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Gustavo Schaefer






cár.ce.re [fragmento]

...O homem – sem esboçar qualquer reação - fora então enviado à prisão estadual. Ele estava agora mais desacreditado e inerte do que nunca. Dentro do cubículo, ele aproximou-se da parede e ficou encarando-a centímetros distante de seu rosto, imóvel. Praticamente nem sentia sequer o sangue correr por suas veias. Na cela em que ele foi colocado encontrava-se um senhor pouco acima da meia idade, cabelos cinzentos, entremeados de fios brancos, barba e olhos que misteriosamente transmitiam paz e sossego. O senhor virou-se para o homem – que ainda olhava para o nada, alheio, como se houvesse um infinito horizonte projetado à sua frente – e perguntou em tom sereno:

- E então, o que você fez para estar aqui?

O homem continuava apático, parado, olhando para a parede e pensando no vazio. Em tom de voz mais baixo – acompanhado de um leve e compreensivo riso – o senhor voltou a falar:

- Não se preocupe, meu caro. Pode não parecer, mas isso são só tijolos e argamassa... alguns também a conhecem como “parede”. É uma grande invenção da humanidade. Ela evita que sujeitos como eu e você estejamos lá fora, oferecendo perigo à sociedade.

A ironia e a nuança contraditoriamente benévola do comentário daquele senhor despertaram brevemente os sentidos do homem, que embora não tivesse dado muita atenção ao que foi dito, reagiu meio que mecanicamente e, numa entonação quase que moribunda, disse:

- Não fiz nada, sou inocente.

- Quem aqui não é? Ninguém dentro dessa prisão tem culpa de coisa alguma, certo? – Disse o senhor, manifestando compreensão.

- Não fiz nada, sou inocente. - Continuou o homem, em um semitranse.

- Sem problemas, meu caro. Não duvido de você. – Parou por um momento - Seja lá qual for o seu problema, não se preocupe. Não sei se você vai ficar aqui por muito tempo, como eu, mas não há nada mais eficaz para uma mente convulsionada do que a solidão.

As palavras daquele senhor pareciam surtir algum efeito sobre o homem. Mesmo que fosse para um estado de pura raiva e ódio, ele aparentava finalmente sair daquela condição de torpor que o dominava:

- Mente convulsionada? Mente convulsionada? – Repetiu indignado – Era só o que me faltava... como se não pudesse acontecer mais nada, agora vem um velho abelhudo posar de psicólogo pra cima de mim.

- Acalme-se. A treva e o isolamento que você viverá aqui farão bem a este seu coração ferido. – O senhor retrucou em um tom realista, mas tranqüilo.

- Treva? Coração ferido? Quem lhe disse isso? Olha, simplesmente não me interessa essa sua filosofia barata e também não estou lhe pedindo nenhum conselho. O que você quer, ser meu amigo? Este não é o lugar para fazer amizades.

- Não quero fazer amigos... durante todo o tempo em que estou aqui passaram alguns homens por esta cela. Nunca nenhum deles me foi mais companheiro que a solidão.

O homem se dirigiu furioso àquele senhor que insistia na conversa:
 
- Vejo que você gosta da solidão, parece se dar muito bem com ela. Porque não me deixa experimentar um pouco também?

- Não há o que temer, meu jovem. Você ainda terá muito tempo para apreciá-la.  – O senhor deteve-se nas palavras. Reteve o silêncio pelo tempo certo, e só então continuou - É nela que está a minha força. Não tenho e nunca tive medo de tempestades, grandes ventanias, ou de chuvas torrenciais, mesmo quando estava em liberdade. Pois eu também represento toda a obscuridade que há. Todos nós representamos alguma personificação daquilo que nos cerca. E o que me cerca é o isolamento.

O homem começava a demonstrar algum interesse pela situação. Como um mero presidiário poderia demonstrar tanta sabedoria e serenidade? – pensou ele. E então, mais calmo, soltou um grunhido meio debochado e perguntou:

- Então a solidão simplesmente não o incomoda? Quero dizer, eu sei que estar aqui provavelmente já é um motivo mais do que relevante para importunar alguém, mas ficar sempre só não o aborrece? Nem um pouco?

- De forma alguma. Já disse Benjamin Franklin certa vez – bateu algumas vezes com a mão esquerda sobre uma pequena pilha de livros ao seu lado - "Livros e solidão: eis o meu elemento". Não preciso de praticamente mais nada. Só ar... e, às vezes, uma comida que o estômago mal aceita. – Respirou fundo, olhou para o homem e lhe apontou a cama inferior do beliche para que ele se sentasse; Prosseguiu – Além do mais, o que é a solidão senão um deserto que cada um povoa à sua própria vontade? Por isso mesmo considero o confinamento melhor do que as lembranças.

- Como assim? – Indagou o homem, agora sentado, rendendo-se com interesse às palavras daquele senhor – Não lhe faz bem lembrar de momentos melhores do que esses de agora, que possa ter passado lá fora?

- Absolutamente. Por mais que você pense isso, as recordações não abreviam os nossos desertos; pelo contrário, aumentam-nos. Também... não tenho muitas recordações. Parece-me que estou aqui desde sempre.

- Há quanto tempo está aqui? Aliás, e VOCÊ, por que foi preso?

