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orlando ciuffi filho






"Paraizo"

PARAIZO
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Vamo simbora. Lá im São Paulo é qui é vida. Lá é o “Paraizo”. Trabalhadô nóis é, e muntio. Lá inté vô acabá istudio e si formá doto.
Tu fica arredio di num querê i. Num parece meu irmão mais velio.
Tião tu tem corage de deixá mulhé e filios?
É só um só. O outro inda não viu luiz. Tá na barrida da Zefa e inda num é minino não. Dispois quando eu tivé arranjado na vida venho buscá mais eles.
Crie corage home e vamo simbora.
Não. Eu num arredo o pé daqui não. Num tenho corage de deixá minha mulhé, os mininus e a rocinha que dá pra tirá o di come que eu acho qui inté tá muntio bom.
Meus mininos já tão grandinhos e ajuda eu arribá nas lavoras.
É certo qui nas sêca fica tudo perdido, mais sempre tenho dado jeito e tenho vivido como Deus qué.
Minha nossa. Como tu és conformado. Tens dado murro da peste nas lavoras tua, inté perdê tudo e dispois nas dos otros da Bahia e cumadre Quitéria trabalha duro nas otras cidades de empregada nas épocas das carênças deixando teus mininos nas sortes de Deus, durante os tempos de sêca, e inda acha que tá vivendo?
És meus distino. Vô ficá por cá mesmo como Deus mandô e num arredo pé mais tu não. Tenho dois mininos e duas mininas pra acabá de criá. Vô criando eles do jeito que Deus mandô nus distino de pobre, mais onrrado e trabalhadô do jeito que nosso pai mandô e deu insinamento. Tenho que zelá das terras inté os fins tal qual ele féis.
Fonso tú num acredita, mais quando tu arriba pra trabalhá fora teus mininos só num robam porque neste lugá sem sorte num tem nem o que robá. Mais inté mendigá eles mendiga.
Eles num carece disso não Tião. A Quitéria cuida deles nas minha saída pra trabalhá e arranjá dinhero lá nas terra da Bahia.
Tá certo que eles num mendiga, pois num tem pra quem mendigá neste lugá de gente miseráve, mais eles inté disputam resto de lixo que das veiz aparece, com os cachorros das rua. Isso sim é minha verdade, pois eu vejo e num posso fazê quase nada.
Tú tá besta home? Num fala isso não de meus filios. Num é verdade.
Tú te arrecusa a acreditá, mais é verdade verdadeira.
Si tu fô mais eu pra São Paulo tu vais vê que lá num tem destas miséria não. Dizem que é muntio mais milhó que todos os lugar do mundo junto. Tem escolas pros mininos e pros grandes também. Tudo sem pagá nada.
E mesmo que tivesse de pagá, num tinha portância, pois os salário dos trabalhadô lá é muntio mais milhó do que de qualqué gente daquí.
Num credito nada disso.
És discrente mesmo né irmão. Lá inté casa a gente compra, já pronta, pra pagá de pouquinho inté acabá. Num carece nem de fazê elas não.
Os governo constrói muitas casas umas enrriba das otras nos prédio grande prá gente comprá elas prontinha.
Num credito de jeito ninhum nestas istória di qui o governo ajuda alguém.
É pura verdade. Lá a gente trabalha prá construí as casas. Ganha bastante dinheiro dos governo prá fazê elas e a gente pode comprá uma delas pra morá com a família pagando só pequena parte do dinheiro que ganha.
Tudo mintira. Os pobre deve sofrê lá mais do que cá si trabalha pros governo.
Tu num vê nos filme?
Tudo isso a gente vê nos filme que os homes de São Paulo com os do estrangeiro trais pra gente vê todo ano.
Tudo desses filme é mintira. Eles trais esses filme só prás pessoa daqui se interessá de ir pra lá mais é tudo falsidade. Num credito nus filmes, nus homes de lá e muntio menos nus guverno.
Num é mintira não. Sinão todo mundo que já foi prá lá já tinha voltado pra cá se lá não fosse bom.
Intão me diga pra onde eles vão daqui que nunca mais voltam prá cá pra se mostra e nem nunca manda notícias ninhuma.
Nos filme que os homes de São Paulo passam prá gente vê a gente nunca vê ninguém daqui andando lá nas ruas de lá.
Eu acho que as cidade grande engole a gente daqui e some com elas pra nunca mais volta pra num falá das maldades de lá.
Eu nunca mais vi dizê das família dos Alencar. Pai, mãe, dois filios, um home inda sem barba e uma filia mulhé nas idade de virá mulhé feita que foram pra lá fais mais de quatro anos e nunca mais voltaram pras roças deles aqui e nem nunca mandaram notícia.
As terra deles é vizinha da nossa e as casa de construção de madeira forte que eles fizeram tá tudo arruinado. Caindo tudo no chão.
Quem mora lá são os doentes leprosos que foram tocados de todo lugar por causa das ferida que eles tem nos corpo. Eles é qui invadiram as terras dos Alencar e mora lá, sem fazê nenhuma melhoria e nem plantá.
Tu num cunhece os homes cum lepra que vivem lá sem ordem de ninguém?
Vai vê que os Alencar tá tão rico lá em São Paulo que nem liga mais pras terra daqui e num importam que os doente morem lá.
Eu já ví estes doente de perto e inté te pergunto como tu tens corage de deixá teus mininos sozinho, perto deles, quanto tu e Quitéria viajam?
Num tem perigo não. Eles num sai de lá cum medo do povo maltratá eles e mandá simbora também de lá. Eles num arreda pé de lá das terras do Alencar pra nada e os mininus igual a todo mundo nunca chega perto deles não.
Deixa tudo isso aqui que num vale nada que nem os otros que já foram meu irmão e vamos pra São Paulo. Lá é muntio bom. Lá é o “Paraizo”. Sabe o seu cumpadre Jorge? Foi também cum mulhé e filia aquela minina bonita, tua afilhada e também num voltaram porque lá é bom. Já tem pra mais de treis ano e tamém num voltaram.
É esse os meus medo. Ninguém num volta e também num manda notícia. O meu cumpadre Jorge nunca mandô nadinha de notícia nem ele nem ninguém que já saiu daqui pra ir pra lá, pro teu Paraizo, qui eu acho que é o Inferno e não o Paraizo.
É certo Afonso que ninguém manda notícia. Quem é que sabe escrevê daqui? Sem sê nois e os filios do padrinho Tonho, o Pedro e o Ângelo que tá estudando lá na cidade de São Pedro?
Os que foram lá pro “Paraizo” tão todos estudando e aprendendo primeiro pra despois mandá notícia.
E além disso aqui num tem jeito de arrecebê notícia deles a num sê por portado e como lá é muntio bom, ninguém qué voltá de portadô, pra esse lugá qui é o verdadero inferno, e não lá que é o “Paraizo”.
As terra de lá é muito frio e meu peito num vai guentá não. Minha tosse e dor dos peito tão cada vez mais forte e qualqué frio minhas resistênça vai chegá logo ao fim. Num vô guentá não Tião os frio do teu paraizo qui eu acho qui é as casa do capeta.
Deixa de aperreamento home. Quem ti falô que lá é frio?
Num viu não home? Nos filme dos home de São Paulo a gente só vê gente toda cheia de capotes e muitas roupa andando nas ruas de lá. Só pode sê porque é muntio frio.
Num é que é frio. É que eles usam roupas bastantes porque eles tem muntias prá vestí. Num é mode nois que nem tem roupas direito. Tu num vê nos filme qui nos mar eles brincam só de roupa tão poucas apenas prá tapá os pudor?
Nas ruas eles veste muntias roupas é porque tem muntia prá vestí.
Que é mais frio que aqui é e tem de sê porque lá num tem essa sêca da peste prá matá a gente não.
Os frio de lá é é muntio bom. Num mata ninguém não, sinão num tinha tanta gente do jeito que tem.
Meus destino é aqui mesmo i num arredo pé daqui não.
Deixa de sê mole home. Lá tu inté pode tratá destes peito adoentado e trabalhá muntio, estudá tú, mais a teus filios e todo mundo tê vida boa.
Seja doido não Tião. Home já velho como eu com os corpo já dobrando num serve mais muntio prá o que fazê que dirá inda estudá nas escola.
Já to mais prá morrê do que prá qualqué otra coisa e morrê por morrê morro aqui mesmo que é meu lugá.
Nunca se é velho prá vencê na vida e tu num é velho não.
Como não? Já tenho quase quarenta anos e quem chega inté nessas idade já pode agradecê os milagre se ficá um pouco mais.
Tu num pensa com a cabeça Tião. Essas aventura é prá louco.
Onde já se viu home nos fim de vida se arrojá nestas viages e inda pensá em estudá? Estudo é pra moço novo, cheios de saúde, e sem filios prá criá. Quem tem família tem de trabaliá duro.
E também de que adianta a gente aprendê a escrevê melhor?
Estudos nunca encheu nem enche barriga de ninguém.
Quando eu era ainda minino novo, nosso pai num mandô eu estudá não?
Fiquei estudando muntio pra aprendê as escrita, as gramática, e as istória, e as geografia, com as matemática e tudo.
Tudo quanto é conta e medidas e os pesos e de que adianto eu ficá esclarecido e estudado prá dispois voltá pra cá pra roça tentando plantá e a seca matá, ajudano nosso pai trabahá nas enxadas. Nosso pai morreu de tanto trabalhiá e eu continuei nas lavoras no trabalho pesado prá podê mandá você ir estudá as mesma coisa em troca de que? Meus filios num estudam e num vão estudá não.
Os nosso estudo só serviu mais eu e você pra sê revoltado com as coisa. Por causa deles tu agora só pensa em ir embora e quem sabe lá se é mesmo pros bem.
Os estudo só serviram pra virá as cabeça tua.
Eu naqueles tempo que estudei também custei a me conformá e acostumá de ficar na roça outra veiz, mais agora já me conformei e acostumei e entendi que os estudo não presta de nada pra nois não.
As sabedorias só serve prá quem é rico e das cidade.
Ocê sempre me escondeu mais eu sei por acaso de ouvi dizê qui nosso pai morreu matado por tiro i não de trabalhá não. Sempre me escondeu as verdade num é. Fiquei sabendo tamém que era os nossos vizinho qui nus dava istudo e cuidava de nois.
Não carece falar disso. É passado e nos passado num se mexe.
Fonso nois estudamo nessa porcaria de cidade de São Pedro que nem gente formada de doto tem, porisso que num tivemo mais sorte, mais lá em São Paulo nois vamo estudá pra sê doto ou motorista ou dono das fábrica. Tudo coisa boa e nossos distino e das nossa famílias muda duma veiz.
Tião. Num dianta não. Queres dá os passo maior do que as perna alcança.
Tu aqui ganha dinheiro durante o ano inteiro. Todos os meis arrecebe seus ordenado do teu padrinho e inda reclama?
Que ordenados? Essas porcarias de algum mantimento e poucos dinheiro que arrecebo num vale de nada.
Num tá bom não? Já ganhas mantimento e com o dinheiro compras outras coisa necessária para tua família durante todo o méis e o que quer mais? Agradeça a Deus que teus destino é dos melhor. Na tua casa ninguém carece de roupa e nem de comida.
Se tú és mole e frouxo num vá, mais num tenta convencê eu de ser mole como tu. Eu sô é cabra de corage e vô fazê a viagem pra São Paulo que é o “Paraizo” e saí deste inferno de lugar.
Vô é vivê bem. Eu e minha mulhé e meus filios. Se tu criá corage vende a roça pra alguém que aparecê com algum dinheiro ou pro meu padrinho Tonho que tem dinheiro e com o dinheiro arrecebido nóis inté compra casa grande em São Paulo pras nossa famílias inteira morá.
Tião tu num podes pensá nestas maluquices. Teu padrinho dá duro mais tu no armazém pra vendê pra todo mundo daqui, mais dinheiro mesmo ele arrecebe muntio pouco que num dá pra comprá nossas terras não e além do mais num vendo as terra não.
Desde os tempo de nossos bisavós que as terras são nossa e nosso pai, antes de morrê, mandô nois num abandoná elas não. Tu sabes disso.
Quem te disse que nossos antepassado era dono das terra?
Nosso pai.
Pois eu soube que ele é qui foi um forasteiro que apareceu por aqui e arrendou as terras de um homem qui dispois apareceu morto e ele ficou cum elas.
São mintiras. Nada disso aconteceu cum nosso pai qui era muintio honrrado.
Nunca fiquei sabendo as verdade. Parece qui mesmo dispois de morto nosso pai amedronta todo mundo por aqui.
Ocê num sabe das coisas antigas purque era muintio piqueno quando nosso pai morreu e fica dando ouvido as pessoas maldosas qui falam dele só purque já morreu.
Num seio direito, pois só algumas poucas pessoa fala e muito por alto. Ninguém falas as verdade direito purque parece qui continuam tendo medo do velho, ou será ocê qui amedronta os vizinho?
Deixe de sê besta. Nosso pai nunca amedronto ninguém e nem eu tamém.
Tá certo. Num si fala mais nisso e si num qué criá corage de home que fique aqui inté morrê.
Eu desta veiz vô mesmo simbora pra São Paulo. Nada e ninguém mi asigura mais aqui.
Tião eu te imploro qui tú tens de deixá de pensá nisso.
Não que eu seje covarde e interecero, mais o que será de minha mulhé e filios, se eu morre e num tê você prá tomá conta deles?
Somentemente Quitéria minha mulhé e mais a Zefa tua mulhé num conseguirão dar de tratá pros meus mininos mais pros teus se tú se mandá simbora pro tal de São Paulo. Tú tens de vê que Zefa tá esperando minino de você, crescendo a barriga e num pode fazê serviço duro não.
