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orlando ciuffi filho






Tempestade

TEMPESTADE
O CIUFFI
 
 
Repentinamente chegou nessa noite uma assombrosa tempestade. 
Trovões explodiam nos céus de São Paulo quais bombas atômicas e nucleares.
Os relâmpagos e raios que rasgavam como bólidos o firmamento sem lua ou estrelas iguais rajadas de possantes metralhadoras atômicas imitavam as violentas cenas dos atuais filmes de extermínio, para o deleite dos bêbados das ruas que dos filmes só tinham conhecimento lendo sem pagar, as manchetes dos jornais expostos nas bancas de revistas.
Às tempestades lhes eram permitido assistir e sem pagar ingresso.
Nas monumentais e pitorescas cenas de aniquilamento humano que não eram efeitos especiais dos ditos filmes, todas as vezes que elas aconteciam tais bêbados participavam para suas satisfações e exultações, pois era a única possibilidade de saírem de seu eterno marasmo que era apanhar restos de comida nas cestas de lixo.
Absortos ao espetáculo esses ébrios que perambulavam pelas ruas jamais viram tão esplendoroso show. 
Nem percebiam que o tempo passava e a cachaça acabava. 
Assistiam gratuitamente e invejosos quando viam algum conhecido ser tragado venturoso por grandes bueiros que o levava junto aos excrementos humanos dos esgotos para o nada para a felicidade de tal abençoado que chegava glorioso ao digno e heroico final.
Pena aos que só observavam.
Gostariam de estar com seus familiares ajudando fazer tão magnífico espetáculo. 
Esperançosos imaginavam que ainda teriam a mesma sorte de participarem de tão grande elenco e se não fosse dessa vez, talvez na próxima. Aguardariam esperançosos a sua vez.
O extermínio acontecia muito pior que aos filmes, pois neles a destruição fictícia tinha geralmente um determinado alvo que por maior que fosse nunca era tão grande como o real dilúvio que pretendia acabar com a cidade toda. 
Favelas inteiras eram assoladas por inundações ou soterradas por deslizamentos de terra ou queimadas por incêndios provocados pelos multicoloridos e admiráveis raios que ruidosamente caiam a todo instante. 
Seus endereços sempre eram as cabeças dos infelizes desamparados ou os tetos de palha ou madeira de seus barracos lotados de gente querendo dormir, mas que nunca conseguiam por culpa das fortes dores causadas pelo vazio dos estômagos. Tais órgãos sempre destoavam de suas magrezas, pois eram dilatados pelo excesso de bebidas alcoólicas ingeridas pelos adultos e de enormes dimensões também nas crianças pela ingestão de muita água estagnada e restos de comida já deteriorada que alimentavam apenas os vermes e as tênias que habitavam sadias e felizes tais estômagos.
Parece que propositadamente os deuses de vez em quando davam uma trégua à chuva transformando-a em simples chuvisco para deixar os incêndios fluírem melhor. 
Geralmente só após quase tudo destruído pelo fogo é que a água voltava forte para em suas desgovernadas corredeiras quais rios sem leitos definidos envolver e arrastar na lama o pouco que por ventura ainda restasse aos desabrigados. 
Estava bem claro que não deveria permanecer nada para os poucos sobreviventes começar de novo seus sonhos, seus barracos, suas misérias e suas lamúrias.
Não só os barracos das favelas eram alvos da destruição. Também as construções que acompanhavam as marginais dos rios Tiete e Pinheiros acabavam ruindo como castelos de areia.
Além de tais construções das marginais, bairros inteiros como a Pompéia, o Cambucí, o Largo de Pinheiros, o Mercado Central e muitos outros que sempre tentaram sobreviver em locais baixos da cidade ficaram totalmente submersos invejando a famosa e desaparecida Atlântida.
Como se não bastasse a água e os raios, a fúria dos ventos também fazia a sua parte corretamente. Derrubava árvores inteiras, destelhava imensas fábricas além de fazer voar atabalhoadamente animais e crianças pequenas que faziam ridículas piruetas ao subirem aos céus para lá planar ou esquiar desordenados nas nuvens negras, assustando corujas, morcegos e urubus que fugiam apavorados por esses invasores intrometidos. Seus temores não eram pela chuva, mas sim por esses intrusos desconhecidos que voavam descontroladamente colocando suas vidas em perigo.
Tais ventos, além disso, auxiliava as queimadas mantendo-as acessas e espalhando-as mais velozmente além de derrubarem muitos outros postes cujas fiações de alta tensão entrando em curto circuito provocavam novos incêndios muitas vezes até mais violentos que os já existentes.
Grande era o número de mortos e desaparecidos que nem viam chegar suas mortes ou de suas famílias tão rápido era o ataque dos inimigos muito mais poderosos e irascíveis e que vinha de todos os lados. 
A implacável natureza nessa noite estava impiedosa e muito fogosa e com certeza bastante insensível. Ganharia essa guerra destruindo todos os inimigos sem uma baixa sequer. Sem a mínima misericórdia.
Nunca houve tamanha catástrofe em São Paulo.
Muitas residências de alto padrão bastante sólidas também sofriam suas avarias. 
Piscinas se enchiam de sujeira. Quadras de tênis, de futebol de salão e de vôlei tinham suas redes estragadas e alguns danos nos pisos.
As casinhas dos cachorros que já dormiam sem risco dentro da casa principal ficavam destruídas.
As empregadas que como os cães e junto destes alojadas nas cozinhas das residências dos patrões também estavam a salvo, mas suas casinhas nos fundos das casas, como a dos cães, totalmente arrebentadas permitindo que seus pertences e roupas arrastassem silenciosamente no barulhento turbilhão de água que escorria pelos quintais.
Elas sempre se uniam nos jardins com as rosas, orquídeas e demais flores despetaladas e furadas pelos próprios espinhos para formarem com os restos das redes das quadras esportivas um grande emaranhado de sujeira entupindo os escoamentos junto aos muros inundando todo o magnífico quintal dessas maravilhosas mansões.
Nesses casos os prejuízos eram apenas materiais. Raramente alguma pessoa sofria lesão.
Era só esperar terminar a tormenta e para secar o quintal dos palacetes bastava retirar o entulho que obstruía a saída da água que ela escoava novamente livre para depois ir encalhar em algum bueiro de bairro pobre e sem manutenção mantendo toda a comunidade alagada, ilhada e sem socorro por vários dias. 
Nos palacetes novas redes esportivas eram compradas. Outras casinhas para cachorros adquiridas. Novos cubículos para as empregadas reconstruídos, ainda menores que os anteriores, motivado pelo desrespeito normal que os patrões nutrem por seus lacaios. Os jardineiros refaziam os jardins mais bonitos ainda que os anteriores. Os empregados recuperavam as piscinas e faziam a reforma das quadras esportivas.
As serviçais vestiam satisfeitas muitas outras roupas novas que eram as já velhas de suas patroas, que lhes doavam e efetuavam felizes, caprichosamente e com carinho a limpeza dos quintais e tudo voltava ao normal bem rapidamente.
Adicione a tudo que foi desmantelado nos dois primeiros dias do aguaceiro muitos outros telhados de casas e fábricas que até então ainda permaneciam intactos acabaram não resistindo, assim como os tetos de ônibus e carros porque no último dia da chuva os inimigos invisíveis da cidade não satisfeitos finalizaram a tempestade com uma grande queda de granizo. Pedras de gelo tão grande ou maiores que as usuais para se beber com uísque caíram ruidosamente por mais de duas horas finalmente terminando sua destruição.
Somente grandes edifícios em locais altos da cidade ficaram totalmente ilesos enquanto durou o estrago.
O saldo da destruição só foi conferido três dias depois do termino da rebelião dos céus.
Após esses dias que fariam qualquer prefeito renunciar ao cargo tudo acabou na manhã de domingo que vinha nascendo com um sol tímido de cor laranja apontando timidamente indeciso no oriente.
Alguns bêbados insistiam garantindo terem lido no céu entre os enormes arco-íris as palavras “The end”.
Como a maioria dos andarilhos é analfabeta, míope ou cega e eles sempre embriagados e desatentos nada viram. A minoria, não menos bêbada e desatenta, mas bastante criativa e convincente determinou que realmente apareceu escrito em inglês em letras enormes iguais aos finais de filmes que vêem em televisores alheios, em cor vermelha como sangue, tal expressão determinando o fim.
Tal criatividade desses desocupados de rua foi muito além, pois correu a boca pequena, alastrando-se mais rápido que a destruição provocada pela tempestade que tudo foi ocasionado por mísseis devastadores enviados teleguiados pelo Sr. George Walker Bush com a finalidade de destruir Osama bin Laden que aqui estaria escondido.
Os pequenos jornais sensacionalistas não só de São Paulo como de todo o país informava-nos sobre o acontecido e prevenia avisando-nos da urgência de nos precavermos, pois havia sido apenas uma pequena mostra do que o famoso mandatário destruidor de terroristas e de outras pessoas mais, faria caso não entregássemos o procurado. Tais jornais chegaram a oferecer recompensa pela devolução do caçado, amedontrando-nos a todos, com farta exibição de fotos de várias outras ações do poderoso presidente ilustrando-nos o que o senhor em questão faria se não o obedecêssemos. 
Os grandes e famosos jornais da nação discordavam anunciando desesperadamente. “Tudo não passa de um absurdo”. “Puro boato desatinado”. “Alegações injustificadas e irresponsáveis dessa escória da imprensa marrom”. 
“Senhor Presidente e Senhores Ministros o que esperam para acabar de vez com esses miseráveis e mentirosos jornalecos e seus colaboradores”? 
A insensata briga dos noticiários espalhou-se até para fora dos nossos limites territoriais deixando o ilustre cidadão orgulho da América tão aborrecido que realmente assombrou-nos, pois ninguém poderia aquilatar qual seria sua real ação contra nós, pobres e desafortunados brasileiros. 
A retratação e pedidos de desculpas de nossos representantes do Itamaraty foram imediatas, humilhantes e suplicantes. A expectativa de que a qualquer momento seríamos invadidos nos fez passar vários dias de horror.
Com o tempo sobrevindo e a simples retaliação que recaiu sobre quase todos nossos produtos de exportação àquele país trouxe-nos novamente a convicção de que graças aos Deuses e ao bondoso cidadão Americano não seriamos destruídos pelo desvairo de sabe-se lá de qual bêbado de rua.
Tal atitude tomada foi a mais branda possível, pois há tempo já vem nos acontecendo com muita regularidade e até sem motivos e vamos vivendo.
Os eternos miseráveis e sempre imorríveis que não tiveram a ventura de serem varridos pelas enxurradas descobriram que todo o pouco que possuíam havia desaparecido na chuvarada. Tinham de continuar suas vidas para participarem da futura fúria da imitação dos filmes violentos. Talvez no próximo dilúvio tivessem mais sorte e participassem bem mais ativamente. 
Imaginavam suas atuações sempre como sendo grandes heróis que morreriam afogados somente após salvarem dezenas de carros de luxo que boiavam desgovernados após abandonados por seus amedrontados donos ao serem socorridos pelos bombeiros.
Caso não se afogassem teriam a grande recompensa de entrarem nas mansões dos milionários para saírem de lá com uma roupa nova após uma farta refeição de carne com legumes na cozinha junto às empregadas e aos cães da casas.
Tais embriagados também se sentiam felizes por terem sido os únicos a se deliciarem com a majestosa borrasca do começo ao fim enquanto vagabundeavam pelas ruas em retorno a seus longínquos barracos. Porém quando conseguiam aproximar-se descobriam outro grande motivo para continuarem suas andanças desvairadas e suas bebedeiras infindas. 
Nada mais encontravam. Seus tugúrios e suas famílias não existiam mais. 
O máximo que conseguiam deparar nos escombros, quase sempre, era o velho cão vira-latas que sobrevivia para lhes atormentar querendo seu carinho e alimento. 
Os animais de longe olhavam para seus donos tentando fazê-los entender o quanto eles lutaram na tentativa de salvar seus familiares quando escorriam indefesos corredeira e ribanceira abaixo. 
Um dos vira-latas chegou a exibir nos dentes os fundilhos das calças do pequeno menino que segurou esforçando-se ao máximo para falar ao dono que foi impossível salvar-lhe o filho, pois o velho tecido da vestimenta estava fraco e podre arrebentando-se em seus fortes caninos.
Depois de toda a tentativa de desculparem-se por estarem vivos aproximavam-se dos donos que os recebiam com vários pontapés nos focinhos machucando-os ainda mais do que já estavam. Imediatamente afastavam-se sem reclamar.
Novamente olhavam cansados bem fundos nos olhos dos donos na derradeira tentativa de fazê-los acreditar em suas façanhas heroicas, mas nada conseguiam. Sabiam que mentiam, pois forças para se safarem já fora para muitos, impossível, que dirá para salvar alguém.
O sacana do cão que exibiu os fundilhos da calça de uma criança na verdade vendo-a já morta rolando pela enxurrada tentou foi comer um pedaço de suas carnes, mas não conseguiu, pois realmente o trapo que a criança vestia partiu-se deixando o cão abutre sem comida. 
Aos cães que escaparam pode-se atribuir dez por cento ao esforço próprio e o restante a sorte ou milagre. Entretanto esses animais que conhecem muito bem o comportamento de seus donos tinham seu trunfo. Era a última cartada.
Tivessem salvado seus filhos ou não o simples abanar dos rabos resolveria seus problemas. Imediatamente ganhavam gostosos e demorados afagos no alto do pescoço e na barriga.
A alegria dos animais era tanta que exibiam seus pênis eretos e arregaçados.
A alegria dos seus donos não chegava a tanto, já que a cachaça há muito já os deixara impotentes, porém também era imensa, pois ainda tinham a quem recorrer nos momentos de tristeza. 
Choravam juntos, abraçados acariciando-se por longos minutos para então saírem à procura de algum resto de comida para alimentarem-se. 
oooOooo
Em um luxuoso apartamento nos Jardins próximo à Avenida Paulista, cujas paredes eram a prova de som, com suas belíssimas cortinas fechadas não permitiram seu solitário morador assistir às deprimentes cenas que a chuva com seus raios e vento proporcionaram de quinta feira a noite até domingo pela manhã.
Durante os três dias da fúria das águas ele bebeu. Bebeu demasiado uísque escocês e consumiu tanta cocaína que o estoque de ambas as drogas estavam se esgotando e mesmo assim não conseguiu nenhum de seus intentos. Dormir ou morrer.
A tempestade em sua cabeça era até mais forte e violenta que a da cidade que ele nem tomou conhecimento.
A exemplo dos milhares de desaparecidos na chuva também milhares de seus neurônios foram desativados e destruídos pelo seu dilúvio pessoal.
Não conseguia dormir e nem manter nenhuma lucidez. Os rápidos momentos de letargia do médico bêbado e drogado eram sempre interrompidos por pesadelos. 
Sonhava o que vira na emergência do hospital onde trabalha quando quinta feira pela manhã foi solicitado para atender um paciente que chegou esfaqueado. 
O homem tinha sido furado no corpo todo. Foram mais de trinta facadas.
Via-o abrindo o único olho que lhe restou quando se pôs a sua frente. 
Nitidamente revia quando ele abria e fechava tal olho como se fosse para ter certeza se sonhava, delirava ou se via realmente o médico em sua presença. 
Estava agonizante sem nenhuma reação mental aparente, mas tais gestos pareciam feitos por quem estava consciente. 
O som do grito “CONSEGUI” segundos antes do esfaqueado falecer acordava-o sobressaltado e o eco do brado dele ecoava em sua residência tal qual se ouviu nos corredores do hospital.
Conseguia sentir o mau cheiro das fezes que saiam pelos rasgos das facadas na barriga do assassinado invadindo todo seu apartamento da mesma forma que impregnara a sala de cirurgia do hospital.
Talvez o som alarmante e o horrível odor fosse somente em seu cérebro totalmente descontrolado pela droga e bebida.
Acordado rememorava tudo que sonhava que sabia não ser sonho e sim sua realidade recente. Eram lembranças do que se passou na emergência do hospital onde trabalha na manhã de quinta feira.
Tais recordações repetiam-se muitas vezes durante todos esses dias trazendo junto os sons os cheiros da sala do hospital.
Recordou que nenhuma das pessoas presentes no centro cirúrgico entendeu nada e que se entreolharam boquiabertas ao verem que após aquele estrondoso berro de “CONSEGUI” o ferido deixara esse mundo com o semblante feliz e os braços esticados em sua direção. Atitude humanamente impossível de ser realizada pelo homem moribundo, pois os ossos dos braços estavam partidos e expostos porque na tentativa de proteger-se das facadas os colocara sobre o rosto e receberam a maior quantidade das violentas facadas.
Tinha certeza que tal som não era apenas um simples grunhido causado pelo estertor da morte e que os movimentos dos lábios para o sorriso e o esticar dos braços em sua direção jamais seriam atos instintivos. 
Ele estava convencido de que tudo fora pensado, mas como aquele moribundo conseguira tal façanha e por quê?
Pensativo rememorava tudo e falava em voz alta para si mesmo:
Ele morreu sorrindo e contente olhando para mim com o único olho que lhe restava. Parecia muito alegre com os braços abertos em minha direção deixando-me tão desconsertado e assustado que me fez abandonar a sala às pressas e amedrontado a ponto de trombar-me violentamente na entrada da rouparia com um enfermeiro que de lá saia derrubando-o no chão embora fosse gordo e pesado.
Ao andar pelo apartamento, totalmente alcoolizado tropeçava nas dezenas de garrafas de bebida de boa qualidade que consumira nas ultimas sessenta horas.
Estava embriagando-se desde quinta feira após chegar do hospital por volta das doze horas e já eram quase sete da manhã de domingo.
Abriu as cortinas de seu luxuoso apartamento. Era um dia de final de inverno que nascia muito frio principalmente por ser depois de uma monumental tempestade.
Viu o vazio que o separava do vigésimo quinto andar e o solo molhado da chuva que cessara nesta manhã de sol alaranjado, quase apagado, mas insistindo em aparecer tentando desafiar os desígnios da natureza.
Olhando fixamente, totalmente hipnotizado, para o chão abaixo dele mais de setenta metros permaneceu por mais de uma hora sem nenhuma atitude ou movimento. Faltou-lhe a devida coragem para saltar embora lhe houvesse a vontade.
Sempre lhe sobraram vontades, mas invariavelmente lhe faltava a coragem para todas as tomadas de decisões na vida. Até para as mais simples.
Lembrou-se de seus remédios psiquiátricos.
Desde jovem sofria de transtorno bipolar e fazia uso de medicamentos psiquiátricos fortes, mas não os usou premeditadamente desde quinta feira porque sua intenção inicial era somente drogar e embebedar-se para dormir. Queria apenas esconder-se do mundo, mas continuar permanecendo nele.
Seu médico psiquiatra diagnosticou tal enfermidade desde que era adolescente e indicara-lhe vários remédios que deveria usar para o resto da vida com o intuito de manter-lhe o equilíbrio mental necessário para portar-se adequadamente. 
Agora seu desejo era outro. Desejava morrer e faria tudo para conseguir. Não teve coragem de voar do alto do prédio, mas com os remédios obteria êxito. Tais drogas ingeridas com bebidas etílicas seriam letais por isso não as tinha tomado. Agora o desejo de morrer era tão grande que alucinadamente o fez decidir. 
Em seu estoque de remédios para uso limitado e controlado encontrava-se grande quantidade de Prossac, Limbritol, Haldol, Carbolitium, Zyprexa, Lorax, Rivotril, Geodon, Depakote, Topomax, Carbamazepina e outros. 
Engoliria todos misturados com qualquer bebida alcoólica e assim com certeza conseguiria seu intento já que tinha abdicado de saltar ao vôo fatal. 
A intenção de morrer permanecia irrefutável. 
Em seu luxuoso barzinho além de duas últimas garrafas de uísque tinha muitas outras bebidas que o ajudariam na ingestão dos remédios e na eliminação de sua estúpida e imprestável existência. 
Juntou aleatoriamente mais de cinquenta comprimidos na palma de uma das mãos e um enorme copo de vodca na outra. 
Lançou de uma só vez os comprimidos à boca e em uma fração de segundos tendo a lucidez do que iria acontecer imediatamente cuspiu-os longe.
Mais uma vez acovardou-se. Não ingeriu nada que pretendia.
A partir desse momento não teve mais interesse pelos remédios, pela bebida, nem pela cocaína e tampouco pela morte. 
Resolveu tomar banho. 
Dormiu profundamente na majestosa banheira de hidromassagem cheia de água morna e ironicamente quase morreu afogado. Assustou-se enormemente com o incidente. Não queria mais morrer. Tinha mudado de opinião. Agora desejava viver sem saber para que, porém queria continuar vivo. 
Alarmado saltou rapidamente da banheira para não correr novo risco. Esvaziou-a e usufruiu do banho no chuveiro que durou o restante da manhã. Barbeou-se com cuidado para não se ferir, alimentou com o que restava na geladeira e meio restabelecido do porre foi à procura de seu médico.
Ele era assíduo frequentador de um clube aos domingos e feriados. Mesmo quando sua família não o acompanhava ele estaria lá desde cedo onde permanecia até o escurecer. 
Só não usufruía desse seu lazer por algum motivo muito grave e sério que às vezes acontecia com seus vários pacientes psicóticos.
Era muito provável encontrá-lo no clube.
Tal médico foi seu professor quando estudante de medicina e atualmente é seu melhor amigo, conselheiro e principalmente seu psiquiatra.
oooOooo
Chegando ao clube onde também frequentava, encontrou-o e conversaram isolados em um recanto do local até o final da tarde. 
Contou-lhe tudo que aconteceu nesses últimos dias. 
No decorrer da conversa, o psiquiatra perguntou:
Como conseguiu a cocaína?
Comprei-a quando deixei o hospital e fui para casa.
Nunca devia ter feito isso. Nem bebida deveria ter ingerido. E os remédios?
Não misturei. Não tomei nenhum medicamento de quinta feira até hoje.
Então você não trabalhou na sexta e nem no sábado? Só se drogou nesses dias?
Não consegui nada, além disso. 
Está fazendo besteiras outra vez? Vai perder o emprego. 
Isso pouco me importa.
Deveria preocupar-se.
Estou tentando, mas o que aconteceu deixou-me transtornado.
Está aflito sem motivo. Acalme-se.
Ajude-me. Há muito já passou de uma simples aflição. Estou entrando em pânico e chegando ao total desespero.
Procure esquecer o que se passou no hospital. Não tem nada a ver com você.
Acho que tem muito a ver comigo sim. Creio que já vi aquele homem. 
Está muito inseguro. Tem de se controlar.
Eu tento. Há anos que só tento isso, mas nada dá certo em minha vida. 
Deixe de bobagem. Você tem uma ótima situação.
Carlos. Por mais que tente consolar-me nada me ajuda.
Você próprio irá encontrar a saída. Basta manter-se afastado de asneiras e dedicar-se mais em seus afazeres que acalmará.
Estou com muito sono e inclusive sinto-me melhor. 
Então vá descansar. Já é quase noite. Não tome nenhum remédio hoje, pois poderá fazer-lhe mal misturando com todo o álcool que ainda mantêm circulando no sangue.
Acho melhor você ir dormir em minha casa. O que acha? 
Vou para a minha mesmo e não usarei nada de remédios e bebidas. Vou apenas descansar. 
Procure dormir e repousar durante toda a segunda feira. Procure-me na terça de manhã em meu consultório.
Relaxe o máximo de tempo possível, mas se acordar amanhã e não conseguir mais dormir procure-me logo para conversarmos melhor. Avaliaremos com está e modificaremos a dosagem de seus remédios se for necessário, ou pensaremos em outra coisa. 
Está pensando em internar-me?
Amanhã ou terça falaremos. Fique tranquilo que avisarei no hospital que você está doente e faltará ao trabalho.
Obrigado Carlos. 
Cuide-se. Confio em você. Não vá cair na bobagem de usar bebidas e drogas. Já fazem mais de quinze anos que você não usa nada dessas porcarias. Foi só uma pequena e malfadada experiência na adolescência.
Foi insanidade minha. Não vou fazer mais nenhum absurdo. Creio eu. Vou tentar.
Pare de tentar fazer as coisas e faça-as. Simplesmente faça ao invés de tentar. 
Eu sempre faço todas as coisas que me mandam, ou não faço?
Só o que lhe mandam? Tem de fazer o que decidir por conta própria. Faça o que você determinar. Assim é que tem de ser. 
Eu fiz. A embriagues do fim de semana foi decisão minha.
Eis o seu grande problema. Besteiras você decide e faz sem a ajuda de ninguém. Determine e faça coisas boas. Coisas grandes e importantes. Assim agem as pessoas de bom senso. 
Asneiras e imbecilidades deixe para os medíocres e incapazes.
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Na última quinta feira, doze de setembro em certa vila do bairro de Vila Maria onde o homem assassinado a facadas morava e era o mandachuva estava sendo esperado como sempre por volta de doze horas e como já passavam das dezesseis e não retornara com seus guarda-costas, deixou os moradores aflitos e muito desassossegados.
Tal pessoa era o homem que depois de esfaqueado fora atendido pelo médico que se encontrava em pânico prestes a entrar em colapso nervoso.
Muitos amigos procuraram-no nas lojas de contrabandistas na Galeria Pajé onde regularmente fazia negócios com lojistas do local dos objetos roubados e receptados por ele.
Souberam que ele estivera lá pela manhã e saíra por volta das dez horas como sempre fazia.
Tais amigos ao regressarem tomaram conhecimento assim como muitos da vila, assistindo aos programas sensacionalistas das televisões sobre um carro totalmente destruído por um incêndio com quatro corpos carbonizados, minutos antes da transmissão.
Ficaram apreensivos, mas julgaram não tratar-se do chefão do local, pois como ele sempre andava com quatro guarda-costas, em seu carro teriam cinco pessoas, além de que o lugar mencionado na televisão não era seu caminho.
Nos horrores diários acontecidos na cidade sempre exibidos cinematograficamente pelas emissoras de televisões como se fossem diversão ou recreação ao povo, já tinham visto pouco antes do horário habitual do almoço, cenas chocantes do resgate pelo corpo de bombeiros de um moribundo todo ensanguentado por ferimentos a faca debaixo de um viaduto para levá-lo ao hospital mais próximo.
Tiveram o mal gosto de filmar em espetacular close e exibir o olho vazado que caiu ao chão quando os militares apanharam o corpo.
As câmaras vasculharam até achar e mostrar em imagem fechada para ser bem visualizada pelos telespectadores, por eles considerada espetacular, também uma orelha, pedaços dos miolos espalhados na enorme poça de sangue e dois dedos que ficaram no chão, além da língua do esfaqueado e também suas dentaduras despedaçadas.
O homem sequer foi coberto pelos policiais, mas tanto sangue espalhado pelo indivíduo desfigurado o tornava irreconhecível.
Conforme exibido imaginaram ter sido dois incidentes distintos bem longe um do outro e também distante das imediações da Galeria Pajé e do bairro de Vila Maria e em horários bem diferentes. 
O corpo do moribundo foi encontrado por volta das dez e meia e o carro incendiado aconteceu aproximadamente às dezessete horas.
Nem a polícia, os apresentadores, os telespectadores dos programas ou os moradores da vila suspeitaram que ambos os acontecimentos referiam-se ao mesmo crime e que o esfaqueado era de fato quem eles procuravam. 
Ele tinha sido esfaqueado pelos próprios seguranças, fora jogado embaixo de um viaduto, sem arma, dinheiro e documentos para não ser identificado e considerado como um vagabundo qualquer assassinado por algum outro desocupado desconhecido.
Seu carro fora queimado bem depois em um terreno baldio muito longe do local justamente para impedir qualquer ligação com o morto esfaqueado. 
Entretanto os corpos carbonizados dentro do carro sem que ninguém soubesse eram de seus próprios assassinos.
Os mandantes do crime eram traficantes de drogas que ocupavam uma pequena área de uma vila escondida no bairro de Vila Maria e eram inimigos do homem esfaqueado que comandava todos os criminosos, assaltantes, assassinos e sequestradores que viviam e ocupavam praticamente quase todo o local onde as duas quadrilhas inimigas escondiam-se da polícia.
Há anos brigavam entre si para ter o domínio total da vila.
Todos os que moravam no local eram criminosos com suas esposas, amasias, filhos e pais geralmente antigos bandidos.
Os jovens, os adolescentes e as crianças que ainda não eram criminosos estavam aprendendo.
Muitas casas eram para uso de cativeiros de sequestrados. 
O reduto era domínio deles e nenhuma autoridade jamais efetuou prisão de ninguém naquele antro. 
Nessa região de criminosos a polícia só ia quando chamada para socorrer algum esfaqueado ou ferido a bala em brigas entre eles próprios. 
A vila era cercada por florestas por dois lados e montanhas pelos outros dois.
Só havia uma rua para entrar e sair de lá espremida entre as rochas.
Era para uso público como caminhão de lixo, táxis, carros dos moradores, ambulâncias, viaturas da polícia e ônibus sempre muito bem vigiados pelos residentes criminosos.
O nome que a prefeitura emplacara a rua era totalmente correto. Rua Única.
O acesso de algum estranho não levado ou apresentado por alguém da comunidade só ocorria ao acaso e a receptividade recebida induzia o errante sair rapidamente ou iria de carro fúnebre.
Nenhum desconhecido jamais fora bem vindo à vila.  
Pelo lado da mata existiam muitas trilhas, conhecidas, usadas e vigiadas pelos moradores criminosos.
Entre as pedras haviam algumas entradas e saídas, somente usadas pelos traficantes de drogas que permitiam apenas a entrada deles e dos que eles para lá conduziam para a entrega da mercadoria para a distribuição pela capital toda.
O homem que fora violentamente ferido a facadas já era velho, não assaltava, não sequestrava e nem matava mais. Ele era o chefe de todos os criminosos de sua quadrilha e inimigo dos traficantes.
Mandava e dava ordens para que assaltassem, matassem e sequestrassem em seu lugar. Em troca desse poder adquirido há tempo ele dava guarida a todos os delinquentes de São Paulo que fugindo da polícia ou de inimigos procuram-no em tal esconderijo sempre indicado por alguém já morador e de sua confiança.
Ele auxiliava-os dando casa, alimentação e remédios necessários até que esses indivíduos pudessem participar de seu bando que aumentava imensamente a cada dia que passava. 
Ele próprio era o receptador dos roubos dos asseclas por preços muito melhores que os de quaisquer receptadores conhecidos da cidade. 
Constantemente ajudava famílias de criminosos mal sucedidos, mortos ou presos nas ruas.
Não deixava ninguém passar necessidade de alimentação, remédio e moradia em sua fortaleza. 
Tal atitude proporcionava-lhe o maior comprometimento de toda a comunidade para com ele que dariam suas próprias vidas em lugar da dele. 
Eram raros os que não lhe ofereciam suas próprias mulheres, filhas e netas para seus eventuais momentos de satisfação sexuais.
Como era assim tão querido entre seus comandados a grande maioria dos moradores estava durante toda a noite de quinta feira em meio a violenta tempestade que destruía São Paulo a sua procura. 
Alguns perderam suas vidas no infernal dilúvio, mas não desistiram das buscas. 
Encontraram-no na manhã de sexta no Instituto Médico Legal numa geladeira como não identificado.
Arrombaram sua casa na vila e só conseguiram encontrar os documentos falsos que o velho criminoso não mais usava, mas ainda os possuía. 
Seus verdadeiros foram devidamente destruídos pelos seus assassinos e por isso seus fieis comparsas preferiram identificá-lo através de um desses documentos. 
Tal identidade falsificada era tão bem feita que fizera com que fosse aceita como legitima e seu corpo entregue a um bandido que também com documento falso identificou-se como seu irmão, pois outrora tais documentos foram feitos com o propósito de eles passarem por irmãos em alguma eventual necessidade.
Dessa forma o defunto saiu do IML com o nome de Jonas Cardoso dos Santos para o endereço fictício fornecido pelo irmão Geraldo Cardoso dos Santos tão falso como sua identidade. Entretanto levaram-no para a vila velando-o.
Choraram, orando o dia todo para que seus Deuses se apiedassem dele e lhe dessem um bom lugar.
Eram mais de quinhentas pessoas que obtendo êxito na luta contra todas as divindades das águas, raios e trovões que velaram o corpo em sua própria residência de forma ordenada e digna de um funeral de pessoa muito importante e influente.
O morto era realmente a pessoa mais venerada e admirada por todos os moradores que o adoravam até mais que a seus próprios Deuses que cientes desse fato respeitosamente deram uma trégua no dilúvio para que a visitação pública ao defunto fosse perfeita. Digna dele.
O carinho e dedicação a ele superavam em muito o amor que tinham por seu governador ou seu presidente em quem votaram maciçamente por ser pessoa considerada e com ares de Salvador da pátria. 
À tarde, lá mesmo na vila fizeram o enterro apenas com alguns dos mais importantes amigos do bandido, embora a chuva fortíssima tentasse de toda forma impedir. 
Foram esses seis homens além dos bêbados de rua os únicos que ousaram desrespeitar e conseguir uma pequena batalha contra o temporal. 
Seus guarda-costas não foram encontrados em suas casas e nem nas imediações, por isso passaram a ser considerados os responsáveis. Juraram vingança contra eles. Imaginaram que tal bando havia fugido para outros estados, mas algum dia seria encontrado e a vingança consumada.
Os mandantes estavam-lhe próximos, mas como parte do planejamento daquele crime os mesmos tinham contratado muitos atiradores bem treinados com armas poderosas, pois previam a revolta.
O arsenal deles era de fazer inveja até a polícia da cidade. 
Talvez nem o exército dispusesse de tantas armas modernas e terrivelmente destruidoras.
Na certeza da desforra os criminosos em número muito maior de homens comandados pelos seis companheiros mais fieis do enterrado invadiram sem nenhuma segurança e tática os domínios dos traficantes na mesma sexta feira sem preocuparem-se com a chuva violenta que voltou a cair depois de efetuado o enterro, após a visitação dos moradores da vila. 
Foi um desastre. Um massacre violento. 
Muitas minas estrategicamente colocadas destruíram a maior parte dos invasores que desnorteados foram praticamente varridos pelos outros que os iluminavam com possantes holofotes e os destruíam com rajadas de metralhadoras e granadas.
A baixa dos matadores profissionais contratados pelos traficantes em outros locais foi muito pequena. Praticamente só as provocadas por acidentes em meio a tempestade.
Os raios foram parciais auxiliando o bando de desnorteados fazendo algumas vítimas entre seus inimigos, mas não o suficiente para dar-lhes a vitória. 
O número de mortos dos atiradores contratados não passou de dez entre os quase cem componentes. 
Muito antes de o aguaceiro abandonar sua destruição a vila já dormia com centenas de mortos alimentando os urubus, os ratos e outros animais do mato que ocorreram ao local.
A carnificina foi tão grande que o Governador exigiu uma atitude enérgica.
Os contratados dos traficantes teriam de guerrear somente com os moradores da vila e não com os militares e por esse motivo desapareceram obrigando os próprios traficantes fazerem o mesmo.
O exercito invadiu o local.
A ação dos militares foi bem mais fácil que seria antigamente, pois poucos eram os bandidos que estavam vivos e não assustavam mais nenhum policial. 
Seu trabalho limitou-se apenas em recolher os corpos dos criminosos mortos em combate.  
No casas abandonadas pelos traficantes não haviam baixas, mas para espanto não só dos policiais como de todos os que souberam do fato foi que na casa do traficante mais poderoso foram encontrados vários deles mortos mutilados e desfigurados.
Não havia vestígios de destruição por bombas ou granadas, mas tais homens estavam dilacerados inexplicavelmente.
Os soldados supersticiosos e crédulos pensaram tratar-se de lobisomens, demônios, vampiros ou de outras bestas mais atuais que tinham dado cabo daqueles oito homens desfigurados.
O cofre fundido na parede fora arrombado por uma força descomunal, talvez por um guindaste e extraído provavelmente uma enorme quantidade de jóias, ouro e dinheiro que se imaginava estarem guardados.
Como não havia ninguém a reclamar tais cadáveres seus pedaços foram enterrados sem nenhum alarde ou interesse de ser averiguado exaustivamente o que de fato aconteceu, por se tratar de bandidos que realmente deveriam morrer para dar um pouco de sossego a sociedade. 
Com o tempo tudo cairia no esquecimento, entretanto tal acontecimento escapou aos segredos da polícia e correu de boca em boca na vila, a destruição dos inimigos de Tião, provocada pelos seus demônios amigos ou por ele próprio cuja alma transformou-se no poderoso chefão das trevas.
Após a tormenta o bairro estava sendo ocupado somente pelos já idosos bandidos avós que de crimes só sabiam contar histórias, inventadas em sua grande maioria, suas mulheres e suas filhas agora viúvas com suas crianças órfãs que não participaram da contenda.
Os poucos homens jovens que não morreram no combate fugiram da polícia. A maioria ferida e todos humilhados e envergonhados.
Com o passar dos dias regressariam, mas como os demais ficariam desamparados pelo desaparecimento do grande chefe e pela dissipação dos jovens valentes e audaciosos que morreram.
Tal fortaleza sempre disputada para residência e esconderijo dos mais violentos bandidos da capital onde tinham casas bem construídas, pessoas com muito dinheiro, boas casas comerciais, uma bem organizada convivência e total segurança contra os policiais agora estava fadada à ruína.
A tempestade destruiu muitas casas, pois a maioria era de construção pouco sólida e inundou todas, incluindo-se as mais fortemente edificadas destruindo seus móveis e comprometendo seus alicerces.
Na guerra entre as quadrilhas rivais quase todos os homens morreram. 
As mulheres os velhos e as crianças não tinham forças nem condição financeira para comprarem material algum para recuperarem suas propriedades. 
Em curtíssimo espaço de tempo a vila movimentada e abundante se transformaria em um lugar paupérrimo para muito em breve ser destruída e desaparecer no mato que com certeza invadiria o local. 
Jamais teria suas movimentadas atividades novamente.
Os traficantes de drogas cujos sonhos eram apossarem-se de tudo, nada mais iriam fazer pela vila, pois os mais importantes morreram estranhamente despedaçados e os de segundo escalão desapareceram com a chegada dos militares abandonando suas próprias residências que como as demais na vila seriam destruídas pelo mato e pelos animais.
Os policiais mandavam no lugar e sustentavam a boa ordem entre os poucos moradores. Mantinham apenas a boa ordem, pois nada fizeram para a recuperação das casas destroçadas e nem para socorrerem os poucos sobreviventes.
Os ex-bandidos que ficaram, a partir de então saiam às ruas próximas com suas crianças apenas para mendigar ou procurar empregos inexistentes. Nunca mais para assaltar.
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No consultório de Dr. Carlos conversam o psiquiatra e o paciente na segunda feira desde o início da tarde.
Como passou Zinho? Não era para descansar hoje e vir só amanhã?
Dormi logo que cheguei do clube ontem até hoje cedo. Acordei pouco depois das sete.
Está se sentindo bem? Descansou o suficiente?
Fisicamente estou recuperado. Da ressaca também. Entretanto minhas dúvidas e meu desespero continuam.
Tomou seus remédios hoje?
Sim. Logo cedo voltei a usar os medicamentos.
Porque então não veio em seguida para cá?
Estive no hospital pela manhã.
Ótimo. Então trabalhou e voltou à rotina habitual? Bom sinal.
Foi horrível passar a parte da manhã lá. Teve um caso de emergência e eu recusei participar do atendimento. 
Por quê?
Era um homem esfaqueado e estava na mesma sala cirúrgica daquele outro.
Qual o problema? Em pronto socorro de hospital publico o que mais tem são esfaqueados e feridos a tiros. 
Não tive coragem de entrar lá. Imaginei que era o mesmo paciente que voltara e me esperava.
Aquele homem já está bem morto desde quinta feira. Porque imaginaria sua volta?
Não sei.
Conte-me novamente tudo que aconteceu com bastante calma e com todos os detalhes.
Fui chamado em uma emergência para auxiliar nos socorros de um esfaqueado. 
Tal pessoa tinha levado mais de trinta facadas. Tinha um olho vazado. A língua cortada. As tripas lhe escapavam pela barriga espalhando fezes. O sangue escorria por todo corpo. Os braços estavam estraçalhados, todo cortado e com os ossos quebrados expostos. Na tentativa de proteger o peito e o rosto com certeza deixou seus membros serem quase arrancados.  
Ainda vivo?
Esse é o grande problema. Estava praticamente morto, mas ao abrir seu único olho e ver-me ressuscitou por alguns instantes.
Como assim?
Fechava o olho e com muito esforço abria-o novamente tentando encarar-me. Sorriu para mim como que me reconhecendo e morreu logo depois de esticar os braços em minha direção com aspecto alegre.
Impossível ter esticado tais braços, mas ele assim fez. 
Ficou muito feliz e até gritou não sei como, pois nem dentes e nem língua tinha mais. 
Em alto e bom som gritou “Consegui”.
Pode ser que no instante final tenha visto o céu ou Deus ou sei lá o quê, que fê-lo aparentar contentamento.
Foi por minha causa. Tenho certeza, assim como estou certo que já o vi em algum lugar ou em alguma vida passada. 
Lembro-me vagamente que até já conversei com ele em algum lugar distante no tempo ou talvez noutro espaço.
Deixe de tolices. Está imaginando essas besteiras.
Se o viu o que é improvável foi nessa vida. 
Essa crendice de outras vidas em outras épocas são coisas que aprendeu no espiritismo. 
Não existe nenhuma prova cientifica sobre tais acontecimentos, portanto não devemos nos prender a tais fatos.
Ele tentou pegar-me ou abraçar-me sei lá. Esticou seus braços ensanguentados em minha direção.
Certamente teria feito o mesmo para qualquer pessoa que estivesse próxima na tentativa de suplicar que o socorressem.
Você não viu Carlos. Com certeza ele procurava a mim.
O que é que lhe dá essa convicção que lhe traz tantos desconfortos?
Eu já o conhecia e ele também me reconheceu. Acho que ele era meu pai.
Que é isso?
Estou quase convencido que ele era meu pai consanguineo.
Que absurdo Zinho. Você até pouco tempo atrás tinha dois pais e duas mães. É a única pessoa que já ouvi falar que foi criado e convive com dois pares de pais. Porque quer mais pais?
Esses que você mencionou nunca foram e nunca serão meus pais biológicos.
Que importa quem é o pai biológico? Nenhum de nós pode ter certeza absoluta de quem foi nosso verdadeiro pai.
Mesmo que enxergássemos ao nascer e víssemos um homem presente se passando por nosso pai próximo ao berçário como saberíamos se foi verdadeiramente ele quem nove meses antes colocou dentro de nossa mãe o espermatozóide que a fecundou gerando-nos?
Quando adultos e nossa aparência for muito grande podemos até acreditar nessa paternidade, mas para se ter confirmação correta é somente através de exames científicos.
O pai que devemos aceitar e amarmos é o que nos cria e acompanha-nos vida afora mesmo que para nos ensinar tenha usado por ignorância dos mais antigos, suas rudimentares atitudes maltrando-nos com pancadas.
Depois desse sofrido ensinamento adquirido e do livre arbítrio proveniente de nossa própria evolução devemos desculpá-lo, pois por nossa adquirida competência e sabedoria sabemos que ele estava errado.
Jamais nos revoltaremos, pois apesar de sabermos tudo que aprendemos ainda correremos o risco de sermos os mesmos e espancarmos como nossos pais.
Dr. Carlos lascivo e excêntrico mesmo em conversas sérias disse a última frase cantando ao ritmo da música “Como nossos pais” parodiando Belchior. Continuando a conversa disse:
Perdoaremos e o amaremos, pois esses são os melhores e mais dignos dons natos em nossa existência e, portanto se houve um cúmplice de nossa mãe na hora que engravidou e nunca apareceu o bom mesmo é que continue oculto para todo o sempre e que seja muito feliz longe de mim. Amém.
Você fala assim porque foi criado e amado por seu pai consanguíneo.
Será que o pai que me criou é o mesmo homem que fertilizou minha mãe?
Sempre tive aparência bastante diferente dele. 
Ele era alto, magro e moreno e eu sou baixo, gordo e claro. Bastante diferente não? Exatamente o oposto.
Minha irmã se assemelha muito ao tipo físico dele e embora tivéssemos sido criados por ele pode ser que eu tenha sido filho de outro homem. Nunca tive problemas com isso e jamais vou procurar. 
Sempre o amei e respeitei independente das pancadas e nunca procurarei saber outra verdade senão essa que me confortou e satisfez pela vida afora.  
Ninguém deve ter preocupações com esse tipo de possibilidade.
Seu grande problema como já lhe expliquei muitas vezes foi o excesso de pais que adquiriu. 
Foram exatamente eles que complicaram sua criação. 
Volto a dizer que deve abandonar todos os ensinamentos conflitantes que adquiriu de ambas as famílias e forme seus próprios conceitos e viva dentro deles. 
Essa será sua cura. Por favor, esforça-se para isso. 
Você já está com quase trinta anos formado em medicina e bem situado financeiramente. Resolva urgente sua vida antes que envelheça e não faça mais nada.
Mas como? Nunca encontrei e continuo não encontrando minha razão de viver.
Você comenta a possibilidade de ter sido gerado de uma traição de sua mãe, mas foi amado por ela que o concebeu e também amado, orientado e registrado pelo marido dela que lhe deu o nome e as diretrizes a seguir pela vida.
Embora eu tenha tido dois pares de pais sempre existiu a real verdade indiscutível de que nenhum deles participou da minha origem.
Concordo com você nesse ponto, porém já que nunca teve presente seus pais consanguíneos insisto e aconselho-o que faça de você uma pessoa individual. Totalmente isenta de quaisquer conceitos dos outros que realmente nunca aceitou e assimilou.
Fui orientado e ensinado a pancadas e castigos e se fosse orientado pelos meus legítimos pais seria diferente. Seria com amor e sem maus tratos.
Engano seu.
Assim como levou bordoadas e castigo dos pais adotivos com certeza presenciou que os filhos legítimos de ambos os casais tiveram o mesmo tratamento, ou falo besteira?
Seus pais adotivos independentes da formação universitária de uns e menor cultura dos outros foram todos agressivos iguais. Orientação adquirida dos pais deles.
Os meus também foram muito hostis em minha criação e de minha irmã.
Essa cultura idiota de que educação de filhos é através de porrada está arraigada em nosso povo há muitos anos e só muito recentemente vem mudando lentamente. 
Acerte-se com uma moça e gere sua própria família descendente e esqueça definitivamente sua ascendência que nunca existiu em sua presença, ou mesmo em sua orientação.
O que isso resolveria?
Deixaria de ser só e teria muitos e agradáveis momentos vida afora com seus entes queridos.
Quando eu morava com minhas famílias adquiridas por criação houve muitos momentos agradáveis, mas em comparação com os desagradáveis esses últimos venceram imensuravelmente.
Atualmente que vivo só, por conselho seu é que melhorou um pouco.
Agora vem você dizer-me que devo ter nova família. Está difícil de entender-lhe.
Realmente você melhorou abandonando as famílias postiças, mas quando lhe falo em constituir nova família não é adotando bebês como você foi adotado.
É casando-se com uma mulher que ame e que lhe corresponda gerando à vocês os frutos dessa união.
Nada vai resolver.
Vai sim. Você terá muitas atividades que nunca conheceu. Trocará fraldas de crianças. Auxiliará nos serviços domésticos além do trabalho como médico. Tudo isso irá ajudar-lhe muito.
Como?
Serão prazerosas todas as atribuições que executar com e por amor e, além disso, não terá tempo ocioso para meditar coisas improváveis de se concretizar ou nas besteiras desnecessárias de se pensar.
O que de fato eu quero é encontrar meus pais verdadeiros. É essa a única razão de minha vida.
Você já tentou isso muitas vezes. Não se lembra de ter até viajado para o Ceará a procura deles?
Realmente. Já os procurei e até hoje não os encontrei, mas pelo que soube lá, eles devem estar todos aqui em São Paulo em algum lugar. 
Essa quase certeza que tenho de o morto ser meu pai alimentou-me a esperança de achar os demais parentes.
Zinho. Ainda não cansei de lhe falar, pois em minha especialidade sou obrigado a ter muita paciência, mas já lhe disse muitas vezes que seu emprego de meio período só pela manhã não é bom para você.
Trabalhe como a maioria dos brasileiros. O dia inteiro.
Faça outras coisas como dar aulas em algum cursinho ou faculdade a tarde e a noite. Tais atividades lhe darão outras motivações para diferentes caminhos a trilhar.
Não. Nada disso interessa-me.
Candidate a síndico do condomínio onde mora. Terá muito serviço e uma ótima terapia ocupacional.
Trabalhar de graça? Sempre me ensinaram não agir assim.
E você? Já pensou alguma vez se deve ou não por seus próprios julgamentos?
Tem a sua opinião formada?
A grande maioria dos síndicos faz tais trabalhos gratuitamente.
Milhões de voluntários pelo Brasil e pelo mundo afora efetuam trabalhos sem remuneração, por terapia ou pelo simples prazer em ser útil a outros. 
Atitudes muito saudáveis que fazem extremamente bem aos ajudados e muito mais ainda a quem as pratica. Pense nisso.
Vou é pedir demissão do trabalho.
Você terá de voltar para a casa da mamãe Tereza e viver dependente dela. 
Pelo resto da vida será mantido pela mãe branca? Acha certo?
Não. É só enquanto procurar meus pais biológicos. Vendo meu apartamento, aumento meu capital e mantenho-me por mim próprio.
Acabará com sua poupança e ficará sem residência, dinheiro e emprego. Ótima solução encontrada. Própria de um grande imbecil.
Estupidez ou não eu preciso achá-los para encontrar-me a mim mesmo.
Lembra-se que no clube perguntou-me se vou interná-lo?
Pretende “prender-me”?
Acho que temos de fazer isso. Pelo menos por uns sessenta dias para você descansar e sair dessa crise. 
Esperemos mais um pouco para ver se os remédios acabam com essa situação. Caso contrário vai ter de ser internado sim.
Eu não estou em colapso. Estou assustado porque acho que aquele esfaqueado que queria agarrar-me é meu pai. 
Procurou saber o nome dele no hospital?
Não tinha documentos. Foi internado como indigente.
Os outros médicos e enfermeiros que o viram acharam-no parecido com você por acaso?
Não. Ele era totalmente diferente.
Careca e de barba branca e grande, mas isso não quer dizer nada. 
Com certeza o passar do tempo mudou-lhe o aspecto que teria em minha idade ou simplesmente eu não me assemelhei a ele fisionomicamente e sim a minha mãe.
Tudo bem. Já que quer transformar o defunto em seu pai vá ao Instituo Médico Legal, pois o cadáver deve estar lá aguardando o prazo normal para reconhecimento antes do enterro indigente.
Colete cabelos, pele, sangue, ossos, tudo o que quiser e submeta-se a um exame de DNA com ele. 
Assim terminará a dúvida. 
Descobrirá se é ou não seu pai e aí as suspeitas terminarão, pois passará a existir a certeza. Negativa ou positiva.
Não tinha pensado nisso. Ótima idéia. Amanhã bem cedo farei isso.
Telefone-me amanhã e a partir de hoje dobre a dose de seus medicamentos. Não se esqueça, pois é muito importante e necessário por enquanto. 
Pode ficar tranquilo que farei o que manda. Afinal de contas se um médico não confiar em outro quem o fará?
Percebe-se nitidamente que não é um médico competente, pois continua confiando em mim.
O psiquiatra era sempre muito irreverente. 
Diga-se de passagem, muito extravagante em suas chacotas de mau gosto nunca se importando se suas pilherias magoassem ou não aos outros. 
Ele sempre se satisfazia imensamente com tais escárnios.
Agradava-lhe muito mais quando de fato conseguia amargurar seus interlocutores, quer através das avacalhações ou do incômodo que a fumaça de seus maus cheirosos cigarros que queimava no cinzeiro, mais para aborrecer as pessoas que para satisfazer-lhe o vício.
Havia anos que Dr. Sebastião não fazia nenhum curso de aperfeiçoamento e muito menos de especialização.
Satisfazia-se como simples Médico Clinico Geral trabalhando em meio expediente em um hospital público atendendo praticamente só acidentados, fazendo-lhes suturas ou quando muito participando como assistente de uma equipe de cirurgia em trabalhos de emergências em socorros urgentes.
Despediram já no início da noite com escandalosas risadas de Dr. Carlos gozador e brincalhão como sempre e sorriso amarelo de Dr. Sebastião que tinha conhecimento que realmente nunca fora um médico aplicado e estudioso.
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Pela manhã do outro dia Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho que desde criança atendia pelo apelido de Zinho foi até o hospital público em que trabalha solicitar sua demissão.
Desistiu de tal desejo, pois sempre que tinha de tomar uma decisão assustava-se com a responsabilidade do ato e abdicava do intento.
Conversou com seu superior que o aconselhou solicitar licença e assim o fez por noventa dias sem remuneração por motivo particular. Assinou a papelada necessária e saiu.
Rumou para o Instituto Médico Legal a procura do cadáver do homem que faleceu naquele trágico dia, praticamente em suas mãos e soube que o corpo fora retirado na sexta feira de manhã para a família providenciar o enterro. 
Um homem chamado Geraldo Cardoso dos Santos apresentou seus documentos e os do defunto identificando-o como seu irmão Jonas Cardoso dos Santos e retirou seu corpo para o funeral que seria em sua residência na Rua Paes Leme número 78, próximo ao largo de Pinheiros.
Mesmo sabendo que o defunto não se chamava Sebastião Pereira da Silva, foi imediatamente para o local e tal endereço era de uma antiga loja de departamentos atualmente inexistente e o local fechado.
Na igreja do Largo de Pinheiros descobriu que dois velórios aconteceram na sexta feira.
Um fora de uma criança do sexo feminino e o outro de uma senhora idosa que morrera afogada na tempestade. 
Nas imediações soube que teria ocorrido outra preparação para sepultamento na Rua Butantã, mas ao certificar soube que se tratava de um adulto chamado Amauri já internado nas Clínicas em coma há vários dias com traumatismo craniano causado por acidente de carro quando fazia a estupidez que todos os idiotas gostam de fazer que era um racha na Avenida Rebouças.
Nenhum outro enterro saíra daquelas adjacências.
Corpos retirados do Rio Pinheiros encalhados próximo à ponte do Jockey Clube foram muitos.
Eram mortos na enchente trazidos de vários bairros de São Paulo que o rio aceitou e os conduziu junto ao lixo formado pela tempestade naquelas noites e dias escuros como as próprias noites.
Não teve informação de nenhum enterro de um morto esfaqueado e não encontrou ninguém que conhecesse a tal família de Jonas ou de Geraldo Cardoso dos Santos naqueles arredores.
Voltou ao IML e descobriu que nenhum funcionário tinha visto o nome da funerária que recolhera o defunto, pois a tempestade tinha ocasionado um apagão em todo o bairro impedindo-os de verem o que se passava fora do prédio e nas ruas próximas.
Como o pátio nos dias do temporal estava lotado de carros de funcionários as viaturas fúnebres aguardaram na rua a entrega dos caixões na total escuridão do local.
Apenas dentro do IML tinha iluminação proveniente de geradores próprios, mas o funcionário que o informou pela manhã sobre a retirada do cadáver já tinha terminado seu plantão e não se encontrava mais no local. Seria ele o único a dar-lhe mais detalhes, pois havia trabalhado na manhã da entrega do defunto.
Perdera a possibilidade de encontrar o finado, pelo menos nesse dia, pois já era noite e a administração havia encerrado as atividades nesta terça feira impossibilitando-o de solicitar a documentação para verificar o nome da Agência funerária que o retirara.
No outro dia conseguiria isso ou se preciso fosse visitaria todos os cemitérios da cidade até descobrir onde o tal Jonas estava enterrado, pois havia conseguido descobrir o nome do falecido.
Passava das oito horas da noite e uma ameaçadora tempestade se fazia iminente, portanto o que de melhor tinha a fazer era ir para sua casa que estava próxima.
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Nova noite de insônia. Por mais que tentasse a auto-hipnose para dormir não conseguia. Lembrou e pensou na bebida. Desistiu de ingeri-la.
Abriu uma a uma todas as garrafas de seu barzinho e de sua adega entornando o líquido em sua banheira que encheu até mais da metade de sua capacidade. 
Ele era abstêmio, mas mantinha uma enorme e cara coleção de bebidas importadas de vários lugares do mundo para presentear amigos ou para servi-las nas raras vezes que alguém o visitava.
Passou a noite deitado na banheira mergulhado naquele líquido de fortíssimo e até agradável fragrância.
Foi encontrado desmaiado pela empregada que fora fazer a limpeza de seu apartamento na manhã do dia seguinte.
Estava desacordado fora da banheira, porém no mesmo ambiente sobre centenas de garrafas vazias espalhadas pelo chão.
O aroma daquela mistura de vinhos de ótimas castas, licores e outras bebidas destiladas de altíssima qualidade que ao serem abertas exalavam um odor bastante agradável agora tudo azedo alastrava pelo apartamento um mau cheiro insuportável.
A empregada conhecia-o desde que tinha sete anos quando começou trabalhar na casa de seus pais ricos.
Quando ele já adulto comprou o apartamento onde foi morar ela começou fazer a faxina do mesmo todas às quartas feiras e como era de inteira confiança tinha sua própria chave para entrar.
Ao ver o rapaz naquele estado lembrou-se que sua mãe, a mãe branca, atualmente já viúva estava hospitalizada, pois efetuara uma cirurgia plástica embelezadora e por isso não poderia chamá-la para acudir o medico.
Seus irmãos por parte dessa mãe tinham suas responsabilidades e como nunca se deram bem desde crianças não seriam os indicados para ajudá-la no socorro.
Seus outros pais, os pais pretos, eram pobres e não poderiam fazer nada. Nem tinham carro para levá-lo e tampouco condições financeiras de interná-lo em nenhum hospital capacitado para medicá-lo.
Os irmãos por parte dessa família, pelos mesmos motivos que os primeiros também não seriam recomendados a prestar tal assistência.
Optou por chamar seu médico que também é seu tio informando por telefone que o encontrou totalmente embriagado dormindo sobre as garrafas.
Dr. Carlos ao chegar com uma ambulância encontrou-o quase envenenado por aquele líquido alcoólico. Percebeu que não houve a ingestão da bebida e sim inalação, o que não deixava de ser tão perigoso quanto ao consumo. No resgate levou-o direto para sua clinica psiquiátrica e internou-o para ser devidamente medicado clinicamente para posteriormente iniciarem a terapêutica psiquiátrica.
Retornou a casa de Dr. Sebastião e conversou algum tempo com a arrumadeira.
Dona Lourdes. Não conte nada do que ocorreu com o Zinho para minha irmã.
Fique sossegado que não falarei nada.
Nem para o pai preto e nem para a mãe preta.
Fique tranquilo que só farei o que o senhor mandar.
É muito importante para sua cura que ninguém saiba dele e que nenhum parente procure-o. Pelo menos por enquanto.
Já entendi Doutor. Não contarei nada para ninguém.
Ele vai demorar em se curar?
Creio que entre dois a três meses de descanso ele se recuperará.
Apenas por uma bebedeira? Ou tem alguma coisa mais?
Ele está em uma crise muito forte.
Ele bebeu mesmo tomando seus remédios? Não tem perigo de morte?
Ele não bebeu. Colocou a bebida na banheira e ficou mergulhado nela.
Que doideira meu Deus.
Tinha muitas garrafas e copos espalhados pelo apartamento inteiro.
Isso é outra história. Aconteceu no final de semana.
Faça uma grande mala com roupas dele e leve-a para mim em meu consultório quando terminar seu serviço aqui, pois daqui passarei na clínica e depois volto. Fique com esse dinheiro para ir de táxi.
Está certo. Aceito o dinheiro e farei o que pede. Mas, diga-me quem foi que falou que ele bebeu no final da semana?
Quando nos encontrarmos à tarde lhe conto tudo.
Porque ele está fazendo essas besteiras?
Quando ele está em crise não sabe bem o que faz. Não tem a noção exata do certo e do errado.
Assim que eu chegar com a mala de roupas, por favor, conte-me tudo.
Contarei sim.
Se houver necessidade diga as mães e ao pai preto que ele viajou a serviço para a Europa e que de lá mandará notícias. 
Pode confiar que assim farei.
É extremamente importante que ninguém saiba de nada. Se alguém das duas famílias dele procurá-lo será pior. Saiba bem disso.
Boa sorte Doutor e cure logo meu menino.
Farei o possível para ajudá-lo e até daqui a pouco.
À tarde Dr. Carlos recebeu Dona Lourdes com a roupa e conversaram:
Como está ele?
Ainda totalmente inconsciente. Quase entrou em coma quando chegou, entretanto os médicos da clínica o socorreram. Fiquei com ele até passar o perigo.
Então ele já está bem?
Clinicamente sim. Mas do distúrbio ainda levará tempo para recuperar.
A cabeça não é?
É. A cabeça está mal. Aliás, está péssima.
Deixei indicada a dosagem dos remédios que serão aplicados. Ele deve ficar dormindo pelo menos uns três dias seguidos.
Então ele não verá e nem falará com ninguém?
Nesses dias não.
No domingo já poderá receber visitas das mães?
De jeito nenhum. São exatamente os parentes que ele não pode ver. Muito menos conversar com eles. Vai demorar bastante para que isso seja possível.
Dr. Carlos contou-lhe todo o acontecido de quinta feira passada até o momento alertando-a que o rapaz cismou em encontrar os pais biológicos, pois acredita que o tal homem esfaqueado é o seu pai, motivo de sua atual crise.
Uma história sem nexo, mas que em sua doentia cabeça fazia sentido. Que sua fixação no momento é somente esse parente que ele tem, portanto não deve aparecer nenhum outro, pois só lhe fará mal.
Doutor. Ele sempre foi rebelde desde pequeno, mas ele gosta dos pais.
Tanto dos pais brancos como dos pais pretos.
Ele gostará de vê-los.
Não vai gostar de ver nenhum deles agora. Creia e confie em mim.
Só a mãe preta então?
Não. Ninguém. Aceite o que estou falando. 
Por enquanto ele não gosta de nenhum deles. Não gosta dos pais nem das mães e nem dos irmãos.
Não é verdade o que o senhor está falando.
Atualmente a pessoa que ele menos gosta é dele próprio.
Ele quer se gostar, mas não consegue. Infelizmente foi esse monte de pais que o deixaram assim.
Está louco Doutor?
Talvez. Não tenho muita certeza se sim ou se não.
Falei brincando. Foi só o modo de falar.
Descobriu meu segredo. Não espalhe por aí que sou maluco.
O senhor está “tirando” comigo não está?
Eu mesmo nem sei. 
A intenção foi essa, mas na verdade não sei se estou “tirando” com você ou se minha insanidade está mesmo fluindo.
Vejo tanta gente alheia aos conceitos impostos pela sociedade com atitudes até contrárias, muitas vezes mais sensatas que as que agem com as tradições consideradas corretas e atribuídas como melhores chegando a ficar em duvida sobre o que é verdadeiramente certo ou o que é errado.
Constantemente encontro entre os “doidos”, pessoas muito mais coerentes que entre os considerados sãos.
Não entendi nada. 
Se você fosse “demente” como nós “birutas”, teria entendido.
O que eu deveria entender?
Deixa pra lá.
Sabe por que Zinho gosta muito de mim e de você?
Porque somos bons e atenciosos com ele?
Esse é um dos motivos, mas não é só por isso.  
Os pais dele não são bons e atenciosos com ele? Até mais que nós?
Sim, mas ele não gosta deles. Nem dos irmãos dos quais até é inimigo.
Sobre os irmãos o senhor tem razão.
Todos seus noivados não foram desfeitos?
Foi isso mesmo.
Casamento consumado é a união de corpos e de compromissos. Numa análise bem simples conclui-se que os cônjuges se tornam parentes.
E daí?
Daí que ele não gosta de parentes arrumados.  No intimo ele não os suporta.
Desculpe a ignorância, mas eu acho que o senhor está mesmo doido.
Pare de insistir que descobriu meu grande segredo. Foi a única pessoa que conseguiu até hoje.
Continua caçoando comigo?
Acho que nunca falei tão sério.
Não creio e não estou entendendo nada do que diz.
“Você não está entendendo nada do que eu digo”.
“Eu quero é ir embora”.
“Eu quero é dar o fora”.
Porque é que está cantando doutor? Pirou mesmo?
Foi você com sua expressão “Não creio e não estou entendendo nada do que diz”, fez-me lembrar de uma das músicas maravilhosas que conheço do Caetano Veloso.
Dá para o senhor continuar tentando explicar-me? 
Está certo. Porque você acha que ele desmanchou todos os noivados sempre próximos aos dias de se casar?
Por causa da insegurança dele. Talvez medo de sustentar família.
Está chegando ao ponto. 
Todas as moças que namorou ele as amava, mas deixava de gostar delas quando chegava à hora de transformá-las em sua família, ou seja, fazer delas uma parente que na realidade nunca foi.
Não teria problema algum em sustentá-las financeiramente. Dinheiro ele tem e muito. É que ele não as quer como sua família.
E porque o senhor acha que ele gosta mais de nós que dos pais?
Por não sermos e nem o tratamos como parentes.
Somos como você mesma disse, bons e atenciosos, sem cobrá-lo de nada. Ao contrário dos ditos parentes que sempre fizeram e continuam fazendo dele uma marionete em suas mãos.
Isso o revoltou e continua revoltando tanto porque não o deixam ter sua própria individualidade. Ele viveu e vive totalmente sufocado.
Eu sou uma simples empregada na casa dele, mas o senhor é tio dele.
Sou nada. Nunca fui e nunca serei.
Mas é irmão da mãe dele ou não é?
Sou irmão da Tereza que inventou que é sua mãe por ter usurpado da Selma esse direito que ela tinha desde o inicio, quando o encontrou e adotou-o.
Realmente ele nunca o tratou como tio. O que eu sempre achei errado.
Eu sempre insisti e induzi-o desde pequeno a não considerar-me, e muito menos tratar-me de seu tio. 
Até logo Doutor. Não estou entendendo nada e vou falar com o senhor de agora em diante somente o necessário.
