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Airo Zamoner







O Encontro com Arminda

Se Arminda saísse de casa, levantaria suspeita. Mas tinha que sair. Encontro marcado não se falta, muito menos um encontro desses. Excitava-se com a idéia. Esgueirava-se pela varanda, olhava lá longe, balançava o corpo agarrando-se às colunas, rodopiando como criança. Na verdade, sua cabeça é que rodopiava tal qual menina tola. Na cozinha, a sogra ocupada com panelas e panos olhou-a de lado, soltou resmungos que Arlinda fingiu não perceber e arriscou um gentil precisa de ajuda? para receber um nem pensar, você só atrapalha, onde meu filho estava com a cabeça. Como disse? A sogra nem respondeu. Nunca respondia. Só resmungava. No quarto, o traste do marido dormia, roncando sem parar como um suíno. Quando ela puxou a ponta do bigode, ele reagiu ameaçando um tapa, como que a espantar mosquitos. Virou-se. O ronco parou. Resmungou alguma coisa, como resmungava a mãe lá na cozinha. Voltou a roncar. Arminda só pensava em sair. Ir ao encontro. Já imaginou o que faria a sogra? E o traste, quando levantasse? Seria o inferno, mais uma vez. Correu para fora, o sogro partia lenha, sorriu para ela, era o único que sorria naquela casa, ela retribuiu, ele encostou o machado no chão, puxando o lenço que exibia suas pontas no bolso de traz da calça corroída onde Arminda tinha bordado o nome dele: Frederico. Sério, esfregou-o na testa. Sobraram gotículas. Ela se aproximou, pegou o lenço com delicadeza. Deixa. Eu faço isso. Enxugou-as carinhosamente. Ele sorriu novamente, retornando ao trabalho. Ela ficou mais um pouco, olhando e se perguntando por que aquele traste não tinha nada de parecido com o pai, mas o pai era surdo-mudo, talvez por isto fosse tão gentil, talvez por isto a sogra fosse tão rabugenta. Saiu aos pulinhos. O vestido leve esvoaçava, deixava exposto aquele par de pernas fortes, roliças, lindas, sensuais. O velho largou o machado mais uma vez, admirando Arminda se afastar. Balançou a cabeça como quem diz não, mas não era não que ele dizia. O gesto vinha junto com um risinho, daqueles que pai dá para filho sapeca. Arminda passou novamente pela cozinha. Sentou-se naquele caixote de lenha. Desleixada, abriu as pernas de propósito, afundou as duas mãos no vestido entre as pernas, joelhos à mostra, coxas à mostra, tamborilou com as mãos para chamar atenção. A sogra virou-se. É uma desavergonhada mesmo! Arminda riu à vontade, saltou do caixote, correu para a varanda, olhou o horizonte, dava para ver os prédios de Curitiba, espalhados como um joguinho de montar, só que sem cores, todos pareciam brancos ou cinzentos, mas era para lá mesmo que ela queria ir. O encontro era na Rua das Flores, ela levaria flores, ela ganharia flores, ele a chamaria de flor como foi da primeira vez, quando passou pela porteira naquele carro tão lindo, depois voltou, largou o bilhete, marcou o encontro. Não conseguiu ver o rosto. Nem se era bonito ou feio, se era moço ou velho, era só um vulto atrás dos vidros escuros. O pensamento voava longe, a batida do relógio da igreja sacudiu sua calma, estava na hora, mas como ela poderia sair sem levantar suspeitas? Se ao menos o traste não fosse um traste, ela não pensaria em fugir, mas era um traste e ela precisava daquele encontro. Talvez o príncipe nem fosse ao encontro, estava só brincando com ela, fazendo pouco caso de uma mulher. Mulher? Ainda se achava menina. Menina triste, vivendo com um traste. Menina quimera, agüentando a megera. Ao menos tinha aquele sogro lindo, gentil, amável, sorridente. O relógio bateu mais uma vez, lá na torre. Teria que desistir do encontro. Tudo acabado. Só tristeza no rosto de Arminda. Sentou-se nos degraus, olhando a porteira. O mesmo carro passou devagar! Sentiu sufocar! Um papel colado no vidro. A mensagem escrita às pressas. Vem comigo! Ela olhou lá para dentro da casa, pensou no traste, correu, a porta de trás do carro se abriu, entrou, coração aos pulos, rodaram quase uma hora inteira. Tentou abrir a porta, travada! Tentou falar com o motorista, uma parede os separava. O carro parou numa casa linda. Riquíssima casa. O motorista desembarcou. Abriu a porta. Arminda desceu como princesa. No alto da escada, alguém a esperava de braços abertos. Era velho, mas não muito. Era lindo como um príncipe. Sorria. Subiu degrau por degrau. Ele continuava lá. Braços abertos. Chegou mais perto. O príncipe tirou o lenço do bolso. Era Frederico.

Airo Zamoner é autor do livro “Contos de Curitiba”

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