Que que é isso Fonso? Tu tás com dores no peito só faiz treis méis e os rezamentos das mulheres mais as bebida quente que tu tomas daquelas raízes cherozas que a velha benzedera deu te fará guentá inté a chegada do doto médico pra te curá difinitivo e num vai morrê não. Deixa de sê besta home.
Quando é que o doto médico vem este ano?
Meis que vem junto dos homes de São Paulo e dos estrangeiro. Gente muito mais fraca que vive nas miséria e mendigancia já aguento adoençamento igual e inté pior que os teus por muntio mais tempo. Tu vais aguentá inté a chegada do doto médico que vai te cura e intão tu vai mais eu pra São Paulo.
Vô me trata com o doto médico dos estrangeiros sim, mais num vô arribá prá lugá nunhum cum eles nem cum tu não.
Tião esta foi a derradira viez que te falo pra num í, mais si tu qué í mesmo então que vá com a bença de Deus, mais eu num vô não de jeito maneira. Eu inté já ia partí pras lavoras da Bahia, pois as daqui o sol já queimô tudo, mais vô esperá o doto médico pra me tratá primeiro.
Tá bom Fonso. Nunca mais vamo tocá nos assunto de tu í mais eu. Mais desta veiz eu vô mesmo e tu num me segura não. Nem tu e nem a Zefa e nem padrinho Tonho e nem ninguém.
Nem o nenê que cresce na barriga de tua mulié?
Vô simbora pra dispois de muntio trabalhá e bastante dinheiro ganhá, voltá pra vim buscá todos vocês e tu vai vê qui esse nenê qui vô sem vê nascê será um futuro doto médico e professô dos mais quirido e famoso. Eu vô conseguí isso e tu vai vê.
oooOooo
A CHEGADA DA CARAVANA DE SÃO PAULO
Alguns dias após, todos os poucos homens, mulheres e crianças, pois velhos não existem em pequenos e pobres vilarejos perdidos no sertão brasileiro se reúnem na pracinha do lugar ao redor dos homens que chegaram trazendo consigo alimentos, músicas, filmes, brinquedos, remédios e et cetera.
Enfim algumas coisas vindas da civilização para os miseráveis esquecidos do sertão nordestino que sequer energia elétrica tem.
São apenas um médico, três homens bem vestidos chamados pelo povo de “patrões”, três motoristas um para cada caminhão existente na caravana e seis outros homens ajudantes dos patrões.
Conversavam em português, em espanhol e misturavam as palavras nas duas línguas confundindo um pouco o entendimento com o pessoal do vilarejo que já tinha sua pronúncia própria.
Os seis homens mantêm entretidos os habitantes com os objetos trazidos enquanto o médico examina alguns e os patrões conversam com os outros.
Os filmes e musicas são passados em aparelhos movidos à bateria por aqueles homens que distribuem brinquedos e alimentos aos flagelados que lhes beijam mãos e pés humildemente agradecidos.
O medico trata dos doentes com remédios, injeções e conselhos.
Os patrões conversam com os pobres e famintos nordestinos separando-os em duas turmas, mas poucos são os miseráveis que se aventuram a falar com eles.
À medida que o tempo passa as músicas alegres e os filmes exibem as belezas de São Paulo, Rio de Janeiro, Santos e outros lugares. Enfim, as imagens da civilização cheia de fartura e riqueza enfeitiçam o pessoal.
Grandes prédios, parques de diversão, praias, campos de futebol, carros, trens, metrôs, aviões, coisas só vistas por estes infelizes quando trazem estes filmes, fazem com que os temerosos e indecisos habitantes da vila comecem encorajar-se a se entrevistarem com os patrões.
Com todas as maravilhas vistas nos filmes, a insistência de Sebastião e a garantia de emprego pelos patrões, ainda assim Afonso permaneceu fora da fila das pessoas que iriam falar com os eles, mas foi conversar e ser examinado pelo médico.
Passado um dia inteiro, os três homens chefes da caravana dispensaram a turma constituída pelo maior numero de pessoas e avisa aos outros que compunham a turma menor que eles depois de examinados pelo médico e se não tivessem doenças iriam viajar para São Paulo com emprego garantido.
Poderiam trazer suas trouxas de roupas e sua família para que subissem nos caminhões, que já estavam abarrotados de gente, vindos de outros lugares.
Nesta altura dos acontecimentos os seis homens alegres que entretiam o povo deixaram de ser alegres e a pescoções e empurrões afastavam os não escolhidos que lamentavam e tentavam invadir os caminhões.
O medico examinou os escolhidos eliminando três deles por estarem doentes restando apenas oito pessoas consideradas aptas à viagem e ao trabalho.
Sebastião estava entre eles, mas teria a decisiva entrevista com os patrões após trazer toda família para os mesmos aprovarem ou não os demais componentes.
Desta vez foi Sebastião, duas moças e dois outros homens que não foram aprovados, pois suas famílias não queriam ir e não foram aprovados para viajar no comboio.
Deveriam tomar lugar nos veículos apenas dois homens com suas famílias completas e uma moça solteira que não tinha nenhum parente.
Um dos homens levaria sua mulher ainda jovem como ele e duas filhas pré-adolescentes.
O outro homem escolhido levaria sua mulher e sua filha adolescente de onze anos.
A moça solteira e só no mundo levaria apenas suas roupas e sua juventude de quinze anos.
Todos subiram para tomar lugar nos caminhões sem estranharem o fato de terem sido colocados separados.
Sebastião embora considerado pelos próprios patrões como um homem de futuro devido a sua ambição, inteligência e juventude, pois tinha apenas vinte e dois anos não foi aprovado por pretender viajar só deixando sua família.
Sua esposa Josefa se candidatou a posterior para não desiludir Sebastião, mas infelizmente não poderia viajar, pois além de grávida tinha um filho muito pequeno que não serviria para o trabalho.
Afonso tentou convencer os patrões e até se ofereceu para viajar com Sebastião, mas também não tinha condições nenhuma porque não levaria sua família e além do mais ao ser examinado pelo médico foi constado que estava tuberculoso.
Sebastião se revoltou tanto chegando à loucura de tentar a força entrar nos caminhões, porém foi impedido pelos ex-simpáticos e alegres ajudantes que aplicaram-lhe uma violenta surra que quase o matou.
Ainda estava consciente, quando viu afastar do lugarejo aqueles três caminhões cheios de felizardos nordestinos que finalmente iriam para as cidades grandes do sudeste do país, viverem felizes e fazer fortuna, deixando-o para trás na mesma miséria de sempre.
Só quando os caminhões estavam fora do alcance das vistas dos que ficaram é que Sebastião desfaleceu por completo fechando os olhos cheios de lágrimas e sangue.
Seu sonho não se realizou.
oooOoo
CONTINUA A ESPERANÇA
 
Sebastião finalmente restabelecido algum tempo depois da partida da caravana tem uma surpresa desagradável.
Em conversa com seu padrinho Antonio descobre que ele estava aborrecido por não ter dado certo sua ida para São Paulo com os homens que vieram em busca de trabalhadores.
Ambos tristes, tímidos e envergonhados conversaram:
Poisé Tião. Como tu qué ir pra São Paulo e perdeu a caravana daqui o único jeito agora é ir inté Santa Assunta do Norte, na divisa com Pernambuco e de lá podê partí pra o sudeste nas caravana que sai de lá dentro de algum tempo.
Sempre foi assim. Logo que eles saem daqui tem outra ou a mesma que passa por lá algum tempo depois.
Pra facilitá tua viagem ti dou o pagamente deste méis que ainda não acabô e mais um ordenado inteiro pra tu fazê alguma fartura na tua casa e ti dô ainda mantimento pra tua viagem.
Mais padim! Num seio se vô infrentá tal viaje a pé inté Santa Assunta?
Tião. Como tu qué mesmo ir simbora, o único jeito é ir inté lá e de lá pegá os caminhões que levam para o sul.
Padim Tonho, eu to afins de esperá inté o ano próximo quando então Zefa já pariu o nenê e daí nois pega junto os caminhão daqui com a família completa.
Acontece Tião que vão recusá ocêis pelos filios pequenos na família. Já recusaram a Zefa da primeira veis com teu filio nascido. Imagine se vão aceita oceis com o pequeno e com o outro inda menor que vai nascê, que será mais um estorvo a mais para todo mundo.
Num vão aceitá de jeito maneira.
Meu filio Pedro já tá prá casá. Ele que já é home feito eu pensei de ele ficá no teu lugá no armazém.
Se meu comercio tivé que mantê minha família mais a tua e mais a dele, não vai dá sustento pra todo mundo não. Si tu for simbora meu filio poderá realizá o desejo de casá e trabaliá mais eu.
É bem verdade que prometi pra teu pai inhantes dele morrê e pra teu irmão Fonso que daria emprego pra ti, quando tu voltasse das escola e assim fiz e faço em cumprimento da promessa ao falecido cumprade, mais como tu tá tão entusiasmado em parti te dou a ajuda falada pra tu ir i num si fala mais nisso.
Ti dô todo esse apoio falado pra tu í simbora.
Sei não padim si vô. Mais pra num ti prejudica deixo o emprego pra teu filio Pedro lá nus teus armazém, mais partí assim de pé inté Santa Assunta que é tão longa caminhada nas época de seca num sei si vô não.
Vô pensá milhó no qui fazê.
Tião, tu podes combiná com aqueles homes e mulieres aceitos e dispois reprovados na caravana daqui e voceis vão juntos inté Santa Assunta e de lá se apresentam nos caminhão como uma família completa entre oceis e ninguém vão arranjá problema.
Mesmo que fô os mesmos home que tiveram aqui num vão recunhecê ocêis e vão aceitá pra viagem de ida como trabahadô pra São Paulo, como si fosse morador de lá.
Mais a caminhada inté lá é muitio longa.
Várias pessoa junta numa caminhada, mesmo que longa, num é ruim. Dá pra fazê uns ajudano os otros.
Também acho qui tu ta certo padim. Tu és bom aconselhadô mesmo.
Vô combiná com aquelas outras pessoa e vamo infrentá o sertão inté Santa Assunta e de lá pra São Paulo.
Sebastião não tendo saída para resolver seu problema decidiu aceitar do padrinho patrão a oferta de receber dois salários e algum mantimento para a viagem.
Iria convidar os homens e mulheres que foram rejeitados a irem com ele em viagem a pé até Santa Assunta do Norte, para de lá usarem outra caravana ou a mesma que passava por lá.
Sempre se soube que depois da partida de sua vila, aproximadamente dois meses depois, saia uma caravana da tal vila que ficava distante da deles.
Talvez eles encontrassem os mesmos caminhões com os mesmos patrões, pois pelo que sabiam de ouvir dizer os caminhões que passavam por sua vila iam devagar pelas fazendas da região apanhando mantimentos, escolhendo mais alguns trabalhadores em troca de outros já escolhidos e que não mais interessavam aos patrões por vários motivos como desobediência, revolta ou doenças.
Ao chegarem a Santa Assunta descansavam algum tempo, completavam a lotação caso ainda fosse necessário e possível de acomodar nos caminhões e finalmente seguiam viagem direta para São Paulo.
Isso era do conhecimento de todos, pois já houve pessoas presentes em ambos os locais e nas mesmas épocas que embora não conseguissem viajar, assim diziam sem saber afirmar se era a mesma caravana ou outra.
Mas era certeza que de Santa Assunta poderia viajar para São Paulo com emprego arrumado mais ou menos dois meses após a partida da caravana de Córrego Seco.
Quem quisesse aventurar nessa caminhada a pé pelo sertão ainda tinha nova chance de ir para São Paulo.
Sebastião não conseguiu de forma alguma motivar os dois homens e uma das moças que foram excluídos, pois estavam atraídos na época apenas pelos belos filmes e músicas que lhes exibiram.
O estado hipnótico das visões da civilização havia desaparecido por completo ante a consciência da viagem a pé durante muitos dias pelo sertão seco e com possibilidade de não encontrarem nenhuma caravana ou mesmo encontrando não terem permissão para a viagem.
O sonho de ir para o sudeste era fortíssimo não só para ele, como também para a outra das moças eliminadas. Era a Adelina, ainda bastante jovem que desde criança sua idéia única, sem que ninguém soubesse, era sair do nordeste a qualquer sacrifício.
Esse era seu maior desejo porque como ela era praticamente só, pois sua família era constituída apenas por sua velha avó muito brava e agressiva, uma sobrinha pequena, filha de sua irmã solteira doente mental que não gostavam dela.
Era impedida a pauladas pela irmã e pela avó de chegar perto da criança e esse era o grande estímulo para ela desaparecer de tal convívio.
Apenas ela sabia de seus desejos e aspirações urgentes.
Sebastião não conhecia Adelina que foi a última das pessoas que procurou e encontrando-a propôs-lhe o que pretendia.
Ela não hesitou em concordar. Aceitou de pronto, pois era a saída ideal para ela se ver livre do ambiente familiar péssimo em que vivia, além da miséria.
Tal atitude deixou Sebastião e seus familiares com duvidas e suspeitas quanto à participação apenas da moça ainda muito jovem e fraca na viagem para Santa Assunta.
Sebastião não podia mais retroceder e recusá-la, já que ela era a única pretendente e como ele não tinha mais possibilidades de continuar na vila, sua última e única alternativa era ir para Santa Assunta com ela para depois partir para São Paulo.
Teria que aceitar como companhia qualquer um e por esse motivo já que era apenas ela seria até bom, pois apresentariam à caravana como um casal, por isso Sebastião não teve mais duvidas que deveria fazer a viagem com Adelina mesmo com toda sua família discordando.
