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Maristela Zamoner






Entre Flores de Mimulus*

A noite do dia 25 de agosto de 2013 estava atipicamente quente nesta cidade emulsionada de idiossincrasias, Curitiba. Não seria o fim de um dia como tantos outros em que nos auto conduzimos por variadas e alienantes táticas a mundos mais atraentes do que a estúpida vida real.

Não sabemos o que fazer para o tempo lancinante passar mais rápido e o macio tardar a fugir. Então, cada um tem sua forma de escapar do peso das décadas, das facadas do caráter humano, dos desmanches físicos profanos, das dores por perdas colecionadas e extraviadas, dos lampejos traiçoeiros de penúria e fim. Uns entregam-se aos mundos deslumbrantes das letrinhas coladas nas folhas. Outros se doam ao esvaziamento mental dos jogos ou dos amortecimentos televisivos. Infelizes são os que se aprisionam em suprimentos frívolos de bioquímica cerebral dos quais sozinhos não se desentranham. Os mais porosos lambuzam-se das artes com as cores cegas, sons surdos e movimentos estáticos.

E alguns, neste dia, dançaram tudo isto sentados, imóveis, sem que ninguém conseguisse notar a ebulição entorpecente e dominadora que neles se operava. É ridículo tentar traduzir em palavras as sensações que nasceram doidas naqueles que estavam aparentemente calmos e bem acomodados nos assentos pueris daquele teatro provinciano conhecido pelo diminutivo de Guairinha. E seu nome, para alguns, remete a ideia de uma cascata colossal, violenta e intransitável, como a turbulência introspectiva e densa do expectador mais vulnerável. É caricato sim, mas, é meu recurso desesperado e doce de prolongar aquela hora tão... breve segundo entre flores risonhas de mimulus.

A liberdade fecunda chega a chocar, a rasgar o peito levando a sensibilidade cardíaca aos píncaros de seus limites, talvez por ser explorada com total refinamento e incondicional transitabilidade. Nenhum funeral caberia por muito tempo naquela exultação, as lágrimas foram arrancadas uma a uma entre um sorriso e outro.

Em apenas um segundo as cores e sons se reorganizavam, ali estava dentro da caixinha de músicas da bailarina, sentindo a delicadeza daquele som duro que embalava mais um sonho tão vivo.

Enquanto os músculos músicos protagonizaram momentos memoráveis de inesperado exercício, a alegria era beijada sem parar. Logo começava a descortinar-se uma nova transformação e o picadeiro se redesenhava. A sensação do carrossel dividia-se com a da equilibrista e com a do domador de feras. Quantas feras foram domadas naquela hora...

Quando me dei conta já estava destituída de qualquer veste prestímana e achava-me em um imenso campo mágico enflorado. Meu corpo reagia com arrepios quentes aos beijos das flores achegadas enquanto outras, se perdiam onde a vista não era mais capaz de distingui-las. Mesmo que meus olhos vissem só um escuro, senti a luz aquecendo os tecidos, acordando os amores e acalmando as dores enquanto impregnava tudo com tantas cores invisíveis.

As teias contorciam-se puras, claras, despigmentadas, aprisionando pequenas amarguras, deixando espaços entre abertos por onde só passava a ternura.

As borboletas saíram libertas de minhas vértebras me puxando do chão, se espalhando entre as pétalas coloridas de mimulus que se emaranhavam com minha superfície, aprofundando lentamente e aromatizando minha essência.

E foi assim que ganhei mais um tempo de infância e de vida, foi assim que pude rir entre prantos como se as feridas nem fossem conhecidas.

Meu sangue todo se coloriu de sorrisos e suei tatuagens de beleza, reflexos suaves e perfumados daquele passeio Entre Flores de Mimulus.


*Poesia em homenagem ao espetáculo 'Entre' da Mimulus Cia de Dança de Belo Horizonte/BH

3 de setembro de 2013
 


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