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Amarilia Teixeira Couto






Porta entreaberta

“Não vou deixar a porta entreaberta.Vou escancará-la ou fechá-la de vez. Porque pelos vãos,brechas e fendas...passam semiventos,meias verdades e muita insensatez.” (Cecília Meireles)


Porta entreaberta

A porta de nosso amor
estava ainda entreaberta
À espera do arrependimento
Da saudade avassaladora
Do coração tão apertado
A ponto de conduzir os passos
No caminho de volta

Não ousei passar a chave
Nem encostá-la um pouco mais
Deixei-a assim
Do jeitinho que se encontra
A minha dor:
Entrecortada pelo abandono
Mas ainda arquejante dos beijos seus


É
os nossos beijos foram
Mais que beijos
E as carícias foram além
Da utopia

Quantas vezes me vi perdendo de mim
Eclipsando-me no espelho
Ao ver apenas a sua imagem
Sobreposta à minha?

Mas quem consegue viver uma paixão
Com brandura
Com serenidade
Com razão?

Você se foi de mim
O seu olhar tentou me dizer adeus
Antes da partida
Quis antecipar o fim
Quis me preparar
Pra despedida


Mas me encontrava perdida
Num mar de ternura
Me enganava
Com as palavras
Com os gestos
Com o olhar ainda envolvente
E me deixava ser sua
E me deliciava
Sendo gueixa
Me esquecia das queixas
Dos olvidamentos repentinos
Dos silêncios propositados
Com a falta de cuidado


E
Não mais que de repente
O encantamento se foi
E com ele
Se desfez a crença

De que tudo seria para sempre
De que tudo estava articulado
No plano divino
Que o nosso amor
Era um bonito hino
À verdade
À vida
À poesia
À fidelidade

Foi-se a quimera
Do Maktub
Do amor de outros tempos
Que me veio depois de muita demora
Num alazão percorrendo
O caminho iluminado pelo luar
Até chegar a mim
E me levar na garupa
Indefinidamente

Tudo isso me fez deixar a porta entreaberta
À sua espera

Até que
A verdade deu lugar
À maldade
À mentira
A interesses espúrios

E agora?
O que faço com a porta?
Fechá-la de vez
Talvez seja o inevitável
Mas
Onde morou a esperança
Onde o amor foi leve
E foi dança
Não dá pra se colocar uma tranca
Forte
Intransponível

Acho que vou escancará-la de vez
Pois
Se quem se foi
Quiser aprender com os infortúnios
Descobrir
Que o “perdão
Foi feito pra gente pedir”
Que o alazão do amor
não cruza os céus em noite de luar
Em vão....

Quem sabe
O amor se arrepende
Das futilidades
E venha buscar o que
Sempre foi seu?

Está resolvido:
Vou escancarar
A porta de vez
Não quero semiventos
Nem meias verdades
Nem insensatez
Só quero seguir acreditando
No retorno do amor
Que me cabe
Por direito
Desde que não esteja
Mais afeito
Ao jogo sujo da traição

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