Até logo Dona Lourdes. É bom evitar-me mesmo. Antes que se transforme também em uma “demente” para dar-me trabalho em recuperá-la e o pior é que terá de ser grátis, pois eu seria o culpado. 
Acho que estou ficando doida por conversar com o senhor, mas eu sei me medicar. Proíbo-me de falar com o senhor.
Psiquiatra também?
Não. Mas tenho sabedoria, inteligência e bom senso.
Rindo despediram. O riso do médico era como sempre gargalhada. O da arrumadeira era o tal sorriso amarelo, desconfortável e sem graça que caracteriza o desconserto.
                                   A sábia resposta dada por ela não era dela própria, portanto não tinha o direito de sair-se vitoriosa no gracejo da despedida. A frase de despedida era decorada, pois sempre ouvia sua patroa Tereza assim responder ao irmão psiquiatra que em finais de conversa sempre terminava com pilhérias sobre ela. Para a alegria do médico ela saiu aborrecida com tal diálogo que nada entendeu e que achou até muito estranho.
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À noite o psiquiatra levou as roupas do interno ao hospital e encontrou-o dormindo, sedado pelos remédios que lhe foram aplicados depois de medicarem-no da intoxicação.
Examinou pessoalmente sua pressão arterial, sua temperatura, fez um eco e um eletrocardiograma e um eletro-encefalograma e constatando seu bom estado retirou-se para sua residência.
Seu paciente não teria outra coisa a fazer a não ser dormir por pelo menos quatro dias obrigado pelos remédios. Essa tinha sido a determinação dada por ele aos médicos assistentes para que o cérebro totalmente desequilibrado do acamado deixasse de induzi-lo a pensar e fazer asneiras.
Os sedativos fortes continuariam em doses altas desde que sua pressão e pulsações cardíacas se mantivessem dentro da normalidade com no máximo vinte por cento de alterações.
Fora disso deveriam suspender os medicamentos e chamá-lo com urgência. Avisou que independente de qualquer complicação estaria na clínica no sábado para uma visita geral aos internos e principalmente à Dr. Sebastião.
Não há necessidade de sua presença Dr. Carlos. Nós resolveremos tudo.
Não trata de desconfiança em você. Sei que todos os médicos daqui são eficazes, mas esse menino interno eu tenho carinho especial. 
Não é um paciente comum como os demais. Trata-se de um amigo desde sua infância e muito querido.
Sabemos disso Carlos. Foi criado por sua irmã e seu cunhado. Não é a primeira vez que o traz para cá.
Desta vez a anormalidade está muito grave e tenho medo do suicídio.
Acha que isso é possível?
Ele próprio contou-me que teve duas excelentes oportunidades na manhã de domingo passado para consumar o fato e que só não conseguiu por total covardia. Poderá se munir de alguma força e agir tresloucadamente e conseguir tal intento.
Vou colocar um enfermeiro o dia inteiro à vigiá-lo e outro para permanecer acordado a noite toda a seu lado enquanto dorme.
Faça isso. Dê preferência à noite a um funcionário que não durma. Arrume um que sofra de insônia.
Quem pensa que sou? Eu quem contrato todos os trabalhadores do hospital. Acha que aceitaria alguém doente para trabalhar aqui? Nunca aceitarei ninguém com insônia ou outra doença qualquer, meu caro patrão.
Doente já basta você não é?
O incompetente que me contratou doente foi você meu caro Inimigo. 
Risos ao se despedirem Dr. Carlos dono do hospital e seu gerente geral Dr. Souza que desta vez gargalhava por ter sido talvez a primeira vez que conseguira sair-se bem nos escárnios entre eles.
Dr. Carlos com um sorriso sem graça, mas mesmo assim debochado, enquanto afastava olhou para trás e apenas disse:
Vá à merda.
Tal procedimento apelativo só serviu para que Dr. Souza gargalhasse ainda mais por ter tido a confirmação de que desta vez de fato desconcertou o libertino e impudico chefe. 
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No domingo pela manhã Sra. Lourdes visitou sua amiga e comadre Selma.
Bom dia. Como vai?
Tudo bem.
E os netos vão bem?
Estão ótimos. Foram passear fora com a mãe.
Trabalhamos juntas na casa de Dr. Jorge e Dra. Tereza muitos anos até que você aposentou. Sempre fomos amigas e somos até comadres por isso não posso mais esconder de você o que está acontecendo.
O que houve?
O seu filho. O Dr. Zinho.
Pelo amor de Deus o que tem ele?
Dr. Carlos internou-o no hospital de loucos.
O que está acontecendo? Quero vê-lo.
Calma. Antes de vir para cá ainda bem cedo telefonei para a casa de Dr. Carlos, antes de ele sair para seus passeios para saber noticias dele. 
Soube que ontem ele visitou-o e encontrou-o bem, embora continue dormindo.
Que aconteceu? Algum acidente? Ele está machucado?
Não foi nada disso. Ele está em agitação. Seu conflito na cabeça.
Mas ele não tem tido problemas há muitos anos, pois diariamente toma seus remédios indicados pelo próprio tio.
Sra. Lourdes contou tudo que aconteceu na quarta feira para a mãe preta do enfermo. 
Disse-lhe que desde então ele só estava fazendo besteiras e que não sabia explicar direito, mas que o tio psiquiatra tinha-lhe dito que ele já estava ruim e agindo errado há algum tempo. Desde quinta-feira que antecedeu esta passada. 
Meu menino. Meus guias e orixás poderosos, eu troco todo o restante de minha vida pela cura dele. 
Dr. Carlos disse que ele ficará mais de dois meses no hospital para curar-se definitivamente.
Tanto tempo assim?
Falou-me que esse distúrbio foi muito violento, mas que tem certeza que será o último.
Eu quero visitá-lo.
Não pode. Eu prometi que nada falaria e que até mentiria a todos vocês que ele tinha viajado a serviço para a Europa. 
Dr. Carlos não quer que ninguém saiba. Nem você nem pai preto e nem mãe branca.
Isso é um absurdo. Esconder o filho doente da própria mãe?
Não é esconder por esconder. Disse-me que faz parte da cura.
Como assim?
Não sei ao certo. Ele pediu-me mais de “mil vezes” que não falasse com nenhum parente o que está acontecendo com o Dr. Zinho para o bem dele.
Não entendo por quê? Todas as vezes que o menino tinha anormalidade ele pedia que a gente cuidasse dele dando-lhe carinho e tendo muita compreensão.
Pois é. Não sei por que agora ele quer o contrario.
Vou falar com ele.
Pelo amor de Deus. Não fale que eu lhe contei.
Vamos pensar como resolver a situação.
As amigas e comadres após refletirem algum tempo descobriram como resolver o impasse.
Procure pelo Zinho amanhã cedo no hospital onde ele trabalha.
Mas não vou encontrá-lo. Você não está dizendo que ele está internado.
É por isso mesmo. Lá irão informá-la que ele está de licença.
Mas ele está mesmo?
Dr. Carlos contou que telefonou ao hospital para comunicar das futuras ausências para tratamento médico e soube que ele próprio já havia solicitado licença para afastamento do trabalho por três meses.
Já entendi. Daí eu procuro o Dr. Carlos e falo que não encontrei meu filho que ausentara do trabalho e que estou preocupadíssima com o fato.
Isso mesmo. Ele terá de contar-lhe tudo. 
Mas se ele mentir falando da tal viagem?
Comadre pense bem. 
Como ele poderá falar da viagem a serviço se você afirmar que soube que ele pediu afastamento do serviço? 
Ele não terá como mentir e falará a verdade.
Acho que o mais certo é procurar Dra. Tereza que também é mãe dele e mais sabida que nós para resolver a situação ainda hoje mesmo.
Eu acho que falei demais. Arrependi-me da besteira.
Não cometeu nenhum ato repreensível. 
O que fez foi o certo. 
Se as mães e os pais que são as pessoas que mais amam os filhos não podem ajudá-los quem vai poder?
O Dr. Carlos que é o tio dele.
Tio nada. Ele sempre fez questão de não se portar como tal e inclusive proibiu o Zinho desde adolescente em considerá-lo tio. 
Quando começou cuidar da doença do menino exigia-lhe atendimento apenas como médico. 
Os colegas de faculdade nunca souberam do parentesco, pois o relacionamento deles sempre fora de aluno para mestre e vice versa.
Dr. Carlos contou-me sobre isso. 
Eu sempre pensei que o menino rebelde é quem não o respeitava como devia e até já o repreendi várias vezes e ele sempre me respondia: “Ele não é meu tio mesmo. Todos vocês sabem disso”. 
Nunca foi rebeldia de Zinho. Sempre foi impedido pelo tio de portar-se como sobrinho. Só poderia considerá-lo como amigo, médico e professor.
Chego a pensar que...
Calou-se por quê? Continue o que estava falando.
Sei lá se devo falar.
Agora que iniciou continue e termine.
Não sei como começar.
Dê um jeito.
Está bem. Vou falar. Acho que Dr. Carlos não está “batendo bem”.
O que a faz pensar assim?
Ele contou-me que nunca deixou Zinho considerá-lo parente e que isso estava certo e que é exatamente por isso que eles se dão muito bem.
Sempre considerei uma exigência desagradável e insensata. Até meio chata, mas achá-lo louco por isso não está correto.
Tem outras coisas estranhas nas atitudes dele.
O que?
Usou um jeito extravagante de falar e explicar certas coisas que parecia que ele queria que eu entendesse que ele próprio se acha maluco. 
Explique-se melhor.
Durante a conversa séria que tivemos fazia gozações comigo.
Outras vezes até cantar cantava e mal sem nenhum motivo para isso. Falou-me que Zinho não gosta dos pais, das mães, dos irmãos e nem de si próprio. 
Que ele só gosta de mim e dele justamente porque somos as únicas pessoas próximas e que não somos seus parentes e que é justamente por isso que ele gosta de nós.
Deve estar demente mesmo ou endemoniado.
Motivo mais forte para eu falar com Dra. Tereza para se for o caso mudarmos o Zinho de médico. 
Ela é médica também e saberá o que fazer.
Acho que ela não deveria saber de nada por enquanto. 
Creio que você deve fazer justamente o que planejamos antes.
Nada disso. Vou já telefonar para ela. 
Mas ela não está hospitalizada da operação?
Não está mais. Voltou ontem à tarde. 
Você já tinha terminado seu serviço e ido embora quando ela chegou. Telefonou-me para saber se eu tinha alguma noticia de Zinho. 
O que você falou?
Nada. Eu não sabia o que estava acontecendo.
Vou para casa. Por favor, não me indisponha com o Dr. Carlos.
Não posso garantir-lhe nada, pois não terei mais as rédeas da situação. Dra. Tereza é quem vai resolver o que achar melhor. 
Sinto muito minha amiga e comadre, mas você mesma contou-me tudo por estar preocupada com Zinho que apenas conhece desde adolescente. 
Imagine a apreensão minha que sou a mãe. 
Com certeza você me prejudicaria também se fosse para o bem de um de seus filhos. 
Desculpe-me, mas nada mais poderei fazer.
Vou agir conforme meu coração manda. A razão que vá às favas. 
Até outro dia e boa sorte. 
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Sra. Lourdes foi para sua casa e intranquila com a atitude que a comadre tomaria contou ao marido o que estava acontecendo e qual fora sua participação e ele aconselhou-a falar com Dr. Carlos e cair fora da história.
Ela ligou ao médico em seu celular, pois embora ainda fosse pela manhã sabia que não o encontraria em sua casa. 
Com certeza já estaria no clube entupindo-se de caipirinha e chope esperando o horário da feijoada.
Informou-o que não conseguira guardar o segredo e que mãe preta a qual tinha procurado e contado do paradeiro do Zinho iria encontrar-se com mãe branca para irem ao hospital.
Pediu-lhe as devidas desculpas por ter faltado com o trato com ele, pois a sabedoria de seu coração mandou-a agir assim.
Dr. Carlos não só a desculpou como a tranquilizou dizendo-lhe que entendia e que inclusive já imaginava tal procedimento por parte dela e desligou rapidamente sem despedir-se.
Telefonou em seguida para sua irmã e descobriu que ela já havia saído para encontrar-se com Selma e o marido. 
Sabia para onde iam e o que tentariam fazer.
Com o carro em movimento infringindo as leis de trânsito fez novo telefonema.
Desta vez para o Dr. Souza no hospital e deu-lhe ordem de proibir de qualquer maneira a entrada e sua irmã e demais visitantes no quarto do enfermo.
Que eles esperassem por ele na administração, pois já estava a caminho. Continuando a conversa com o médico gerente geral do hospital soube que Dr. Sebastião tinha acordado por volta de oito horas, mas que continuava com comportamento inadequado e atitudes muito estranhas.
Dr. Souza contou-lhe que desde que ele acordara e fora ao pátio tomar sol caminhava sem parar. Que permaneceu durante algum tempo sempre olhando de um lado a outro rapidamente igual um pêndulo desgovernado perguntando ininterruptamente “Você viu ele”? 
Depois modificava tal movimento como se seu pescoço fosse de mola e passava a agitar a cabeça para cima e para baixo de modo sistemático e contínuo.  Exatamente igual Paulo Silvino no quadro do programa Zorra Total protagonizando o “Cara crachá”. 
Todo o tempo que caminhava ouvia-se o som de sua voz que repetia continuadamente: “Você viu ele”?
Nas raras vezes que alguém lhe perguntava “Ele quem”? 
Ele respondia “Ele. Ora bolas. Meu pai procurando por mim. Ele enxerga mal. Só tem um olho”.
Informou que o doente só se referia ao tal homem assassinado que viu no hospital e cismou que é seu pai. 
Nunca citou ou perguntou pelos pais adotivos. E tampouco por outras pessoas.
Não pedia para sair e nem perguntava quando sairia.
Não reclamava de nada e de ninguém.
Só fez o que foi dito até na hora do almoço e depois continuou da mesma maneira e assim está até o atual momento. Quase treze horas.
Continuando a narrativa o médico disse que se sentou a seu lado na mesa quando almoçaram e que após a refeição andou ao seu lado tentando conversa, mas não conseguiu nada com o jovem enfermo. 
Informou que ele o reconhecia, mas não lhe respondia e não fazia nenhum questionamento ou perguntas, a não ser a já mencionada. 
Evidenciou-se assim que ele continua totalmente alienado e alheio a todos os códigos de sensatez.
Pelas informações recebidas o psiquiatra percebeu que o paciente ainda estava mentalmente muito descontrolado. Que não tinha nenhuma consciência da realidade e entendeu que os remédios ainda não o equilibraram.
Sabia que ele não teria a mínima condição de manter conversa com ninguém principalmente com quem quisesse questioná-lo, cobrar-lhe respostas precisas e corretas e com certeza o pessoal que estava indo para lá exigiria dele o impossível. Seus familiares não poderiam de forma alguma sequer aproximar-se dele, pois complicariam por demais sua recuperação.
Somente os dois médicos sabiam exatamente a quem o jovem procurava e aquelas pessoas consideradas suas parentes se ele as visse as reconheceria, mas não as trataria como elas gostariam.
Dra. Tereza iria insistir que é sua mãe. Que é sua mãe branca. 
Sra. Selma faria o mesmo. Não hesitaria em afirmar que é sua mãe preta.
Sr. João Paulo se identificaria como seu pai preto e exigiria esse tratamento. 
Eles o confundiriam tanto que poderiam causar-lhe uma pane mental total e definitiva de caráter irreversível.
Por sua conta e risco, infringindo o código de ética profissional à um médico, por telefone passou a orientação ao Dr. Souza de injetar-lhe uma grande quantidade de calmante para nocauteá-lo de imediato o suficiente para mantê-lo em sono profundo até no dia seguinte.
Os riscos de uma parada cardíaca provocada pela rápida queda de pressão sanguínea eram muito grandes, mas deveria efetuar tal imprudência para impedir o encontro que estava prestes a acontecer cujo risco de causar um dano permanente no doente era percentualmente muito maior.
Dr. Souza administrador e gerente geral do hospital obedeceu todas as recomendações e sedou o paciente que não acordaria nas próximas vinte e quatro horas. Manteve um médico e dois enfermeiros em constante vigília a seu lado.
Ele tinha muitos motivos para não questionar a decisão do patrão. Sabia do grande conhecimento e responsabilidade de Dr. Carlos. Um dos mais bem conceituados médico psiquiatras da cidade.
Tinha ciência da doença de Dr. Sebastião e concordava que tal enfermidade era muito agravada pela família.
Sabia exatamente o que desencadeou a atual anormalidade. 
Há anos estuda e pesquisa a fundo com o chefe a possibilidade de chegarem à cura de uma doença tida como incurável.
A grande maioria das doenças mentais são de fato incuráveis pela impossibilidade de descobrir-se a causa geradora do problema, mas no caso específico estavam bem próximos de encontrar o motivo dos distúrbios de Dr. Sebastião e sua consequente cura. Encontrando a causa exata acaba-se com a doença sem remédios. Apenas com psicoterapia. 
Não existindo mais a origem que provoca a disfunção mental tal perturbação também deixará de existir. Eles tinham convicção de que estavam bem próximos. Por todos esses motivos Dr. Souza não hesitou em obedecer as determinações recebidas.
Rapidamente Dr. Carlos chegou ao hospital encontrando-se com os demais que já o aguardavam em seu enorme e escuro consultório quase sem móveis. Uma pequena mesa com uma confortável cadeira giratória para seu uso.
Sobre a mesa tinha uma caneta esferográfica carcomida da metade para o fim, um bloco de receituário, várias folhas de papel soltas e espalhadas com o timbre do médico, um antiquado carimbo de madeira com uma velha almofada de tinta e um cinzeiro de ferro fundido muito grande cheio de cinzas e tocos de cigarro.
Distribuídas aleatoriamente na imensidão da sala via-se muitas cadeiras desconfortáveis de plástico e algumas almofadas de tecido puído jogadas a esmo pelo chão de madeira cujo verniz era muito antigo e gasto. Completava o mobiliário um enorme cabideiro para capas, guarda chuvas e chapéus com escarradeira em baixo. 
Tal antiguidade não tinha nenhum valor prático e nem como relíquia, pois não era encontrada em nenhum antiquário. Deveria simplesmente estar no lixo.
Mas estava lá como decoração denotando o péssimo gosto do exótico médico. Há mais de cinquenta anos tal móvel não está mais em uso. Talvez seja o último e único exemplar existente em todo o mundo.
Cumprimentou-os apenas com um gesto de cabeça e sem nenhum preâmbulo convidou-os a visitarem o doente somente com outro gesto, desta vez com a mão.
Solicitou a presença de um enfermeiro e foram ao apartamento ricamente mobiliado onde estava internado Dr. Sebastião.
Encontraram o rapaz dormindo ligado a um vigilante aparelho de eletrocardiograma e outro de aferimento de pressão arterial que trabalhavam ininterruptamente. Ambos moderníssimos. De última geração. 
A beleza do apartamento como toda a clínica era o inverso do horrendo consultório dele.
Quem estava atento a seu lado era Dr. Souza que ao vê-los entrar conversando com o singular gesto de colocar o dedo em vertical sobre os lábios calou-os imediatamente para em seguida com a mesma mão esquerda fazer o sinal para eles saírem, evidentemente expulsando-os sumariamente do local. 
O enfermeiro que acompanhou a comitiva assumiu o lugar de Dr. Souza na vigília e cuidados com o paciente, após rápida orientação dele que  foi atrás dos visitantes encontrando-os já desconfortavelmente instalados na imensidão do consultório de Dr. Carlos escuro e fedendo a nicotina.
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Tudo no hospital era de ótima qualidade e muito bom gosto contrastando imensamente com o ridículo consultório onde estavam.
Tinha aparelhagem completa para cuidar de todos os males e uma enorme equipe médica de várias especialidades capaz de fazer verdadeiros milagres em reanimar falências do coração quando estes ameaçassem parar e de sanar todos os outros problemas de saúde além de cuidar com esmero dos doentes mentais, pacientemente buscando suas curas.
Independente de tais equipamentos e médicos especialistas tal lugar dava ênfase à psiquiatria e ao repouso e por esse motivo a totalidade dos internos eram para tratamento mental, excetuando-se apenas os milionários hospedes do SPA.
Tudo era luxuosíssimo com divisão muito segura do local dos doentes e do enorme espaço reservado à nata da sociedade que se hospedava a preços exorbitantes em suas férias para repouso, recreação e tratamentos de beleza ou emagrecimento.
Haviam diversas alas para os hospitalizados doentes devidamente separadas pelo grau de desequilíbrio para suas próprias proteções. 
Tais ambientes ficavam próximos aos consultórios, pronto socorro e demais dependências para emergências e atendimentos gerais.
Essas unidades ficavam adjacentes à entrada principal do hospital. 
Existia outra entrada pela lateral distante uns quatro quilômetros, inacessível e desconhecida não só dos doentes como também de todo o público em geral com raríssimas exceções. Tal entrada bastante discreta permitia ingresso somente a uma minoria de escolhidos milionários que buscando isolamento e repouso se instalavam em suas cinematográficas suítes.
Muitas atividades para recreação esportes e lazer se encontravam em tal lugar, maior em área que muitas cidades brasileiras, separado por um altíssimo muro ocupando noventa por cento de toda a área. 
Ficava escondido em uma fazenda altamente produtiva que abastecia ambas as clinicas com alimentos de ótima qualidade.
Todo o local do hospital e do SPA além de cercado por muros muito altos, tinha cerca eletrificada, circuito interno de televisão e muitos vigilantes dia e noite para manter a absoluta proteção de tudo e de todos.
O silencio da fazenda era quase absoluto para o conforto dos doentes internos e dos empresários em repouso.
Tal maravilha ficava próxima a capital por uma estrada exclusiva que saia de uma BR dando acesso à fazenda.
Piscinas olímpicas, poços para saltos ornamentais, quadras poli-esportivas, saunas, pistas de atletismo, montanhas para escaladas, cavalos de raça para equitação e corrida, quadras de tênis são alguns exemplos das atividades recreativas e desportivas ali existentes. 
Até um grande lago artificial para a pratica de jet ski existia, próximo ao magnífico campo de golfe já usado por muitos famosos esportistas ranqueados internacionalmente. 
Ainda na parte externa encontrava-se um zoológico, um jardim botânico e um amplo aquário. 
Além disso na parte coberta tinha salas de jogos recreativos e restaurantes com cardápio de todas as culinárias do mundo.
Nenhum hotel da cidade mesmo os mais estrelados oferecia tamanho conforto. Clubes muito menos.
Os funcionários desse local eram cardiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, massagistas, gourmet, professores de várias atividades esportivas, personal trainers e et cetera.
Equipamentos médicos só os de praxe nas academias para não destoar com o ambiente requintado.
Por esse motivo havia em segredo só conhecido pelos médicos um portão de acesso que dava passagem à ambulância da parte hospitalar à tal Éden para socorro de algum eventual acidente. Raramente aconteciam imprevistos, pois os riscos eram mínimos pela grande segurança existente e também pela pouca frequência de pessoas, pois o preço cobrado era inacessível a muitos ricos com apenas poucos milhões e os escassos frequentadores sempre muito exigentes muitas vezes se hospedavam com suas famílias determinando exclusividade.
Além desse portão havia também uma porta que unia ambos ambientes só do conhecimento de Dr.Souza, do chefe de cozinha e seus funcionários. A passagem dava acesso ao imenso pomar que fornecia frutas, legumes e hortaliças tanto aos turistas hospedados como aos doentes internos. 
Era nesse local onde a elite nacional e estrangeira frequentava que Dr. Carlos, proprietário de tudo, mantinha seu consultório antiquado por puro prazer de ser debochado. O médico sempre foi muito extravagante e gozador ao extremo.
Era muito mais rico que vários de seus importantes hóspedes, mas jamais frequentava e desfrutava do maravilhoso conforto que lhes oferecia. 
Nas poucas idas que fazia nunca ficava mais que alguns minutos. Só em rápidas visitas quando solicitado por algum amigo hospedado.
Geralmente sua esposa, filhos, noras, genros e netos adoravam visitar para usufruir da milionária clinica de repouso, mas ele avesso ao calmo e requintado isolamento frequentava clubes cheios de gente nadando, jogando futebol, ping pong ou bilhar, comendo churrascos ou feijoada com caipirinha e chope. 
Tinha gula por um churrasco, um mocotó, uma dobradinha ou um sarapatel, acompanhado de cerveja ou chope. 
Sempre foi muito esdrúxulo e completamente oposto aos gostos apurados e chiques dos milionários.
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Um surrado, antigo e barulhento circulador de ar tentava inutilmente espantar a fumaça dos inconvenientes cigarros mal cheirosos que o médico deixava queimar-se propositadamente misturados aos outros já existentes no cinzeiro que ao contato com esses voltavam a acender-se impregnando a sala com o horroroso cheiro que tomava conta do ambiente para o desconforto de todos. 
Como vão? Perguntou Dr. Souza ao chegar no consultório.
Tudo bem. Em uníssono responderam os demais.
Zinho está muito sedado. Sua crise desta vez foi sem dúvida a mais forte e grave de todas que já o acometera.
Gostaria de falar com ele.
Terezinha. Ele dormirá muitas horas seguidas. Tivemos que “desligá-lo” por muito tempo para colocarmos o seu “Tico e o seu Teco” em harmonia.
Não fale assim de meu filho. Ele tem muito mais neurônios que você seu debiloide. Quero falar com ele ainda hoje ou no mais tardar amanhã.
Sinto muito Terezinha. Felizmente você sabe que só nós os médicos temos o direito incontestável do uso e da exigência do verbo proibir.
Pelo menos só vê-lo um pouco. 
Vocês já o viram quando chegaram. 
Estava dormindo e você nos permitiu apenas alguns segundos. 
Viremos eu e Selma amanhã na hora do almoço. Só para dar um abraço e um beijo nele.
Se fosse a Selma que insistisse ainda aceitaria, mas justo você que sabe muito bem o significado da palavra “proibido” dentro de um hospital que fica persistindo?
Justamente por ser médica sei exatamente os motivos das proibições em hospitais e justamente por isso insisto, pois tal impedimento não adequa a um hospital psiquiátrico.
Não tem nenhum doente terminal em UTI, nem operados, nem acidentados. Ninguém com doença contagiosa, portanto qualquer risco hospitalar ou contaminação a nós ou nossa aos internos fica reduzido à zero. Doenças mentais não se transmitem e nem se infeccionam. Não me tire de idiota Dr. Souza.
Terezinha tudo que disse a respeito de hospitais faz sentido, entretanto doenças psíquicas pioram e o agravante pode ser permanente e o doente irrecuperável e quando sentimos que determinadas visitas podem ocasionar isso, exigimos sem nenhum constrangimento a proibição à quem acharmos que devemos.
Discordo veementemente de sua decisão e exijo permissão. 
A proibição da visita de uma mãe nesses casos é totalmente inadequada e injusta. Sua presença e o carinho dado ao doente são até necessárias.
                                  Dr. Carlos interveio dizendo: 
Calma Tereza. Souza além de concordar com meus diagnósticos está cumprindo minhas determinações. 
A proibição é minha e é totalmente justa e indiscutível.
Carlos você está louco?
É a segunda pessoa que me faz essa pergunta nessa semana.
Então me parece que construiu o hospital certo. Coloque-se em uma camisa de força e mude-se para cá.
Cuidado com sua operação cara irmã. Os pontos plásticos que tem nos seios, na barriga, nos olhos, no queixo e et cetera, vão estourar e arruinarão o ótimo serviço do Pitanguí. Mantenha-se calma.
Como me pede calma se me impede de ver meu filho?
Meu também. Corrigiu a Sra. Selma. 
O filho que não é de nenhuma de vocês está com um conflito mental muito evidente, complicado e grave e não pode ser incomodado por ninguém. 
É claro que o caso dele não infecciona e nem é transmissível, mas temos muita chance de ele solucionar seus problemas se nós o permitirmos, ou de permanecer insano para sempre se não o tratarmos com muita cautela o que com certeza vocês não terão. 
Ambas as possibilidades dependem de nós. Se ficarmos tentando resolver como sempre fizemos só aumentará o problema.
Eu tenho clara convicção que descobri a causa e ele próprio vai se curar.
Conte-nos o que descobriu que o auxiliaremos terminar com a causa.
A causa somos nós.
O que? Nós?
É. E agora? Como vamos nos eliminar? Suicídio coletivo? Qual a sua idéia querida irmã?
Está maluco mesmo. Doido varrido e de jogar pedras.
Em sua próxima aula chame seus alunos ao laboratório da universidade e se tranque em uma das jaulas para ser estudado intitulando-se “O monstro idiota que pensa que virou médico”.
Deixemos de briga, pois o caso que é muito sério poderá deixar de sê-lo.
Já que não permitiram meu lazer no clube vamos à minha casa, pois temos o restante da tarde e a noite toda para conversarmos e se quiser adorada maninha convide todos os psiquiatras do mundo para ouvir minhas explicações do estudo que faço com Dr. Souza há quinze anos.
Se unanimemente não derem seu aval ao nosso descobrimento rasgo meu diploma e transformo meu hospital em um Motel de baixa categoria e vou trabalhar como lavador de toalhas sujas.
Pois tenha certeza que Jarbas estará presente com dois alunos dele.
Ótimo. Vai convidar o mais célebre dos psiquiatras do país? Chame-o pelo celular. 
Já fiz isso antes de vir para cá. Deve estar chegando.
Assim que ele chegar iremos todos a minha casa.
Depois de toda essa desfeita que me fez, ainda acha que vou a sua casa? Está enganado. Ficarei aguardando a chegada dele para notificá-lo que a partir desse momento meu filho estará entregue aos seus cuidados médicos. Selma e João também pais e responsáveis por Zinho aqui presentes concordaram com minha deliberação.
Ela soube de tudo que está acontecendo pela Lourdes e ao contar-me já viemos com a decisão tomada que é irrefutável e irrevogável.
Calaram-se até a chegada do médico psiquiatra mais importante do Brasil, que trouxe com ele dois jovens ex-alunos que se encontravam em sua residência.
A ridícula discórdia entre os irmãos reiniciara e foi o próprio Dr. Jarbas amigo de todos os presentes quem apaziguou os ânimos.
Primeiro quis ver o paciente. Perguntou o número do apartamento e sem ser acompanhado por ninguém o visitou muito rapidamente voltando aos demais. Trouxe a notícia que todos já sabiam. Ele continua dormindo.
Alertou Dra. Tereza que precisava conversar com os colegas psiquiatras que cuidavam do doente para ter todas as informações necessárias já que o paciente estava totalmente incapacitado de conversar.
Comentou que Dr. Carlos e Dr. Souza falariam por muito tempo tudo que sabiam a respeito de Dr. Sebastião por isso seria muito melhor que todos os interessados também ouvissem e participassem da conversa.
Convenceu-os em irem ao consultório anexo à casa de Dr. Carlos, pois como bom médico que era teria vídeos, CDs e DVDS gravados com conversas e imagens do enfermo, pois é praxe essa prática em estudos apurados desse tipo de doença, pelos profissionais altamente qualificados e realmente interessados na cura.
Alegou que teriam mais informações com os arquivos lá guardados e que principalmente usufruiriam de muito mais conforto que nesse consultório grotesco.
Lá teriam muito mais tranquilidade, pois nesse tipo de hospital muitos sons provenientes dos pacientes que não tendo a paciência de manterem-se quietos vez por outra gritavam seus desejos indesejáveis que ecoavam até o consultório onde estavam incomodando-os.
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Nessa mesma tarde de domingo participaram da reunião na casa de Dr. Carlos:
1. Dr. Carlos, médico psiquiatra que mantinha Dr. Sebastião internado em seu hospital.
2. Dra. Tereza, irmã de Dr. Carlos, médica pediatra e mãe adotiva do paciente, chamada de mãe branca por sua cor branca. 
3. Sra. Selma, empregada domestica aposentada, também mãe adotiva do mesmo rapaz chamada de mãe preta por ser afro descendente. 
Quando jovem fora uma linda mulata de olhos azuis. Miscigenação oriunda do pai alemão com a mãe negra. 
Trabalhou na casa da médica muitos anos até aposentar-se.
4. Sr. João Paulo, vigia noturno aposentado, esposo de Sra. Selma e pai adotivo de Dr. Sebastião, conhecido como pai preto pela cor negra.
5. Dr. Souza, médico psiquiatra, Diretor Geral do hospital de Dr. Carlos.
6. Dr. Jarbas, médico psiquiatra chamado por Dra. Tereza e considerado no país o melhor médico na especialidade.
7. Dr. Antônio Augusto, amigo e aluno de Dr. Jarbas que estava em sua casa quando foi solicitado por Dra. Tereza para ir ao hospital. Veio convidado pelo ex-professor.
8. Dra. Rosa, também ex-aluna do psiquiatra que igualmente se encontrava na residência dele e por ele foi chamada.
Foram para lá e no enorme e ricamente mobiliado salão de reuniões e estudos na mansão do médico, maravilhosamente instalados ouviu-se o anfitrião dizer:
Comece você João. Conte o mais detalhadamente possível sobre o aparecimento de Zinho para que Dr. Jarbas saiba exatamente sobre tudo desde seu início.
Com licença da palavra. Eu era vigia noturno num deposito de madeiras e lona em Vila Madalena. Mais precisamente na antiga firma Coberturas para Festas Orkan.  
Estava voltando de uma padaria onde fui rapidamente tomar um café por volta das cinco e meia da manhã quando vi um homem maltrapilho afastar-se rapidamente da porta da igreja próxima depois de ter colocado um embrulho no tambor de lixo...
Continuando a narrativa contou como encontrou o pequeno menino embrulhado em trapos imundos.
A criança parecia morta, mas vivia precariamente. Estava muito fraca e com certeza muito mal alimentada.
Que seu colega de trabalho que o substituiria às seis horas chegou quinze minutos adiantado, por isso ele pode ir um pouco mais cedo para sua casa levar a criança. Chegaria antes de sua esposa sair para o trabalho de doméstica na casa de Dra. Tereza.
Evitou que o colega notasse o que levava para não perder tempo com explicações.
Sua intenção era chegar logo para Sra. Selma limpar e amamentar o moribundo nenê para então entregá-lo a polícia.
Na época Sra. Selma estava amamentando a filha caçula deles de quatro meses e poderia fornecer seu leite aquele pequenino que parecia mais novo que a menina. Era muito pequeno e fraco.
Não parava de chorar, mas tão baixo que quase nem se percebia. Conseguia somente pequenos gemidos.
Enquanto o marido falava Sra. Selma chorava tentando ser silenciosa no pranto, mas não conseguia segurar os grandes e altos suspiros que por muitas vezes aborreciam os ouvintes que reclamavam do incomodo disfarçadamente com tosses ou pigarros.
Aborrecimentos mesmo a ponto de reivindicações com palavras e reclamações eram causados pelos fedidos cigarros que Dr. Carlos depositava a todo instante em um enorme cinzeiro idiotamente igual aos que tinha em todos seus consultórios. Esse monstro de ferro fundido era a única coisa de mau gosto existente nesse magnífico ambiente.
De nada adiantavam as exigências dos demais, pois o médico não deixava de queimá-los com pouco prazer em fumar, mas enorme desejo em incomodar.
Sr. João voltou à história, após tais interrupções dizendo:
Selma amamentou-o demoradamente e com dificuldade porque o menino tinha pouca força para sugar.
Para cuidar melhor dele faltou ao serviço naquela manhã telefonando a Dra. Tereza alegando uma inventada indisposição qualquer. 
Ao banhá-lo descobriu em seu pescoço um cordãozinho de couro que prendia uma carteirinha também de couro e nela encontrou seu registro de nascimento. 
Ficamos sabendo que ele não tinha a idade que aparentava. 
Ele já estava próximo de completar um ano, mas tão pequeno, fraco e desnutrido que Selma ficou com medo de entregá-lo naquelas condições às autoridades e ele não ser socorrido devidamente. 
Com absoluta certeza sem os cuidados de alguém com muito carinho, dedicação e competência médica ele não resistiria.
Ainda nesse dia foi com ele em seu emprego e mentindo a patroa médica pediu-lhe que cuidasse do menino que era seu afilhado. Filho de uma vizinha amiga.
Verificando o péssimo estado da criança Dra. Tereza internou-a sob sua própria responsabilidade em seu hospital pediátrico e cuidou dele por mais de vinte dias. 
Durante todo esse tempo procurei pelos jornais noticias do desaparecimento de tal nenê e nunca li nada a respeito e tampouco voltei a ver o homem nas imediações de meu trabalho assim como também nunca soube de ninguém que lá esteve à procura dele.
Imaginei que o menino jamais seria reivindicado por alguém e por isso concordei com Selma em ficar com ele após sua alta, pois a afeição que adquirimos tinha sido muito grande visitando-o diariamente no hospital, dando-lhe nosso amor e recebendo o dele.
Logo nos primeiros dias do tratamento da criança Selma já havia confessado a mentira à Doutora quando da cobrança dela de nunca ter visto a inexistente mãe em visita ao filho, e principalmente por ver que era ela quem o amamentava.
Censurou-nos severamente por não termos procurado o Juizado, mas de imediato repreendeu-se da repreensão, pois concordava que a criança não viveria sem os devidos cuidados médicos imediatos que poderiam, infelizmente, terem sido tardios pela permanente incompetência dos hospitais públicos tão inadequados e mal estruturados.
Curou-lhe todos os problemas e com o menino já são e salvo devolveu-nos para que nós fizéssemos o que seria obrigatório e necessário, inclusive se prontificando em ser nossa testemunha por não te-lo entregue de imediato devido sua situação de saúde. 
Prometemos-lhe, mas não cumprimos.
Selma mentiu-lhe novamente. Disse que havíamos devolvido a criança sem nenhum problema ao Juizado, pois a própria mãe que já aguardava a devolução perdoou-nos e não prestou  queixa. 
A criança foi reconhecida por ela que imaginava o lamentável estado do filho que fora roubado pelo próprio pai para vagabundear e esmolar a esmo pela cidade.
Conforme a palavra do pai também presente e arrependido confessou te-lo abandonado em local não mais lembrado. Inocentou-nos de rapto.
Ambos ao vê-lo tão bem cuidado ficaram até agradecidos por termos ficado tanto tempo cuidando dele devolvendo-o tão bem alimentado e sem problemas de saúde.
Em sinal da gratidão evitou-nos transtornos com a justiça sem a interferência de Dra. Tereza.
Bastante interessante e convincente mentira. Quem a inventou Sr. João?
Por favor, Dr. Antônio Augusto. Isso não tem a menor importância. 
Quem repreendeu o jovem médico foi seu professor Dr. Jarbas que solicitou ao Sr. João dar continuidade a narração. 
Nossa filha mais velha já tomava conta do irmão menor e da Cris de quatro meses, portanto esse novo irmãozinho poderia ficar sob sua responsabilidade enquanto Selma trabalhava durante o dia.
Eu trabalhava a noite, portanto estaria sempre presente durante os dias para ajudar a menina em qualquer emergência.
Não demorou mais de dois meses para Sebastião que era chamado nos primeiros dias de Tiãozinho, logo mudado para Zinho, aprender chamar-nos de pai e mãe. 
Selma poderia trabalhar tranquilamente como sempre fizera e assim vivemos os próximos quatro anos sem Dra. Tereza saber que ficamos com o menino e o criávamos.
Alguma pergunta por parte dos senhores presentes?
Sim Carlos. Respondeu Dr. Jarbas. 
Quero saber de Sra. Selma como se portava o irmão e a irmã mais velhos com relação ao menino. 
A propósito quais seus nomes e idades na ocasião?
Posso responder, pois nessa época eu sempre estive mais próximo da meninada que Selma.
Então continue João.
Minha filha mais velha chama-se Maria Luiza e tinha treze anos quando Zinho apareceu.
O menino chama-se João Paulo como eu e tinha seis anos e a caçula Cristina que chamamos de Cris desde o nascimento tinha quatro meses.
Os mais velhos sempre maltratavam Zinho com palavras, chamando-o de filho de rato achado no lixo por ele ser branco e não negro como nós.
Tanto eu como Selma os corrigíamos punindo com castigo e surras.
Isso os aborrecia e eles mais e mais discriminavam e batiam no branquinho. 
Cris que aprendeu com os outros também começou falar mal dele a medida que crescia.
Assim foi até quando ele tinha quatro anos e começou a contestar. 
Zinho em represália revidava chamando-os de tição apagado, carvão, preto de sujeira e outras coisas mais além de dar uns sopapos sem maiores consequências na Cris que era menor, pois dos maiores era ele quem apanhava.
Começamos repreendê-lo também com surras e castigos, como aos outros para educá-lo.
Até então tudo certo entre as crianças. Em todas as famílias acontece o mesmo.
Os únicos erros foram as palmadas e os castigos provenientes de vocês adultos. 
O Senhor acha que foram erradas as correções impostas por nós, mas as atitudes deles certas Dr. Carlos?
Claro que sim. Vai dizer-me que os irmãos consanguíneos de vez em quando também não tinham suas brigas e não se agrediam com palavrões ou sopapos?
Em toda família por mais que os pais tentam impedir sempre acontecem brigas entre irmãos. Isso é normal e natural e até certo ponto saudável. 
Sim. Acontecia mesmo. Com todos eles. 
Então tudo estava bem até a época. Nada de errado no crescimento físico e mental dos meninos formando sua personalidade e todos procurando seu espaço.
Vamos em frente Sr. João. Continue a história a partir de quando Carlos o interrompeu.
Eu mudei de serviço e deixei de trabalhar a noite, portanto os meninos ficavam sós durante o dia. 
Não tínhamos muitas preocupações, pois Maria Luiza já moça com dezoito anos e bastante ajuizada cuidaria bem do adolescente João Paulo, de Zinho e da Cris já grandinhos e que já não davam muito trabalho.
Entretanto sempre quando chegávamos à noite havia reclamações até o dia em que a briga de João Paulo e Zinho terminou com lesão.
O pequeno com pouco mais de cinco anos bateu no outro com um cabo de vassoura no alto da cabeça ferindo-o de tal modo que teve de levar dois pontos cirúrgicos.
João Paulo bem maior já com dez anos bateu em Zinho com força com um cinto de couro que usávamos para corrigi-los e ensiná-los.
Isso o deixou furioso e ele desapareceu só voltando para casa por volta de meia noite todo sujo e dizendo que quando fosse um pouco maior sumiria para nunca mais voltar.
Essa noite foi terrível, pois me arrependi amargamente da imensa surra que lhe apliquei como corretivo.
Estava muito nervoso com seu desaparecimento, por isso creio que excedi na repreensão.
Repreensão ou agressão? Agora é tarde. Continue.
Na ocasião quis corrigir. Mais calmo e até com remorso passei acordado até altas horas da madrugada tentando convencê-los de que eram irmãos e que deveriam se amar, se respeitar e et cetera, mas mesmo assim João Paulo ainda revoltado com o ferimento alegava que pagaria na mesma moeda se pequeno o agredisse novamente.
Imaginem o menino com mais de dez anos bater com força na cabeça do outro pequeno com um cabo de vassoura. Poderia até matar. 
Estávamos perdendo o controle sobre eles e não tínhamos como manter as rédeas curtas. 
Foi nessa época que Selma assustada achou por bem contar à patroa que tínhamos ficado com o menino, pois os problemas em casa poderiam ficar mais graves.
Dra. Tereza depois de censurá-la por não termos feito o certo acabou por concordar que nada mais poderia ser feito depois de tantos anos.
Propôs-lhe para amenizar os conflitos que Selma levasse o garoto em sua companhia para sua casa durante o dia de trabalho.
Sr. João Paulo foi interrompido na narrativa por Dr. Jarbas que perguntou:
Diga-nos Dra. Tereza. Como foi o convívio com Zinho em sua casa nessa época?
Foi ótimo. O menino era muito inteligente. 
Como minha clínica é bem próxima de casa sempre o via e brincava muito com ele. 
Comecei amá-la como a meus próprios filhos que já eram maiores. 
Ele passou a ser para mim como meu filho mais novo e por esse motivo Selma permitia que ele ficasse alguns finais de semana em minha casa. Ele chamava-me de tia. 
Eu e Jorge demos-lhe educação, religião e carinho como da família. 
Jorge adorava-o e o apresentava na roda de amigos nos clubes como o caçula. 
Quando tinha oito anos ganhara até medalha na natação em disputa com outros meninos de até dez anos. Meus filhos gêmeos que já eram bem maiores que ele e nadavam há muito mais tempo perdia nas disputas aquáticas.
Seus filhos tinham qual idade na época. 
Eliana a mais velha dezoito. Os gêmeos Rodrigo e Rogério dez anos.
Como eles se portavam com o menor?
Eliana lhe era indiferente, mas os meninos brigavam um pouco com ele.
Não ouvi direito. Brincavam ou brigavam que você disse?
Brigavam um pouco.
Acho que apenas o normal. Selma tem mais condições de responder-lhe, pois ela passava mais tempo com eles.  Praticamente o dia inteiro. 
Então esclareça-nos Sra. Selma se eram muitos os finais de semana que o menino ficava com Dra. Tereza ou apenas alguns conforme ela mencionou.
Fale-nos também como os meninos dela se comportavam com Zinho durante a semana só com a senhora presente.
A principio ele ficava um final de semana com ela e o outro comigo. 
Quando ele estava em casa as brigas com meus filhos continuavam por esse motivo eu e João achamos até melhor ele ficar quase todos os finais de semana com Dra. Tereza, pois os gêmeos não o molestavam na presença dos pais e ele viveria melhor nesse sentido e também passeava e aprendia muitas coisas com meus patrões.
Então os gêmeos portavam-se bem com ele só na presença dos pais? 
Na ausência brigavam muito ou apenas o normal conforme Tereza mencionou? Diga-nos como eram essas brigas.
Eram como gato e cachorro. 
Os meninos gêmeos tratavam-no mal e o xingavam muito. 
Irritavam o Zinho perguntando: “Você é filho da empregada preta e é branco por quê? Deve ser preto desbotado na Qboa ou é filho de rato achado no lixo e por aí afora”. 
Ele agredia-os chamando-os de burros e inferiores, pois nadava e montava a cavalo melhor que eles além de tirar melhores notas na escola.  
Aliás, praticava muito bem todos os esportes que Dr. Jorge lhe ensinou. 
Chegavam a vias de fato?
Sim. Sempre os gêmeos batiam muito nele quando eram os dois juntos, mas quando era apenas um, Zinho embora menor, não apanhava tanto. Defendia-se batendo também. 
A senhora o que fazia?
Repreendia meu filho para ensiná-lo a não brigar com os filhos dos patrões.
Como o repreendia? Com puxões de orelha, beliscões, tapas e castigos?
Como toda mãe que quer ensinar bons modos aos filhos.
Entendi.  Com seus maus modos pretendia ensinar bons modos. Também aos filhos da patroa a senhora empregava os mesmos métodos? 
Não. Eu não podia, pois eram os filhos da Dra. Tereza. O que eu podia fazer?
No mínimo contar a ela para que ela os censurasse e os repreendesse com castigos.
Tinha medo de contar-lhe e ela não acreditar e também por pensar na possível vingança dos meninos em cima de Zinho por minha denúncia.
Mas acendia muitas velas em minha casa para meus orixás darem boas maneiras aos meninos da patroa.
Qual a sua religião?
Sou espírita como todos em casa.
O menino era levado aos centros e terreiros?
É claro. Desde que era de colo. Acha que eu iria deixá-lo sem religião?
Claro que não.
Você. Dra. Tereza qual sua religião?
Sou evangélica.
Dr. Jorge também era?
Nada. O danado era ateu. Além de não acreditar em Deus ainda criticava e achincalhava quem cresse.
Qual religião ensinou a seus filhos?
Claro que a evangélica.
Ao Zinho também?
Lógico.
Muito bom. Sabia que desde pequeno ele frequentava os centros e tinha ensinamentos do espiritismo?
Nunca soube.
E nem nunca procurou saber?
Dr. Jarbas está querendo colocar-me culpa em alguma coisa?
Não se trata disso. Estou apenas coletando informações importantes.
Sabia que seus filhos gêmeos juntos batiam no pequeno longe de sua presença?
Selma nunca me contou.
Também nunca procurou saber como eles passavam o dia inteiro após a volta da escola?
Doutor. Por acaso sou depoente em alguma CPI ou sou uma ré prestando esclarecimentos a algum promotor?
Não fique nervosa. Preciso saber de tudo para tirar minhas conclusões.
E você? Meu caro Carlos.
O que quer saber de mim, meu guru?
Nunca tomou nenhuma iniciativa sobre tudo isso? O que fazia nessa época?
Dava aulas para suas lindas e gostosas netas na faculdade e atendia meus pacientes.
Deixa o beboxe para suas “negas” seu indecente.
Risos. Só dos dois. As demais pessoas permaneciam silenciosas, apreensivas e atentas.
Dr. Jarbas voltou a perguntar:
Referente ao que estava acontecendo diante de seu nariz o que fez?
É claro que eu nada fazia. Eu não sabia de absolutamente nada. 
Pouco frequentei a casa de minha irmã e sempre muito rapidamente.
Apenas para um cumprimento na chegada, uma rápida discussão, pois nunca nos entendemos e a despedida na saída.
Só soube da existência de Zinho muitos anos depois quando ele teve a segunda crise. Pergunte aos presentes que confirmarão. 
Seu primeiro problema aconteceu quando ele tinha nove anos, mas não me comunicaram. 
Só soube de toda essa burlesca história quando ele teve a segunda anormalidade aos treze. Já nos conhecíamos vagamente há alguns meses e ele próprio procurou-me. 
Pela sua irritação creio que está no mesmo caminho e concluindo o que eu e Dr. Souza suspeitávamos, mas tudo isso ainda não foi quase nada do que aconteceu. O pior está por vir.
O que pode ter sido pior que tudo isso?
Minha sobrinha que era modelo profissional recebeu proposta para ficar dois anos na Europa, mais precisamente na França e sabe com quem ela viajou?
Com quem?
Com Sra. Selma que já trabalhava na casa desde que ela nasceu. 
Foi sua babá. Sabia todos seus gostos, seus desejos e tudo o mais dos mimos e dengos da moça já adulta que não precisava e que nem queria nenhuma companhia na viagem.
Não venha com sarcasmo meu irmão.
Não interrompa, por favor, minha querida irmã.
Pois bem senhores e senhoras. Foi feito um acordo entre patroa e empregada. 
A empregada acompanharia a já adulta moça e em troca a patroa continuava criando e educando o filho de oito anos da empregada. 
O menino passaria a morar tempo integral na casa de minha irmã. 
A filhinha Cris de Selma e seu irmão adolescente seriam educados e cuidados pela irmã Maria Luiza então com vinte e um anos e pelo próprio pai na ausência da esposa. 
Soube que nessa época o garoto raramente foi levado para ver essa família.
Ele começou receber amor, carinho e ensinamentos via pescoções, castigos, surras e exigências apenas de minha irmã e de meu cunhado.
Transformou-se verdadeiramente em filho deles. Agora eles é que eram seus donos e o domesticá-lo-iam conforme seus desejos nesses dois anos.
Deixe de grosseiras censuras sobre nosso comportamento. Eu e Jorge batíamos e estabelecíamos regras aos meninos de forma normal apenas para educá-los e ensiná-los como qualquer pai faz.
Por favor, Dra. Tereza. Já sabemos que é adepta a esse tipo de ensinamento que para Dr. Carlos e para mim trata-se de aberração e qualquer termo de repreensão a esse tipo de conduta por mais contundente que seja ainda é suave para nossos conceitos.
Eu para ser horrivelmente sincero, no fundo do meu âmago desejo que os filhos que foram espancados pelos pais, quando adultos devolvam-lhe tais carinhos.
Que absurdo está falando Dr. Jarbas!
Os pais mesmo que velhos têm meios de se defender e as crianças que sofreram maus tratos tiveram alguma chance de defesa? Isso é que é incoerência minha cara amiga Tereza.
Desculpe-nos a interrupção Carlos e continue por obséquio. 
Tereza induziu-o a chamá-la de mãe e a meu cunhado Jorge de pai. 
Aconteceu o retorno da manequim e sua dama de companhia que reivindicou o filho de volta para morar com ela em sua casa. 
Aí começou a disputa entre os casais para decidirem quais seriam os pais e quais os tios. 
Sem nenhuma consulta ao menino pré-adolescente que acabou sendo quem resolveu o impasse. 
Ele passou a chamá-los a todos de tios. 
Já demonstrava sua revolta rebaixando-os, simplesmente para tios. Termo empregado pelos jovens às pessoas mais velhas mesmo que desconhecidas. 
Nessa época iniciou seu real desejo em descobrir seus verdadeiros pais, pois esses pais inventados, trocados a toda hora, não lhe deram nenhuma identidade. Apenas e tão somente o desorientaram. 
A pendência continuava porque todos queriam o status de pais e a posse definitiva do garoto como se fosse um objeto qualquer. 
Quem venceria é claro que seria Tereza e Jorge. Eram muito mais poderosos que Selma e João.
Está ofendendo-me. Tentando de toda forma culpar-me. 
Eu sempre o amei e o tratei como meu filho. Só fiz e quis o bem dele.
Após a reclamação de Sra. Tereza quem entrou na conversa foi Sra. Selma dizendo:
Eu também estou sendo afrontada, pois desde que o João achou-o, ele transformou-se em nosso verdadeiro filho.
Dr. Jarbas rigoroso reclamou da interrupção das mulheres falando:
Tereza. Você não me convidou para estudar a perturbação de Zinho? Sra. Selma e Sr. João concordaram com sua decisão. Estou enganado?
Eles concordaram com o movimento afirmativo com a cabeça.
Continuam com as mesmas pretensões?
Sim. Foi a resposta dos três.
Então por favor, não interfiram mais nas explicações de Dr. Carlos se é que ele precisa explicar mais alguma coisa. 
A propósito meu prezado colega permite-me tomar parte em suas pesquisas nesse caso como mais um de seus assistentes?
Jarbas. Se eu não fui clara vou repetir. 
Quero que você assuma o tratamento de meu filho sozinho, pois não quero mais que meu irmão dê uma simples aspirina para ele. 
Ele está desautorizado em medicar Zinho.
Tereza. Se fui eu quem não foi claro. Vou repetir. 
Quero fazer parte das pesquisas se Carlos aceitar-me, pois percebi perfeitamente que ele está corretíssimo em sua conduta e está procurando a cura desse rapaz que não é seu filho coisa alguma conforme ele próprio quando ainda criança pretendeu provar-lhe chamando-a apenas de tia. 
Aviso-a que ele há muito tempo é adulto, responsável por seus atos e desejos e por decisão própria ele sempre procurou Carlos para seu médico e amigo. 
Felizmente Dr. Jorge já nos deixou, pois junto a vocês três ajudou e muito a provocar os distúrbios que Zinho tem. 
Enquanto vivo foi também um dos grandes responsáveis. 
Quem está louco agora é você Jarbas.
Sem dar a mínima atenção a Dra. Tereza Dr. Jarbas perguntou:
Qual a sua resposta Carlos. Me aceita ou não?
Com grande satisfação. Não será a primeira e nem a última vez que trabalharemos juntos.
Com certeza.
Dra. Tereza irritada levanta-se violentamente derrubando a cadeira para trás e convida o casal para retirarem-se e ambos indecisos partem com ela sem despedirem.
Terezinha. Tenha o obséquio de aguardar.                    
Quem falou pela primeira vez foi Dr. Souza que sempre usou o nome da médica no diminutivo, pois a conhecia desde pequena quando fazia jus a esse tratamento carinhoso. 
O que você deseja de mim?
Vocês deveriam ouvir até o final para saber as conclusões que temos até a data de hoje. 
O que vocês escutaram refere-se a Zinho apenas até a idade de nove anos. Faltam muitas coisas importantes até a presente data.
Para mim basta. Vocês psiquiatras são todos uns dementes. 
Procurarei todos os recursos nem que seja através da polícia para tirar meu filho das suas garras seus sequestradores.
Minha querida irmã você colocou a meu lado o mais importante psiquiatra desse país. Conseguirá que alguém duvide dele? 
E se houve algum rapto isso aconteceu há vinte e oito anos quando vocês se apossaram do recém-nascido que encontraram.
Vocês verão. Aguardem seus maníacos.
Aconselho-a minha irmã a internar-se novamente na clinica de cirurgia plástica, pois sua operação deve ter arruinado. 
Antes de deitar-se um Lorax ou um Diazepan lhe fará bem. Dormirá tranquila várias horas seguidas. Confie em mim.
Vá pro inferno.
O inferno já é aqui. Viva e verá. 
oooOooo
No luxuoso salão de reuniões enquanto saboreavam um apetitoso jantar a francesa, após a saída de Dra. Tereza, Sra. Selma e Sr. João, os psiquiatras conversavam descontraídos.
Estou achando bastante interessante esse caso e estou acompanhando bem seu raciocínio Carlos. Gostaria de continuar os estudos com vocês. Posso?
É claro Rosa. Com sua deliciosa presença minha inspiração me levará aos descobrimentos de todos os males do mundo e também muitas outras coisas maravilhosas.
Eu ainda estou entendendo pouca coisa, mas gostaria de acompanhar também. Permite-me?
Dr. Antônio Augusto. Você quer acompanhar o caso ou a Doutora?
O caso parece-me bastante interessante.
E a Doutora não é? 
Eu a acho ótima. Um deleite.
Deixe de falar besteiras Dr. Carlos.
Ouviu Rosa? Nosso querido AA além de não achá-la interessante ainda a acha uma besteira.
Querem que eu faça um strip-tease ou posso permanecer de roupa mesmo?
Essa míni saia transparente deixa-a mais sedutora que qualquer beldade nua das revistas e das novelas de televisão. 
Já está excelente como está, mas se quiser fazer o strip fique a vontade. Não se faça de rogada e se realmente topar, presenteio-a com uma mansão nas ilhas gregas e um jatinho de última geração para ir e vir de lá. 
O que decide?
Que você é muito abusado Carlos. Não vale nada mesmo. 
Odeio homens atrevidos. 
Gosto de homens jovens, sarados, tímidos, recatados e dóceis além de gostosos.  Exatamente o seu oposto.
Sempre desconfiei que o AA, esse come quieto é seu amante. Ele tem todas as qualidades almejadas por você não é?
Olharam para o jovem médico que era todo sorriso. Ruborizado mas muito feliz com o rumo da conversa dos outros psiquiatras.
Infelizmente sua alegria durou apenas alguns segundos, pois a médica deu a resposta à pergunta. 
Está redondamente enganado Carlos.
Ao querido AA faltam muitas coisas.
Por exemplo: o físico ideal, a postura, a apresentação e creio que algo muito mais importante e imprescindível nas dimensões adequadas.
Nenhum de vocês me abre o apetite. Nem se eu estiver a meses em jejum. E pode ter certeza que nunca passei fome um só dia apenas. 
Alimento-me com muita regularidade todos os dias e sempre bem mais do que apenas duas únicas refeições.
Gulosa não?
Normal. Normalíssima. Apenas o necessário para satisfazer-me sem nem mesmo chegar a saciar-me.
Espere até conhecer o Zinho para se lambuzar. Ele é exatamente como você gosta e creio que até muito mais. 
É exagerado e pelo amor que suas noivas lhe dedicavam com certeza sabe usar seu possante muito bem. 
A jovem psiquiatra nada comentou a respeito de tal informação. 
Deve ter levado a sério a probabilidade de se dar bem com Dr. Sebastião, pois não fez nenhuma brincadeira. Não aceitando nem recusando tal perspectiva como sempre fazia. 
Nesses amigos presentes e conhecidos ela sempre viu defeitos horrendos além da falta das qualidades exigidas. Achava-os simplesmente ridículos e discorreu sobre suas deformidades menosprezando sem acanhamento um a um. 
Dr. Carlos, cinquentão, baixo, careca, barrigudo de pernas finas, mau vestido e fedendo a cigarros baratos além de atrevido e despudorado.
Dr. Jarbas razoavelmente bem vestido, ex-gordo, atualmente murcho pelos sofridos regimes, cheio de pelancas e extremamente velho. Passava e muito dos sessenta anos.
Dr. Antônio Augusto embora jovem, muito magro e alto de pele bexiguenta e com um bigodinho fino usado nos anos cinquenta. 
Como se não lhe bastasse os cabelos eram penteados retos para trás colados com brilhantina o que o fazia parecer os antigos galãs de cinema daquela mesma época longínqua. 
Seus ternos muito bem engomados associados às camisas brancas com bordados idiotas no peito, cravo na lapela, sapatos de verniz que os fazia brilhar como espelho era o mesmo que ver ressuscitados e frente a frente: Errol Flynn, Tyrone Power ou até mesmo o Rodolfo Valentino, há muito tempo já ultrapassados. 
O jovem tinha a aparência desses antigos ídolos.
Ela sabia que toda essa estapafúrdia indumentária de Dr. Antônio Augusto podia ser jogada no lixo. O esquisito bigodinho raspado ou deixado crescer e engrossar. Os cabelos lavados e despenteados. Um bom tratamento de pele melhoraria seu rosto. Uma academia daria um jeito saudável em sua estrutura muscular.
Uma grande e possível recauchutagem melhoria sua aparência grotesca, entretanto já há muito a extravagante e curiosa doutora já o inspecionara em traje de banho e não viu nenhum volume satisfatório abaixo de cintura. Mais exatamente na virilha. Faltava-lhe o principal. 
Embora pudesse corrigir-lhe muitos defeitos era impossível aceitá-lo, pois o absolutamente obrigatório a seduzi-la estava muito aquém do mínimo necessário estabelecido por ela.
Maliciosamente e debochada comentou todos esses detalhes aos amigos falando que ele também como os demais nunca chegaria a seu tálamo.
Conforme seus conhecimentos e percepções nenhum deles seria o príncipe encantado capaz de seduzir nem novatas e inexperientes colegiais.
Por conseguinte jamais conquistariam a exuberante e exigente médica.
Agora que estamos entre amigos fica mais fácil conversar. 
A gente sente-se mais a vontade para falar as verdades e até tentar umas investidas no que vale a pena e que é você Rosa.
Carlos respeito-o imensamente como médico, mas como homem ignoro-o totalmente. Desista, pois o acho apavorante. Nem por toda sua fortuna.
Não acredito.
Quando acabar com seu orgasmo só em olhar minhas coxas pare com essas gracinhas grotescas e vamos continuar o que de fato devemos falar. 
Aproveite e mande limpar o cinzeiro desse cheiro horroroso de cigarros ordinários meu querido.
Depois desse delicioso café com aroma de chocolate e trufas não consigo ficar sem fumar.
Pois fume pelo menos uma marca melhor. Sugiro um de Bali ou então um cachimbo com fumos aromatizados ingleses que exalam excelente odor. 
Sofisticada não doutora?
Meu Hollywood vermelho é magnífico. 
Por falar em magnífico volto a prognosticar que você vai apaixonar-se por Zinho.
Pelo que já ouvi falar estou realmente muito interessada em conhecê-lo.
Não é para estudos?
Também. Caso sobre tempo.
Risos e descontrações pelas brincadeiras após a refeição enquanto saboreavam licores digestivos de ótima qualidade e café com aroma antes de reiniciarem os trabalhos.
Dr. Jarbas menos afoito tentava algumas seduções sem muito galanteio e confiança pela total falta de prática. 
Como ao Dr. Carlos sempre fora rechaçado, às vezes delicada e outras vezes rudemente pela médica encantadora e impossível de ser aliciada.
O jovem Dr. Antônio Augusto era o único que não brincava e nem ria das chacotas. Muito pelo contrário. Mantinha-se contrariado e aborrecido prestes as lágrimas por ter sido tão depreciado pela Dra. Rosa a quem secreta e platonicamente amava com todas as suas forças e desejos.
Agora ciente de que nenhum regime, alimentação, exercício ou cirurgia teriam efeito corretivo em sua arma sedutora chegava ao desespero. Desejava a morte.
Ele permanecia quieto apenas ouvindo sem soltar nenhuma piada por mais engraçada ou sem graça que fosse. 
Tímido e reservado sempre ruborizado e envergonhado, apenas o que fazia era olhar de soslaio ora aos seios magistrais ausente de soutiens que insistiam em tentar saltar fora da blusa decotada da médica ou para suas maravilhosas coxas bem torneadas que ficavam a mostra devido ao tamanho da saia, bem acima dos joelhos.
Certamente era o que mais se masturbava mentalmente usando apenas a imaginação.
Raramente tinha coragem de olhar direto às apetitosas carnes da colega que satisfaziam o deleite dos outros dois homens muito mais ousados.
Mesmo assim igual a todo grande e eterno apaixonado permanecia sempre como seu fiel escudeiro na vã ilusão de que estando sempre a seu alcance, um dia qualquer no futuro ela o pretendesse.  Aguardava ansioso por essa felicidade. 
Sua espera já era antiga e em suas lembranças de Ribeirão Preto recordava nitidamente tudo o que acontecera em sua vida por tal paixão.
Desde os primeiros dias do curso colegial quando a conheceu mantinha acessa as chamas da esperança.
Continuamente estudava na mesma escola, mesma sala e sempre próximo a ela. Foi assim durante todo o segundo grau e cursinho.
Jamais teve uma namorada e sequer recorreu a nenhuma garota de programa. Guardava-se inteiro e intacto para ela.
Recordou da ocasião que a jovem mudou-se de escola. Para lá foi ele transferido sem nenhuma explicação coerente aos pais que o mantinham financeiramente.
Seu feito mais esdrúxulo e sem qualquer sapiência foi quando ambos prestaram o primeiro vestibular e ela embora aprovada não pode ingressar na faculdade por falta de idade necessária, voltando para o cursinho por mais um ano e ele numa atitude imbecil fez o mesmo.
Ele que como ela havia sido aprovado entre os melhores não se matriculou, abandonando a vaga e dizendo a todos que fora reprovado, para justificar sua idiotice.
A idolatria era incomensurável levando-o a qualquer sandice para permanecer a seu lado, entretanto sem jamais ter-lhe confessado. Nunca recorreu a nenhum artifício para seduzi-la.
Apenas e tão somente a olhava vendo todas as transformações da jovem adolescente de uniformes mal talhados até a atual mulher adulta que sem sombra de dúvida tornou-se muito mais sedutora trajando vestimentas ousadas e de cortes impecáveis que delineavam seu exuberante corpo deixando-o cada vez mais encantado.
