmo assim a velha Clara é incapaz de defender seu filho Tinho. O único que procura conforta-lo é o tio que ainda vivia na Alemanha. Klaus, envia cartas e mantém a ajuda financeira que enviava periodicamente para todos os membros da família Fisser no Brasil.

A família, que mantinha contato com Klaus, apenas por carta, aproveita para envolver o tio em mentiras descabidas para que cada um pudesse lucrar mais e mais, marcos alemãs.

Joahanne – A primeira filha - Lisa, que vivia longe da família, aproveita um tratamento de câncer mamário para extorqui dinheiro do velho Klaus.

Wilmke ( Brasa ) e Osvaldo, utilizam as três filhas para buscarem ajuda financeira, já que os colégios no Brasil (diziam eles) eram muito caro e suas filhas precisavam estudar. Tendo a família carro, casa própria e um pai engenheiro.

Friedrich, o queridinho da velha Clara, o Fred; alega que precisa pagar sua aposentadoria, sem nunca ter trabalhado, e comprar um apartamento para morar com sua família, sendo que eles já possuíam um apartamento no subúrbio, em um prédio de classe média alta.

Tinho, aproveitava as cartas para contar suas mentiras; falava em caça de cobras, em pescas fantasiosas, caminhadas ecológicas, macacos domésticos e mil outras fantasias, que fervilhavam em sua mente. No meio de tantas mentiras, Tinho pede dinheiro para comprar um aparelho de engenharia, um Teodolito, caro. Sendo que nunca foi engenheiro ou topógrafo. Apenas ajudava o velho Gerdes, seu pai, nos levantamentos topográficos.

O velho Klaus, homem rico e solitário, deixa-se envolver pelas mentiras, pois as cartas preenchiam sua velhice com risadas e preocupações.

Prisca, cansada de ver a dor nos olhos de pai. Escreve uma carta onde conta todas as verdades da família Fisser. Conta também todas as mentiras e pede que o velho tio avô a perdoe por tamanha desilusão.

A carta fica pronta e Prisca, procura uma amiga alemã e pede que traduza toda a carta para que o velho Klaus possa entender tudo claramente. Pronta a carta, o caminho é a agência dos correios no Castelo, Centro comercial do Rio de Janeiro.

As brigas e as humilhações são tantas, que Tinho começa a beber. Bebe sem para entregando-se ao vicio.

Prisca pode viver junto de seu pai a dor da humilhação e a falta de vontade em continuar a viver.

Tinho, perde a vontade de tudo, quase não trabalha, bebe muito e deixa a família humilhada e sofrida.

 

A carta chega na Alemanha e provoca uma grande explosão, que abala muito mais os Fisser no Rio de Janeiro, do que o único Fisser vivo na Alemanha.

O velho Klaus Fisser, fecha o cofre para todos. Assim acaba a mamata.

O tempo corre. Com a dor, o tempo torna-se lento e o amargo mais forte a cada dia, envenenando o corpo e a alma de Tinho.

O pai de Prisca, arrasta-se por longos três anos; segue calado, bêbado e agressivo. Não havia mais esperança naquele homem que a jovem Prisca idolatrava.

Após três longos anos, Tinho chega em casa na parte da tarde, completamente bêbado, mancando da perna esquerda e vai para o quarto dormir, pedindo a Mirtes que o chame para o jantar.

A esposa cansada, apaga a luz na esperança de que o marido adormeça e não saia mais para beber, e vai para a cozinha preparar o jantar.

Prisca que já estava formada na faculdade e não encontrava emprego, costurava em casa para uma fabrica, pois precisava ajudar no sustento da família; enquanto a mãe preparava o jantar, Prisca costura sem parar no quarto dos fundos, enquanto sua irmã Anne brincava com a pequenina Saarje, na tentativa de que a filha caçula não percebesse o estado do pai.

Às vinte horas, Mirtes vai chamar o marido para jantar e dá um Grito.

  • Socorro !

As filhas vem correndo e não conseguem acorda-lo.

Todos gritam sem parar. Os vizinhos vem correndo e todos ficam perplexos.

Tinho estava morto.

Sexta feira, vinte e sete de agosto, às vinte horas e quarenta minutos, é constatada a morte de Tinho, por infarto fulminante. Na verdade houve um coma alcoólico, que todos preferiram esconder.

Tinho não resistiu a tristeza nem as humilhações, que sua família o submeteu; afastou-se de sua mãe e algumas vezes a ofendia, pois a velha Clara, nunca o defendeu, tendo optado pela omissão que causou a perda da vontade de viver em seu primogênito.

O sepultamento foi envolvido em brigas e dor. A filha Prisca, colocou o irmão de Tinho para correr, jogando na cara do tio, coisas que ele nunca pensou que a sobrinha soubesse. Pela primeira vez Fred, sente o gosto da humilhação.

A família, tenta sobreviver sozinha apesar da grande dificuldade. A esposa e as filhas mais velhas começam a costurar cada vez mais, pois era preciso sustentar a casa.

Os irmãos Fisser, os rapinas, ficam por perto espreitando uma oportunidade para comprar o relógio amaldiçoado.

Prisca, toma a frente da família; passa a controlar tudo, cuidar das finanças, da moral e de tudo que era responsabilidade de seu pai.

Muitas brigas ocorrem, Prisca se revolta e como uma fera enfrenta todos os membros da família Fisser, principalmente a velha Clara, a quem Prisca não respeita mais nem considera como avó; chegando mesmo a mostrar a porta da rua para essa senhora, quando a mesma tentava justificar sua atitude no passado.

