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JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA






COMEDORES DE SOBRAS

                                     No penúltimo halo da antemanhã,Pessoas saem de seu humilde viveiroPara buscar o combustível do corpoEm um quase longínquo desterro.  E, ao chegar a seu destino,            A feira,Esperam pacientementeO ocaso da efervescênciaDa harmonia desarmônicaDos sóis de quem vende e de quem compra.   Então, quando advém a hora ansiada,Afluem sôfregas ao encontro do tapeteDe frutas, legumes e verduras        Que cobre o chão Onde, sob os afagos rudes do dia-a-dia,Rodas, sapatos, pés desnudos ou de sandáliasApressada e inescrupulosamente pisam.  Ah, e como a fome delas                É canina e ao mesmo tempo conformista:Um ancião desempregadoAmaina o vácuo em sua barrigaCom uma suculenta manga dormida.Ah, quando alguém se deparaCom a horrenda fronte da fome  ------ Sentada no trono de sua opulência ferina ------Deslinda que o nojo é luxo;Não uma alameda a ser seguida.   Algumas, ao regressar a seu ninho,Comutam refugo em lucro:O que na feira era lixo;Na carente vila de casebresÉ auspicioso fruto rentável, celeste, divino.    No entanto, para a hoste de grisalhasBarbas engravatadas e garbosas,Este paraíso da lídima e visceral misériaÉ nada mais que um moribundo resquícioDe seu passado sem rosas e azaleias.  Não, mas estas pessoas:Estas pessoas sabemQue a miséria cintila até o pontoEm que assoma a dor nas vistas;Que ela é viva, concreta, fenece, fere, Queima e alucina.E ela o faz de inúmeras maneiras:Maneiras que a mais poderosa verveNunca sequer imagina.  Sim, todavia alheias aos mais atrozes sofismas,Elas prosseguem crentes na vida:Sempre a segurar a ponta do raboDaquilo que crêem ser a esperança,Apesar do crepúsculo, das mazelas,Das chagas em abundância,Da dor, da amargura e da desabonança!Enfim,  elas prosseguem,Mesmo com o mar infinito de desamor,De inclemência, da ausência de ternuraE do culto da sentimental distância.   Sim, estas belas pessoas continuam a hastear,Embora não saibam,O estandarte do vislumbre de uma vindoura era magnânima.     JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA http://bocamenordapoesia.webnode.com.pt/  ·                                 http://twitter.com/jessebarbosa27    

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