Somente ele tinha conhecimento que toda essa inusitada trajetória que vivera nesses anos tinha chegado ao fim quando ouviu as rejeições ditas por ela, que talvez nunca tenha imaginado suas intenções.  
Agora tinha plena certeza que jamais conseguiria realizar seu antigo sonho.
Não tinha mais nenhuma razão para alimentar qualquer esperança após saber, alto e bom som, que além do desprezo da médica ela estava deliberadamente interessada em conhecer o paciente com a finalidade de seduzi-lo. 
Desejou intimamente e com todas suas forças, sem jamais ter visto o Dr. Sebastião, sua piora e que sua doença fosse irrecuperável. Conscientemente preferia-o morto.
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Brincadeiras esgotadas, seduções mal resolvidas e Dr. Carlos voltou a narração sem ser interrompido. 
Explicou que o garoto pré-adolescente sofreu imensamente pela má educação recebida, enumerando os problemas mais graves, além das severas punições e surras tidas como para o bem da educação e ensinamento:
1. Foi terrivelmente discriminado pelos filhos de Selma aos quais tinha de chamar e considerar como irmãos.
2. O mesmo aconteceu com os filhos de Tereza.
3. Selma via-o e incutia-lhe a idéia de ele ser médico oftalmologista e como atleta um craque no basquete.
4. João levava-o aos campos de futebol exigindo-lhe muito treinamento nesse esporte. Imaginava-o sucessor de Pelé. 
Chegou inclusive levá-lo para testes no time dente de leite do Palmeiras porque jogava muito bem. 
Como ele tinha dentes ruins cujo tratamento era caro incentivava Zinho a estudar odontologia.
5. João e Selma deram-lhe ensinamento religioso espírita.
6. Tereza doutrinou-o na religião evangélica. 
Creio que os cultos espírita e evangélico que ele frequentou e que foi obrigado a engolir goela abaixo, sejam os mais antagônicos entre si. 
Ela desaconselhava-o dos esportes coletivos praticados, pois os achava brutais e agressivos e prometia-lhe que quando fosse maior iria levá-lo aos campos de golfe para aprender o esporte.
Ela pretendia que ele estudasse a medicina pediátrica. Igual a ela.
7. Jorge optava pela medicina ginecológica como ele. 
Pretendeu que ele fosse campeão em natação e tênis exigindo-lhe horas e horas diárias de treinamento. 
Frequentemente o desviava ao ateísmo. Apregoava que crença em Deus é coisa para fracos e imbecis que não se dão conta de si. 
8. Ambos os homens reivindicavam para si o tratamento de pai.
9. As mulheres o obrigavam a chamá-las e senti-las como mãe.
Nenhum deles deu-lhe o direito de procurar seus caminhos que até então eram poucos e fáceis de galgá-los por si próprio.
Sempre lhe exigiram a perfeição e o sucesso em seus desejos pessoais não alcançados cujos fracassos foram gerados por suas incompetências.   
Dr. Carlos em suas explicações disse que Zinho fora uma criança maravilhosamente inteligente. Que aprendia a tudo que lhe era ensinando muito mais rapidamente que todas as demais de sua idade ou até mais velhas que participassem dos mesmos ensinamentos.
Enquanto mirim foi:
O melhor nadador.
O melhor tenista.
O melhor cestinha no basquete. 
O melhor jogador de futebol.
O melhor aluno da escola.
O mais bem educado e gentil dos meninos.
O mais obediente.
O mais respeitador.
O mais limpo.
O melhor em tudo que o obrigavam fazer.
O que ninguém procurou saber é se ele sentia feliz com tais e tantas imposições que nunca foram conquistas para alimentar seu próprio ego e sim por exigência alheia.
Ele apenas obedecia e fazia o que lhe impunham sempre muito bem feito e rapidamente, evitando assim os maus tratos, as repreensões, as surras e as cobranças exageradas.
Muito mais velozmente que conseguia tais feitos abandonava-os.
Com certeza em sua cabeça havia um amontoado de sensores conflitando permanentemente entre seus próprios desejos gerados pelo seu crescimento e discernimento com as obrigações e determinações já arraigadas pela perversa lavagem cerebral que sempre sofrera, pela dupla de pais.
Nada lhe dava prazer.
Dr. Carlos foi interrompido por Dr. Jarbas para jantarem e descansar um pouco. Ele atendeu prontamente ao pedido, pois todos já estavam com fome e desgastados.
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Após a refeição fizeram pausa de uma hora e o anfitrião voltou a falar continuando a historia. 
Informou aos colegas que a primeira crise do paciente aconteceu quando ele tinha apenas nove anos e que ninguém percebeu nenhum distúrbio mental.
Ele desaparecera de casa por nove dias quando foi encontrado pela polícia que foi solicitada.
Havia postado na escadaria de uma igreja de Vila Madalena perguntando a todos que adentravam ao santuário se eram seus pais que o estava procurando.
Alimentou-se de sobras de comida achadas nos lixos próximos e de esmolas que recebia.
Foi assistido por um neurologista e um psicólogo que nada puderam fazer.
O neuro fez-lhe alguns eletros-encefalogramas e não descobriu nenhuma disritmia ou disfunções físicas neurológicas, pois de fato nada existia.
O psicólogo aplicou-lhe alguns testes e só descobriu seu Q.I. acima da média. Coisa que todo mundo já sabia por simples percepção. Orientou e aconselhou-o a chamar de pai branco e mãe branca ao casal de médicos e de pai preto e mãe preta ao outro casal de pais já que nenhum deles estava aceitando ser chamado simplesmente de tio conforme o menino tinha decidido identificá-los quando começara a grande disputa entre eles.
Os adultos se satisfizeram com o novo tratamento que perdura até hoje e todos continuaram suas vidas muito pouco modificadas.
Zinho passava a semana toda na casa de minha irmã enquanto a mãe preta trabalhava e lá permanecia nos finais de semana com exceção de uma única vez por mês que era levado para visitar a outra família.
Todas as exigências continuavam sendo mantidas quando ele desapareceu novamente com treze anos de idade.
Desta vez ficou perambulando e vagabundeando pelas ruas de São Paulo com outros jovens desamparados, abandonados e já delinquentes.
Nessa época usou cigarros, maconha, cocaína e bebida que aprendera com os já desencaminhados meninos das ruas.
Roubavam casas e supermercados além de assaltarem transeuntes, para suas sobrevivências e para aperfeiçoarem-se em seus atos delituosos.
Foi encontrado sete meses depois preso em uma Febem a quase um mes.
Seus pais brancos internaram-no em uma clinica para recuperação de drogados durante três meses e após tal tratamento encaminharam-no para seções semanais de psicanálise.
Tudo isso fora devidamente escondido pelas famílias na escola, nos clubes, aos parentes, aos amigos e vizinhos.
Haviam inventado uma viagem à Orlando nos Estados Unidos como justificativa de sua ausência.
Arquitetavam um plano de mandá-lo à Europa para estudar e ele amedrontado e desesperado procurou-me, pois nessa época já me conhecia.
Sabia que eu era médico, mas ignorava minha especialidade.
As poucas vezes que nos vimos na casa de minha irmã foram suficientes para o menino afeiçoar-se a mim e eu a ele.
Procurou-me em minha casa para conversar, pois eu lhe era simpático transmitindo-lhe confiança e credibilidade.
Foi então que me contou sobre si. Desde que foi achado até aquele momento. Eu desconhecia absolutamente tudo. Sabia apenas que era filho adotivo da empregada de minha irmã.
Ele contou-me com riqueza de detalhes toda sua trajetória desde que foi encontrado, pois nada lhe foi oculto.
Inicialmente os irmãos da primeira família para agredi-lo jogavam-lhe na cara sua verdade de que fora achado no lixo que solicitado por ele aos pais pretos iam confirmando tudo sem mentiras.
Também os pais brancos, como os outros, contaram-lhe todos os fatos ocorridos até quando tinha cinco anos e dessa época em diante seu privilegiado cérebro registrou todas as minúcias dos acontecimentos.
Toda essa incoerência em seu crescimento eu só soube pelo próprio Zinho quando me procurou e se abriu comigo.
Naquela ocasião perguntei-lhe o porquê de suas atitudes tão tresloucadas e como resposta ouvi apenas que tinha urgência e grande necessidade de encontrar o pai e a mãe, por isso saíra às ruas para encontrá-los.
Insisti em saber qual era essa obrigação tão imperiosa que chegou a transformá-lo em um delinquente.
Ele só me disse que precisava encontrá-los antes que fosse tarde demais e que somente nas ruas teria condição de achá-los. 
Após tal resposta falou agressivamente que se eu continuasse inquiridor como os outros não mais me procuraria, pois veio a mim por outro motivo e não para ser julgado. Coisa que já não suportava mais.
Concordei com ele. Prometi não lhe aborrecer mais, calando-me.  
Ele falou que me procurou, por que como eu era irmão da mãe branca e não tinha medo dela poderia conseguir impedir sua ida para a Europa.
Sentindo que o coagindo ele se insubordinava então resolvi mudar de tática e jamais fui incisivo com ele a partir de então.
Passei a ser muito ouvinte e raramente fazia perguntas diretas induzindo-o a contar-me as coisas espontaneamente apenas para satisfazer minha curiosidade. Assim consegui que ele sempre me procurasse, pois não o perdendo de vista tinha como orientá-lo dando-lhe exemplos engenhosamente ditos para ele escolher o que de melhor deveria fazer por sua própria iniciativa.
Tenho gravado toda essa conversa. Interessam-se em ouvi-la?
Eu gostaria muito, embora já seja meio tarde. Que tal continuarmos amanhã Carlos?
Melhor não Jarbas. Passaremos a madrugada toda se concordarem.
Não houve manifestação de ninguém em interromper a reunião.
Já que todos estão de acordo em permanecermos noite adentro vou ligar o som. 
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Foram mais de duas horas ininterruptas que ouviram Dr. Carlos conversando com Dr. Sebastião, então adolescente de treze anos, contando toda história que acabaram de ter conhecimento, com sua própria voz e de sua própria e conveniente maneira.
Nada foi acrescentado a tudo que sabiam a não ser a percepção da voz do rapaz. O tom e as expressões empregadas destoavam com sua tão mencionada conduta de muito educado indicando um caráter hostil e insubordinado.
Nessa gravação que fora feita de várias conversas e em dias diferentes Zinho mostrava-se sempre revoltado e agressivo. 
Fato que não passou despercebido para nenhum dos psiquiatras, mas foi Dr. Antônio Augusto quem comentou.
Ele fala de maneira insurgente. Ele é dócil como você fala ou o oposto como ouvimos?
Muito pacato. Imensamente pacifico e paciente. Sempre foi e ainda o é. 
Ele estava possesso e não aceitava a viagem à Europa e não sabia como fazer para contrariar os pais exigentes. Não queria sair de São Paulo.
Seu desejo era encontrar os verdadeiros pais a qualquer custo. Inclusive confessou-me que pretendia fugir para o nordeste a procura dos mesmos.
O que você fez?
Informei-o que eu era especializado em psiquiatria indicando-lhe delicadamente alguns medicamentos para equilibrá-lo e sugeri como que em traquinagem que ele prometesse aos pais brancos e cumprisse uma conduta irrepreensível em troca de sua permanência no Brasil. 
Ofereci-lhe como premio uma viagem ao Ceará para a cidade onde nasceu conforme seu registro de nascimento para procurar seus antecessores ou informações desses, após passar no vestibular e entrasse para a faculdade o que ocorreria nos próximos anos. 
Minha intenção era segurá-lo por aqui próximo a mim o máximo de tempo possível e não abandonado em alguma universidade da Europa ou perdido no nordeste, pois tinha consciência que fugiria porque estava tremendamente insatisfeito com a vida que levava que o revoltava, mas por ótima índole ainda aceitava. 
Eu sabia que a qualquer momento explodiria e jogaria tudo para o alto e faria alguma coisa ainda pior que as já feitas, visto que o tempo passava a idade aumentava e as insurreições seriam cada vez mais vultosas.
Combinamos como nosso grande segredo de amigos a viagem e os medicamentos orientados por mim.
Solicitei-lhe que procurasse o psicólogo que já conhecia e propusesse participar de um teste vocacional para melhor decidir sobre seu futuro profissional.     
Deu certo?
Tudo. 
Os pais brancos concordaram, pois minha interferência junto ao Jorge e também a solicitação dos pais pretos e a própria conduta dele a partir de então ajudaram bastante na permissão de sua permanência em São Paulo. 
Desde então passei a ser para ele seu melhor amigo. Muito mais amigo que médico. 
O menino que de fato sempre fora tão pacato e submisso certa vez perguntou se eu não gostaria que ele fizesse medicina e se especializasse em psiquiatria como eu.
Absurdo não? Só para lhe agradar. Interrompeu Dra. Rosa.
Claro que achei uma besteira e comentei que ele deveria cursar o que suas aptidões lhe fossem mais favoráveis e não tentar agradar aos outros. Que deveria satisfazer-se a si próprio. E pensam que foi só isso?
Nesse mesmo dia mais tarde fez-me várias perguntas ao mesmo tempo. Qual minha religião? Que time de futebol eu torcia? Qual o de vôlei. Minha escola de samba preferida? Que tipo de música ouvia? Em qual partido político eu votava? E outras baboseiras mais.
Ao invés de responder-lhe eu apenas indaguei para que lhe interessava saber meus gostos? 
Ele respondeu que era apenas por curiosidade.
Calmamente respondi encerrando o assunto: “Então deixa ficar como está”. 
Ele entendeu o recado e jamais voltou a tentar puxar-me o saco.
A partir dessa época usou rigorosamente os medicamentos e nunca mais consumiu cigarros, bebidas ou drogas. 
Visitava-me com assiduidade não só em minha casa como em meus consultórios e associou-se aos clubes que frequento para mantermos um dialogo amigável, pois embora eu seja muito mais velho ele viu em mim um grande amigo, tal qual se diz na gíria “amigo do peito”. 
Até hoje ele prazerosamente aceita minhas sugestões como as de um “chegado” mesmo em se tratando de medicamentos. 
Confia em mim muito mais como amigo confidente que como médico.   
Tornamos muito afetuosos um com o outro e o somos até hoje, sem exigências contundentes minhas para com ele. Deixo-o sempre à vontade. 
Viveu todo o tempo forçado a submissão. Sem direito a decisões próprias, por isso sempre deprimido nunca determinou algo interessante para fazer, mas ele é uma pessoa extraordinária. 
Possuidora de uma força interna tão intensa e de inesgotável poder que pode fazer o que bem entender a qualquer momento. Basta querer.
No que depende dele sem interferências de ninguém é admirável. 
Certa vez contou-me que sua internação na clinica de drogados fora desnecessária, assim como a analise feita, pois usara as drogas nas ruas em função de estar junto de jovens viciados que encontrara em sua peregrinação em busca dos pais. 
Usou-as assim como se portou como um delinquente deliberadamente somente para agradar e permanecer no grupo de desocupados que na época eram seus únicos amigos. Achou até que foi uma experiência interessante. 
Falou-me que abandonaria tais consumos assim que estivesse fora daquela circunstância que na ocasião era a única que conseguira recorrer.
Expôs-me que chegou a associar-se com os outros jovens por poucos dias a um vadio adulto que já tinha assassinado pessoas, porem abandonaram-no, pois ele lhes transmitia medo pelas façanhas muito mais cruéis como violências nos assaltos e estupros para saciar-se sexualmente.
Por isso mantinha-se entre os adolescentes como ele que só cometiam pequenos delitos e satisfação sexual somente através de conquistas com meninas também perdidas nas ruas que se entregavam de bom grado em troca de algum tolo presente ou simplesmente pelas carícias do sexo. 
Confessou-me que sempre que reencontrava tal assassino procurava-o, pois sentia uma enorme atração por aquele homem mal-intencionado. 
Que fazia esforço para espantar o temor e permanecer com o criminoso porque sentia que tinha um imã atraindo-o a seu lado. 
Só não permaneceu com ele por ter sido rechaçado pelo malfeitor que alegou que Zinho não levava jeito para ser assaltante. 
O tal bandido que se chamava “Chefe ou instrutor” mandou-o que voltasse para sua família ou que arrumasse outra coisa para fazer. 
Confessou-me que nunca sentiu necessidade das drogas. Que quando foi para a Febem, (embora lá fosse muito mais fácil consegui-las que nas ruas) nunca as procurou ou aceitou de outros. 
Não as consumiu nos vinte e oito dias que lá esteve. Desinteressou-se por vontade própria.
De fato eu soube que não deu o mínimo trabalho na prisão de menores desocupados e nem na clinica de recuperação de drogados. 
Soube que se comportou categoricamente alheio aos sintomas inerentes aos forçados abstêmios em tratamento. 
Simplesmente repudiou todos os vícios assim como sempre fazia abandonando o que fazia por exigência quando essa reivindicação fosse afrouxada. Isso sempre foi muito fácil para ele. 
Lembro-me muito bem que comentei com ele sobre tal atitude que geralmente é considerada irregular, pois mesmo que seja algo de ruim que a gente habitua fazer torna-se vício e sempre é muito difícil abnegar. 
Ele respondeu-me que fazia o que exigiam dele e sem que ninguém percebesse abandonava tal coisa, pois geralmente nada era de seu agrado.  
O tempo passava e nosso convívio se mantinha cada vez mais forte e sadio.
Algum tempo depois passou no vestibular. Iria cursar medicina.  
Nunca o forcei a contar-me coisa alguma que não fosse espontânea e também jamais o exigi em nada, pois esse era o grande mal que já vinha sofrendo, mas quando fiquei sabendo dessa conquista tive ímpeto de perguntar-lhe se tinha descoberto tal aptidão com os testes vocacionais, mas calei-me em tempo e nada indaguei. 
Jamais soube os resultados de suas prováveis vocações, mas o fato é que conseguiu vaga para a faculdade e iria especializar-se em pediatria. 
Não sei se para contentar a mãe branca ou se os resultados de suas aptidões auxiliaram-no em tal decisão. 
Creio que fora mesmo influência da megera. 
Muito timidamente e desconcertado cobrou-me a viagem prometida. 
Descobrir sua genealogia era a única coisa que sempre quis e que até então jamais desistiu. 
Ele tinha de fazer à viagem a procura de suas origens e eu concordava plenamente. 
Abri nosso segredo ao Jorge meu cunhado que tinha muito melhor senso que minha irmã e lá foi Zinho para o Ceará quando tinha dezessete anos e não jogava mais bola, nem nadava, não praticava nenhum esporte, não se drogava, nem bebia, nem fumava. Tão pouco assaltava as pessoas e não mais montava as vadiasinhas nos terrenos baldios ou debaixo das pontes. 
Vivia nessa época um pouco menos exigido, pois o desejo e exigência maior de todos os pais era o estudo. 
Vou colocar a gravação com a voz dele sobre a viagem quando voltou. 
Vão notar a enorme diferença em sua voz e maneira de se expressar de quando ouviram nas primeiras gravações.    
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Todos aguardaram silenciosamente Dr. Carlos novamente preparar o aparelho de som que ao funcionar mostrou-lhes o quanto Zinho falava tranquilo, sereno e pacato.
Atentos eles ouviram a conversa:
Conte-me sobre sua viagem ao Ceará. 
Viajei de avião até Recife. Fretei um táxi aéreo até Petrolina ainda no Pernambuco e de lá fui de ônibus até a cidade de São Pedro sede do município da Vila Córrego Seco onde nasci. 
Não encontrei nenhum parente e nenhuma informação sobre o paradeiro deles nos dois primeiros dias de perguntas. 
Devagar fui ganhando confiança dos moradores do lugar e descobri que apenas algumas poucas pessoas já velhas lembravam sem muita clareza de alguns fatos daquela época.
Soube que uma família que viera de Córrego Seco partira de lá para São Paulo mais ou menos na data que pretendia descobrir. 
Conforme me informaram tratava-se de um homem com duas mulheres, alguns adolescentes que não sabiam exatamente quantos e um bebê recém-nascido no colo de uma das mulheres.
Essa informação era muito vaga e remotamente poderia referir-se a mim, minha mãe, meu pai, meus irmãos, et cetera.
Fiquei mais distante ainda de qualquer solução porque soube que nunca nenhum deles voltou ou mandou notícias.
A cidade é muito pequena por isso praticamente todos os moradores sabiam de minha presença e de minha pesquisa, mas ninguém acrescentava mais nada no pouco que estava sabendo.
Procurei o encarregado do Cartório de Registro Civil e fornecendo-lhe meu documento encontrei o assento de meu nascimento.
Descobri que no dia do meu registro constava também o de uma menina com o nome de Maria das Dores e das Graças Pereira da Silva com data de nascimento anterior alguns anos, pois já era adolescente ainda não registrada, filha de Afonso Pereira da Silva e Maria Quitéria Pereira da Silva cujos avós paternos eram os mesmos que os meus.
Finalmente comecei encontrar informações sobre meus parentes.
Já sabia os nomes de meus pais pelo meu próprio registro e acabara de descobrir de meus tios e de minha prima. 
Como a averiguação lá não era informatizada e sim manual, escrito em enormes livros só consultado por ordem cronológica de data de registro nada mais foi possível constatar. 
Eu não sabia datas de nascimento de meus tios cujos nomes descobri ao acaso por terem registrado minha prima no mesmo momento que meus pais me registraram, por isso ambos os registros estavam juntos.
Se existiam mais parentes eu não sabia nem os nomes e muito menos as datas de nascimento.
Não me interessava em descobrir-lhes os nascimentos, pois o que eu queria desvendar era seus paradeiros.
O escrivão atual, pois o antigo já havia falecido nada pode informar-me, pois jamais conheceu tais pessoas cujos nomes apenas leu no livro.
Consegui o nome de uma prima e dois tios e a certeza de que minha família existiu e morou naquela região. Somando-se esses três parentes recém-descobertos a mim e meus pais concluí que ela era composta de pelo menos seis pessoas. 
Entretanto nada me assegurava que meus parentes que registraram a menina e a mim eram as mesmas pessoas que na mesma ocasião viajaram para São Paulo.   
Finalmente encontrei um homem que soube mais algumas coisas a respeito, unindo o elo solto entre os dois fatos, confirmando serem realmente os meus familiares que efetuaram tais registros e que em seguida viajaram para São Paulo.
Ele contou-me que ao passar próximo a um ônibus prestes a partir para Juazeiro na Bahia viu várias pessoas que não conhecia dentro dele amontoados numa janela.
Uma mulher despedia-se de alguém fora gritando-lhe que acabara de registrar o filho Tiaozinho e a sobrinha e que com toda a família iria para São Paulo encontrar-se com seu marido Tião que lá estava bem rico, pois ele lhe mandara muito dinheiro para a viagem. 
Não sabia de mais nada além disso.
Mesmo assim insisti perguntando-lhe se conhecia pelo menos o Sebastião já que tinha dito não conhecer nenhum dos viajantes.
Sua resposta foi categórica. Nunca soube quem era o tal de Tião que estava endinheirado em São Paulo.
De forma meio precipitada, talvez até grosseira inquiri que como passado tantos anos iria lembrar-se do nome do homem ouvido uma única vez e de passagem?  
Nada me respondeu. 
Permaneceu olhando-me fixamente com cara de poucos amigos irritado pela minha pergunta áspera. 
Tive certeza que o homem percebeu por minha indagação nada sutil que eu imaginava que ele mentira, pois passados algum tempo disse-me agressivo.
Eu sei seu moço que desde que aqui chegou procura por sua família e já por diversas vezes mencionou seu nome e o de seu pai como Sebastião e o de sua mãe como Josefa. 
Não estou usando disso para mentir e tirar-lhe dinheiro conforme imagina pela sua maneira brava de perguntar-me.
Lembro-me muito bem e jamais esquecerei o que a mulher com a criança no colo disse.
Repito que ouvi claramente quando falou que ia encontrar-se com seu marido Tião que enriquecera em São Paulo e nunca esqueci esse fato e esse nome porque o meu nome também é Tião e meu sonho também sempre foi ir ganhar muito dinheiro em São Paulo.
Durante muito tempo chorei de inveja desse Tião sortudo que conseguiu o que eu nunca consegui até hoje.
Afastou-se de mim bastante contrariado e apressadamente sumiu sem dar-me tempo para desculpar-me da ofensa e oferecer-lhe a possibilidade de viajar comigo se assim desejasse, pois naquele momento pensei nesse procedimento.   
Foi melhor que desapareceu repentinamente, pois eu poderia trazê-lo já velho para a desgraçada vida que encontraria aqui como quase todos os nordestinos que vêm. 
Tendo plena certeza que foram eles que viajaram para São Paulo resolvi tentar descobrir algo mais na própria vila que nasci indagando como iria até lá.
Um dos moradores que julguei muito esquisito ao saber que eu solicitava informações de como ir a Vila Córrego Seco procurou-me avisando que tal lugar há muito não existia mais. 
Que o rio que passava por lá e que dava o nome à vila havia secado definitivamente obrigando todos moradores saírem para outros lugares. Todos sumiram da região com exceção dele e sua família que continuaram morando em uma roça de lá. 
Soube por ele o nome de todos meus parentes.
Meu tio chama-se Afonso, minha tia Maria Quitéria, meus primos além de Maria das Dores, eram Mercedes, Severino e José.
Ele sabia também que meu pai é Sebastião, minha mãe Josefa e eu Tiãozinho. 
Como vizinho de roça que era há tempo sabia de todos os nomes da família sem, entretanto ter nenhuma convivência com os mesmos.
Mas que certa vez foi convidado e participou das festas de comemoração repleta de parentes, vizinhos e amigos quando o pessoal recebeu carta de meu pai que já morava em São Paulo avisando que logo chegaria dinheiro para todos irem para São Paulo.
O fato bizarro é que essa pessoa que disse não ter tido nenhum convívio com os Pereira da Silva, pois só esteve com eles em apenas uma única ocasião insistiu em afirmar que todos na festa chamavam-me de Tiãozinho e que eu tinha mais de dois anos e a meu irmãozinho de poucos meses simplesmente de bebê. 
Que quando o pessoal chegasse a São Pedro o recém-nascido ainda sem nome seria registrado como Cícero antes da viagem.
Afirmou-me que isso foi muito comentado na festa que durou a noite toda até a exaustão e total embriagues de todos que dormiram até o dia seguinte.
Voltei a procurar os informantes iniciais e eles afirmaram que chegou à cidade de São Pedro e viajou para São Paulo somente um bebezinho e não um de colo e outro mais crescido com mais de dois anos. 
Creio que o ex-morador de Córrego Seco tenha se enganado referindo-se a mim com tal idade. 
Era impossível eu ter saído de lá com mais de dois anos e aparecido em São Paulo com menos de um. 
Como não encontrei em São Pedro nenhum de meus parentes para explicar-me tudo direito concluí que o informante errou com relação a minha idade e nada mais tendo a fazer por lá decidi voltar para procurá-los aqui, pois tive certeza da vinda de todos eles para cá.
Confesso que fiquei e ainda estou muito confuso com essa desordem de idades e de irmãos. 
Chego a pensar que se Tiãozinho tivesse mesmo dois anos concluo que eu não sou ele. 
Não faz sentido, mas creio que eu nem sou eu mesmo. Eu devo ser o meu irmão recém-nascido e sem nome. 
Confusamente pensava muito durante toda a viagem de volta. Tenho um monte de pais que não são pais verdadeiros e eu próprio nem sou eu. Sou o meu irmão mais novo. Perguntava-me com frequência: Onde eu estaria?
Aumentou-me terrivelmente as dúvidas e a revolta sobre minha existência ou inexistência.
Já tem muitos problemas mal resolvidos por isso advirto-o de não procurar mais complicações. 
Como você vê tal situação Carlos?
Ajudei-o a viajar para encontrar soluções e não para conseguir mais confusões.
Tenho convicção que se trata de erro do homem. Já se passaram muitos anos e ele se enganou em muita coisa. 
Conforme me contou sua família era grande e com muitos amigos e parentes. 
Tal pessoa sequer era amigo da família e apenas participou de uma festa com eles por ter sido convidado apenas por ser visinho de roça. Não foi isso que ele próprio lhe disse?
Sim. Foi isso.
Todos os amigos e parentes participando da mesma festa com seus respectivos filhos grandes, pequenos e nenês embaraçaram o tal vizinho que forneceu-lhe informações erradas. 
Como iria ficar sabendo de tantos detalhes em apenas tão pouco tempo de convivência? 
Inclusive você referiu-se a ele com meio estranho não foi? O que o fez achá-lo assim?
Pareceu-me “meio pancada” ou bêbado. Não sei ao certo.
Já é demais lembrar, depois de muitos anos, de todos os nomes das pessoas que mal conhecia e ainda iria saber de suas idades principalmente tratando-se de uma pessoa não muito certa ou ébria. Não é ridícula sua duvida? Tal pessoa não merece crédito. Pode confiar em mim. 
Só pode ter sido mesmo, engano do homem. 
Dr. Carlos desligando o aparelho de som tentou reiniciar a conversa, mas foi imediatamente interrompido por Dra. Rosa. 
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Ela que estava estafada disse:
Não acha que estamos cansados? 
Já passam das cinco horas da manhã e estou quase dormindo sentada.
Estou vendo pela sua posição desleixada na poltrona cujas pernas abertas mostram sua calcinha preta. É exatamente por isso que pretendo virar noites e dias falando e principalmente olhando à tão maravilhoso espetáculo. 
Além de velho decrépito e gagá também é cego? Nem uso tal vestimenta.
Então não é a calcinha o que vejo?
Vá as favas seu velho abusado.
Combinaram que dormiriam nos apartamentos de hospedes da mansão e por volta dez horas do outro dia continuariam suas conversas mesmo sendo segunda feira.
Para o cancelamento de todas as consultas agendadas para tal dia com os médicos bastaria um simples telefonema pela manhã à suas respectivas secretárias que elas desmarcariam tais obrigações como sempre acontece nessa profissão. 
A alegação de que os profissionais estão em cirurgia complicada ou atendendo algum caso urgente resolve tudo para os médicos não se importando com a irritação de seus pacientes desmarcados que sempre são considerados por eles como incompreensíveis.
Nesse caso de fato havia motivo muito forte e justificável para a ausência dos profissionais em seus compromissos para tratarem do caso atual realmente muito importante e urgente. 
Não era nenhuma desculpa descabida causada por ressaca de final de semana a nenhum deles.  A justificativa era legítima e verdadeira. 
Os pacientes marcados teriam que contentar-se em procurá-los em outro dia que melhor conviesse aos médicos, é claro.
Apenas os psiquiatras jovens não tinham esse poder, pois eram funcionários em hospitais de outros, mas os telefonemas a seus superiores hierárquicos alegando que estavam em simpósio com o importante Dr. Jarbas fariam tais chefes até lhes permitirem outros dias mais se fosse necessário.
Dr. Souza prestaria o obsequio de acordar antes para providenciar tais soluções aos colegas e todos se recolheram aos respectivos aposentos.
O exagerado e interminável mau humor de Dr. Antônio Augusto, lançando péssimos fluidos com os olhos vermelhos e lacrimejantes, pois ainda não assimilara o deboche feito a ele por Dra. Rosa contagiou os demais que o imaginaram excessivamente cansado aumentando-lhes seus próprios estados de exaustão.
Àquela hora tardia e o trabalho estafante esgotara-os impedindo-lhes de qualquer brincadeira ou zombaria nas despedidas que fora um simples “até logo mais e bom descanso”. 
Não houve os costumeiros apertos de mãos entre os homens e os fortes e demorados abraços dos mesmos à doutora que se viu livre dessas pegajosas saudações que sempre tinha de suportar mesmo sentindo e mostrando-se demasiadamente contrariada com a falta delas.
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Na manhã seguinte refeitos pelo repouso após um farto café da manhã os psiquiatras voltaram às atividades sem nenhum preâmbulo ou brincadeiras e com um infantil e risonho bom dia, Dr. Carlos voltou a falar:
Vocês ouviram o Zinho falando? 
Embora meio confuso sempre manteve a calma e paciência ao falar. Agora vou contar-lhes o que ele fez chegando aqui. Da mesma forma que durante mais de seis meses ele já fazia procurando pelos pais cujos nomes sabia por constarem de seu registro de nascimento fez na época o mesmo à procura dos outros parentes cujos nomes tomou conhecimento na viagem. 
Escreveu e enviou cartas e e-mails à todos os programas de televisão inclusive, contratando espaços para no ar pedirem insistentemente a presença de tais pessoas.
Vários homônimos apareceram por tratar-se de nomes bastante comuns e de grande disseminação, mas foram sendo descartados um a um. 
Os realmente desejados jamais apareceram aos apelos que também foram feitos em todos os jornais da cidade ininterruptamente todos os dias por três meses consecutivos. 
Não tendo alcançado êxito fez as mesmas solicitações em todas as televisões regionais e jornais das cidades do interior do estado.
Tentou também no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo nada conseguindo. Não os encontrou. 
Insistentemente recorreu aos mesmos procedimentos em todo país e nada.
Desiludido, mas ajudado um pouco por meus conselhos e mais pelos medicamentos viveu relativamente bem até formar-se médico. Especializou-se em pediatria. 
Trabalhou alguns meses com a mãe branca e desistiu. 
Voltou à faculdade e especializou-se em ginecologia para trabalhar com o pai branco para três meses após também desgostar-se das atividades. 
Fez um curso de vigilância e segurança patrimonial que também exerceu algum tempo depois também por pouco período. 
Nessa época João Batista, o pai preto era todo alegria pelo fato do filho estar exercendo a profissão dele. 
Ficou tão satisfeito quanto ficaria se o mesmo tivesse se formado em odontologia conforme desejava.
Zinho tentou também satisfazer mãe preta ingressando-se na faculdade de oftalmologia, mas não suportou nem o primeiro semestre. 
Insistiu em várias atividades, mas não se dedicou seriamente a nenhuma.
Tentando seguir os passos da mãe preta, excelente cozinheira, chegou a montar um restaurante com Bouffet e Alacarte Internacional com entrega a domicilio fadado a grande sucesso, mas nada fazia em tal comercio. 
Tudo era resolvido e decidido por funcionários que decidiram e resolveram roubá-lo levando-o a falência com menos de um ano, embora mantivesse uma enorme e rica freguesia. 
Todos seus prejuízos eram pagos pelos endinheirados pais brancos que não se importavam com seus fracassos. 
Os pais pretos nada faziam por não terem mais nenhum domínio da situação e até por se sentiam gratos por mimos e presentes valiosos que recebiam.
Crises graves e violentas nunca mais teve. 
Todos os bons remédios psiquiátricos que eram lançados pelos laboratórios eu indicava-lhe e ele rigorosamente os usava e seu equilíbrio emocional mantinha-se satisfatório. 
Digo apenas satisfatório, mas não correto, pois nenhum remédio, nem ninguém ou nada o fazia dedicar-se em trabalhar ou interessar-se realmente por alguém ou alguma coisa. 
Viveu assim como uma parasita inútil até dois anos atrás quando do falecimento do Dr. Jorge, seu pai branco. 
Meu cunhado deixou-lhe em testamento enorme fortuna. 
Na época namorava uma jovem e talentosa arquiteta e influenciado por ela e por mim comprou e mobiliou o excelente apartamento onde vive até hoje. 
A noiva é claro, entusiasmara-o na compra com fins óbvios. Casamento. 
Eu tinha outro pretexto. Não que fosse contra tal matrimonio, pois eu próprio por várias vezes já tinha lhe indicado tal solução para se ver livres dos outros familiares indesejáveis, mas o que de fato eu queria, com ou sem casamento, era livrá-lo integralmente do convívio das famílias que o deixavam e até motivam-no a manter-se um eterno imprestável. 
Jamais questionaram o fato de ele nunca se interessar por nada.
Nunca lhe cobraram atitudes próprias e ele jamais teve alguma com relação a seu progresso. 
Vivia por nada e nada queria, pois desacreditou também da possibilidade de encontrar a família tão procurada inutilmente há anos.
Eu tinha de ajudá-lo e mais por mim que pela noiva decidiu comprar um apartamento para morar nele, para pelo menos tornar um pouco independente. 
Não demorou mais de duas semanas que morava com a moça desmanchou o noivado desinteressando e desfazendo-se da presença dela.
Ela estava pressionando-o muito para o matrimônio. 
Coisas muito mais simples ele recusava fazer. 
Jamais casaria. Seria muita responsabilidade para ele assumir. 
Era o quarto ou quinto noivado que acabara próximo ao casamento.
A minha maneira induzi-o ao trabalho e ele ingressou em um hospital público e lá está sem fazer muito esforço trabalhando em regime de meio período há dois anos. 
Melhorou bastante quando passou a morar sem parentes por perto ditando regras e exigindo-lhe a execução delas.
Além de a mim também se apegou muito à arrumadeira que trabalha com sua mãe branca, mas uma vez por semana faz a faxina em seu apartamento e lá ela se sente à vontade com ele e vice versa. 
Somos os únicos amigos que ele confia. 
Resolve por si só algumas simples tarefas corriqueiras de casa. 
Compra de mantimentos, de material de limpeza em supermercados, roupas e livros agora fazem parte de suas funções. 
Suas refeições são feitas em restaurantes embora vez por outra coe um café ou frita um ovo, assa um hambúrguer ou uma salsicha para lanches rápidos. 
Feijão, arroz ou macarrão não sabe fazer e jamais tentou aprender.
Eu também não sei.
Aceita-me todas as manhãs em sua casa que além do café dou-lhe inclusive o banho, passo-lhe talco e perfume pelo corpinho todo.
Nunca para de insistir não é? Não adianta avisá-lo a todo instante que não faz meu gênero? 
Sua única chance é se todos os homens do universo desaparecerem e ficar apenas você. Mesmo assim se não encontrar antes um gorila ou um orangotango simpático. 
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Chegou muitíssimo tarde. Já fizeram isso há muitos anos.
É Doutora. Está difícil mesmo seduzi-la. Acho que vou desistir definitivamente.
Não. Não faça isso senão perde a graça, além de não ser o procedimento correto de nenhum ser humano. 
Nunca desista de seus intentos importantes mesmo julgando-os impossíveis. 
Muitas coisas consideradas inacessíveis podem estar ao nosso alcance muito mais rapidamente que pensamos. 
Basta sermos perseverantes que muitas vezes conseguimos o almejado muito antes que imaginamos.
Temos vários exemplos, tais como Thomaz Edson, Abraham Lincoln, Luther King, Mandela, Lula e et cetera. 
Após tentarem dezenas, centenas ou milhares de vezes chegaram ao ambicionado. Assim agem os vitoriosos.
Insista em suas aspirações e trabalha incessantemente por elas que um dia acabará conseguindo.
Posso considerar essa possibilidade?
Seus sonhos devem ser procurados incessantemente, mas tenha certeza que nos meus não há lugar para você em tempo algum.
Foi com grande satisfação que Dr. Antônio Augusto ouviu tais frases, pois elas deram-lhe novo alento a continuar vivendo e sonhando.
Fechou os olhos. Olhou para os céus e pensou: “Dr. Carlos pode não ter nenhuma chance, mas eu quem sabe”?
Seu grande erro é que ele só sonhava e nada fazia para torná-los reais. Assim agem os perdedores. Com certeza seus devaneios só poderiam ter um único final. Um grande pesadelo e nada mais. 
Após tal tentativa de sedução, que eram constantes à jovem médica, Dr. Carlos voltou a se referir ao Dr. Sebastião e enquanto falava era interrompido invariavelmente por perguntas que partiam ora de um ora de outro colega, as quais ele respondia e voltava à narrativa.
Sua única extravagância era comprar bebidas caras e raras que coleciona. Aliás, apenas colecionava, pois não bebia. Acabou inexplicavelmente com todas elas nesses últimos dias. 
Ele nunca age como a maioria dos homens solteiros fazendo festas e farras em seu apartamento. 
Dificilmente leva alguma moça em sua casa e quando isso acontece é trazida do hospital quando alguma colega médica, enfermeira ou mesmo paciente se insinua demais não lhe deixando possibilidade de recusa. 
Geralmente satisfaz-se sexualmente com garotas de programa usando motéis para não ter o mínimo comprometimento. 
Pouco sai de casa e lê muito. Nada para evoluir profissionalmente ou para informar-se. Geralmente só romances apenas com fins literários mesmo.
Como sabe tais coisas?
Ele próprio diz-me muito a seu respeito, mas é a Sra. Lourdes sua faxineira que a pedido meu relata-me a maioria de seus hábitos. 
Disse-me que ele tem uma forma estranha de ler. Que se assenta no chão como que acuado no fundo da sala e devora livros e livros que sempre compra usados.
Usados?
Sim. Mania dele. Só compra livros em sebos.
Esquisito. Tem tanto dinheiro. 
Pois é. Tem o suficiente para comprar todos os lançamentos de best seller no mundo inteiro.
Não usa almofadas para sentar-se?
Nada. Senta-se no chão duro mesmo. 
Já comentei com ele sobre isso e ele respondeu-me que se sente bem no seu cantinho isolado e não sabe definir o porquê do interesse por livros já lidos.
Ele definitivamente não quer ser o primeiro em nada não acha? Nem em ler um livro.
Exato.
Não seria altista?
Não. Não é. Tenho certeza. Ele não criou nenhum mundinho para ele e nem sequer usa o nosso satisfatoriamente. 
O seu grande problema é não ter prazer em nada por não ter encontrado o que o agrada plenamente. 
Isso eu culpo aos casais de pais que não lhe deram tempo nem condições de ele procurar suas próprias alegrias e aspirações. 
Eu creio que se de fato conseguir encontrar seus parentes descobrirá suas origens e partindo daí consiga viver satisfatoriamente.
Creio que assumindo a obrigação de cuidar de seus pais já velhos, seus tios e primos e filhos destes que provavelmente não se deram bem na vida, por tratar-se de analfabetos vindos das roças do nordeste, lhe fará muito bem. 
Sentindo e obrigando-se em ser responsável por pessoas que de fato dependam de sua força e capacidade fará dele um homem realmente forte e brilhante. Será essa a sua cura definitiva. 
Dr. Souza concorda comigo nisso não é Souza?
Plenamente.
Chegamos a essa conclusão e nos propusemos a ajudá-lo procurar seu passado e estamos tentando com detetives contratados para isso sem ele estar sabendo.
Está tendo algum progresso?
Infelizmente não muito. 
Só descobrimos que possivelmente sua mãe e sua tia foram internadas em um manicômio sem documentos, mas que ambas já morreram.
O que aconteceu recentemente com ele?
Vou colocar as gravações de nossas últimas conversas nessa crise atual.
Estou interessado em ouvir logo o que falaram.
Calma Jarbas. Primeiro deixe-me contar-lhe tudo o que aconteceu que deu origem aos incidentes e posteriormente as conversas.
Estamos atentos.
Como já disse trabalha num hospital público e quinta feira, 12 de setembro foi chamado para atender um homem esfaqueado...
                                   Acabada a narrativa da história os médicos ouviram atentamente todas as conversas gravadas entre Dr. Carlos e Dr. Sebastião, repetidas vezes.
Solicitavam pausa e repetição de muitos trechos da conversa que julgavam importantes e interessantes e ouviram-nos repetidas vezes.
Dr. Carlos trocou o DVD da conversa no clube pelo outro que fora gravado em seu consultório na terça feira.
Ouviram-no da mesma forma que a primeira gravação, por diversas vezes interrompendo e repassando trechos julgados interessantes e importantes.
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Após ouvirem exaustivamente as gravações voltaram à conversa.
Ele telefonou-lhe informando-o sobre exame do DNA?
Não. Só soube dele quando Sra. Lourdes encontrou-o quase morto intoxicado próximo à banheira em sua casa dois dias depois. 
Encaminhei-o ao hospital e até hoje nada conversamos. 
Iria conversar com ele a partir de ontem, mas com a intromissão do pessoal tivemos de sedá-lo por mais quarenta e oito horas.
Quem interrompeu a conversa entre Dr. Carlos e Dr. Jarbas foi Dr. Souza contando-lhes o que já havia dito ao Dr. Carlos.
Informou-os que desde que o enfermo acordara e fora ao pátio tomar sol caminhava de cabeça baixa.
Que permaneceu durante algum tempo sempre olhando de um lado a outro rapidamente, igual um pêndulo desgovernado falando sem parar e que depois modificava tal movimento como se seu pescoço fosse de mola e passava a agitar a cabeça para cima e para baixo de modo sistemático e ininterrupto. 
Descreveu de maneira minuciosa tudo que acontecera conforme já havia dito a Dr. Carlos quando ele lhe telefonou avisando da breve chegada dos inconvenientes parentes. Informou-os que a pedido do chefe aplicou sonífero no Dr. Sebastião para impedir a intromissão dos que estariam chegando ao hospital para importuná-lo e que provavelmente ele estaria dormindo até o presente momento.
Dr. Jarbas reiniciou a conversa com Dr. Carlos perguntando: 
Você acha que o assassinado era o pai de Zinho?
Ainda tenho algumas dúvidas. Para dizer a verdade estou muito indeciso, mas uma coisa eu creio. O tal homem tem alguma ligação muito forte com ele assim como teve o assassino que ele conheceu nas ruas quando adolescente, que até acredito ter sido seu próprio pai, entretanto esse último quer seja o pai ou não, foi sem dúvidas o responsável pelo desacerto dele. 
Preciso ir ao necrotério encontrar o defunto para saber realmente quem é e tentar descobrir porque provocou tudo isso. Amanhã cedo vou procurá-lo.
Também vou com você. Algo me diz que o homem é o pai genético do Zinho.
Não posso ir com vocês porque terei que estar no hospital amanhã cedo para ver Dr. Sebastião que já estará desperto, mas concordo com Jarbas julgando que o morto é o pai dele.
Quem confirmou a opinião de Dr. Jarbas foi Dr. Souza.
Dr. Antônio Augusto discordou de tal paternidade e Dra. Rosa não opinou.
Despediram, pois haviam passado a tarde toda no trabalho e já era noite, e outra tempestade violenta ameaçava chegar em breve.
Novamente ninguém teve clima para brincadeiras, mas as despedidas voltaram a ser iguais as anteriores. 
Apertos de mão entre os homens e abraços calorosos na jovem médica que se retirou toda amassada e terrivelmente irritada pelos apertos, que ela gostaria que fossem de outros homens mais a seu gosto.
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Embora apenas Dr. Carlos e Dr. Jarbas haviam combinado irem ao IML na manhã seguinte encontraram-se com Dra. Rosa e Dr. Antônio Augusto que já estavam lá. 
A troca de olhares entre os psiquiatras velhos deu a nítida impressão que imaginavam que os jovens estavam faltando aos respectivos trabalhos com alguma desculpa injustificável.
Dormiram juntos?
Quem lhes dirigiu a gracinha foi Dr. Jarbas que recebeu da Dra. Rosa a seguinte resposta:
É claro que sim. Afinal somos uma mulher e um homem. E vocês? Também dormiram juntos? Quem foi o ativo e qual o passivo? 
Ou fizeram troca-troca seus velhotes velhacos e despudorados.
Nenhum dos médicos percebeu os risos escondidos das dezenas de pessoas próximas que escutaram a conversa deles. 
Alguns dos presentes até deram pausa às lágrimas e soluços que dedicavam a seus mortos para rirem do escárnio aos idosos médicos. 
Mesmo que eles tivessem visto tais risos com certeza com seus temperamentos brincalhões não teriam se envergonhado.
Como a maioria dos psiquiatras do mundo é adepta e procura seguir os ensinamentos de Freud nada mais óbvio que esses amigos portarem-se como ele. Brincalhões e irreverentes patrocinadores de gozações, chacotas e piadas preocupando-se sempre em ter péssimo gosto nas brincadeiras que na maioria das vezes ofendiam alguém.
Defensores do riso como sendo um dos melhores remédios para a cura de muitas doenças, excelente na prevenção de outras e determinante para uma vida feliz e saudável, pois reduz imensamente o estresse e desopila o fígado já existiam inúmeros cientistas estudiosos e pesquisadores bem antes que Freud. 
Ninguém duvida dos reais benefícios que o riso nos traz.
Entretanto o contestado por muitos, mas idolatrado por seus seguidores, o tido como o pai da psicanálise apregoou que as gozações e piadas debochadas, obscenas e de menosprezo a outros, auxilia nosso organismo na ferrenha guerra contra os danosos radicais livres. 
Eliminam a agressividade de quem as emprega, assim como a dos que assistem tais avacalhações fazendo-lhes um bem incontestável. 
Porém entre outras coisas que Freud nunca explicou é o que acontece com a cabeça dos humilhados com tais escárnios.
Esses embora riam com o grupo, geralmente é um sorriso amarelo, triste e infeliz que a meu leigo entender e talvez até irresponsável opinião tal riso não deva fazer nada bem aos que estão sendo satirizados e menosprezados.
Cala-te boca. Afinal quem sou eu para contestar Sigmund Freud?
Só fui nascer alguns anos após sua morte, portanto sem nenhuma chance em exigir-lhe explicações já que sou teimoso como uma mula, entretanto como ele já morreu e não fará ou dirá mais nada me deixa em condições, já que ainda estou vivo e pensante de descobrir a verdade e explicar.
Espero num futuro ainda longínquo estar com ele e debater sobre isso.  
Os psiquiatras ficaram sabendo no IML exatamente o que Dr. Sebastião tinha descoberto na terça feira anterior. 
Que o defunto tinha sido reconhecido, identificado e retirado para o funeral no bairro de Pinheiros.
Como Dr. Sebastião também nada descobriram em Pinheiros e decepcionados foram para o hospital onde souberam que Dr. Sebastião continuava dormindo. No dia seguinte deveriam voltar ao bairro Pinheiros, pois souberam haver tido um enterro bem próximo. No bairro Butantã.
Não incomodaram o doente, embora os médicos jovens o quisessem conhecer por motivos diferentes um do outro é claro.
Conversaram com Dr. Souza que previa que seu sono ainda permaneceria por mais algumas horas e que mesmo depois de despertado estaria impossibilitado de manter-se atento a conversas. 
Esse foi o motivo de eles decidirem que voltariam na quarta à tarde ou na quinta pela manhã, indo todos para seus respectivos consultórios.
                   Foi Dra. Rosa quem lhes informou alto e bom som ser nessa terça feira feriado, motivo pelo qual não estava trabalhando e não por preguiça conforme percebera tal suspeita de seus colegas. 
Ela compreendeu a desconfiança dos velhos quando a viram no IML pelo cinismo de seus olhares.
Decidiram a convite de Dr. Carlos passearem em um dos clubes que era sócio, pois ainda era cedo e o dia estava bem quente porque o sol transgredindo as leis da natureza logo ao amanhecer invadiu a forte chuva que caia na cidade desde a noite anterior expulsando-a e secando tudo. 
Ele desta vez veio desobedientemente para brilhar. 
Mais que o astro rei quem brilhou verdadeiramente foi a linda médica desfilando no clube sua beleza, sensualidade e elegância.
Junto daquele trio de homens horrorosos mesmo que sua formosura fosse apenas normal já se destacaria. 
Mas não era. Era muito mais que perfeita.
Ela com seus vinte e três anos era um monumento de fazer inveja a Da Vince e Michelangelo que sempre esculpiram e pintaram bem próximos ao ápice, mas jamais chegariam nem próximos a sua perfeição. Gioconda que me desculpe, mas o sorriso de Dra. Rosa a faria chorar de inveja.  
Sua sensual naturalidade no andar com saltos altos, no olhar, ao sorrir, seus gestos, e principalmente sua maneira de vestir, tremendamente provocadora deixou todos os homens no clube abismados e descontrolados.
Inclusive as eternas rivais mulheres que não tinham como encontrar ou imaginar defeitos a elogiavam olhando invejosas. 
Tal postura fez com que a maioria dos varões como os pavões abanassem e exibissem seus rabos tentando agradar para acercarem-se da estonteante mulher.
Por mais que os colegas insistissem em exibi-la na piscina não conseguiram.
Premeditadamente Dr. Carlos tinha passado antes em um shopping próximo para comprar roupas de banho. 
Presenteou-a com um ousado para não dizer despudorado biquíni, mas não houve meios de convencê-la em usá-lo. 
Não era por nenhum pudor ou timidez. Tal traje ela até achou muito recatado para seu gosto.
Simplesmente não estava disposta a mostrar-se àqueles colegas e muito menos aos indesejáveis cortejadores que a todo o momento aproximavam-se do grupo, com intenção de seduzi-la, infringindo as leis da boa educação visto que ela estava acompanhada, além de não ser amiga de ninguém daquele local. 
Dr. Carlos conhecia de vista muitos associados frequentadores e até comentou que nunca tinha sido tão assediado para inúteis conversas por alguns que jamais tinha trocado um simples bom dia. 
Muito discretamente a jovem destinava aos inúmeros admiradores uns meigos sorrisos deixando sempre a mostra seus alvos dentes entre seus carnudos lábios, muito mais bonitos e sedutores que os de Angelina Jolie.
Por mais ajuizada que se portasse sua simples presença admirável e seus trejeitos espontâneos de aparência ingênua eram tremendamente insinuantes. Principalmente quando lançava aquelas rápidas piscadelas acompanhadas daquele sorriso maroto fazendo biquinho com os lábios fingindo acanhamento, quase idênticos e ao mesmo tempo tão falsos como os constantemente usados em outra época pela inigualável e eterna Brigitte Bardot, iludiam os desejosos fãs que entendiam como sinais de convite provocando-lhes tais constantes faltas de etiqueta. 
Seu incontestável e marcante charme já era suficiente para estontear a todos. Apesar de tudo isso ela abusadamente exibia bem mais de um palmo acima dos joelhos, suas majestosas coxas feitas com exclusividade e esmero pelo criador presenteando os homens que se deliciavam.
Com certeza Ana Hickmann sentiria minúscula se visse tais longas pernas torneadas pela mão divina com a mais absoluta perfeição desfilar nas alturas de seus saltos.   
Nada de seus trejeitos e gestos eram feitos com intuito de provocação banal. 
Ela simplesmente era assim e adorava o uso de minissaias geralmente de tecidos finos para seu melhor conforto e tornava impossível a não exibição de suas carnes e suas curvas certíssimas, jamais vistas por Stanislaw Ponte Preta.
O incômodo sutien nunca era usado permitindo a exposição de seu majestoso busto excluindo apenas a mostra dos mamilos, pois nos devidos lugares dois pequenos bordados em sua blusa impedia tal visão.
Nessas ocasiões de feriados prolongados as pessoas normalmente viajam com suas famílias nos finais da semana enforcando ou compensando o trabalho da segunda feira, entretanto o clube nunca esteve tão frequentado como naquela terça feira.
Tal aumento da frequência com o passar das horas fez crer ao Sr. Amauri, presidente do clube que a moça é quem atraia os associados ausentes que por celulares eram chamados pelos amigos que lá estavam para virem apreciá-la.
Galanteador, como todo descendente de italianos e prevendo que com o assíduo comparecimento dela ao clube ele iria angariar muitos novos associados, por isso presenteou-a com um título vitalício já quitado além de isentar o grupo todo das despesas do almoço, chopes, sucos e o que mais quisessem.
Ganhou dela bem mais que todos os demais. 
Pela deferência foi brindado com um beijo não muito prolongado no rosto deixando-o corado de vergonha e tremulo de medo por imaginar a briga que teria ali mesmo se sua esposa que estava próxima tivesse presenciado a cena.
Afastou-se assustado, rápido e definitivamente para apenas ficar olhando-a de longe, abraçado carinhosamente com Vera sua brava esposa.
Está sendo um ótimo dia não doutora? 
Já tive vários bem melhores Carlos e espero ter muitos e muitos outros mais perfeitos ainda.
Ambiciosa.
Indiscreto e cafajeste. Porque não se especializa em ginecologia?
Esse foi o único momento que a jovem colocou a bolsa sobre as pernas. Tentou impedir a visão do curioso médico que se sentava propositadamente a sua frente com a cadeira afastada da mesa para inspecioná-la entre as coxas.
Decrépito e senil como está e prestes a desencarnar pode deliciar-se a vontade, pois talvez seja a última coisa que faça nessa vida.
Após tal fala Dra. Rosa tirou a bolsa do colo colocando-a de volta sobre a mesa deixando continuar o espetáculo para o médico, que inescrupuloso nem se ofendeu e sequer deu-se ao trabalho de se mexer denotando envergonhado pelo fragrante e insistentemente continuou com seu olhar bisbilhoteiro e mal intencionado. 
Ela continuou com seu jogo de sedução totalmente alheia aos grossos pingos de suor que escorriam por todo o rosto de Dr. Carlos.
Afinal o sol estava fortíssimo principalmente para ele e por mais que tomasse cerveja gelada nada aplacava seu terrível calor.
Se havia intimamente algum fascínio verdadeiro dos médicos para com ela, excluindo-se Dr. Antônio Augusto ou algum despudor dela com eles nunca se soube.
Eram suficientemente inteligentes, competentes leitores das mentes alheias e nunca se traiam deixando aflorar seus verdadeiros desejos ou pensamentos. 
Eles se relacionavam muito bem para evitar que tais incidentes pecaminosos não ultrapassassem os limites e se mantivessem sempre como pura brincadeira e zombaria. Eram muito amigos e extraordinários gozadores.
Com exceção de Dr. Antônio Augusto parece que de fato tudo não passava de enigmas eróticos sem o mínimo comprometimento ou desejo real de nenhum dos médicos.
Passaram o dia todo, felizes, sem preocupações consigo ou com seus doentes e sem nenhuma conversa séria.
Ninguém melhor que eles, psiquiatras, para saber que dia de descanso é para dedicar-se integralmente ao lazer.
Não conversaram absolutamente nada sobre Dr. Sebastião e nem tentaram desvendar nenhum mistério de seus outros pacientes complicados.
Deliciaram-se com o dia ensolarado, com as descontraídas brincadeiras e especialmente com o delicioso buffet gratuito, ofertado pelo idiota presidente do clube. 
Os homens, principalmente Dr. Carlos gulosamente alimentou-se muito mais com a presença da monumental mulher que com a refeição.
Dr. Carlos e Dr. Jarbas combinaram que eles, já que os jovens tinham compromissos inadiáveis, iriam ao endereço do Butantã descobrir sobre o enterro que possivelmente seria do tal Jonas, na quarta feira pela manhã.
Todos se encontrariam na quinta logo cedo no hospital com as possíveis respostas encontradas na procura do morto enterrado e para visitarem e conversarem com Dr. Sebastião que já estaria em melhores condições.
Como Dr. Carlos não encontrou nenhuma piadinha para aborrecer a colega médica dedicou-lhe aquele grosseiro e obsceno gesto com a língua. 
Como resposta recebeu dela:
Só essa preliminar que consegue em uma relação sexual? Seu impotente.
Deixaram o clube rindo normalmente exceto Dr. Antônio Augusto que se afastou a gargalhadas.
Por ser jovem e sem vícios de cigarro e bebida além de muito saudável com sua risada deixou claro ser o único forte sexualmente entre eles. 
Ninguém teve atrevimento de nenhum deboche ao rapaz. 
Afinal ele merecia pelo menos uma vez sair vitorioso. Se é que obteve alguma conquista.
Somente ele sabia que nunca havia dormido com nenhuma mulher, embora possuísse condições físicas para tal. 
Estava se guardando para Dra. Rosa ou talvez aos ratos e vermes em seu túmulo se dependesse dela.
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Na manhã de quinta feira quando todos se encontram no hospital Dr. Carlos e Dr. Jarbas falaram que enterro saído do endereço de Butantã fora de um maluco que morrera numa disputa de racha.
Que vasculharam próximo ao endereço dado no IML que era falso e consequentemente nada ficaram sabendo do funeral de Jonas Cardoso dos Santos, pois tal pessoa jamais fora sequer visto nas imediações.
Dr. Souza começou narrar o que aconteceu no dia anterior. Principiou contando que recebeu a visita de Dra. Tereza com os pais pretos de Zinho por volta de dez horas. 
Não conseguia dar sequência ao assunto, pois era constantemente interrompido com conversas aleatórias ao objetivo, mas exigiu atenção deles e falou:
Carlos quando eu soube da presença deles na portaria liguei para sua casa e para seu celular durante mais de uma hora e você não me atendia e nem retornava aos meus recados deixados.
Nessa hora nunca tem ninguém em casa. 
O celular está com a bateria arriada desde o feriado. Esqueci-me de carregá-la.
Tome um memorial ou compre várias baterias. 
Sua profissão não permite essas imperdoáveis falhas meu caro Dr. Carlos.
Só quando você comprar vestidos mais longos que cubra essas coxas e pernas horrorosas.
Acha mesmo? Porque não desgruda os olhos delas?
Será que vocês não sabem conversar nada sério?
Ora bolas AA. Pretende que deixemos de levar nossa existência na bamboocha, comendo a vida com uma colher grande para sermos felizes? 
Quer que a tornemos perversa e difícil o suficiente para envelhecermos rapidamente e acabarmos enterrados em hospitais como este, recebendo visita de parentes de vez em quando? Ou nunca, como na maioria dos casos?
Está bem AA. Atendendo-o vamos tentar ser sisudos como você. 
Continue Dr. Souza. O que aconteceu ontem?
Não consegui segurá-los nem por uma hora e fui obrigado a atendê-los.
Desculpe-me Dr. Carlos.
Não lhe entendo AA. Repreende-me e depois pede desculpas? 
Só porque falei das coxas feias de Dra. Rosa precisava apelar? 
Sua paixão por ela está ficando fora de controle. 
Decida-se e cante-a com todos seus argumentos e ficará definitivamente sabendo se deverá continuar insistindo ou se necessitará desistir. Seja macho pelo menos.
Dr. Antônio Augusto aceitava como brincadeira todas as verdades ditas por Dr. Carlos e pelos outros médicos inclusive pela Dra. Rosa, pois tinha certeza que ninguém sabia de seu amor platônico por ela. 
Realmente tratava-se mesmo de gozações e pilhérias descontraídas porque de fato ninguém suspeitava de tal idolatria. Entretanto fazia-lhe um mal terrível por tratar-se de sua real situação. Ele vivia para ela e em função dela todas as vinte quatro horas do dia.
Como uma bola de tênis rasgando-lhe o esôfago engoliu em seco seu mau humor e não deixando transparecer sua irritação falou:
Não tem jeito mesmo com vocês. Só sabem fazer gracejo com os outros. Vá em frente Dr. Souza. Prometo não deixa-los interrompê-lo mais, pois conversas com Dr. Carlos não prestam para coisa alguma e nada se aproveita delas.
Continuando Dr. Souza disse que Dr. Sebastião estava muito bem disposto desde que acordara por volta das oito horas e que estava tomando sol no pátio.
Dr. Antônio Augusto ao perceber nova interrupção, desta vez provocada por Dra. Rosa respirou fundo, mas não teve coragem de admoesta-la. Foi o próprio Dr. Souza quem exigiu atenção de todos sob pena de não contar mais nada do ocorrido.
Calaram finalmente. Desculparam-se e atentos e silenciosos ouviram:
Zinho portava-se normalmente conversando amistosamente com outros internos mais serenos, mas sua reação à chegada do grupo de parentes que não consegui evitar foi péssima.
Como não impediu se tudo é fechado e só você poderia abrir as portas?
Terezinha trazia uma ordem judicial para visita obrigatória e portava a tiracolo um detetive brutamontes para fazê-la ser cumprida. Nada pude fazer. 
Prosseguindo a narrativa disse:
Zinho assustou-se com seus pais adotivos quando os viu recusando-lhes a presença. Chegou até esconder-se atrás de outros doentes gritando que não os queria lá. 
Que não eram eles que deveriam chegar. 
Que ele só queria o pai de um olho só. 
Que não queria ser roubado novamente por eles. 
Aconteceu tudo isso?
Chegou a ameaçá-los com os punhos cerrados.
Que coisa triste. Infelizmente era esperado.
Ele não chegou perto dos demais. Ameaçava ao longe gritando: “Fora seus raptores de menores. Vocês não prestam”.
Ele esteve ruim assim?
Sra. Selma muito chocada afastou-se com o marido, mas Terezinha tentava aproximar-se dele que fugia sempre blasfemando as mesmas coisas.
Você não fez nada?
Não foi preciso. 
A recusa de Zinho aos gritos alegando que não queria ver aquelas pessoas comoveu e convenceu o detetive, colosso de músculos, que resolveu tomar a iniciativa que nos foi imensamente favorável. 
Ele alegou aos demais que viera até o hospital com ordem judicial para auxiliar numa prática saudável, mas o que estava vendo era o contrário. 
Disse que ao chegar ao pátio viu o rapaz durante longos minutos agindo normal e corretamente e que ele só descontrolou-se ao vê-los, portanto não deveriam ficar lá. 
Sem uso de autoridade, apenas com sua possante voz de trovão solicitou a retirada de todos eles. 
Claro que Terezinha ameaçou e agrediu-o verbalmente dizendo impropérios e leviandades racistas e ele só não a levou presa por desacato a autoridade por minha sugestão. 
Exigiu-lhe assinar e declarar no documento judicial que tal visita fora devidamente realizada a contento e foi embora levando os papeis. 
Antes porem determinou que Terezinha mandasse seu motorista levá-lo, para prestar contas a seus superiores exigindo-lhe sua permanência do lado de fora da clínica até a volta do motorista.  
Ela bem mansamente não resistiu mais ao “Gorila” satisfazendo-o no exigido, mas deixei-a com os pais pretos aguardar o retorno do carro em meu consultório. 
Afinal o sol estava fortíssimo lá fora.
Fez mal. Deveria deixá-los queimarem-se no sol.
Que maldade Carlos. 
Sorte dela que ele não exigiu outras coisas. 
Faz dois anos que enviuvou e acho que de lá para cá nunca mais usou sua bolsinha de guardar brinquedos. Tal King Kong a estraçalharia. 
Por favor, Carlos, não interrompa mais com suas gracinhas fora de hora.
Está bem AA. Não atrapalharei mais ao Dr. Souza conforme combinado, mas com certeza seria muito engraçado e assombroso ver minha irmã se ajeitando embaixo do tal monstro. 
E aí Souza? Que mais? 
Conversei muito tempo com os pais pretos e Terezinha. 
