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Vladimir Luís de Oliveira






A MORTE DE CAIM NOS PERGAMINHOS DO MAR MORTO

Abel e Caim jamais existiram.  Cristãos e judeus com certeza parecem não compartilhar esta mesma opinião e tomam o Gênesis como instrumento de negação desta assertiva.

Na tradição judaico-cristã Abel aparece como o herói escolhido por Deus.  Caim é o renegado, identificado ao espírito das trevas.  Levado pela ira e pelos ciúmes teria matado Abel e caído em desgraça. Esta é a versão da história que foi moldada na tradição do Ocidente. Esta é a visão dominante.  Caim fora silenciado e condenado pela narrativa tradicional.

 Os livros sagrados de diferentes culturas são repletos de lendas e de conflitos entre irmãos. Na História da fundação de Roma, por exemplo, Rômulo mata Remo e se confirma como primeiro rei da história deste reinado.

Abel e Caim reproduzem mais um capítulo deste arquétipo universal. Estas lendas que se perpetuam no tempo histórico são ícones do inconsciente coletivo e como tal, possuem elementos de realidade. Porém, estes sujeitos bíblicos não eram indivíduos históricos como é comumente compreendido. Na melhor das hipóteses, eram sujeitos coletivos ou sociedades humanas com trajetórias distintas e culturas diferenciadas que se formaram ao final do Neolítico.

Indícios deste apontamento estão na transcrição de um raríssimo documento apócrifo que compõe o acervo dos pergaminhos do Mar Morto. Escrito em aramaico primitivo, em torno do séc.III a.C., quase fora destruído no fim dos anos 50 por saqueadores que tentaram vender suas partes separadamente. Este documento foi recuperado por um comprador turco de antiguidades, chamado Kalil Kassib que, após muitas negociações, cedeu em sigilo para a equipe de arqueólogos da Universidade Hebraica de Jerusalém por um valor que não foi divulgado. Todos envolvidos no projeto achavam que este pergaminho seria traduzido e publicado. No entanto, como ele poderia abalar as estruturas das grandes macro-religiões ocidentais, seu conteúdo foi silenciado e o pergaminho está oculto em algum lugar não divulgado, provavelmente em algum cofre de um banco suíço.

Após uma longa narrativa da criação, o pergaminho sustenta que os herdeiros de Eva vieram por formar dois reinos antagônicos. O primeiro, conhecido como o Reino de Abel podia ser identificado com a acumulação de bens e de riquezas, com o sacrifício de animais e com a carnificina. O grande Deus ao qual representavam e idolatravam era um deus masculino criador da natureza, vingativo e destruidor ao mesmo tempo. Era muito mais temido do que amado. Eram descendentes dos grupos que faziam sacrifícios humanos e que, num dado momento, fora substituído pela imolação de animais em altares de pedra. Mas nem por isso deixavam de praticar um canibalismo “ritualístico” após a cerimônia na mesa de sacrifícios. Os animais sacrificados eram devorados como que por chacais sedentos de sangue. Não identificavam os seres da natureza como sujeitos e sim como objetos a serem subjugados segundo o livre arbítrio de seus carrascos.

O segundo reino descrito no pergaminho era o de Caim. Contrariamente ao primeiro, era de tendências matriarcais, devotado ao Espírito Feminino da natureza e dedicado a prática da agricultura. Tratavam os animais como manifestação do espírito universal, dignos de existência no mesmo plano que os homens e as mulheres. Viviam do cultivo e da coleta de subsistência. Era um povo simples e feliz. Viviam em harmonia e praticavam o espírito da não-violência. Quando morriam não sepultavam seus mortos. Estes eram levados em rito fúnebre ao cume das montanhas, onde eram dissecados e oferecidos aos animais como alimento para dar continuidade ao ciclo da natureza.

Esta narrativa contradiz peremptoriamente o Livro do Gênesis ao sugerir que não foi Caim quem matou Abel, foi o reino de Abel que subjugou o reino de Caim. Templos foram destruídos, homens foram mortos ou mutilados, mulheres e crianças foram vendidas como escravas. A agricultura foi incorporada à lógica patriarcal e as terras comunais foram substituídas pela propriedade privada. O sacrifício de animais generalizou-se e se tornou prática comum. Mesmo hoje os ritos festivos como em casamentos, batismos, Natal ou Ano Novo, não é incomum que animais mortos sejam expostos nas mesas de banquetes em encontros familiares: marcas ou reminiscências destas antigas tradições.

 Desde então, com a vitória de Abel, as mulheres ficaram submetidas às regras do patriarcado e as relações de gênero. Estas foram esculpidas com a força da tradição em todas as mentes e em todo o corpo social para que os homens passassem a exercer papel proeminente. Os templos e os sacrifícios à deusa mãe ficaram proibidos e a crença em um deus único masculino representado como grande arquiteto do universo generalizou-se.

Neste sentido, a sucessão dos patriarcas do Antigo Testamento nada mais foi do que a presença em diferentes momentos de líderes tribais que levaram a cabo o projeto de homogeneização do patriarcalismo sobre as cinzas do matriarcalismo.

Estas foram às conseqüências da morte de Caim, oferecido em sacrifício ao deus patriarcal no altar de pedra do Rei Abel e que estruturam ainda hoje a mentalidade do homem na pós-modernidade: a predominância do masculino sobre o feminino, da razão sobre a intuição, da propriedade coletiva pela propriedade privada, da partilha pela concorrência, do imperativo da lei sobre o espírito da liberdade...

Hoje, porém, assiste-se a uma crise crescente deste modelo patriarcal. Há certa mística no ato de quebrar os potes de barro que protegiam os pergaminhos do Mar Morto, como que se promovesse a liberação dos espíritos ancestrais das sociedades matriarcais. O conflito entre os reinos de Caim e Abel renasce novamente, só que agora com mais vigor neste novo século. O fim desta história ainda está para ser contado. 


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