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Elisabeth Silva de Almeida Amorim






CORPO VIVO: ENTRE TAPAS E BEIJOS...

        Será que o ser humano sabe o limite exato do controle de suas emoções? Até que ponto as pessoas podem chegar para concretizar um desejo de vingança?  O homem é um produto do meio ou produtor do seu próprio habitat?
       O romance do baiano da região cacaueira Adonias Filho (1915 – 1990) intitulado CORPO VIVO(1962)  acende  esses questionamentos através do protagonista Cajango, uma espécie de homem-fera treinado para matar e fazer justiça contra os jagunços e envolvidos com a morte da sua família.  Por conflitos causados pela terra fértil para o plantio de cacau,  a ganância pelas terras dos vizinhos aumentaram  e marcaram um período na região Sul da Bahia, espaço retratado no romance.  Bilás resolvem aumentar o patrimônio utilizando ilegalmente as terras dos Januários, para tal, encomendam a execução sumária de toda a família.
        Cajango, filho de Januário e único sobrevivente do massacre,  é levado para ser criado por o tio Inuri, um índio revoltado que lhe ensinou odiar e vingar cruelmente de todos os envolvidos. E foi para isso que a “fera” viveu desde criança  fora do convívio social, tornando-se uma espécie esquisita, cabelos compridos, traços rústicos e de uma perversidade indescritível.
        A trama do romance é para as ações de Cajango que ao tornar-se adulto criou um bando de justiceiros, aterrorizando as pessoas por onde passava, revelando-se o monstro feroz que habitava em si. As vítimas não morriam rápido, havia uma crueldade em suas ações sanguinárias , como fez com um dono de pensão que não forneceu a informação necessária e foi jogado para  cães ferozes e famintos no meio de uma praça como intimidação para os moradores.
       Para  Cajango   a vingança  nunca se acabava, restavam os filhos, netos, amigos...E foi nessa caça aos parentes de seus opositores que Cajango conhece Malva e começa a sentir pela primeira vez a vontade de colocar o homem que havia em si e aprisionar a fera para sempre.  E ai? Será que Malva deveria ser morta por  pertencer uma família que ela não havia escolhido? Cajango fica dividido. Prossegue a sua vingança ou  vai rolar na grama com Malva? Com o rastro  de sangue  derramando, Cajango  tornou-se também o inimigo número um de muitos poderosos.  Ele que nunca havia encontrado ninguém que o olhasse como homem encontra em Malva a única chance de humanizar-se e apagar de vez o passado. E é isso que Cajango decide fazer. Viver aquele sentimento  adormecido por tantos anos.
       Claro que a sua atitude não foi aceita pelo tio, pois não criou a fera para ser amansada por uma mulher parente de inimigo. E começam as disputas internas no próprio bando, pois Inuri via  Malva como uma inimiga que interrompeu o caminho de seu sobrinho, pois com a presença dela o bando foi desfeito. Cajango, envolvido com Malva desiste da  vingança, atitude que revoltou o tio e para proteger-se e também a sua amada, tira a vida do seu tio.
         Cajango e Malva correm para a mata, uma serra impenetrável  para os estranhos, só mesmo ele que passou toda a sua vida naquele espaço sabia de todos os esconderijos daquele isolamento. E assim eles podiam viver livremente e isolados de toda a civilização, afinal foi um corpo vivo que escolheu o amor.
          Cajango ao desistir de continuar as andanças aterrorizando e vingando-se a morte de sua família, mostrou o quanto a sua sede tornou-se pequena diante da fonte da vida que ele havia descoberto. Antes dela, ele não se percebia gente, não se percebia homem. Com Malva o seu olhar é para si e para o outro. E ele se vê gostando de si. Cajango percebe que todos merecem uma segunda  chance. E ele não quis desperdiçar essa oportunidade, seu corpo exalava vida, ele estava vivo e poderia ser útil a alguém e em algum lugar.
         Não resta dúvida que Malva tem um papel de suma importância no romance, ela é uma mulher que consegue acordar um homem que estava morto para si mesmo.  Ele pode buscar a paz interior a partir do presente, porque é evidente o conflito interno vivido pelo protagonista  movido pela sede de vingança. Ela não poderia mudar a sua condição, a sua linha de parentesco com os inimigos de Cajango, mas ele sim, poderia vê-la e julgá-la daquele presente em diante.  E foi com a determinação de uma fera enjaulada que Cajango abraça a vida e corre para aproveitá-la cada instante. E se naquele momento ele tinha com quem contar, abraçar, fazer planos, chorar, foi porque ele se permitiu.  No romance de Adonias Filho “a fera” preferiu o calor humano a solidão.
 Já li alguns comentadores desse romance atribuir a mudança de Cajango exclusivamente à mulher, discordo. Não vejo mulher ou homem capaz de transformar o outro, cada ser só se modifica quando quer,  a conscientização dos próprios atos é o primeiro passo. Quando o ser naturaliza a violência não tem como sentir a dor do outro... Se Cajango não  percebesse que estava matando inocentes, não começasse a sentir o prazer pela companhia feminina,e dá um crédito a si mesmo, Malva seria mais uma vítima nas garras da fera. Inteligente, Cajango substituiu os tapas pelos beijos de Malva.
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                              Bahia, jan. 2014

                             Obrigada pela leitura. 

                              Abraços baianos!
                                      
 
 
 
 
 
 


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