Contei-lhes tudo que acontecera com Zinho desde aquele fatídico dia que atendeu o esfaqueado. Suas estranhas e incorretas atitudes que obrigaram você trazê-lo para cá. 
Finalmente compreenderam a gravidade da crise.
Prometeram não nos incomodar mais durante o tratamento. 
Pediram-me que apresentasse a você ao Jarbas e os jovens psiquiatras, suas desculpas, mas que gostariam de estar acompanhando os resultados do comportamento de Zinho, pelo menos uma vez por dia por telefonema meu ou seu. 
Selma chegou a perguntar-me se poderia vir vê-lo mesmo que de longe. Foi a própria Terezinha quem a desestimulou dizendo ser impossível.
De agora em diante não haverá mais problemas por parte deles que entenderam a importância de ficarem a distancia até que lhe permitamos. Finalmente conseguimos o afastamento deles para trabalharmos em paz.
Nós ou o detetive? Parece-me que ele foi muito mais convincente que nós.
Com certeza. Nem sei seu nome, mas se vê-lo dentro do Morumbi lotado sem dúvida identificarei tão gigantesca e grotesca criatura que se destacaria entre a multidão.
Mas você teve domínio sobre ele impedindo a prisão de minha irmã, portanto resolveu com coragem o impasse entre a “feia e a fera”. Parabéns.
Obrigado pelo elogio. Coisa rara partindo de você.
Já que minha irmã concorda em participar da cura de Zinho chame-a e aos pais pretos para conversarmos. 
Convoque também todos os filhos deles, pois gostaria de ter toda a turma presente ainda hoje.  
Convide-os com urgencia para logo após o almoço avisando-os que tal reunião não tem hora para terminar. 
Pode acontecer de passarmos o dia e a noite inteira reunidos. 
Devem estar aqui no máximo até quatorze horas, pois tenho revelações muito importantes a fazer. A propósito o que fez com Zinho?
Não tive alternativa. Fui obrigado novamente acalmá-lo com injeções. 
Como ele está hoje?
Acordou por volta de sete horas muito inquieto. 
Após o café foi tomar sol, mas seu comportamento estava ruim.
Lembrava-se dos tais “raptores de nenês” e procurou-os por todo o pátio ameaçando com uma toalha de rosto na mão empunhada como se fosse uma arma. 
Achei melhor aplicar-lhe mais calmante e ele está dormindo. 
Acho que só o teremos “vivo” amanhã.
Ótimo. Novamente resolveu a contento.
Parece que estou aprendendo. Não acha patrão?
Mais ou menos. Creio que com mais uns setenta anos de prática esteja razoável.
Enquanto Dr. Souza afastou-se para solicitar a secretária a convocação do pessoal Dr. Antônio Augusto falou:
Vocês só vivem tirando sarro uns dos outros? Pouca coisa séria se aproveita.
Os velhos daqui sou eu, Souza e Carlos, ou você? Deixe de ser ranzinza e rabugento meu jovem.
Até o senhor Dr. Jarbas tirando comigo?
É claro. Porte-se displicentemente com o cotidiano que a vida lhe será melhor e chegará a ser idoso como nós, caso contrario um infarto ou um AVC o levará muito antes de ficar velho. 
Solte como nós suas pilherias. Divulgue seus desejos e aspirações para sentir-se bem, pois só sendo de altíssimo astral conseguirá tratar e medicar os infelizes baixo-astrais que vivem a nos procurar e azucrinar. 
Talvez até levar Rosa para a cama consiga se for mais maleável e ousado e tiver jogo de cintura. 
Não para os lados como bailarinas rebolando e sim para baixo e para cima e com muito vigor. É óbvio que primeiro terá de convidá-la e convencê-la em aceitar. 
Definitivamente hoje não é meu dia. Nem conheci o tal Zinho e ainda levei de vocês uma porrada atrás da outra. Assim não dá.
Dr. Antônio Augusto quando ouvir um ensinamento mesmo que via gozações ou besteiras, assimile e aproveite o que vier de sabedoria sem ter de ficar aborrecido se sentido inferiorizado ou menosprezado. 
Reaja normalmente com outra brincadeira ou simplesmente mande a pessoa “A merda” e fica tudo terminado, como uma despedida final. 
Todos rirão e a mensagem ficará recebida correta e sem melindre.
Dr. Antônio Augusto tentou ser brincalhão falando assim: 
Está entendido doutora de pernas feias. Sigo sua sugestão e mando-a a merda junto a seus amigos anciões.
Convide-me para um excelente motel que mostrarei e provarei o quão maravilhosas elas são, além de mostrar-lhe tudo o que de gostoso elas sabem fazer.
Todos riram as gargalhadas menos o jovem médico que pensou na tréplica, mas nada espirituoso conseguiu para acrescentar sobre a réplica da moça.
Ruborizado como sempre e sem nenhuma atitude a mais essa provocação tratou de despedir-se falando:
Pois é doutores. Só poderei voltar aqui na próxima semana, pois amanhã e sábado terei plantões o dia todo e no domingo viajarei para visitar minha família em Ribeirão Preto. Lá todos são ajuizados e ponderados por isso estarei melhor que aqui. 
Eu também estarei de plantão amanhã, mas no sábado gostaria de visitar e finalmente conhecer Zinho. Convida-me Carlos?
Ao magnífico motel que mencionou?  É claro. É agora e todos os dias.
Será que ainda se lembrará do que se faz lá além das preliminares? 
Ou vai querer apenas ficar assistindo filmes pornôs na tevê?
O macambúzio e carrancudo Dr. Antônio Augusto resmungou:
Até a próxima semana.
Espere um pouco doutor e doutora. Tenho algo a lhes informar. 
Já que todos querem participar da cura da doença do Zinho, devem ficar conosco pelo menos até a noite.
Vamos almoçar e aguardar o pessoal chegar.
Está bem ficarei, mas, por favor, meus amigos sejam mais controlados.
Ficará também Rosa?
Sim. Mas no máximo até meia noite. 
oooOooo
Saboreavam a sobremesa quando a secretária de Dr. Souza informou-o da chegada do pessoal convidado que já estava aguardando no consultório de Dr. Carlos.
Eram: Dra. Tereza e sua filha Eliana, pois os gêmeos não puderam comparecer. 
Sr. João e Sra. Selma com seus filhos João Paulo Filho e Cristina porque Maria Luiza estava viajando.
Imediatamente reuniram-se no luxuoso salão de convenções do SPA a contragosto de Dr. Carlos que preferia permanecer em seu ridículo consultório que foi recusado pelos demais.
Os psiquiatras, Dra.Tereza, Sra. Selma e Sr. João Paulo, já se conheciam, portanto aconteceram somente as apresentações necessárias.
Eliana que fora a jovem modelo bastante atraente transformara-se em uma quarentona conservando-se belíssima de rosto e mantinha corretas as medidas e contornos do corpo. Atualmente era viúva sem filhos exercendo a atividade de diretora de novelas em uma famosa rede de televisão. 
Também escrevia e dirigia películas curtas e de longas metragens sempre de excelente qualidade. 
Tinha ótimo conceito entre os críticos de arte e do público cinéfilo que lotavam as salas de espetáculos para assistirem seus filmes.
Muito observadora, inteligente e de esmerada educação.
João Paulo Freitas Filho, divorciado, pai de um casal de pré-adolescentes que raramente vê por imposição da ex, fato que não o preocupa por absoluto desinteresse por eles. 
Proprietário de uma lanchonete bastante lucrativa durante o dia que a noite transforma-se em um barzinho muito movimentado, em um bairro do subúrbio paulistano onde se mistura pessoas de vários níveis de conduta.
No trato com as pessoas mesclava-se entre ser simpático e agradável conforme o era com seu público diurno e indiscreto e mau caráter determinado pelo tratamento com seus fregueses noturnos.
Cristina ou Cris, ainda solteira, enfermeira chefe em uma clínica geriátrica e estudante perto de se formar em medicina.
Ao contrário do irmão, bem educada, atenciosa, correta de caráter, ponderada nas atitudes e bastante extrovertida e brincalhona. 
Eliana que olhava Dra. Rosa de cima em baixo ao mesmo tempo em que também era examinada dos pés a cabeça pela médica deu início à conversa falando gracejos que na verdade eram observações corretas de seu olho clínico como excelente descobridora de talentos que era.
Doutora se estiver ganhando pouco ou insatisfeita como psiquiatra, convido-a a participar de meus filmes ou novelas, pois será sucesso imediato e ficará famosa.
Antes de qualquer resposta João Paulo Filho que a olhava folho, das coxas ao decote e vice versa e Cris que como Eliana admirava-a maravilhada pela beleza e perfeição do corpo quase que simultaneamente falaram.
Nada disso. Você estará muito melhor sendo minha sócia na lanchonete. Muito antes de qualquer filme ou novela de Eliana chegar ao ar nós dois já teríamos ganhado dinheiro suficiente para comprarmos todas as lojas McDonald’s e até a rede de televisão que ela trabalha.
Eu é que não a quero trabalhando comigo doutora.
Em apenas alguns minutos de sua presença mataria de infarto ou derrame todos os velhinhos da clínica e não terei mais emprego como enfermeira.
Pela primeira e talvez a única vez na vida Dra. Rosa não teve resposta para ninguém, mas sorriu-lhes meiga e timidamente.
Muito singela movimentou as alças da decotada blusa que ficaram exatamente no mesmo lugar, pois não houve nenhum esforço para movê-las diminuindo o tamanho do decote, que foi o que fingidamente tentara fazer.
Com a mesma má vontade e consequente ineficiência puxou a barra da saia para baixo, mas ela obediente voltou à mesma posição.
Impossibilitada e desinteressada de postar-se com menor exposição de seu exuberante e admirável corpo e não achando mais nenhum artifício para mostrar-se recatada não teve dúvidas do procedimento a seguir.  
Lançou todo seu encanto pessoal à platéia seduzida.
Com uma singela piscadela entreabrindo seus carnosos, molhados e sensuais lábios vermelhos de fazer inveja a já mencionada beldade de Hollywood, ao mesmo tempo com um controlado e pretensioso sorriso de aparência ingênua, desta feita impossível até a inesquecível BB, musa francesa e rainha da meiguice e candura disfarçadas, deixou claro que ela sabia que tudo que lhe foi dito e muito mais coisas aconteceriam se ela se dispusesse em fazer.
O maroto gesto e especial olhar fingindo a constrangimento e decoro falou sua verdade sem necessidade de nenhuma palavra. 
Nenhum som precisou emitir para fazer-se entender. 
Todos receberam o recado e boquiabertos silenciaram-se e como mentecaptos desviaram-lhe seus olhares.
Doutores. Acho que vocês têm razão. Só eu que não sei levar a vida na flauta.
Dr. Antônio Augusto temos aqui uma bela enfermeira morena jambo, olhos azuis e solteira que poderá ensinar-lhe não só flauta como trombeta, berrante, gaita e outros instrumentos mais, usando apenas a boca e a língua. Ensina-lhe Cris?
Não me desagrada a sugestão Dr. Carlos e perguntou ao Dr. Antônio Augusto:
Dr. Antônio Augusto gostaria de internar-se na clínica onde trabalho?
Escondo-o entre os velhinhos e ninguém saberá de sua presença lá. Só eu e o assistirei dia e noite ensinando-o os agradáveis usos de todos os aparelhos mencionados e outros mais, como trombone de vara, o piston e et cetera. Que acha?
Não tem jeito mesmo. Algum dia ainda serei um obsceno igual a vocês ou abandoná-los-ei antes, coisa que acho mais provável e apropriada.
Terminada as apresentações totalmente incomuns numa reunião de pessoas não excêntricas como eles Dr. Carlos tomou a palavra e solicitou que o interrompessem e perguntassem o que fosse necessário para o total entendimento de tudo e por todos. Colocou-os a par dos acontecimentos recentes e continuou falando:
Peço aos senhores e senhoras presentes que coloquem o máximo de pessoas de seus conhecimentos e influências para descobrirem em qual cemitério está enterrado o tal Jonas Cardoso dos Santos. 
Dr. Souza deverá convocar ainda hoje nossos auxiliares administrativos para também iniciarem com urgência tal busca. 
Temos de encontrar e exumar o defunto para descobrir pelo exame do DNA se de fato é, ou não o pai de Zinho.
Qual dos resultados resolverá o problema dele?
Qualquer um dos dois.
Como assim?
Se for verdade que é o pai de Zinho localizaremos os demais parentes que efetuaram o enterro com nomes falsos que irão confessar suas verdadeiras identidades e seus modus vivendi. 
Zinho saberá sua correta analogia e terá a possibilidade da escolha. Poderá optar em trilhar seu destino com base nessa família encontrada. 
Se achar desconfortável ou inadequado tal modificação poderá decidir seguir seu caminho conforme o que já está orientado e formado por preferência de sua própria decisão.
Como seria isso?
Dra. Rosa. Ele exercerá o poder da alternativa e fará a escolha que melhor lhe convier.   
Se entender que é preferível ser o que seus parentes são ou foram ele será, pois quebrará parâmetros e adotará tal forma como sendo sua formação. Se não julgar adequada não a aceitará também por desejo e decisão sua.  
Assim não haverá mais buscas e procuras e estará curado em definitivo.
Tal pessoa que foi assassinada com tantas facadas não seria um bandido?
Poderia ter sido sim. Perfeitamente correto seu pensamento.
E em assim sendo ele poderá optar em ser criminoso? Valerá a pena?
Socialmente será péssimo, porém nossa intenção. Melhor dizendo minha intenção é acabar com sua enfermidade mesmo que o preço seja tão alto como presume.
Não teria outra forma de curá-lo?
Embora com muitas falhas e erros ele criou-se e foi orientado de forma saudável, honesta e carinhosa pelas duas duplas de pais que teve ou discordam disso?
Aguardou por alguns instantes e como reinou o total silencio entendeu que todos concordaram por isso continuou.
Um casal de pais pobres, mas amorosos que fizeram tudo pelo sem bem. Um par de pais ricos que além de amor deu-lhe estudos, estrutura social muitíssima elevada e montanhas de dinheiro.
Eu mantenho-o sob rígido controle de remédios há anos e transmito-lhe segurança além de oferecer-lhe amizade sincera. Adiantou para alguma coisa tudo isso?
Realmente para nada serviu pelo que aconteceu e acontece em sua vida.
Portanto se ele transformar-se em um dos maiores criminosos desse país pelo menos ele praticará algo que decidiu que lhe valha a pena fazer.
Suas conclusões parecem-me muito estranhas e satânicas.
Nada disso. São corretas embora assustadoras. 
Entendam que há também a possibilidade de tal morto não ter sido nenhum bandido e ter exercido outra atividade. 
Poderia ser algum famoso empresário, ou psiquiatra, ou banqueiro. Quem sabe?
Já vem Carlos com suas besteiras. 
É obvio que se tivesse tido algum prestigio após a identificação do “Famoso Jonas Cardoso dos Santos, banqueiro, psiquiatra ou empresário” assassinado a facadas, todos os noticiários dos jornais e da televisão estariam batendo recordes em cima de recordes de venda e audiência com as reportagens.
Preste atenção AA. Há a presunção que tal homem tenha sido bandido sim, mas há também a hipótese de ter pertencido a outra casta. É claro que não foi nenhum renomado nada, cuja graça tentei fazer. Acho que só você não entendeu a chacota. 
Ele poderia perfeitamente ser uma pessoa comum trabalhadora e honesta. Um motorista ou dono de bar ou segurança. Ou sei lá o que? Nada de altíssimo padrão, porém nada de ruim. 
Apenas um indivíduo comum como a maioria.  
Nesse caso Zinho que já está em um patamar muito acima de tais pessoas não estaria regredindo?
Claro que não. Você está vendo apenas o lado intelectual e financeiro. Eu prefiro tê-lo como o melhor qualquer coisa.
Aliás, nem precisa tanto. Basta-me vê-lo como um bom pedreiro ou vendedor ou taxista, que continuar vendo-o como o pior dos médicos, exatamente por julgar-se um incapaz por não ter origem e que a qualquer momento se mata.
Quem ainda não sabia que fique sabendo. Ele não se atirou do alto de sua cobertura e não se envenenou com bebidas alcoólicas e remédios controlados por absoluta falta de coragem. Evidente e enorme covardia. Sorte dele e nossa de ele ser até agora totalmente medroso e indeciso. 
Quero dele um homem de ação. Terá de fazer o que desejar sem receios e sem temor. 
Volto a insistir e repetir. Qualquer que seja o que venha ser por decisão própria é melhor do que o que é atualmente. Concorda Jarbas?
Plenamente. E já que me solicitou na conversa concedo-lhe um descanso e continuo a palestra com minhas conclusões que sei que são iguais as suas. Permite-me Carlos?
Perfeitamente e até agradeço.
Dra. Rosa, o que a faz tão pensativa? Está decidindo qual de nós levará para o motel? 
Apresento-me e presenteio-a com duas mansões e dois jatinhos. Não sou pão duro como o Carlos por isso ofereço-lhe o dobro da dádiva dele.
Dr. Jarbas tenho certeza que a brincadeira foi somente para tirar a tensão de todos sobre o assunto tão opressivo, mas mesmo assim informo-lhe que você não será meu eleito nem por todas as mansões e jatinhos do mundo.
Não imagina o que perderá. Sei cada coisa.
Acredito. Deve saber hipnose, pintura, leitura, tocar guitarra, xadrez, dominó, palavras cruzadas e até baralho. Estou certa? Ou sabe também fazer tricô, bordado e crochê?
Essa menina vai longe e creio que serei eu a levá-la.
Quem entrou na conversa foi João Paulo Filho, mas à medida que Dra. Rosa ia rebatendo suas nada criativas investidas, ele cada vez mais exaltado tornava o diálogo tão indecoroso que deixou todos abismados e incrédulos pelo que poderia vir a acontecer. 
Nunca ouviram tamanha ousadia e libertinagem nos aliciamentos do rapaz que não acostumado às brincadeiras dos médicos realmente abusou nas seduções imaginando-se num meretrício de baixa categoria tal qual os que frequentava.
Dava para perceber a irritação da médica que estava conhecendo tal cara tão obsceno e inconveniente. Seus pais e Dra. Tereza envergonhados com o comportamento libertino do rapaz, solicitaram retirar-se com desculpas de irem tomar lanche ou fazer outra coisa qualquer, pois se sentiram imensamente agredidos pela leviandade dele que não entendendo nada das chacotas dos amigos partiu por um caminho totalmente fora de ética e decência. Tão ousado que creio que nem as prostitutas, suas amigas, mantivessem tal conversa.
A última resposta da médica terminando o assunto foi inicialmente com palavras de uma meiguice tamanha que parecia deixar claro sua aceitação às seduções, entretanto à medida que discursava tornava-se ferina e violentamente hostil que não deixou dúvidas que agrediria fisicamente o interlocutor se ele abrisse a boca para alguma réplica. 
Falou assim:
Adorado João Paulo Filho, estou vendo-o pela primeira vez na vida e adorei sua maravilhosa cor jambo, seu exuberante físico sarado, exibindo esse apetitoso volume que creio ficar bem maior no momento necessário. 
Por tudo isso você seria o primeiríssimo na fila dos aspirantes a conquistar-me sem necessidade de jatinhos e mansões. 
Com um singelo sorriso, um botão de rosa, ou um meigo piscar de olhos talvez até me tentasse alguns minutos atrás. 
Seria realmente simples se não tivesse esse linguajar lúbrico e se não fosse tão atrevido, abusado e pervertido como se mostra. Infelizmente para você o último lugar da fila ainda é pouco. Não terá jamais por nada nesse mundo um lugar em minha alcova. 
Porém insisto veementemente que siga meu conselho. Corte sua língua urgente. Quem sabe encontre alguém que o aceite, pois sem ela será muito melhor do que é. 
Sempre fui favorável em que nunca devemos desistir dos intentos pretendidos, mas você tem de aceitar e entender que as outras pessoas também têm suas aspirações, que jamais devem ser ignoradas para egoisticamente satisfazermos apenas as nossas. 
Como nesse caso a pessoa envolvida sou eu que absolutamente apenas e tão somente brinquei como sempre faço entre amigos deixo-lhe claro a partir de agora e para sempre que não o reconhecerei sequer como pessoa digna de ouvir-me e muito menos de dirigir-me a palavra.
Portanto retire-se e suma ou eu me retirarei, porém somente após esmagar-lhe os bagos e arrancar-lhe os dentes ou furar-lhe os olhos com minhas próprias mãos. 
Não aceito sugestão de ninguém. Decisão categórica e inalterável.
Movimentou-se enérgica em direção ao jovem que se retirou apressado sem sequer olhar para traz.
Vamos parar a discussão e voltarmos ao assunto anterior?
Novamente você AA? Definitivamente você não suporta ver Rosa sendo seduzida. 
Precisa urgente consultar um psiquiatra para acabar com seus traumas ou um psicólogo para descobrir-lhe sua verdadeira vocação sexual. Você é tão bizarro. Nem parece macho. 
Estava adorando a cantada do JP Filho em Rosa e você interrompeu. 
Vá à merda Dr. Carlos.
Aprendeu não? Deve o honorário do ensinamento ao Dr. Jarbas.
Continue com suas conclusões meu guru.
Obrigado pela deferência minha musa inspiradora.
Agradeceu-me porque Jarbas? Por chamá-lo de meu guru? 
Usei tal expressão não por sua sabedoria e sim pela sua longevidade seu ancião medonho.
Empresta-me seu “Vá a Merda” Dr. Antônio Augusto? 
João Paulo Filho não presenciou a brincadeira entre os médicos, pois havia desaparecido após a descompostura recebida para nunca mais interessar-se em ver ou saber da existência de Dra. Rosa.
Com o ambiente agora totalmente descontraído e já com a presença de Dra. Tereza, Selma e João Paulo que retornaram Dr. Jarbas finalmente começou a falar sobre o doente:
Em se tratando da situação do Zinho, os senhores e as senhoras, deram muita ênfase à possibilidade de ele pretender assumir seu papel na sociedade baseado no que seria esperado por seus pais consanguíneos. “Estão todos viajando”, pois para assim realmente ocorrer Zinho deveria ter sido criado e orientado por eles, para seguir-lhes os exemplos. 
Isso não é fato acontecido e como ele teve outra formação que foi totalmente diferente da tal inexistente, tem muita possibilidade de optar em manter-se trilhando pelos ensinamentos obtidos.
Outros conceitos completamente desconhecidos e possivelmente antagônicos aos seus lhe será impossível aprender e adquirir porque além de já ser muito velho para ser doutrinado, não terá a presença dos pais para ensiná-lo. 
Por isso concordo rigorosamente que Carlos está correto concluindo que em descobrindo o pai verdadeiro e o restante da família dele em nada vai atrapalhar. Tenho convicção que só vai ajudar. 
Para quem ainda não sabe informo que eu e Souza acreditamos que o morto é o verdadeiro pai de Zinho.
Dr. Antônio Augusto interrompeu o médico perguntando:
Mas não há o risco dessa família de nível inferior, mas com o mesmo sangue lhe servir de espelho?
Antes da resposta de Dr. Jarbas quem impediu a continuidade da conversa foi Dr. Carlos que alegou que como os outros dois médicos já não tinha mais dúvidas. Que acreditava como eles que o tal Jonas Cardoso dos Santos não é ninguém mais que Sebastião Pereira da Silva, pai de Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho, enterrado com nome falso. 
Retomando a palavra Dr. Jarbas respondeu a pergunta de Dr. Antônio Augusto.
Sim AA conforme já foi exaustivamente discutido ele poderá tentar espelhar-se nos outros, mas minha opinião é que ele ao descobrir como seus parentes vivem e agem comparará com seus próprios procedimentos e diferenciará o melhor do pior a seu próprio critério de julgamento e com certeza escolherá para si o que achar mais correto que provavelmente será o que já vem vivendo sem precisar quebrar nenhum paradigma. 
Poderá sentir-se imensamente feliz sabendo que tem conceitos melhores que teria se pertencesse à família original e como já esclareceu Carlos não haveria mais as impensadas e desastrosas procuras.
Ele se sentirá responsável pelos outros e tudo fará para ajudá-los.
Pode acontecer se ele julgar as atitudes comportamentais dos parentes mais adequadas que as suas nunca prazerosas como sabemos e cortar os grilhões dos parâmetros que o prendem até hoje livrando-se das algemas que o atrela e viver uma existência saudável e ativa guiando-se pelo comportamento dos outros?
Quase correto. Só discordo quando disse guiando-se pelo comportamento dos outros. 
Ele não viverá guiado por ninguém simplesmente por acatar o que eles fazem agindo semelhante e não estará sendo conduzido.
Simplesmente ele adotará a atitude julgada como a mais própria para si. Viverá de forma melhor sim se adotar para si uma conduta análoga aos parentes.  Simplesmente parecida e não copiada por imposição.
Também poderá achar as atitudes dos parentes avessas e impróprias para si e continuará com seu costume já adquirido e fará de si uma pessoa útil e funcional totalmente desobrigada de cobranças e exigências de ninguém. 
Aceito e compreendo tal situação que já está esgotada de explicações, mas pergunto-lhes senhores psiquiatras, como ficará se o exame do DNA determinar que o morto não foi seu pai? Não voltará tudo a estaca zero e a procura continuará atormentá-lo?
Tal pergunta partiu de Dra. Tereza que até então fora a única pessoa a não fazer nenhum questionamento durante todo o tempo. 
Com certeza não. Vou explicar-lhe minha irmã e aos demais o porquê de nada afetar em sua recuperação se o defunto não for o seu pai. 
Nunca ninguém soube exatamente o que Zinho sofria. 
Eu erradamente sempre diagnostiquei como Psicose Maníaca Depressiva, distúrbio atualmente conhecido como transtorno bipolar.
Os remédios psiquiátricos sempre são eficazes à vários distúrbios diferentes, portanto os que indiquei mantinham-no equilibrado, mas confesso que sempre estive enganado com relação a ele.
Agora sei exatamente qual o problema dele que já é do conhecimento de todos os psiquiatras aqui presentes que concordam comigo.
Vou enumerar meus pensamentos a respeito dele, das pessoas que com ele conviveram há tempo atrás e os atuais. 
Antigamente:
1. Seus pais médicos imaginavam e consideravam-no desde pequeno como altista embora não divulgassem. Não negue Tereza, pois eu sempre soube que vocês pensavam assim.
2. Esses mesmos pais atribuíam-lhe toda rebeldia como hereditariedade dos pais genéticos que ninguém jamais conheceu. Isso nunca foi mantido em sigilo por minha irmã e pelo finado Jorge para isentarem-se de culpas na criação e orientação. Mas até certo ponto eles têm até razão em julgar que Zinho tenha algumas atitudes herdadas pela genética que é sem dúvida totalmente normal e correto.
3. Os pais pretos nunca souberam o que fazer para resolver seus problemas deixando as decisões por conta dos pais brancos, embora mantivessem sempre exigentes em suas aspirações e reivindicações pessoais.  
4. Eu diagnostiquei e mediquei-o como portador da síndrome PMD.
5. Atribuí como causa mais evidente de sua enfermidade as adversas orientações das famílias. Confesso a quem não sabe que inclusive estimulei-o a abandoná-los.  
6. Noivas repudiadas viam-no como mau caráter, pois todas imaginavam que após usá-las ele simplesmente se descartava delas.
7. Ele sempre se sentiu deslocado do mundo que o cercava embora fosse brilhante em tudo que fazia quando exigido.
8. Só fazia alguma coisa no sentido de agradar aos outros sem nenhuma satisfação. Apenas para não ser repreendido.
Mais recentemente:
1. O pai branco já falecido nada mais faz, mas deixou-lhe uma enorme chaga com maus ensinamentos e agressões físicas na tentativa errada de ensinar e educar.
2. A mãe branca mantem-se indecisa sobre o que decidir, pois não pode mais domá-lo a pancadas e a contra gosto permitiu-o abdicar de sua casa para morar só sem saber que eu o influenciei para isso. Na época se eu soubesse o real problema dele faria tudo para impedir.
3. Os pais pretos infelizmente continuaram sem opinar em nada.  
4. Zinho permanece sentindo-se deslocado embora conserve o brilhantismo e o sucesso em tudo que faz, quando exigido.
5. Continua agindo somente para agradar a terceiros.
6. Ele não desiste da procura do pai e de suas origens. 
Os itens que enumerei de 1 a 3 nos mais recentes hoje já não tem peso nenhum. Nada valem. 
Os de números 4 e 5 mudaram-se totalmente após a atual crise.
Eles não existem mais. Desapareceram totalmente.
Todos tiveram mostra ou souberam por Souza que ele permanece no hospital mantendo diálogos normais com estranhos, portanto adaptou-se e lá ficará alocado sem nenhuma exigência enquanto o mantivermos. 
Por conseguinte não está mais se sentindo alheio onde está.
Também somos testemunhas que nada mais faz para agradar ninguém e até pelo contrário, descontentou enérgica e categoricamente a vocês que são seus pais adotivos que ele sempre acatou e obedeceu como um cãozinho amestrado. Chamou-os de raptores de criançinhas e outras coisas mais.
Com referência ao sexto item nada se apagou de sua memória. Continua interessado em descobrir o pai, conforme ele diz “meu pai de um olho só”. Lembranças do esfaqueado conforme o viu na emergência.
Nós todos nos enganamos imaginando-o doente porque sempre julgamos suas atitudes diferentes das nossas ou das concebidas como corretas. 
Recordam de quando ele tinha nove anos e sumiu de casa para ficar próximo à igreja de Vila Madalena?
Na ocasião ninguém percebeu nada nessa atitude dele. Hoje vejo a verdade. Ele saiu em busca dos pais. Foi procurá-los exatamente onde havia sido deixado. 
Acertadamente foi tentar encontrá-los próximo da entrada da igreja. Era o único ponto de referencia existente.
Quanto ao fato de manter-se em vigília permanente agiu perfeito, pois se seus pais que o repudiaram tivessem se arrependido evidentemente iniciariam suas buscas justamente lá, coisa que poderia ter acontecido em qualquer época após o abandono. 
Por algum motivo inexplicável o menino julgou que ocorreria tal procura naquela data, portanto foi uma atitude adequada. Agora reconheço e concordo que o lugar mais exato para encontrá-los seria lá. 
A época qualquer uma seria coerente por isso nada errado ele ter ido quando tinha tão pouca idade. 
Com treze anos estranhamente voltou às ruas. 
Foi com a mesma intenção e pelo fato de não ser mais tão criança ampliou suas buscas pela imensidão da cidade e não no lugar já tentado fixando-se perto da igreja. Lá nada tinha conseguido.
Ele disse-me que o uso da bebida, cigarros e drogas foram somente para agradar e manter-se amigo dos já viciados jovens das ruas que conheceu. Teria de atuar igual a eles para manter-se no grupo de delinquentes que inevitavelmente assim agiam, pois a pobreza e o desespero dos infelizes abandonados não lhes deixavam alternativa e Zinho queria companhia. 
Os roubos e assaltos que executou nesse tempo foram pelo mesmo motivo e pelo mais óbvio. Para sua sobrevivência. 
Concordo que todas essas atitudes foram e são delituosas, mas agora as vejo como pensadas e executadas por uma pessoa sadia e consciente. Ele tinha perfeito conhecimento do que fazia. Premeditou tudo. Raciocínio inerente somente a indivíduos normais. 
Nada foi feito intempestivamente como pessoas insanas cujos atos são sempre sem causa definida e com ações ilógicas geralmente com resultados desastrosos. 
O que consideramos como crises psicóticas de Zinho nunca foram crises de psicose nenhuma. Foram atos pensados e resolvidos por ele a sua maneira ingênua sem a ajuda de nenhum adulto. 
Ele nunca teve coragem de ofender os pais adotivos renegando-os ou sequer pedindo-lhes para auxiliá-lo na procura dos verdadeiros que ele sempre quis encontrar. 
Ele sabia que os pais brancos e os pais pretos sentiriam ofendidos e insultados se ele manifestasse tal desejo. 
Todos considerariam tal proposta injustiça e de mau agradecimento do menino a eles, pois julgavam terem-no tratado bem por isso ele não teria tal direito. 
O ensinamento recebido com surras leva os filhos a terem temor aos pais e aparentemente os respeitam, mas não. Eles adquirem é medo e jamais conseguem ser amigo e confidente com eles. Portanto tudo que querem fazer para seu próprio agrado quando conflita com os desejos dos pais são feito às escondidas, porque evidentemente não teriam permissão. Infelizmente tal processo avança, cria raízes e perpetuam até a fase adulta. Tentou tudo sozinho e da única maneira possível. Vagou a esmo pelas ruas. 
Nunca teve nenhum endereço deles para simplesmente ir de táxi ou ônibus, bem vestido, bem alimentado, et cetera, como aconteceu na viajem ao Ceará por nós programada e planejada. 
Para encontrar seus pais na grandeza da metrópole não seria correto procurá-los em todos os lugares da cidade e o tempo todo?  Pois foi o que fez. Revistou todos os cantos durante vinte e quatro horas por dia pelas ruas e buracos de São Paulo. 
Portanto buscou-os nos lugares possíveis e nos horários também certos.
Tinha dezessete anos quando descobriu os nomes de todos os parentes quando de sua ida ao nordeste. O que ele fez naquela época? 
Enviou cartas e e-mails aos programas de televisão solicitando-lhes as presenças. Fez também apelos nos jornais durante meses. 
Tal comportamento algum dos senhores julga errado conforme nossos conceitos? Não. É a resposta de todos, não é?
Hoje eu julgo suas fugas a procura dos pais quando criança e quando adolescente também perfeitamente normais, pois era a única maneira que dispunha. 
Seu mal é que ele tem enorme obsessão em encontrar os pais e isso é o único motivo que move sua vida até agora por isso se caso o morto não for seu pai temos a obrigação de ajudá-lo acabar com essa mania obsessiva de querer encontrá-lo.
Devemos parar de medicá-lo e considerá-lo como Psicótico Maníaco Depressivo ou Altista ou Paranóico, pois ele não é nada disso.
Seu incomodo é a fobia pela vida causada pela obsessão em encontrar os pais para ele próprio determinar o rumo de sua existência. 
Já sabemos que fobias atualmente são fáceis de curar.
Também obsessão por ser uma mania compulsiva recebe o mesmo tratamento da cura das fobias. 
Entendi perfeitamente bem as explicações, mas como você justifica que ele supondo que o esfaqueado era seu pai e já o sabendo muito bem morto continua procurando-o? 
Sabemos que três dias após ser internado fazia isso no hospital.
Você como nós Cris por ser enfermeira diplomada e prestes a formar-se em medicina tem conhecimentos na área de saúde, portanto há de convir que ele ainda estivesse em estado de choque mal saindo do sono induzido pelos remédios quando agiu assim. 
Concorda que é compreensível que ainda misturassem informações em seu cérebro causando tal confusão? 
Certo. Concordo. A pessoa não sabe onde parou nem onde e quando deve começar. Perde a noção de tempo e do espaço. 
Desculpem-me pela pergunta inadequada. Foi mal. Faltou-me pensar um pouco.
Eu discordo dessas conclusões. Quem falou divergindo foi Eliana. 
Porque discorda querida sobrinha?
Soube que ontem voltou a procurar o tal pai sem olho. Minha mãe contou-me que ele lhes gritava que não eram eles que deveriam chegar. Que ele esperava por seu pai de um único olho. E muitas outras incoerências mais, como os xingando de ladrões de nenês. Já se passaram muitos dias da internação e ele continua no mesmo.
Meu amor essa nova procura aconteceu de fato vários dias após a internação, mas infelizmente por muitos incidentes ocorridos ele nunca permaneceu mais que algumas poucas horas lúcido até hoje. 
Sempre ingerindo calmantes fortíssimos que excepcionalmente somos obrigados em aplicar em pessoas descontroladas para as mantermos dormindo em sono profundo. Só assim provoca-se o coma induzido. Infelizmente por perturbações causadas pela insistência e procura de Tereza, Selma e João, nunca deixamos de aplicar-lhe tais medicamentos não lhe dando tempo ainda de sua perfeita volta aos “vivos”.
Ele só terá condições de raciocinar relativamente bem pelo menos quarenta e oito horas sem estar sedado e isso ainda não foi possível conseguir.
A miscelânea de informações ainda existia ontem. 
Portanto está tudo certo o que vem acontecendo, mas acabará logo, por que a partir de amanhã nada e ninguém irá incomodá-lo mais e ele voltará a se portar tranquilamente tal qual já começava ontem antes de sua mãe e os pais pretos chegarem. 
Vocês ficaram sabendo que ele conversava amistosamente com alguns doentes em recuperação ou Dr. Souza não lhes informou disso?
Quem respondeu foi Sra. Selma:
Concordo com o senhor. Nós o vimos e ele estava muito bem. Só se desequilibrou quando nos viu.
Está claro porque que não os quero próximos a ele?
Entendi. Foi a resposta unânime e em coro.
Alguma pergunta mais?
Todos permaneceram em silencio, pois ninguém mais tinha dúvidas por isso Dr. Carlos voltou a falar:
Já que estamos entendidos peço avisarem seus outros parentes todo o acontecido pedindo-lhes que não procurem pelo Zinho sob nenhum pretexto e estejam todos atentos para quando precisarmos de vocês.
O que faremos na hora devida meu irmão?
Por enquanto não sabemos. Vamos aguardar.
A quem ainda não tomou conhecimento informo que pesquisadores da USP já conseguiram um método inovador com grandioso sucesso para a definitiva cura das fobias. 
As pessoas com algum tipo de pavor descontrolado ao ver o que lhe causa tal pânico, transmite uma mensagem de alarme do tálamo (parte do cérebro pela qual entram as informações sensoriais) até a amígdala (núcleo cerebral envolvido no processamento das emoções) resultando em reações de verdadeiro horror com taquicardia, sudorese, tremores, falta de ar, atitudes agressivas, et cetera.
Em tal técnica eliminam-se os remédios e atua-se diretamente nos circuitos cerebrais, exigindo que a pessoa com fobia mantenha distancia do que teme no decorrer do tratamento. 
Isola-se o paciente das causas reais que o afligem e através de informações em seções de vídeo exibem-se imagens com sutis semelhanças às verdadeiras ou até com exibições reais das coisas ou animais que os assustam, feitos de palha ou de pano totalmente inofensivos.
Tais exposições fazem dispersar os sinais enviados de um neurônio a outro no tálamo de forma diferente das que eram enviadas pelas circunstâncias autênticas que causavam o desespero. 
Por esse motivo os neurônios da amígdala não respondem aos estímulos exatamente iguais aos que respondia anteriormente. 
A conexão tálamo-amígdala vai enfraquecendo e a medida que a sucessão de estímulos enviarem mensagens falsas à amígdala ela passa a não responder mais aos antigos alarmes. 
A comunicação perde a força e o efeito, portanto acaba-se a fobia que a pessoa tinha mesmo depois que se deparar novamente com o tal “bicho verdadeiro” que antigamente o apavorava após descoberto que é totalmente inofensivo. 
Cientistas muito competentes descobriram a forma de enganar o cérebro através do próprio cérebro.
Esse processo também se emprega para a cura das manias repetitivas, o falado TOC (Transtorno obsessivo compulsivo).
Nós aqui no hospital, sem pretensões de sermos melhores que ninguém, já empregamos há alguns anos, também com sucesso, técnica idêntica em nossos pacientes obsessivos.
Como sabemos obsessão não é uma doença psicótica e sim uma idéia fixa que se persegue sem medir consequências. 
O mesmo que mania compulsiva se bem que de forma exagerada, pois modifica o comportamento geral da pessoa e não como as manias comuns que apenas interferem em determinados momentos. 
Sugerimos que obsessão seja uma mania compulsiva em tempo integral. Por isso que exigimos a ausência dos parentes que lhe transmitem medo, para substituirmos por outras pessoas igualmente humanas, porém sem as mesmas fisionomias e atitudes que lhe causam o pânico.
Eu e Souza nos ausentaremos do processo por sermos conhecidos dele, pois também nós não seremos úteis. 
Talvez até sejamos prejudiciais como vocês. 
O trabalho que pretendemos com Zinho será executado por Dr. César Cruz e a equipe que já compartilha conosco em tais experiências.
Nesse caso específico eu e Souza apenas acompanharemos sem participação direta.
Zinho não conhece nenhum deles e consequentemente não haverá nenhuma influência nossa mantendo as informações a seu cérebro sempre iguais as anteriores provocando as mesmas emoções. 
Além de vídeos nossos profissionais farão encenações perspicazes simulando suas vidas desafortunadas como a dele, propondo e mostrando soluções corretas modificando a conexão do tálamo-amígdala que irá iludindo a amígdala até que essa o desestimula por completo da mania obsessiva substituindo suas emoções para atitudes agradáveis e normais de acordo com a maioria considerada sensata.
A equipe já mencionada vai trabalhar com ele por pelo menos dois meses muitas horas diárias aqui mesmo e depois será orientado a uma viagem de uns quinze a vinte dias com ou sem acompanhante. 
A escolha será dele, inclusive o destino, sem telefonemas, fax, e-mails, cartas ou cartões postais.  
Não terá nenhum roteiro definido por agencia de turismo e muito menos por nós. 
Temos certeza que sairá daqui curado e voltará determinado em cuidar de si de maneira satisfatória, independente de encontrarmos ou não o defunto para provar nada.
Aí sim. Poderemos vê-lo, conversar o que quisermos que não haverá mais nenhum problema. 
Será importante sim se descobrirmos o finado e provarmos a paternidade ou não para melhores procedimentos da cura, mas não é de maneira nenhuma essencial.
Parece que pretendem fazer um verdadeiro milagre?
Não. Ainda não. Ciência pura e trabalho árduo por enquanto. Milagres deixaremos para o futuro minha cara sobrinha.
Despediram para que cada qual fosse para seu destino devido ao cansaço, pois o dia e a noite já haviam passado.
Estava prestes a clarear novo dia e ninguém teve humor para nenhuma brincadeira. Até os abraços foram evitados para a alegria da jovem médica que sairia sem ser triturada pelos médicos que achava horrorosos.
Ela não havia ausentado conforme previra por volta da meia noite, pois o assunto estava interessantíssimo e lhe foi impossível abandonar. Iria direto ao hospital onde trabalha iniciar seu plantão sem ter descansado a noite, mas achou que tudo que ouviu e aprendeu valeu a pena.
O mesmo aconteceu com Dr. Antônio Augusto, nem tanto pelo aprendizado, mas para permanecer mais tempo perto da médica.
Apenas as mulheres despediram-se com aqueles ridículos beijinhos no rosto que mal toca as bochechas talvez por asco uma das outras.
Permaneceriam no hospital apenas Dr. Souza e Dr. Carlos que iriam conversar com Zinho tão logo repousassem algumas horas para colocá-lo a par dos procedimentos que viriam a seguir.
Para a surpresa de ambos Dr. Jarbas, Dra.Rosa e Dr. Antônio Augusto não se retiraram e foi Dr. Jarbas quem se dirigiu aos médicos que ficaram.
Carlos. Não havia concordado que eu e meus colegas participássemos das pesquisas?
Sim. Concordei e assumo tal compromisso. 
Mandarei rigorosamente os relatórios, vídeos e CDs informando-os de toda a metodologia aplicada, sua evolução e resultados obtidos deixando-os a par de tudo. 
Inclusive convido-os a virem quando puderem para nos auxiliar. Serão muito bem vindos e de enorme serventia visto que além da alta capacidade de vocês também são estranhos a ele.
Não era apenas isso que eu pretendia. Gostaria de estar na equipe em tempo integral participando de tudo.
Eu leio os boletins médicos internacionais. Sei que trabalha nessas pesquisas há anos e que está muito mais adiantado que nós. À frente até do pessoal da USP e de muitas outras equipes estrangeiras. Seus excelentes resultados é que o põe na vanguarda mundial por isso seria maravilhoso se orientasse e comandasse com Dr. César Cruz nossa equipe. Mas, e seus afazeres em seus hospitais e faculdades? Abandonaria tudo?
Tenho quem me substitua todo o tempo necessário.
Então esteja conosco depois de amanhã para montarmos o esquema ideal de trabalho.
E nós? Perguntou Dra. Rosa.
Quem respondeu foi Dr. Souza.
Quanto a você e ao AA convido-os a fazerem parte de nossa equipe médica do hospital com um salário trinta por cento superior aos que recebem em seus trabalhos se pedirem demissão de seus empregos. 
Contratá-los-ei imediatamente se assim desejarem.
Não apenas para o caso de Zinho, mas por tempo indeterminado. Que respondem?
Assim que clarear o dia irei demitir-me e virei procurá-lo para os acertos.
Dr. Antônio Augusto que teve a oportunidade de conseguir emprego no mesmo local da amada informou que também faria o mesmo, mas solicitou a aquiescência de Dr. Carlos que é o proprietário perguntando-lhe:
O que o acha de nossas admissões Dr. Carlos?
Souza tem total permissão para fazer o que bem entender referente à administração do hospital, portanto se ele acha conveniente contratá-los não serei eu que impedirei até porque também sou favorável a tais aquisições. Somente achei meio abusivo o salário. O maluco do Souza nem sabe quanto ganham e oferece trinta por cento a mais. 
Não dá para transferirem-se para cá com o mesmo salário ou fazendo uma forcinha até menor?
Que absurdo Carlos? Pretender tirar alguém de seu trabalho sem oferecer nenhuma melhoria é simplesmente ridículo.
Isso não existe e tampouco é praxe usual em qualquer empresa por mais insignificante que seja. 
Está bem. Fica conforme prometeu, pois eu não tenho mesmo voz ativa nessa porcaria de administração. Nas próximas vezes calcule direito, pois você contrata e manda pagar, mas o dinheiro que escoa é o meu e não o seu. Não abuse mais seu extravagante.
Não há nenhum erro em minha oferta e não é você quem administra por total incapacidade para tal, portanto não dê palpites meu caro chefe. Continue sendo o ótimo psiquiatra que é que eu cuido da clinica enriquecendo-o cada vez mais. Nós dependemos um do outro para o sucesso como se fossemos irmãos siameses.
Você não está enriquecendo também?
É claro que não. Apenas os meus honorários não são definidos por mim e sim por você e já passam mais de dez anos que não falamos sobre isso. Tenho vários subordinados com salários maiores que o meu.
Desculpe-me pelo esquecimento. Lembre-me mais tarde que discutiremos um aumento substancial. Talvez uns 2 ou 3% para compensar tudo.
Todos explodiram em gargalhadas porque tudo não passava de brincadeiras, mas as queixas de Dr. Carlos pareciam ser verdadeiras porque ele não gargalhava como os demais. 
Talvez porque realmente ele preferisse funcionários mais baratos. 
Dr. Jarbas ainda rindo falou:
Deixe de ser mesquinho Carlos. Nem sabe das exigências que farei para minha participação. 
Dirigindo-se ao Dr. Souza decretou: Quero como honorários uma suíte das mais refinadas no SPA para toda minha família com direito a tudo gratuitamente enquanto eu permanecer nos trabalhos com Zinho. 
Sempre tive o desejo de hospedar-me aqui, mas nunca me encorajei em arcar com as altíssimas despesas e jamais fui convidado pelo avarento proprietário. Acha que conseguirá isso para mim?
Com absoluta certeza. Pode mudar-se para cá imediatamente.
Desta vez vou à falência. Resmungou Dr. Carlos.
Novas gargalhadas mais escandalosas e combinaram que reuniriam após dois dias com a equipe do Dr. César Cruz.
Com o sol já alto, mais risos e despedidas entusiasmadas, desta vez com direito a beijos calorosos e vigorosos amassos na médica que reclamou:
Aceito o emprego, mas definitivamente exijo como principal clausula do contrato que as despedidas sejam no máximo um aperto de mão. Combinado?
Infelizmente será impossível.
Então façamos pelo menos um acordo. Proponho que as despedidas sejam um dia sim outro não. Está certo?
Terá de aceitar tudo que oferecemos na integra. É pegar ou largar.
As exigências dos patrões sempre se sobrepõem a dos empregados, por isso sou forçada em aceitar. Já estou acostumada mesmo. 
oooOooo
Após algumas horas de repouso os médicos almoçaram e Dr. Souza como tinha muitas obrigações a cumprir concordou que apenas Dr. Carlos visitasse Dr. Sebastião.
Ele encontrou-o bastante calmo e compreensivo. Conversaram longamente com o psiquiatra informando ao interno tudo que passara nesses últimos dias, com exceção do procedimento que tomariam de agora em diante.
Então estive em coma induzido? Quanto tempo?
Vários dias com algumas tentativas de acordá-lo, mas conforme disse muitas vezes impediram-nos de mantê-lo cônscio. 
De agora em diante nada e ninguém nos impedirá de executarmos sua definitiva cura. 
Então o que farão comigo agora?
Infelizmente não podemos dizer-lhe nada do que será feito, pois se você souber poderá dificultar. 
Apenas temos a informar-lhe que durante uns dois meses receberá visitas de pessoas que não conhece com as quais conversará informalmente o dia todo. 
Uns médicos de várias especialidades, outros apenas bons papos. 
Com certeza todos serão pessoas muito interessantes. 
Às vezes conversará com apenas um e outras vezes com um grupo grande que além de conversas lhe exibirão filmes simples. 
Eu, Dr. Souza, mãe preta, mãe branca, et cetera jamais estaremos presentes. 
Aviso-lhe que está difícil descobrir onde foi enterrado o morto, mas vamos esgotar todas as possibilidades e não vamos medir esforços para encontrá-lo.
Você acha que ele é de fato meu pai?
Não só eu como várias pessoas crêem que sim. Assim que o acharmos fará o exame do DNA seu com ele.
Tranquilize-se que já descobrimos muita coisa e ainda conseguiremos muitas outras verdades a seu respeito. Sua cura definitiva está por pouco.
Finamente encontrei amigos dispostos a ajudarem-me.
Tenha certeza que sim.
Acredito em você.
Ótimo. Então por enquanto é só. 
Durante hoje e amanhã fique por aí simplesmente fazendo nada sem preocupações apenas conversando com outros internos sem compromisso com nada. Apenas e tão somente fazendo o que desejar.
Não terá nossa presença, mas não se preocupe com isso, pois estará correndo tudo bem sob nosso controle. 
Tenha certeza que já sabemos como eliminar seus conflitos com absoluta tranquilidade sem nenhum remédio que já não usa há dois dias. Confia plenamente em nós?
Sim. Mas ao invés de andar por aí conversando abobrinhas com esse monte de malucos gostaria de alguns livros para passar o tempo.
Na biblioteca encontrará o que quiser. 
Terá enfermeiros a sua disposição dia e noite. Ou prefere enfermeiras?
Prefi... Tanto faz. 
Pela indecisão da resposta creio que enfermeiras será melhor. 
Fique a vontade e tudo que precisar conseguirá com as atendentes desde que não seja sexo em excesso.
Acha que tenho cabeça para isso?
Logo terá e com certeza necessitará.
Meu amigo e professor continua libertino como sempre.
Indecente não. Trata-se de uma necessidade orgânica necessária como as demais ou não concorda?
Tem razão.
oooOooo
A equipe médica de pesquisadores comandados por Dr. César Cruz estava reunida aguardando os outros que se incorporariam pela manhã conforme combinado com Dr. Carlos.
Dr. César perguntou aos colegas.
Crêem que teremos algum sucesso? Esse paciente sempre foi assistido somente por Souza e Carlos que acho que é até parente de um deles. Nada sabemos a respeito dele.
A resposta foi de Dr. Carlos que nesse momento entrava na sala de reuniões com Dr. Jarbas, Dra. Rosa e Dr. Antônio Augusto.
Não se preocupem que ficarão sabendo de tudo por mim e Souza nos próximos dois dias. 
Primeiro quero fazer as apresentações de seus novos colaboradores.
Esse cidadão bastante limpo, higiênico e bem vestido é o Dr. César Cruz. É o chefe da equipe e é muito dinâmico, extremamente educado e muito mais que educado é enérgico, exigente e sério. Não aceita e nem admite perdas de tempo inúteis, principalmente com brincadeiras. 
Levamos mais de quinze anos para conseguir que ele nos atenda pelo apelido de Cecê. Nada relacionado à sua higiene, mas por ser as iniciais de seu nome César Cruz.
Seja mais conciso e deixe de conversas desnecessárias Carlos, por favor.
Serei menos prolixo meu caro Cecê.
A seu lado esquerdo está Dra. Sonia e ao lado dela o Dr. Coimbra. À direita do Cecê temos Dra. Silvia e por último o Dr. Raul Seixas que infelizmente não canta nem compõe nada e por esse motivo sempre nos solicita que o chamemos de RS, mas não adotamos tal alcunha. Terá de se conformar em ser o falso Raul Seixas mesmo, queira ou não.
Novamente foi interrompido por Dr. César Cruz que reclamou.
Carlos por obséquio, não se alonga nas apresentações, sobretudo com informações desnecessárias e inúteis.
Desculpe-me Cecê. Há tempo que não conversamos por isso ia fugindo aos costumes normais. Eu ultimamente...
Continua estendendo-se. Seja breve. Apresenta-nos logo os novos colegas.
Viram como é? Ele é assim e não permitirá nenhuma extravagância.
Suas inoportunas conversas é o único motivo de eu nunca aceitá-lo em minha equipe, mesmo sendo o patrão.
Aliás, consigo suportá-lo somente por isso. 
Seja rápido e complete as apresentações, por gentileza.
Essa jovem é Dra. Rosa.
O idoso é Dr. Jarbas.
O jovem é Dr. Antônio Augusto.
Meu nome é Carrrrrlos. E tenho dito.
Não teve jeito. Todos riram da forma surpreendentemente rápida e com o mesmo timbre e sotaque do finado, porém eterno político Enéas.
Concedo-lhe mais alguns minutos para concluir, mas que seja sem palhaçadas.
Obrigado. Igual ao Cecê sua equipe também é altamente competente, circunspeta e séria. O mesmo posso dizer de Dr. Jarbas, Dra. Rosa e Dr. AA.
Os três esforçaram-se e engoliram o riso pela mentira. Exceto Dr. Antônio Augusto os outros dois eram muito extrovertidos e brincalhões.
Dr. Carlos continuando disse mais:
Conforme já informei a você os três psiquiatras que trouxe já sabem perfeitamente tudo sobre Zinho e tem plenas condições de começarem o trabalho com ele enquanto você e sua equipe reunirá comigo e Souza para passarmos tudo que temos gravado e o que sabemos de Zinho para posteriormente atuarem com os outros.
Então está combinado. Minha equipe pode dispersar-se e voltar a suas tarefas enquanto Carlos e seus amigos traçam os planos de ação iniciais durante o dia de hoje. 
Combinamos para amanhã logo cedo termos suas informações Carlos?
Não. Eu e Souza já conversaremos com vocês a partir de agora, pois os trabalhos iniciais serão coordenados diretamente pelo Dr. Jarbas.
Por acaso o Dr. Jarbas é o Dr. Jarbas Eduardo de Azevedo e Castro?
Sim. Sou o Jarbas Eduardo de Azevedo e Castro, por quê?  
Desculpe-me a irreverência, mas o senhor jamais se mostrou em jornais ou televisão.
Nunca vi seu rosto e tão pouco me imaginei trabalhando com o ilustre e brilhante cientista e professor. Só o conheço de nome e sou assíduo leitor de suas maravilhosas descobertas. 
A que mais me impressionou foi sobre o caso da Senhora Fagundes Pinhei...
Dr. César Cruz, por favor, seja sucinto e desista do puxa-saquismo. Tratemos somente do trabalho.
Desculpe-me pela insolência.
Dr. Jarbas brincalhão como é calou Dr. César da mesma maneira rude e áspera que ele exigira de Dr. Carlos.
Pela maneira séria e enérgica apenas interpretada desconsertou toda a equipe de Dr. César que calados ficaram entreolhando-se assustados.
Apenas os quatro médicos amigos fingindo-se sérios piscavam irreverentes uns aos outros pela descompostura passada ao médico ranzinza e com muito esforço prenderam as altas gargalhadas de escárnio.
Separaram-se indo Dr. Jarbas, Dra. Rosa e Dr. Antônio Augusto preparar seus roteiros para os trabalhos iniciais com Dr. Sebastião.
Dr.Souza e Dr. Carlos conversariam com Dr. César e equipe informando-lhes tudo sobre o paciente.
Na manhã seguinte logo cedo Dr. Souza continuou a palestra iniciada no dia anterior, pelo Dr. Carlos, com a equipe de Dr. César mostrando-lhes todas as fitas gravadas, os filmes em DVDs, inclusive os mais recentes quando das reuniões com os familiares que sem que ninguém soubesse foi tudo gravado pelo médico. 
Dentro das próximas quarenta e oito horas que passariam juntos todo o grupo tomaria conhecimento da vida do enfermo. 
Enquanto isso Dr. Carlos visitou Dr. Sebastião com os outros psiquiatras.
Ele apresentou-os como sendo alguns amigos que iriam passar o dia todo em conversas informais com ele e despediu-se de Zinho em definitivo pelos próximos cinquenta dias no mínimo.
Pela manhã os três médicos permaneceram conversando entre eles contando ao paciente suas vidas, suas dificuldades, suas lutas, seus progressos e seus sucessos, inventando muitas passagens semelhantes às de Dr. Sebastião terminando sempre com bons resultados por terem tido coragem de tomarem decisões certas.
Dr. Sebastião muito atento ouvia a tudo com interesse.
Conforme previsto de vez em quando ele fazia algumas perguntas sobre soluções encontradas por eles em passagens que assemelhavam muito a algum incidente vivido por ele que nunca soube resolver.
As respostas eram dadas sempre solucionando tais problemas, mas contadas mais ou menos análogas às atitudes tomadas pelo doente apenas modificando onde houve os erros de decisões e assim logo no primeiro dia as informações do tálamo à amígdala já iam surtindo o efeito esperado, pois já não transmitia os efeitos alarmantes anteriores.
Almoçaram juntos e todos mantiveram a mesma postura no decorrer da tarde porem em outro ambiente.
Reuniram-se na suíte em que Dr. Jarbas estava hospedado no SPA inclusive permitindo a presença de seus familiares que em nada intrometiam, mas mantinham o ambiente movimentado muito diferente do apartamento do Dr. Sebastião. 
Como esse novo local tinha muita agitação de pessoas e interferências com sons inadequados ao trabalho, não foi considerado ideal pelo próprio Dr. Jarbas idealizador da transferência que resolvera voltar ao lado hospitalar. 
Entretanto como o espaço do SPA estava totalmente desocupado e além de oferecer muitos lugares calmos e maravilhosos tanto ao ar livre como em ambientes fechados seria conforme os próprios médicos opinaram o lugar mais propício aos trabalhos deles com o rapaz.
Conseguiram que Dr. Souza permitisse e efetuasse a mudança do Dr. Sebastião para uma suíte daquela ala que seria usada para os trabalhos assim como todo o espaço livre que se oferecia ao redor.
Mais um dia se passou com a mesma técnica só com a presença de Dr. Jarbas que foi substituído apenas por Dra. Rosa no dia posterior. 
Foi exatamente nessa ocasião que Dr. Sebastião encantou-se pela jovem que conversava com ele à beira da piscina. 
Não deu mostra da atração por sensatez e respeito. 
Ela por sua vez já se encontrava totalmente seduzida pela beleza física, simplicidade e caráter do jovem que representava seu tipo ideal sempre sonhado. Bonito, inteligente, saudável, tímido e submisso.
Como responsável que era profissionalmente não deixou transparecer nada de seus sentimentos.
Por incrível coincidência ou guiados pelo cupido a conversa girou em torno de namoros, romances e vivencias conjugal. Tais diálogos foram de grande importância, pois Dr. Sebastião participou muito do assunto dando à médica subsídios para ela ir doutrinando-o no bom relacionamento homem e mulher.
Estava acessa a chama da esperança em te-lo para si em breve sem saber se ele também a queria com a mesma idolatria, mas isso em nada preocupava a jovem médica.
Ao cair da tarde Dra. Rosa suada e ardente de desejos deu por encerrado o trabalho para a felicidade de ambos que sentiam não conseguirem mais manter a postura descente que os norteava, pois estavam prestes a se declararem e amarem apaixonadamente.
Salvos pelo congo voltaram á clinica para o devido repouso de todos.
A partir do dia seguinte entraria em cena Dr. César Cruz e sua equipe que permaneceria em conjunto ou em separado uma semana inteira para a total segurança de Dr. Sebastião e Dra. Rosa. 
Foi nessa época que Dra. Rosa desistiu do uso de roupas curtas, decotadas e sedutoras. 
Chegava e ausentava-se do hospital com vestidos sempre abaixo dos joelhos ou longos. Decotes ousados ou roupas transparentes nunca mais. 
Certa manhã ela apareceu de calça comprida que foi o motivo de grande confusão.
Aconteceu quando Dr. César Cruz que imaginava estar a sós com ela comentou sem desconfiar do risco que correria se a médica ficasse enraivecida com sua investida.
Não vai mais usar suas lindas roupas de antes?
Por acaso essa calça Djon combinando com os acessórios Lui Vuiton não lhe agrada?
Prefiro suas maravilhosas vestimentas antigas. São gostosamente sensuais e induzem-me dia e noite a sonhos deliciosos.
Antes de qualquer resposta dela Dr. Carlos que sempre tinha de se comportar na presença do mal-humorado e ranzinza médico, assistiu com alguns médicos a ofensiva dele sobre a médica e não perdeu tempo em desmascará-lo dizendo em voz muita alta para que todos ouvissem. Mesmo os que estivessem bem distantes. 
Dr. Cecê. Sacana e hipócrita. Fingia-se de pudico o tempo todo em nossa presença? Pensou que estava a sós com a Doutora e tirou a máscara. Não é? Agora vemos o velhaco que é. Seu biltre despudorado. Sempre se fez passar por casto e agora está cantando a menina para mostrar-lhe as coxas e os seios. Não tem vergonha nessa cara feia? 
Não terá mais o meu respeito e falarei todas as besteiras que quiser e você não poderá reclamar mais, seu cafajeste.
Todos gargalharam do médico inclusive o pessoal de sua equipe que possivelmente talvez desejasse de vez em quando falar alguma piada, mas pela postura imaculada de candura do chefe sempre evitaram qualquer brincadeira.
Dr. Raul Seixas foi o primeiro a se insubordinar dizendo.
Caríssimo chefe. O senhor é catedrático em mudar comportamentos, mas acho que deverá ter muitas aulas com Dra. Rosa, pois ela com certeza é muito mais competente que o mestre. Em tão pouco tempo mudou-lhe a postura de um descomunal beato, quase santo para um avançadíssimo sedutor de jovens indefesa.
Mais risos escandalosos e nenhuma reação do médico que ficou desconsertado afastando-se a passos largos para só reaparecer diante dos colegas no dia seguinte.
Outros dez dias se passaram com todos os psiquiatras ora todos juntos, outras vezes em grupos menores, de dois ou três e às vezes individualmente conversavam com Dr. Sebastião que realmente mudava rapidamente de comportamento.
Desde aquele dia em que Dra. Rosa ficou só com Dr. Sebastião a beira da piscina ela para se precaver de possíveis impulsos incontrolados e não inerentes ao trabalho optava por conversar com ele sempre acompanhada de algum colega. 
Quando lhe cabia ficar só, geralmente escolhia para tais encontros o pátio onde os internos tomavam sol, pois além deles muitos enfermeiros rondavam sempre atentos pelo local.
Toda a equipe de médicos alheia ao que acontecia estranhou e questionou sua atitude, pois como os demais, anteriormente optara pelo ambiente tranquilo e campestre do SPA e atualmente ela preferia um local barulhento e impróprio ao trabalho calmo.
Ela se safou alegando que era importante de vez em quando variar o ambiente não só para quebrar a rotina, mas principalmente para sentir a reação do paciente junto a outras pessoas estranhas.
Concordaram ser uma atitude sensata e inteligente e a respeitaram. 
Afinal de contas qualquer estilo adotado por essa classe de profissionais por mais estapafúrdio e incoerente que fosse sempre é conceituado como ato avançado, competente e perspicaz.
Ao contrário do pai da pisicanalise os psiquiatras atuais sempre gostam de explicar. Explicam tudo mesmo sem serem inquiridos. Explicam até demais, inclusive coisas inexplicáveis. Talvez apenas para confundir os leigos.
A maioria dos médicos passou a utilizar o mesmo pátio, simplesmente por acharem interessante com base em nada. Apenas por achar conveniente já que Doutora Rosa assim adotou e estava explicado.
Só não perceberam que isso passou a ser rotina e não casualidade conforme anteriormente proposto por ela.
Não houve prejuízo nem benefícios no tratamento, pois o local a ser usado necessariamente não iria fazer a menor importância, mesmo eles não sabendo exatamente nada sobre isso. 
Os jovens já sabiam estarem apaixonados um pelo outro através de seus devoradores olhares ou pelos terríveis desconfortos causados por suas presenças. Já estava tudo muito claro a eles, mas não ousaram nenhuma mudança de comportamento, pois seus contatos eram e deveriam continuar sendo somente como médico e paciente. Atualmente evitavam falar de namoros, romances e até mesmo de amizade. A médica sempre procurava assuntos referentes a trabalho e estudos para jamais se trair.
Dr. Sebastião sabia exatamente porque ela evitava ficar a sós com ele, porem nunca tocou no assunto, pois achou que tal decisão realmente era a mais correta para a garantia da integridade moral de ambos. Ele também preferia tal situação com conversas ingênuas pelo mesmo motivo.
Já a percebera bastante ajuizada quando mudou suas sensuais vestimentas de maneira radical. Por isso e por sua formosura, gentileza e educação apaixonava-se cada vez mais.
Ela tinha certeza que ele sabia de seu amor e a atitude de ele se manter em silencio e obediente a suas determinações a fazia cada vez mais entusiasmada por finalmente ter encontrado em um homem tudo que sempre quis. Inteligência, meiguice, gentileza, educação, beleza física, submissão e conforme já informada, ótimo amante. 
Suas conversas mantinham-se o tempo todo amenas, muito mais próximas a simples bate papo de colegiais que de médico com paciente e muito menos de fervorosos apaixonados.
