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Paulo de Faria Salgado






Nossa Senhora do Perpétuo Desejo.

Como todo bom pobre emergente, estava eu no meu quinto cruzeiro pelo litoral brasileiro e, pela segunda vez, em um daqueles “ancorado” no show de algum artista famoso (basta ir a um e dizer que já foi a vários – são todos iguais) e a maioria vai, acreditando:  - Que na certa irá se encontrar com alguma destas celebridades no restaurante, no café, no deck, nos corredores e, quem sabe, até bater um longo papo com elas. Tudo ilusão. Os mais ferrenhos dos adeptos destes cruzeiros-shows e que todos os anos estão lá, confirmam nunca conseguirem vê-las em qualquer dependência do navio. Na hora do show é que elas surgem do nada, assim como um passe de mágica. Para, ao final, retornarem ao esconderijo sem deixar vestígios por onde andaram. Parece que ficam trancadas em algum compartimento (deve ser alguma cabine digna de um árabe magnata do petróleo) que nem o capitão do navio sabe qual é. Ouvi dizer, que até as refeições, requisições, suprimentos, etc., são colocados por uma pequena abertura na parede – como nos motéis quando se solicita alguma coisa. Limpeza, arrumação e demais serviços, nem pensar. Afinal, todas têm lá suas superstições e manias. Mas, naquela madrugada, alimentando a minha insônia crônica, apreciava a escuridão do oceano quando a beleza das luzes de Búzios no continente me levou a reflexão sobre meus anseios e frustrações de até então. Meditava sobre como pedir ajuda, curvava-me a necessidade de retornar a religiosidade, precisava recorrer a algum ministro de Deus (pois este já anda tão sobrecarregado), a algum santo.  Não queria muito famoso, como São Jorge, Santo Expedito, São José, São Benedito, Santa Bárbara, ou outros mais que arrastam multidões a seus templos, estão na mídia a toda hora e etc. Queria um que precisasse de fiéis, que eles mesmos “rezassem” para aparecer algum mortal que acreditasse e lhes pedisse alguma graça, alguma ajuda e, em atendido, servisse de agente multiplicador propagando sua santidade e seu nome. Voltei para minha cabine, fui para o computador e comecei a pesquisar na internet. Ah, bendita internet! O que seria do mundo sem internet? Pesquisa daqui, pesquisa dali, e encontrei um santo e uma santa que me chamaram a atenção. O santo foi o Cristo Negro de Esquipulas, da cidade de Esquipulas na Guatemala. É a única imagem de Cristo na cor negra que se tem conhecimento. Mas não se encaixava no que eu procurava. Já está conhecido mundialmente, arrasta multidões à cidade que lhe dá nome, são vários os milagres atribuídos a Ele e sua popularidade o sobrecarrega para atender ao pedido de um brasileiro qualquer. A santa é Nossa Senhora do Perpétuo Desejo. Esta sim parecia ser ideal para meus objetivos de renovação da fé religiosa.   Invoquei-a e passei a confessar-lhe minhas frustrações e anseios. Pedi-lhe que, sem incomodar muito ao Todo Poderoso, que intercedesse ou Ela mesma conseguisse que eu realizasse meus desejos. Rezei dez Ave-Marias e dez Pais -Nosso – únicas orações que aprendi e não esqueci mais – e fui dormir (dormir?). Quase dois anos se foram e muito pouco daqueles pedidos feitos à Santa se realizaram, principalmente o relacionado ao bicho-de-pé e ao livro escrito, lançado no final do ano passado. Foi aí que esta semana, resolvi invocá-la e saber o porquê de não ser atendido. Juro que ouvi sua voz respondendo-me: - Meu velho. Tu me pediste saúde para toda tua família e eu te dei, não é mesmo? - Pediste para resolver aquele problema com a Receita Federal e eu atendi, não foi? - Pediu para continuar tendo paciência com os netos e com a tua mulher, e dei-lhe resignação. Afinal, eles são frutos do que plantastes. - Rogou-me punição para os políticos corruptos, mas esquecestes que se for puni-los, haverá superlotação no inferno e, além do mais, nem o Diabo os quer lá – não posso fazer nada.  - Quanto ao bicho-de-pé: pensei que havias se enganado quando me pediu para continuar com o bicho-de-pé e, portanto, te curei. Não vais mais ter bicho-de-pé e podes andar na areia da praia à vontade. Ficaste curado. Por que reclamas? - Por fim, seu grande desejo era escrever seus “causos” vividos e lançá-los em livro. Eu atendi e você lançou o livro. Mas, torná-lo um “best-seller” e ganhar dinheiro com ele? Meu velho, isto nem o Homem lá em cima pode dar um jeitinho. Só milagre e eu sou Santa, não sou milagreira. Vai ficar só no desejo. Tens que melhorar muito e, afinal, preciso justificar o meu nome – Nossa Senhora do Perpétuo Desejo.                                                                    *****************************  

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