Decidido combinou a viagem para Santa Assunta do Norte com a maltrapilha e paupérrima companheira.
Ela partiria com ele com a condição de ele provê-la de alimentação, pois ela não tinha condições de levar nada de sua pobre família que iria ficar na mesma miséria que já vivia na pequena roça.
Partiriam da vila até Santa Assunta do Norte a pé, somente os dois o mais urgente possível, pois Sebastião perdera muitos dias se recuperando dos ferimentos causados pelos ajudantes da caravana e pelo tempo gasto em encontrar nas roças distantes todos os convidados.
Quando de sua partida despedem-se deles Afonso, Maria Quitéria, Zezinho, Severino, Maria das Dores e Mercedes, respectivamente seu irmão, cunhada e sobrinhos.
Também chegaram a sua casa para despedirem-se Sr. Antonio, Sra. Mirtes, Pedro e Adelaide, padrinho e madrinha de Sebastião e o filho que o substituiria no emprego com sua noiva.
Sua esposa Josefa permaneceu todo o tempo chorando trancada em seu quarto com o filho Tiãozinho e só apareceu quando o rapaz já estava caminhando para gritar-lhe:
Tião num deixa de escreve prô filio de seu padrinho, o Ângelo qui tá estudando e morando em São Pedro, pois quando ele vem pra cá traiz pra nóis notícia tua de lá.
Pode deixa Zefa que eu vô escrevê pra todos.
Intão vão cum Deus e cum a benção de Cristo e da Virge Maria, ocê mais a moça.
Ninguém mais da vila os viu partir.
Já estavam longe quando Sebastião confere sua mochila.
Continha feijão, carne seca, farinha, açúcar mascavo, sal, além de fósforos, um facão, um punhal, uma velha garrucha de dois canos, dois cantis com água e roupas.
O dinheiro recebido do padrinho ficou com Josefa para suas futuras despesas.
Algumas roupas que mais pareciam trapos e um velho terço de rezas era a mochila de Adelina.
Não olharam para traz uma única vez até sumirem da vista de todos.
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CONVERSA DOS QUE FICARAM
Pai. Tu influenciou Tião a ir simbora. Eu acho que ele num divia impriendê tal caminhada somentemente com aquela moça. Eles vão sofrê muito pra chegar inté Santa Assunta.
Num apoquente Pedro. Tava nos desejos dele desde muntios anos de ir pra São Paulo e cumo ele ia fazê isso mesmo mais cedo ô mais tarde eu só ajudei. Eu num forcei ele pra nada. As idéias era dele mesmo, pois só pensava nisso.
Tonho, o sinhô acha mesmo que ele vai consegui chegá são e salvo em Santa Assunta?
O caminho inté lá nestes tempo de seca e quente como agora é muntio difícis. É caminhada pra muntios dia.
Não se preocupe Zefa, pois Tião é home moço, forte e arrojado e sem ninhum medo de nada e ele ta tão desejoso de í que inté és capais de chegá lá cum metade dos tempo que qualqué algum outro consiguiria.
Inté credito que ele chegue sim im Santa Assunta cum uns trintas dia de caminhada quando o certo é de se levá di trinta e cinco a quarenta.
Que o nosso bom pai i seu filio nosso Sinhô que tás nus Céu ti escute e faça das tuas palavra uma vontade deles e ponha meu marido Tião mais a moça, em Santa Assunta logo mesmo e dispois que eles ponha os dois de lá inté São Paulo o mais logo ainda.
E peço mais para nosso Deus do Céu que faça de Tião lá em São Paulo dipressa um home rico como ele qué pra podê voltá pra cá buscá mais eu e o Tiãozinho e o nenê que vai nascê, pois num faiz muntios minutos que ele partiu e já to desejosa de saudade dele.
Afonso sugeriu que Josefa e Tiãozinho fossem morar na roça com sua família, pois ficariam livres de despesas maiores, pois lá havia alimentos naturais plantados e colhidos por eles além das galinhas e porcos criados para alimentação e também para que Josefa grávida fosse ajudada pela cunhada e pelos sobrinhos já grandes.
Maria Quitéria aprovou prontamente, pois não precisaria mais trabalhar em outros lugares onde a seca não era tão forte para conseguir algum dinheiro como sempre fizera obrigada pelo marido nas épocas de carência.
O dinheiro em poder de Josefa livre do aluguel da casa na vila daria para ajudar no sustento deles todos por um bom tempo.
Afonso não andava nada bem de saúde, mas com os remédios caseiros e os outros doados pelo médico tinha melhorado bastante e por esse motivo ficaria na vila prestando algum serviço para pessoas menos miseráveis que ele com condições de pagar-lhe algum dinheiro ou fornecer-lhe como pagamento alguma coisa de útil que era muito usual acontecer entre eles.
Sr. Antonio ficaria a partir daquele momento responsável pelo aluguel da casa de Sebastião e Josefa, pois pelo fato dela ir para a roça com Afonso a casa ficaria para moradia de Pedro.
Ela apanharia na casa apenas suas roupas e do filho e os demais pertences da casa ficariam lá comprados pelo Sr. Antonio e por isso o total do dinheiro que ela teria em mãos seria ainda maior.
Os objetos deixados na casa para uso dos futuros moradores eram: uma mesa com três cadeias, uma cama de casal, um colchão de capim, duas redes de dormir, um armário repleto de panelas, talheres e canecas feitas de latas.
Um rádio elétrico que não se sabe quando ou de onde apareceu, sem nenhuma serventia, pois no lugarejo não havia luz elétrica.
Duas bacias, uma para lavagem de roupas e outra para banho quando havia água, dois velhos baús para a guarda de roupas e outros objetos. Um ficaria vazio, pois Josefa retirou as roupas para levá-las.
O outro ficou repleto de livros que Sebastião usou na escola onde estudou anos antes e que nada mais eram do que simples cartilhas do curso primário com alguns cadernos de caligrafia e ditado que estavam sendo guardados para serem usados por seus filhos quando eles estivessem na época de frequentarem a escola de São Pedro.
Afonso, Sebastião, Pedro e agora Ângelo eram os únicos do lugarejo que haviam frequentado a escola para aprender ler e escrever e mesmo não servindo para nada tal aprendizado com exceção de Afonso, os demais mantinham a tradição de passar tais escritos de pai para filho.
Aliás, Afonso nem mais sabia ler ou escrever porque na vila nada existia para ser lido e ele tampouco se preocupou em praticar a escrita.
Josefa tinha também deixado na casa dois grandes barris para guardar água, alguma lenha cortada, madeira, telhas e tijolos, que Sebastião aos poucos comprava e guardava para construir sua própria casa ou para aumentar a que morava, embora não fosse dele, mas que era muito pequena. Apenas um quarto e cozinha com uma latrina de fossa no quintal.
Conforme trato com o Sr. Antonio a compra seria de todos os objetos existentes na casa com exceção das roupas de Josefa e de Tiãozinho, os alimentos e os “livros”, pois esses não serviam para os filhos de Pedro no futuro. Ele teria de volta seus próprios que estavam sendo usados por seu irmão Ângelo que os devolveria quando de sua formatura. Esses sim eram realmente livros e não simples cartilhas porque atualmente em São Pedro estudava-se inclusive o curso ginasial bem mais adiantado que o antigo curso primário que Afonso e Sebastião tinham cursado.
Josefa triste pela partida do marido, mas feliz pelo amparo oferecido pelo cunhado e pelo padrinho de Sebastião que lhe comprara todos os pertences da casa e responsabilizara-se pelo aluguel.
Como seu marido logo viria buscá-la para morar em São Paulo não precisaria dos livros velhos por isso deixou o baú cheio deles para Pedro fazer com eles o que quisesse, pois lá em São Paulo seus filhos teriam ótimas escolas e livros muito melhores que estes agora abandonados.
Sr. Antonio também ficou muito alegre com o acontecido, pois não teria mais que pagar salário para Sebastião e o filho Pedro que o substituiria nos serviços do armazém se contentaria com salário menor, pois já ia ganhar casa sem pagar aluguel inclusive mobiliada.
Afonso e Maria Quitéria estavam felizes, pois não passariam fome pelo menos neste ano com seus filhos porque Josefa tinha dinheiro suficiente para alimentar a todos na falta de provisões.
Zezinho o filho mais velho do casal vibrou de contentamento, pois nesse ano seus pais não iriam trabalhar fora deixando-o com a responsabilidade de cuidar de seus irmãos mais novos.
Adelaide a noiva de Pedro não se cabia de felicidade, pois após a compra dos objetos e o direito do uso da casa assim como a conquista do emprego para Pedro teria seu casamento antecipado para o mais rápido possível.
Sebastião e Adelina deveriam estar igualmente contentes porque estavam realizando seus sonhos, portanto tal acontecimento fazia desse dia o dia mais feliz para todos os envolvidos.
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CAMINHADA NO SERTÃO
Sebastião e Adelina caminhavam radiantes sob o sol ardente do sertão nordestino, pois estavam indo em busca de seus “Paraizos” a procura da felicidade, da realização como pessoa e da fortuna. Enfim atrás do que procuravam desde pequenos.
Os dois primeiros dias de viagem transcorreram normalmente sem nenhum problema a não ser o esgotamento físico que tomou conta de ambos devido à pressa em que iam pra não perder tempo.
Quem mais sofria era Adelina que por ser mais fraca não só pelo fato de ser mulher, mas principalmente por ser muito desnutrida não estava resistindo mais a ponto de falar:
Tião. Vamo pará qui num to guentano mais.
Mais mulhé. Inda é dia i o sol tá muntio quente pra pará. Devemo continuá inte incontrá sombra ou iscurecê que esfria um poco.
Num consigo mais caminha e si num discançá num vô guentá. Prometo qui num vô atrapalhá mais otras veis não. Só desta veis.
Ta bom mulhé. Vamo pará.
Mesmo estando ainda na metade do terceiro dia com o sol muito forte sobre eles adormeceram sobre o chão como brasa da caatinga.
Adelina não conseguira dormir por muito tempo devido as fortes dores de cabeça causada pela insistência do sol em castigá-la e também pela terrível dor no estomago já atrofiado pela falta de ingestão rotineira de alimentos.
É bem verdade que ela costumava ficar sem comer por muito mais dias, mas andando como estava o desgaste físico era muito maior que normalmente e isso a estava incomodando muito.
Como as dores estavam tornando-se insuportáveis ela não hesitou em acordar Sebastião.
Tião acorda home.
Qui foi?
Desculpe Tião. És tu qui manda em nóis. Eu só sô acompanhante e num mando orde nenhuma, mais to cum uma fome da morte i num vô resistí mais não si num cumê.
Mulhé doida. Porque qui num já falô inhantes que ti dava de comê.
As comida qui tu trouxe és tuas e eu só tenho direito si tu me der.
Os alimentos são pra nóis dois e tu comes quando quizé.
Eu num sabia qui nossa andança tava te aperriando tanto.
Dagora pra frente a gente caminha as tarde e a noite e descansa de dia pra tu guentá.
Num carece disto não Tião. Te acompanho quando quizé caminhá. Só quero comê um pouco.
Vamos combiná assim: a gente pára todos os dia pra descansá nas horas de sol forte e caminha as tardes noites e as manhã e de dois em dois dia a gente se alimenta ao invéz de esperá a fome apertá tanto. Tá bom assim?
Num carece não.
Tem de ser assim pra tu aguentá me acompanhando.
Sebastião preparou sem a ajuda de Adelina, feijão com carne seca e farinha e deu a ela parte maior que a sua própria e a moça comeu a fartar deixando-lhe a certeza que a provisão que tinham, sem dúvida, não seria suficiente para toda a viagem de vários dias.
Ele havia planejado se alimentarem em espaços de tempo maiores, porém como a sua companheira precisava alimentar-se para continuar a viagem aconselhou-a a dormir para descansar enquanto ele ia pelos arredores tentar conseguir alguma caça para aumentar suas reservas de comida.
Duas horas depois Sebastião voltou trazendo consigo apenas mais um pouco de fadiga. Em sua tentativa de encontrar caça achou somente carcaças de esqueletos de animais e até de gente, mas mesmo assim animou a companheira a seguirem a viagem já que era final de tarde.
Adelina nas primeiras horas de caminhada já a noite sofria dores, mas não pela falta de alimento e sim pelo excesso por ter ingerido muita comida de uma só fez. Com o passar do tempo em noite alta e temperatura mais amena recuperou-se e caminharam sem nenhum problema pela noite toda até por volta de onze horas do dia seguinte quando pararam e descansaram em silêncio. Nenhuma conversa durante horas era comum entre eles e calados permaneceram até o final do dia.
Retornaram a trilha sempre em frente rumo a Santa Assunta do Norte.
O caminho já lhes era conhecido, pois tal viagem já fora feita por Sebastião e muitas outras pessoas em outras épocas do ano.
Raros eram os que haviam tentando durante as épocas de grande seca, mas ambos impulsionados pela esperança e fé em Deus e no futuro até agora em momento algum pensaram em desistir.
Para eles conseguirem água nos cactos não era tarefa difícil, porém caça era coisa quase impossível, mas mesmo assim Sebastião nunca deixou de procurar não só enquanto caminhava, mas também durante os períodos de descanso.
Chegando novo dia deveriam se alimentar o que faria suas reservas de comida diminuir ainda mais.
Sebastião preocupado antes de comer ora a Deus junto com Adelina rezando com o terço da moça e sai à procura de caça enquanto ela cozinha feijão, pois a comida era só feijão, carne seca e farinha.
Adelina vê nos olhos de Sebastião quando ele retorna grande satisfação que ela a principio não entende, mas aguarda as notícias com grande ansiedade em completo silêncio.
O rapaz explicou-lhe o motivo de estar contente.