Certa dia Dr. Sebastião comentou seu interesse em voltar à faculdade para estudar algo que detectara junto ao psicólogo em seus antigos testes de habilidade. Sua real vocação não era para a área de humanas. Confessou ter feito medicina por exigência dos pais brancos.
Esclareceu que ainda haveria tempo de ser um advogado ou professor, que foram as profissões mais indicadas em seus testes de capacitação profissional.
Mesmo com essa conduta e comportamento adotados por eles era difícil e complicado permanecerem-se próximos.
No último dia que conversaram Dr. Sebastião impulsivamente tentou mudar o agradável e singelo assunto, mas Dra. Rosa percebendo o que iria acontecer encerrou as atividades mesmo faltando vários minutos para as dezoito horas alegando uma tempestade que aproximava rapidamente.
Outro período de sofrimento para médica e paciente chegou ao fim depois de encerrado o expediente antes do horário. Cada um procurou seu lugar.
Dr. Sebastião retirou-se para o descanso e Dra. Rosa foi prestar contas do trabalho a Dr. César e Dr. Carlos que estavam exaltados pelas conquistas reais que conseguiam no caso.
As separações de Dr. Sebastião e Dra. Rosa eram motivos de alegria a ambos, pois seus desejos eram de estarem juntos por outros ensejos muito mais interessantes e até já necessários. A atração que um exercia sobre o outro era violentamente forte, mas tinham de esperar pelo momento certo.
Embora o jovem quase já precipitas, mas devido à atitude dela de encerrar antecipadamente os trabalhos ele decidiu que faria um esforço sobre-humano e não se declararia na atual circunstância. Tinha a obrigação ao total respeito com sua médica.
Ela decididamente e com o mesmo empenho não se confessaria a ele pela consideração inversa.
Nem seriam necessárias tais confissões. Ambos tinham conhecimento da intensa paixão que já tomara conta deles. 
Sentiam e sabiam que a arrebatada atração era recíproca. 
Aguardariam sem necessidade de comunicação entre eles apenas o termino dos procedimentos médicos para fazerem valer o que de fato eles mais pretendiam.
Para suas tristezas ainda faltavam muitos dias para o final dos trabalhos. 
Esperavam ansiosos à hora de serem finalmente libertos desse compromisso para existirem tão somente como um homem e uma mulher apaixonados para assumirem definitivamente o mais importante e desejado pacto efetuado entre eles apenas pelo olhar e pelo odor.
Ninguém percebeu tal paixão amordaçada e os dias continuavam brilhantes com imenso sucesso no tratamento. Dr. Sebastião mostrava-se recuperado do medo de viver e inclusive da obsessão de encontrar os pais de origem para a felicidade dos insistentes, competentes e atenciosos médicos e dos familiares que eram informados diariamente e comportavam condignamente conforme orientados.
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Os psiquiatras estavam reunidos numa quarta feira à noite para determinarem o término dos trabalhos com Dr. Sebastião no sábado à tarde para que ele providenciasse a viagem planejada com o intuito de reorganizar sozinho seu presente e futuro sem nenhuma interferência dos médicos ou dos familiares.
No domingo, como premio a todos, seria servido no salão de festas do SPA um almoço comemorativo.
Nos próximos três dias conversariam com Dr. Sebastião somente Dr. César e Dr. Jarbas para concluírem a psicoterapia e dar-lhe ciência de sua cura.
Dr. Carlos e Dr. Souza que até então estiveram ausentes às tarefas durante os mais de cinquenta dias que durou exigiram estarem presentes no último dia para terem absoluta certeza da confirmação da cura e juntos informar à Dr. Sebastião sua alta, sua festa e sua viagem. 
Os médicos em sua derradeira reunião conversaram até próximo da meia noite examinando os laudos, as análises e as conclusões do que fora acontecendo passo a passo no decorrer do tratamento.
Aprovaram por unanimidade que Dr. Sebastião estava definitivamente sanado de todos seus males.   
Comentaram rememorando com alegria o grande interesse que ele demonstrava em estudar algo que realmente lhe satisfizesse as aspirações, pois pretendia ser útil a si e a sociedade.
Recordaram que após uma semana da terapêutica ele acordava muito cedo, ainda na madrugada para exercitar durante horas antes do inicio das palestras para se manter em forma física além de conseguir também o merecido repouso mental que as práticas esportivas proporcionam. À noite também se exercitava, além de manter o bom hábito da leitura. 
Exceto ler as outras rotinas já não exercia desde a adolescência. 
Voltou a nadar, andar a cavalo e correr além de praticar outros esportes individuais.
Desde o inicio já vinha demonstrando menor interesse em saber dos pais genéticos até eliminar definitivamente tal anseio obsessivo. É lógico que ainda existia o desejo em encontrá-los, mas de forma simplesmente normal e não doentia como antes.
Soube que não houve nenhuma pessoa, inclusive detetives contratados que descobrisse onde fora efetuado o enterro do assassinado que julgava ser seu pai e não se abateu com tal notícia.
Atualmente já não se preocupava mais com essa descoberta e frequentemente perguntava com muito carinho pelos pais de criação, aos quais de fato deveria amar e sentir as ausências.
Lembraram que ele inclusive comentou com todos os médicos em horários e dias diversos que um de seus grandes anseios era refazer a amizade com todos os irmãos adotivos que agora entendia e aceitava terem sido eles seus verdadeiros parentes, independente da consanguinidade.
Riram quando recordaram a imitação que o jovem havia feito de Dr. Carlos quando ele parodiou e imitou o cantor Belchior, certo dia falando a um dos psiquiatras: 
...O pai que devemos aceitar e amarmos é o que nos cria e acompanha-nos vida afora mesmo que para nos ensinar tenha usado por ignorância dos mais antigos, suas rudimentares atitudes maltrando-nos com pancadas.
Depois desse sofrido ensinamento adquirido e do livre arbítrio proveniente de nossa própria evolução devemos desculpá-lo, pois por nossa adquirida competência e sabedoria sabemos que ele estava errado.
Jamais nos revoltaremos, pois apesar de sabermos tudo que aprendemos ainda correremos o risco de sermos os mesmos e espancarmos como nossos pais.
Perdoaremos e os amaremos, pois esses são os melhores e mais dignos dons natos em nossa existência e, portanto se houve um cúmplice de nossa mãe na hora que engravidou e nunca apareceu o bom mesmo é que continue oculto para todo o sempre e que seja muito feliz longe de mim. Amém.
Nunca as modificações foram incutidas pelos médicos de maneira forçada ou contundente.
Todas as boas informações foram sendo assimiladas apenas com sugestões passadas muito sutilmente pelos experientes profissionais.
Todos os desejos que começou pretender foram encontrados e determinados por ele próprio, de maneira afável e definitiva. 
Por volta de onze e meia da noite Dra. Rosa recebeu um telefonema em seu celular feito por uma amiga e vizinha de sua mãe, informando-a de um acidente aparentemente grave com ela na Praça Quinze em Ribeirão Preto.
Que quando passava pelo local reconheceu o carro bastante danificado, sendo guinchado, mas que o socorro já havia levado sua mãe, Sra. Maria Mercês. Ela não sabia qual a gravidade e nem para onde foi ela foi levada por isso achava melhor a presença da médica. 
Dr. Souza dispensou-a imediatamente do trabalho por tempo indeterminado e providenciou um carro com motorista para levá-la a viagem exigindo-lhe o retorno somente quando estivesse tudo resolvido na casa de sua mãe no interior.
Instruiu o motorista para que regressasse de ônibus deixando o carro aos cuidados de Dra. Rosa para sua movimentação na cidade para onde ia, pois ela própria o traria de volta quando de seu retorno. 
Esse incidente precipitou o encerramento da conversa entre os médicos que se despediram para o repouso merecido, pois todos teriam de se preparar para os afazeres a partir da manhã seguinte.
Despedidas formais e desejos de boa sorte a jovem psiquiatra e nenhuma brincadeira.
Dra. Rosa já dentro do carro gritou prometendo fazer o possível para estar no domingo e participar da festa de comemoração da alta de Dr. Sebastião. 
Foi repreendida por todos os médicos que em coro disseram:
Cuide primeiro da saúde de sua mãe e só depois volte para cuidar da de estranhos. 
Esse é o lema. Primeiro a família depois os outros.
Obrigada a todos e beijos. 
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Na sexta feira quando os médicos conversavam com o paciente a percepção de Dr. Souza e Dr. Carlos quanto à cura de Dr. Sebastião foi verificada logo de imediato por conhecerem-no muito bem.
Conversaram somente pela manhã informando-o de sua alta e da sua festa.
Dr. Sebastião comentou que logo no inicio dos trabalhos percebera que todas as pessoas eram médicos psiquiatras e que todos não tiveram como negar suas profissões quando nas conversas.
Quis saber deles e foi informado que nesses dias só eles cinco conversariam, mas que todos os demais participariam das comemorações previstas para domingo próximo. 
Concordaram em convidar toda a família do ex-doente a pedido do mesmo.
Dr. Souza procurou pelo administrador do SPA para solicitar a preparação da festa no domingo e soube que uma família de arquimilionários chegaria em tal dia por volta de quatorze horas para hospedarem-se em suas dependências. Que seria impossível realizar tal festejo com a presença de muita gente, pois incomodaria os endinheirados que procuravam repouso com hospedagem para vinte dias já devidamente agendada e paga. 
Dr. Carlos insistiu em mudar a festa para seu clube favorito, mas os colegas foram contra, por isso ficou decidido que antecipariam a celebração para o sábado. Nesse mesmo dia ainda pela manhã solicitaram os preparativos e avisaram todos os parentes convidando-os.
Tudo estava resolvido e mantiveram amenas e informais conversas com Dr. Sebastião aparentemente até mais saudável e menos desgastado que os médicos.
À noite quando Dr. Souza deixou o SPA e foi a seu consultório soube por sua secretária que Dra. Rosa havia telefonado, há alguns minutos, avisando-o que o acidente com sua mãe aconteceu apenas com danos materiais, pois ela saiu ilesa da ocorrência sem necessidade de internação. 
Que permaneceu lá apenas para verificar as radiografias e exames preventivos de rotina, mas que estaria de volta no domingo para participar da reunião festiva. Sairia bem cedo de Ribeirão.
Dr. Souza pediu urgência a sua secretária falando:
Regina ligue agora para o celular dela avisando-a, já que em sua casa está tudo tranquilo para vir amanhã, pois a festa foi antecipada.
Não é possível Doutor. Quando ela partiu, naquele dia, na pressa deixou o celular aqui em sua sala.
Está guardado comigo para devolvê-lo em seu retorno.
Então ligue rápido ao telefone que ela usou.
Executada a ligação a secretária disse: 
Atendeu em um posto telefônico público, no bairro Vila Tibério e nenhuma telefonista conhece Sra. Maria das Mercês e nem Dra. Rosa, mas informaram que uma moça muito bonita acabara de sair, após fazer uso de um telefone, em um carro Mercedes preto com placas de São Paulo. 
Com certeza é ela, pois a descrição tanto dela como do nosso carro conferem. Tente o da casa da mãe dela. 
Outro telefonema e outra resposta:
O telefone não atende e não há secretária eletrônica e nem caixa postal para deixar recado. Parece telefone desligado. Talvez esteja quebrado.
Então ligue na casa dela aqui em São Paulo, para saber se há outros telefones possíveis em Ribeirão.
Nova ligação e o retorno foi:
A atendente disse que ela não aparece em sua residência há três dias. Informou-me pensar que ela estivesse de plantão aqui no hospital e só sabe do número do telefone nosso, o celular dela e o telefone da mãe em Ribeirão Preto.
Está difícil. Verifique no celular de Rosa o número da vizinha da família dela que ligou avisando do acidente e ligue depressa.
Regina, secretária do hospital, fez a ligação ao numero registrado na memória do identificador de chamadas do celular da médica e quem atendeu ao chamado foi um transeunte dizendo estar em um orelhão na Praça Quinze em Ribeirão Preto, próximo a Choperia Pinguim.
Estava impossível encontrá-la por telefone e a próxima tentativa possível seria através do motorista que a levou.
Ele já havia encerrado seu expediente, mas foi encontrado pelo celular e avisou que infelizmente não tinha o endereço da médica para informar-lhes.
Dr. Souza solicitou-lhe que voltasse ao hospital para ir pessoalmente buscar a jovem.
Naquele momento o motorista atendendo ao telefone dentro de seu carro já próximo de Presidente Prudente, para onde se dirigia para o casamento de uma irmã, disse não haver mais tempo para seu regresso.
Informou que não tinha como encontrar a psiquiatra em Ribeirão Preto porque ela própria sugeriu quando chegaram lá em deixá-lo na rodoviária e ele não tinha a mínima ideia de para onde ela havia se dirigido. 
Falou também que Dra. Rosa durante a viagem tinha percebido o esquecimento do celular e que o dele estava descarregado, portanto não conseguiram entrar em contato com ninguém em Ribeirão para saber qual hospital estava a acidentada e por esse motivo não tinha nenhum número de lá para ligarem.
Disse mais que Dra. Rosa descobriria o que de fato acontecera com a mãe e em qual hospital a encontraria quando chegasse a residência dela. Lá ela telefonaria consultando todos os hospitais, caso nenhum vizinho lhe informasse.
A secretária de Dr. Souza fez o mesmo. Consultou as listas telefônicas de Ribeirão e foi ligando a todos os hospitais de lá. 
Finalmente em um hospital público descobriu onde a Sra. Maria das Mercês foi atendida, porém com a mesma ineficiência de todos os órgãos públicos do Brasil não fizeram sua ficha completa e não tinham o endereço da paciente que logo foi dispensada por não ter sofrido nenhuma lesão.
Não houve meios de encontrar a médica por isso não foi avisada da antecipação da festa. Os festejos no sábado duraram o dia todo para a alegria dos presentes.
Todos os parentes de Dr. Sebastião compareceram com apenas uma exceção que foi João Paulo Freitas Filho, por motivo óbvio. Não poderia correr o risco de encontrar a feroz psiquiatra.
Dr. Sebastião procurou em vão pela amada e não a encontrando conversou com Dr. Souza perguntando por ela sem confessar-lhe o porquê da procura.
Ficou sabendo do ocorrido e manteve-se tranquilo, pois tomou conhecimento que no dia seguinte ela estaria de volta. 
Ele só iria programar a viagem depois de seu retorno, suas conversas e seus amores. Somente ele sabia que a linda psiquiatra estava em seus planos para o passeio que seria na Grécia.
Final de sábado. Encerramento da comemoração e mudança de Dr. Sebastião da suíte do Spa para seu antigo apartamento no lado hospitalar.
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Acostumado a levantar-se na madrugada Dr. Sebastião, com permissão já concedida de véspera desde que não ultrapassasse ao meio dia, pois chegariam os hospedes, foi exercitar-se na academia no lado requintado do hospital.
Por volta das dez horas da manhã foi pego de supressa por uma furiosa tempestade que o impediu de sair debaixo da frondosa árvore onde estava deitado na relva lendo um de seus livros, sobre direito, pois definira que iria cursar advocacia.
Naquele exato momento, em seu consultório Dr. Souza que jamais abandonava o hospital conversava com Dra. Rosa que havia acabado de chegar do interior.
Onde estão os outros?
Ontem após a festa todos foram dispensados para descanso. Só retornarão segunda feira.
Então a festa foi ontem?
Infelizmente sim. Tivemos de antecipar a solenidade, pois hoje o SPA receberá hospedes à tarde. 
Perdi o melhor de tudo. Gostaria imensamente de estar presente.
Tentamos localizá-la em Ribeirão na sexta feira, mas não conseguimos.
O telefone de minha mãe estava quebrado desde quinta feira e só voltou a funcionar ontem a noite.
Zinho perguntou por você.
Tenho certeza que sim.
Por quê?
Agora não precisarei mais esconder de ninguém minha situação com ele.
Depois de Dra. Rosa rapidamente contar ao colega a paixão mútua entre ela e Dr. Sebastião ouviu como resposta:
Ele deve estar fazendo musculação. O que está esperando para ir lá?
Deseja-me sorte. Tchau e beijinhos.  
Boa sorte e bom proveito. Tchau e beijões.
Saiu correndo como uma adolescente a procura do amado. Diferente dele a psiquiatra não se preocupou com a tempestade quando atravessava o bosque em direção a academia. Simplesmente ela avançou dentro dela não se importando com o aguaceiro que lhe caia em cima.
Embora ela tivesse se acostumado aos vestidos longos e sem decotes ainda mantinha o hábito de não usar as incômodas vestimentas de baixo, que só servem para deixar marcas na pele e também para modificar os contornos das corretas curvas do corpo sob os tecidos leves e finos do vestido.
Dr. Sebastião que após os exercícios havia se banhado e colocado apenas a calça do pijama estava todo encharcado, com o fino tecido da roupa tornado transparente e colado a seu corpo deixava-o praticamente nu. Esperava a chuva dar uma trégua para ir a seu apartamento e vestir-se devidamente para esperar a médica que imaginava chegar na hora prevista da festa que fora marcada para doze horas.
Ela totalmente encharcada, decidiu esconder da chuva e correu a procura de abrigo, para exatamente a mesma árvore que serviria de palco à união que viria acontecer.
A jovem sonhadora ao ver Dr. Sebastião naquele local agradeceu aos céus por tamanha ajuda e ao cupido por tê-la guiado até ele.
A alameda percorrida por ela era o único caminho que ligava o hospital à academia, portanto qualquer pessoa passaria pelo mesmo local evidentemente aproximando-se de tal árvore, assim como Dr. Sebastião fez no caminho inverso. Tal encontro não foi mérito de nenhum cupido e muito menos de Eros. Aconteceu somente o óbvio, mas se ela quis assim imaginar que seja.
A bem da verdade aquela inesperada chuva quente, quase como brasa, cheia de raios destruidores, não prevista nem informada por nenhum prognóstico meteorológico mais parecia ser proveniente das trevas que dos céus.
Ela chegou toda molhada, com a roupa transparente grudada ao corpo como se fosse apenas uma segunda pele. Tão nua quanto ele estava. 
Nada falou e também nada ouviu. Apenas e tão somente abraçaram e amaram-se violentamente, pois independente de tal exposição de seus corpos, tal união iria acontecer, mesmo que estivessem vestidos em armaduras de aço. Ela apaixonada gulosamente possuiu-o e foi possuída sem nenhum pudor durante àquelas horas de tempestade sem perceberem que a chuva acabara e o sol queimava suas peles, agora totalmente expostas, pois as roupas rasgadas foram atiradas ao longe. Num lapso de tempo que Dra. Rosa teve enquanto se amavam ativou-lhe a sensatez. 
Calada e apenas por mímica pediu ao amante que vestisse o pijama ainda intacto e fosse apanhar um roupão para ela no vestiário da sala de ginástica. 
Retiram-se sorrateiramente indo para o apartamento do amado, pois já se via movimento dos hospedes que estavam alojados no SPA há horas.
Feliz ou infelizmente ninguém presenciou as cenas das delirantes carícias. Somente os demônios e seus assessores que provocaram tal encontro assistiam.
Com certeza nenhum dos grandes amores famosos, reais ou inventados todos muito comentados pela vida afora conseguiram superar o dela.
Se lembrarmos como:
Afrodite se deu a Eros, traindo seu marido Héfeso;
Penélope a Ulisses;
Cirse ao mesmo Ulisses;
Cleópatra a Julio César;
Julieta a Romeu;
Branca de Neve ao Príncipe;
Ceci a Perí;
Iracema ao colonizador português Martim;
Jocasta a Édipo;
Dona Flor a seus dois maridos; 
Lívia ao Guma;
Adelina a Tião; 
Se formos relatar todas as mulheres apaixonadas e apaixonantes não terminaríamos nunca tal lista, mas com certeza não encontraríamos nenhuma que tenha se dado tão entusiasmadamente como a jovem médica entregou-se a Dr. Sebastião.
Nenhuma Margarida, Hortência, Flor de Lis, Camélia, Dália ou qualquer trepadeira por mais bonita ou lúbrica que fosse jamais igualaria a agora experiente e obscena mulher.
Assim viveu Rosa a rainha não só das flores, mas também das mulheres nesse memorável e inesquecível dia, o seu primeiro, único e grande amor que com a imensidão de sua paixão inesgotável portou-se como a mais ardorosa e surpreendente de todas as amantes.
Ela apesar de sempre se mostrar sedutora, irreverente e maliciosa, embora hábil em carícias eróticas e sexuais, desde a adolescência já mantinha a fantasia irreal de encontrar o homem perfeito a sua maneira e por isso até então nunca amara nenhum homem como o fez desta vez. Todos até então só foram usados simplesmente para sexo. Zinho era paixão. Era de fato seu primeiro e grande amor.
Sempre havia recusado propostas de romances ou de simples namoros por prejulgar que todos os que dela se aproximavam não preenchessem suas idealizadas e exigentes pretensões. Agora ajudada pelo Príncipe das Trevas finalmente encontrou esculpido em carne e osso o seu sonho que imaginava ser divinal. 
Amou-o com volúpia o restante do dia e a noite toda. Exaustos adormeceram. Somente pela manhã da segunda feira unidos e entrelaçados como uma só pessoa que acordaram, justamente na hora que os médicos chegavam para mais um dia de trabalho.
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Todos reunidos por Dr. Souza souberam do romance que estava acontecendo e após algumas brincadeiras a respeito do mesmo procuraram seus afazeres, com exceção de Dr. Antônio Augusto que solicitou demissão do trabalho sem nenhuma explicação plausível. 
Finalmente os psiquiatras amigos descobriram em apenas alguns segundos o motivo e nada questionaram, deixando-o desaparecer de cena definitivamente.
O casal como se fosse apenas um ente, aparentando estarem em perfeita simbiose sem que pudessem jamais se separar sofreu a metamorfose da amitose dividindo-se novamente em dois sem prejuízo a nenhum. 
Foram encontrar-se com os colegas de profissão no refeitório no horário do almoço radiantes de felicidade e foram recepcionados por Dr. Carlos que lhes perguntou: 
O que decidiram? Vão casar ou só ficar?
Acredite que não falamos nada um com o outro desde ontem às dez da manhã quando nos encontramos até agora?
Está brincando Rosa.
É verdade. Nada conversamos. Faremos isso após a refeição.
Que coisa de doidos!
Aqui por acaso não é um hospício?
Eu sempre soube que manicômio é o local para recuperar malucos e não para criá-los.
Realmente estamos loucos um pelo outro. 
Foi a resposta de Dr. Sebastião que despudoradamente beijou a amante, com direito a várias carícias obscenas na frente de todos e dirigindo a Dr. Souza falou:
Vi que no apartamento que fiquei só havia roupas para uma troca e acredito que já tenham mandado minhas malas para meu apartamento ou estou errado?
Completamente certo. Já providenciei isso e inclusive a Sra. Lourdes já limpou todo seu lar doce lar para seu retorno a ele.
Obrigado Souza. Peço-lhe permissão para que Rosa venha comigo.
Mandarei um motorista levá-los e lambuzem-se um ao outro o tempo que for necessário.  
Depois devolva minha preciosa e preferida psiquiatra sã e salva e cheia de alegria e felicidade conforme a vejo. 
Boa sorte aos dois.
Providenciarei minha viagem e na volta conto-lhes tudo.
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Dentro do carro em movimento os dois conversaram pela primeira vez.
Querido porque pediu que eu fosse com você ao Dr. Souza e não a mim?
Porque não a deixarei jamais e crendo ser também o seu desejo julguei desnecessário perguntar-lhe.
Também nunca ficarei sem você.
Então porque a observação?
Apenas porque não fui consultada.
Desculpe-me. Pretende ir comigo em minha viagem para nós continuarmos nosso prazeroso desejo?
É claro que sim. Agora e sempre.
Então estamos entendidos?
Abraça-me forte e faça de mim o que quiser.
Aqui no carro?
Porque não? 
O motorista nunca ousou contar a ninguém o que viu pelo retrovisor interno do carro, mas a exemplar lição serviu-lhe para colocá-las em práticas nas suas futuras conquistas amorosas.
Chegando ao apartamento de Dr. Sebastião amaram-se a fartar até o início da madrugada, quando adormeceram.
Pela manhã o rapaz acordou cedo para exercitar-se e Dra. Rosa ao despertar e vendo-se só na cama gritou-lhe:
Meu amor venha cá.
Estou fazendo musculação. Daqui a pouco irei.
Venha já.
Só mais dez minutos.
Quando o médico terminou seu exercício viu que a jovem estava sentada no chão atrás de si, trajando apenas uma de suas camisas totalmente aberta deixando a mostra todo o esplendor de seu corpo.
Achou-a maravilhosa com aquela vestimenta e naquela posição e sem notar seu mau humor dirigiu-se para abraçá-la, mas foi surpreendido com o que ouviu em tom de voz bastante enérgico e agressivo. 
Primeiro tome um banho. Está todo suado e não é suor nosso.
Que é isso querida? Recusa-me?
Não gostei de acordar sem ter você perto e só o abraçarei após limpo.
Quando se encontrou comigo no bosque eu estava todo molhado e sujo e mesmo assim aceitou-me de bom grado. O que houve agora?
Aquela ocasião foi diferente. Fui eu quem o procurou.
Então só lhe sirvo quando me pretender?
Não acha que está se insubordinando sem motivo? Apenas porque quero que tome um banho está reclamando?
A mim parece que quem está estressada é você.
Meu querido e grande amor você está muito diferente de quando o conheci e apaixonei-me. Modificou-se muito rapidamente. Não está mais parecendo o homem perfeito que sempre imaginei ser.
Que é o homem perfeito para você.
É o lindo fisicamente, ardente sexualmente, educado e dócil como você fora durante cinquenta e dois dias que nos vimos no hospital.
Alguma coisa mudou?
Tornou-se inflexível aos meus desejos e desobediente. 
Em português bem claro você refere-se que deixei de ser submisso?
Decidiu trazer-me como você sem consultar-me e não foi até mim quando o chamei do quarto.
Acho que o trabalho que vocês psiquiatras pretenderam comigo foi exatamente acabar com minha inaptidão para as decisões e minha eterna obediência apenas aos anseios alheios.
Agora que assumo uma postura condizente ao normal continuo errado?
Nossa intenção era desobrigá-lo da sujeição para com sua família. 
E por acaso seu desígnio é que tal subserviência passe para você?
Deixemos de discussões e se banhe logo para fazermos o que eu estou desejando agora.
Dr. Sebastião asseou-se calado retornando mais quieto ainda e ela o abraçou beijando-lhe por todo o corpo.                   
Passaram o dia todo no mesmo desregrado amor que era o único motivo de suas vidas, coisa que conseguiam com pleno sucesso.
A noite Dra. Rosa perguntou qual a decisão tomada por Dr. Sebastião com relação à viagem e ele medindo as palavras para não melindrar a companheira disse-lhe carinhosamente.
Gostaria imensamente que você viajasse comigo e no retorno minha intenção é casar-me com você caso ainda me queira. 
O que responde sobre minhas aspirações?
Que aceito-as com muito gosto.
Então me abraça forte para selarmos nosso compromisso.
Apenas um rápido abraço, pois quero que me leve em minha casa para eu trazer minhas malas com roupas para cá.
Está certo. Faremos isso imediatamente. 
Durante a ida a residência da médica Dr. Sebastião foi pensativo no volante, pois estava aborrecendo-se de ter de continuar sendo vassalo como sempre fora até então. 
Antes ele era dependente de todos por falta de ânimo por julgar que faltava encontrar seus pais para só então descobrir o motivo de libertar-se. 
Estava certo de não ter mais esse problema, pois sabia exatamente tudo que pretendia da vida sem aquela antiga necessidade.
Até então aceitava sua vida sempre oprimida, porém agora estava apto a decidir como qualquer pessoa normal e por isso teve ímpeto em levar a jovem médica de volta ao hospital e partir sem ela, pois ela estava pretendendo que só fariam o que ela impunha. 
Continuava fisicamente o mesmo, a mesma educação, mas não mais aceitaria a humilhação de fazer apenas o que lhe era mandado.
Paciente e otimista que era imaginou que o comportamento dela iria mudar, assim como mudou o dele.
Repensou e continuou satisfeito com sua decisão de viajar com a amante e também desposá-la tão logo voltasse, pois além da voraz atração física imaginava-a uma pessoa de boa índole. 
Julgava-a apenas desacostumada no que diz respeito a convivência a dois por total falta de conhecimento. Sabia que ela jamais compartilhara sua vida com um homem. Nem em um simples namoro.
Como homem experiente nos devaneios do sexo tinha percebido que ela não era virgem, pois entendia perfeitamente bem que uma mulher linda como ela jamais estaria intacta até aquela idade, mas isso não era nenhum imprevisto para seu futuro casamento. Sabia também de sua total inexperiência em viver a dois, pois isso foi comentado por ela em suas conversas na clinica, porque ela jamais se apaixonara por ninguém a espera de encontrar o parceiro ideal.
Com o tempo e sua ajuda ela resolveria esse empecilho.
Sentiu-se grato por ter sido o eleito e propôs-se ter cautela e tratá-la com os mimos exigidos por ela, mesmo que isso o descontentasse. Seria paciente. 
Ela merecia tal esforço e ele estava disposto a ajudá-la tornar-se perfeita em todos os aspectos. Ela foi a melhor das mulheres com a qual fez sexo.
Aos poucos se integrariam totalmente sem rudes opressões e não via motivo para a inesperada e precipitada separação. 
Ele se tornaria seu professor e aos poucos iria orientando-a ao ideal comportamento de companheirismo e cumplicidade assim como foi guiado por ela e outros médicos que conseguiram dele o efeito esperado em vários e mais graves desajustes em um tempo até curto. 
Nessa noite de terça feira ficaram na linda mansão da médica ainda satisfazendo-se mutuamente. 
Lá permaneceram por dois dias cercados de inúmeros funcionários da jovem e somente pela manhã do terceiro dia que Dra. Rosa se dispôs em arrumar as malas para voltarem ao apartamento de Dr. Sebastião.
Dispensou os empregados e solicitou que em seu maravilhoso palácio permanece apenas um casal de caseiros e três vigilantes armados. 
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Ele a contra gosto permanecera aqueles dias em silencio e controlado dispondo-se apenas em responder as perguntas da amada que determinou tudo que fizeram. 
Como e onde almoçar ou jantar. O que comer. A que momento amar, ler ou ver televisão e et cetera, até que quase sufocado, mas mantendo extremada tranquilidade falou-lhe da viagem.
Minha adorada futura esposa hoje é sexta feira e ainda nada resolvemos sobre a viagem.
Poderemos amanhã cedo sair para comprar as passagens para Paris. Sou louca por conhecê-la.
Embora Paris seja ótima, minha intenção é ir para a Grécia e levá-la comigo. Que acha?
Discordo. Prefiro a famosa Cidade Luz.
Façamos o seguinte. Iremos à Grécia e quando voltarmos e efetuarmos nosso casamento percorreremos toda a França curtindo nossas núpcias.
Eu já me considero em lua de mel desde domingo passado e pretendo continuá-la na França.
Não almejo ser grosseiro. Muito pelo contrário, mas é necessário lembrá-la de que foram os psiquiatras incluindo você que me indicaram fazer uma viagem decidida e organizada por mim, viajando apenas eu, ou se me interessasse levar companhia.
Pois bem, decidi há muito tempo que tal excursão seria nas Ilhas Gregas e como acompanhante levaria você, caso fosse de seu agrado.  
Tal pergunta já lhe foi feita e não houve recusa, portanto gostaria de continuar com minha deliberação, sem questionamentos para que não seja preciso mudar meus planos que podem não nos ser favoráveis.
Dra. Rosa amargurada acatou, pois se tratava de uma viagem com orientação médica em que ela participou em indicar.
Insatisfeita com tal atitude de Dr. Sebastião, conseguiu ser frígida nas poucas relações sexuais praticadas por eles nessa noite. Evitou-o ao máximo só mesmo permitindo quando sonolenta e alheia ao ato aceitava-o sem o menor entusiasmo.
Dormiram relativamente cedo e na manhã seguinte saíram à procura das passagens com a médica imaginando artifícios em convencer o amante mesmo viajando inicialmente para a Grécia acabar seu passeio visitando Paris.  
Nesse mesmo dia Dra. Rosa telefonou ao Dr. Souza informando-o da decisão do casal e solicitou demissão do trabalho, pois ausentaria por muito tempo, portanto não seria justo eles manterem-na no quadro de funcionários. 
Deixou lembranças ao Dr. César e equipe e ligou a Dr. Carlos e Dr. Jarbas despedindo-se pessoalmente de ambos com muitas brincadeiras e desejos de boa sorte.
Por Dr. Jarbas ficou sabendo do sumiço de Dr. Antônio Augusto e o provável motivo. Tentou seu celular que foi atendido por outra pessoa. 
Evidentemente ele havia vendido ou doado o aparelho a algum estranho. Não se despediu dele e não se importou com isso. Ele nada lhe significava mesmo. 
Ligou também a sua secretaria na mansão determinando que ela reunisse todos os empregados em serviço e procurasse pelo contador, pois todos estavam dispensados e demitidos, e depois trancasse a residência totalmente e que depositasse as chaves em sua caixa postal bancária. O dinheiro suficiente para todas as despesas ela transferiria on line para a conta dela.
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A viagem do casal iniciaria em Guarulhos e enquanto Dr. Sebastião fazia o check inn Dra. Rosa passeava pelas lojas a procura de novidades.
Comprou para presentear o amado um volumoso livro didático sobre direito internacional e para sua distração adquiriu um simples e descompromissado romance cujo lançamento era recente e que lhe foi doado pelo vendedor como brinde, pela compra do caríssimo livro de direito. 
Já instalados na aeronave o jovem quis saber que livro ela iria ler, pois ao ver seu título e achando-o esquisito perguntou-lhe:
Querida que livro é esse?
Não sei. Ganhei de brinde pela compra do seu.
Curioso o seu nome.
Que tem de estranho? 
Chama-se Paraíso e como estou vivendo nos céus desde que o conheci achei-o até achei bastante apropriado.
Não reparou que paraíso está escrito errado.
Como errado?
Veja a capa. Está escrito Paraíso errado.
É mesmo. Não tinha reparado que está com Z e não tem o acento agudo no i.
Deve ser uma droga, pois começa errado desde a denominação.
Com certeza foi proposital e talvez até possa ser interessante. 
Vou começar lê-lo assim que o avião levantar vôo.
Não passou muito tempo de vôo, Dra. Rosa assustada com a narrativa, inquieta e desorientada acordou o amado que dormia a seu lado exigindo-lhe:
Leia esse livro. Ele conta a vida de seu pai e sua família e em determinados momentos até sobre você.
Está delirando? Não é possível.
A médica arrancou as folhas que já havia lido entregando-as a Dr. Sebastião que começou a leitura.
Tão ou mais assombrado que ela Dr. Sebastião fora lendo as folhas que lhe foram passadas e durante todo o tempo que a viagem durou leram e releram tais folhas já amassadas que eram constantemente entregues de um ao outro.
Nova discussão entre os jovens aconteceu quando o avião pousou em Atenas. Ele queria regressar imediatamente ao Brasil e ela não concordava, pois pretendia na Grécia convencê-lo em voar para França, pois estava interessadíssima em conhecer Paris conforme já discutido anteriormente.
Novamente, apesar de séria discussão, prevaleceu o desejo de Dr. Sebastião que concordou que enquanto aguardava a entrega das malas Dra. Rosa compraria as passagens de retorno.
Hospedaram no hotel mais próximo indicado pelos atendentes do aeroporto, pois o regresso só seria no dia seguinte às 7 horas.
Permaneceram a noite toda sobre as folhas praticamente destroçadas de tanto serem manuseadas e lidas por diversas vezes. Não houve nenhum momento de descanso ou de amor. 
Todo o tempo fora usado apenas à leitura do tal amontoado de papel que no dia anterior fora um bem encadernado volume a ponto de ambos ter decorado todo o conteúdo do livro assustador que terminava exatamente igual à quinta feira que Dr. Sebastião viu o esfaqueado morrer causando-lhe todos os transtornos que passou.
Sabiam corretamente todo o conteúdo do livro até seu final que era assim: 
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FINAL
 
Em um final de tarde o mendigo aleijado procurou pelo Velho Gordo no bar e conversou com ele, pouco mais de cinco minutos e novamente desapareceu, deixando o Velho muito excitado e ele sem conversar com ninguém voltou para sua casa nervoso e preocupado.
No outro dia pela manhã ensolarada Sebastião com quase sessenta anos de idade totalmente careca com barba branca escondendo-lhe as cicatrizes que desfiguravam seu rosto totalmente diferente de quando tinha vinte e poucos anos e viera para São Paulo, foi com seus guarda costas entregar mercadorias na Galeria Pajé onde fazia negócios rotineiramente toda semana.
Concluída as negociações e dentro de seu carro, na volta foi violentamente esfaqueado pelos seus muito bem pagos contratados protetores sem ter tido a mínima chance de defender-se.
Fugiram com o carro jogando o moribundo num monte de lixo embaixo de um viaduto, sem dinheiro nem documentos para não ser identificado.
Em um terreno baldio distante o carro foi incendiado bem mais tarde.
O irmão do Alberto Negrão que pertencia a quadrilha dos traficantes e que o contratou juntamente com os demais seguranças, foi ao encontro dos traficantes na Vila Maria receber a valiosa recompensa para pagar pelo seu feito e desaparecer para sempre de São Paulo.
O plano fora executado corretamente conforme planejado por eles.
Sebastião acordou quando estava sendo colocado em uma maca da ambulância que o socorria e com muita dificuldade abriu o olho, mas fechou-o imediatamente após o susto que levou.
Viu novamente aquele Velho gordo olhando-o fixamente no único olho que lhe restou.
O outro foi vazado por uma das punhaladas.
No chão junto aos pedaços das dentaduras partidas e da metade da língua também cortada ficaram alguns dedos, um pouco de seus miolos e uma orelha.
Antes de desmaiar novamente tentou falar alguma coisa com o Velho, mas nenhum som saiu de seus lábios.
Queria saber muitas coisas do Velho gordo.
A primeira era pedir-lhe que falasse qualquer coisa, pois ele nunca tinha ouvido a sua voz.
Outra coisa era saber como ele mesmo tendo tido câncer, envelhecia, mas não morria.
Queria saber também porque o velho sempre lhe aparecia do nada e sumia repentinamente sem deixar pistas.
Interessava-se em descobrir por que ele vivia perseguindo-o.
O último desejo que era mais importante era saber se ele era homem, Deus ou o Demônio.
Não conseguiu satisfazer-se, pois quando novamente abriu seu único olho o Velho gordo, careca e de barbicha branca já tinha sumido como sempre acontecia.
Resignou-se imaginado que talvez conseguisse no próximo encontro se houvesse e desfaleceu novamente.
Na sala de emergência do hospital acordou novamente do desmaio intrigado e desorientado ao ouvir o chamado pelo alto falante:
“Doutor Sebastião Pereira da Silva Filho venha urgente à emergência do Pronto Socorro”.
Abriu o único olho que lhe restava e viu à seu lado esquerdo o velho gordo vestido de enfermeiro e a sua frente ele próprio.
Ele Sebastião Pereira da Silva quando jovem estava a seu lado medicando-o.
Fechava e abria seu único olho para saber se sonhava se delirava ou se realmente ele bem mais jovem estava diante dele velho e agonizante.
Encostado ao moribundo um homem exatamente igual Sebastião quando tinha trinta anos de idade com o mesmo nome acrescido do “Filho” fazia o possível para curá-lo.
Finalmente entendeu o que estava acontecendo e ao fazer forças para gritar suas fezes saíram pelos rasgos das facadas em sua barriga impregnando o local com um horrível mau cheiro.
O som do grito “CONSEGUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍIIIIIII” ecoou por muito tempo pelos labirintos do hospital após sua morte indigente.
Nenhuma das pessoas presentes entendeu nada e se entreolharam boquiabertas ao verem que após aquele estrondoso berro o ferido deixara esse mundo com o semblante alegre.
Ele morreu sorrindo feliz.
Intensamente contente com os braços abertos em direção ao jovem médico que rapidamente deixou a sala de operações muitíssimo assustado.
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Então ele era realmente meu pai.
É o que parece se esse livro for verdadeiro.
Mas é claro que é. Não pode haver tantas coincidências assim entre a ficção e a realidade. Tudo que está escrito corresponde a mais absoluta verdade sobre a vivencia de minha família no Ceará e sua vinda para São Paulo. 
Sobre mim menciona até quando fui roubado por um mendigo. Melhor dizendo. Nem fui eu quem veio para São Paulo. O tal Tiaozinho era meu irmão mais velho que morreu antes de vir. Eu sou seu irmão mais novo recém-nascido que deveria chamar Cícero, ou sei lá mais o que? Tantos eram os nomes possíveis conforme desejo de meu pai, mas registraram sem ele saber como Sebastião em substituição ao que faleceu.
Isso é uma loucura. Alguém sem escrúpulos escreveu tal ficção baseado em informações que tinha sobre você e seus parentes. 
Tenho certeza da veracidade da história.
É mesmo sobre minha família e vou descobrir tudo através do tal Velho gordo, careca e de barbicha branca que até já vi, assim como agora tenho certeza de ter visto meu próprio pai várias vezes.
Está delirando. Como conheceu tais pessoas?
Naquela fatídica quinta feira quando saí da sala de operações e dirigia-me ao vestiário para trocar-me trombei forte com um senhor com as características do Velho Gordo que saía de lá muito apressado. Parecia estar fugindo para não ser visto.
Poderia ser algum médico ou enfermeiro que mudara de roupa.
Foi o que imaginei, entretanto ele olhou-me demoradamente antes de sumir rápido pelos corredores dirigindo-se a saída. Na ocasião julguei tal acidente ter sido provocado por minha pressa, mas agora sei da mesma pressa que teve o homem abandonando o local, pois vi roupas de enfermeiros jogadas pelo chão do vestiário.
Jamais um médico ou qualquer profissional de saúde teria tal procedimento desleixado. Absolutamente ele não era nenhum médico ou enfermeiro negligente. 
Ele era o tal Velho gordo que escreveu o livro, imitando Hitchcock, sempre aparecendo nos momentos cruciais da história que se infiltrara na sala de cirurgia para saber o que ocorreria lá dentro para narrar exatamente igual nessa porcaria de livro. 
E o tal de Tião seu suposto pai, quando o viu além de na sala de emergência?
Em todas as duas vezes que saí à procura dele pelas ruas.
Quando tinha nove anos no momento que fui retirado pelos guardas que me apanharam na igreja de Vila Madalena ao afastar-me carregado vi um homem próximo às árvores olhando para nós. 
Tentei até lhe pedir-lhe socorro, mas ele escondeu-se rapidamente. 
No livro o Tião nessa mesma época estivera no mesmo local a procura do filho desaparecido, mas assustado escondeu-se dos policiais por ter cometido o recém-assassinato do mendigo que me roubara e abandonara-me à morte no lixo da igreja.
Na história relata também que ele afastou por algumas vezes de seu convívio um adolescente que insistia em seguir seus passos criminosos, quando já havia desistido de suas procuras e se transformado em malfeitor.
Esse adolescente de treze anos era eu que na ocasião me apresentei como Zinho que é o diminutivo de quase todos os nomes, portanto não lhe chamou a atenção sobre mim como sendo o seu filho SebastiãoZINHO.
Ele apresentou-se a nós garotos apenas como chefe ou instrutor e pelo mesmo motivo eu não tive como imaginá-lo meu pai. 
A chamada da carne e do sangue impelia-me a ele que dirigido não se sabe por quem ou por que me rechaçou definitivamente inegavelmente me protegendo e evitando o maldito futuro que eu teria se o acompanhasse.
Obras da sábia natureza.
Está tudo escrito no livro Paraíso e eu lembro-me de todos esses fatos que foram presenciados e vividos por mim, portanto o livro é verdadeiro.
Custe o que custar vou voltar e descobrir tudo nos mínimos detalhes. 
Meu tesão. Você já está curado de sua obsessão.
Deixou bem claro que não interessaria mais em procurar seus pais genéticos. Desista de voltar ao Brasil e vamos continuar nossa maravilhosa lua de mel interrompida bruscamente por esse tal paraíso que se transformou em inferno. Não percebe que está apresentando as mesmas reações que tinha antes do tratamento?
Não se trata disso. Está totalmente enganada. 
De fato meu desespero em encontrar minha família anterior desapareceu quando entendi sobre minha existência individual.
Graças a vocês psiquiatras aprendi meu dever de cidadão útil e não vou abrir mão disso jamais.
Entretanto pelos fatos contundentes dessa leitura e pela total concepção de que devo ser benfeitor tenho de averiguar toda essa historia e descobrir e salvar todos os que por ventura ainda possa conseguir.
Se o livro for real não existe mais ninguém de sua família antecessora.  
Talvez tenha. Nada foi mencionado sobre a morte de minha mãe e de minha tia que perderam a razão a saíram perambulando pela cidade. 
Minha prima Mercedes abandonou todos para cuidar de sua própria vida, ainda no nordeste e nada foi comentado sobre seu paradeiro. Deve estar em algum lugar e inclusive ter filhos que obviamente são meus parentes. 
Inclusive todas as trágicas mortes podem ter sido inventadas pelo tal Velho gordo que apossou-se dos escritos de meu pai e escreveu a história. 
Alguém deve existir, portanto devo procurá-los.  
Insisto que deva desistir.
Abrace-me gostoso como sempre faz, pois estou louca de desejos.
Infelizmente já amanheceu e estamos na hora de ir para o aeroporto, mas tenha certeza, quero-a como nunca quis a ninguém e jamais lhe deixarei faltar nossas deliciosas noitadas de prazer.
Tenha apenas um pouco mais de paciência, pois a farei muito feliz tanto ou mais que você imagina, pois você atualmente é a pessoa mais importante em minha vida. 
Não parece. Troca-me por defuntos.
Não fale assim. Principalmente nesse tom hostil.
Não é o que está acontecendo? Está trocando-me por um cretino criminoso já morto.
Já está brigando novamente e vou contabilizar mais esse conflito. É o oitavo arranca-rabo em apenas uma semana de convivência e todos provocados por você.
Estive com você mais de cinquenta dias antes de nos amarmos e éramos ótimos um com o outro.
Naquela época eu era um doente alienado e você a minha médica.
O que mudou?
Muita coisa. Eu não passava de um demente e você ensinava-me portar-se como pessoa eficiente e independente. 
Consegui sentir e portar-me como tal e pelo visto parece que isso lhe desgosta.
Seja compreensiva. Eu realmente a desejo com todas as minhas taras e meu compromisso assumido consigo está inalterado e se concretizará a menos que você tenha mudado de opinião sobre nosso futuro.
Gostei muito de você meu querido e ardoroso amante. Chegou a hora. Vamos para nossas viagens.
Dr. Sebastião telefonou ao Dr. Souza avisando-o sem muitas explicações de sua repentina volta e solicitou-lhe que marcasse uma reunião com a presença dele, Dr. Carlos, Dr. Jarbas, suas mães, seu pai preto e seus irmãos adotivos, pois precisaria conversar com eles muito urgente tão logo chegasse a São Paulo. Como sugestão indicou a sala de reuniões dos médicos no hospital. Avisou-o da hora prevista para a chegada e o número de seu vôo.
Quando foi feita a chamada para seu embarque pela última vez Dra. Rosa deu-lhe um demorado e indecente beijo com direito a carícias com as mãos em seu sexo e em seguida uma passagem avisando-o:
Vá logo meu grande amante que o vôo para o Brasil já foi chamado.
Então vamos. 
Eu não irei nesse avião. Comprei minha passagem para Paris e viajo somente as 10 horas.
O que está acontecendo? Abandonou-me agora?
Infelizmente não íamos nos dar bem mesmo.
Desejo-lhe muita sorte na descoberta de seus defuntos. 
Quem sabe ainda consigamos nos entender no futuro quando não houver mais cadáveres entre nós e você portar-se atencioso e dócil conforme quero. 
Eu a desejo demais para perdê-la assim. Você precipitou os acontecimentos. 
Não foi nada imponderado, pois o que decidi está realmente consumado. Apenas antecipei o caso que de fato seria inevitável.  Eu não o amo e nunca o amarei.  Apaixonei-me por aquele homem frágil e dócil que você era.
Jamais encontrará alguém tão submisso que não seja um doente mental e alienado como eu fui.
Continuarei minhas buscas e agradeço-lhe pelos dias de grande prazer que me proporcionou. 
Nada tenho a reclamar sobre isso, mas, além disso, quero encontrar o homem de meus sonhos exatamente igual o que você foi outrora.
Reconsidere e troque sua passagem para viajar comigo.
É impossível. A última chamada para seu vôo já foi feita e se não for correndo perderá a aeronave.
Insisto em sua reconsideração minha adorada.
Nem que perca seu vôo e venha comigo à Paris. Não o quero mais. Adeus.
Então adeus.
Dr. Sebastião dirigiu-se a passos lentos e titubeantes ao portão de embarque, entretanto sem olhar para trás.
Dra. Rosa acompanhou todo seu movimento e chorou quando a aeronave finalmente levantou vôo levando seu amante, talvez para sempre.
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Pousado o avião em terras brasileiras no inicio da noite sob forte chuva obrigou Dr. Sebastião procurar logo um táxi, embora tivesse vontade de adquirir vários exemplares do livro todo desfeito em sua bagagem. 
Desistiu, pois saberia contar toda a história e depois procuraria tais exemplares.
Chegando a clinica foi recepcionado calorosamente por todos que o aguardavam, com abraços e beijos.
Dra. Tereza foi logo perguntando:
Onde está Rosa?
Abandonou-me em Atenas. Não quis acompanhar-me de volta e viajou para Paris. 
Que absurdo. Que aconteceu?
Nada para preocupar-se mãe. Ela foi para mim uma eficiente médica, a melhor das amantes, mas uma péssima companheira. Eu devo ter sido para ela qualquer coisa mais ou menos igual. Daí se aborreceu comigo e sumiu. 
Não vai trazer-lhe problemas?
Fique tranquila. Estou bem.
Tudo que aconteceu entre nós somando as coisas boas e as ruins não vale nem a milésima parte em importância da história que vou lhes contar. Assentemos todos.
Exibiu as folhas danificadas do livro e contou-lhes rapidamente o conteúdo do mesmo:
Um homem chamado Sebastião Pereira da Silva viajou do nordeste, exatamente de Córrego Seco para tentar a vida em São Paulo.
Deixou seu filho Tiãozinho, sua esposa grávida, seu irmão e cunhada com seus quatro filhos que mandaria buscar tão logo conseguisse condições financeiras para isso.
Passou vários infortúnios como ser escravizado nas fazendas de maconha no Mato Grosso de onde fugiu só conseguindo chegar a São Paulo muito tempo depois.
Iludido e enganado por um traficante de drogas que se fazia passar por comerciante de arroz conseguiu trabalho. 
Ele viajava com frequência trazendo arroz de Goiás para São Paulo sem saber que conduzia muita droga escondida na carga.
Tal trabalho e muita economia possibilitaram-lhe conseguir dinheiro suficiente para mandar que sua família viesse encontrar-se com ele.
Enviou-lhes o dinheiro e eles vieram. 
Antes, porém registraram as crianças ainda sem certidão e como Tiaozinho tinha morrido na ida de Córrego Seco a São Pedro o recém-nascido irmão que era eu foi registrado com o nome dele. 
Sebastião Pereira da Silva Filho era o outro, mas eu assumi o lugar.
Na viagem de retorno de Tião de Goiás para o encontro com os seus que já estariam chegando em São Paulo aconteceu o pior. Sofreu grave acidente próximo a capital.
No socorro uma enorme quantidade de droga que ele trazia escondida foi descoberta e ele foi internado para após sua cura ser interrogado e delatar todos os traficantes.
Nesse ínterim chegou sua família que não o encontrando foi sofrendo todas as desventuras que qualquer família analfabeta, sem recursos e sem orientação sofre na cidade grande, gerando a perdição de todos.
Começou comigo que fui roubado por um mendigo que posteriormente abandonou-me à morte no lixo próximo a igreja de Vila Madalena.
Os demais conforme a narrativa sempre de forma cruel foram um a um desaparecendo.
Tião anos depois já em liberdade acabou encontrando o ladrão de seu filho e no afã de obrigá-lo a dizer o paradeiro da criança assassinou-o violentamente conseguindo sua confissão e o local onde abandonara o nenê muito tempo antes.
Não conseguiu recuperar o filho no local indicado e esgotando todas as possibilidades de encontrá-lo acabou perdido na vida e conforme a exigência da sarjeta, do desamparo e do desespero se transformou em ladrão.
Posteriormente praticou todos os crimes hediondos possíveis morrendo em minhas mãos, feliz por ter-me reconhecido e vendo-me realizado na vida porque eu era um dos médicos que o assistia.
Descobriu-me formado em faculdade que sempre fora seu sonho para si e sua família, justificando seu enorme esforço ao gritar Consegui, antes de morrer.
Conforme já havia conversado com você Carlos sempre julguei tê-lo visto em algum lugar e até isso está narrado no livro quando de meus encontros com ele.
Ambas as vezes que saí de casa a sua procura ele também me procurava e de fato nos encontramos sem nos darmos conta de quem éramos.
Só pode ser premonição.
Quem interrompeu dizendo tal frase foi Sra. Selma que ouviu em desagravo Dra. Tereza falando:
Esse negócio de premonição é besteira inventada em sua religião. Se Zinho encontrou-se com seu pai foi por obra do Milagroso Senhor Jesus que tudo pode a assim quis.
Deixem de discussão as duas. Trata-se apenas de grande coincidência.
Que é isso meu filho. Não acredita mais no Senhor Nosso Pai?
Nem em seus orixás?
Não se trata disso, apenas creio que muitas coisas são obras do acaso.
Foram seus guias espirituais que o levaram a seu pai.
Nada disso. Foram minhas orações e as dos pastores da igreja com Senhor Deus.
A altercação entre as mães antagônicas continuou com ambas tentando induzir o filho passar para seu lado. Coisa que foi impossível, pois ele irredutível não acatava nenhuma delas provocando a observação de Eliana.
Eu que agora sou católica vou dizer que foi Santa Eduvirgens ou a Nossa Senhora dos Desamparados quem fez o milagre. E daí? Como fica? De quem foi o mérito? Isso não tem a mínima importância. Por favor, senhoras mães ainda não perceberam que o tratamento feito pelos psiquiatras curou totalmente meu irmão a ponto de ele não mais ser obrigado a pensar e julgar conforme lhe determinam?
Ele começou, para nossa felicidade, ter seus próprios conceitos e opiniões, portanto parem de tentar incutir bobagens em sua cabeça que graças aos médicos não entram mais asneiras ditadas por ninguém.
Desculpem-me a intromissão entre vocês, mas como nós psiquiatras sempre tivemos necessidade de estudar sobre os conceitos das grandes religiões explico-lhes sem medo de errar que a fé e a crença religiosa é um comprometimento subjetivo e cada pessoa individualmente tem o arbítrio de optar por uma ou outra e até trocá-la segundo sua conveniência.
Pode inclusive não ter nenhuma religião ou religiosidade.
Até mesmo pode ser ateu por falta de crença ou por concepção filosófica.
Ninguém por motivo algum deve questionar a crença ou descrença de outros. Cada um deve cuidar apenas e tão somente de si próprio nesse sentido que é a única maneira de satisfazer sua fé adequadamente. 
Infelizmente muitas pessoas em todas as religiões se tornam radicais, fanáticas e intransigentes julgando-se os donos da verdade imaginando-se o próprio Deus.
Quando um dos principais seguidores de Freud, o sueco Carl Gustav Jung, resolveu abandoná-lo e fundar sua própria escola e teoria criou o que chamamos de inconsciente coletivo que atuaria sobre o indivíduo ao lado de seu inconsciente individual. 
Jung saiu explicando toda essa teoria, que realmente tem um conceito aceitável e praticável mundo afora.
Graças a ela que aconteceram vários tratamentos de psicologia, de psicoterapia e análises em grupo, auxiliando muitas pessoas desviadas de comportamentos adequados.
Funciona muito bem no combate ao alcoolismo e aos drogados que trabalhando em grupo exercem tal conceito. 
Infelizmente foi graças a ela também que proliferaram como vemos atualmente o grande número de mágicos ilusionistas e hipnotizadores iludindo incautos e principalmente a grande quantidade de templos, igrejas, terreiros e seitas com varias denominações ganhando rios de dinheiro na confecção e venda de curas, milagres ou maldades e matanças como se fosse uma enorme fábrica desses produtos.
Isso gerou uma série de complicações, pois pessoas espertas, mas não corretas andou aplicando tal teoria sobre as pessoas hipnotizando-as ou fazendo-lhes lavagens cerebrais e incutindo suas idéias e aspirações como sendo as únicas certas levando os mais ingênuos e crédulos acatá-las. Depois ainda os obrigam a lutar por elas tentando sem a devida perspicácia aliciar outros interferindo na vida deles prejudicando-os e principalmente molestando-se a si próprias sem se dar conta disso.
Informo-lhes com certeza que não são as pessoas originariamente tendentes a insanidades que procuram a cura nos cultos e sim que são as religiões e seitas que desarrumam o cérebro de seus fiéis induzindo-os a recorrerem a nós em desespero.
Afirmo-lhes que jamais fui procurado e também nunca tive conhecimento de nenhum ateu convicto que procurou psicólogo, psiquiatra ou analista para tratamento de nenhum tipo de demência mental.
                                  Dr. Jarbas foi interrompido por Dra. Tereza que falou:
Viu o que aconteceu ao ateu do meu marido? Morreu de câncer, após viver anos e anos pregando o ateísmo.
Acha que só os ateus morrem de câncer? As igrejas estão lotadas de seus fervorosos fiéis pedindo e pagando alto custo por suas curas de tal doença, mas sempre acabam mortos ou mutilados por elas.
Após a morte de Siddharta Gautama que criou o budismo na Índia. Seus seguidores denominaram-no de Buda, fizeram sua imagem e até hoje, espalhados pelo mundo afora, colocam-na virada de costas para a porta de entrada das casas com um pires com arroz e algumas moedas para tal Deus trazer riqueza, saúde e paz para suas casas.
Não é assim que procedem os budistas? 
Essa prática já existia a mais de quinhentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo, ou seja, há mais de dois mil e quinhentos anos. 
Alfabetizados na Índia não chegam a 50% da população.
A saúde é um caos centena de vezes pior que aqui.
É um dos paises mais pobres da terra.
Os católicos dizem que só pobre entra no reino de Deus e, no entanto milhares e milhares de católicos pelo mundo afora são milionários. Deveriam desfazer de seus bens e tornarem-se pobres, mas não o fazem e nem mudam de religião. Ao morrerem vão geralmente para o fundo da terra e jamais algum voltou para dizer onde estava.
O próprio vaticano que orienta tudo é só riqueza e recebe de muito bom grado altíssimas contribuições dos endinheirados para ficar mais rico. 
Se os espíritas fossem tão poderosos como proclamam fazendo macumbas em bonecos espetados para matar ou ferir qualquer um, bastando para isso apenas que o solicitante pague o exigido, jamais a África teria seus filhos sido feito escravos pelos brancos, pois antes disso eles teriam exterminado seus opressores, apenas com esse poder descomunal que lhe é apregoado.
Os evangélicos são os que mais divulgam a tal grande capacidade do espiritismo como sendo uma seita maléfica para culpá-la de tudo que acontece de ruim com as pessoas. Ao mesmo tempo em que se proclamam como muito mais poderosos e os únicos capazes de desatarem seus feitiços. Nada fazem, entretanto arrebanham milhares de pessoas em seus cultos para angariar seus dízimos alegando que um a um salvará a todos de seus demônios.
Porque não usam tal poder superior para de uma só vez converter todos os espíritas transformando-os em evangélicos? Acabariam de vez com as macumbas, mortes, alcoolismo, tabagismo, roubos, doenças e todos os outros males do planeta.
Não o fazem simplesmente porque se assim pudessem não teriam mais em quem botar a culpa dos problemas do mundo e muito menos teriam os incautos para fornecerem-lhe seu suado dinheirinho. 
Depois desse espetacular discurso gostaria de deixar claro que ninguém tem o direito de interferir na religiosidade ou falta desta de ninguém.
Está como meu finado marido a pregar-nos o ateísmo?
Está totalmente enganada. 
O Jorge era ateu simplesmente por não crer que nenhuma religião e não por decisão.
Iguais a ele existem aos milhares que vivem a discutir religião tentando criticar os crentes e tementes a Deus como se ser ateu tratasse de uma religião melhor.
O filósofo e romancista francês Jean Paul Sartre deixou-nos sua doutrina do existencialismo para quem quiser assimilá-la e usá-la gratuitamente.
Em sua essência diz que o homem sofre a influencia não só da idéia que ele tem de si próprio, mas também de como ele pretende ser.
Esses impulsos orientam a pessoa para um determinado tipo de existência, pois um indivíduo não pode ser outra coisa senão aquilo em que se constitui.
Em outras palavras a gente é exatamente o que a gente determina ser e nada mais, sem nenhuma entidade superior ou inferior a nos moldar. 
Ele nunca sugeriu ou tentou induzir ninguém a assim pensar, pois sua própria companheira de muitos anos Simone de Beauvoir sempre agiu de maneira oposta, pois por ser ativista feminista sempre doutrinou as mulheres na luta pelos seus direitos sem que ele jamais interferisse.
Sartre só não recebeu o premio Nobel de Literatura de 1964 porque o recusou. Indicado e vencedor ele foi.
Esse fato não prova sua competência e sabedoria?
Nunca li em nenhuma literatura tal prêmio ser oferecido a algum criador de religião ou seita.
Li pelos movimentos de seus lábios Dra. Tereza que tentou mencionar Gandhi, mas engoliu as palavras.  Estou certo?
Ele foi um líder nacionalista. 
O maior expoente da doutrina não violência chefiando a campanha da “desobediência civil sem armas” que culminou com a independência da Índia.
Jamais fez religião e tampouco recebeu nenhum Nobel.
Antes que alguém reclame informo que Luther King embora tenha sido um Pastor Batista no mesmo ano que Sartre ganhou e recebeu o seu Nobel da Paz, mas por seu comando nas ruas como líder negro na luta também não armada contra a segregação racial americana. Não foi por seus feitos religiosos.
Aliás, ambos tiveram o mesmo fim. Foram assassinados. 
Obrigado pela interferência de Eliana e também de Dr. Jarbas que foi muito esclarecedor e cujas explicações puseram um ponto final nessa história. Não é minhas mães? Para sempre?
Agradeço de todo coração aos pais pretos por ao acharem-me terem ficado comigo, pois se me entregassem ao juizado eu jamais encontraria meu pai na ocasião morrendo num hospital e minha mãe, meus tios e primos mendigando a esmo a procura dele que se encontrava desaparecido. 
Seria inevitável minha adoção por qualquer um que talvez não me desse a cura e o amor e carinho que sempre recebi de todos vocês.
Serei eternamente grato aos pais brancos que além de amor me deram boa educação, pois jamais a teria se fosse encontrado e criado pelos infelizes e despreparados Tião e Josefa.
Com a leitura desse livro consegui descobrir minha família.
Agora mais do que nunca preciso de todos vocês para ajudarem-me encontrar o escritor desse livro para sabermos de fato o que tem de verdade e de ficção para eu poder fazer alguma coisa aos que porventura ainda existirem.
O autor do livro identifica-se como O Ciuffi que aparece em várias passagens da história definido como Velho gordo, careca e de barbichas brancas.
                         Imediatamente Eliana ligou seu celular pedindo silencio aos demais.
Alô fofo querido. Aqui é Eliana.
...............
Seu velhaco. Continua gozador e atrevido.
...............
Trata-se de um assunto muito sério e importante. Foi você quem escreveu o livro Paraíso?
...............
Se é bom? 
Se for bom é seu. Caso contrário não? 
Seu sacana. Não faço a menor idéia. Ainda não o li. 
É seu ou não é seu? Eis a questão.
................
Claro que o escritor não está identificado com seu nome senão eu saberia.
.................
Acontece que é de autoria de um tal de O Ciuffi nome que me é totalmente desconhecido. Você o conhece?
.................
É lógico que sei que devo procurar a editora, mas no livro o autor sempre aparece na história identificando-se como Velho Gordo, Careca e de barbicha branca por isso liguei logo para você para tentar ganhar tempo.
Sua bruxa. Sou gordo com muito prazer. Tenho centenas de milhares de cabelos brancos, mas não sou careca e muito menos velho.
                                  Tal resposta foi dita pelo famoso e excepcional artista, entrevistador e escritor tão alta que foi ouvida pelos demais na sala mesmo não estando o telefone em viva voz.
Beijos. Qualquer dia a gente se vê para você provar-me que não é velho.
Com certeza nos veremos sim, mas não é para provar nada, pois você já está assiduamente verificando minha possante e potente juventude.
Não precisava gritar isso. Todos aqui ouviram. 
Deixou-me envergonhada. Até outro dia meu ídolo adorado. Beijos.
Não era necessária tal ligação minha irmã, pois eu vi o escritor no dia da morte de meu pai e sei que não foi o seu amigo. Não se parece nada com ele. É muito diferente.
A primeira tentativa de encontrar o autor caiu por terra. 
Pouco depois o enviado que Dr. Souza mandou procurar exemplares do livro chegou com pelo menos duas dúzias deles que foram entregues aos presentes para serem distribuídos aos demais membros das famílias para todos lerem a história e tirarem suas conclusões.
A conselho de Dr. Carlos Dr. Sebastião ficou no hospital em um apartamento para o repouso que se fazia necessário, pois ele nada descansara nos últimos dias e os demais retiraram-se com seus livros.
Dr. Sebastião dormiu muito, só acordando quinze horas depois e ficou sabendo que todos, sem exceção, tentaram conseguir o endereço do autor do livro, mas não obtiveram êxito porque a editora conforme cláusula do contrato de edição estava proibida de divulgar seu nome e sua residência.
Passados alguns dias que Dr. Sebastião, seus irmãos de criação e vários amigos procuravam o escritor nada famoso e incógnito, sem nada descobrirem foram desanimando-se, a ponto de vários deles desistirem.
