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Luiz C. Lessa Alves






COLCHA DE RETALHOS

É janeiro. Foram-se festas, sonhos, ilusões... Mas, as férias ainda não acabaram. O verão

continua!

Isto é o que mais importa para os garotos de um povoado longínquo. Pedaço ínfimo e

largado, deste Brasil grande, desconhecido...

- Por que essa cara, filho?

- Nada não!

- Eu te conheço! Aposto que o jogo acabou porque Jaime saiu e levou a bola, não foi?

- Foi.

- Por que você e os outros meninos não jogam com a sua, e esquecem a de Jaime?

- Ninguém quer mais jogar com bola de meia nesse terreiro de areia fofa, mãe. Agora,

só querem com bola de couro, porque é grande.

- Filho, vive-se como se pode. Brinca-se com o que se tem.

- Mas não tenho brinquedo!

- Então faça alguma coisa! Crie! Invente! Não fique aí emburrado, dependendo dos outros!

- Fazer o quê? Não sei nada!

- Jaime também não!

- Mas ele tem tudo! O pai dá.

- Meu filho, ter tudo fácil, não faz bem ao físico, tampouco à cabeça!

- Por quê?

- Assim como a visão deixa outros sentidos lentos e ociosos; mãos cheias deixam o cérebro

vazio e preguiçoso.

- Queria fazer uma bola de couro, pião... Ah, uma porção de coisa! Mas não sei como!

- Vai aprender. Eu vou lhe ensinar.

- Quando?

- Depois. Agora olhe pr’esta colcha, que estou costurando, e me diga o que vê!

- Pra quê, mãe?

- Diga! Vamos!

- Ah, um monte de pedaços de pano emendados, feito bola de couro! Mas não é uma bola!

- Eu sei! São pedaços unidos formando um só objeto. Como nossas vidas!

- Que vida, mãe, é feita de pedaços de pano?

- De pano, não. Apenas pedaços. Retalhos da própria vida!

- De vida! E vida tem retalhos?

- Momentos vividos, filho, são retalhos. Estes pedaços estampados, coloridos representam

ocasiões felizes! Os cinzentos e pretos, dias... assim como o de hoje.

- Mãe, a senhora tá com os olhos vermelhos!...

- Provém da poeira do areal lá fora... Venha! Vamos fazer uma bola de retalhos. Bem

grande! Do tamanho de uma bola de couro.

- Mesmo, mãe?

- Sim. A partir de amanhã, vou lhe ensinar muitas coisas. E nunca mais quero você

amuado pelos cantos, ouviu?

- Eu não precisava fazer nada, se meu pai tivesse aqui. Ele me dava tudo!

- Já lhe disse: quem tudo tem, e nada faz, tanto o corpo quanto a mente se retraem!

- Não quero saber disso. Eu queria era meu pai comigo.

- Eu também. Mas não tá, eu cuido de você. E deixe ele em paz, onde está.

- Parece que a senhora não gosta quando falo de papai.

- Porque faz mal! Ficar falando de quem já partiu, leva sua alma a vagar.

- Nunca ganhei brinquedo. Só porque não tenho pai.

- Você também não sabe pensar noutra coisa, senão, brinquedo.

- Penso!

- Em mais o quê?

- Crescer. Ganhar dinheiro. Ter filho. E dar a ele muito presente no natal!

- José, meu filho, nossas vidas são como as plantas: nascem, crescem, morrem... e nem

todas florescem! Que Deus te abençoe! Que te faça florir e frutificar!

A vida continuou. Seguiu impávida, cavalgando sobre o dorso escorregadio do tempo...

Aquelas crianças cresceram. Deixaram para trás infância, adolescência e, com elas, a

liberdade. Tornaram-se homens. Cada qual arrumou sua trilha, buscando uma clareira na mata

rústica social.

Alguns trocaram o vilarejo por cidades grandes. A exemplo de José.

É dezembro. Chegaram as festas, sonhos, ilusões... Iniciam-se as férias. O verão bate à

porta...

- Pai! Mãe! Vem ver quanto presente papai Noel trouxe pra mim!

Puxando pelas mãos, levou-os até seu quarto.

- Veja! Uma bicicleta! Um autorama! Uma bola... é de couro! Vem, pai! Vem jogar

comigo! Mãe, venha ver!

Saiu apressado chutando a bola, acompanhado por Carmelita, nem se deu conta de que

José ficara sentada na sua cama...

- Vem, pai! Paaai! Cadê você? Venha!...

Não o vendo, Ailton retornou até onde o pai encontrava-se estático. Alheio. Afagando uma

colcha de estampas coloridas...

- Pai! você está chorando?

- Não, meu filho. Foram, apenas, remotos grãos de areia que me saltitaram aos olhos...

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