Larissa de Araujo Silva






A interface entre o filme "O Senhor das Moscas" e a Psicologia Organizacional: teoria e prática.

O filme “O Senhor das Moscas” (1990) é uma história baseada no livro homônimo do autor inglês William Golding, publicado em 1954. A produção conta a história de um grupo de meninos de um colégio interno militar, que após sobreviverem a um desastre aéreo, ficam perdidos em uma ilha sem nenhum adulto por perto, sendo obrigados a lutarem por sua sobrevivência, a partir daí, uma série de eventos vão se desenrolando.

A obra de William Golding permite uma interpretação crítica sob a luz de várias disciplinas das ciências humanas: ética, filosofia, psicologia, que têm como objetivo em comum, se debruçarem sobre a temática das relações humanas com seus pares. Dentre os vários campos da psicologia que podemos usar para essa interpretação, podemos destacar o campo da psicologia organizacional, pois vários dos conceitos trabalhados por esse campo, podem ser identificados no filme.

Um desse conceitos é o conceito de grupo. Grupo pode ser definido como um conjunto de pessoas em relação umas com as outras que se uniram por um objetivo em comum, o grupo se caracteriza por suas leis de funcionamento interno e pela dinâmica do grupo. Esse conceito pode ser identificado logo no início do filme, pois assustados com o ocorrido e perdidos em lugar completamente desconhecido, os meninos organizam-se e passam a exercer um trabalho adjunto para acharem comida, água, fazer uma fogueira e construir um acampamento, além de assentirem que é preciso criar algumas regras. Todos eles têm como objetivo em comum, nesse primeiro momento, sobreviverem e serem resgatados da ilha.

Uma questão que também se coloca no início do filme é a definição de quem será o líder. Os candidatos são Jack e Ralph. Alguns meninos preferem que Jack seja o líder, afinal, ele é o mais velho, porém a maioria do grupo decide que seu líder seja Ralph, já que ele ocupava esse lugar na escola militar. Nessa cena, conseguimos identificar o conceito de poder. O poder é uma relação de dependência, é a capacidade de exercer influência sobre indivíduos e grupos, ele é um processo natural dentro de um grupo. Conforme os estudiosos da temática, há cinco bases de poder, as duas principais que podemos analisar no filme é o poder legítimo e o poder coercitivo. 

A partir do momento que Ralph é escolhido pela maioria do grupo como líder, ele passa a ter o poder legítimo, isto é, o grupo identifica nesse outro um alguém que tem condições de estar à frente da coletividade. Ralph possui as características de um líder legítimo, ele é compreensível, trabalha pelo bem estar do grupo, determina os níveis de responsabilidades, delegando os que irão caçar, os que irão proteger a fogueira, e os que irão cuidar do acampamento, busca sempre manter o grupo focado no objetivo definido, nesse caso o de sair da ilha, procura manter o bom convívio e a tranquilidade no grupo, mesmo diante do medo e das incertezas que estavam passando.

O estilo de liderança que Ralph apresenta também reflete diretamente no clima do grupo. O clima é uma atmosfera psicológica que se estabelece a partir de fatores internos e externos, pontuais, e que se modificam. A partir de uma liderança consciente, os integrantes identificam-se com o grupo e desenvolve-se, a partir disso, um “espírito de grupo”, com sentimentos de cooperação e solidariedade.

Para Lapassade (1984), o grupo se caracteriza por uma unidade de comunicação e interação pelos participantes. A comunicação interpessoal é a comunicação de pessoa para pessoa ou grupo de pessoas. O conceito de comunicação interpessoal e organizacional é elucidado no filme com a emblemática cena da conha, em que fica estabelecido como regra, que para falar, o indivíduo deverá ter a posse da concha, isso garante que todos os integrantes tenham o direito de expressar sua opinião e possam ser ouvidos. A ideia de convocar uma assembleia para as discussões, também funciona como uma tentativa de trabalhar a comunicação interpessoal, e para além disso, simboliza a democracia no grupo.

Ainda para Lapassade (1984), o grupo morre /ou se dispersa quando não há mais objetivos em comum a atingir. Enquanto Ralph se mostra concentrado e preocupado com o bem estar do grupo e com o objetivo de serem resgatados, Jack está se divertindo com os outros meninos, acreditando não ser possível serem encontrados. A cisão do grupo é explicitada na cena em que um avião sobrevoa a ilha, sendo a chance que o grupo tanto esperava de poderem ser resgatados, mas a chance de serem salvos se esvai, quando Ralph constata que os responsáveis pela fogueira deixaram-na se apagar para ir caçar porcos. Nesse momento, a ideia de um único grupo se quebra, e passa a existir dois grupos na ilha, o de Ralph, cujo objetivo é a sobrevivência, e o outro comandado por Jack, cujo propósito é a caça e a diversão.