Fizeram inúteis visitas ao local de Vila Maria mencionado na história, mas estava totalmente diferente do narrado no livro. Acharam muito estranho, pois o livro foi publicado há pouco mais de dois meses após a morte de Tião, que também era recente, por isso não havia tempo suficiente para tudo ter desaparecido na referida rua e arredores.
Encontraram apenas o Shopping Center já velho e ultrapassado. O restaurante dentro do mesmo há anos já não pertencia ao mencionado Paulinho e seus atuais donos não sabiam de seu paradeiro, pois nem o conheceram.
Informaram que souberam que após um roubo que o mesmo sofreu em seu depósito muitos anos antes fê-lo falir e ele mudara para lugar ignorado.
A farmácia onde Luiz trabalhava também desapareceu.
O movimentado bar do Zé que todos frequentavam e que fora palco da comemoração do lançamento do livro onde estava?
Conforme a história ambos os locais ficavam em frente ao shopping, mas lá estava apenas um grande e luxuoso teatro já construído conforme informações da vizinhança há mais de dez anos.
E o prédio próximo onde morava o Velho gordo qual seria?
Eram muitos os condomínios que ali apareceram como num passe de mágica. Enormes edifícios residenciais e comerciais por todos os lados. Todos fechados em seus portões eletrônicos sem possibilidade de conseguir qualquer informação de porteiros que as poucas vezes que eram encontrados, bem orientados e treinados em segurança, jamais disseram onde morava um homem chamado O Ciuffi mesmo sendo descrito como Velho gordo, careca e de barbicha branca. 
Sebastião pensava inconsolável: 
Será que sua real aparência era diferente, assim como seu verdadeiro nome?
Lembrava-se de ter visto um velho gordo careca e de barbicha branca no hospital, mas tal homem poderia nada ter com o caso e não passar de um gordo velho qualquer como tantos que existem. A possibilidade de encontrá-lo estava muito difícil.
Já acreditava que nunca o encontraria, mas ainda mantinha a esperança de o autor ser realmente conforme se descrevia em seu livro e o acaso poderia auxiliá-lo, por isso mantivera-se de plantão nas imediações por vários dias tentando a casualidade que infelizmente nunca veio ajudar.
As buscas continuavam até a desistência de todos os demais, mantendo apenas Dr.Sebastião na estranha procura de pessoas e locais existentes até bem pouco tempo que surpreendentemente desapareceram há muitos anos inexplicavelmente.
Passaram-se dois meses da incessante investigação quando o filho mais velho de Maria Luiza, irmã adotiva de Dr. Sebastião por parte dos pais pretos, com apenas 11 anos de idade desvendou o enigma conversando com a mãe.
Como decidi ler o livro que você tanto fala com meus tios e meus avós sobre a família de tio Zinho acabei descobrindo o óbvio que nenhum de vocês adultos viram. Leia essas folhas que explicam tudo.
                                  Em seguida mostrou as folhas dobradas por ele no livro Paraizo: 
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O ASSALTO
 
Tudo decidido conforme combinado Sebastião e companheiros chegaram de carro na frente do bar na sexta feira as vinte e duas horas.
O bar do Zé fervilhava de gente.
Efetuaram o assalto que como previsto não houve reação e o fruto do roubo muito bom.
Conseguiram vários relógios de ótimas marcas e originais.
Grossas correntes e pulseiras de ouro maciço.
Montanhas de cartões de crédito, talões de cheques, vales de refeição e vários outros documentos, que seriam usados para golpes futuros.
Muito dinheiro.
Nenhuma arma.
Aqueles granfinos bestas não portavam armas.
Nem sombra do procurado.
Naquela noite o Velho gordo, careca e de barbicha branca não tinha aparecido.
No assalto Sebastião tinha rendido o Paulinho e insistiu em saber onde estava o Velho e com isso deixou bem claro suas intenções.
Como se não bastasse a impressão deixada, no ódio que estava naquele momento de tremenda decepção falou claro que tinha ido lá para matá-lo.
Por esse motivo com certeza o Velho nunca mais iria se expor.
De caça passaria a caçador, pois poderia com a polícia descobri-lo como fez em outras vezes em lugares diferentes.
Sempre que ele fazia algo errado lhe aparecia à frente saindo do nada.
Acreditava ser mais fácil o Velho gordo encontrá-lo do que ele ao Velho, por isso, mesmo a contra gosto desistiu de seu intento de matar tal homem e decidiu esconder-se.
Nunca mais praticou nenhum crime com o bando nas imediações.
Satisfez-se em pensamento e com o desejo:
O câncer não o matou. Eu também não, mas felizmente a velhice vai matá-lo logo. Está muito velho o demônio.
Aquele cretino imbecil já tinha passado da hora de morrer pela idade.
Logo, logo irá para os quintos do inferno.
Continuou sua vida de malfeitor por muitos anos.
Atualmente era o manda chuva de quase toda vila.
Era ele quem permitia a entrada de novos assassinos, assaltantes, sequestradores e ladrões de carro dando-lhes guarida e apoio para suas atividades.
Seus dois amigos já estavam mortos por isso era único dono do restaurante que tinham montado anos antes de se tornar o grande poderoso chefão da quadrilha.
Um morreu de AIDS e o outro assassinado por um dos moradores que o flagrou com sua companheira e sua filha adolescente em sua própria cama.
Matou todos e suicidou deixando duas crianças órfãs que foram adotadas por famílias da própria vila.
Jonas Cardoso dos Santos novamente atendia por Sebastião Pereira da Silva.
Há tempos já assumira sua real identidade.
Jamais casou nem amasiou.
Nunca teve filhos. Sempre evitou que isso acontecesse.
Seu sonho quando ainda jovem e recém chegado a São Paulo tinha sido para uma brilhante e bem sucedida família Pereira da Silva através da educação estudo e trabalho.
Atualmente estava cheio de dinheiro e de poder conseguidos de maneira criminosa durante muitos anos.
Não deixaria herdeiros para suceder-lhe nesse ridículo sucesso que nunca pretendeu.
Apenas aconteceu.
A sarjeta fez com que assim fosse.
O Inferno de São Paulo auxiliou muito.
O que de fato sempre quis nunca conseguiu.
Sebastião já velho não assaltava mais.
Recebia parcela dos lucros entregue pelos mais de duzentos criminosos que protegia, apadrinhava e comandava.
Era o comprador dos objetos roubados que vendia com altos lucros a comerciantes próximos à Estação da Luz e à gang chinesa de contrabando da Galeria Pajé.
Receptava os roubos dos asseclas por preços muito melhores que qualquer receptador da cidade.
Ajudava com dinheiro famílias mal sucedidas.
Não deixava ninguém passar necessidade de remédios e alimentação em sua fortaleza.
Tal atitude proporcionava-lhe uma imensidão de amigos que dariam a vida por ele se assim precisasse.
Na pequena região entre as rochas também impenetrável pelas autoridades o domínio era do pessoal do tráfico de maconha, cocaína e outras drogas que ainda mantinham-se rivais de Sebastião em poder.
Antigamente eram os traficantes que pretendiam apossar-se da vila inteira para terem mais espaço e conforto em suas atividades criminosas do tráfico de entorpecentes.
Atualmente com Sebastião no poder da outra gang a situação mudou.
Era ele quem pretendia apoderar-se do comando das drogas e unificar as duas atividades sobre seu domínio.
Tráfico de drogas se ganha muito mais dinheiro que assaltos.
Ganham-se verdadeiras fortunas.
Sebastião queria também esse poder. Tentava de tudo.
Muitas pessoas importantes da outra facção que eram seus desafetos apareciam mortas.
Por esse motivo Sebastião era jurado de morte pelos chefes dos traficantes.
Tinha conseguido muitos amigos, mas também esses grandes inimigos muito mais poderosos que ele em dinheiro, mas infinitamente inferior em homens por isso não conseguiam ultrapassar seus limites para eliminá-lo.
O velho Tião só andava rodeado por quatro elementos fortes e bem armados pagos por ele e chefiados pelo amigo Alberto, o poderoso Negrão, exclusivamente para sua segurança vinte e quatro horas por dia.
Dormiam em sua casa em turnos para proteger-lhe a vida.
Que evidência mostra essas páginas?
Pô mãe. Ainda não viu o inconfundível?
Então leia a última página e veja se descobre, pois está ainda mais claro. 
A NOITE NO BAR
 
Nessa mesma quinta feira 12 de setembro um dos fregueses do bar Anarquia Total procurou pelo Baiano dono do bar para fechar o ambiente por sua conta para festejar o ingresso de seu filho na faculdade de direito, mas soube que tal noite estava por conta de outro.
O próprio Velho gordo, careca e de barbicha branca que estava no local convidou-o e aos futuros advogados para a noitada que seria dele e seus amigos em comemoração ao termino de seu livro Paraizo, que logo estaria nas bancas e nas livrarias.
ACABOU
Agora é impossível não ter percebido. 
Acho melhor mostrar sua descoberta a seu tio, pois eu nada entendi.
É burrinha mesmo em mãezinha?
Explico-lhe. Nas primeiras páginas que lhe mostrei está escrito:
O assalto no bar do Zé foi planejado com a finalidade de se darem bem, mas o maior interesse de Tião ou Jonas como queira era assassinar o Velho gordo. 
Foram bem sucedidos na pilhagem, mas Tião não conseguindo matar o Velho acabou desistindo por receio de ele precavido o encontrar com a ajuda da polícia por isso nunca mais apareceu naquele local.
Na história refere-se a seguir que se passaram muitos anos e foram acontecendo muitas coisas com o Tião, seus comparsas e o local onde viviam até quando ele já velho parou de assaltar. 
Jamais fora mencionado nada com relação ao bar do Zé, seus frequentadores e as imediações.
Portanto o andar do tempo foi ocasionando as mudanças em tal região conforme vocês já descobriram pessoalmente.
Mas e a festa recente da comemoração do término do livro não foi no bar do Zé?
Claro que não. Tal bar já foi demolido e há muito tempo já é um teatro no local, conforme vocês mesmo já descobriram.
E onde foi a festa?
Foi em outro boteco qualquer chamado Anarquia Total de algum baiano por aí que o Velho gordo passou a frequentar depois de acabar o bar do Zé.
Repare na última página que um dos fregueses do bar Anarquia Total procurou Baiano dono do bar para alugá-lo e fazer a festa de seu filho e não ao conhecido Zé que era sempre mencionado como dono do bar sem nome, muitos anos antes.
O velho referiu-se a comemoração com muitos amigos não citando nome de ninguém, portanto está muito claro de entender que se refere a outro bar com outro dono e possivelmente com outros amigos.
Todos vocês estão imaginando o local hoje como sendo o mesmo que fora muito tempo atrás.
Agora entendi. Tudo que se referia ao lugar foi muitos anos antes da morte de Tião que com o tempo foi modificando, até ser o que é hoje.
Exatamente sabidinha.
O próprio Velho gordo sem saber da desistência do assassino em dar cabo dele pode ter mudado para outras bandas longe dali e estar frequentando outro bar desde aquela época com outros amigos. 
Está ficando espertinha.  
Você é ótimo meu filho. Vou já falar com o Zinho sobre isso pelo celular.
Maria Luiza orgulhosa da esperteza do filho não só informou a Dr. Sebastião como a todos os envolvidos nas buscas sobre a solução encontrada sabiamente pelo filho que infelizmente não foi agradável a Dr.Sebastião, mas era o resultado correto.
Não foi sapiência do menino, mas grande falta de inteligência dos adultos que não tinham enxergado o óbvio.
Nada mais podiam fazer a não ser esperar pelo inesperado. Todos voltaram a suas atividades normais e continuaram suas vidas.
Dr. Sebastião após cessar as buscas ingressou na faculdade de direito para formar-se advogado e como trabalho dava aulas de química, física e biologia em vários cursinhos e faculdades da cidade.
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Ele jamais ligou ao celular de Dra. Rosa que há muito já esquecera, pois aquela atração física tão intensa tinha apenas provocado a súbita e desenfreada paixão já inexistente. Fora somente uma tara animalesca em busca do prazer carnal, sentida e praticada por ambos.                                  
Ao afastar-se no aeroporto naquele dia o fez embaraçado e receoso não por tristeza de perder a amada e sim por perder a amante. A melhor e mais abrasadora de todas as fêmeas que copulara.
Ela também nunca o procurou embora tenha chorado na despedida. Suas lágrimas escaparam não pela perda do amado, mas por saber que não mais seria possuída animalescamente como fora, pelo macho que tanto a agradou.
Seu pranto fora rápido, pois naquele mesmo dia, pouco tempo depois, experimentou o sentimento de raiva por ter se entregado na hora indevida e à pessoa errada, conforme seus conceitos. Eles não se conheceram devidamente.
Nunca trocaram palavras de carinho, de amizade para seus conhecimentos mútuos. Não houve um simples flerte, nenhum beijo roubado ou aquele aperto de mão trêmulo, suado e demorado que fala através dos poros. Nenhum daqueles olhares profundos fixos nos olhos, tentando ver-se através deles direto a alma um do outro tentando descobrirem seus segredos íntimos.
Ninguém sentiu aquele gostoso frio na barriga quando se viam.
Jamais houve aquela olhadela desobediente, bisbilhoteira e fortuita a certas partes de suas anatomias que evidentemente também se faz necessário. Nunca se coraram de vergonha quando flagrados por isso. A tentativa de ler ou transmitir seus pensamentos foi inexistente entre eles. Seus ouvidos nunca escutaram os sussurros quase inaudíveis de “eu te amo”. 
Tudo que é imprescindível ao inicio do amor e ao sucesso do mesmo não existiu entre eles. Aconteceu inicialmente somente convívio de médico com paciente por sinal bastante prejudicado pelo macho ardente de desejo e da fêmea sempre no cio esperando desesperadamente ser possuída. Eles apenas exalavam seus odores lúbricos do sexo como qualquer animal inferior e não a fragrância saudável espargida por quem está amando. 
Passado esse inicio foram direto para satisfação desenfreada da volúpia do sexo. 
Tão velozmente como tudo aconteceu, desapareceu.
Dr. Sebastião pensou em reaproximar-se da última noiva. A linda arquiteta que lhe voltou a lembrança.
Ele guardava ótimas recordações dela que foi seu último e verdadeiro amor. Tal sentimento voltou a tornar aceso em seus pensamentos, pois agora sabia que não a abandonaria, pois tinha de fato o desejo de casar-se e constituir família.
Telefonou-lhe discretamente e descobriu que a jovem já estava casada. Não se queixou e desejou-lhe felicidades quando se despediram. 
Agora era outro homem e seria até melhor recomeçar do nada. Entristeceu-se um pouco, mas tinha consciência que ainda haveria tempo para entregar-se de corpo e alma a outro amor. Ainda era jovem. 
Entre as colegas de faculdade ou professoras ou mesmo entre suas alunas encontraria alguém a quem faria e seria feliz. 
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Algum tempo atrás, quando a aeronave que levava Dra. Rosa, irritada e desgostosa com o rápido, impuro e desastrado romance, pousou em Paris deixou-a imediatamente feliz por estar iniciando um dos vários passeios de seus sonhos.
Já instalada em um luxuoso hotel descansava absorta em suas lembranças do passado recente prometendo que jamais se envolveria com outro homem.
Ao mesmo tempo se imaginava uma velha de horrível aparência sozinha na vida sem filhos e netos.
Odiou com o mesmo vigor tanto a promessa quanto à imaginação que a incomodaram durante as primeiras noites provocando-lhe insônias.
Em seus passeios diurnos nada mais relembrava ou imaginava tamanha era a alegria resultante de suas visitas aos extraordinários locais até então desconhecidos que passaram a fazer parte de sua vida ao sol.
Mesmo com o cansaço do bem vivido dia não adormecia logo chegando à beira da depressão que não lhe permitia as lembranças dos passeios maravilhosos conseguidos na claridade. Melhor seria não dormir e assim começou fazer.
Aos poucos as noites começaram a ser também confortáveis à medida que passava a frequentar excelentes endereços noturnos.
Tais horrores e medos, ao substituir o sono pelo passeio dissiparam-se aos poucos tranquilizando-a. Sua excursão pela capital francesa foi maravilhosa frequentando todos os lugares que pretendia como o magnífico museu do Louvre, a torre Eiffel, a catedral de Notre-Dame, o admirável Palácio de Versalhes e todos os demais castelos encantados, casas noturnas, cassinos, restaurantes, hotéis e et cetera que lá estavam exuberantes para as surpresas e encantamento dos visitantes. Frequentou tudo que somente os turistas muito ricos como ela, podem conseguir.
Conversou com muita gente interessante e educada como métrês e gourmet de restaurantes, gerentes de lojas, de butiques, de joalherias, de hotéis, guias de passeios e excursionistas de vários lugares do mundo.
Conheceu também muitos franceses e italianos audaciosos que não titubeavam em frequentemente assediá-la “à francesa”. De forma repentina e atrevida, sem rodeios e diretos aos indecorosos convites deixavam-na enraivecida, muito mais que com seus amigos psiquiatras do Brasil que ela sabia tratar-se mais de brincadeiras abusadas que de verdadeiras seduções.
Tinha voltado ao hábito de suas roupas atraentes, pois não abria mão de ser fascinante, mas continuava inconsequente em não suportar aos apelos sexuais que constantemente recebia não pelo despudor dos europeus que sempre eram induzidos pela convidativa e provocadora postura que ela insistia em manter. Era ela quem não lhes deixava alternativas.
Sempre irritada e hostil em bom francês ou italiano os repudiava um a um que se afastavam apavorados sem entender o porquê da agressividade da moça maravilhosa e altamente ousada na gratuita exibição de sua formosura.
Não só passeou em Paris como viajou por toda a França.
Visitou Chartres ao norte do País às margens do rio Eure ficando encantada com suas belezas.
No Mont Blanc nos Alpes franceses esquiou pela primeira vez na vida.
No estuário do Gironda deliciou-se com seus magníficos vinhos fabricados artesanalmente desde a idade média. 
Ainda no sul da França conheceu Marselha e Lyon, mas foi em Nice em um luxuoso hotel resort no Mediterrâneo que conheceu um grupo de artistas que lá estava fazendo um filme. Uma turma que além de muito divertida era agradavelmente simpática e atraente.
Ela aproximou-se do pessoal que conversava em português sem o sotaque de Portugal imaginando-os brasileiros.
A saudade da pátria a fez procurá-los fazendo amizade com um casal muito risonho que tomava suco de frutas em uma mesa próxima à piscina cheia de gente saudável e bonita. 
A linda moça era atriz no Brasil e chamava-se Rosa como ela.
Apresentou-a ao companheiro DoReMi.
Que apelido estranho? É músico?
Não. Sou ator. Meu nome é Domingues Regis Miguel, espanhol, mas moro no Rio já há algum tempo.
Você brasileiros têm o hábito de juntar as primeiras sílabas dos nomes das pessoas formando apelidos muito estranhos como o meu. Não acha?
Quando eu era adolescente abreviaram meu nome para Rô. 
Rosa é um nome pequeno e bonito. Para que mudar?
Rô não é tão menor que Rosa. Nada significa e nem a identifica. Fica vazio e sem sentido.  
Mania nossa de simplificar os nomes.
Pois saiba que conheci um fotografo chamado José Sá e era chamado de JS. Repare que quando pronunciamos seu apelido usamos oito letras.  Diminuiu ou aumentou?
Foi trocado José Sá por Jota Esse. Você está certo. Deixamos de falar seis letras para pronunciarmos oito. Realmente não houve diminuição e sim aumento.
O José Sá em um rápido almoço conosco apresentou-nos a irmã Yara Sá, e ainda bem que não tiveram tempo de apelidarem-na de YS.
Já contou a quantidade de letras de teríamos de pronunciar para a pretensa abreviação?
Quase dobraria a quantidades de letras a serem pronunciadas.
Não é uma besteira como nesses casos, no meu, no seu e talvez praticamente em quase todos? 
Vejo que ainda não se acostumou ao Brasil.
Nós brasileiros somos assim mesmo. Cheios de incoerências, mas o país não é de todo ruim. Excetuando-se os políticos temos incontáveis pessoas interessantes além de lugares pitorescos e maravilhosos para usufruir.
É claro que sim. Considero um país grandioso e lindo e um povo muitíssimo hospitaleiro e alegre. Amo nosso Brasil. Só estou comentando isso porque acho meu codinome ridículo. No início quando reclamava mais me satirizavam. 
Chamavam-me FaSolLa. De clave de sol e outras besteiras mais.
Perdoe-me. Foi só um desabafo, mas já me acostumei e até aceito ser DoReMi. Pode chamar-me assim. Nada contra.
E você xará? É a namorada dele?
Não. Somos apenas colegas de profissão.
Formam um casal simpático além de muito bonito.
Gentileza sua.
Foi à resposta imediata e iguais de ambos os artistas, mas quem retomou a conversa foi DoReMi.
Somos obrigados a ser bonitos por exigência de nossa profissão. Passamos mais tempo cuidando do cabelo, da pele, do peso, da postura e do trabalho em si que só nos sobra poucas e raras ocasiões para namorar. Só rápidas fugidas e sempre às escondidas dos paparazzi.
Aproximou-se deles o ator Da Silva e a atriz fez as apresentações.
Este é Da Silva e essa é Rosa, mas para não a confundirem comigo trataremos por Rô que foi seu apelido quando pequena. 
Importa-se se a chamarmos assim?
Não. Afinal foi você a Rosa que chegou primeiro. Atrasei-me um pouco e devo contentar sendo apenas Rô. Tudo bem.
Houve a concordância, mas todos perceberam pelo tom da resposta a oculta recusa da aceitação do apelido já há muito esquecido.
Você está chegando agora para o elenco Rô, isto é Rosa Linda?
Quando Da Silva fez-lhe a pergunta corrigiu o apelido pelo nome acrescido de Linda que exigiu um gracioso sorriso da moça ao responder-lhe. 
Não. Não sou artista. Sou médica. 
Não acredito. Tão jovem e com toda essa exuberante beleza achei que estava vindo para assumir o papel principal no lugar da nossa velha Rosa.
Que é isso? Está querendo me dispensar seu intrometido. Por falar em demissão se não a quisermos vamos logo. Vejam que o pessoal já saiu da piscina e está indo para os ensaios.
Vem conosco Doutora Rosa?
Obrigada pelo convite. Ficarei por aqui mesmo, mas gostaria de vê-los novamente.
Assim que terminarmos nos veremos, pois gostei de estar consigo.
É muito gratificante o deslumbrado povo francês ver-me ao lado de uma mulher fascinante como você. 
Fico feliz por ter-lhe agradado Dominguez. Saiba que os achei maravilhosos. Todo o elenco é assim?
Assim como?
Cativante, brincalhão, educado e respeitador. Não os imaginava assim.
Temos algum motivo para não ser?
Dra. Rosa ficou envergonhada pela descompostura passada por DoReMi, mas sem nada demonstrar sorriu-lhes acenando com a mão em despedida.
Ficou saboreando um especial vinho francês e pensativa os julgava.
Embora odiasse ser seduzida sentiu-se insatisfeita por não ter atraído nenhum dos atores.
Apesar de terem enaltecido sua beleza, o fizeram com respeito sem demonstrar nenhuma pretensão além da simples amabilidade.
Maliciosa lembrou: DoReMi disse que no pouco tempo que tem para namoros o faz escondido. Porque não às claras?
Pensou: Talvez por ser promíscuo e pervertido. Será que são gays? Há quem diga que no meio artístico existem muitas libertinagens.
Olhou para o grupo de astros que se dirigia ao teatro e reparou que praticamente todas as mulheres se vestiam e andavam atraentes e provocantes como ela e imaginou que entre eles o fascínio seria processado por outras formas e não pela exposição sedutora do corpo.
Da insatisfação passou para o contentamento, pois sentiu que com eles estaria a salvo dos inconvenientes conquistadores baratos que muito lhe azucrinavam.
Não sabia por que fazia questão de atraí-los, para depois das ousadas investidas rechaçá-los severamente. Experimentava com isso certo prazer estranho e se perguntava com muita frequência: Serei sádica?
Após algum tempo reencontraram-se e foi apresentada à maioria do elenco e de todos ouviu galanteios a sua beleza sem nenhum abuso.
Já era final de tarde quando conheceu Helena a mais charmosa das moças e ela insistiu para que Rosa falasse com o diretor para fazer alguns testes para saber se tinha futuro com atriz.
Não. Não creio que eu tenha vocação para nenhuma arte querida. Obrigada pelo oferecimento, mas não aceito.
Pois eu acho que deveria tentar. Além de linda é extrovertida e inteligente. São os principais requisitos para se dar bem no cinema, na televisão e no teatro.
Bondade sua.
Vou apresentá-la ao KK.
Carlos Carvalho ou Carlos Carneiro?
Nada disso. O apelido vem de Caio mesmo. Seu verdadeiro nome.
Francês?
Não. É brasileiro, mas mora aqui já há algum tempo. Sempre o tratamos por KK. 
Todos vocês moram aqui?
Não. Residimos no Brasil, mas KK sempre nos convida para filmes e comerciais que faz para a televisão francesa.
Os europeus adoram nós brasileiros. Acham-nos atraentes e sensuais. Principalmente em biquínis que sempre foi a maior ousadia brasileira. 
Vocês realmente são lindas.
Nenhuma de nós chega a seus pés.
Lisonja sua. Se eu fosse tão bela como você talvez tentasse mesmo ser atriz.
Deixemos de bajulações e vamos falar com KK. 
O grupinho formado por dois atores e três atrizes encaminhou-se com Dra. Rosa ao diretor para apresentá-la.
KK. Queremos que conheça nossa mais nova amiga brasileira.
Prazer em conhecê-la e se desculpar-me lhe darei maiores atenções logo mais, pois estou muito atarefado e não posso desconcentrar-me do assunto que trato com Gerard. Em uma hora estarei com vocês para o jantar.
Até logo chefe.
Despediram-se voltando a mesa onde saborearam vinho italiano de ótima procedência além de sucos de frutas e licores espanhóis caseiros, aguardando a vinda do diretor que após terminar o trabalho dirigiu-se direto para seu apartamento no hotel sem reunir-se com os amigos que o aguardavam. Sequer olhou para a enorme mesa onde estavam a sua espera. 
Dra. Rosa reprovando tal procedimento comentou:
Muito metido e arrogante esse tal KK.
Ele é assim mesmo.
Insuportável e desprezível?
Não. Muito educado e gentil, mas totalmente desligado do mundo. Com certeza nem se lembra mais o que falou com Gerard quando saiu do set. Acha que iria lembrar-se do que combinou conosco uma hora antes?
Achei-o ignóbil.
Não é não. Ele é maravilhoso. Você vai gostar dele.
Continuaram juntos e jantaram no restaurante do hotel e o diretor não apareceu. Deveria estar trabalhando em seu apartamento literalmente ligado a seu computador até altas horas da madrugada, alimentando-se com salsichas, batatas fritas e bolachas recheadas com chocolate que é sua refeição predileta.
À noite todos se retiraram para suas respectivas suítes. 
Bem cedo ao nascer do sol, Helena, Rosa, Gerard, e DoReMi, no café da manhã ocuparam a mesa onde já estava Dra. Rosa.
Os demais atores ocuparam outras mesas em grupos de seis pessoas.
Como de costume com muito atraso chega Caio que ao ver uma cadeira vaga na mesa deles aproximou-se inquirindo-os:
Não me apresentam a jovem bonita? 
Outra vez?
Como outra vez?
Já lhe apresentamos Rosa, muito antes do horário do jantar e você prometeu estar conosco, mas não se dignou sequer a um alô de despedida e foi dormir. 
Está louca Helena? Nunca vou dormir na hora do jantar e Rosa eu já conheço desde que morei em Vitória há mais de doze anos. Bem antes de conhecer você.
Refiro-me a jovem que nos acompanha.
Repito-lhe. Chama-se Rosa. É médica, mas está dando um tempo no Brasil e viaja a turismo pelo velho continente e informo-lhe que ela ficou muito decepcionada por você ter prometido vir estar conosco no jantar de ontem e não veio. 
Sim. Sim. Sim. Não me lembro de ter dito isso, mas se você diz que eu disse me desculpa. Maravilha. Bom mesmo. Excelente. Prazer em conhecê-la novamente.
Satisfação.
Posso sentar-me?
É claro. Se impedirmos nosso querido chefe de ficar conosco quem iríamos aceitar?
Enquanto o diretor ajeitava-se entre DoReMi e Rosa abraçando-os Helena cutucou a médica pedindo-lhe que prestasse atenção e dirigindo-se a Caio perguntou-lhe:
Qual a cor da cueca que colocou esta manhã?
Indeciso o cineasta se olhou. Disfarçadamente tentou abrir o zíper das calças para verificar.
Desistindo em seguida olhou ao redor meio abobalhado e simplesmente respondeu:
Nem me lembro se coloquei cueca ou não. No chute digo que é branca. Todos riram e Helena e Rosa ao mesmo tempo disseram a médica.
Não lhe falamos que ele é desastrado e maravilhosamente distraído.
Porque fizeram tal pergunta idiota sobre minha cueca?
Porque nossa amiga ficou decepcionada com seu desrespeito de ontem em deixar-nos a sua espera e nós quisemos provar-lhe que não foi desagravo seu e sim total descuido de sua parte, seu desligado.
Desculpe-me imensamente. Reconheço que sou um pouquinho esquecido.
Todos voltaram a rir inclusive a médica que se sentiu melhor sabendo-o tão interessante como os demais e realmente nada detestável como imaginou. Percebeu que ele era totalmente alheio a qualquer percepção que não fosse às determinadas por seu evoluído, criativo, porém catastrófico cérebro. Ela sabia que excentricidade é a doença dos gênios.
Mal que todos nós normais desejamos ter, mas não nos é permitido. 
Ao mesmo tempo em que Caio se desculpou levantou de seu lugar dirigindo-se a médica para dar-lhe um carinhoso beijo na face.
Ela que sempre se assustava quando da aproximação de um homem desviou o rosto com um brusco movimento instintivo com a finalidade de defender-se e teve o afetivo, respeitador, porém quente beijo encontrado exatamente seus lábios.
Desconcertado com o incidente o cineasta novamente pediu desculpas repetidas vezes totalmente corado de vergonha voltando em seguida para permanecer abraçado a Rosa com um braço e ao DoReMi com o outro. 
Rosa naquele instante gelou ao sentir os lábios ardentes do diretor em sua boca entreaberta pelo susto. Sentiu seu hálito cálido e saudável com aroma de café com creme irlandês e um forte arrepio subiu-lhe pela espinha e ainda com o rosto queimando como brasa julgando ser causado pela raiva que sentiu pensou em algo enérgico para repreender tal afronta. 
Logo se recuperou e vislumbrando mentalmente a cena concluiu:
Fui eu quem inadvertidamente mudei a posição do rosto para que acontecesse tal beijo inesperado e descabido. Aconteceu apenas um selinho sem nenhum desrespeito ou ultraje e mesmo assim ao acaso. Conforme dizem seus amigos, deve ter sido somente mais um dos catastróficos acidentes que normalmente acontecem com o cineasta. 
Acusou-se ao reconhecer que nesse caso foi com grande ajuda de seu próprio desastre ao virar-se para o lado errado. 
Falou baixo e afetuosamente:
Você está desculpado. Todo o erro foi causado por mim e sou eu quem lhe pede desculpas pela constrangedora situação.
Após tal argumento se levantou e foi até ele dando-lhe a face para receber o cordial beijo que fora a pretensão do cineasta. Brincalhão o ator DoReMi fazendo mímica imitando um diretor de arte em ação gritou:
Corte a cena. Corte tudo. Principalmente essa segunda tomada que foi péssima. Repitam a primeira, porém com mais ardor e entusiasmo de ambos.Quero que esse beijo seja perfeito nem que tenhamos de passar vinte e quatro horas repetindo-o.
Muito riso por todos que estavam no salão de refeições do hotel que viram a brincadeira e tudo voltou ao normal. 
Dra. Rosa tornou a ocupar seu lugar na mesa e o jovem diretor que provocou tal inquietação passageira nela continuou ao lado oposto, numa posição que mal via seu lindo semblante agora não mais assustado e teso.
O restante de seu corpo ficava-lhe totalmente fora de visão.
Ela pensou aborrecida: Outro que não se precipitou para cima de mim e sequer olhou para meu decote quando me abaixei ao seu lado. Acho que nem viu meu mini vestido. 
Lembrou-se desconfiada. O beijo na boca não foi proposital, pois o desconforto que adveio ao diretor e seus pedidos de desculpas sinceros e honestos deixaram claro que de fato ele não tinha o menor interesse em tal ósculo. 
Refletiu: Será todo mundo Gay?
Enquanto conjeturava sobre isso via Gerard a seu lado que se mostrava com gestos e voz efetivamente afeminados.
Ele categoricamente era homossexual e demonstrava muito bem tal fato. Não deixava nenhuma dúvida.
Rodrigo Fábio não tinha trejeitos femininos, mas confessava-se gay e se insinuava constantemente a jovens turistas bonitos, mesmo com sua correta postura de homem, seu corpo atlético e sarado e sua voz possante.  
Critérios diversos de cada um.
Os outros se mantinham mais recatados para não dar na vista?
Afinal eram galãs de filmes e novelas e tinham a obrigação de mostrarem-se viris, pois geralmente interpretavam em cena como tal para o delírio das fãs.
Lembrou-se imediatamente do famoso astro de Hollywood, Rock Hudson que ao longo de sua carreira interpretou dezenas de garbosos galãs e somente muito próximo a sua morte com HIV, em seu livro biográfico o mundo ficou sabendo de suas loucas orgias com vários homens ao mesmo tempo em sua cama.
Terminado o jantar todos se retiraram aos seus aposentos. 
Rosa adormeceu e nessa noite teve pesadelos horríveis com todos os homens e mulheres que conheceu em sua vida satisfazendo-se sexualmente com todos incluindo-se os gays.
Ela só não copulou com Caio e Gerard que não apareceram em momento algum em seu devaneio.
Passados mais três dias Dra. Rosa já tinha amizade com todos os integrantes do elenco com os quais mantinha ótimo relacionamento de cordialidade e brincadeiras, pois os atores após seus árduos trabalhos só pensavam em divertir-se.
O comportamento deles era bastante alegre e saudável e suas piadas nunca alusivas a seu corpo deixavam-na ao mesmo tempo feliz e infeliz, pois jamais brincavam como seus anteriores amigos psiquiatras que sempre a irritavam ao mesmo que acariciava e satisfazia seu ego inconstante e inconsequente. 
Muitos foram os convites deles para a jovem tentar uma cena no filme como figurante, mas nunca aceitou por não julgar-se capaz.
Tanto Gerard como Caio exímios descobridores de talento garantiram-lhe que seria fácil para ela figurar no elenco. Eles percebiam tal aptidão encravada dentro de sua maravilhosa plástica, mas era impossível convencê-la.
Em todo o tempo o enigma com relação aos gostos sexuais dos atuais amigos permanecia intrigando-a. 
Pensou até que com exceção aos homossexuais, os demais já tinham perdido a virilidade e a libido, pois só pensavam em trabalho e diversão.
Talvez o excesso de bebidas, drogas e cigarros tenha apagado-os sexualmente. 
Entretanto lembrou-se que tinha reparado que raros eram os fumantes e bebidas ingeriam até menos que ela, que julgava não ser uma exagerada. Nunca percebeu ou soube do uso de entorpecentes pelos atores.
Independente de sua ansiedade sobre a sexualidade dos amigos que não sabia por que se interessava, ela realmente amou aquela gente, sem nenhuma exceção.
Caio que a principio lhe pareceu esnobe agora era tido em seu conceito como excelente pessoa e extraordinário amigo.
O sentimento de hostilidade que sentira anteriormente por ele não mais existia desde a brincadeira feita pelos amigos sobre a cueca e o beijo distraído.
Depois daqueles episódios já havia percebido o total descuido do rapaz com as coisas a sua volta, portanto ele estava perdoado inclusive do beijo enganado, que até lembrava com singelo carinho e meigo sorriso, pois reconhecia não ter sido atrevimento e sim acidente.
Ela nunca soube que o procedimento respeitoso de todos para com ela era sempre feito de maneira bem pensada, para evitar possíveis atritos. 
Eles já haviam percebido sua forma agressiva com vários turistas, quando se sentia ofendida por qualquer coisa que não fosse do seu agrado por isso a tratavam com delicadeza, respeito e principalmente com cuidado. Rápidas e escondidas olhadelas em suas coxas ou em seu decote já a colocava em guarda prestes a defender-se com unhas e dentes atacando o possível pretendente em assediá-la. Mesmo sabendo-a com péssimo gênio continuaram permitindo-a em seu convívio porque era linda, interessante e inteligente.
Tanto o diretor como o cenógrafo não queriam perdê-la de vista, pois sentiam que seu talento aprisionado escaparia a qualquer momento e teriam em seu convívio uma excelente e bela atriz com enorme possibilidade de tornar uma brilhante estrela. Uma celebridade.
Os atores não entendiam porque essa linda mulher que se mostrava bastante afoita no vestir, no andar ou no olhar convidativo enraivecia-se a uma simples aproximação mais pretensiosa.
Foram testemunhas de muitos desaforos ditos por ela a turistas desavisados que dela aproximaram-se mais impetuosos.
Presenciaram até uma agressão física quando ela esbofeteou violentamente um inglês, aparentemente muito bem educado que falou alguma coisa em seu ouvido. Ninguém soube o que foi dito e sequer lhe perguntaram. Apenas imaginaram o que teria sido dito.
Nunca tentaram um pueril beijo em sua face e muito menos um selinho em sua boca embora vontade para grandes e ardentes beijos e muitas outras coisas mais, ficassem contidas no âmago e nos abrasadores desejos de quase todos os homens daquele grupo.
Reconheciam ser impossível conquistá-la e julgavam que ela é quem gostava de escolher seus homens por isso todos aguardavam ansiosos em ser o eleito. 
Após alguns dias de convívio ainda pela manhã depois de mais de uma hora de desjejum, quando os atores se preparavam para os trabalhos Dra. Rosa despediu-se, pois pretendia passar o dia em Nice para só retornar a noite. 
oooOooo
Já na cidade vendo um casal de namorados abraçados e beijando em uma praça, vagamente lembrou-se do beijo que a deixou constrangida e mesmo esforçando-se não conseguiu lembrar exatamente se o que sentiu dias antes fora irritação ou outra emoção conhecida, mas não aceita.
Optou por considerar ter sido incômodo mesmo, pois sempre situações até mais amenas já eram suficientes para aborrecê-la muito. 
Decidiu permanecer em Nice e efetuar novos passeios em outros locais por isso comprou roupas, pois suas malas ficaram no hotel onde estava.
Telefonou para lá avisando que dispensava seus aposentos e solicitou-lhes que guardassem suas malas. Ela as procuraria num futuro próximo.
Conversou com o gerente informando-o que a restituição do dinheiro que previamente havia pago para um mês de estadia deveria ser repartido, destinando cinquenta por cento à uma festa de despedida oferecida por ela aos amigos brasileiros que em breve terminariam as filmagens e deixariam o hotel e o restante dividido equitativamente entre os funcionários do resort independentemente de cargos.
Tinha consigo seu cartão de crédito internacional sem limite, portanto poderia tais abusos assim como comprar tudo que pretendesse.
Visitou feliz, em outras cidades, várias praias além de hotéis fazenda durante dez dias, mas nos próximos dez que permaneceu viajando não encontrou prazer em nada. Conheceu um sentimento de total solidão e tristeza.
Sentia falta das brincadeiras, amizade, e carinho do grupo de atores que durou pouco tempo, mas que lhe marcou muito.
Nunca em sua vida tinha sentido tão descompromissada de qualquer convenção e totalmente segura entre um grupo de pessoas que não se comportava como os tarados dos seus amigos psiquiatras que em seu íntimo odiava e dos franceses e demais turistas abusados que sempre encontrava em seu caminho.
Tentava recordar o já antigo e estranho beijo dado por Caio, mas as lembranças dos detalhes de tal contato e do odor do rapaz já haviam há muito desaparecido.
Mal lembrava seu rosto e dos outros, mas estava arrasada, tamanho era a saudade daqueles dias maravilhosos e felizes. 
Inquieta e a cada momento mais nostálgica se imaginava atriz, pois aquele pouco tempo passado com pessoas tão desprovidas de qualquer tipo de abusos e preconceitos originou-lhe uma enorme vontade de permanecer com eles. Para sempre.
Recordou que Caio era inteligente, lindo, maravilhoso porte, educado, culto e dócil, exatamente o que imaginava como o homem perfeito.
Infelizmente era gay, mas isso não a aborrecia, pois ela predispunha em não querer mesmo mais nenhum homem em sua vida. Para ser feliz bastava a amizade despretensiosa do surpreendente diretor de cinema e daquele magnífico grupo de atores. 
oooOooo
Voltou ao balneário do Mediterrâneo para procurá-los, mas não os encontrou.
Satisfeita com a enorme gorjeta que lhe coube, quando da doação da hóspede, a recepcionista do hotel era toda falante e prazerosamente informou a Dra. Rosa tudo que lhe foi perguntado e muito mais coisas não indagadas. 
Contou-lhe que as filmagens do longa que duraram seis meses a dois dias tinham terminado e quase todo o pessoal voltara para o Brasil ou para seus paises de origem.
Que apenas Lia Mendes e Helena viajaram para o extremo norte do país para gravar um comercial de biquínis acompanhadas do cinegrafista Edson, do cenógrafo Gerard e do diretor KK.
Conforme informação da recepcionista eles ficariam em alguma praia de Calais no máximo uma semana para filmar o comercial. 
Teria de partir logo para encontrá-los.
A falante funcionária tagarelou que DoReMi logo que chegou atara romance as escondidas com uma jovem turista italiana e que foi com ela para Madri onde além de usufruir melhor tal romance visitaria seus parentes e amigos para só depois voltar para o Brasil. 
Segredou-lhe inclusive que ela própria manteve relações amorosas ocultas por diversas vezes com Da Silva e também com Edson, não o ator, mas o cinegrafista que viajou com Caio e sem nenhum pudor elogiou a performance de ambos os rapazes na cama. 
Informou mais, que tanto Rosa como Lia Mendes, atriz negra de fazer inveja a Taís Araújo e Camila Pitanga, encontravam-se na calada da noite com turistas que as levavam para outro local trazendo-as ainda na madrugada antes do sol nascer. 
Que até Mônica aquela loirinha linda que sempre se portava bastante recatada manteve em segredo algumas noitadas com o gerente do hotel e outras com um turista negro de Angola.
Em suas revelações não poupou quase ninguém do grupo, deixando isentos de suas acusações apenas Caio e Gerard.
Dra. Rosa ouvia calada todas as denúncias da atendente, mas ao perceber que as fofocas iriam terminar perguntou em voz baixa denotando segredo sobre Caio.
A moça pouco sabia sobre o diretor e disse-lhe apenas que só o via conversando com os atores ou então gesticulando e falando com Gerard sempre sobre o filme.
Informou que ele se recolhia a seus aposentos, geralmente após o jantar ou mesmo antes, lá permanecendo a noite toda, só saindo no outro dia sempre muito tarde para o café da manhã. 
Que sua grande permanência na suíte sempre foi considerado para fins de trabalho que duravam parte da noite, toda a madrugada e parte da manhã.
Debochada ela disse em tom bem baixo. Confidencialmente.
Só se ele transava pela manhã com as camareiras.
Fala sério?
Claro que não. Um gato daquele iria se sujar com velhotas e suadas faxineiras? 
Mas porque o espanto? Está afim dele?
Respeito senhorita. Trata-se de apenas um bom amigo brasileiro como os demais. Só lhe perguntei sobre ele porque delatou todos os outros sem que eu nada tivesse perguntado a respeito. Aguçou-me a curiosidade sobre ele também.
Mas satisfez-se em ouvir sobre os outros, pois percebi por sua expressão interessada e ansiosa demonstrando que gostou de saber tudo e até mais se eu me dispusesse em continuar falando. 
Boa noite senhorita e passe muito bem de preferência longe de mim, sua fofoqueira impertinente.
Desculpe-me. Achei que estava gostando do bate-papo. Não precisava ser tão grosseira.
Dando as costas à recepcionista mexeriqueira Dra. Rosa recolheu-se irritada a sua suíte lembrando que de fato gostou muito das informações embora se sentisse bastante aborrecida com tais intrigas.
Antes de adormecer refletiu sobre suas suposições a respeito dos atores pensando:
As meninas já me pareciam bastante femininas apresentando-se pelo modo de portar-se e de vestir até muito sugestivas aos homens e pelo tudo que acabo de saber definitivamente não são homossexuais. O DoReMi decididamente não é gay senão não encontraria as escondidas com a tal turista e tão pouco a levaria para a Espanha. Da Silva e Edson conforme informações eram sexualmente corretos.
Afinal com apenas duas exceções que eram Gerard e Rodrigo Fábio todos os demais tinham seus desejos sexuais normais conforme os conceitos éticos.   
Sobre Caio que nunca deu motivos e nenhuma mostra de ser sexualmente ativo e nem passivo permanecia a incógnita.
Nem a mexeriqueira sabia coisa alguma a seu respeito.  
Ambas apenas viam e sabiam que ele além de brincalhão e amigo fiel é desastrosamente muito distraído, ocupado e concentrado em seu dia a dia.
Gerard definitivamente é homossexual, mas como é o cenógrafo mais famoso da Europa sempre é solicitado pelo diretor para acompanhá-lo. Certamente por seu alto poder profissional.
Rodrigo Fábio também é gay, mas um excelente e reconhecido ator e talvez era convidado por esse predicado. 
Imaginou esses serem os motivos de sempre acompanharem Caio, que desprovido de preconceitos os aceita como são.
Pensava também: Ou será que Caio é como eles.  Promíscuo longe de seu trabalho para não perder o respeito dos comandados? Essa imensa dúvida me assombra. Acho que minhas suspeitas são infundadas. Ele deve ser tão homem como os demais que o são.
Refletiu demoradamente para se decidir. Se forem homossexuais ou não desde que continuem se dando ao respeito e respeitando-me como naqueles dias está ótimo. Eles são inteligentes, saudáveis, bonitos e isentos de convencionalismos idiotas. Nunca os vi discriminando nada e ninguém, portanto sendo machos ou bichas pouco importa. São ótimos. Gosto deles e por isso vou procurá-los. 
Não retirou suas malas do carro, pois viajaria ao nascer do sol. 
Bem cedo no dia seguinte pediu que colocassem no carro as malas que estavam guardadas e saboreando apenas um rápido café, viajou cortando o país por uma muito bem cuidada autoestrada no sentido vertical do extremo sul ao extremo norte.
O delicioso sabor do creme irlandês acrescentado ao café que ingeriu fez-lhe feliz por finalmente sentir o gosto daquele beijo inusitado e já distante até certo ponto saudoso.
Soubera que eles estariam hospedados em algum hotel marítimo no Oceano Atlântico próximo à cidade de Calais, exatamente do lado oposto de onde se encontrava, mas sabia que os acharia. Foi uma longa viagem que durou o dia todo. Hospedou em um flat na cidade de Calais já à noite para no outro dia procurá-los pelos elegantes hotéis a beira mar. Após visitar vários resorts suntuosos no Atlântico depois de dois dias por pura sorte, após perder-se embrenhando a esmo em desconhecidos sítios sem estradas definidas, procurando ajuda em um lugarejo encontrou-os em uma rústica pousada sem nenhum conforto. 
Todos a receberam com muito carinho e felizes pelo reencontro.
Eles estavam em uma aldeia de pescadores bastante retirada, cujas paisagens eram de uma beleza rude e selvagem, além da água do mar que de tão limpa era translúcida muito propícia às filmagens e fotos pretendidas.
Não tinham conseguido executar nada do trabalho, pois o mar estava muito agitado desde que chegaram. Empregaram o tempo aparentemente perdido para localizar os locais que usariam como palco. 
Encontraram como parte do cenário um local onde o mar indomado arremetia-se furiosa e ruidosamente sobre um enorme paredão de pedras tentando selvagemente invadir a terra, conseguindo apenas formar uma grossa neblina que subia uns trinta metros para depois voltar espalhada pelo vento num raio de cinquenta metros como uma enorme ducha de água morna. 
Outro local foi uma enseada com água cristalina cuja praia deserta tinha suas areias misturando-se harmoniosamente com a vegetação silvestre além de maravilhosas e altíssimas dunas.
Esse paraíso era um isolado e desconhecido recanto de pescadores da região que não permitiam a invasão de banhistas e nem o progresso da civilização, para não destruí-lo. A permissão para as filmagens além do alto preço cobrado pelos moradores exigiu em contrato assinado entre Gerard e eles a proibição da identificação do local sob pena de uma multa de altíssimo valor. 
Conforme informações meteorológicas somente no dia seguinte o oceano começaria acalmar para estar totalmente sereno no próximo dia que usariam para a execução do curta-metragem e fotos para o comercial.
Todos descansaram após o jantar e na manhã seguinte logo cedo foram para o mar. Passaram o dia todo brincando na água transparente e na limpa areia da praia da baía como velhos amigos.
Na tarde deste dia o mar já se mostrava bem tranquilo com apenas algumas poucas ondas mais violentas. Conforme previsto na manhã seguinte estaria calmo como uma grande piscina.
A filmagem do curta com as modelos de biquínis seriam no outro dia pela manhã e antes de retirarem aos aposentos Helena convidou Dra. Rosa a uma conversa a sós em uma mesa sob um guarda-sol de sapé.
Minha querida. Tenho uma revelação a lhe fazer.
Todos nós somos unânimes em concordar que seu corpo é maravilhoso, digno de ser filmado, fotografado e mostrado ao mundo principalmente em traje de banho.
E daí?
Daí que não poderei usar os biquínis ousados que serão apresentados. São lindos e extremamente sensuais. Última moda no Brasil. Aliás, iguais aos que você usa.Trouxe de lá?
Sim. Comprei no Brasil. São realmente belíssimos, mas o que tenho eu a ver com sua impossibilidade de filmar.
Começou minha menstruação exatamente hoje cedo, por isso, estou de maiô para esconder o tampax e não poderei usar os biquínis. 
Como não há mais tempo de convidarmos nenhuma modelo até porque jamais encontraríamos alguém com o seu corpo maravilhoso e seu porte elegantíssimo KK pediu-me que a convidasse para substituir-me. Que acha?
Por que ele próprio não fez o convite?
Achou que você poderia zangar-se com tal proposta feita por ele. Inclusive ao pedir-me disse: “Vocês mulheres se entendem melhor”. Falou também: “Ofereça-lhe o mesmo cachê seu ou até o dobro se for preciso, embora ela demonstre ser muito rica por ter-nos oferecido àquela festa de despedida, mas trabalho é trabalho. Sabe como é. Convença-a, senão estaremos perdidos”. 
Nunca desfilei em lugar nenhum. Nada sei sobre isso.
Não terá nenhuma necessidade de desfilar.
As fotos serão com você nadando. Correndo pela praia. Navegando em uma jangada. Deitada e sentada na areia. Encostada em árvores. Sendo arrastada dentro de redes, pelos próprios pescadores do lugar. Sobre as pedras onde o mar bate estrondosamente e et cetera.
Muitas imagens serão com você e Lia Mendes juntas. 
Tudo muito fácil para você. Basta apenas colocar os biquínis avançados e chiquérrimos que veio do Brasil e portar-se naturalmente.
Não há necessidade de nenhum texto, representação cômica ou dramática. Apenas deverá manter-se tal qual apareceu hoje na praia. Totalmente à vontade e linda como é.
Com certeza suas fotos farão mais sucesso que as dela que também é maravilhosa, mas não como você.
Não creio que dará certo.
Eu tenho certeza que sim. Vocês duas farão mais sucesso que Gisele Bunchen e Naomi Campbel.
Não arriscarei pôr tudo a perder.
Perdido já está, pois eu não poderei participar e somente Lia Mendes não demonstrará todos os trajes que foram devidamente desenhados e confeccionados para serem mostrados por uma branca e uma negra.
Como a tentativa de conquistar a médica não chegava ao fim o restante do pessoal aproximou-se delas e Edson colocou sobre a mesa muitas fotos que tirou das três jovens brincando na água exibindo-as as moças que verificaram seus desempenhos.
Foi Gerard quem falou:
Dra. Rosa além de tudo é também extremamente fotogênica. Está de parabéns.
Que fotos são essas?
Desculpe-me Doutora. Fui eu quem as tirou quando as vi brincando no mar. Um trio de mulheres tão bonitas como vocês não podem jamais passar a frente de um fotografo profissional, pois nenhum paparazzi resistirá a tentação de registrar suas belezas.
Às escondidas? Sem permissão?
Pode rasgá-las assim como apagar o filme de minha câmera que tudo desaparecerá no ato. São fotos que não serão usadas para nada. Foi apenas um ensaio descompromissado sem nenhuma intenção maldosa.
Apenas quis mostrar-lhe para ajudar Helena convencê-la que é magnífica. Se posar profissionalmente será remunerada decentemente como todas.
Não creio que deva.
Veja essas fotos com carinho e o filme que vou mostrar-lhe para provar que você se saiu melhor que as outras. Desculpem-me Helena Santos e Lia Mendes, mas é a pura realidade.
Ainda não estou crendo no que ouço.
Vamos ver a fita.
Edson mostrou-lhe o filme e perguntou:
Que achou?
Está muito bem feito. É um excelente profissional.
Quem é ótima é você e não eu.
Está entendendo agora porque insistimos?  O filme é digital, mas não foi para o computador para ser impresso.
Não há nada de retoques e nem precisará de Photoshop para nenhuma correção. Você é simplesmente maravilhosa. Não receio em dizer-lhe que é a mais perfeita dentre todas as mulheres que já fotografei.
Agora para provar-lhe que jamais farei uso desse material veja o que vou fazer.
Limpou o filme deletando-o imediatamente assim como todas as fotos de sua máquina foto-filmadora digital e logo após rasgou todas as já impressas em que Dra. Rosa aparecia. Conservou intactas apenas as das outras atrizes que lhe pediram o direito de tê-las como lembrança.
Voltou a perguntar a Dra.Rosa:
Então o que decide?
Ela permaneceu calada, perplexa e titubeante. Inesperadamente olhou para Caio aparentando um pedido de socorro e ele com voz baixa, engasgada quase inaudível disse como que implorando: 
Por favor, Dra. Rosa ajude-nos nessa tarefa. Com certeza será meu maior sucesso como produtor de publicidade e o seu se decidir abraçar a carreira.
A humilde e sincera súplica de Caio foi a gota d’água para convencê-la.
Tudo bem. Aceito.
Vamos comemorar.
Nessa noite deliciaram-se com um fausto jantar regado a champagne. Foi a primeira vez que Dra. Rosa se despiu de seu eterno escudo de mau humor com os homens participando de seus drinques com desejos de boa sorte. Como sempre foi a quem mais bebeu.
Sentia algum prazer em fazer uso um pouco além da conta da bebida, entretanto sem chegar a se embebedar mantendo-se sempre atenta.
Conseguiu dirigir-se aos homens sem receios e principalmente sem tentar seduzi-los para após isso relaxá-los.
Aquela íntima guerra que ela comandava como um bravo general contra o sexo oposto já há muitos anos, estava aos poucos perdendo forças naquela noite.
Pena que seu visto de turista esgotava e deveria retornar ao Brasil dentro de poucos dias para não tornar-se clandestina na Europa.
Na manhã seguinte fizeram as filmagens e fotos necessárias não demorando muito tempo, pois tanto Lia Mendes como Dra. Rosa saíram-se maravilhosamente bem em seus desempenhos quase sem cortes ou repetições.
A perfeição de seus corpos e a graciosidade e sensualidade de suas poses que foram apenas movimentos normais, exibindo os belos e ousados biquínis vindos do Brasil proporcionaram grande parte do brilhantismo do trabalho. 
As ásperas e selvagens paisagens aliadas aos figurantes não menos rudes com suas velhas jangadas e redes remendadas completaram o grande sucesso do comercial, gerando a pergunta de Dra. Rosa ao Gerard.
O filme ficou lindo, mas não foi muita ousadia sua usar tal ambiente? Não correria o risco de ficar ruim?
É claro que não. Há muitos anos tudo que faço uso ambientes insólitos e a aceitação pública sempre é das melhores.
Entretanto os mal cheirosos figurantes chegaram a provocar-me náuseas.
Se ficar dia e noite dentro do oceano também cheirará como eles. Não se trata de sujeira corporal, pois vivem permanentemente dentro da água. São até muito limpos. O cheiro que emana deles é o delicioso cheiro do mar. Ainda não estamos evoluídos ao ponto de lançarmos odores via filmes e fotos, portanto não há problemas aos que não gostam do aroma do mar.
Quem sou eu para questioná-lo?
Uma belíssima e promissora atriz e modelo, portanto fique a vontade com suas perguntas.
Então quero saber por que usou esse ambiente totalmente inverso ao do filme em Nice?
Porque lá a história exigia tais confortos e luxos. Além do que o roteiro foi de Caio e não meu como o daqui.
Os seus são sempre em lugares hostis?
Depois que aprendi a ótima lição com um conterrâneo seu, todos meus trabalhos passaram a ser em tais ambientes, que felizmente deram-me muito prestígio.
Que lição foi essa?
Quando Joãozinho Trinta, carnavalesco da escola de samba Beija Flor disse que o povão pobre estava cansado de tristezas e coisas miseráveis e feias, transformando suas fantasias e alegorias em absurdamente ricas, cheias de brilho e cores ganhou vários carnavais tornando-se um sucesso internacional.
Reconheci tal opinião e apenas inverti. Concluí que ricos e milionários deveriam estar cansados de ambientes e coisas requintadas e chiques e como ele, também me dei bem.
Pagou royalty ao Joãozinho?
Somos muito amigos desde então e isso nos basta.
A pergunta da moça entoava meio grosseira, por isso recebeu a resposta no mesmo tom de agressividade e encerraram o assunto.
Nessa noite a comemoração foi muito mais festiva, causando até uma ligeira embriagues no Edson que não se conteve excedendo-se no álcool.
Teve até direito a beijos. A descontração provocada pelo champagne e a felicidade experimentada pela jovem médica permitiu-lhe receber em seu rosto beijos afetivos e cordiais dos três homens sem nenhuma rejeição embora também sem nenhuma satisfação.
Festejaram o bem sucedido trabalho apenas até meia noite, pois no dia seguinte Helena e Lia Mendes voltariam para o Brasil logo pela manhã. Gerard ia para Londres e as levaria consigo, pois bastava atravessar o Canal da Mancha para entrar na Inglaterra. Iriam até a capital inglesa, pois seria uma viagem inédita às jovens além de muito mais rápida que se fosse por terra para o Aeroporto Charlles de Gaulle.
Os três recolheram-se cedo, assim como Edson já embriagado.
Caio só viajaria para Paris no dia seguinte após o almoço em seu enorme utilitário que usa para transportar os vários aparelhos de trabalho dando carona a Edson que ficaria com ele em seus estúdios editando e finalizando o comercial que seria exibido muito em breve por toda a Europa.
Para seu contentamento passou a noite toda em seu rudimentar quarto apenas com Dra. Rosa conversando durante toda a madrugada e toda a manhã até próximo a hora do almoço, entretanto sem nenhum dos dois revelar seus desejos que já afloravam. 
Depois almoço Caio viajou para sua casa, com Edson.
Dra. Rosa após a ida de todos partiu em seu carro para completar sua última semana do visto turístico percorrendo outros locais ainda não visitados antes de seu retorno ao Brasil. Desta vez não esquecera antecipadamente de trocar os números dos celulares com todos, assim como anotar o endereço de Caio e de Gerard em Paris e de Edson, Helena e Lia Mendes no Rio de Janeiro para localizá-los quando lhe interessasse. Seu endereço fornecido foi o de Ribeirão Preto, pois não se interessava em voltar para a capital de São Paulo. Lá nada mais a interessava. Iria colocar sua mansão à venda tão logo regressasse.
Ela definitivamente pretendia manter contato com esse pessoal tão atraente que apesar da má fama provocada por alguns eram em sua maioria muito inteligentes, simples, corretos, singelos e fieis amigos. Suas suspeitas com relação ao comportamento deles tinham mudado por completo.
Agora os julgava as pessoas mais honestas e despretensiosas que as de qualquer outra profissão.
Terminada sua turnê Dra. Rosa assim que chegou a Paris, ainda antes do dia clarear foi até o apartamento de Caio para despedir-se e voltar ao Brasil, mas não o encontrou pessoalmente e nem pelo celular.
Não conseguiu também falar com Gerard em seu telefone fixo e não se deu ao trabalho de ligar para o celular, pois se lembrou de que ele iria ficar muitos dias em Londres.
Melancólica iria regressar ao Brasil sem despedir-se dos amigos. Entretanto logo reencontraria as meninas e os rapazes que conheceu em Nice, na cidade maravilhosa. Seu vôo chegaria ao aeroporto Tom Jobim no Rio, descontado o fuso horário no final da tarde do mesmo dia onde ela permaneceria por dois dias para então ir para Ribeirão Preto.
Seu desejo era de muito em breve voltar à Paris com visto que conseguiria no Brasil para estudos de arte dramática e fixaria residência na bela cidade luz, pois iria definitivamente abraçar a profissão dos amigos.
Deixou escrito um bilhete na caixa de correspondência de Caio e instalou-se em um hotel para se preparar para a viagem cujo horário estava prestes a chegar. De sua suíte telefonou novamente a Caio deixando gravado na secretaria eletrônica do telefone fixo a mesma mensagem que já havia mandado por torpedo para seu celular. O mesmo texto foi transmitido por e-mail. 
Com absoluta certeza seu amigo saberia de suas intenções para o futuro próximo. 
oooOooo
Caio em sua rápida viagem que fizera a Londres, meio as pressas a pedido de Gerard havia deixado o celular que a médica tinha o número com a bateria descarregada em sua casa e viajou com outro aparelho por isso não se falaram.
                                  Ao regressar ao seu apartamento com Gerard, pela manhã próximo das dez horas tomou conhecimento do recado deixado por ela, que era em suas quatro formas exatamente iguais.
Os amigos leram e conversaram a respeito com a felicidade estampada no rosto de Caio que disse:
Finalmente ela começou a se declarar. Vou ligar imediatamente para ela.
Não conseguirá. Nem perca tempo. Não leu e ouviu que a esta hora ela já está na aeronave em pleno vôo? O telefone permanecerá desligado até o pouso no Rio.
Tinha me esquecido desse detalhe. 
Vejo que está cego de amores por ela.
E estou mesmo. Nunca me motivei em conquistá-la por medo da rejeição.
No que fez muito bem. Esqueça essa mulher.
Está louco Gerard?
Não. Estou maravilhosamente são. Louco está você em aventurar-se em outra enrascada.
Por que outra?
Já não foi suficiente aquela experiência amorosa com a alemãzinha que muito lhe machucou?
Já estou totalmente curado.
Pronto para outra?
Para outra não. Não pretendo outro desastre e sim a alegria plena.
Enquanto não aconteceu nada desista dela para o seu bem.
Por acaso você já amou grandemente uma mulher para saber que é quase impossível eliminar de dentro do peito da gente essa idolatria por alguém? 
Nunca aconteceu isso comigo.
Desculpe-me. Sua praia é outra. Refaço a pergunta referindo-me a algum homem? Já esteve perdidamente apaixonado por algum?
Repito a resposta. Jamais amei nenhum homem e para evitar nova indagação informo-lhe que nenhum gay também foi querido por mim. Jamais tive qualquer relacionamento íntimo com nenhum ser humano ou animal. 
Você? Com quase cinquenta anos de idade e nunca se enamorou de nenhuma pessoa e sequer experimentou o prazer sexual?
Nunca. Sou assexuado e jamais senti o estímulo do tesão que deixa tanto homens como mulheres e gays eufóricos.
Mas o problema em questão não se refere a mim e sim a você, portanto insisto em dizer-lhe. Esqueça-se dela. Ela não é digna de sua confiança.
Por que diz isso?
Porque tenho certeza do que falo. Ela tem problemas muito sérios de personalidade aliado ao amplo e agressivo desejo de poder proveniente de seu egoísmo. Ela é irritantemente possessiva e não aceita nenhuma negativa aos seus desejos. Sua Esquizofrenia Paranoide é tanta que a torna muito má. Chega a ser até diabólica.
Como assim? Por acaso é psiquiatra também?
Realmente sou. Formei-me na Universidade de Paris.
Sorbonne?
Sim. Mas por que o também? Por acaso formou-se médico?
É claro que não. Explico-lhe tudo, pois nem estou acreditando no que ouvi nesses últimos dias.
Fiquei pasmo quando Rosa contou-me sua história e agora vem você a surpreender-me, a todo instante.
Então é médico psiquiatra? Estou deslumbrado por saber tantas coisas em tão pouco tempo. Ainda há pouco disse nunca ter amado ninguém como se isso fosse possível. 
Às raras pessoas que nunca sentiram a libido isso é totalmente normal. Qualquer dia conto-lhe rapidamente sobre minha vida.
Agora o importante é convencê-lo de afastar-se definitivamente de Dra. Rosa pela verdade que já percebia e pelo que fiquei sabendo em Londres.
Antes de tentar subjugar-me eu é quem falarei sobre ela, pois no dia que viajou com as meninas para a Inglaterra passamos toda a noite juntos e conversamos até na hora do almoço.
Relacionaram-se sexualmente?
Não. Não houve nem beijo ou abraço. Sequer nos encostamos mesmo que casualmente.
Embora ela tivesse permanecido sentada em minha cama, teve o cuidado de colocar entre nós uma mesinha que tinha no quarto com uma cadeira do lado oposto, onde fiquei o tempo todo. Foi só conversa mesmo e no dialogo disse-me ser médica psiquiatra, por isso usei a expressão “também?” quando falou que você formou-se nessa profissão.
Concordo que ela é meio estranha e já que você é psiquiatra diga-me: Não seria conveniente um tratamento adequado para ela? 
É claro que sim, porém já que ela disse ser do ramo, mas bebe e muito, portanto remédio psiquiátrico não usa o que significa o seu desinteresse em tratar-se.