Em suas buscas encontrou um cavado, dois cachorros, e quatro ratos mortos já sem carnes. Só ossos, mas pelo que ele constatou somente o cavalo estava morto há muito tempo com as carnes comidas pelos vermes e urubus, porém os cachorros e os ratos estavam mortos muito recentemente e suas carnes haviam sido tiradas a facão.
Com certeza outras pessoas tiveram mais sorte à sua frente e encontraram os animais que lhes forneceram a comida.
Talvez os cachorros fossem dos próprios homens que os sacrificaram.
Alimentou-se com Adelina do feijão preparado por ela e tentou dormir o restante da tarde para caminharem à noite, mas o pensamento e a expectativa da possibilidade de encontrar outras pessoas naquele deserto infértil e seco não o deixaram adormecer.
Levantou-se com o dia ainda claro, acordou Adelina e continuaram a viagem com disposição redobrada com o pensamento fixo em alcançar seus futuros companheiros de jornada.
Caminharam durante toda a noite mais o outro dia todo e a próxima noite parando somente no outro dia por volta de nove horas da manhã para Adelina descansar e Sebastião procurar alguma caça.
Desta vez teve sorte, pois conseguiu em um próximo e não tão árido local, cuja vegetação não era tão assolada demonstrando presença de água, uma cobra, dois ratos e um lagarto que matou e levou para Adelina limpá-los, salgá-los e expô-los ao sol para curtirem.
Essa caça foi encontrada próxima a uma cabana abandonada onde se instalaram para passarem o dia em repouso merecido.
Perceberam que a cabana fora ocupada recentemente por vestígios encontrados. Cinzas no fogão, canecas com restos da água e também pela cova rasa que havia sido aberta perto da cabana com a terra ainda revolta caracterizando a sua feitura recente.
Pelo tamanho da sepultura e a cruz enterrada deixava claro tratar-se de enterro de um ser humano. Provavelmente, um dos companheiros dos viajantes que iam à sua frente e com certeza bastante próximos.
Para não terem a mesma sorte do infeliz que ali ficaria pra sempre eles se alimentaram da carne ainda fresca que conseguiram e reabasteceram seus dois cantis no poço que encontraram ao lado da cabana, ainda com um pouco de água.
Tião, já faiz mais de uma semana qui tu ta só sem tua mulhé e se tu tá arretado, podes possuí eu a teu gosto o quanto tu quizé qui deixo sem reclamá. Tu num taria traindo ninhum home meu, pois num tenho e nunca tive ninhum. Podes metê comigo se quizé.
Num será porisso, mais num posso não, pois sô casado e pai de filio e tu num é minha mulhé e inté acho qui nem mulhé tu ainda num é.
Tião, pelo que tu tá mi dando durante a viaje cum toda estas comida e ajuda tu tem mais do que direito de querê tudo o que quizé de mim.
Como ocê falô inda num sô mesmo mulhé.
To ainda com cabaço, pois ninguém ainda meteu em mim não, mais si tu quizé me come num faiz mau não.
Se tu deitá mais eu num to traindo tua mulhé não, pois somentemente to te tirando o aperreio de home que tu deve tá e tu num tá traindo ela não purque ela num tá perto pra ti satisfazê nos teus prazeres.
Eu to te oferecendo é só pra tu ti satisfazê os desejo de home que eu sei que tu tens inda mais que é casado e ta costumado a tê mulhé sempre que tu qué.
Sebastião nada respondeu. Aprontou seus trastes de viagem e começou a caminhada seguido por Adelina se bem que em seu pensamento essa satisfação sexual deveria acontecer.
Pensou: “Inté qui preciso mi satisfazê meus desejo de metê, mais Adelina num é minha mulhé e nem é mulhé puta pra eu podê comê, porisso cum ela eu num vô podê não”.
Como ou onde ele adquiriu esses nobres sentimentos de honra, honestidade e pudor não se sabe, pois, qualquer homem sedento de desejos após vários dias não se preocuparia com essa compaixão e já teria possuído aquela menina de quinze anos que não era bonita e nem atraente, mas era mulher a ainda intacta sexualmente. Fato que seduz muitos homens.
Para a maioria deles, principalmente entre os mais rudes como era o caso, essa posse além de satisfazer-lhes daria o privilégio exclusivo de mando sobre ela. Qualquer moça se entregando a um homem casado estaria se transformando definitiva e intencionalmente em sua amásia sem nenhum direito de reclamações.
Sebastião em seu caminho foi pensando sobre a conversa que teve com Adelina durante as longas horas desse dia com o sol abrasador, mas nada falou com a moça e continuaram andando, como sempre, calados.
Encontravam à sua frente ossadas de animais que não resistindo à seca morreram de sede e fome ou foram mortos por retirantes que lhes tiraram as carnes.
Estavam andando o mais depressa possível na expectativa de encontrarem as pessoas que Sebastião imaginava caminhar a sua frente.
Completada a segunda semana de jornada o moço se esforçava para encontrar mais caça, pois seus suprimentos estavam no final e teriam outras três semanas pra viajar e chegar a Santa Assunta do Norte.
Sebastião seguia em frente sem deixar de pensar em seu filho e em sua mulher com pensamentos eróticos com ela.
O que mais o preocupava era o enorme desejo de possuir sua companheira, que inclusive havia se oferecido a ele e foi pensando assim que de repente gritou a todo pulmão:
Adelina, eu quero metê mais ocê aqui num aguento mais. To aperriado de tesão e...
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ENQUANTO ISSO NO SITIO DE AFONSO
Sabe Quitéria, faiz vários dias qui to dando falta dos home qui mora na casa dos Alencar. Eles sumiram da roça mesmo inté antes de Tião partí.
Aqueles doentes de lepra?
Eles mesmo. Desapareceram. Prá vila eles num pode ir sinão o povo de lá toca eles a pedrada e paulada com medo das moléstia e num vejo eles como sempre via pelas redondeza.
Pra onde será que foram?
Num seio, mais pras otras roças é que num foram, sinão seriam tratados as pedradas do mesmo jeito e num tem outro lugar prá eles í.
Hoje cedo fui inté a roça dos Alencar e tá tudo abandonado lá. Num tem nada deles lá. Nem roupas, vasilias e nem os cachorro deles.
Vai vê qui eles nada tendo de alimento nas roça mudaram de lugá.
Coitados com certeza vão morre poraí. Qui Deus dê um bom lugar pra eles nos cél. Eles merece bom lugar lá, pois aqui na terra eles num tem, í nem nunca tiveram.
Eles num tinham de comê nem galinha e nem porco e nem nada. Só comiam lagartos e ratos que encontravam.
Inté plantá eles plantava muntio pouco. Tá certo que plantá agora nas seca é besteira, pois essa desgraça de sol mata tudo mesmo.
Nosso bom Pai do cél há de olhá por eles.
É, ocê ta certa, somentemente Deus há de olhá por eles, pois aqui ninguém nunca teve corage de cuidá deles e nem de dá semente pra eles planta cum medo das doença.
Que deus os tenha. Vou rezá por eles quando estivé rezando pro Tião mais a moça.
Com o sumiço deles fico inté um pouco contente porque sempre tive medo dos minino apanhá os adoençamento deles, porque sempre chegavam meio perto deles sem se venturá muntio perto, mais mesmu assim tinha medo.
Só Zezinho qui é mais velho é que têm medo deles, mais os pequenos num liga não. Não qui eu teja contente qui tenham morrido, mais ido simbora pra longe é o qui desejo.
Fonso. A Zefa hoje anda chorando muntio de saudades de Tião.
Será que ele tá bem? Será que ele já chegô nos distino?
Claro qui não. Faiz duas semanas que partiram e inda falta mais outro tanto. Num tão nem nas metade do caminho.
Qui será da moça tão fraquinha e novinha qui foi mais ele?
Fica certa Quitéria que Tião é home suficiente prá fazê o feito que começô e cuidá da companhera.
Josefa que estava na cozinha da casa ao ouvir que falavam de Sebastião entrou na conversa, coisa que era comum acontecer todos os dias, pois pelo dos poucos afazeres deles sobravam-lhes muito tempo para rezar e falar sobre Sebastião.
Fonso será qui Deus nosso Pai Grandioso tá escutando nossas preces e tá cuidando do Tião?
É claro, Zefa, vai tudo dar certo. Aguente pra vê.
Mais fais já duas semanas que partiu e nada de notícia dele.
Mais é claro. As noticia só vem muntio depois.
Ele tem de chegá inté Santa Assunta que falta mais duas ou treis semana. Dispois vai viajá pra São Paulo por mais tempo, qui num sei quanto é e só ai qui vai mandá carta pra Ângelo em São Pedro e como Ângelo só vem pra cá de meis em meis pode demorá ainda muntio tempo pra notícia chegá inté aqui.
Num to mais muntio preocupada com a viaje. To preocupada é que Tião vai acabá ficando cum aquela moça pra ele e vai si isquecê de mim i dus filhos.
Qui é isso Zefa? Tu nunca falô assim e nem nunca pensô nisso nestes dias todo?
Num seio Quitéria, mais meus pensamento tá dizeno isso.
Deixa de pensá bobage. O Tião é home honrado. Num vai te traí não.
Sei não Quitéria, aquela moça é nova inté bem mais nova que eu e home num fica sem mulhé muntio tempo não.
Fonso vai-te daqui e deixa nois sozinha, pra nois conversá estas coisa de mulhé.
Tá bom Quitéria mais Zefa. Já to de saída pra ocêis cunversá sem eu, mais inhantes quero dize pra ocêis qui isto é bobage da cabeça de Zefa porque Tião num é home sem honra pra fazê o que tu falas não.
Ele foi criado por mim desde minino, pois nosso pai e mãe morreu deixando ele pequeno e eu qui sempre soube respeitá as mulies assim ensinei ele do jeito qui insino pra meus filios e que Quitéria bem sabe.
Eu sei Fonso qui sempre foi home de insiná direito.
Tião é respeitadô assim como nosso filio Zezinho qui já é moço quasi home e muntio obediente, mais eu tamém to cum pensamento muntio estranho.
Eu num boto minha mão no fogo pra nenhum home. Ocê sabe muntio bem porque falo assim. Num é fato Fonso? Vai-se home. Vá logo e deixa nois.
Tá bom Quitéria. Vô mais volto pra nois rezá o terço junto pra felicidade e saúde de Tião e da moça. Inté logo mais.
Zefa, agora qui Fonso foi simbora vamo falá milhó.
Sei não Quitéria, mais to cum maus pressentimento sobre aqueles dois sozinho neste mundão de Deus.
Tu nunca falô nada de ruim de Tião. Qui ti deu pra tu tá pensano assim?
Meus pensamento me diz qui tá acontecendo alguma coisa. Nos primeiro dias de saudade eu sonhava toda noite com Tião e eu meteno com ele na cama e as veiz na rede igual nois fazia lá em casa.
Dispois passei a sonhá qui era no chão, mais não no chão de casa e sim no chão das estrada e nos mato e eu inté me imaginava estar com ele na viaje. Eu era feliz nesses sonhos. Me imaginava sua companheira de caminhada, cuidando dele e fazendo comida pra ele e satisfazeno os seus desejo de home. Tudinho do jeito que ele sempre quiria.
Ele era muito feliz e prometia pra mim tudo qui eu quizesse quando tivesse trabaliando e rico em São Paulo.
Intão, qui aconteceu qui num pensa mais assim?
Traizantonte e antonte os sonhos era do mesmo jeito. Cheio de beijos e bulinação e meteção, mais ele num era feliz.
Num ria nem nada. Parecia inté qui num mi queria. Era triste e arredio. Todas as sem-vergonhice da gente nunca eram da procura dele. Era eu qui precisava tomá atitude primeiro e ele inté si esquivava parecendo qui eu já num interessava mais pra ele.
Isso é bestera de tua cabeça. Quando nois fô rezá mais ele e mais a moça vamo rezá tamém pros doente que sumiram e vamo rezá pra ocê também pra num tê mais estes sonho esquisito pra te preocupá. Tá bom assim?
Não Quitéria. Tem mais coisas ruim nos sonho.
Pare de chorá Zefa e conte o que é pra contá.
Eu tava muito triste com os sonho, mais nunca te falei deles porque eu pensava qui ia acabá mudando outra veiz para os sonhos bom com eu mais Tião feliz, mais esta noite foi o pió qui qualqué pessoa pode sonhá.
Num chora, Zefa, qui num faiz bem mulhé com nenê na barriga ficá triste e chorá. Faiz mal pro nenê.
Nesta noite passada, nos meu sonho Tião fazia tudo que era seus desejo muito mais alegre e feliz que em todos os sonho de antes, mais num era comigo. Era com a moça Adelina e ela era a mais feliz das mulieres e ele o mais contente dos home.
Meu Santo Deus de misericórdia, que sonho mais ruim tu teve. Credo em cruz. Vamo rezá muntio pra acabá isso.
Num seio Quitéria. Acho qui Tião num é mais meu e sim dela e nas rezas que vô fazê é pra qui ela suma da vida dele.
Quero qui Deus mi ajude a recuperá Tião nem que for preciso matá ela. Vô pedí a Deus Meu Pai qui mate ela prá mim.
Num fale assim Zefa. Nada disso tá acontecendo. É só mau pensamento teu porque ele tá sozinho mais ela, mais num tá acontecendo nada disso não.
Tá acontecendo sim. Num mi engano com estes aviso.
Olhe lá fora. O Fonso já tá voltando. Inxuga estas lágrima e vamo pará as convesa e rezá junto pra Deus ti curá deste pensamento e prá ti dá força e pra ajudá os otros.
Num quero mais rezá praquela moça não.
