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ALINE JULIANA PEREIRA DA SILVA






Mal reflexo


- Maldito espelho que me assombra. Quero vomitar. Quero correr. Sumir. Gritar. Por que sou assim? Maldito cabelo. Maldita roupa. Maldita espinha no rosto. Maldita vida.

 

Olho para o lado. Olha para o outro.
Chora. Sentir-se arrasada. Liga o chuveiro. Não quer que ninguém lhe escute. Ninguém pode desconfiar. Ninguém pode saber que está a morrer por dentro. Em um movimento desesperador, enfia o dedo na goela querendo jogar toda a sua agonia e tristeza em um vômito só. Repete esse movimento várias vezes.
Olha para a pia e diante de tudo que comeu durante o dia, não consegue ver nada além de nada. Olha para o espelho. Seu rosto vermelho e pálido não lhe convence. Está morrendo, mas ela não sabe e nem desconfia.

 

-Gorda! Gorda! Mil vezes gorda.

 

Chora novamente. Grita para si mesma. Sua dor é um temporal de sentimentos grotescos. Respira fundo, alguém bate na porta do banheiro. Fica em silêncio por alguns segundos até dizer que já vai sair. Limpa a bagunça. Tenta acalmar-se e sai naturalmente. Rir para todos.
É outra pessoa...

 

Na janta não consegue fugir, tem que comer para provar que não é nenhuma psicopata doente por anorexia ou bulimia. Ela é normal ou pelo menos finge ser. E logo após corre ao seu berço.
Começa tudo de novo...

 

Cof Cof Cof.

 

Os efeitos colaterais já surgiram há muito tempo. Sente-se fraca e indisposta. Diarreia. Sem apetite, durante todo o tempo, aliás. Sentimento de culpa ao comer. Sentimento de frustação, tristeza e agonia. Por vezes tem pensamentos suicidas e o que é pior de tudo, se acha normal.

    Sente-se confortável ao enfiar o dedo na goela. É como se fosse um remédio para sua dor. Quer expulsar o que lhe provoca um peso a mais. Tem medo. Ao olhar uma balança foge sem pensar duas vezes. E a vida passa e ninguém percebe. Ela finge bem. E a cada dia vai morrendo por dentro. E a cada dia vai tornando-se um vício.

 

Ciclo vicioso. Maldita doença!


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