Deve satisfazer seu ego sendo como é e provavelmente não aceitará de ninguém nenhuma alusão sobre sua conduta, já que com certeza ela conhece seus problemas e não os vê como deficiências. Se você estiver com ela e com o tempo achar que poderá insinuar sobre seu comportamento, com certeza será humilhado, ofendido e abandonado sumariamente. Ela poderá odiá-lo e seu sofrimento será muito pior que se a abandonar agora que ainda não existe nada. Apenas uma idolatria imaginada e não um relacionamento amoroso de fato. Tudo é muito melindroso, pois todo e qualquer doente psíquico tem necessariamente ser consciente de sua situação, sentir-se mau com ela e desejar curar-se. 
Sabe que quando algum psicopata causa danos criminosos, por imposição da justiça submete-se a terapêutica, mas geralmente nunca leva a nada, pois tal pessoa não está interessada e nem preparada em curar-se.
Mesmo havendo o interesse do doente em sarar a cura definitiva já é muito complicada. Então imagine sem seu empenho? É impossível qualquer tratamento dar certo. 
Abrirei uma garrafa de vinho e vou acender a lareira para aquecer-nos, pois hoje aqui em Paris está muito frio.
Okey. Faça isso para continuarmos nossa conversa.
Enquanto Caio ausentou-se Gerard leu atentamente o bilhete deixado ao amigo pela médica.
Querido e inesquecível amigo.
Irei para o Rio de Janeiro no vôo das oito da manhã. 
Passei muito triste e aborrecida nesses últimos dias que fiquei só, porém serviu para certificar-me que não terei paz e tranquilidade se continuar vivendo longe de vocês meus atuais e únicos amigos, principalmente você. 
Só consegui despedir-me de Edson pelo celular, porém ele já está no Brasil e disse-me não saber sobre você e não saberá nos próximos vinte dias, pois logo mais, ainda hoje pela manhã voará para a Turquia a serviço de uma empresa brasileira.  
Não permitirei que nada nesse mundo impeça a contínua convivência que teremos a partir de meu retorno a Paris. 
Imagino-me junto de vocês não só como simples amiga. 
Nada me impedirá de ficarmos juntos para sempre. 
Caio. Serei sua gloriosa atriz. 
Sua predileta entre todas. 
Custe o que custar conseguirei como sempre consegui o que quis.
Deixei o carro que comprei aí na garagem do edifício que mora com as chaves com o manobrista.
No porta luvas encontrará os documentos do mesmo e o recibo de doação que fiz dele ao meu eterno e dileto amigo que inegavelmente estará aguardando ansioso meu retorno.
Não deixe de atender-me ao telefone, pois me desagradou muito não encontrá-lo pessoalmente e nem nos telefones.
Não me despedi também do Gerard. 
Nunca se esqueça de sempre avisar-me onde encontrá-lo. 
Volto em breve. Aguarde-me. 
Beijos saudosos a você e ao Gerard, pois ao pessoal do Brasil darei pessoalmente quando chegar ao Rio.
Sua eterna, 
Rosa.
Fogo acesso e vinho nas taças os amigos voltaram à conversa.
Preste atenção Gerard. Sempre foi meu confidente e sabe muito mais de minha vida que meu próprio pai, que eu acho uma pessoa boa e até interessante, mas nunca soube compreender-me. 
Pouquíssimas coisas de minha vida confiei a ele, desde a adolescência.
Sei que se respeitam, mas não sabia que não se gostam.
Pelo contrário. Amamo-nos imensamente, mas ele é totalmente voltado às coisas mais simples da vida e como eu sempre fui meio complicado e esquisito aos olhos dele nunca me expus muito.
Eu também primo pela simplicidade e você usa-me como seu fiel confidente sobre todas suas definições e indefinições. Por quê?
Porque você é inteligente.
E ele não é?
É. Até bastante, mas não sei o que acontece. Acho que ele exige demais. Está sempre buscando e querendo perfeição em tudo, sempre procurando as soluções mais simples possíveis. Nunca abusa e só procura o óbvio.
Por acaso você não é assim também? Herdou dele esse “defeito”.
Acontece que acho que sua senilidade o está prejudicando.
Ou será que é você que ainda não está em seu estágio de sabedoria e não consegue compreendê-lo?
Sei lá o certo. Pensa assim?
É o destino e o martírio dos gênios.
Nunca serem compreendidos e sempre discriminados e inferiorizados pelos normais.
Zomba nos chamando de geniosos ou elogia chamando-nos de geniais?
Seu pai imagino ser ótimo e quanto a você... Preciso responder?
Você é para mim uma eterna criança pródiga em contínua e rápida evolução que eu amo de paixão como a um filho, pois idade e vivencia para isso eu tenho.
Ainda a pouco me disse nunca ter amado ninguém.
Seu palhaço. Referíamos ao amor carnal ou animal e não a ternura singela e meiga que dizem vir do coração.
Da tal simples bomba sem nenhuma função a não ser pulsar para ejetar o sangue e que geralmente emperra provocando-nos a morte repentina ou a paralisia mórbida provocada pelo infarto. Muita gente atribui-lhe indevidamente os amplos poderes do cérebro.
É filósofo também?
Risos enquanto deglutiam o saboroso vinho tinto seco francês ao pé da lareira sentados em confortáveis almofadas de veludo verde escuro.
Voltando a conversa Gerard disse: 
Leu e ouviu as mensagens de Rosa e não percebeu nada além de uma possível confissão amorosa que absolutamente não houve.
Mas está muito claro que ela revelou que me quer não como simples amiga. E me deseja para sempre.
O amor transformou-o em surdo e cego, pois tudo está nítido para ser ouvido e lido.
Então ouça eu ler o que está escrito nessa parte da carta e diga-me se não estou certo. “Não permitirei que nada nesse mundo impeça a contínua convivência que teremos a partir de meu retorno a Paris. Imagino-me junto de você não só como simples amiga. Nada me impedirá de ficarmos juntos para sempre”.
Uma simples letra muda tudo. Repare melhor no que está escrito e se achar que foi borrão da caneta leia no computador ou na mensagem do celular e ouça na secretária que vai perceber assim: “Não permitirei que nada nesse mundo impeça a contínua convivência que teremos a partir de meu retorno a Paris”. Imagino-me junto de vocês não só como simples amiga. Nada me impedirá de ficarmos juntos para sempre. 
Ela não se referiu a você e sim a nós todos, pois escreveu e falou “vocês”, e não “você” como está pretendendo.
Sua intenção está clara que deseja ser atriz e já está exigindo-lhe exclusividade, determinando-lhe que deverá vê-la como sua predileta e para isso já começou comprando-o com o presente do maravilhoso carro.
Creio que tenha razão. Vou deixá-lo guardado em uma agência para devolvê-lo em sua volta.
Com certeza para conseguir seu intento ela terá que dominá-lo e já iniciou não só com o mencionado acima, mas também exigindo sua total dedicação a ela. 
Está decretando e exigindo sua incondicional devoção em aguardar sua volta, dizer onde está, para onde vai. Atendê-la em tudo e a qualquer momento que ela desejar. 
Não leu nada disso? Então leia tudo de novo e com atenção redobrada para entender corretamente.
Sinto informá-lo, mas se você atar este relacionamento estará arruinado emocionalmente, mas se esse é seu desejo acho melhor você aceitar o carro, pois em sua volta ela se irritará se tentar devolvê-lo.
Porém continuo insistindo. Caia fora enquanto é tempo.
Pensando bem e sabendo de sua própria vivência estou de fato chegando à mesma conclusão que você, pois ela teve motivos muito fortes para essa desorientação de personalidade e pelo que me explicou sua cura deve ser de fato impossível.
As causas que a prejudicaram infelizmente permaneceram desde que nasceu até a fase adulta.
Vou contar-lhe tudo que ela falou-me naquela madrugada.
Ela disse-me que sua mãe ficou viúva, grávida de sete meses e que tentou trabalho para sobreviver, pois seu pai nada deixara quando morreu. 
Como sua situação era bastante crítica, pois era apenas doméstica ou diarista nada conseguiu devido o estado adiantado da gestação, por isso viveu até seu nascimento como mendiga.
Que quando Rosa tinha seis meses, encontrou um novo companheiro que também se casou com ela, mas os maus tratos em ambas eram horríveis e as surras que ela sofria eram diárias até completar seis anos. 
Com essa idade ela começou a revidar agredindo o padrasto e ele passou a espancá-la com muito mais violência.  
Nessa época sua bondosa mãe com receio da filha vir a falecer pela brutalidade do homem, internou-a em uma escola de freiras para socorrê-la e lá ela permaneceu até completar doze anos quando foi devolvida para a família.
Uma senhora que mantinha trabalhos voluntários no local, sabedora dos problemas da menina, em concordância com a mãe levou-a para sua residência adotando-a extra oficialmente. 
Sempre em suas escassas e rápidas visitas a mãe que continuava vivendo com seu martírio ela tentava sem conseguir convencê-la de procurar a delegacia de mulheres ou mesmo a civil para prestar queixa crime.
Jamais conseguiu que ela praticasse qualquer ato em represália contra seu algoz.
Rosa odiava-o e delatou suas maldades a um investigador que foi à casa de Sra. Maria das Mercês confirmar tal situação.
Sua mãe, não se sabe se por medo ou por sua extrema bondade negou tudo e Rosa nunca pode fazer nada para salvá-la, a não ser odiar tal homem cada vez mais. 
Conforme ela disse tal aversão a todos os homens já existia desde criança. 
Rosa viveu com a senhora que a adotou até a idade adulta, muitíssimo bem, tendo direito a uma vida bem orientada, muito farta e excelentes escolas.
Quando estava prestes a formar-se médica psiquiatra teve a infelicidade de perder sua benfeitora por falecimento. 
Herdou dela a casa deixada em testamento, pois na partilha dos bens seus herdeiros de fato eram quem tomariam posse de todos os demais bens que seriam inventariados. 
Nessa época o padrasto de Rosa, para a felicidade de sua mãe viajava muito e as surras foram aliviadas pela sua costumeira ausência.
Também não se sabe como foi enriquecendo e juntando enorme fortuna, que ela tinha certeza ser por meios ilícitos, pois o dinheiro, os imóveis e os carros adquiridos sempre eram colocados em nome de sua mãe. 
Provavelmente o homem acreditava que essa prática evitasse o confisco caso alguma coisa não desse certo em suas atividades desonestas. 
Ele já não morava na mesma casa com a esposa. Sua atual residência era ignorada e o único motivo de ele procurar a mãe de Rosa era para fazê-la assinar cheques ou documentos para a compra ou venda de algum bem.
Já há algum tempo não a agredia e até mantinha-a com uma pensão financeira razoável e quanto a ela ele nunca procurou saber ou ajudar em nada. 
Pelo contrário proibiu determinantemente a mãe de recebê-la, alegando que se necessário fosse a mataria para que ela não interferisse em seus negócios, já que estando adulta e orientada pelos estudos universitários poderia delatá-lo, pois a sabia bem criada e com certeza ajuizada e honesta pela boa educação recebida da mãe adotiva.
Sra. Maria das Mercês obedecia-o fielmente e deixou de ter contato com a filha, até por telefone e ela mais se revoltava contra os homens. Disse-me não confiar em nenhum até nos conhecer. Que os detestava tanto a ponto de gerar situações que provocasse prejuízo a todos que a aborrecesse por qualquer motivo. 
O mínimo que fazia era menosprezar e ridicularizar a todos que pudesse, preferencialmente em público.
Disse ter feito muitas queixas crime por tentativa de assalto, ou estupro, et cetera, que ela forjava para assim parecer e sentia-se feliz e realizada com as trágicas prisões dos incautos que ela escolhia.
Ações por calúnias e difamações foram inúmeras, produzidas e inventadas por ela e uma amiga advogada, arrancando injustamente dos incriminados muito dinheiro que era dividido por ambas.
Com esse dinheiro ela sustentava uma vida boa no interior de São Paulo sem executar nenhum trabalho enquanto se mantinha estudando medicina e várias línguas.
A mãe ela já não procurava por solicitação da própria.
Inesperadamente seu padrasto foi morto pela polícia, por tratar-se de um dos maiores traficantes de droga, formação de quadrilha, prostituição e rapto de menores para o tráfico das mesmas para outros países.
Sra. Maria das Mercês telefonou para a filha informando-lhe o acontecido e solicitando ajuda nos procedimentos. 
Foi orientada por Rosa a não se apresentar como esposa, pois sofreria represália da justiça e principalmente para não perder toda a fortuna que agora era possuidora, pois tudo estava em seu nome.
Ela contou-me que em comum acordo com a mãe teve todos os bens transferidos para si, inclusive as contas bancárias, cabendo a mãe uma ótima poupança que lhe renderia dividendos para viver muito bem seus anos futuros.
Até a mãe ela desfalcou? 
Não se trata disso. Embora sua mãe ainda fosse nova não tinha estudos nem tino para negócios para usar devidamente o dinheiro.
Iluda-se o quanto quiser. Ela própria contou-lhe todas suas façanhas desonestas e criminosas e ainda a julga decente? Ela é simplesmente desprezível.
Ela me disse que quando deixou Ribeirão Preto e mudou-se para São Paulo procurou trabalho como médica psiquiatra para não ficar ociosa. Que até estava gostando da atividade e nunca mais fez nada criminoso, mas que odiava os colegas de profissão por serem muito sacanas.
Continuava mantendo seu ódio aos homens sem, entretanto prejudicá-los com prisões ou ações injustas, pois como já estava muito rica não precisava mais perder tempo com ações que eram muito aborrecidas. Satisfazia-se apenas depreciando verbalmente quem lhe incomodasse.
Com alguns tabefes também, pois já presenciamos isso algumas vezes. 
Está certo. Ela é violenta, mas confessou-me que após conhecer-nos tudo mudou e ela disse ter certeza que não será mais desajuizada.
E você também tem a mesma certeza?
Honestamente eu tenho minhas dúvidas.
Depois de enriquecer com dinheiro sujo, roubado de vários incautos e surrupiando o também sujo de sua própria mãe quer se passar por decente?
Não se iluda. Faça-a desaparecer de sua vida para seu bem.
Você está com toda razão.
O que pretende fazer?
Primeiro vou desativar o celular cujo número ela tem e vou solicitar urgente mudança do número do fixo além de mudar meu e-mail. 
Está certo. Pois a impedindo de se comunicar pode enfurecê-la a ponto de ela desprezá-lo rapidamente.
Acha que agirei certo? 
Faça isso já, pois ela deve estar chegando ao Rio e os telefonemas deverão começar logo.
Os e-mails e mensagens vão chover de tanto chegar. Nem vou ligar o computador. 
Concordo e digo mais. Já que está disposto mesmo a não vê-la em definitivo venda o carro e envie-lhe o dinheiro pelo correio no endereço de Ribeirão Preto que ela nos deu.
Isso não a irritará demais?
É claro que sim. Essa é a intenção. Além de fazê-la odiá-lo ela vai continuar julgando-o gay como sempre imaginou por nada entender de pessoas educadas e respeitadoras, além de considerá-lo insubordinado às suas ordens e o abandonará para sempre o deixando em paz.
Por falar em gay conte-me sua história agora.
Por que falando em gay pensa em mim. Já lhe disse que não sou homossexual. Primeiro vamos terminar de resolver seu problema.
O que mais temos a fazer?
Ela irá procurá-lo por meu intermédio e do Edson que somos os únicos que moramos aqui em Paris.
Não se preocupe com Edson, pois antes de ir-me encontrar com você ontem em Londres conversamos e soube que hoje pela manhã ele viajaria para Turquia por longo tempo e isso ela inclusive já sabe, pois comentou nos recados que deixou.
Ela procurará o pessoal do Rio e eles podem passar o número de seu outro celular.
Exceto Záira, você, meus pais e meu irmão ninguém mais sabe esse número.
Então vai causar preocupação no pessoal que ficará sem contato consigo.
Eles ligarão para você e você diz que está em Londres e não sabe de mim.
Vai causar transtorno. Pode vir gente de lá tentando encontrá-lo. Ela própria.
O que fazer então?
Você não vem dizendo há tempo que pretende ir à Grécia encontrar-se com Záira. Está totalmente livre de qualquer trabalho, portanto vá logo para lá. Viaje amanhã após vender o carro e enviar o dinheiro de Rosa.
Mas essa viagem não está programada.
Qual o problema? Ligue para a menina que o espera e avise-a de sua ida.
Mas essa não é a hora de procurá-la.
Por que não? Esse é momento exato. Nada há de mais perfeito para curar-se de um grande amor que arrumando outro.
Se Rosa lhe telefonar o que fará?
É só ficar ouvindo, pois meu celular está vibrando e deve ser ela, pois já deve ter chegado ao Rio. Enquanto atendo-a abra outro vinho e coloque mais lenha no fogo, por favor.
Rosa? Como está?
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Está no Rio? Caio está com você?
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Pensei que estivesse, pois estou em Londres e não consigo conversar com ele, nem no celular e nem no fixo.
Grosseira. Desligou-me na cara sem sequer perguntar como estou.
Fez isso?
Já começou aborrecer-se só por não ter notícias. Imagine o que lhe acontecerá se ficar com ela e não a obedecer como um cãozinho dócil. 
Não tenho mais nenhuma dúvida que tenho de impedir a presença dela.
Amanhã depois do almoço desapareço por uns tempos na Grécia, onde irei reatar meu grande e verdadeiro amor que ficou meio congelado, nesses longos meses das filmagens.
Então boa noite que eu vou para casa dormir.
Nada disso. Acabei de abrir outro vinho e só dormirá depois de contar-me sua história prometida, que imagino ser espetacular. Você dorme aqui no quarto de hospedes e inclusive me ajudará amanhã na venda do carro e no envio do dinheiro que não sei como fazer nem uma coisa nem outra.
Novamente meu telefone chamando. Deve ser ela outra vez.
Olá Rosa. Infelizmente sumiu o contato quando falávamos.
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O que?
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Impossível. Só estarei em Paris depois de amanhã. 
Novamente desligou-me na cara após duas abusadas frases.
A primeira quando eu disse que o contato sumiu, ela asperamente confessou que havia desligado intencionalmente.
Tentei dar-lhe a chance de parecer educada e ela fez questão de admitir a deselegância. 
A segunda era a exigência de que eu voltasse imediatamente de Londres para localizá-lo em Paris e ordená-lo que lhe telefonasse imediatamente.
Veja só. Que mulher é essa? 
Além de desaforada e indelicada ela não faz uso do termo e do ato de pedir. Ela só sabe exigir e dar ordens. Que vá procurar seus machos.
Assim falando Gerard desligou seu celular para não mais se aborrecer e desculpou-se com o amigo.
Sinto muito o que disse sobre ela, mas não tenho mais paciência.
Não dá mesmo para tentar coisa alguma com ela. Agora me fale sobre você.
Minha história não é nem um pouco interessante a ponto de ser referência para nada.
Mas mesmo assim quero saber. Para amanhecer temos ainda muitas horas.
Pretende usar minha vida para algum filme de quinta categoria? Pelo que sei até hoje só fez filmes de ótima qualidade.
Não se trata disso. É apenas curiosidade sobre você que se mostrou muito surpreendente hoje. Aliás, pensando bem com certeza posso tirar subsídios para um excelente filme.
Por falar em filme lembra-se de Eliana produtora de televisão e cineasta no Brasil?
É claro que sim. Ela é extraordinária.
Eu era adolescente quando ela em plena glória internacional como uma das mais requisitadas modelos abandonou a carreira para dedicar-se ao cinema e televisão no Brasil.
Pois é. No dia que cheguei em Londres estive com ela em uma reunião e ela disse-me ter lido um livro várias vezes, com o intuito de descobrir certos mistérios que tal livro escondia que acabou gostando da história.
Contou-me dos tais enigmas e de vários incidentes acontecimentos no Brasil relacionados com a história e deu-me um exemplar para analisar.
Já o leu?
Sim.  
E daí? É bom? Se ela pensa em fazer um filme com certeza deve ser interessante.
Creio que não será possível fazer tal filme, pois não descobrem o escritor para negociar os direitos.
Algum desconhecido? É brasileiro?
Sim. Brasileiro e totalmente desconhecido e escondido. Há muitos meses procuram-no e nada de o encontrarem. Ninguém do meio literário procurado jamais ouviu falar dele.
Estranho. Geralmente após a edição de um livro o que o autor mais se preocupa é em aparecer para divulgá-lo, dar autógrafos, fazer festinhas e et cetera e tal, principalmente se esse foi o primeiro lançamento. 
Pois é. Esse ninguém sabe quem é e nem onde encontrá-lo. 
Vou apanhar o livro para mostrar-lhe.
                                  Gerard abriu sua mala de viagem tirou o exemplar do livro e mostrou-o a Caio que caiu na gargalhada.
Ficou maluco? Por que a risada?
É por causa do livro.
Que tem ele de engraçado? Sua narrativa é tremendamente trágica, muito mais própria para chorar que para rir.
Não se trata da história, mas sim do autor.
E ri por quê? Por acaso o conhece?
Há muitos anos. 
Quem é ele?
Meu pai.
O que? Seu pai?
É isso que ouviu. Esse livro foi escrito por ele durante mais de trinta anos. Começou-o bem antes de eu nascer. Pelo que percebo finalmente conseguiu terminá-lo.
Não estou entendendo mais nada. Você conhece a história também?
Há muito tempo. Só o final que não sei como ficou. Não é a história de um nordestino que foi para São Paulo a procura de melhor vida para si e sua família e foram se dando mal e um a um morrendo de forma sinistra? Não é isso?
É isso mesmo.
O grande problema do velho era quando e como matar o tal de Tião para terminar o livro e não conseguia.
Pois ele encontrou.
Como foi?
O Tião esfaqueado e mortalmente ferido foi levado à um pronto socorro e quem o atendeu foi seu filho Tiãozinho desaparecido ainda nenê no meio do conto.
O filho salvou o pai? Que final comum e previsível? Meu pai não foi nada criativo e competente.
Não é nada disso. O velho morreu. Porém expirou feliz pelo encontro com o filho que jamais tinha visto, mas que de alguma forma conseguira ser alguém na vida coisa que sempre fora o seu desejo.
Por que o seu pai não é encontrado?
Ele não gosta muito de aparecer. Geralmente até esconde-se quando é procurado.
Deve ser por outro motivo, pois aparecer ele até gosta por que vive entrando e saindo furtivamente no meio da narração.
Pode ser que tenha necessidade de esconder-se, mas não creio. Talvez sinta timidez em mostrar-se. É seu único livro e ele já está velho. 
Isso é incomum ao costume normal de quem produz alguma arte.
Pois é. Mas ele só escreve para passar o tempo.
Na verdade é seu hobby e sente muito prazer escrevendo, mas nunca mostrou intenção em publicar nada. Ou melhor, não tinha desejo, pois mudou seu pensamento publicando o “Paraizo”.
A capa foi criação minha há anos atrás.
A história é muito estranha, pois tem muito de realidade nela.
A escravidão humana nas fazendas de drogas, a grande repressão policial e as misérias do povo. Até hoje no Brasil infelizmente ainda é assim.
Não se trata disso. É sobre as personagens.
Como assim? 
O filho de Tião roubado e sumido no enredo que apareceu somente muitos anos depois formado em medicina para atendê-lo na agonia da morte existe de fato.
Agora sou eu quem lhe pergunto. Está louco?
Não.
Louco ficou o médico chamado Sebastião Pereira da Silva Filho quando prestou socorro a um esfaqueado que morreu feliz tentando abraçá-lo por reconhecê-lo como sendo seu filho desaparecido bebê, pois a aparência física e a fisionomia dele eram exatamente a mesma do moribundo quando jovem.  
Esse foi o final do livro?
Exato. Entretanto isso aconteceu de verdade em São Paulo em um hospital público. E tem muito mais coisas que soube por Eliana para contar-lhe.
Que mais?
Esse médico é irmão adotivo dela desde que foi achado abandonado em um lixo na porta de uma igreja, exatamente no mesmo santuário e na mesma data em que o livro narra o mesmo acontecimento com tal personagem.
Então o livro foi escrito mesmo pelo Tião e roubado por meu pai, conforme ele sempre dizia e inclusive conta em determinado momento da história. Cheguei a ler sobre isso, mas sempre imaginei invencionice dele. Aí está o pretexto para ele não aparecer. Não quer ser desmascarado.
Parece que tudo no livro aconteceu realmente.
Preste atenção que tem muito mais.
Esse médico que entrou em pane quando aconteceu o socorro ao assassinado é muito querido de um psiquiatra, tio de Eliana e consequentemente tio dele por afinidade.
Tal médico formou uma junta de profissionais competentes para acabar com os traumas rapaz. Conseguiram com psicoterapias modernas e avançadas curarem-no.
Entre eles teve uma psiquiatra que o jovem se apaixonou perdidamente.
Que tem isso? Isso é muito comum acontecer.
Calma para saber o que vem depois?
Eles viajaram para a Grécia em preparativos e conhecimento mútuo para o breve casamento, embora ela exigisse conhecer Paris.
Como o rapaz não mais a satisfazia cegamente, pois não se portava mais apático e obediente que era enquanto doente, descontentava-a querendo seu espaço e isso a irritou tanto que ela abandonou-o lá vindo sozinha para cá.
Não vai me dizer que foi Rosa?
Exatamente ela. Sua querida Rosa que de flor só tem os espinhos. Segundo Eliana a Doutorazinha só não deixou o rapaz mais maluco que antes porque a súbita paixão fora apenas carnal e nada de amor legítimo, desestimulando-o rapidamente, mas mesmo assim ela fez dele “gato e sapato” em poucos dias que ficaram juntos.
Que delírio. 
Uma coisa é certa. Realmente não dá mesmo para levar adiante nada com ela. Absolutamente nada. Nem sequer amizade. E por falar na fera ela parou de telefonar. 
Será? Seus telefones e o meu estão desligados. Garanto que estão cheios de torpedos.
A propósito você disse ter encontrado Eliana no dia que chegou à Inglaterra e isso já faz quase uma semana. Estivemos juntos ontem e hoje, porque não me falou nada antes?
Muito simples. 
Primeiro porque não tinha nenhum motivo para falar-lhe sobre o livro, pois por nada nesse mundo suspeitaria que você conhecesse o escritor.
Segundo porque precisava alguma motivação muito forte para comentar e falar-lhe as verdades sobre sua amada e lá em Londres nada sabia sobre sua situação exata com ela.
Terceiro porque foi somente ao chegarmos aqui que tomei conhecimento das exigências dela para ficar com você.
Nesse momento já planejava informá-lo o que já sabia e o que penso dela.
Por último, pois só soube dos crimes hediondos que ela cometeu, agora que você contou-me e por mais isso não poderia deixar de abrir-lhe os olhos.
Que mais soube por Eliana ou pelo livro de interessante?
Primeiro você deve ligar para Eliana e passar-lhe o telefone de seu pai para que o irmão adotivo dela que o está procurando há meses fale com ele, para saber tudo o que aconteceu de fato com a família dele.
Caio ligou para a colega cineasta explicando-lhe sobre as excentricidades do pai e solicitou os telefones de Dr. Sebastião para que seu velho entrasse em contato, pois infelizmente nunca fornecia o telefone ou endereço do mesmo por esquisitice e reivindicação do próprio.
Em seguida telefonou ao pai, pois no Brasil ainda era inicio de noite e o encontraria com certeza em algum boteco bebendo cervejas.
Avisou-o que Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho deseja encontrá-lo com urgência. Insistiu que realmente havia necessidade premente desse encontro e para isso forneceu os números do médico.
Recomendou para que ele não esquecesse ou deixasse de acatar o solicitado e despediu após mandar recomendações e beijos à mãe e ao irmão Jean.
Continuaram a conversa noite adentro com Gerard contando sua própria história de vida. 
oooOooo
O telefone soou na residência de Dr. Sebastião insistentemente até cair a ligação. Nova tentativa e nada. Não havia ninguém em casa.
O jovem médico atendeu ao celular dentro de um restaurante aguardando sua refeição e ouviu quando lhe perguntaram:
Procura-me?
Quem está falando?
Um Velho gordo, careca e de barbichas brancas.
É você?
Em muita carne, gordura e ossos apenas o normal sem artrose e osteoporose.
Onde posso encontrá-lo?
Agora?
Sim. Pode ser?
Depende do por quê?
Apenas para conversa.
Afável ou hostil?
Totalmente cordial. 
Se for assim então por mim sem problema, pois ainda nem são vinte horas e só durmo após meia noite.
Dê-me seu endereço.
Direi onde encontrar-me. Anote aí onde fica o bar onde estou.
Após ouvir Dr. Sebastião perguntou:
Esse bar é bem próximo ao extinto bar do Zé não é?
Apenas um quarteirão na esquina da rua paralela logo atrás do shopping velho que fica em frente ao teatro onde era o antigo bar do Zé.
Então sei onde é. Chegarei aproximadamente em uma hora, pois estou um pouco longe daí.
Aguardo-o.
Como o reconhecerei?
Simples. Procure um Velho gordo, careca e de barbichas brancas sentado só em uma das mesas bastante afastada do tumulto.
Para reconhecer-me informo-lhe que estou de...
Não será necessário. Sei como você é.
É verdade. Eu também já o vi de relance, mas o suficiente para reconhecê-lo. Será fácil nos identificarmos. 
Então até logo mais.
Dr. Sebastião saiu do restaurante instantes antes de o atendente chegar com seu jantar, esquecendo-se de pagá-lo ou de pelo menos se desculpar pela repentina e indelicada saída às pressas. Em seu carro foi recordando o quanto foi incoerente sempre tentando encontrar o velho apenas na rua do antigo bar. Procurou por toda a extensão da comprida rua em ambos os lados, mas nunca tinha tido a idéia de procurar em ruas transversais ou paralelas.
Sentiu-se imensamente imbecil por ter estado tantas vezes tão próximo sem conseguir chegar a ele por completa estupidez.
Encontrou-o em menos de cinquenta minutos absorto em uma mesa afastada do bar bastante frequentado e quando se aproximou ouviu:
Jovem. Já pedi um copo quando o vi estacionando seu carro.
Obrigado. Não bebo.
Nem uma cervejinha gelada com todo esse calor?
Nunca fui adepto a nenhuma bebida.
Jamais bebeu?
Algumas vezes sim. Primeiro quando adolescente por ter feito amizade com uns jovens delinquentes e outra vez já adulto por total demência.
Demência? Tem algum problema mental?
Infelizmente tive um violento surto, mas já estou bom.
Porque me procura?
Como soube que o procuro?
Tenho meus informantes.
Diga o que quer de mim. Adiantou-me pelo celular que seria uma conversa amena, mas por acaso é sem agressividade que quer reclamar os direitos do livro de seu falecido pai?
Não se trata disso.
Li o livro que não sei se é seu ou dele, mas não me preocupo nem um pouco em saber quem é o verdadeiro autor.
Sei que nunca se interessou ou sequer conversou com ele em todo o tempo que se viram pelo que foi narrado. Que até o recriminava em suas atitudes. Sei também que ele odiou-o a ponto de tentar matá-lo, entretanto sou outra pessoa com outros pensamentos e desejos e não pretendo nada de ruim para consigo.
Nunca me passou pela cabeça em delatá-lo por apropriação indébita da obra e muito menos como plagiador e garanto-lhe que jamais farei isso.
Então o que quer?
Primeiro quero saber se tudo que está na história é verdade ou se é em sua grande parte criatividade literária sua. 
Com exceção apenas de pequena parte no final tudo foi escrito por seu próprio pai. Tive informante de toda sua vida desde que saiu daqui a sua procura e inclusive segui-o por vários lugares sem ele saber que eu o via muitas vezes. Eu precisava saber de seus feitos para completar a história. Averiguei tudo que estava escrito por ele antes de publicar o livro e constatei a total veracidade, pelo menos no que diz respeito às mortes e desaparecimentos já escritos.
Descobri inclusive que duas mulheres mendigas e doentes mentais haviam morrido em um hospital psiquiátrico e incineradas em fornos públicos sem sequer um enterro descente, pois é o que fazem aos indigentes mortos nessas condições, quando não são aproveitados em faculdades de medicina para estudos. 
Elas assemelhavam-se muito pelas idades e condições de vida de sua mãe e sua tia, mas nada disso mencionei no livro, pois não tive dados exatos de tratar-se delas. Entretanto tudo leva a crer serem elas que infelizmente morreram também.  
Então não tenho mais ninguém consanguíneo no mundo?
Talvez sua prima Mercedes ainda esteja viva no nordeste. 
Tentei encontrá-la, mas não consegui, portanto nada falei a seu respeito.
Eu também tentei de todas as formas localizá-la, mas até hoje nada consegui e ao contrário de você imagino-a já falecida.
Nada acrescentei na história já escrita por seu pai e meu trabalho foi só completá-la com fatos verídicos finalizando com a morte de Tião e editar.
Além disso, que já ficou sabendo o que mais lhe interessa descobrir?
Onde está enterrado meu pai para eu fazer o exame de DNA para ter cientificamente a absoluta certeza.
Não tenho a mínima idéia de onde foi o enterro.
Espere. Pode ser que eu venha saber, pois teve um velho mendigo que me informou muitas coisas do local onde residia o Tião e seu bando. Contou-me tudo sobre a vida de seu pai, mas acontece que faz algum tempo que não o vejo por perto. Nem sei se ainda vive, mas ele é a única e última possibilidade.
Onde poderei encontrá-lo?
Por aqui mesmo se ele aparecer. Anda sumido, mas vez por outra passa por aqui atrás de alguma prosa. Foi ele o informante que sempre tive. Ele perambulava por essas ruas e contou-me muitas coisas, se bem que mais recentemente quando aparece nada mais tem a contar. Restringe-se mais a perguntar se eu sei alguma coisa sobre os descendentes vivos de Tião. Deixou de ser informante e parece que agora quer é ser informado. Fato que eu inclusive tenho achado muito estranho por parte dele, mas deixa pra lá. 
Em certa ocasião, salvou-me a vida quando Tião pretendeu matar-me. 
Como?
Ele me disse um dia antes que o Tião e seus asseclas iriam atacar o bar do Zé que eu frequentava simplesmente para matar-me e não exatamente para roubar.
De fato tem essa passagem no livro. Agora me lembro.
Eu próprio que escrevi já tinha esquecido. Lembrei-me agora.
Tal esmoleiro é seu antigo e grande amigo?
Não. Nunca o tinha visto antes.
Como confiou no homem?
Não tive como duvidar.
Alguns dias antes a quadrilha de Tião assaltou e saqueou o depósito do restaurante do Paulinho e eu vi o caminhão lotado de mercadorias e já imaginava alguma represália futura, pois de dentro do próprio veículo ele atirou em mim. 
Fui salvo porque o motorista que até nem corria, sei lá porque, fez uma manobra brusca impedindo que seu pai acertasse o tiro que saiu em outra direção totalmente longe de mim que fugi apressado, é claro.
Alguns dias depois, aconteceu o encontro com o mendigo que lhe contei há pouco. 
Ele apareceu esmolando próximo a mim e mesmo negando-lhe rispidamente qualquer donativo ele avisou-me para não aparecer no bar no dia seguinte, pois seria morto por Tião.
Ao mencionar tal fato e tal nome acreditei no aviso e por precaução não apareci, portanto não caí na armadilha.
Tal informação confirmei depois ter sido verdadeira, pois houve o assalto ao bar e Tião insistiu em querer minha presença empunhando a arma com a qual me assassinaria.
Aborreço-lhe estar falando assim de seu pai? É a pura verdade.
Não me importo, pois quero saber exatamente tudo que aconteceu de fato.
Pois então já sabe de tudo, pois no livro não tem nada que não seja correto até o seu término onde você próprio aparece.
Então tudo é verdadeiro? Nada é romanceado?
Tudo que foi escrito por seu pai relacionado aos incidentes graves chequei e confirmei. Da mesma forma o que escrevi é verídico, pois me era repassado pelo mendigo que morava no mesmo lugar que ele e até era seu amigo. Pesquisei e aprovei tudo e só não posso confirmar é sobre o caráter das pessoas, suas dificuldades, seus feitos, seus desejos que podem ter sido modificados, alterados ou inventados por iniciativa dele próprio e isso jamais ninguém saberá, pois ele não está mais entre nós e tampouco existe alguém para confirmar ou negar alguma coisa.
Após o assalto ao bar do Zé vocês se esconderam um do outro e como comenta sobre sua ascensão entre os criminosos, tornando-se o todo poderoso chefão? 
Tudo que soube sobre ele, como já disse, foi passado pelo mendigo que ficou sendo meu companheiro de boteco durante anos, embora nada bebesse como você.
Encontramos muitas vezes até que ele com um dia de antecedência, avisou-me onde o corpo de seu pai seria jogado depois de esfaqueado inclusive informando até o horário previsto.
Muito estranho esse pedinte não acha?
Sempre achei, mas como fui tirando proveito de suas informações achei ótimo.
Foi assim que apareceu no hospital aonde nos vimos?
Exato. Fui até onde o corpo seria jogado e vi a fuga dos assassinos. Aguardei a chegada do resgate que anonimamente telefonei solicitando e o acompanhei até o pronto socorro.
Lá furtou e se vestiu com roupas de enfermeiro e permaneceu na sala de cirurgia, assistindo ao final. Não foi isso?
Sim. Após vê-lo reconhecer você e morrer. Nunca imaginei que o veria vivo e muito menos tentando socorrer seu pai.
Rapidamente fui devolver as roupas quando você entrou no mesmo vestiário desesperado trombando-se comigo que saia às pressas.
Como o tal mendigo sabia de todas as coisas que aconteceram no passado dele e também coisas que nem ele sabia, como por exemplo, sobre sua morte? É claro que não teria sido ele a contar, pois senão ele não cairia na armadilha, se soubesse.
Tudo o que se passou na vida de Tião conforme o pedinte disse-me foi contado a ele por seu próprio pai, entretanto as demais coisas que lhe eram segredo nunca me revelou a fonte. Apenas informava-me dizendo, onde e como aconteceriam.
Tem algo que não está batendo. Você... desculpe-me, o senhor disse-me que....
Pode ficar a vontade e chamar-me de você mesmo. Não tem problema algum.
Como você ficou sabendo do encontro dele com o mendigo que me roubara, para narrar seu primeiro crime? Tal delito você presenciou, pois conforme o livro você estava perto dele no exato momento e só conheceu o tal esmoleiro muitos anos depois para possivelmente contar-lhe sobre isso?
Naquela época eu já tinha de posse seus escritos e sabia de sua perambulação pela cidade a procura do ladrão de nenês e como não faço nada por ser aposentado eu estava sempre seguindo seus passos sem que ele soubesse e, portanto não foi muito difícil presenciar tal passagem.
Porque não impediu aquele crime?
Não me foi possível ver ou ouvir nada que aconteceu embaixo do viaduto escuro e somente presenciei a fuga dele com a arma ensanguentada, depois do crime já cometido.
Então como soube do diálogo entre eles? Foi romanceado não foi? E você disse ter sido tudo verdadeiro. Como explica isso?
O dialogo em si foi-me contado muitos anos depois, pelo meu amigo Quim, o esmoleiro informante. 
Acho que vou aceitar um copo de cerveja.
Ora. Ora. Muito bem. Vou pedir. Aceita um tira-gosto para acompanhar?
Vou comer sim, pois abandonei meu jantar quando estava prestes a ser servido. Só agora me lembro de não ter pagado a despesa. Depois farei isso.
Baiano. Traga um acarajé para mim e um para meu novo amigo. 
Gosta de acarajé?
Nunca comi, mas pelo odor que vem da cozinha deve ser bom.
É o azeite de dendê que produz esse aroma delicioso.
Como faremos para encontrar o mendigo?
O Quim?
Esse é seu nome?
Pelo menos é como ele se apresentou a mim. Tem tempo que não aparece nas imediações, mas quando vê-lo perguntarei a ele e lhe telefono.
Preferiria estar próximo quando isso acontecer.
Terá de frequentar nosso botequim todas as noites após o trabalho. É casado?
Sou solteiro e trabalho pela manhã em um hospital e dou aulas a tarde toda, mas após dezenove horas estou livre.
Então passe a frequentar o bar que inclusive conhecerá gente da melhor qualidade. O Jean, o Paulinho, o Inácio, o Cachorro, o Baiano, e muitos outros. 
Já percebi que inúmeras pessoas o cumprimentam. É muito querido aqui.
Pena que você tem o grande defeito de não ser cervejeiro. Não será muito bem vindo pelo pessoal.
Até que é gostosa assim bem gelada como esta que me serviu.
Vai acostumar-se. Sem nenhuma mistura ou abuso não causa dano algum.
Aceito outro copo.
Sirva-se você mesmo e a vontade desde que peça a sua garrafa, pois esse é o hábito. Cada qual com as suas.
Senhor Baiano, por favor, sirva-me uma bem gelada igual a do Velho.
É pra já. Elas são estupidamente geladas por igual. Todos aqui têm as mesmas regalias. 
Mas chame-me apenas de Baiano, pois Senhor só existem dois. Esse que está a seu lado e o outro talvez um pouco mais importante que está no Céu.
Talvez só um pouco mais importante? Que blasfêmia. 
Muitos pelo mundo todo enaltecem seu grande valor glorificando-o. Outros tantos que são a maioria sequer acreditam ou sabem de sua existência.
Portanto fazendo a média ele está muito aquém do nosso Velho e querido “senhor” sempre presente prestigiando-nos com sua sabedoria e que é conhecido e nada desacreditado por todos do bairro.
Foi assim que Dr. Sebastião passou a frequentar e gostar do bar aprendendo falar besteiras, beber cervejas, comer tira-gostos já fritos e frios, ou feitos na hora. 
Ouvir músicas de ótima qualidade que explodiam em altos decibéis pelo som ambiente. Mesmo assim muitas vezes inaudíveis quando misturadas ao barulho ainda maior provocado pelas musicas horríveis que saiam dos carros de fregueses que estacionavam ligando seus alto-falantes no último volume, ao mesmo tempo em que a televisão do próprio bar transmitia aos berros os gols dos jogos de futebol obrigando os frequentadores conversar gritando para se fazerem ouvir.
A bem da verdade ninguém ouvia alguém e qual a Torre de Babel cada qual falava exclusivamente seu próprio assunto, geralmente diferente do próprio companheiro de mesa.
Esse é o bar Anarquia Total que contrariando o bom senso a cada dia que passava cativava mais e mais clientela, totalmente miscigenada, em todos os sentidos.
Apenas o Velho gordo que geralmente ficava só com seus pensamentos tinha sempre uma mesa afastada do alvoroço com uma única cadeira para si ou no máximo mais uma para um eventual amigo quando ele convidava entre o pessoal embora isso não fosse coisa comum. Em raras ocasiões participava de sua mesa, Jean seu filho, ou o Paulinho, o Pessoa, o Cachorro, o Espingarda, o Inácio ou o próprio Baiano, dono do bar. 
O Velho começou receber a visita de Dr. Sebastião que passou a ser seu companheiro de praticamente todos os dias e muito falante ficava horas e horas contando sua vida ao atento amigo que prestava sempre muita atenção e até solicitava repetições ou esclarecimentos em certos detalhes não muito bem entendidos, com propósito ignorado ao médico. Não ao Velho.
oooOooo
Caio voltou feliz da Grécia após um merecido descanso e soube por Gerard de toda insistência de Dra. Rosa em querer saber do paradeiro dele.
Ofendeu-me e brigou comigo por carta, telefone, skype e e-mail, mas eu jamais o delatei.
Como andam as coisas atualmente? 
Estão totalmente calmas há muito tempo. As brigas duraram somente uns dez dias subsequentes a sua viagem até que Dra. Rosa mandou-me as favas alegando que também não se interessava mais por nenhum de nós incluindo os atores e atrizes do Brasil.
Então estamos livres dela?
Sim. Definitivamente.
Ótimo. Vida nova e tranquila como sempre tivemos.
E Atenas continua bonita? Como foi sua viagem?
Em Atenas só vi o aeroporto, pois de lá fui direto para Salonica, mais ao norte, pois por telefone fiquei sabendo de parentes de Záira que ela havia se mudado com os pais para lá. Infelizmente não a encontrei nem lá, pois tinha viajado para Genebra, com a mãe. Voei para a Suíça e finalmente a encontrei. Com ela estou as mil maravilhas e devo em breve assumir e divulgar definitivamente nossa união.
Porque nunca me telefonou? Não deu nenhuma notícia.
Eu não queria saber absolutamente nada do que se passava por aqui e nem no Brasil por isso destruí o celular para impedir qualquer contato. 
Vivi quarenta e oito dias maravilhosos sem o mínimo aborrecimento. Só não trouxe Záira comigo, pois não sabia o que me aguardava.
Traga-a sossegado, pois se acabaram os problemas em definitivo.
Vou ligar avisando-a para se preparar, pois irei buscá-la em dois dias.  
Tivemos um imprevisto que quero que saiba. Perdemos Lia Mendes para sempre.
Como assim? Por acaso ela morreu?
Não. Nada disso. Aconteceu que Rosa aborreceu tanto os meninos e as meninas lá no Brasil que todos ligaram para mim querendo saber sobre você e o que acontecera.
É claro que eu falei tudo sobre a conduta da médica em todos os tempos e eles se afastaram definitivamente dela. 
Lia Mendes por obrigatoriedade do contrato firmado com a empresa do comercial de biquínis teve de aparecer em várias reuniões por toda a Europa, pois conforme imaginamos o curta foi um sucesso fragoroso.
Exigiram a peso de ouro que em todos os eventos estivesse acompanhada da outra modelo que foi a Rosa e por isso ambas passaram mais de um mês unidas e por algum motivo muito forte que só o dinheiro pode dizer, Dra. Rosa convenceu-a em permanecerem unidas. 
Transformou-se em sua secretária e vivem viajando juntas, mesmo depois de terminado as exigências do contrato que fora para um mês.
Lia disse-me que não se interessava mais em ser atriz ou modelo e que talvez algum dia contava-me tudo que aconteceu que mudou radicalmente sua vida.
Como pode ter ocorrido isso?
Não sei. Conselhos meus para impedi-la não faltaram.
Acredito que a fortuna da médica falou muito mais alto que qualquer recomendação.
Pelo que soube elas vivem aprontando pelo mundo afora todos os tipos de libertinagens com poderosos políticos e magnatas famosos.
Parece que a psiquiatra resolveu viver sua vida de meretriz que sempre permaneceu arraigada e que nunca tinha deixado aflorar pelo ódio que tinha dos homens.
Precisava levar Lia Mendes com ela?
Lia também sempre foi bem chegada às grandes orgias com figurões milionários ou nunca soube?
Por alto. Nunca tive plena certeza.
Pois é. A riqueza da médica é muita e por isso comprou-a.
Que vamos fazer?
Nada. Elas que façam delas o que quiserem, longe de nós.
É pena. Duas lindas mulheres.
Vão servir à muitos homens, talvez até muito mais e melhor que simplesmente em fitas.
É. Nada podemos fazer por elas.
Que sejam felizes a maneira delas.
oooOooo
O tempo passava e Dr. Sebastião mais e mais se misturava e se dava bem com aquelas pessoas simpáticas do bar e nada do mendigo aparecer.
Nesses meses de convívio induzido pela perspicácia do Velho foi contando toda sua história de vida e sem que ninguém suspeitasse o livro intitulado Tempestade estava sendo escrito rapidamente. 
O jovem simpático, bem trajado e com muito dinheiro chamava a atenção de inúmeras moças que passavam ou frequentavam o local, a ponto de ele ter ficado com várias, mas acabou firmando namoro com uma e foi conduzindo-a à sua residência que conheceu muitas outras pessoas de uma vila incrustada entre uma mata e uns paredões de pedra. A vila estava praticamente destruída por aquela enorme tempestade que assolou São Paulo há pouco mais de dois anos, além da guerra entre os habitantes assassinos versus traficantes de droga, que lá residiam e escondiam.
As várias trilhas que davam acesso a vila pelo mato não existiam mais e só entrava no local apenas pela estreita Rua Única. Entretanto tal lugar estava sendo reconstruído por novos moradores que invadiram ou compraram as casas semi-destruídas de antigos proprietários sem nenhum recurso e as recuperavam lentamente. 
A vila não era nem um vigésimo em prosperidade do que fora antigamente, mas estava livre de desaparecer invadida pelo mato pela presença dessas pessoas que atualmente habitavam e a restauravam aos poucos. 
Lá o jovem soube de sua destruição pela tragédia que acontecera e conheceu a casa em ruínas que era a residência do chefão do local. Nada mais nada menos que Sebastião Pereira da Silva que às vezes atendia por Jonas Cardoso dos Santos.
Começou frequentar o único bar do local e ficou sabendo todas as façanhas do antigo mandante do lugar.
Soubera que ele era amado como a um Deus por dar guarida, dinheiro, remédios e comida aos que precisavam. Matava e mandava matar, sequestrar e roubar os estranhos de fora, mas quanto aos seus dava-lhes toda segurança, carinho e conforto.
No bar Anarquia contou ao Velho esse descobrimento e ambos imaginaram estar nas ruínas da casa o túmulo do pai de Dr. Sebastião, que continuava identificando-se apenas como Zinho. 
Teriam de demolir o prédio, mas se fossem “deitar abaixo” conforme o método tradicional de demolição poderia misturar ossos de animais ou de outros homens com os de Tião e isso interferiria no exame pretendido.
Pouca gente soube por que a antiga mansão teve seus altos muros recuperados. Isso foi feito para a proteção do local de possíveis invasores ou curiosos. Muitos homens trabalhavam dia e noite na desmontagem das ruínas da casa tijolo por tijolo com o maior cuidado.
Nada foi encontrado em toda a obra e em suas fundações.
Todo o subsolo da construção e do restante do terreno foi milimetricamente pesquisado e nos vários meses de procura não acharam um só osso humano.
Nenhum dos moradores inquiridos forneceu pista de onde o Tião estava enterrado, evidentemente por desconhecimento deles.
Os mais antigos alegaram terem velado seu corpo dentro da casa, mas o sepultamento propriamente dito só alguns poucos homens executaram e todos estavam mortos desde aquele mesmo dia na batalha travada com os mandantes de seu assassinato ou pela tempestade.
Finalmente o jovem médico reuniu e informou aos moradores da vila quem ele era.
Foi bem aceito pelos moradores e ele comprometeu-se com todos em auxiliá-los na reconstrução da vila.
Acertou todos os débitos com a prefeitura, com as empresas geradoras e fornecedoras de telefonia, água, energia, TV a cabo de toda a vila que começou progredir rapidamente.
Normalizou o débito de todos os moradores que ainda estavam pendentes. Registrou-lhes suas construções, assim como fez com todos os terrenos vazios que iam sendo doados por ele a empresas e pessoas que construíam residências, hospitais, escolas, restaurantes, farmácias, et cetera.
Por sua conta contratou uma empresa de saneamento e colocou esgoto, guias e sarjetas além de asfalto em todas as ruas do bairro.
Alargou ao máximo a única rua de acesso iluminando e arborizando-a e a seu pedido, à Câmara Municipal e a Prefeitura modificaram seu nome de Rua única, para Avenida Única.
Após adquirir toda a área limpou quase toda a mata onde poderia aproveitar o terreno para aumentar o tamanho do bairro que ficou três vezes maior. Loteou e urbanizou todo o local, doando terrenos a quem realmente se interessasse em construir lá.
A Avenida Única passou a ser apenas a mais charmosa das várias outras agora existentes além das ruas e alamedas que davam acesso ao simpático e desenvolvido bairro. 
Enfim tudo que se faz necessário para uma comunidade viver com dignidade estava acontecendo muito rapidamente.   
A vila novamente era bem sucedida, porém de maneira oposta à grandeza anterior.
Os parentes adotivos de Zinho visitavam-no assiduamente e o auxiliaram muito na construção do lugar, com vultosas doações em dinheiro e material de construção.
No terreno onde fora a casa do velho bandido foi construída uma enorme e moderna escola para os moradores do local e das adjacências, totalmente subsidiada por Dr. Sebastião que exigiu de todos a eliminação do título de doutor e passou a apresentar-se e ser chamado de Professor Zinho ou simplesmente Zinho.
Não deu muita importância mais as suas atividades como médico e tornou-se com muito entusiasmo em um brilhante e querido professor em sua escola que lecionava às crianças desde o jardim da infância até ao pré-vestibular. 
Vários cursos técnicos profissionalizantes de alto nível também já existiam e em pouco tempo conseguiria junto ao MEC a permissão para a implantação do ensino superior e em um futuro mais longo transformaria em universidade. 
Sob suas expensas construiu e sustentava várias creches, dois orfanatos, um asilo e um ótimo hospital para que sua irmã adotiva Cristina, já formada em medicina e casada com um médico competente dirigissem e cuidassem gratuitamente de todos os moradores.
No hospital, vez por outra ele próprio atendia alguns moradores. 
Deu empregos há vários profissionais de ótima qualidade com salários justos para que tudo corresse a contento com esmerado atendimento na área de saúde e bem estar social. Edificou dois postos de saúde e duas escolas que doou a prefeitura. Não se esqueceu de construir um posto policial destinado a polícia civil. 
Novamente a vila abrigava pessoas vindas de todos os cantos da cidade, porém era outro tipo de gente que aparecia. Vinham a procura de melhorar de vida com trabalho honesto que lá conseguiam, pois tinham do Professor Zinho todo amparo e apoio, proveniente de seu enorme desejo de transformar as pessoas possibilitando-lhes, educação, trabalho, saúde e cidadania.
Sua enorme fortuna aliada às altíssimas doações em dinheiro e dedicação provenientes de seus parentes adotivos que também aderiram a sua causa terminou a construção do “Paraizo” que seu pai um dia imaginara, mas que infelizmente fizera tudo de forma inversa a idéia original. 
Sebastião Pereira da Silva Filho estava realizando os sonhos de seu pai.
Seu pedido ao irmão Rodrigo, atualmente vereador da cidade era conseguir que a Prefeitura desse o nome Paraíso à vila, mas foi impossível por já existir em São Paulo um tradicional e famoso bairro com tal nome. 
Foi tentado a denominação Bairro de São Sebastião do Paraíso, também recusado pelo mesmo motivo.
São Sebastião do Paraíso é o nome de uma cidade do sul de Minas Gerais, consequentemente também imprópria e por isso acabaram por denominar o bairro de “Paraíso de São Sebastião”. Nome que com muito orgulho seus moradores indicavam como exemplo de comunidade. 
Era um verdadeiro oásis no meio do imenso deserto de pobreza e sujeira da maltratada e abandonada capital Paulista.
Zinho há muito já tinha convicção que o morto desaparecido era realmente seu pai pela certeza dos moradores mais velhos que sempre viram em sua aparência a exata semelhança de quando o outro apareceu naquela região com mais ou menos a sua idade.
Sua atenção e determinação em ajudar aos demais eram a mesma do pai. Só diferenciava a forma de como conseguir o dinheiro.
O Velho gordo, Jean e outros amigos que também conheceram Tião garantiam que eles eram iguais, principalmente Paulinho que o via o dia todo e todos os dias quando trabalharam juntos no restaurante. Comentou ajudando convencer definitivamente o professor de tal paternidade, pois eles eram exatamente iguais em muitos detalhes.
A mesma aparência física.
A voz idêntica.
Minúcias de pequenos gestos com as mãos. 
Sua maneira de andar e de sentar não deixava nenhuma dúvida. 
Até a forma de apanhar o copo de cerveja e levá-lo a boca era perfeitamente igual a ele.
Sempre com o dedo indicador esticado sem contato com o copo que era seguro apenas pelos dedos médio e o anelar de um lado e o polegar do outro. O dedo mínimo prendia o copo por baixo. 
Forma muito rara de se segurar um copo. 
Difícil e esquisita maneira que ele só vira apenas os dois idênticos em tudo, terem esse hábito.
O próprio professor entendeu que o hábito que ainda permanecia até nesses dias de comprar livros só em sebos era uma das manias adquiridas por hereditariedade do pai.
Ele só lia assentado no chão nos fundos de uma sala assim como seu pai fazia nos fundos de sua cela na prisão lendo livros velhos que lhe eram doados pelos guardas. Coisas que só podiam ser uma transferência.
Ele não se preocupava mais com o DNA, mas pretendia encontrar os restos mortais do pai para o enterro de sua ossada de forma digna.
Há anos já estava residindo na vila onde construiu uma bela casa.
Sebastião Pereira da Silva Filho que era o atual benfeitor da vila, só não agradava a alguns poucos moradores, que viveram no tempo em que lá era a fortaleza e esconderijo de bandidos, pois saudosistas da época dos crimes, pretendiam que ela progredisse naqueles moldes e não como agora, pois se sentiam deslocados no atual ambiente.
Não saiam de lá pelas doações e a ajuda inesgotável que recebiam de seu benemérito, mas mesmo assim eles gostariam, imaginavam e tentavam aliciar jovens indecisos em transformar o lugar no que fora outrora.  
Nada conseguiam, pois era a ínfima minoria entre os moradores, que adoravam seu bairro e principalmente seu professor já casado com uma das moças do bairro e que se encontrava grávida do terceiro filho.
Para a definitiva tranquilidade do local tais bandidos remanescentes estavam velhos e um a um em pouco tempo faleceram por vários tipos de doenças, sempre cuidadosamente tratados pelo professor Zinho, que só usava seus conhecimentos médicos em casos raros, principalmente a esses homens que não gostavam dele, para ele em assim agindo tentando curá-los transformá-los em seus amigos como os demais.
A vila não era longe do ambiente do Velho gordo, mas com nenhum argumento Zinho conseguia levar o amigo até lá além de únicas três vezes. Primeiro para conhecer as ruínas do casarão onde viveu Tião antes de demoli-la a procura dos restos mortais do pai e quando do nascimento dos seus dois primeiros filhos.
Nesses mais de seis anos de amizade e suas costumeiras cervejinhas geladas que já faziam parte de sua rotina nos fins de tarde sempre tinham de ser no bar Anarquia Total.
Já bastante conhecido no local ele estava sempre acompanhado de outros frequentadores amigos tanto do sexo masculino como do feminino.
Os homens sempre se aproximavam dele por sua amizade e principalmente por ser muito rápido e espontâneo na hora do pagamento das contas que geralmente se predispunha em arcar com todas as despesas.
Com as mulheres igualmente fazia muito sucesso não só por isso, mas também por estar sempre disposto e acessível em levá-las a passear em outros ambientes, principalmente em motéis, satisfazendo-as amorosamente e sempre as presenteando ricamente para que não o delatassem, pois era casado.
Seu único defeito era esse. Ser mulherengo.
Getúlio Vargas e Juscelino também o eram e são considerados os melhores presidentes que tivemos. Por que Zinho não poderia portar-se igual?  
Independente de estar sempre entre os jovens de sua idade dava preferência em estar com o velho que ele simplesmente achava incrível e suas conversas eram infindáveis a ponto de a princípio deixar enciumado seu amigo, ex-professor e confidente Dr. Carlos que pouco era procurado.
                    Foi só após o próprio psiquiatra visitar o Anarquia, conhecer o Velho e o ambiente que passou a gostar de ambos.
As extravagantes e deliciosas comidas e bebidas eram fartas e baratas muito ao seu agrado. Por isso vez por outra lá chegava com algum amigo para fartar-se de prosa, comida, bebida e ver e conversar com bonitas jovens.
Houve certa vez até uma reunião de toda família de Zinho, organizada no Anarquia pelas mãe branca e mãe preta para lançarem a candidatura do rapaz como deputado estadual, pois sabiam que ele ganharia apenas com os votos dos eleitores do bairro. 
E é claro que teriam muitos outros de outros lugares também.
Além de tudo que fazia na vila achava tempo para dedicar-se à outra profissão adquirida e era um conceituado advogado conhecido por quase todas as pessoas importantes da cidade.
O sempre desmancha prazeres das mulheres, Dr. Carlos que hoje era adorado pela irmã por ter conseguido a cura do filho impediu-as de tal besteira alertando-as que ninguém jamais faria com que Zinho fizesse o que não fosse determinado apenas e tão somente por ele próprio. 
A festa foi animada, mas o motivo modificado e inventado na hora por Dr. Carlos como sendo seu aniversário, pois já que ninguém nunca soube a data, talvez nem ele próprio, não havia como não acreditar.
A ausência da esposa, filhos e netos do falso aniversariante foi facilmente justificada e aceita pelo simples fato de que eles jamais gostaram de frequentar os ambientes do psiquiatra, pois os julgavam sempre promíscuos.   
oooOooo
Em uma noite de forte temporal, inesperadamente apareceu para se abrigar sob o toldo do bar o procurado e há muito tempo esperado mendigo Quim. 
Foi imediatamente convidado a assentar-se em uma mesa afastada. Conversaram durante pouco tempo o jovem Zinho, o Velho Gordo, o velho Quim e o velho psiquiatra Dr.Carlos que nesse dia estava presente.
O pedinte ficou sabendo do interesse deles e prontamente informou saber exatamente onde estava enterrado o corpo de Tião e combinou encontrarem no início da manhã seguinte para levá-los ao lugar.
Zinho percebeu que o velho não tinha a orelha direita, pois no local existia uma enorme cicatriz cujos raros e ralos cabelos enormes, molhados da chuva, que escapavam por debaixo da touca não a escondia. 
Com seus conhecimentos médicos achou estranho o pedinte que com certeza era surdo ter o timbre de voz tão baixo.
Exatamente o oposto aos demais que tem essa deficiência, pois sempre falam muito alto.
Quando o andarilho já se afastava em direção à rua já alagada pela tempestade andando com muita dificuldade o jovem curiosamente perguntou-lhe em tom de voz bem alto:
Você não tem uma orelha senhor Quim? Foi algum acidente? Passado alguns instantes de espera sem que ele emboçasse qualquer reação e continuasse manquitolando em frente para seu destino quem respondeu foi o Velho gordo.
Ele não ouviu sua pergunta Zinho. É totalmente surdo. 
Como ele conversou completamente certo conosco o tempo em que esteve aqui?
Quando ele está de frente, lê em nossos lábios o que falamos.
Vou repetir a mesma pergunta gritando.
Novamente nenhuma resposta embora os frequentadores virassem em direção à mesa de onde partiu o berro que superou em muitos decibéis todos os outros sons do agitado bar.
Os três amigos permaneceram até alta madrugada comentando sobre as particularidades do indigente, comendo acarajé, sarapatel, moqueca de camarão e bebendo cervejas. 
Ele também é cego ou tem um olho vazado, pois mesmo durante as noites nunca tira os óculos escuros. Sempre que me encontrei com ele jamais vi seus olhos. Ele é muito bizarro, pois se veste como um andarilho esfarrapado que não tem onde e como trabalhar, pois também não tem a mão esquerda e a perna direita é cortada na canela e menor mais de dez centímetros da outra. Não deve também ter onde morar, mas nunca o vi pedindo nada a ninguém com uma única exceção que foi quando ele apareceu-me pela primeira vez.
Quando ele avisou-o que o pai de Zinho viria para matá-lo no bar do Zé?
Exatamente Dr. Carlos. Foi a única vez que esmolou. Tenho até impressão que foi apenas para aproximar-se de mim que usou tal atitude de pedintes.
Nunca lhe deu nada?
Já parei de oferecer cerveja e cachaça, pois ele sempre recusou alegando não beber. Disse-me que jamais bebeu ou fumou ou usou droga em toda sua vida. Porem nunca aceitou leite, refrigerante, comida ou dinheiro. 
Parece-me que propositadamente só aparecia quando tinha algo a contar e apenas falava o que tinha a dizer e afastava-se, sem sequer despedir-se.
Quem comentou foi Zinho entrando na conversa. 
Como fez agora? É de fato muito esquisito esse seu amigo.
Eu jamais o vi próximo ao bairro Paraíso de São Sebastião.
Já era tarde quando despediram-se, com Dr. Carlos dizendo que talvez não tivesse condições de voltar pela manhã, devido a hora tardia e a chuva, pois morava muito longe.
Dorme comigo em minha casa Dr. Carlos o restante da noite. Meu apartamento é bem próximo daqui e dá para irmos a pé em alguns minutos.
Deixa de ser besta seu velho confiado. Eu dormir com você e deixar minha velha sem meu vigor após essa comida baiana afrodisíaca?
Não é exatamente comigo que eu quis dizer. É em um quarto de hóspedes em minha casa, que colocaria inteiramente a sua disposição, seu mal educado e desajustado psiquiatra.
Não se aborreça com ele, Velho gordo. O Carlos sempre ao despedir-se só o faz dizendo alguma pilhéria sem graça só para aborrecer alguém. Ele entendeu muito bem o convite, mas fez-se de idiota só para sacaniar. Com certeza você nunca reparou em suas despedidas nas vezes que vem aqui porque até então suas avacalhações sempre foram comigo.
Se começou achincalhar consigo é sinal que está gostando de você.
Então me desculpe o desabafo, porque nunca dei e jamais darei liberdades a ninguém de sacaniar-me, pois acho tais piadinhas de muito mau gosto. Nunca as faço com nenhuma pessoa. Respeito meus semelhantes e exijo respeito para comigo.
Preste atenção Dr. Carlos se gostou de mim obrigado pela deferência, mas se o seu gostar significa depreciar quem gosta, prefiro que não goste de mim de agora em diante.
Tentarei não gostar, mas se eu não conseguir me aceite como sou, pois só assim conseguirá dormir comigo algum dia. 
Retiraram-se rindo, porém o Velho gordo nada satisfeito com a nova zombaria que jamais esperava receber, principalmente de um psiquiatra que deveria ser respeitador e polido, saiu aborrecido embora educadamente forçasse um falso sorriso.
Pela manhã ainda com chuva, porém fraca, encontraram-se no bar, o Velho gordo, Zinho e o mendigo e foram os três até o bairro Paraíso de São Sebastião. Dr. Carlos de fato não apareceu e nunca ninguém soube o motivo. Se foi por não ter descansado o suficiente ou por medo da chuva ou por respeito ao Velho gordo que desagradara na noite anterior. Os dois primeiros motivos seriam possíveis, pois respeitar alguém era a ultima coisa que o psiquiatra faria.
Guiados pelo velho Quim dirigiram-se para onde deveria ser o sepulcro do pai do Professor Zinho. Chegaram a um local escondido na parte da mata que fora preservada onde tinha uma enorme pedra quase que totalmente coberta pelo mato e árvores que cresceram a sua volta.