Não pense assim. Tudo é só pensamento teu e nada tá aconteceno.
Intão num rezo mais ocêis.
Mais intão num vai mais rezá prá Tião?
Num rezo mesmo porque se ele vai sê dela pra qui queu vou rezá pra ele?
Zefa dagora pra frente só vamo rezá pro Tião. Pra moça não. Tá certo assim?
Intão chame o Fonso qui já chegô e tá parado atráis da porta.
Fonso entre qui já conversamo sozinha e vamos começá rezá pra Tião.
Fizeram as preces costumeiras incluindo os pedidos a Deus para dar bom lugar aos leprosos e para acabar com os pesadelos de Josefa além dos pedidos aos céus para cuidar de Sebastião ignorando sua companheira, conforme combinado entre Maria Quitéria e Josefa. Após as orações continuaram seus afazeres de todo dia não só naquele dia, mas por muitos e muitos outros mais que estavam por vir.
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DE VOLTA AO SERTÃO
Tião, qui foi qui tu grito qui di tão alto nem intendi?
Não. Num quero não Adelina. Num quero purquê num posso.
Num to entendeno nada.
Num é pra intendê mesmo. Eu num disse nada pra ti.
Mais eu ouvi falá gritando, i nu qui grito tinha meu nome.
O que foi home? Fale logo o qui tem de falá ou faça o qui tem di fazê inhantes de ficá louco.
Num falei nada com as boca não. Eu tava apenas pensando e o pensamento saiu o qui falei em grito, mais num é nada de se importá.
Tião eu num falo com ocê quase nada porque sou só tua acompanhante, mais tu qui é o dono da empreitada qui fazemo junto tem o direito de tudo e si tu qué falá eu inté gosto pra podê falá também.
Tá bem Adelina. Eu tava pensando naquele negócio de comê tu com tanto desejo que gritei que queria, mais eu num posso fazê isso não.
Tinha inté se esquecido. Já faiz dias qui me ofereci pra ti qui inté num mi lembrava mais disto.
Si tu qué Tião embora eu nunca tenha satisfazido nenhum home acho qui tenho idade e informação pra satisfazê ocê na hora e do jeito qui quizé.
Si tu tá todo aperriado assim num si faiz de rogado e pode comê eu agora e em todos momento qui quizé.
Pode falá qui qué, qui ti dô pra tu pra acabá logo de veis com teu arretamento de falta de mulhé. É só tu quere e dizê qui qué.
Num quero não. Tu num carece preocupá em tê de dá pra mim em troca das coisas e das companhia que eu te faço. Só de tu me acompanhá já é pra mim pága das comida qui ti dô.
Sem tu eu num fazeria esta viaje e sem contá isso e mais as ajuda qui mi dá eu é qui devo pagá pra ti e não ocê pra mim.
Não Tião. Tu não deves nada e faiz muntio por mim, mais si teu desejo de gosto num tá voltado pro meu corpo num faiz mal não.
Si mi ofereci pra ocê naquele dia pra pagá favores digo que agora num é mais. Continuo me oferecendo pra ti pra te acalmá nos desejo de home e num importo em isperá a hora qui ocê quizé.
Tu podes falá qui ti darei meu corpo nas hora qui desejá.
Adelina tu já te ofereceu pra mim pra pagá favores. Agora tu ofereces pra me satisfazê meus desejo de home, mais em nenhuma veiz tu me ofereceste pra satisfazê desejo teu.
Num tem desejo de dá pra mim prá satisfazê ocê?
Adelina fez-se de surda ou de desentendida e nada disse após ouvir essas últimas palavras de Sebastião.
Apenas fechou os olhos e deixou as lágrimas rolarem rosto abaixo enquanto caminhava ao lado dele que falou apenas mais uma frase, exigindo dela a última resposta.
Adelina guarde tuas honras, pra outro home, qui possa sê teu pra sempre.
Vô guardá Tião. Vô guardá pra ti porisso nas hora qui precisá de mim, tu podes fala qui eu ti dô toda veiz qui quizé.
Sebastião pensou em dizer-lhe que estava desejando loucamente possuir aquele corpo esquelético, pois além da necessidade carnal pela satisfação do sexo, estava perdidamente apaixonado por ela ser como era.
Simples, honesta, prestativa, honrada, companheira, dedicada e delicada, mas não podia falar o que pensava e desejava porque em nenhum momento embora ele tivesse tentado conseguir dela ela jamais confessou estar desejando-lhe para sua própria satisfação e desejo.
Sempre que falavam sobre esse assunto ela se oferecia para pagar pelos favores ou para aplacar seu desejo de homem.
Os anseios de mulher nunca existiram em suas conversas e Sebastião queria que existissem, mas nada conseguia. Até suspeitava que ela nunca o quisesse, por sentir-se atraída por ele.
Com seus pensamentos enquanto caminhavam Adelina chorava baixo para que o companheiro não percebesse, mas seu amor por ele era tão forte ou mais forte que o dele por ela, pois suas carnes estavam sequiosas por sexo e de forma alguma ela estava apenas tentando retribuir o que Sebastião fazia por ela.
Seu desejo por ele era uma paixão não só pelo homem que lhe estava próximo, mas pela pessoa que ele era. Forte, corajoso, saudável, bondoso e honrado que lhe despertava todo o amor até então nunca sentido, nos seus poucos anos de vida.
Não tinha direito de desejar, querer e nem mencionar esse amor porque ele nunca poderia ser dela. Já era casado com outra.
Nesse dia a conversa entre eles terminou por completo assim como por outros vários dias seguidos que calados continuaram a viagem.
Passaram-se mais alguns dias sem nada acontecer entre eles, mas Sebastião não resistindo à tentação de possuir a companheira se obrigava a ficar longe dela e nas paradas para dormir sempre se afastava.
Ela submissa e resignada aceitava a situação sem nada falar ou questionar e por esse motivo toda vez que paravam enquanto Adelina dormia para se refazer, ele saía à procura de caça.
Infelizmente nunca conseguia nada a não ser mais cansaço e devido à fraqueza que tomava conta dele, pois há muitos dias não comia porque suas reservas alimentares estavam se esgotando. Ele não se alimentava para com o pouco que tinha poder nutrir sua amada e mais o esgotamento físico pela falta de repouso fez com que ele caísse doente.
A febre que tinha ficava cada vez mais forte, agravada pelo sol incessante e não deixava dúvidas que iria matá-lo se não tomasse nenhum remédio urgente para aplacá-la e em vista disto Adelina não sabia como, mas tinha que tomar as rédeas da situação.
Após benzê-lo e rezar com seu terço de orações pedindo a Deus sua cura extraiu água de cactos a duras penas, pois até tais plantas já estavam secando e acomodou-o razoavelmente confortável em uma improvisada tapera que construiu com paus do mato seco e roupas deles próprios. Feito isso saiu em busca de raízes de plantas que conhecia para acabar com a febre.
Não demorou muito a voltar porque tais raízes seriam muito difíceis de serem encontradas naquele local, mas já tinha conseguido uma boa quantidade de água que deveria refrescar o corpo de Sebastião e com isso diminuir-lhe a febre.
Trazia na mão os dois cantis cheios de água que por sorte ou milagre conseguiu e o facão que levara para tentar cortar as raízes medicinais.
Ao retornar viu que seu improvisado acampamento estava totalmente destruído tendo lá encontrado apenas o moribundo rapaz ardendo em febre e totalmente nu, pois além de suas roupas todos os outros pertences foram retirados.
Em pranto e desesperada despe-se de seus próprios trapos molha-os completamente e cobre o corpo do companheiro.
Força-o a tomar bastante água e em grande desespero e fúria munida apenas do facão e coberta em suas partes genitais apenas com alguns trapos que lhe restaram saiu à procura dos ladrões.
Não andou muito para encontrar três homens que deitados no chão gulosamente consumiam o pouco da comida roubada deles.
Eram homens em farrapos, fétidos tanto quanto o seu cão que sequer tinha forças para levantar-se.
Todos sangravam em enormes feridas pelo corpo que provocava um cheiro insuportável talvez até a eles próprios.
A presença da seminua moça os assustou de tal forma que eles se afastaram temerosos alguns metros e de longe assistiram inertes a chegada triunfal dela até o local onde deixaram no chão os alimentos e o cão, que não se levantou.
Adelina valentemente com o facão em riste os intima para aproximarem-se e eles encorajados por vê-la só, ainda amedrontados ante a decisão da moça chegam receosos rogando clemência tentando se explicarem.
Moça nois num tinha o qui comê faiz muntios dia. Bem mais de uns quinze, mais pode levá o que inda tem da tua comida de volta mais tu, qui nóis num vamo molestá mais ninguém não.
Qui monte de feridas é esta nos teus corpo, homes de Deus? Ôceis são morféticos?
É nada disso não moça. É da caminhada, mais nóis tem remédio. Dasveis nóis inté tem febre muntio alta, mais nois cura com ervas e raízes qui nois tem.
Mi dê pra mim as raízes de curá febre sinão eu mato ocêis.
Ela estava com pena dos miseráveis homens doentes que ela sabia tratar-se de leprosos, mas tornou-se ameaçadora e violentamente agressiva, pois sentia a possibilidade de conseguir o remédio para curar a febre de Sebastião.
No ímpeto de apanhar uma das mochilas no ombro de um dos homens se descuidou e foi agarrada pelos outros dois que em luta corporal venceram-na.
Foi desarmada e acalmada a socos e chutes ficando inerte no chão ouvindo-os conversar ainda antes de desfalecer totalmente.
Num falei pra matá logo aquele miseráve que já tava morrendo?
Si nois tivesse matado ele igual aquele outro ninhuma mulhé doida vinha atraiz de nois e num tava molestando nois agora como esta veio fazê.
Ela tava é rezano teu morto.
Cala-te a boca filio de uma égua.
Vamo acabá de come e continuá caminhada e deixa eles ai nas sorte deles. Se nois matá eles nois tem de enterrá iguá aquele nos começo da viaje qui nois matamo pra robá as carne dos seus cachorro.
Nois tivemo qui enterra e tu viu a trabalhera que deu, mesmo tando nas sombra daquela chopana?
A gente pode matá ele e ela e deixá ai pros verme e urubús.
Num fala bestera home. Tu num sabe que se matá gente e não enterrá dá azá? Tanto azá qui nem o capeta aceita a gente dispois nos quintos dus inferno.
Dizem qui dá azá, mais animal a gente mata e num interra.
Acontece qui animal pode, pois foi feito pra gente matá mesmo pra tirá as carne pra alimento e home não.
Se a gente matá eles temos de furá este chão duro e seco pra fazê cova de difunto. Prá nois interrá dois difunto é mais pió do que seis meis de caminhada no sol forte. Vamo acaba morreno junto e sem tê quem enterra nois.
Aquele lá atráiz nois tivemos de matá porque ele indoidô em cima de nois, mais estes dois ai num vai atráiz de nóis não.
O home ta morrendo e a mulhé si também num morrê dispois da surra qui demo nela, tem de ficá cuidando dele inté a morte pra dispois interrá ele e num vai mais incomodá nois.
Partiram deixando para trás a moça desmaiada e mais atrás o rapaz morrendo quando de súbito todos se voltam ao mesmo tempo olhando em direção de Adelina.
Alimentados e já acostumados com a presença da moça agora totalmente indefesa e inerte no chão os miseráveis homens ficaram menos assustados e o que era o mais forte e líder do grupo que impediu os assassinatos tentou recobrar os sentidos da moça dando-lhe água para beber ao voltarem até onde ela estava.
Ela recobrou os sentidos e aos prantos e implorando tenta conseguir daqueles homens pelo menos piedade.
Pede-lhes um pouco do remédio para curar o desafortunado companheiro abandonado em sua febre mortal.
Os homens rudes sujos e doentes, que agora não mais sentiam incomodados com a moça nada feroz e ameaçadora como quando chegou e sim humilde e suplicante começaram a vê-la sem medo, mas com outras perturbações.
Olhavam-se uns aos outros e todos ao mesmo tempo para a jovem quase nua ajoelhada no chão e totalmente indefesa. Novamente olharam entre si, como que transmitindo com seus olhares seus pensamentos que com certeza era o mesmo.
Há muitos anos esses homens só viam mulheres de longe e sentirem-nas sob seus corpos mutilados pela lepra em amor carnal talvez nunca. O estupro era iminente e os segundos que antecederam essa atrocidade pressentida por Adelina foi o tempo necessário para ela tentar tomar conta da situação propondo-lhes:
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DE VOLTA A ROÇA DE AFONSO
Na distante vila de Córrego Seco o Sr. Antonio dono do único armazém do local chega da pequena cidade de São Pedro onde todo mês vai comprar mantimentos para atender as pessoas que residem na vila.
Como as compras sempre lotam sua carroça que não é suficiente para trazer toda mercadoria seu fornecedor manda outra que faz a viagem de ida até a vila e volta.
Ângelo filho do Sr. Antonio que estuda em São Pedro vem em todas essas viagens em visita aos parentes e amigos e retorna no dia seguinte.
A chegada dele é motivo de festa no vilarejo, pois é a única possibilidade de saberem informações de quem partiu dali e dos arredores para outros lugares, pois é o único possível portador de correspondências chegadas ao correio da cidade de São Pedro, por isso muitas pessoas o procuram em busca de notícias.
Sempre sofrem decepções, pois jamais alguém enviou carta.
Junto a todos estavam Josefa e Afonso a espera de alguma notícia de Sebastião e ao saberem que nada havia de informações sobre ele Josefa entra em pânico chorando desesperadamente. Foi acalmada pelo cunhado, por Sr. Antonio e pelo próprio Ângelo que lhe explicaram não ser possível notícias dele, pois com certeza pelo tempo que havia partido sequer tinha chagado a Santa Assunta, portanto sem possibilidade de mandar carta porque ainda estaria caminhando pelo sertão.