- O tempo que estou nesse lugar não importa verdadeiramente nada. Por mais contraditório que possa soar isso que vou dizer agora, ser condenado e preso significou para mim absolvição e liberdade. – Respirou bem fundo, calmamente, e disse com toda certeza e segurança que a experiência poderia configurar-lhe: - Estou aqui por que não soube avaliar minhas responsabilidades. Não soube fazer crescer dentro de mim mesmo forças vitais e existências extraordinárias.

O homem não entendeu absolutamente nada. Esforçou-se, tentou interpretar de diferentes formas as palavras daquele senhor, mas simplesmente não podia compreendê-lo. Sendo assim, ele perguntou aquilo que o homem grisalho já sabia que seria perguntado – e que esperava pacientemente para responder:

- Seria mais fácil você me dizer o que fez. Não vejo sentido nisso que acaba de dizer. – Retrucou em tom desapontado.

- Não poderia, alguém de espírito livre como eu, ter contemplação com suas fraquezas, ter compaixão dos outros ou de si mesmo. Isso me era inominável. A palavra de ordem era endurecer! Fazer do meu interior, do corpo e da mente, uma intransponível couraça, capaz de desviar de meu pensamento o sentimentalismo e a piedade. – Praticamente declamou o senhor, numa elogiável emoção. – Dito isso, o que fiz não importa. Meus cabelos grisalhos muito já me ensinaram desde aquele tempo.

- E quando você percebeu que o que tinha feito não era certo? Mais do que isso, como consegue avaliar hoje suas atitudes de forma tão serena? Não são apenas a idade ou o amadurecimento os responsáveis por isso. – Perguntou o homem, agora embebedado em interesse.

- Não percebi. Eu acreditava que poderia tentar ser feliz fazendo as coisas que me faziam feliz, mesmo sendo estas coisas horríveis. Do meu ponto de vista, a minha felicidade era legítima, como é a de todos nós.

- E, seja lá o que você fez, matar, roubar, enfim, prejudicar os outros lhe fazia feliz? Tento até compreender quem faça isso por meio de sobrevivência ou necessidade... ódio, enfim... mas por alegria e satisfação? Isso é hediondo.

- Hediondo... – sorriu ele em tom irônico - hediondo e completamente antinatural seria alguém escolher ser infeliz de maneira consciente. Decidir não fazer aquilo que satisfaz seus prazeres. A maioria das pessoas força a infelicidade a si mesmo, e vive exatamente assim, sacrificando-se, reprimindo-se, limitando-se. Aprisionando-se de forma mais brutal que esta em que nos encontramos aqui.

- Isso é um absurdo! É absolutamente ridículo isto que está falando. – completamente envolvido, o homem prosseguiu – O que está dizendo não passa de uma tentativa de legitimar o que fez. Você quer justificar seu erro.

- Como eu disse, meu caro, meus cabelos grisalhos muito me ensinaram. Naturalmente, hoje já não imagino que roubar, ou matar, como você disse, sejam atitudes aceitáveis. Mas creio que assim como a minha felicidade tempos atrás estava aliada a um comportamento, vamos dizer, desonesto, a felicidade de qualquer outra pessoa depende em se defender deste comportamento alheio.

Enquanto o homem ainda absorvia aquelas palavras, o senhor levantou-se, abriu bem lentamente os braços e girando-os no ar disse:

- E a sociedade, esta hipócrita sociedade finge impedir que seus membros privem as liberdades uns dos outros. O que vemos é que, no fundo, cada um tem que defender a sua felicidade. Aquele que a persegue cometendo as atrocidades que o fazem feliz deverá ser excluído; e os que a perseguem tentando permanecer vivos e estáveis em toda a sua perfeição combatem veementemente o mal! E o encarceram na forma de seus fazedores, para todo o sempre!

O homem ainda estava abismado com o teor das idéias daquele senhor, mas estranhamente – embora divergisse do conceito em sua essência – conseguia ver em suas expressões, e em suas palavras ainda soltas no ar, uma clara indignação... uma crítica, pelo menos em parte, bem dirigida à sociedade humana. E enquanto ele pensava em um jeito de expressar sua discordância, continuou o senhor, ainda mais exaltado:

- Pronto! Estão todos a salvo do mal!

O senhor parou por um longo instante, levantou a cabeça e pôs-se a olhar para o teto, sorrindo. E então, voltou-se ao homem, que estava atônito, mas absolutamente inebriado por aquelas palavras, e continuando com sua belíssima proclamação... como um ator de teatro recitando um triunfal monólogo, deu um extenso suspiro e disse:

- Você e eu, atrozes facínoras, como tantos outros, estamos a final de contas finalmente suprimidos, não representamos mais uma ameaça!

O homem ensaiava dizer uma ou duas palavras quando o senhor prosseguiu:

- Ah, eu sei! Não é lindo? Está, portanto concebido – metafisicamente! - o momento em que o Homem se apressa em assumir o poder na Terra em sua totalidade. Seja de forma negativa, considerando-se os criminosos, como nós dois; seja de forma positiva, considerando-se a grande corporação governamental! O conjunto de leis e disposições que servem de garantia à segurança da coletividade. É mesmo primoroso!...

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