Se Ralph representa o poder legítimo em todas as suas características, Jack, por sua vez representa o poder coercitivo. Ele usa se utiliza do medo e do assédio para manter seu grupo, como na cena em que conta histórias de terror para os outros meninos, mesmo sabendo que eles já estavam fragilizados e apavorados pelo momento. Sem ter outra figura de proteção, uma parte do grupo sente-se sozinho e desprotegido, tendendo a buscar outra figura que lhes deem a possibilidade de se sentirem vinculados, além disso, Jack também exerce o poder paternalista de dependência, ao prometer proteger e trazer a carne para seu grupo, ele se aproveita da fragilidade dos outros integrantes e aos poucos vai conquistando mais apoio. Com isso, Jack vai legitimando sua autoridade autocrática através do vínculo emocional de dependência, como um pai, estabelecendo um novo lar para os meninos, como na cena em que eles cantam ao redor da fogueira “[...] gostamos de morar aqui, encontramos o nosso lar.”, e através do medo, como na cena em que um dos meninos alega que não existe mais o monstro, mas Jack diz que poderia haver outros e eles deveriam estar sempre atentos.

No grupo de Jack não existe uma comunicação democrática, mas sim uma comunicação de cima para baixo, quem ousasse se oposicionar contra sua autoridade, era punido com castigos físicos, como na cena em que um dos meninos é chicoteado.
           
O grupo de Jack, talvez pudesse ser comparado à irracionalidade de uma multidão, pois sendo a multidão formada: “sob a ação de uma emoção ou um impulso comum, um agregado físico de pessoas, transitório e instável, é capaz de uma ação conjugada”, percebemos as semelhanças na cena em que os meninos dançam ao redor da fogueira e brincam de matar o porco, o que acaba culminando no assassinato de Simon, pois nesse momento há uma contaminação que leva os meninos a terem uma conduta que eles não teriam individualmente, há uma emoção irracional compartilhada.

Próximo ao final do filme, após a morte de Simon, Piggy questiona Ralph se não seria melhor eles dois se juntarem ao grupo de Jack, pois não conseguiriam sobreviver sozinhos, essa cena demostra a intrínseca necessidade humana de estar em grupo. Piggy e Ralph vão ao encontro do grupo de Jack levando a concha numa tentativa de reestabelecer algum diálogo. Quando Piggy alega que a atitude do grupo precisa ser revista, pois se ela for mantida eles não conseguirão sair da ilha, podemos observar uma tentativa de estabelecer uma autoanálise do grupo, pois somente dessa forma eles poderiam transformar a realidade que estavam vivendo, mas para Jack, a concha não representa mais a chance de entendimento, essa cena explicita que a partir do momento que não há mais comunicação no grupo, qualquer possibilidade de entendimento se desfaz.

Relacionando a reflexão feita sobre o filme a partir dos conceitos trabalhados pela psicologia organizacional, com as vivências cotidianas, uso como exemplo minha experiência em dois estágios distintos. Em um estágio, não havia nenhum tipo de comunicação com a coordenadora, ela nunca estava presente e não respondia as ligações, sendo assim, havia muito atraso e complicações nas questões mais burocráticas a serem resolvidas, como por exemplo, em relação à bolsa permanência dos alunos e até mesmo quando surgia algum problema que os estagiários não sabiam como resolver, essa situação me desanimou a permanecer no estágio, pois eu sentia que havia um descaso por parte da coordenadora em relação aos seus estagiários e percebia que naquele grupo não havia a figura de um líder. Em outro estágio, por sua vez, a coordenadora participava ativamente das reuniões, orientando o grupo sobre qual era a melhor decisão a ser tomada, solicitando feedback sobre as reuniões e enfatizando a importância da opinião de todos para a construção dos projetos. A presença real de um líder nesse grupo proporcionava um espaço de desenvolvimento das atividades.

Sendo assim, é importante nas organizações fazer uma autoanálise do grupo, refletindo como as relações de poder que se estabelecem refletem na interação do grupo, proporcionar um espaço de comunicação e escuta, estimular as relações de cooperação em prol do alcance do objetivo da empresa, e buscar uma liderança que esteja ao lado de todos, não acima.

Por fim, o filme “O Senhor das Moscas” (1990), é um clássico que permite uma série de interpretações críticas. Sob a luz da psicologia organizacional, pôde-se identificar como os conceitos de grupo, poder, liderança, comunicação interpessoal e organizacional, clima e multidão, aparecem na obra. Além disso, também pôde-se aproximar esses conceitos de vivências cotidianas permitindo, assim, um exercício de expansão da teoria para a prática.
 
 
 
 
 
 
 

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