Josefa inconformada, mas tentando tranquilizar-se pediu a Afonso para regressarem à roça onde moravam e ele prontamente concordou despedindo-se dos demais.
Já em casa juntamente com Quitéria e os filhos desta foram rezar e durante toda à tarde ficaram orando e ao terminarem as preces que eram comandadas por Maria Quitéria Josefa falou:
Vamo rezá um terço intero prá moça Adelina.
Maria Quitéria intrigada perguntou:
Por que pra Adelina?
Imagino que ela tá precisando de muntias oração, rezas e benzeção lá onde ela tá.
Ocê sempre desconfia de coisas ruins acontecendo longe e ispero qui seja outra invenções de tua cabeça.
Primeiro ocê num quiria mais rezar pra ela e agora, dispois de algum tempo perdoô? Num ti intendo.
Desdi uns dia tu tá falando que aconteceu coisa ruim com Tião e agora vem dizeno de coisa ruim também com a moça?
Num sei como Quitéria, mais arrespondendo pra ti num sei mesmo como, mais eu as veiz imagino inté o que qui tá acontecendo certinho como nos caso dos sonho com Tião, mais desta veiz num seio o que se passa, mais penso qui tem coisa muntio ruim pra Tião e pra Adelina também.
O que é intão?
Achio qui é coisa muntio da ruim mesmo. Coisa muntio brava feita pelos todos capeta junto.
Eu tamém como tu prefiro desejá qui seja pensamento errado da minha cabeça, mais na incerteza vamo rezá e muntio.
Afonso entrou na conversa inquirindo Josefa.
Mais num foi tu mesmo que num quiria mais qui orasse por ela?
Vamo rezá sim Fonso. Ela tá precisando tanto quanto Tião de nois rezá e pedí muitio a Deus por ela.
Intão acabaram teus sonho ruim cum ela e Tião?
Num acabaram de tudo não, pois tem noite qui sonho com Tião mais eu. Tem otras noite qui sonho com Tião mais ela e em todos os sonho Tião tá feliz igual tanto comigo como cum ela.
Cada sonho besta mulhé? Teu Tião sendo das duas?
Respondeno tua pergunta Fonso. Te digo qui já cheguei inté sonhá numa noite desta que ele tava mais nois duas junta na mesma cama e tava mais feliz de todas as veiz que já sonhei com ele.
Teus pensamento tão tudo trapalhado. Num sei como pode pensá nestas bestera não e esteja certa qui o Tião é home só teu e a Adelina só é a companhera de viagem dele.
Tú tá certa em querê rezá por ela tamém?
To sim Fonso. Nois já rezamo pra nóis, pro Tião e pros doente qui ninguém sabe se morreu ou não.
Agora vamo começá as preces pra moça inhantes que escureça porque acho qui ela precisa muntio mesmo. Inté mais qui qualqué um.
Mesmo que Tião tem ela como nos sonho ele tamém tem eu, porisso num me abandonô mais ela.
Si as minha imaginação fô coisa verdadera quer dizê qui Tião tem ela só nas viaje e quando encontrá mais eu, volta pra mim porisso se ele tem ela é purque ela é boa pra ele e devo rezá prá Deus cuidá dela tamém.
Oraram por muito tempo pedindo a Deus que olhasse por Adelina, para os doentes, e para Sebastião, pois Josefa tinha pressentimentos de que algo de ruim estava para acontecer lá no meio do sertão.
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HERÓICA DECISÃO
Ao anoitecer no sertão os doentes ouvem de Adelina:
Eu concordo em dar prá todos ocêis desde que oceis me escute um pouco.
Com essa frase Adelina conseguiu frear o avanço dos homens que estavam por atacá-la e continuou falando e eles inertes ouviam-na.
Propôs-lhes que satisfaria a todos desde que devolvessem tudo que haviam roubado dela e de Sebastião e mais as raízes medicinais.
Ela tinha quase certeza que qualquer que fosse o acordo seria cumprido, pois homens rudes por mais selvagens e bravos ou até criminosos que fossem desde que não estivessem loucos, cumpririam suas promessas empenhadas.
Por esse motivo pediu a devolução de tudo para barganhar e conseguir alguma coisa.
Ela acreditava que conseguiria pelo menos parte das raízes que salvariam Sebastião. O restante do pedido nem se importava.
O líder deles prometeu-lhe devolver parte das roupas e das raízes, mas nada das armas e da comida. Ela concordou, pois era sua única alternativa. Ou aceitava o que ofereciam ou eles não dariam nada e o oferecido já era muito mais do que ela imaginava.
Estava selado o acordo e compromissada teria de fazer sua parte.
Subtrair a minúscula tanga que cobria Adelina seria fácil, mas a tara que tomava conta daqueles homens dificultava-os nessa tarefa o que impedia a penetração de seus órgãos genitais, excitados e eretos, porque eles aloucadamente haviam se atirado sobre ela ao mesmo tempo, ou talvez por nem souberem exatamente como fazer.
Estavam machucando-a em sua fúria, mas Adelina conseguiu forças em sua fraqueza e milagrosamente se transformou em uma verdadeira mulher experiente nessa função e tal qual uma verdadeira profissional foi dominando com carícias os inexperientes e tresloucados homens que estavam prestes a matá-la.
Foram acalmando-se e um a um conforme ela conduzia possuíam-na com orgasmos demorados e felizes satisfazendo-se da melhor maneira possível.
Ela praticou todos os tipos de caricias com eles chegando inclusive a vários orgasmos todas as vezes que era possuída.
Gozava deliciosamente, pois em sua própria alucinação era seu amado Sebastião quem copulavacom ela.
Conheceu as maravilhas do amor e após lambuzar-se a noite inteira foi abandonada no local tal qual Gení pelo comandante do Zepelim.
Humilhada, suja, agredida, sangrando, triste e ao mesmo tempo feliz Adelina assistiu a partida dos leprosos, talvez no dia mais feliz de suas vidas.
Com dificuldade pôs-se de pé e foi verificar o que haviam deixado confirmando que a promessa fora cumprida conforme combinado.
Deixaram-lhe as raízes medicinais, algumas roupas, e também seu facão embora esse não fizesse parte do acordo, porém o punhal e a garrucha levaram.
O cachorro que não mais conseguia acompanhá-los continuou deitado onde estava quando de sua chegada, na mesma posição sem se mover.
Apanhou um trapo com o qual se cobriu. Agarrou as roupas restantes, o facão e as raízes e agradeceu a Deus numa rápida prece, após um também rápido choro misturado de tristeza e alegria voltando quase correndo, heroicamente vitoriosa para junto de Sebastião, deixando para traz no chão as marcas das enormes ejaculações dos homens e o cachorro que sequer sabia se estava vivo ou morto.
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A TENTATIVA DA CURA DO DOENTE
Adelina aproximou-se de Sebastião verificando que o mesmo continuava em estado febril, porém ainda vivo.
Deu-lhe mais água que havia nos cantis deixados por ela. Molhou uma calça que trouxe e vestiu-a nele bem molhada para aplacar a febre.
Acendeu uma fogueira para preparar as ervas medicinais e quando fervia água com as raízes colocou todas as outras roupas espalhadas ao sol e descobriu que entre elas um daqueles homens havia escondido um pedaço de carne de cobra para alimentá-la.
Enquanto chorava orou para que Jesus tivesse piedade daquela alma tão perversa e ao mesmo tempo tão caridosa, mas parou rapidamente o que fazia, pois ouviu atrás de si um barulho que a assustou.
Descobriu que se tratava de uma coruja perdida e cega pelos raios solares que apareciam no horizonte.
Foi presa fácil para Adelina que a matou a pauladas sem sequer tocar nela.
Sabia que a coruja e o pedaço da cobra já salgada daria para alimentar Sebastião por alguns dias e imediatamente tratou de se medicar a moda dela, pois imaginava estar portadora de lepra pelo contato com os doentes.
Desde criança ouvia dizer como se curar de lepra e procedeu da maneira que aprendera.
Furou com o facão todas as pontas dos dedos das mãos e dos pés, pois só assim a doença sairia de seu corpo pelo sangue escorrido e nua se expôs ao sol violento durante as restantes horas do dia para que a lepra que tivesse saído para sua pele queimasse e secasse não entrando de volta em seu corpo.
Confiava que esses conselhos dos antigos funcionariam e ela não transmitiria a doença para seu companheiro.
Ela própria não mais se preocupava em estar leprosa e até mesmo desejava a morte, mas antes teria de curar Sebastião para que ele continuasse sua vida são e salvo.
Quando o chá ficou pronto serviu-o a Sebastião e voltou ao lugar que anteriormente tinha achado água para novamente encher os cantis mesmo já estando noite e tentou em vão dormir até que amanheceu outro dia.
Pôs-se novamente a se queimar ao sol, nua para secar a doença após ferir-se novamente nas extremidades do corpo.
Ficou exposta aos raios solares até meio dia e seu corpo já começava a apresentar queimaduras que mal lhe permitia movimentar-se, mas fez mais chá e deu a Sebastião que não apresentava sinais de melhora.
Tentou dar-lhe comida, mas não foi possível fazê-lo comer.
Ao amanhecer do outro dia percebeu que a febre cedera e conseguiu que Sebastião se alimentasse e durante os três dias seguintes Adelina alimentou-o e medicou-o sem se preocupar consigo, a não ser postar-se ao sol forte sempre nua e escoando sangue para eliminar e queimar a doença.
A alimentação chegara ao fim e ela amaldiçoou os leprosos por terem-na roubado.
Percebendo que tudo estaria acabado sentiu nojo de si e revoltada rogava pragas aos doentes e blasfemava contra Deus durante suas preces por todo seu sacrifício ter sido em vão.
Arrebentou o terço de orações atirando-o longe aos pedaços prometendo nunca mais rezar e desejando que Deus, Jesus e sua mãe virgem fossem penar no inferno.
Comer e dormir era coisa que jamais fizera, após aquele dia fatídico.
Só fazia era cuidar de Sebastião e sair à procura de caça.
Passado mais dois dias ao retornar de suas andanças não encontra Sebastião e desgraçadamente pôs-se a chorar, blasfemar, e alucinadamente agrediu-se a mordidas e socos até que vencida pelo esgotamento desmaiou.
Seu desfalecimento passou para um sono profundo que durou a noite inteira e no outro dia como não acordava foi acordada por Sebastião.
Ele estava debilitado pela doença recém-curada, mas não muito fraco, pois fora devidamente alimentado pela moça e quando se sentiu melhor no dia anterior e não tendo visto nenhuma carne de animal, pois feijão e farinha há muito já não tinha, saiu à procura de Adelina e de alguma caça.
Suas buscas não surtiram efeito e ao voltar encontrou-a dormindo por isso estava acordando-a para continuarem a caminhada.
Qui é isso seus monstro fedido e podres?
Nada não Adelina. Calma. Sonhava cum o coisa ruim?
Sô eu. Tião. To só te chamando pra acordá. Vamo continuá viaje?
Tião. Graças a Deus tás a salvo.
Com um salto Adelina pôs se de pé e só não abraçou o rapaz apaixonadamente porque ainda tinha duvidas sobre o possível contágio da doença que ela imaginava possuir.
Qui é qui tás tão arredia bichinha?
To não home de Deus.
Me pareceu-me qui ias me abraçá, mais logo mudô das idéia?
Num é isso não Tião. To é muntio agradecida pelas tua cura.
Fiquei muntio tempo doente?
Semana inteira.
Nossa virge. Porisso que acabô os mantimento?
Porisso.
Mais tú tá tendo comida prá ti num tá?
Tô sim. O comê que nois tinha mais uma coruja que caçei deu pra alimentá nois dois nestes dia. Tô muito alimentada e tu também. Desculpa num te achado mais nada de caça.
Num tem portancia não. Vamo arribá e continuá a viagem que inda falta boas caminhada.
Vamo andar Tião.
Tu tava dormindo sono ruim. Xingava e brigava muntio enquanto dormia, mais num tinha febre não.
Num sei porque tive sonho ruim.
Alguma coisa te aperriô prá ti tê sonho ruim inquanto dormia?
Não Tião. Nada de ruim me aperriô não. Tive inté muita sorte, pois logo que adoento encontei os remédio prá acabá com tuas febre. Enquanto tu miorava do adoençamento eu inté ia ficando cada veiz mais feliz, e num sei por que o tal sonho ruim não.
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CONTINÚA A VIAGEM
Continuaram a viagem e quando se aproximaram inevitavelmente do lugar que fora palco da tragédia de Adelina, pois era a única trilha para se andar ela tentou forçar o companheiro passar ao longe mudando a trajeto.
Tinha receio de o lugar estar contaminado com a lepra bem como se preocupava em não permitir que Tião pudesse perceber algum detalhe que o levasse a conhecer seu segredo.
Segredo este que pretendia guardar para sempre.
Involuntariamente Adelina não tirava os olhos daquele local que estava sendo deixado de lado por eles, o que fez Tião sentir curiosidade perguntando:
Qui é qui olhas tanto prá lá que inté parece que perdeu alguma coisa lá?
Num tem nada lá não, e tamém num perdi nada lá não. Tava só olhando por olhá.
Lá era a trilha certa e tú embrenhaste pra cá evitano aquela lugá. Por que?
Pensei de cortá caminho poraquí.
Impressionei que olhavas cum alegria praqueles lado. Que tem lá?
To alegre porque tu te curô.  Num perdi nada lá não.
