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Airo Zamoner






Sofisma da divisão

Estamos vivendo um maldoso paralogismo. Se por um lado nos acostumamos a olhar para os poderes da república nos sentindo desanimados com o que vemos, por outro, caímos na tentação do conformismo e do mea culpa injusto por termos lá, a amostra fiel do que somos.
Recebo críticas por classificar a gentaça que se acumulou no poder como blastoma a produzir perigosa metástase no tecido social. E a crítica bate no sofisma da divisão: a parte é retrato fiel do todo. Revolto-me veementemente contra esta hipótese.
O todo, somos nós aqui da planície. A parte, é a escumalha crescente que se refestela no planalto.
Dizem meus críticos, que somos cópia autenticada do que vemos nos tronos. Em assim sendo, ao assistir o que se passa por lá, estamos nos vendo num espelho gigante.
Como podemos ser o espelho desta ralé que pratica valores tão estranhos aos nossos?
Os valores que praticamos em nosso dia-a-dia de luta insana, sempre dobrada em sacrifícios, para bancarmos – a contragosto – a sobrevivência deles, são os mesmos escancarados por esta gente encastelada no poder?
Se me recuso a aceitar esta premissa, é porque o percentual de honestos na população é colossal e o percentual de honestos no poder é canhengue.
Os espertalhões enxergam em suas carreiras, ditas profissionais, a oportunidade que não teriam aqui embaixo, na dura competição pela sobrevivência, baseada em muito trabalho. Com raríssimas exceções, é gente que nunca “ralou” de verdade; que não tem vocação para a lida constante e vislumbra na política, o fácil caminho das flores. É manifesto que no pico do rol de seus valores, a preguiça desponta com galhardia. Aí começa a gestação de uma amostra divorciada do respectivo universo. Apresenta-se, nos palanques, uma seleção espúria, uma parte totalmente estranha ao todo. E, o que é pior! Na platéia, um povo carente de informação. Um povo que julga com a alma simples, porque é povo bom, esperançoso, de índole benevolente, crente na fala bonita mas vazia e, criminosamente, privado de educação. Um povo que acredita ingenuamente no discurso escolhido na malandragem, para convencer os desprovidos de malícia, de cultura, de, mais uma vez, educação, educação, educação...
Não há democracia plena sem a generalização absoluta da educação. Vivemos, portanto, uma democracia embrionária.
E lá se vão os preguiçosos, indolentes, desonestos, agarrando-se às franjas do poder, escalando aos poucos a saia rodada que os leva ao busto do leite abundante e gratuito.
Assim se forma esta massa de malandéus, que não representa o todo porque o todo é formado por gente honesta, boa, que tem fé em seu trabalho, que tem valores simples e eternos como a verdade, a lisura, a honradez, a franqueza. Uma vez empoleirado no espaldar de suas cadeiras de marfim, este aglomerado doente só ambiciona ali se sustentar. Entre outras coisas, boicotam por todos os meios, a construção de um sistema educacional realmente democrático, que nos dê as condições de discernimento, indispensáveis para separarmos os velhacos que abusam de nossa confiança, aproveitam-se de nossa ignorância, ridicularizam nossa boa-fé, daqueles que praticam a honradez como a máxima de suas vidas.
Como imaginar que nosso povo, aquele que se mata na luta para resistir e manter sua vida e a de seus filhos, é o mesmo da amostra destes patifes que passam a vida engendrando arapucas para se locupletarem com a sagrada riqueza da nação? Como imaginar que somos os criminosos que não só roubam o dinheiro público, mas até matam por ele?
Não posso aceitar que o poder deste país é o retrato do que somos. Não é possível que sejamos “isso”!
Mas, se não estamos diante de um evidente sofisma da divisão, então somos mesmo um povo desgraçado, infeliz. Inviável.

Airo Zamoner é autor do livro “Bagunçando Brasília” - Ed. Protexto (2002)

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