Disse o mendigo que em tal rocha antigamente tinha uma entrada que começava com uma fenda estreita, mas logo se alargava formando uma enorme cratera de mais de doze metros quadrados de superfície e mais de dois em altura totalmente abrigada dentro do granito. 
Confirmou ter absoluta certeza que o corpo estava sepultado lá dentro, pois aquela gruta era sua casa antes da destruidora tempestade que São Paulo conheceu anos antes, no dia que Tião morreu.
Informou com sua voz calma sem nenhuma entonação que na ocasião tinha permanecido em outro bairro só regressando depois da tormenta.
Ele disse ter visto o bairro destruído, após a morte do poderoso Tião e a ocupação pela polícia. 
Com muito trabalho limpou os entulhos deixados pela inundação, mas não conseguiu desobstruir a entrada, que para sua surpresa descobriu que a abertura da caverna havia sido fechada, mas não por obra da enchente e sim por mãos humanas que a lacraram com concreto forte e impossível de ser destruído a não ser com muito trabalho de britadeira, martelete e dinamite. Ao certificar-se da impossibilidade de usar o esconderijo, procurou saber dos sobreviventes, onde fora sepultado o Tião. Ninguém soube dizer e tal falta de informação confirmou a certeza que sua casa agora era o eterno jazigo do líder do bando.
Informou que se mudou definitivamente de lugar por isso tinha desaparecido por todos esses anos. Havia viajado para outro estado só regressado recentemente, pois sua locomoção era sempre demorada. Só andava a pé.
Ao afastar com intenção de ir-se, pois já tinha dado seu recado, foi interrompido por Zinho que se colocou a sua frente tentando doar-lhe uma grande quantia em dinheiro que ele recusou apenas com um gesto de não com a cabeça tão convincente que não deixou margens para insistências ou discussões.
Não aceitou também a posse de uma casa no bairro para morar que o jovem arriscou oferecer.
Como já havia cumprido o prometido afastou-se coxeando com dificuldade e lentamente, pois só assim conseguia andar e desapareceu deixando boquiaberto somente o jovem, pois o Velho já sabia que isso sempre acontecia por experiências anteriores.
Reparou que ele está com um velho e enorme casaco que o esconde inteiro, além da gola desdobrada cobrindo até sua boca? E que o chapéu enterrado com as abas viradas para baixo e os óculos escuros cobrem quase todo seu rosto? Ele não deixa quase nada exposto para ser visto.
Sim. Sempre me pareceu que ele nunca quis ser identificado. Já falei com ele dezenas de vezes, mas asseguro-lhe que não serei capaz de dizer como é seu rosto. Sou incapaz até de dizer se é magro ou gordo.
A mim parece que ele ontem ouviu quando perguntei sobre sua orelha e ele escondeu-se hoje muito mais.
Como a noite dificulta nossa visão ontem ele não se precaveu bem. Agora que estamos em dia claro protegeu-se muito mais para não ser visto. 
Que motivo teria para esconder-se?
Não tenho a mínima idéia.
Nem eu.
Ainda hoje vou procurar uma empresa de construção para arrombar a entrada da caverna e fazer a exumação dos ossos para definitivamente resolver o mistério.
Vai efetuar o DNA?
Se de fato a ossada estiver aí é claro que farei.
Pelo que foi esclarecido pelo mendigo, com certeza seu pai está aí. 
Também acho.
Não poderei acompanhá-lo, pois tenho muita coisa a escrever, mas à noite encontraremos no bar e você conta-me como foi seu dia.
Está escrevendo?
Nunca deixo de fazer isso. Não faço nada durante o dia todo, por isso escrevo.
O que está escrevendo agora? Por acaso é a continuação do Paraíso?
Curioso. Tentando adivinhar? Aguarde mais um pouco que lerá. O livro terá como título “Tempestade”.
Sobre o clima ou o que? 
Quando eu publicá-lo você saberá.
Então tá.
Será muito em breve. Faltam apenas algumas correções, pois o término já aconteceu.
Estarei aguardando ansioso e pode crer que esse eu não comprarei em sebo, pois receberei um exemplar autografado. Estou certo?
É lógico.
oooOooo
Lia Mendes apareceu nessa época a procura de Caio em Paris, desgastada e definhada pela vida desregrada que levou, solicitando-lhe ajuda.
Ela abandonara Rosa na Arábia Saudita fugindo sem deixar rastro, pois não suportava mais tantos compromissos irresponsáveis, degenerados, degradantes e até criminosos que se tornavam cada vez mais comprometedores e perigosos.
O diretor de cinema ouviu por muitas horas toda a história contada pela ex-atriz que o procurara na Europa antes de regressar ao Brasil.
Ele se comprometeu em voltar a convidá-la para seus filmes, mas aconselhou-a primeiro descansar algum tempo para recuperar-se.
Após tal conversa telefonou a seu pai e perguntou-lhe:
Está escrevendo a história que me mandou o início para eu ler depois de conhecer o Tiaozinho?
Estou. Continuo escrevendo. Já está praticamente acabado.
É o tal de Tempestade? Sobre o filho do Tião do “Paraizo” não é?
Sim. Já tenho registrado praticamente tudo sobre ele desde que chegou a São Paulo, ainda de colo até hoje.
Devo terminar amanhã ou depois com um final feliz. Falta só o último detalhe. Vou enviar por e-mail para você ler e depois você dá sua opinião a respeito.
Creio estar muito melhor que o primeiro. 
Aproveite o que ler da história e bole a capa como fez para o “Paraizo”, mas de preferência que seja exatamente igual.  Mude só o nome. Okey?
Então não é para bolar. É para colar. Está certo. Farei isso.
O que deu em você para perguntar-me se continuo com a história?
É que eu tenho uma verdadeira bomba para lhe dizer, que acredito acrescentará muito ao enredo do livro.
O que é?
Por telefone não dá. É uma história muito longa e cheia de detalhes. Venha até Paris para conversarmos.
Vou nada. Nunca saio do meu pedaço. Venha você para cá.
Está difícil, pois estou cheio de compromissos inadiáveis. Vou para Grécia amanhã buscar a Záira que está visitando os pais.
Como fica então? Mande-me por e-mail.
Fica complicado, pois pessoalmente poderia corrigir erros ou voltar a certos detalhes no tempo ou nos acontecimentos e por correio eletrônico eu teria praticamente que escrever um livro para narrar tudo e revisá-lo e afinal o escritor é você e não eu.
Mas você escreve muito bem. Qual o problema?
Sempre é difícil resolvermos alguma coisa não?
Traga mamãe para umas férias e a gente conversa. Vai interessar-lhe e muito. Mando-lhe o dinheiro para a viagem. 
Realmente não saio do meu pedaço de jeito algum e por dinheiro nenhum.
Eu sei, mas faça um esforço, pois vai valer a pena para sua Tempestade.
Acredito que sim para você insistir tanto como está fazendo.
Será só um final de semana e volta para seu canto.
Vamos tentar outro jeito. Porque não grava e manda-me em DVD?
Seja razoável pai. Não existirá diálogo. Jamais será uma comunicação completa.
Se eu tiver alguma pergunta a fazer interrompo a gravação e lhe telefono para melhores esclarecimentos.
Sabia que ia dar essa sugestão. É a sua cara.
Vou ter de passar dias e noites a espera de suas ligações para resolver o assunto. Se desse certo por telefone falaria agora.
Então vou pedir para o Jean ir até aí.
Por acaso ele sabe quem é Dr. Sebastião, Dra. Rosa e et cetera.
Claro que sabe quem é Zinho, pois até é amigo dele.
Mas sabe sobre sua vida? Sobre Rosa? Sobre o seu livro? Ele sabe alguma coisa?
Nem sabe que estou escrevendo.
Então encontrou a pior solução possível.
Está complicado conversar. Vejo que mesmo após todos esses anos continuamos os mesmos. Dificilmente chegamos a um acordo.
Sim. De fato continuamos os mesmos.
Pai nunca nos entendemos, mas apesar de tudo continuo te amando e cada vez mais.
Eu também te amo muito meu filho, mas independente disso. Sobre o livro, como é que fica?
Já sei. Encontrei a solução. Por acaso já ouviu falar da atriz Lia Mendes?
Sim. Não é uma de suas atrizes favoritas?
Ela mesma.
Já faz tempo que vi o comercial de biquínis que você e seu amigo Gerard fizeram com ela e uma outra modelo em várias emissoras européias, pela TV a Cabo, além de ter visto vários filmes dela por aqui mesmo. 
Acertou em cheio. É exatamente sobre ela e a outra que você precisa saber muita coisa.
Mas eu já sei. A outra foi médica psiquiatra e participou da cura do Dr. Sebastião e inclusive teve um romance relâmpago com ele, abandonando-o na Grécia viajando para Paris. 
Por acaso ela está com você? É sobre isso que quer falar?
Não é nada disso. Ela sumiu daqui também, faz muitos anos.
Não se lembra que Gerard falou com você sobre ela aí em São Paulo? E sobre mim também que reatei com Záira?
É claro que sim. Já está inclusive na história.
Mas já se esqueceu que sou casado com Záira? Como eu estaria com Rosa? 
Isso sempre acontece com a maioria dos homens. 
Não comigo.
Pode ter pegado a doença de alguém.
Deixe de besteiras e preste atenção. Quando souber o que Lia tem a contar-lhe vai mudar muita coisa em sua história. Tenho certeza.
Mas o que tem ela com tudo isso?
Já disse que não dá para falar por telefone.
Ela me contou coisas absurdas que vai lhe interessar muito para seu livro.
Vou telefonar para ela que viajará ainda hoje para o Rio para avisá-la que você irá procurá-la para ela lhe contar tudo. O que eu sei foi contado por ela, portanto ninguém melhor que ela para informar-lhe com exatidão de detalhes tudo que precisar questionar.
Como a encontrarei. Eu não vou viajar para o Rio.
Não se preocupe. Vou contratá-la por uma semana para ela estar conversando consigo aí em São Paulo.
Anote os números do fixo e do celular dela, mas só ligue amanhã para vocês combinarem onde se encontrar, pois logo mais estará em pleno vôo sem condições de atendê-lo.
Eu sabia que encontraríamos uma solução boa.
Encontraríamos...? Deixe pra lá...
Um beijo.
Para você também e para a mãe e pro Jean.  
oooOooo
No dia seguinte depois do almoço, após centenas de contas para se desembaraçar do fuso horário entre Europa e Brasil, o Velho ligou para Lia Mendes, mas seu celular não atendeu após várias tentativas seguidas.
Por volta de quinze horas o sempre mudo celular dele tocou e para sua surpresa não era sua esposa que é a única mulher que lhe telefona, perguntou:
É o senhor Ciuffi?
Quem está falando?
Lia Mendes.
Quem lhe deu meu número? Foi o Caio? Eu nunca permiti isso.
Não senhor. Foi o senhor mesmo ao ligar-me várias vezes enquanto estava na ponte aérea vindo do Rio para cá. Seu número ficou registrado.
Falha minha. Deveria ter usado um orelhão. Apague e esqueça meu número para sempre.
Está bem. Farei isso assim que marcarmos nosso encontro. Onde será?
Ainda hoje no bar Anarquia Total, após 20 horas.
Onde fica tal bar? Nos jardins?
Não. Na Vila Maria.
Vila Maria?
Assustou-se? Não está acostumada com lugares pobres?
Não se trata disso. É que...
Então anote o endereço para vir para cá.
Como o reconhecerei?
Não se preocupe. Eu a distinguirei quando chegar. Já a vi na TV e em vários filmes.
Então até a noite.
Até lá.
O celular de Caio chamou em Paris alguns minutos após.
Quem é?
Sou eu. Lia. 
O que quer?
Falar sobre seu pai.
Ele telefonou? O que aconteceu?
Ele é muito chato. Irritante até.
Eu também acho. 
Não sei se devo aceitar tal compromisso que me incumbiu. Estou tão machucada pela vida nesses últimos anos que não estarei em condições de suportar impertinências dele. Preciso é de carinho e terapia.
Não se preocupe. Ele é ranzinza no início, mas depois de uns dois copos ele vira uma seda. Com ele receberá o carinho que precisa. Tenha certeza.
Que tipo de carinho se refere?
Fraterno, amigável e gentil. Ele é realmente um doce, escondido dentro de um limão. 
Tem certeza?
Absoluta.
Posso confiar?
Alguma vez meti-a em alguma enrascada?
Está bem. Irei encontrá-lo.
Boa sorte. Nem sempre a primeira impressão é a que permanecerá.
Ele sequer disse-me como ele é para eu vê-lo em um boteco na Vila Maria que marcou para nosso encontro.
É fácil reconhecê-lo. Ele é gordo, careca em cima com os raros cabelos brancos não cortados há anos, atrás da cabeça. Ele pensa que fica parecido com o Einstein naquela famosa foto com a língua para fora.
Na verdade ele parece mesmo é com aquele cientista maluco do filme De Volta para o Futuro que faz tudo errado, como ele.
Usa também uma barbicha esquisita e feia. 
Está sempre de bermudas e chinelos, além da camisa apertando sua volumosa barriga.
Fica fácil encontrá-lo com todas essas características. 
Beijos.
Pra você também.
oooOooo
Eram exatamente vinte horas quando ela chegou maravilhosa.
Seu olhar era triste, mas seu glamour escondia tal amargura do mesmo modo que a maquiagem escondia as olheiras adquiridas na vida devassa que quase a consumiu e a destruiu nos últimos anos.
A anarquia do Anarquia parou para silenciosamente acompanhar o desfile da encantadora atriz negra que caminhava entre as mesas pela calçada em direção ao Velho gordo, que distraído só soube de sua presença pelo delicioso odor do perfume que sentiu próximo de si.
É você?
Sim. Sou Lia Mendes.
Sente-se e fique a vontade.
Obrigada.
Este a sua esquerda é meu filho Jean.
Muito prazer. KK fala muito bem de você.
Os outros são. Dr. Carlos, médico e dono da maior e melhor clínica psiquiátrica do país e a seu lado Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho, que atualmente atende por Professor Zinho.
Boa noite senhores e satisfação em conhecê-los.
Esse que fez as apresentações sou eu.
Realmente encantada em saber.
O que tem a contar-me de muito importante que Caio falou? Melhor dizendo acho que devemos ir a outro local, pois aqui é praticamente impossível conversar.
Agradeço e concordo.
Jean empreste-me seu carro e uma boa grana para eu levá-la a um lugar decente?
É claro pai, mas para onde vai?
Quem respondeu foi Lia Mendes.
Para o Maksould Plaza onde estou hospedada.
Então leve uma folha de cheque assinada ou meu cartão, pois grana suficiente para lá não tenho no bolso.
Não se preocupem, pois minha permanência lá já está devidamente autorizada com todas as despesas efetuadas pelo Caio.
Jean, Zinho e Dr. Carlos além de muitos outros homens do local nessa noite embriagaram-se de inveja do Velho.
O silencio continuou dominando o local e a conversa ao pé do ouvido rolou a noite inteira com todo mundo tentando descobrir o que o Velho gordo estaria fazendo naquele momento com a famosa e bela atriz.
Inesperadamente apareceu e assentou-se próximo a mesa dos amigos uma loira que se serviu de um lanche e vitaminas, chamando a atenção por sua formosura, de Jean e Dr. Carlos, que estavam de frente para ela.
Informaram ao professor sobre a presença da solidária beldade e ele olhou comentando:
Eu já a conheço. Apenas de vista.
Por várias vezes ela já se assentou próxima a mim, no bar que frequento na Vila Paraíso de São Sebastião, mas por mais que eu tentasse um flerte além de algumas palavras de aproximação, jamais consegui nada com ela. Sempre séria e só. Nunca bebeu nada além de vitaminas e sucos e não conversa com ninguém. Só olha ao redor e justamente sempre próxima a minha mesa. Tenho impressão que está vigiando-me. Deixemo-la quieta, pois nada vamos conseguir.
Vou tentar. Quem sabe tenho mais charme ou sorte que você.
Então tente Jean, mas se ouvir um educado, porem sério e definitivo, “por favor, não me incomode” não diga que não lhe avisei.
Foi exatamente a resposta que Jean ouviu ao tentar conversa com a jovem que continuou só e pensativa na mesa ao lado, sem prestar atenção em nada e ninguém.
Continuaram suas conversas sem tentarem nenhuma sedução a jovem apenas olhando-a curiosos e desejosos.
O que será que meu pai estará fazendo no Maksoud com a atriz?
Não faço a mínima idéia.
A moça veio da França para cá só para encontrá-lo. Ouviram quando ela chegou e logo após as apresentações o Velho foi logo perguntando o que ela teria a contar de importante mandada por Caio? 
O que a atriz teria a falar a ele de tão importante que o fez sair daqui, com toda aquela pressa, sem sequer vestir-se adequadamente para ir ao Maksoud?
Com certeza tal assunto além de urgente é confidencial e não pode ser ouvido por nós. 
oooOooo
Em um calmo e luxuoso restaurante, no excelente hotel onde a atriz hospedara, o mau vestido Velho iniciou conversa com ela, feliz por saber que deixou todos boquiabertos no Anarquia por ter saído com a linda moça que não olhou para lado nenhum e nem para ninguém lá e nem no restaurante do estrelado hotel paulistano.
Estavam ao termino do jantar quando chegou a uma mesa ao lado uma jovem loira que solicitou somente uma vitamina e permaneceu saboreando-a até o final da conversa dos dois, absolutamente distraída e aparentemente alheia a conversa.
O que tem de interessante a falar-me?
Primeiro, desculpe-me te-la trazido comigo. Poderíamos conversar lá mesmo, mas pelo que Caio disse refere-se a Rosa e ao Zinho e ele não poderia ouvir porque nada sabe a respeito do livro que estou escrevendo sobre ele. Mantenho segredo dele e de Dr. Carlos seu tio adotivo.
Deu para perceber isso. 
Senti também por sua educação que eu poderia sair consigo sem correr riscos por isso aceitei o convite e também pelo fato de ter sido apresentada a Dr. Sebastião que concordo que não deva saber de nada que vou contar, pelo menos por enquanto.
Realmente gostei do senhor embora pelo telefone não tenha me passado a mesma impressão.
Vamos apenas terminar nosso jantar e você descansa hoje.
Conversaremos a partir de amanhã lá no Anarquia?
Não gosto de ambientes chiques e sofisticados que na verdade são é cheios de frescura.
Tudo aqui é exatamente igual a qualquer boteco. A mesma cerveja, a mesma rã, o mesmo porco e o mesmo boi. 
As únicas diferenças são que os atendentes são todos veados e o preço muito mais elevado.
Não se preocupe com a conta, pois KK reservou minha suíte com todas as despesas a serem cobradas diretamente dele em Paris.
Então o restaurante não é tão ruim como pensei, mas de qualquer forma prefiro lá.
Concordo em encontrar-me com o senhor no tal boteco simpático, desde que não estejam presentes os tarados médicos e seu filho.
Achou-os assim?
Claro. Não tiravam os olhos de cima de mim e até piscavam atrevidos.
Eles não estarão presentes, pois teremos, além disso, o outro motivo imperioso para ficarmos a sós. Fique tranquila que ninguém ouvirá ou atrapalhará nossa conversa.
                                  Despediram combinando novo encontro para o mesmo horário e no mesmo local onde ele se exibiria com a graciosa atriz. 
Na próxima noite o Velho ao chegar encontrou o Velho Quim assentado no chão na calçada em frente sua mesa com apenas duas cadeiras. 
O mendigo não se aproximou dele, mas ficaram conversando até a chegada da atriz que se assentou.
Sua mini saia era curtíssima, mas ela se mantinha sempre com as pernas em posição obliqua bem esticadas do assento da cadeira ao solo com os pés cruzados, portanto nunca ninguém veria nada entre suas coxas por mais que tentassem.
Mesmo assim o agitado ambiente que estava longe deles foi aos poucos sendo trazido para próximo com mesas e cadeiras sendo arrastadas para que toda a galera se aproximasse da famosa atriz.
Jean, Paulinho e Zinho educadamente respeitaram o isolamento do velho e permaneceram longe para deixá-lo à vontade ouvindo o que seria dito pela moça.
Pela primeira vez Dr. Carlos foi até ao Anarquia pelo segundo dia consecutivo, mas como ninguém participava da mesa com o Velho além da atriz, assentou-se próximo com Dr. Jarbas e Dr. Souza que naquela noite foram seus convidados.
O Senhor acha que estaremos livres de interrupções e não seremos ouvidos?
Com certeza absoluta, pois ao nosso lado esquerdo não pertence ao bar, portanto ninguém colocará mesa lá. É a entrada do carro do Pessoa dono da oficina ao lado.
À direita tem uma mesa totalmente vazia com a placa de reservada que consegui que o Baiano assim fizesse para permanecer vazia.
A nossa frente só tem a rua e atrás é parede, portanto estamos livres de todos, e totalmente isolados.
E o mendigo sentado na calçada a nossa frente?
Não se preocupe, pois ele não exala mau cheiro.
Não é isso que me preocupa. Tenho receio de ele ouvir-nos e passar adiante o que ficar sabendo.
Não tenha medo, pois ele nada ouvirá. É surdo que nem uma porta.
Quando cheguei vi vocês conversando.
Só quando ele está de frente e nos lê os lábios. De costas como está nada ouve. Fale tranquila.
Para provar sua surdez chamou-o com um estrondoso berro, sem ser atendido.
O que o senhor conversava com ele? Ou não é de minha conta?
Pode saber sim. Foi ele quem falou a mim e ao Zinho o local exato onde estava enterrado o corpo do Tião.
E daí?
Ele veio perguntar-me se o rapaz tinha conseguido descobri-lo e se havia feito o exame de DNA que sempre esteve nos planos do professor.
Foi encontrado?
Foi e o exame deu positivo, portanto o enterrado como Jonas Cardoso dos Santos era de fato o Tião, pai do rapaz.
Contei ao andarilho que além desse enterro, Zinho por descobrimento de Dr. Carlos localizou o cemitério onde sua mãe e tia estavam enterradas.
Que exumou seus ossos confirmando serem realmente elas e toda sua família está sepultada no mesmo local.
Trouxe os ossos da menina das Graças, do Zezinho e do Afonso. Fez o enterro simbólico do Severino que foi o único cuja ossada não foi possível descobrir.
Toda sua família está realmente morta e descansa em paz junta.
Tem certeza?
Como assim?
Depois de contar-lhe tudo que sei o senhor tirará suas conclusões.
Tudo bem? Pode começar.
Dra. Rosa a psiquiatra que ajudou Zinho recuperar-se, após abandoná-lo, tinha aparecido em Paris onde fazíamos um filme com KK. Ficou nossa amiga enquanto viajava em turismo pela França.
Alguns dias depois de deixar-nos encontrou-se novamente conosco em outro local e participou de um filme comigo e posou em várias fotos para um comercial de biquínis.
Já sei sobre isso. Faz alguns anos.
Pois bem. Eu viajei de volta para o Brasil com o restante dos artistas e ela continuou na França e lá ela deu em cima de KK de maneira abusada e exigente tentando dominá-lo como já tinha tentando com Zinho e que é sua maneira de viver.
Isso também não é novidade para mim.
Pois é. Ela é exageradamente possessiva e queria de todas as maneiras que KK pertencesse-lhe. É claro que ele recusou tal romance que soubemos aqui no Brasil por Gerard que pessoalmente veio nos contar. Além disso, ele falou-nos dos absurdos que ela fizera quando morava em Ribeirão Preto ainda estudante e recém-formada, pois ela própria contou tudo a Kaká.
Soubemos o que ela aprontou com Dr. Sebastião e o que quis conseguir de seu filho.
Nós no Rio de Janeiro mesmo procurados por ela a repudiamos por saber de seu mau caráter, mas por exigência do contrato de publicidade ela deveria participar comigo em vários eventos pela Europa e por isso permanecemos mais de um mês lá, praticamente coladas uma a outra, até que eu cai na asneira de aceitar ser sua secretária, pois ela ofereceu-me muito dinheiro para isso e eu não resisti.
A partir daí eu não sei mais nada sobre você e ela.
Não demorou muito para ela desinteressar-se completamente por KK e vivemos relativamente bem sem ela aprontar nada de muito grave com ninguém.
Coincidentemente quando retornamos ao Brasil ela recebeu um telefonema de sua mãe solicitando sua presença por doença.
Como eu já tinha aceitado trabalhar para ela viajamos para o interior de São Paulo. Fomos para Ribeirão Preto encontrar sua mãe. Ela mora no Bosque, em uma ótima casa, em um condomínio fechado classe alta cuja entrada é na esquina da segunda rua a direita da entrada principal do parque. Uma enorme e linda casa amarela que Rosa havia comprado para ela quando ficou rica conforme já sabe.
Não conheço bem Ribeirão Preto, mas o local que está se referindo eu sei onde é. 
Aí eu soube da bomba. Sua mãe estava muito descontrolada. Totalmente pinéu. Entende? Decidiu fazer uma confissão assombrosa.
Falou-nos que ela havia fugido da família ainda menina para prostituir-se e que chegou a ter um filho, que foi assassinado pelo seu então cafetão que estava a mais de um ano ausente e quando de seu retorno encontrou-a com o recém nascido nos braços na areia da praia. Ela disse que tinha acabado de parir tal criança e que ia jogar tal lixo no mar. 
O homem ao vê-la deu-lhe três tiros dos quais ela saiu ilesa por proteger-se colocando a criança na frente.
O assassino fugiu, pois a polícia chegaria logo e nem percebeu que a mulher caída estava viva e sem ferimentos. Ela abandonou o nenê no chão e rapidamente fugiu do local. 
De Salvador onde morava com medo do tal de Ângelo que era seu gigolô, ela foi morando pelo Brasil afora de meretrício em meretrício até que dois anos depois conheceu em Viracopos em Campinas na zona de prostituição de lá, um indivíduo que lhe propôs casamento.
Nessa época viajou para sua cidade natal no Ceará para conseguir sua certidão de nascimento e ao falar a data de seu aniversário para localizarem nos livros descobriu que seu nome não era Mercedes como todos a conheciam até então. Seu verdadeiro nome era Maria das Mercês Pereira da Silva sempre chamada pela família simplesmente como Mercedes. 
Então é a tal Mercedes prima de Zinho?
Isso mesmo. Ela ao casar-se eliminou o Pereira da Silva e virou Maria das Mercês Dantas.
A mãe de Dra. Rosa é justamente a vagabunda da Mercedes falada em seu livro Paraíso. Prima em primeiro grau do professor Zinho.
Portanto a ex-psiquiatra e amante de Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho por uma semana é sua prima em segundo grau, por isso KK achou que seria interessante saber dessas coisas e outras mais.
Estou realmente estarrecido. E daí? Que mais sabe?
Amanhã conversaremos mais. Já é tarde. Leva-me ao hotel?
Eu mesmo ou prefere que seja Zinho ou Jean?
Aqueles olhos verdes do Jean são tão lindos quanto os azuis do Caio. Fico até tentada em ir com ele, mas por enquanto prefiro estar só. Leve-me o senhor mesmo. Talvez amanhã ou depois flertarei com Jean. Ele é lindo. 
Não sei qual é mais bonito. Se ele ou KK.
Eles têm temperamentos e atitudes bem diferentes. Nem parecem irmãos. O KK tão compenetrado, sem vícios e respeitador. O Jean estou vendo-o bebendo, fumando e além de notívago me parece bem atrevido e atirado.
Ambos são muito atraentes, mas como KK sempre se deu e exigiu respeito só fiquei na vontade com ele.
Com esse sacana aí com certeza não me dará tempo nem de chegarmos ao hotel. Atacará no meio do caminho mesmo.
Quando se preparavam para sair o velho mendigo já ia longe manquitolando com sua perna mais curta.
O Velho comentou com a atriz:
O andarilho nunca fica muito tempo no mesmo local e desta vez ficou horas sentado na calçada à nossa frente. Parece que propositadamente ficou ouvindo toda a história para depois sair.
O senhor mesmo disse-me que ele é surdo. Como nos ouviria estando de costas?
Sei lá? Besteira minha. Foi apenas coincidência ele ter ficado tanto tempo. 
Então vamos?
O Velho foi até a mesa de Jean pegar a chave do carro emprestada, dizendo-lhe confidencialmente ao ouvido, mas em tom de voz bem alto para que não ficasse em segredo.
Lia gostou de você. Topa levá-la amanhã após nossa conversa?
Até eu que sou mais bobo. Responderam ao mesmo tempo Dr. Sebastião e Paulinho invejosos.
A atriz ao encolher as pernas num ângulo de noventa graus, para levantar-se foi o único momento que a platéia boquiaberta poderia verificar alguma coisa entre suas roliças e bem torneadas coxas.
É claro que quase ninguém viu, pois os únicos que já estavam em posição adequada como era costume foram Dr. Carlos, Dr. Souza e Dr. Jarbas que já tinham tal hábito há muitos anos e estavam o mais próximo possível da mesa aguardando esse exato instante.
oooOooo
Ao encontrarem-se na noite seguinte a atriz com a mesma discrição da anterior contou ao Velho que Maria das Mercês ficou viúva, pois seu esposo desconfiou da não paternidade de Rosa e exigiu exame de DNA constatando que realmente não era o pai. Descobriu quem era o amante da mulher e desesperado foi tirar satisfações com o homem que ele julgava ser o pai da criança e morreu esfaqueado em briga com ele.
Maria das Mercês preferiu ficar com o amante assassino que com o marido morto por isso confessou e testemunhou falsamente à polícia que foram atacados por um ladrão que lhe matou o marido fugindo em seguida.
Passado algum tempo ela e o amante mudaram-se para Ribeirão Preto prometendo-se carinho e fidelidade eterna para criarem a filha deles. 
Com esse também se casou e foi nessa época que Maria das Mercês eliminou o Dantas e passou a usar o nome de Maria das Mercês Aguiar, mas continuava a mesma Mercedes de quando tinha treze anos.
Para sua desgraça Serafim de Alcântara Aguiar até então um marido e pai amoroso assim como o anterior marido, também descobriu não ser o pai de Rosa através de exames.
Continuou sendo o marido de Maria das Mercês e transformou-se em pai adotivo da então filha sem pai, pois nem a mãe sabia quem realmente fora o homem que a engravidara.
Embora desde o primeiro casamento não mais frequentasse as casas de prostituição continuava suas ações de vadia mesmo casada dando-se a qualquer um que se interessasse sem o menor pudor.
Que mulher vagaba não?
Concordo. A partir dessa época que Rosa ainda era bebê seu padrasto a maltratava incessantemente assim como fazia com a esposa infiel e devassa.
Toda essa parte de sua infância, sua adolescência e idade adulta até sua vinda de Paris para cá eu já soube pelo Gerard que a pedido de Caio contou-me pessoalmente quando aqui esteve provavelmente na mesma época que contou a vocês também.
A mim só falta saber depois disso?
Então falta pouca coisa a contar-lhe. 
Quando Rosa soube pela mãe de tudo que ela foi e que ainda era, deixou-a completamente sem ação. Imaginava-a uma pessoa decente e que era maltratada pelos maridos que teve, por pura maldade dos homens. Era por isso que odiava todos do sexo masculino.
Aturdida com tal revelação ao mesmo tempo em que se descobria verdadeiramente ela encontrou o que de fato era sua sina e ela até então não admitia. 
Era tal qual a mãe, desejosa de sexo inconsequente, sem pudor e em grande quantidade não se preocupando com as consequências.
O ódio que sentia pelo padrasto que de fato tornou mal e violento, mas, influenciado que foi pela péssima conduta da mulher que ele outrora amava fazia-o atormentado e cada vez pior, deixando de ser um simples caminhoneiro para transformar-se em um bandido.
Rosa desde jovem com o desejo a flor da pele, ao mesmo tempo em que odiava os homens, tornou-se perversa aos que dela se aproximavam e era apenas isso que você sabia. 
Eu sou talvez a única pessoa que viu sua transformação.
Ela permanecia abominando os homens, porém viu-se liberta para exercer a enorme volúpia que possuía e unindo ambos os sentimentos que estavam em seus extremos, tornou-se a pior das mulheres que creio jamais ter existido.  
Ela decidiu correr mundo assumindo sua verdadeira postura de prostituta, mas não exatamente para ganhar dinheiro, pois tinha muito, embora atualmente possua muito mais. Os idiotas milionários a presenteiam com enormes fortunas em jóias e imóveis.
Era para satisfazer-se sadicamente e ludibriar os milionários empresários, políticos, terroristas e artistas para acabar com o poder deles, destruindo várias fortunas, várias famílias e várias pessoas sem a mínima piedade.
Independente de ela ser muito mais bonita, charmosa e talentosa sexualmente que eu, precisava de mim por eu ser uma atriz conhecida para abrir-lhe as portas de tais magnatas. 
Iludida e desavisada embarquei no plano dela, pois me entupia de dinheiro. 
Sonhando fazer fortuna embrenhei-me nessa aventura onde fiquei por alguns anos até que arrependida de ver tanta barbárie e orgias infindas voltei e estou aqui lhe contando tudo que para minha infelicidade ainda será escrito e lido, mas deixa pra lá.
Conforme KK falou-me os detalhes das monstruosidades envolvendo drogas, crimes de famosos capitalistas, de políticos renomados e atentados terroristas não vêm ao caso para seu livro, portanto nada mais tenho a contar-lhe.
Então chamo o Jean para levá-la ou por ainda ser cedo quer ficar mais um pouco conversando comigo. 
Antes que o livro seja publicado e eu me transforme definitivamente em uma maldita e mal amada, prefiro receber algum carinho que acho que ainda mereço e tenho direito.
Conforme já tinha sido informada você que é um doce me daria muita meiguice e estou imensamente agradecida por esses três dias gostosos que passei consigo. 
Reanimaram-me tanto que me permitiram pensar que ainda existem homens maravilhosos nesse mundo. 
Baseado nessa certeza vislumbrei a possibilidade de receber carinhos amorosos carnais normais que a muito não sei mais como é, portanto pode deixar que eu mesma convido o Jean para eu receber o meu desejado premio lá no Maksoud nesses dias que ainda restam de meu contrato com KK. 
oooOooo
Um mês depois, os jornais noticiaram sem muito alarde o falecimento de Sra. Maria das Mercês Aguiar em Ribeirão Preto mãe da ex-médica psiquiatra Rosa Dantas que se tornara atriz profissional e que há alguns anos mora fora do país. 
A causa mortis foi dada como infecção generalizada.
Tal noticiário na televisão do Anarquia Total foi visto pelo Velho que imediatamente telefonou para seu filho na França para saber da possibilidade de ele informar a “atriz”. 
Soube que ele não sabia do paradeiro da moça e que somente Lia Mendes poderia saber, talvez por ser a única pessoa a qual ela ainda mantinha raros contatos telefônicos. 
O Velho não sabia mais o telefone da atriz, mas seu filho Jean o mantinha em sua agenda eletrônica, pois realmente tiveram um romance que merecia repetições. Foi com grande satisfação que recebeu a incumbência de procurar a moça.
Nessa última semana o velho Quim estava sempre presente conversando com o Velho gordo, quase que o inquirindo sobre o paradeiro de algum parente de Zinho caso ele soubesse de algum ainda vivo.
O esperto Velho gordo ainda não sabia do paradeiro de Rosa, mas mesmo que soubesse não falaria, pois nunca se dispunha em dar informações a ninguém, pois seu critério sempre fora o oposto. Somente recebê-las e de preferência o máximo possível. 
Deixou de dar atenção ao andarilho que nada mais tinha a lhe falar e que atualmente só queria saber fatos e não contá-los como era o acontecido em todo o tempo de suas amizades.
Jean telefonou para Lia que informou estar em São Paulo e que iria a noite encontrar-se com eles para um papo animado, pois realmente amou-os, cada qual a sua maneira. Nessa noite gelada seria novamente feliz por completo. Se aqueceria com a afeição do pai e derreteria com o calor do filho.
Esteve no Anarquia e só encontrou o Velho com o qual ficou conversando e soube que por volta de vinte e duas horas o filho chegaria. Aguardou-o ansiosa.
Nessa noite muito fria o ambiente ao contrário de outros dias estava bastante desanimado e despovoado. 
Só tinha uma mesa ao lado com um homem alto e forte alheio ao que passava ao redor bebendo refrigerante e duas outras mesas com algumas poucas pessoas conversando. 
Senhor Ciuffi assim que Jean telefonou-me avisando da morte de Sra. Maria Mercês mãe de Rosa, telefonei para ela em Toronto avisando-a.
Ela está hospedada no Marriott Toronto Bloor Yorkville e soube dela que lá permanecerá por mais um mês e não voltará ao Brasil, mesmo porque o enterro da mãe, conforme ela mesma disse já foi feito por ela muitos anos antes. Considerava-a morte e enterrada para sempre desde a época da revelação sobre sua vida. 
Que resposta?
Só poderia ser dela.
Nunca mais esteve com ela.
Não. A princípio ela convidava-me a voltar, mas com o passar do tempo desinteressou de minha presença e raramente nos falamos. Voltei a minha vida mais regrada e saudável como atriz. Olhe quem está chegando. 
Zinho? Como vai? Veja quem veio fazer-nos uma visita.
Muito encantado em vê-los. E você Lia como está? Nem precisa responder, pois a vejo maravilhosa e bem disposta.
Fala como médico?
Não. Como um fã apaixonado.
Não acredito.
Infelizmente seu favorito está chegando e acabou-se minha ínfima chance.
Imaginava ter alguma?
É claro.
Pois então desista, pois não abro mão de meu par de esmeraldas que vem brilhando para mim. Olhe que coisa mais linda que vem chegando.
Não dando mais continuidade a conversa com a atriz, por total impossibilidade de manter qualquer diálogo, pois já a via fortemente abraçada ao Jean, Zinho dirigiu-se ao outro, perguntando: 
Velho. Reparou naquele alemão que estava sentado ao lado quando cheguei?
Sim. Prestei atenção. Pareceu-me uma pessoa comum.
A mim não parece comum. Assim como aquela loira que já esteve aqui dá-me a impressão que estão a investigar alguma coisa.
Qual loira?
Aquela que Jean quebrou a cara tentando conquistá-la. Não se lembra?
Não exatamente, mas tenho vaga recordação.
Sempre em dias diferentes ou um ou outro se sentam próximos a mim no bar na Vila e parecem espionarem-me sem nada falar.
Com a loira eu até tentei aproximação e nada consegui, mas esse cara nunca trocamos nem um cumprimento.
Imaginação sua. São pessoas normais.
Na primeira vez que a loira aqui esteve lembro-me que no dia anterior você tinha falado com o mendigo. 
Ela apareceu, sentou-se perto de nós e desapareceu rapidamente. Parece-me que no momento estávamos comentando que você tinha ido jantar no restaurante do Maksoud Plaza com a atriz.
No primeiro dia que Lia esteve aqui?
Sim. Exatamente.
Então tem coisa estranha mesmo, pois lá no restaurante enquanto jantávamos apareceu uma loira e assentou próxima a nós.
Com uma longa mexa de cabelos cobrindo-lhe parcialmente o rosto?
Exatamente assim. Pareceu-me que não queria que víssemos seu rosto.
Ela só usa o cabelo desse jeito. Difícil ver sua feição direito.
Pois é. Ontem eu vi que você conversou com o pedinte e hoje aparece o Alemão a bisbilhotar a seu lado.
Muito estranho mesmo é a atitude do andarilho, pois como já lhe disse ele sempre aparecia para dar-me alguma informação. Agora está agindo ao contrário, pois passou a solicitar-me informações ao invés de dá-las.
O que ele vem querendo saber?
Se você ainda tem algum parente vivo e onde está.
Não tenho mais ninguém, e mesmo que tivesse que interessaria a ele?
Não faço a menor idéia.
Quando eu estava chegando, você e Lia falavam de mim ou de alguém que eu conheço?
É claro que não era de você e de nenhum conhecido seu. (mentiu o Velho) Por quê?
Porque me pareceu que o Alemão ouviu o que interessava e saiu no momento em que eu cheguei.
Casualidade somente.
Quando olharam para o lado não viram Jean nem Lia Mendes. 
Ambos já tinham desaparecido como por encanto.
O Velho despediu-se de Zinho que se encaminhou a outra mesa que formava desta vez com vários conhecidos e o Velho retirou-se pensativo para sua residência, embora fosse cedo. Lembrou-se que o tal alemão saiu exatamente após Lia Mendes contar-lhe onde se encontrava Rosa e adormeceu pensando nisso.
Jean só apareceu três dias depois, pois no feriado prolongado que estava acontecendo ele fora com Lia Mendes curtir o inverno de Campos do Jordão e para sua alegria ficou sabendo que ela estava chegando para fazer um longa metragem em São Paulo.
oooOooo
Não havia passado quinze dias quando estavam confabulando na mesa do bar Anarquia o Velho e seu filho com a namorada atriz como fazer para contar a Zinho sobre suas primas Maria das Mercês e Rosa, quando nova notícia sinistra foi transmitida pela televisão.
Desta vez com muito alarde, pois a pessoa era muito conhecida e considerara importante internacionalmente. O noticiário foi longo e bastante esclarecedor.
Falou que a famosa atriz Rosa Dantas que nunca saía da mídia em função dos grandes escândalos que proporcionava ao lado do estrondoso sucesso que fazia em todo o planeta no mundo do cinema, dos magnatas e no dos políticos mais influentes se atirara do alto de sua suíte onde estava hospedada no Marriott Toronto.
Que a polícia do Canadá não teve dúvida do suicídio, pois foram centenas de testemunhas que a viram saltando nua da varanda do oitavo andar arrebentando-se entre a multidão que estava embaixo próxima a piscina.
Que houve vários filmes amadores nesse dia que a flagraram nua dançando na varanda sem ninguém por perto para lançá-la. Todos os filmes surpreenderam-na saltando ao ar como uma ave precipitando-se rapidamente para o chão.
Noticiaram mais que não tinha a companhia da não menos famosa atriz Lia Mendes que já não a acompanhava há algum tempo. 
Ambas sempre proporcionaram a alegria do público masculino, pois era hábito se exibirem nuas em varandas de apartamentos de hotéis sós ou às vezes em orgias com vários homens. 
Milhares de celulares e filmadoras do mundo todo tinham esses rápidos filmes de suas gratuitas e espetaculares exibições.
Desta vez apenas ela estava lá se expondo, pois a amiga voltara para o Brasil dedicando-se apenas a filmes e comerciais brasileiros.
Em seu vôo para a morte a atriz trouxe na mão um copo que se espatifou espalhando o conteúdo pelo chão, cuja análise feita nos cacos de vidro e no líquido detectou grande quantidade de heroína e uísque. 
Seu corpo exibia inúmeras marcas de picadas de agulha.
Sua autópsia não deixou nenhuma dúvida que a quantidade excessiva de bebida e entorpecente em seu sangue deixaria qualquer pessoa na mais maluca das alucinações caso não morresse por over-dose.
Durante mais de dez dias só havia nos noticiários das televisões mundiais assunto sobre Rosa Dantas. 
No Brasil deram até uma trégua aos cotidianos escândalos de nossos políticos irresponsáveis e corruptos, iludindo-nos, pois imaginamos estarem sanados tais problemas. Mas foi engano. 
Escândalo internacional tem maior valor para o ibope, por isso para a tristeza de nossos senadores, ministros, deputados e outros de menor escalão, eles ficaram esquecidos. Totalmente fora dos noticiários.
Suas ações continuaram. Apenas a divulgação que deixou de ser feita.
Informaram que é considerado normal pessoas no estágio de delírio em que possivelmente a atriz se encontrava, provocado por substâncias alucinógenas imaginarem-se viajando leves, flutuando ou voando geralmente quando estão em grandes altitudes. As estatísticas referentes a falecimentos de viciados existem com grande percentual a esse tipo de mortes. Geralmente nem chegam a ser considerados suicídios, mas sim viagem descuidada provocada pela alucinação da droga.
No apartamento da atriz foi encontrado grande quantidade de entorpecentes como êxtase, cocaína, haxixe, morfina e hibisco.
Todos sabiam de seus vícios e suas loucuras, por isso muitos jornais exibiram não só os filmes conseguidos no ato fatal como os antigos em que Lia Mendes participava, para a imensa vergonha da atriz que percebia “milhões” de olhos no Anarquia fixos nela e não mais na tela do aparelho.
Alguns jornais tentando suavizar o feito da moça alegaram tal gesto tresloucado ter sido ocasionado pela recente perda da mãe que morrera soro positivo, infectada pelo vírus HIV deixando-a fora de si. Que fora por isso que ela se matara. Pela imensa dor sentida ao saber do fato.
Tais jornais tentaram ser amenos com ela enquanto que com a mãe mudaram-lhe a causa mortis de infecção generalizada, mais branda, para determiná-la como uma morta aidética, sem terem de posse nenhum documento comprobatório disso. 
Certos jornais são sempre assim. Destroem quem eles querem e perdoam aos imperdoáveis, se bem que em ambos os casos nenhuma delas deveria ser poupada.
Nenhum dos amigos que bebia cerveja e comia acarajé chorou tal morte e tampouco se preocupou em informar quem quer que seja, pois esse final era o exato acontecimento que ocorreria mesmo a qualquer momento, não só a ela, mas a todos os que se drogam. 
Logo depois de terminado o documentário dessa noite chegou Zinho, mas impossibilitado de assentar-se com os amigos que não o convidaram ficou em outra mesa, olhos fixos na atriz desnudando-a tal qual a vira na televisão. 
Seu propósito era estar junto dela para satisfazer sua vontade de possuí-la, mas Jean não a deixava a sós. 
Seus olhos faiscavam de desejo e sua tara por ela aumentava a cada instante após ter tomado conhecimento de seu procedimento anterior visto nas imagens mostradas. 
Pensou inclusive em abordá-la mesmo ela estando com outro, mas refreou-se a tempo de cometer esse absurdo contra o amigo e filho do Velho, que o repreenderia violentamente por tal afronta, cuja censura até seria menos drástica que a surra que talvez levasse do rapaz ofendido, pois além de forte era corajoso.
Bebeu até fartar-se esfriando seu ímpeto, mas não tanto, pois acabou saindo de lá direto para o Motel mais próximo, com uma embriagada transeunte desconhecida que passou pela calçada, sem preocupar-se com a errada decisão tomada. 
Nessa noite, Jean que já tinha sido colocado a par da completa história do livro e sua namorada Lia Mendes insistiam com o Velho que escondessem tudo que descobriram sobre os últimos parentes de Zinho, pois não lhe seria nada salutar tomar conhecimento deles. 
Alegavam que em nada interessaria a ele saber sobre suas primas nem por simples informação e muito menos por leitura no livro, pois além dele, também o público leitor saberia.
Principalmente agora que nem vivas estavam mais. Elas seriam apenas mais dois corpos a serem enterrados em seu mausoléu de família, além da vergonha e desonra que mancharia seu excelente currículo. 
O velho persistia que por outro lado havia a enorme fortuna que a atriz deixara e que lhe caberia por direito por ser seu único parente vivo e consequentemente seu herdeiro.
Os jovens o recriminavam alegando que Zinho não se importaria com isso, pois sua riqueza talvez fosse até muito maior. O dilema era grande e por vários dias não encontravam a solução.
O Velho já tinha terminado seu livro antes da vinda de Lia Mendes, pois tudo que se referia a superação e a sanidade de Dr. Sebastião já havia acontecido. 
Ele já exercia há alguns anos atitudes brilhantes e saudável conduta. 
Já havia construído o Paraíso, consequentemente realizando o sonho de seu pai.
Já descobrira a verdade sobre todos parentes que tomara conhecimento e que estavam desaparecidos conseguido provas científicas de suas identidades, exceto Mercedes. Ela que já era considerada morta há muitos anos não teria a menor importância se continuasse “morta”, desde aquela época.
Já encontrara os ossos de todos os outros e feito seus sepultamentos dignos. 
Já estava bem casado e nada mais havia para ser mencionado.
Esse era seu final feliz. Só faltava escrever fim e editar o livro.
Com as novidades trazidas por Lia Mendes, o Velho decidiu acrescentar as horríveis vidas das primas que Zinho ao tomar conhecimento apenas pela leitura do livro no futuro o perdoaria por tratar-se de verdade e ficaria com o direito da decisão de recuperar seus restos mortais ou não.
Com certeza não lhe machucaria tomar conhecimento das atitudes delas, pois pelo livro Paraíso já sabia da índole de Mercedes, atual Maria das Mercês e pessoalmente conheceu o caráter de Rosa, portanto tudo que lesse sobre elas não o incomodaria.
Esse grande problema aconteceu em apenas dezoito dias com os fins trágicos das duas que Zinho poderia saber da existência enquanto estavam vivas se lhe fosse dito pelo Velho, que não o informou.
Agora era tarde para contar-lhe insistia o casal, mas o Velho era favorável a manter tudo escrito. Doa a quem doer conforme dizia.
Não chegavam a um consenso embora fossem dois contra um. 
Esse um tinha peso maior por ser o autor do livro e os outros ficaram restritos a apenas darem suas opiniões que nunca eram acatadas.
Caio em Paris recebeu um e-mail do irmão com o livro Tempestade para que o lesse e opinasse onde deveria ser o final da história. 
Se deveria ser logo após a conversa entre o Velho gordo e Zinho, que fora assim:
Ainda hoje vou procurar uma empresa de construção para arrombar a entrada da caverna e fazer a exumação dos ossos para definitivamente resolver o mistério.
Vai efetuar o DNA?
Se de fato a ossada estiver aí é claro que farei.
Pelo que foi esclarecido pelo mendigo, com certeza seu pai está aí. 
Também acho.
Não poderei acompanhá-lo, pois tenho muita coisa a escrever, mas à noite encontraremos no bar e você conta-me como foi seu dia.
Está escrevendo?
Nunca deixo de fazer isso. Não faço nada durante o dia todo, por isso escrevo.
O que está escrevendo agora? Por acaso é a continuação do Paraíso?
Curioso. Tentando adivinhar? Aguarde mais um pouco que lerá. O livro terá como título “Tempestade”.
Sobre o clima ou o que? 
Quando eu publicá-lo você saberá.
Então tá.
Será muito em breve. Faltam apenas algumas correções, pois o término já aconteceu.
Estarei aguardando ansioso e pode crer que esse eu não comprarei em sebo, pois receberei um exemplar autografado. Estou certo?
É lógico.
ACABOU.
Ou se deveria terminá-lo contando todo o relato de Lia Mendes finalizando com sua despedida quando falou: 
Antes que o livro seja publicado e eu me transforme definitivamente em uma maldita e mal amada, prefiro receber algum carinho que acho que ainda mereço e tenho direito.
Conforme já tinha sido informada você que é um doce me daria muita meiguice e estou imensamente agradecida por esses três dias gostosos que passei consigo. 
Reanimaram-me tanto que me permitiu pensar que ainda existem homens maravilhosos nesse mundo. 
Baseado nessa certeza vislumbrei a possibilidade de receber carinhos amorosos carnais normais que a muito não sei mais como é, portanto pode deixar que eu mesma convido o Jean para eu receber o meu desejado premio lá no Maksoud nesses dias que ainda restam de meu contrato com KK. 
ACABOU.
Ou se acha que o Velho devesse inserir os noticiários dos jornais sobre as tragédias mortes das duas mulheres sem nada falar a Zinho ou se seria necessário falar antes com ele, sobre elas. 
Deu sua opinião que imaginava que seria necessária a permissão do próprio Zinho, para a publicação do livro sobre sua vida.  
Entretanto acreditava que o pai vai mesmo editá-lo sem falar nada e deixar o rapaz saber só depois de ler. 
Comentou que o professor Zinho nada tinha feito sabendo que ele roubou o livro “Paraizo” de seu pai, mas achava que ele não irá de forma alguma gostar de ter sua vida aberta e devassada como está no Tempestade.
Acho que o Velho vai meter-se em uma enorme enrascada.  
Precisamos de seu sábio julgamento.
Tem o prazo que precisar para dar-me a resposta após fazer toda a leitura, mas, por favor, seja bem rápido para dar sua opinião antes que o Velho decida sozinho de forma errada como sempre faz e que é seu costume, que você sabe muito bem.
Insisto que reflita bastante sobre a possibilidade de tais informações prejudicarem imensamente ao Zinho não só em sua Vila onde poucos sabem exatamente sobre seu passado e também no fórum onde é um austero advogado.
Considere também o prejuízo que trará a Lia se o livro for lançado mencionando-a. 
O que as TVs. farão? Além do já feito.
Com certeza vão disparar a todo instante seus filmes exibicionistas e de orgias e acabarão definitivamente com ela. 
Você ficará sem uma notável atriz, pois com certeza ela será desprestigiada.
O que decidir é de sua inteira responsabilidade. Estou apenas informando várias visões do que poderá acontecer e mostrando-lhe o meu ponto de vista, informo-o que a Lia concorda comigo em nada ser escrito. 
oooOooo
Foi grande a surpresa da família Ciuffi, a chegada repentina de Caio e Záira em São Paulo.
Pai e filho encontraram-se a noite no Anarquia com Jean e Lia Mendes, mas não iriam conversar lá, pois o filho mais novo julgou o ambiente impróprio a seu indiscutível bom gosto. 
Solicitou que Jean os levasse ao Buffet Espanhol do Restaurante Zafferano do Crowne Plaza Hotel São Paulo para deliciarem enquanto conversavam com os pratos preparados pelo chef catalão Pedro Mataró acompanhado do admirável vinho também espanhol Rondan que com certeza seria indicado pelo sommelier.
O velho perguntou assustado:
Onde fica isso? Em Madri ou Sevilha?
É claro que não, não é pai.
Já sei. Se o cara é catalão só pode ser na Catalunha.
Continua chato ou ficou burro? Se é no Plaza Hotel São Paulo, é claro que é aqui. Se fosse na Europa porque eu teria vindo para cá? Teria levado-os para lá.
Nunca sei sobre seus repentes.
Foram imediatamente interrompidos por Jean.
Vamos parar vocês dois. Parecem crianças. Só vivem discutindo.
Okey. Deixemos de besteiras pai. Fica na Rua Frei Caneca e além da comida excepcional não é tão caro.
Então vou chamar sua mãe para comer bacalhau, pois é o prato que ela mais gosta principalmente o espanhol.
Telefone para que ela e Záira se aprontem, pois logo as apanharemos e é melhor você também colocar pelo menos calça comprida e sapatos.
Isso eu não faço. Sinto muito e não insista.
Está bom. Está bom. Fique assim mesmo. Está lindo. Maravilhoso como sempre. O cabelo cada vez mais simpático não? A barriga cada vez mais bela. Então pelo menos tome cuidado para a bermuda não escorregar perna abaixo como daquela vez que fomos a uma churrascaria. Matou-me de vergonha. 
Não ouvi nada do que disse, mas não precisa repetir, pois continuarei não ouvindo. 
Pensando bem meu filho acho que não devemos chamá-las, pois o assunto que o trouxe aqui não é do conhecimento de sua mãe e ela não se sentirá a vontade ficando alheia as conversas que até pode gerar conflitos entre nós que infelizmente já é praxe e ela sempre fica muito aborrecida com nossas discussões.
Záira deve estar cansada da viajem e provavelmente preferirá ficar com sua mãe. Então vamos deixá-las e iremos só nós. 
Mas que cheiro delicioso é esse que exala da comida que chegou na mesa ao lado? 
Já sei que vai ficar por aqui mesmo.
Não se trata de uma simples peixada que você costumava comer aqui em São Paulo.
É uma moqueca de badejo ao molho de camarão VG.
Já comi várias vezes inclusive na Europa, mas esse odor é diferente. Muito apetitoso.
É uma mistura de temperos baianos com capixabas.
Na verdade a Bahia tem sua famosa moqueca baiana.
O espírito Santo tem a sua célebre moqueca capixaba.
A briga é grande entre eles para provar qual é a melhor. 
O nosso chef Baiano mistura alguns ingredientes de um lugar com os do outro e deu nessa maravilha, que é a famosa moqueca do Anarquia.
Da baiana ele eliminou o leite de coco e o camarão seco.
Da capixaba tirou o azeite doce e o pimentão.
Então ficou assim: O camarão seco mudou para o fresco, o azeite doce foi substituído pelo dendê e o pimentão pela pimenta malagueta grande.
Só isso?
Claro que não, mas não vou dar a receita completa para ninguém. É segredo do Baiano que só eu sei. Nem seus funcionários têm permissão para fazê-la.
Vinho você não encontrará nenhum francês, italiano ou espanhol, mas cerveja muito bem gelada tem muita.
Estou com água na boca. Ficaremos aqui mesmo. Nem pelo menos um champanhe bom?
Não.  Só cerveja, refrigerante e vinho de São Roque e do sul. Conhaque só os brasileiros que são uma droga.
Para mim peça refrigerante então.
Combinado.
Baiano sirva-nos moquecas pra oito. Cervejas e refrigerantes aos montes.
Vocês só são quatro.
Todos com fome dupla.
Feito o pedido o Velho voltou a falar com Caio.
Vamos ao assunto que fez com que Jean o trouxesse para cá.
Não tenho muita coisa a falar.
Li todo o livro e concordo que ele deva ser publicado em sua integra, sem mudar ou cortar nada. Tudo que já escreveu deverá ser mantido até seu final.
Se esse era o voto de minerva está dado. Encerrado o assunto?
Lia Mendes falou abismada.
Que é isso KK? Quer prejudicar-me?
Não. Foi você mesma quem se prejudicou acompanhando aquela maluca.
Mas estou arrependida.
Arrependimento só existe quando se faz algo errado, portanto além de ter que se redimir deve também arcar com as consequências por mais desagradáveis que sejam e aceitar seus resultados.  
Acho que Záira virou-lhe a cabeça. Você era tão compreensivo. Tão bom. Está muito mudado.
Continuo sendo o mesmo e com a mesma indulgência de sempre, tanto é que após o lançamento do livro quero contratá-la para meus filmes onde será a estrela principal, se é que não vai se amarrar com Jean e abandonar a profissão.
Não lhe entendo. Amarrada ou não vou continuar, pois seu irmão é favorável em eu dar seguimento em meu trabalho.
Mas que tipo de filmes pretende? Mudou seus planos e agora está fazendo pornôs? É isso que quer de mim?
Não seja burra minha atriz favorita.
Como já dizia Caubi Peixoto há muitos anos. Fale mal ou bem, mas fale de mim. 
Você está tão exposta na mídia que o mundo todo lotará as salas de espetáculos para vê-la.
É claro que imaginando cenas “calientes”, mas sua sempre magistral atuação suprirá e substituirá tais procuras. 
Seu desempenho suplantará tais expectativas e você será a celebridade do momento com filmes de ótima qualidade com enredos interessantes e competentes. 
Gerard apóia minha decisão. Que acha?
Quem entrou na conversa foi Jean que perguntou:
Veio aqui para levar-me a namorada ou para ajudar a solucionar os problemas que poderão ocorrer com a publicação do livro do pai?
Não vou levá-la, pois ela está filmando aqui e sei que tem compromisso e só a contratarei depois. Caso ela se interesse.
Quanto à solução sobre editar o livro ou não já disse. Sou totalmente favorável que seja mantido conforme está escrito. Sem eliminar nada. Apenas acrescentar se houver algum outro fato interessante que venha aparecer antes da impressão.
Quando deu sua opinião você imaginava ser seu voto o de desempate, mas não é. Você apenas empatou. Sou eu e Lia contra você e o Velho a menos que Lia mudou de idéia após toda essa sua ousadia. 
Que tem a falar amor?
Continuo achando que todo o final deva ser cortado.
Assim sendo continua empatado. Somos dois contra dois.
Então façamos o seguinte querido mano:
Conheço e tenho o telefone de Eliana que é irmã adotiva de Zinho que inclusive é mencionada na história. 
Ela poderá ser solicitada para dar o voto da “Deusa da Sabedoria”, até porque ela como cineasta e produtora de novelas terá o poder de julgar criticamente tal livro.
Com certeza ela como cineasta julgará igual ao cineasta KK. Muito espertinho você não? Aprendeu muito saindo do Brasil.
Tem outra indicação?
Tenho e conheço o tio deles.
Dr. Carlos que independente de estar na história foi o médico que curou Zinho de toda sua enfermidade além de ser seu eterno grande amigo e creio ser ele o mais importante para julgar sobre a possibilidade de prejudicá-lo ou não. Como psiquiatra que é julgará cientificamente e não como critico literário. Concordam com minha sugestão?
Todos acataram, mas como já era tarde para chamá-lo a mesa, Jean telefonou-lhe solicitando sua presença no bar no dia seguinte às vinte horas para uma importante decisão e adiável apenas por motivo muito sério.
Dr. Carlos confirmou a presença apenas dele, pois assim foi solicitado.
Na conversa Jean perguntou pelo professor Zinho que estava sumido há muitos dias.
Soube ele estava viajando com a família e seu retorno seria no dia seguinte.
Voltando a falar Jean comentou.
Se o Zinho chega amanhã vai querer ficar conosco e o tio dele.
Eu cuido disso. A gente o recebe devidamente e depois ele sairá, pois respeitará meu desejo de ficar só com vocês e se incluirá com outros amigos. Esse problema é fácil de solucionar.
Então vamos definir nosso empate. A partir de agora nenhuma opinião nossa terá mais nenhum valor, sem reclamações ou réplicas de ninguém.
Daremos o livro para que Dr. Carlos leia-o num prazo de vinte e quatro horas e sua decisão não será contestada de forma nenhuma. Sua opinião será definitiva. Concordam?
Todos, exceto Caio, concordaram e decidiram mudar de assunto, bebendo e comendo a deliciosa moqueca servida.
Caio que pensou ter finalmente pela primeira vez ter conseguido ele e o pai estarem de acordo em um assunto não deu por terminada a discussão e na tentativa de forçá-lo mandar o livro para a editora conforme estava escrito ainda insistiu falando:
Pai. Será que precisará todos os Ferreira da Silva morrer, inclusive o Zinho, para você mandar editar esse livro?
Que é isso filho! Deixe de mau agouro.
Foi mal. Apenas um palpite infeliz. Desculpem-me a estupidez. 
E como foi estúpido e infeliz. Não esperava isso de você. Bota infeliz nisso.
Já sei. Perdoe-me. Concordo que falei uma grande besteira. Não precisa continuar a represália. 
Continuo sim, pois...
Jean interrompeu-os novamente.
Não comecem a discutir vocês dois. Não dá mesmo para entendê-los. Ambos defendem o mesmo raciocínio e ainda assim discordam entre si e brigam como dois adolescentes. Vamos comer e beber.
Calaram-se e como sempre o grande amor entre pai e filho falou muito mais alto e ambos instantaneamente passaram a tratar-se bem. Não se sabe até quando, pois como sempre são muito felizes até a próxima briga. 
oooOooo
No dia seguinte os quatro já estavam no bar desde pouco antes das vinte horas aguardando a chegada de Dr. Carlos.
Passava das vinte e duas horas e nenhuma notícia dele e tão pouco de Dr. Sebastião que não apareceu. Ambos os celulares foram chamados e nenhum respondeu assim como os telefones fixos deles.
Caio tentou falar com Eliana para saber alguma notícia e também seu celular não atendia embora chamasse insistentemente.
Os telefonemas prosseguiram ininterruptamente por mais uma hora e nenhuma mensagem de texto foi respondida assim como os recados deixados nas secretárias eletrônicas dos fixos.
Todos ficaram apreensivos, pois alguma coisa de muito grave deveria ter acontecido pela ausência da esperada e confirmada vinda de Dr. Carlos e do evidente comparecimento de Zinho depois da viagem de muitos dias.
Após muitas cervejas ingeridas pelo Velho e pelo Jean. Muitos uísques pela atriz e vários refrigerantes pelo Caio interrompeu-se o jogo que passava na televisão para uma notícia extraordinária.
Foi passado o noticiário do grave acidente ocorrido com o carro do conhecido advogado e professor Dr. Sebastião Pereira da Silva Filho.
Ele em contra mão dirigindo em altíssima velocidade colidiu de frente com uma carreta que transportava barras de ferro. Seu carro foi esmagado pelo veículo pesado.
Foi narrado pelo repórter que o fato foi considerado pela perícia como muito estranho, pois aconteceu em uma longa reta da estrada, totalmente segura e sem a mínima possibilidade de acidentes. 
Até o transito em tal estrada vicinal quase deserta era muito pequeno e nenhum dos veículos deixou marcas de ultrapassagens ou de freadas bruscas.
A impressão que se teve foi que ambos dirigiram-se um contra o outro, propositadamente.
Ninguém ficou vivo para explicar e tão pouco apareceu testemunhas da esdrúxula colisão. 
O desastre havia ocorrido por volta das dezoito horas e até o momento só tinham retirado o corpo do motorista do caminhão que morreu com o choque do volante ao peito quebrando-lhe todos os ossos das costelas perfurando-lhe os pulmões, o coração e os intestinos. 
O caminhão estava praticamente ileso, mas o carro era como uma folha de papel embaixo da carreta. 
Já haviam conseguido desvencilhar os veículos, mas os corpos do advogado e professor, seus dois filhos e sua esposa grávida estavam estraçalhados e ainda presos nas ferragens do automóvel, irreconhecíveis.
A placa do veículo soltara na colisão e foi por ela que a polícia tinha localizado o proprietário que por tratar-se de pessoa muito conhecida foi fácil localizar os familiares que com exceção de Dr. Carlos os demais tinham dificuldades em reconhecer os parentes que estavam decepados com os pedaços presos entre as latas do veículo.
Os amigos no bar Anarquia Total retiraram-se silenciosamente e desapareceram sem assistir o segundo tempo do jogo e sequer suspender o mocotó e o sarapatel pedidos e mesmo sem pagar a conta. 
Ao afastarem-se cabisbaixos ouviu-se apenas os sussurros e lamentos do Velho que chorando resmungava sem parar:
Palpite infeliz em Caio? Muito infeliz mesmo. Acabou-se tudo. Não vou editar essa merda de livro nunca.
Será?  
Eu disse e está dito. 
Não acredito.
Jean intrometeu enérgico a conversa dos dois dizendo:
Vamos parar. Tudo é motivo de discussão para vocês. Infelizmente tudo acabou e agora passo para o lado de vocês. Escreva até esse trágico episódio de hoje e encerre o livro definitivamente e ponto final.
Eu também concordo. 
Disse Lia Mendes.
ACABOU.

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