Adelina estava aguentando a conversa e rumando cada vez mais depressa e para longe daquele lugar que lhe proporcionou ao mesmo tempo os sentimentos de ódio e felicidade maiores que qualquer pessoa pudesse sentir, quando justamente de lá partiu um gemido tão forte que poderia ser ouvido a grande distância.
Vamo voltá lá prá vê o que é.
Num vamo não. Lá num tem nada prá se vê.
Tás loca mulié. Gemido forte deste tem de sê visto.
Veio lá da frente.
Eu que tive febre e tu que tá alucinando?
Qualqué gemido desses de coisa viva serve prá orientá inté criança. Eu sei qui veio de lá do lado e não da frente.
Mais num veio de lá não Tião. Vamo simbora daqui.
É daquela banda sim que veio o grito e se tu num vem, fica aí sua danada da moléstia mais eu vô vê o qui qui é.
Não Tião. Pelo amô que tu tem a Deus e mais tua família num vá lá não.
Qui tem lá mulhé qui inté te esquivô daquelas banda mais nunca tirava os óio de lá?
Te imploro e suplico. Num volta lá não. Acho que tem coisa ruim lá.
Será o demonho? Vô vê a cara dele si tivé lá.
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ADELINA VOLTA AO LOCAL DE SUA AVENTURA
As súplicas de Adelina foram em vão, pois Sebastião de forma alguma deixaria de ir verificar a procedência de um gemido tão forte perto deles, pois seria a única pessoa ou animal vivo num raio de muitos quilômetros que eles encontrariam.
Não havia nenhum vestígio da luta e da guerra de Adelina se bem que estava claro que ali acampara gente há poucos dias.
Uma cadela jazia morta a poucos metros de cinco filhotes recém-nascidos que ainda não abriram os olhos para se orientarem e encontrar as tetas da mãe em busca de leite, pois não se sabe como o animal após parí-los afastou-se antes de morrer.
Isso tinha acontecido minutos antes, pois o gemido fora da cadela agonizando para parir e morrer.
Num é cachorro não? É uma fêmea?
Porque pergunta?
Tú sabias da existença deste animal pra tu tê dúvida de sê cachorro ou cadela?
Desconsertada, pois praticamente deixava claro que sabia de alguma coisa Adelina esforçou-se para conseguir convencer Sebastião que sabia da existência do animal porque o vira de longe e por julgá-lo morto não se aproximara e que isso era a única coisa que sabia.
Violentamente ela empurrou o rapaz quando este se agachava perto da cachorra dizendo-lhe:
Ta morfética. Num te rela nela não.
Porisso que tu num queria deixá nóis vim cá não? Mais se tu só viu o animal de longe como sabia do adoençamento?
Sebastião percebendo que Adelina escondia-lhe alguma coisa e enfurecido pela falsidade da moça, pois era traição um dos companheiros deixar de contar alguma desventura ou descoberta a outro, fica irritado e aos gritos quer arrancar dela coisas que com certeza teriam acontecido durante sua doença sem ele saber e que ela estava escondendo.
O que acontece com um todos os demais companheiros tem de saber. Isto é uma questão de honra com qualquer amizade sincera, principalmente em se tratando de uma aventura difícil como a deles.
A moça suplicante pedia-lhe que não a molestasse com perguntas, mas o rapaz chegando a odiá-la ameaçou deixá-la a sua sorte pela infidelidade.
Era imperdoável entre os homens do sertão mesmo que bandidos por mais cruéis e violentos que fossem agirem deslealmente com os companheiros.
Adelina sabia que isso era verdade, mas ao mesmo tempo lembrou-se que um daqueles homens violentos e rudes, não tinha cumprido suas promessas.
Um dos leprosos embora tivessem dito que não lhe dariam alimentos deixou-lhe um pedaço de cobra escondido entre as roupas para alimentá-la e isso fora traição dele com seus companheiros.
Tinha certeza que quem tinha feito isso não iria de maneira alguma contar aos outros e com esse pensamento conseguiu forças para continuar sua mentira.
Rapidamente veio-lhe à cabeça, que girava com o turbilhão de lembranças que as palavras dos homens eram dignas de fé, mas nunca valiam mais que a palavra de Deus amado que ao mesmo tempo era terrivelmente amedrontador dos seus fieis.
Recordou-se que quando brigou com o todo poderoso e sagrado, aos gritos e xingos, ele nada fez contra ela.
Não se vingou dela e se assim agiu era lógico que ele assim procederia de novo se ela usasse-o para se safar da ira de Sebastião e manter seu segredo guardado por isso falou ajoelhada aos pés de Sebastião mentindo:
Foi Deus. Foi ele qui num sonho me avisô por um anjo que a peste tava num animal aqui. Essa é a verdade Tião. Faço qualqué juramento qui quizé.
Tá certo Adelina. Acredito sim. Só Deus pode sabê onde tem adoençamento e avisá aos otros nas hora qui quizé.
Sebastião assim falou sem acreditar muito na explicação, porém não poderia descrer, pois em várias ocasiões de sua vida sua esposa Josefa tinha tido sonhos ou visões de coisas que aconteceram ou ocorriam no futuro e ele nunca entendeu como ela conseguia tal proeza que permanecia um mistério para seu entendimento.
Pensava que tal sabedoria só pertencia às mulheres e a Deus, portanto além de ser temente a Deus e sem ter a mínima condição de questionar achou mais correto simplesmente acreditar e não reclamando mais calou-se e ouviu-a dizer:
Vamo simbora daqui Tião.
Num podemo abandoná os bichinho na sorte deles não. Nem movê eles ainda sabe.
Tão todos doente cum lepra Tião. Vamos deixá eles aí.
Tão doente não mulié. A cadela pariu eles e num deu de mamá, porisso eles num pegaram a doença não.
Será qui tu tem razão?
É certo qui tenho. Qui é que tá esperando? Apanha eles e ponha nos teu peito prá eles sugá leite.
De que jeito home? Num sabe não que mulhé prá tê leite tem de sê mulhé prenha ou já parida? Mulhé sem parí num dá leite não.
Tu sabe que tal coisa eu num sabia? Pensava qui era só chupá forte qui vinha leite.
Tem jeito não Tião. Eles num vão vinga mesmo. O jeito é acabá de matá eles preles num sofrê muntio.
Mata eles logo de veiz e vamo simbora daqui.
Adelina cadê a garrucha e o punhal prá matá eles? Nunca mais vi as arma.
Quando tú ficô doente eu perdi elas nas minhas saída prá procurá caça nalgum lugá qui fui.
Perdi tamém algumas ropas, tua e minha mochila com terço de reza e tudo, mais procurei tudo muntias veiz prá todo lado e num mais achei nada dos perdido. Só fiquei cum os cantis dágua e o facão.
Adelina mentiu outra vez para justificar o sumiço das armas e aproveitou o mesmo embuste e já definiu o desaparecimento de outras coisas que poderiam ser mencionadas ou solicitadas mais tarde.
Sebastião aceitou a explicação, pois se culpava porque tudo acontecera quando ela cuidava dele em sua doença e calou-se assim como ela.
Ele após virar a cadela com um pedaço de pau e confirmar sua morte arranjou alguns galhos secos e ateou fogo nela.
Com o facão matou os cinco filhotes afastando-se daquele local levando os corpos sem vida dos pequenos animais.
Longe dali limpou-os desossou e salgou-os pondo ao sol para secarem para servir de seu alimento e de Adelina nos próximos dias.
Seria a provisão para o restante da viagem.
Os cinco animaizinhos como não poderiam ser salvos de forma alguma salvariam aqueles dois que eram seres humanos, mas que mais pareciam animais famintos.
Tal carne seria suficiente para alimentá-los os restantes seis ou sete dias que faltavam para chegarem a Santa Assunta do Norte.
Adelina acompanhava o companheiro não se sabe como, pois forças já não tinha.
Por amor aquele homem ela caminharia a seu lado até cair morta sem a mínima reclamação.
Era o que ela tinha como compromisso consigo mesma.
Sebastião acha melhor eles comerem logo parte daquela carne ainda fresca devido o estado de fraqueza que percebia em Adelina.
Metade de um dos pequenos cães tinha carne suficiente para alimentar uma pessoa por uns dois dias, portanto cada cão alimentaria ambos e como eram cinco animais teriam comida para dez dias o que tranquilamente daria tempo de eles chegarem ao final do destino são e salvos.
A água embora escassa não seria grande problema para Sebastião extraí-la da vegetação quase morta do sertão.
O estomago de Adelina recusou aceitar a carne crua do cãozinho não pelo fato de estar crua, mas porque seu estomago não mais aceitaria qualquer alimento por melhor que fosse.
Ela vomitou aquela carne se bem que tentasse comê-la novamente após o vômito, mas era impossível, pois a lembrança da cadela morrendo a seu lado junto daqueles homens podres beijando e amando-a, se é que aquilo fora amor, não permitia conseguir manter a comida no estomago.
Seu nojo era maior que a fome. Sempre que tentava comer acontecia o mesmo.
Não deixava Sebastião perceber o que estava acontecendo e sorrateiramente escondia seu vômito e se punha a rezar pedindo perdão a Deus por suas brigas com ele e por suas mentiras, pois agora com Sebastião salvo ela que desejava a morte decidiu que também queria se salvar.
Mais alguns dias sem alimento morreria. Deus teria de se apiedar dela e permitir que se alimentasse para poder viver.
Viver para ver Sebastião. Apenas ver, pois embora o amasse com todas as suas forças não mais teria coragem de dar seu corpo ao rapaz, pois o julgava imundo e indigno de pertencer a um homem como ele.
Seu sono neste dia foi profundo pela fraqueza que já se apossara dela.
Durante as noites caminhava com o rapaz aparentemente com o mesmo vigor dele, mas impulsionada por um grande amor e pelo desejo ardente de não prejudicá-lo em seu caminho e isso impedia Sebastião de ver nela uma doente terminal. Quase morta de fraqueza, cansaço e fome.
Pararam novamente para se alimentar e descansarem e já sabedora de sua desventura Adelina pede a Sebastião que alimentasse sozinho, pois ela iria descansar primeiro e depois comeria.
Ele não se preocupou ou importou com esse fato e após se alimentar adormece.
Adelina não dormiu conforme disse, pois estava somente esperando Sebastião cair profundamente no sono para tentar comer sem que ele visse para não correr o risco de ele a ver em seu problema.
A carne dos animaizinhos já estava bem mais curtida que há dois dias. Não mais sangrava como antes e em condições de ser ingerida, mas novamente seu estomago rejeitou-a.
Não lhe era mais possível manter qualquer comida no estomago.
Vomita tudo. Tenta comer outra vez e torna a vomitar e embora tentasse varias vezes não consegue alimentar-se e desolada e desesperada se afasta para deitar-se e dormir talvez para sempre.
Seu desejo voltou a ser a morte e o mais rápido possível para que o companheiro ficasse livre para chegar ao destino que já estava bem próximo e se ela ao invés de morrer adoecesse iria causar-lhe grande transtorno.
Ao passar perto de Sebastião ouve que ele a chama e se aproxima para saber o que é, mas verifica que o rapaz dorme.
Ele a chama em sonho. Conversa com ela carinhosa e ardentemente.
Durante seu sonho ama-a ardorosamente, abraça e beija-a com todo vigor de um homem apaixonado.
Adelina ouve as juras de amor dele e pede a Deus que lhe dê forças.
Forças para viver com este homem nem que para isso tivesse que trair Josefa que os deixou juntos.
O que ela ouvia do rapaz em voz alta deixava claro ele estava apaixonado por ela, mas que também não pretendia desamparar a esposa.
Em suas carícias amorosas durante o sonho também possuía Josefa e falava muito de seu amor por ela e pelo filho.
Seu desejo conforme falava era de viver até a morte ao lado das duas. Ele viveria com ambas.
Josefa haveria de entender. Ele amava Adelina e com Josefa tinha o compromisso matrimonial, além também de grande amor e em sua simplicidade julgava proceder certo mantendo-as sob suas expensas quando tivesse endinheirado em São Paulo. Todos numa mesma casa.
Não abandonaria a esposa como muitos fazem, mas também não deixaria Adelina para mais ninguém.
Esse era seu sonho falado em voz alta o que fez Adelina ouvindo-o amá-lo ainda mais.
Ela tentou novamente alimentar-se, mas isso era coisa impossível e em seu estado de fraqueza não teria forças suficientes para abraçar e amar aquele homem no chão que se masturbava enquanto sonhava amá-la.
Indecisa, não sabendo o que fazer ouviu a voz de sua consciência que lhe gritou alto: “Você é indigna dele”. Por esse motivo foi dormir longe dele.
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NOVO ENCONTRO COM OS LEPROSOS
Outros dois dias de viagem completados encontraram três cadáveres em estado de putrefação devido ao mau cheiro que exalavam.
Sebastião os reconheceu e disse:
É os leproso Adelina.
Tú os conhece?
Sim. Eles morava pros lado da roça do meu irmão Fonso, nas terra dos Alencares que foram simbora prá São Paulo.
Coitados. Só faltava só mais pôco tempo prá chegada. Queima eles Tião. É prá num espalhá adoençamento pras pessoa qui passá por aqui.
Tão morto mesmo?
É certo home. Num vê não que tem inté vermes comendo eles?
To vendo sim. Naqueles dois ali, mais naquele mais longe lá num vejo bicho não.
Ta morto tamém. Nem chega muito perto não. Toca fogo neles e vamo simbora logo.
Sebastião cobriu com gravetos e mato seco os cadáveres, ateou fogo e continuou viagem.
Adelina que ficara um pouco mais atrás se virou e viu que um dos leprosos mesmo sendo queimado vivo sem nenhum gemido, apontava-lhe o dedo em riste suplicante.
