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Airo Zamoner






O aniversariante

O barulho infernal vinha lá da sala. Barulho bom. As idades se misturando nas conversas soltas. Sempre gostou dos aniversários em família. Os assuntos não eram assuntos, eram conversas mescladas de sorrisos e gargalhadas e quanto mais sem sentido, tanto melhor.
A correria dos pequenos, não tão pequenos, se espalhava por todos os cômodos, desviando pernas transformadas em colunas vivas numa dança coreografada pelo acaso.
– Você não vem, vô? - gritavam e batiam na porta.
O vô demorava de propósito. Queria curtir, gota a gota, aquela vida abundante a invadir suas dependências sagradas. Queria ver cada canto vasculhado, violado, rasgado, usado à exaustão, dando sentido à casa solitária dos dias comuns.
– Esperem um pouco. Já vou sair...
O matraquear dos pés pelo corredor, pela escada abaixo, era música a satisfazer os desejos íntimos de imitação impossível.
Pegou os pacotes de presentes. Lindos pacotes! Coloridos! Artesanados na noite anterior com o esmero borbulhante do amor infinito, impregnado em cada laço, em cada dobra, em cada pensamento fugidio de lembranças borradas a violentar a ordem que se foi perdendo aos poucos.
Os pacotes mal se equilibravam nos braços. Mãos ocupadas, ergueu o pé até a fechadura, destravando-a com agilidade juvenil. Saiu em malabarismos para não pisar nos pequenos que dançavam inquietos, envolvidos na brincadeira da hora.
Entrou na sala. Parou. Admirou o cenário. Filhos, filhas, genros, noras, netos, netas. Um séqüito de crianças, formando rodinhas, adultos a bebericar. As últimas piadas rodopiando alegria para descarregar as agruras da luta quotidiana.
Sentiu por dentro alguma coisa crescer sem limites. Um prazer sem doma arrebatou suas sensações ao ver todos ali, juntos, trocando abraços, trocando sorrisos, trocando fraternidade, trocando carinhos, aguardando por ele. A mesa abarrotada de tudo. O bolo exuberante, ansioso por destruição impiedosa.
Seu olhar se espraiou de leste a oeste, pesquisando as presenças, numa surda chamada escolar. Nenhuma falta. Todos ali, alegres como nunca, barulhentos como sempre.
Os pacotes pesando nos braços. As pernas paradas, doídas do cansaço crônico. As imagens a atravessar os olhos, penetrando no escuro da alma esvaziada. A música, prolongando-se no passado, morrendo no futuro, exposto cruelmente à sua frente. O esforço imenso e inútil para chegar à mesa, largar os pacotes. Os pacotes, percebendo os percalços incômodos, se põem a flutuar na mágica da vida, aliviando dores. As pernas se destravando para tornar o caminhar possível, leve, cada vez mais leve.
Atravessa a sala, sorrindo. Cada um ocupado com suas conversas. Conversas mudas, surdas, encobertas pelo alarido caótico. Ninguém percebe a dura travessia. Teria esquecido o pacote de alguém? Era a dúvida do momento, naquele ritual eterno de presentear às avessas quando aniversariava. Olhou para cima e os pacotes ainda flutuavam, procurando seus donos, donos indiferentes. Continuou sala adentro, sala afora. Parou no frio do jardim. Lá de fora, olhou as luzes lá de dentro. Ouviu o aniversário vazando pelas janelas. Virou as costas satisfeito. Continuou leve, flutuando em direção às lembranças de outros aniversários. Mal conseguiu ouvir de longe o mais novo de todos, puxando a saia da mãe:
– Por que o vô não vem mais?

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