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Heloisa Pereira de Paula dos Reis






Janete

                                         Janete Lá está ela... Olhar vazio, sem brilho, fixando o nada, que para ela é tudo.Fala sozinha. Sorri ao pensar em coisa nenhuma... Sorriso enigmático. Monaliza?Gesticula. Gesticula para contar algo interessante para si mesma. Que ninguém ouve, só ela. Uma lágrima escorre em seu rosto. Sinaliza que sofre. Que pensa. Que vive... Que vive num mundo só seu. E o preserva, mesmo sem saber, mesmo sem querer.Lá está ela e com ela a sacola plástica, onde leva tudo que possui. Seu pequeno vasto mundo a acompanha. Caramujo. Leva a casa onde quer que vá.Pernas inchadas, quase a estourar. Calcanhar rachado, pés pequenos para manter seu corpo gordo. “Por favor, cuide dos pés dela... Coitada. Cuide que eu pago... E nunca mais apareceu”. Isso eu ouvi .Eu ouvi alguém passar para o outro a tarefa que era sua. Mas... Ela tem os pés sujos, não é?Coitada.                                                                                                                                            “Tem Tem um real para mim?” E com esse real e mais outro e mais outro, come o que quer,compra o que tem vontade. Caldo de cana com limão? Claro que o pasteleiro sabe. É só dizer que é para a Janete.“Está com fome, Janete? Quer que eu traga alguma coisa para você?” E ela dá o dinheiro e diz claramente o que quer e como quer. É exigente.Todos a conhecem e a sabem assim.Se ela demora a aparecer, preocupa. Onde será que ela está?Será que a irmã veio buscá-la? Se foi isso que aconteceu, ela vai, mas volta correndo. Quer ser livre e disso não abre mão.Sol... Chuva...Ela sabe onde se abrigar...Do lado de fora de algum lugar. Dentro não pode. Sua aparência a impede. As pessoas ...As pessoas não se sentem bem com alguém assim por perto. Mas gostam dela... Gostam sim...Do lado de fora. E ela sabe. Ela percebe e entende.Se tem sono, durante o dia, apóia-se numa parede ou senta-se num degrau e dorme um sono despreocupado. Um sono que muitos pagariam para ter. Como se possível fosse. Mas, quando a noite chega, já tem o lugar certo para dormir. É numa garagem coberta de um sobrado... Logo cedo ao acordar, desfaz sua cama. Lava o chão e pé no mundo. Onde guarda seu colchonete? Ninguém sabe. Só se sabe que não fica lá. Não deixa vestígio algum...E ela é limpinha... Toma seu banho. Num banheiro cedido a ela. Dizem...Mas nem sempre sua vida foi assim.Foi uma vida comum, como a vida de cada um.Foi mãe e seu filho dela foi tirado. Chorou, brigou, quis sua cria de volta. Não conseguiu. Vez ou outra diz num lamento doído: “Samanta... Devolve meu filho... Senão eu chamo a polícia. Samanta... E depois se cala, enquanto uma lágrima escorre em seu rosto. Sofre... Sofre calada...”                                                 Foi então pro mundo e fez da rua sua moradia.Quem já conversou com ela, sabe o quanto ela está atenta a tudo. Sabe das notícias do momento. Tem seu ponto de vista a respeito. Afinal, a matéria que ela mais gostava de estudar, era história. E lembra-se de muita coisa do que estudou. Sabedoria ambulante, dos livros e da vida.“Ah se vocês soubessem... Quantas vidas guardo em mim, quantas palavras ouvidas, gestos observados, olhares que tudo ou nada diziam...Quantas coisas eu vi, ouvi e por medo e ou por insegurança não enfrentei.Quantas palavras deixei de dizer por covardia e que até hoje, quando nelas penso, corro a jogar debaixo do tapete de minha vida.

Melhor não pensar, melhor não falar... Não me faz bem pensar que nada fiz. Que fugi de tudo e de mim. Que não tomei atitude alguma. Apenas olhei,ouvi,senti e nada fiz. Fui covarde, medrosa .Mas hoje, já não sou mais aquela ”que já fui um dia”.Fui morar no mundo...No mundo que me acolheu sem me questionar. Deixando que eu fosse o que sou, na medida certa do momento em que vivo...”.   

Valeu a pena?                                                                                                                                                                                                  Tudo    vale à penaSe a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)  Heloisa Pereira de Paula dos Reis   

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