A família caminha, a vida prossegue; Prisca casa-se, tem filhos, divorcia-se e caminha; caminha como uma brasileira que nunca foge a luta.

Os anos passam ...

... o relógio é usado como jóia de penhor para salvar a família de apertos financeiros.

Prisca mantém um sentimento de repulsa pela jóia, não conseguindo nem mesmo segurar o relógio em suas mãos, pois o objeto continuava com aquela áurea de tesouro que desperta cobiça em todos que o olham.

A jovem senhora, mantém uma opinião firme sobre a jóia, considerando o relógio amaldiçoado, pois sua trajetória é marcada por brigas, mortes e um latente fascínio em quem o olha..

Apesar do valor e da beleza, Prisca sabe que o relógio foi o punhal que atravessou o coração de seu pai.

Os anos passam...

... Fred morreu ... vítima de um cancer ...

... Clara morreu ... vítima de problemas no coração ...

... Lisa morreu ... vítima de um cancer ...

... Brasa foi abandonada ... seu marido mestiço passou a beber muito e largou a família. E assim, Brasa, pode saborear a pobreza como uma sobremesa ...

Os filhos de Prisca crescem ...

Passaram-se vinte e três anos da morte de Tinho; sua esposa Mirtes resolve distribuir suas jóias entre os netos.

O velho baú, uma caixa de madeira de um Teodolito, é aberto para distribuição das jóias.

A cerimônia não possui cobiça já que os jovens não dão valor as peças, chegando mesmo a comentarem.

  • Que horror !

  • Que jóias feias e velhas ... Diz Henrique o filho mais velho de Prisca.

A velha Mirtes, prossegue com a cerimônia.

  • Assisi, minha neta. Você é minha segunda neta, porém a primeira neta mulher, portando receberá minhas pulseira e anéis de ouro.

  • Henrique, você é meu primeiro neto e primeiro homem de minha família, ficará com o relógio de ouro de seu avó. Este relógio que veio da Alemanha. Ficarás também com estas medalhas, que pertenceram aos alemãs de nossa família, que lutaram na guerra e o prendedor de gravatas de seu bisavô.

Prisca, levanta-se e é categórica.

- Nossa família não ! Nós não temos vínculos com aqueles animais. Graças a genética, vocês possuem apenas doze por cento deste sangue ruim.

Henrique pega aquele objeto valioso com desprezo e o guarda em seu armário, sem dar valor a peça.

Aquela peça que havia sido utilizada em Penhor por algumas vezes, para resolver problemas financeiros da família, era tratado como lixo pelo neto de Tinho, que não conhecia a historia nem a trajetória.

O relógio havia tornado-se valioso pelas vidas humanas que absorveu e pelo valor histórico que adquiriu ao longo dos anos. O ouro era o que menos valia.

Um belo dia, Henrique levou o relógio para ser avaliado por um antiquário de jóias, e surpreendeu sua mãe dizendo que a peça não valia muito, apesar da beleza. O ouro era baixo.

Após algumas semanas, o jovem retornou ao avalista e vendeu o relógio por exatamente seiscentos reais. Valor irrisório, que representava dois salário mínimo. Já que na época o salário mínimo era de trezentos reais.

Quando Prisca pegou o recibo da venda do relógio, na roupa de seu filho, sentiu uma tristeza profunda, que doeu na alma; as lágrimas rolaram e a saudade de seu pai transbordou.

Prisca pode constatar que seu Pai morreu por nada; sua avó Clara, se calou por nada; Brasa e Fred odiaram o irmão por nada; e Osvaldo humilhou Tinho por nada.

Prisca, sentada em sua velha varanda, acorda do transe e sua tristeza é profunda.

Todos ou quase todos da família, morreram com mágoas e rancores de uma briga sem fundamento. Quantas brigas, ódios e inimizades na família dos Fisser, por nada.

Pensa ... reflete ...

Observa os primeiros raios do sol. O céu, o cenário tão seu; o mesmo coqueiro, o pinheiro, a mangueira. Há o céu... Neste exato momento, Prisca, reconhece para si mesma, que sempre desejou aquela jóia. Ela também havia sido contaminada pela beleza do relógio.

O horror da constatação é forte demais e abala a jovem senhora.

Prisca, saboreia a revolta-se pela morte do pai, a ira contra todos da família Fisser e o fascínio pela jóia; tudo ao mesmo tempo.

O tesouro de família, o objeto de cobiça foi parar em mãos estranhas por apenas seiscentos reais , após 140 anos na clã dos Fisser.

Quanta tristeza... Quanta saudade de seu pai ...

Às seis horas da manhã, Prisca morre sentada na varanda, tornando-se mais uma vítima do relógio...

 

Fim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hermann Fisser

 

 

Anne Fisser

 

Adolf Fisser

 

 

Karoline Johanne

 

Klaus Fisse

 

Gerdes Fisser

 

Gerdes Fisser Clara Fisser

X

Alemão

Brasileira

Filhos Brasileiros do casal

 

Hermann Fisser

 

 

Johanne Fisser

 

Friedrich Fisser

 

Wilmke Fisser

apelidos de cada um

 

Tinho

 

 

Lisa

 

Fred

 

Brasa

Casado : Mirtes

Casado: João

Casada: Sara

Casada: Osvaldo

filhos

Anne

Anelise

Carlos

Elizabeth

Prisca

William

Renata

Vitoria

Saarje

 

Paula

Catarina

 

 

 

 


Tempo de carregamento:0,04