Em rápida prece pede perdão a Deus por mais este pecado e um bom lugar àqueles pobres infelizes e se apressa para encontrar Sebastião que estava a sua frente para os últimos dias de jornada.
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A APROXIMAÇÃO DO DESTINO
Completada esta ultima etapa da viagem finalmente avistaram a vila Santa Assunta ao longe. Era questão de apenas mais algumas horas e estariam em seu destino.
Dali apanhar os caminhões que os conduziriam para São Paulo não seria problema, pois os patrões teriam mantimentos suficientes para alimentá-los e também não mais sentiriam o terrível sol em seus corpos seminus.
Iriam para São Paulo para a glória, felicidade e trabalho e seriam felizes.
Foi com essa certeza que Sebastião desinibiu-se e deixou de lado todos os sentimentos de honra e pudor.
Abraçando Adelina confessou seu grande amor por ela dizendo-lhe:
Eu tenho meus desejos e plano. Secretos. Só abro pra você e mais ninguém.
Ele falou-lhe que jamais a desampararia, pois ela era tudo que ele queria na vida.
Ela finalmente admitiu seu desejo e amor por ele desde os primeiros dias e nunca confessara por respeito a seu casamento e por julgar-se incapaz de conquistá-lo.
Ele beijou-a carinhosamente por todo o corpo nu sendo correspondido em carícias apaixonadas tão ou mais ardentes que as dele e ele com delicadeza colocou-a deitada sobre aquele maravilhoso colchão que era o chão duro e seco que seria a melhor das camas em que jamais tinha deitado com alguém.
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O DESESPERO DOS QUE FICARAM NA ROÇA
Conversam Afonso e Josefa:
Fonso qui tará acontecendo cum Tião mais a moça?
Num faço idéia.
Si tudo correu direito preles ele mais a moça já chegaram em Santa Assunta, pois já tem tempo que partiram.
Cum certeza já chegaram a num sê qui aconteceu alguma coisa qui atrapalhasse prá atrazá a viage.
Qui Nosso Sinhô Jesus Cristo tua Mãe Virge Maria qui os guiô feis eles chegá bem.
Num te aperreie Zefa. Acho inté que já chegaram em São Paulo.
Já si passô muntio tempo qui deu prá completá viagem inteira.
Sabe lá purquê qui Tião inda não escreveu?
O Ângelo veio onte de São Pedro prô casamento do irmão e prá mandá notícia prá nóis aqui na roça é coisa fácil e ele num mandô recado ninhum.
Vô mandá Zezinho inté lá na vila sabê si tem recado.
Intão mande logo qui to carente de notícia do meu Tião.
Zezinho venha cá.
Qui que qué pai?
Vai lá na vila na casa do sinhô Tonho sabê se o Ângelo troce notícia de carta do Tião e proveita leva o carrinho prá comprá algumas coisa no armazém.
Sim sinhô. Vô já. Posso levá Tiãozinho no carrinho tia Zefa?
Pode. Mais como vai trazê ele de volta com o carrinho cheio de mantimento?
Eu arrumo tudo apertadinho prá sobrá lugá pras compra mais ele. Num ti preocupa tia Zefa.
Eu vô cum Zezinho e trago o Tiãozonho no colo. Posso í pai?
Pergunte tua mãe si ela ti deixa tu í Mercedes.
Pode sim minha filia.
Falou Maria Quitéria e continuando disse mais:
Sei que tu qué é vê gente diferente de nóis. Eu cunheço ocê e o teu jeito. Pode í minina mais ajuda Zezinho a cuidá do Tiãozinho e tú tenha juízo.
Foram para a vila Zezinho e Mercedes, filhos adolescentes de Afonso e o pequenino filho de Josefa, o Sebastião Jr. de menos de um ano de idade à casa do Sr. Antonio e continuando a conversa Maria Quitéria disse a Josefa:
To gostando de vê ocê qui num chora mais feito uma bezerra desmamada faiz dias.
To mais conformada cum as minhas sorte.
Tú num tá mais simportando com o Tião?
Mais é claro qui mimporto, mais num tenho mais sonhado nem pensado coisa ruim dele.
To apercebendo qui tú tá mais costumada em sê mulhé só.
Tu tá inganada. Num quero sê mulhé só não. Eu quero é sê mulié do Tião por muntio tempo. Num to mais pensano e sonhano qui vô perde ele não, porisso to feliz porque ele vem mi busca mais Tiaozinho e o outro qui vai nascê.
Vejo qui tua barriga tá crescendo e num vejo a hora dele nascê.
Tu mais Fonso é qui vão sê padrinho do nenê qui vai nasce e sê criado estudado e formado doto lá em São Paulo. Ele vai sê os orgulho de toda nossa familha.
Porque tá dizendo isso?
Tá nos meus sonho. Tião vem buscá nóis todos prá São Paulo prá nóis sê feliz lá e o futuro desse na minha barriga é dos melhor.
Sonhos todos nois temo, mais sonho é bestera. Num vai acontecê nada do que se sonhô. Ocê é qui pensa que vai acontecê porque tu sonha o que deseja que aconteça, mais num é certo qui vai ser verdade.
Tu num sabe, mais já sonhei muntias coisa que num tem nada com nossa familha e é inté com gente que nunca vi ou conheci e de ouvi dizê dispois aconteceu tudinho como sonhei. O Tião sabe di tudo. Pode perguntar prá ele.
Num vô discuti isso porque pode sê obra de Deus ou do diabo. Quem sô eu prá duvidá deles.
Deus é muntio mais forte porque foi ele que criou tudo, inté o diabo, mais deu poder prá ele de fazê o que quizé de ruim.  Dispois criô nóis prá nóis fazê o que nois quizé seguindo ele ou o demonho e eu num sei quem te faiz os sonho qui as veis te mudas dos pensamentos do bem prá o mal e para o contrário.
Qui é isso Quitéria? Eu só penso em Deus e tenho horror do diabo.
Mais tu já desejô que Adelina que acompanha Tião morresse ou num é verdade?
É. Mais num desejo mais não porque nos meus sonho Tião vem me buscá.
Será que os teu desejo dela morrê num era coisa do diabo?
Pode inté sê, mais num desejo mais isso pra ela não. Por falar em Deus chama os minino qui tão brincando prá nóis rezá pro Tião.
A família reuniu sem a presença dos que foram à vila e iniciou as orações de todos os dias.
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SANTA ASSUNTA DO NORTE JÁ PRÓXIMA
No chão duro do sertão Sebastião e Adelina se amavam.
Adelina amou-o maravilhosamente. Entregou-se sem resistência com todo amor que à ele dedicava.
O rapaz sentia a vibração da moça embaixo dele e ouvia seus gemidos de prazer e também gemia alto sua grande satisfação e com o frenesi do primeiro orgasmo quietou-se momentaneamente.
Os gemidos de prazer e gozo de Adelina continuavam misturando-se com gemidos de agonia, mas Sebastião não distinguia as diferentes lamentações devido o enorme prazer que sentia e ainda dentro dela excitava-se novamente e continuava seu movimento de penetração, pois iria gozar não só uma única vez, mas sim duas, três, quatro...
Tantas quantas fossem possíveis conseguir, mas não demorou a perceber que a moça não mais o arranhava e sequer o apertava tal qual fazia.
Estava totalmente calada sem nenhum gemido ou movimento.
Repentinamente ficara inerte. Imóvel para sempre debaixo de seu corpo.
Adelina acabara de morrer de fome e fraqueza sob suas carícias.
Alucinado o rapaz pensa em se matar e juntos fazerem a mesma viagem.
Com o facão à mão e prestes a consumar o suicídio lembrou-se de Tiãozinho e Josefa que precisariam dele e teve forças para resistir à tentação chorando desesperadamente.
Enterrou o corpo de Adelina, orou por ela e continuou viagem.
Durante o caminho se perguntava, mas não encontrava nenhuma resposta que explicasse porque ela lhe mentiu.
Ela não era virgem conforme falara e morrera de fome, embora eles tivessem comida nestes últimos dias de viagem e ela comia quando paravam para se alimentar.
O que teria acontecido?
Não era possível ter ocorrido tal desgraça. Estava tudo errado e sem nenhuma explicação.
Ainda absorto em seus pensamentos e sem descobrir o segredo de Adelina que estava enterrado com ela e queimado com os leprosos para sempre, entrou na cidade de Santa Assunta do Norte sem se dar conta.
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DE VOLTA À VILA DE CÓRREGO SECO
Zezinho bateu palmas à porta da casa de Sr. Antonio chamando por ele e por Sra. Mirtes.
Quem atendeu foi Ângelo, pois o pai, a mãe e o irmão estavam no armazém e quem falou foi Mercedes.
Oi Ângelo. Nóis viemo sabê de carta de tio Tião de São Paulo e avisá que a gente vem amanhã pro casório do Pedro.
Ta bom. Vamos entrar para conversar, mas carta do teu tio não tem não.
Inquanto Zezinho vai no armazém de teu pai fazê compra quero que tú me conta as histórias de São Pedro e me lê livros teu pra mim.
Tu fica cum Tiãozinho aí qui eu vô fazê as compra.
Dizendo isso Zezinho tirou o garotinho do carrinho e foram direto para o quarto do casal levados por Ângelo, colocando o menino que estava dormindo na cama do Sr. Antonio e Dona Mirtes, saindo da casa em direção ao armazém que ficava distante. Ângelo e Mercedes que levaram Zesinho até a porta voltaram rindo depois de certificarem que ele já ia longe.
Voltaram ao quarto e Ângelo pegou a criancinha da cama dos pais colocando-a no chão que chorou recusando o lugar.
Mercedes apanhou-a e a levou para o quarto de Ângelo deitando-a na cama do rapaz e fechou a porta. Voltou ao quarto onde Ângelo a esperava.
Mais Ângelo. Aqui não. É o quarto de teu pai mais tua mãe.
Que tem isso? Eles não estão aqui para usar o quarto e também não vão ver nada. Tire a roupa que vou fazer você virar mulher é hoje. Vou te ensinar como se mete de verdade.
Vou te meter na buceta. Tu vai gostar.
Assim não Ângelo. Minha mãe sempre insinô e insina que ela é só pro home que casá cum a gente.
Faiz só como das otras veiz. Eu chupo teu pinto igual ocê já mi insinô e deixo ocê gozá nas minhas pernas que num fais mau ninhum.
Num tira meu cabaço prá mim guardá prá eu fô casá. O qui nóis fais é muntio gostoso. Tu tamém sempre gosta muntio.
Não. Nada de punhetinhas e pôr nas coxas. Chupar meu pau é claro que quero, pois é uma delicia, mas num é só isso não. Vou te meter na buceta e também no cú meu pinto inteirinho. Eu já aprendi tudo isso direito lá em São Pedro igual gente casada e é na buceta e também no cú que se enfia o pinto.
É isso que vou te ensinar e é assim que quero a partir de hoje.
Chega dessas brincadeiras de criança.
Mais como tu pôde tê comido mulhé du jeito que tu fala se tu num casô cum nenhuma?
Acontece que lá tem as casas que chamam de zona de meretrício cheia de mulheres só pra isso.
Agora que já tenho quinze anos posso entrar nessas casas onde já fui muitas vezes. Escolho a mulher que quero ir pra cama, combino o preço que ela quer, pago o dinheiro a ela e então vamos para o quarto e na cama meto na buceta, no cu, ela chupa meu pinto até eu gozar na boca dela sem problema nenhum. Igual gente casada.
Em outro dia que volto lá posso escolher outra mulher e outros homens escolhem aquelas que eu já tinha escolhido antes e não tem nenhum problema.
Ninguém é casado com ninguém.
Vale tudo. Até homem com homem, por que lá tem veados para dar o rabo para quem preferir porque é mais barato.
A única exigência é combinar o preço antes e pagar direito.
Intão se é assim que fais me dá o dinheiro pra mim primeiro.
Acontece que você nem sabe fazer nada ainda. Eu vou te ensinar primeiro. Então você aprende direito e pode cobrar quanto quiser e de quem quiser. Menos de mim que sou o que te ensinou. Essa é a lei.
Todas as vezes que eu viajar pra cá mando recado para você e então tu vem aqui para eu te comer e para mim sempre será de graça.
Não tenho de pagar dinheiro nenhum para tu. Está combinado assim?
Mais intão quem vai mi dá dinheiro antes de mi comê?
Os outros homens com quem você foder.
Mais eu fico só na roça com meus pais e irmãos e pouco venho aqui e mesmo quando venho num tem ninguém prá metê, pois num tem as tal zona que ocê falô. Todos homes daqui ou é casado ou num sabe nada disso não.
Você é quem não sabe de nada.
Todo homem de mais de quinze anos vai visitar o puteiro de lá e faz isso. Digo que a maior parte dos que frequentam lá para meter com as mulheres, são justamente os casados e tem até muitos homens daqui casados e solteiros que vão lá em São Pedro diretos para a zona.
Eu vou dizer para eles quando os encontrar que tem você aqui que dá por dinheiro sem precisar deles viajar atrás de puta.
Tu além de gozar o prazer das trepadas que é muito gostoso para os dois, ainda ganha dinheiro.
Num sei si quero isso não. Minha mãe falô qui se a gente metê fica de barriga prá ganhá nenê e si isso acontecê como é qui vô fazê?
Num fica prenha não se fizer lavagem depois, igual todas as mulheres de lá fazem.
É só pegar a seringa encher de água e enfiar o bico dentro de você apertando que a água entra na tua barriga limpando toda a porra que os homens enfiam dentro de você. Depois é só mijar que sai tudo.
Aqui em casa tem os aparelhos de fazer lavagem de minha mãe. É aquilo ali em cima do cômodo.
Lá em casa também tem isso aí, mais eu nunca sobe prá que serve.
É pras mulheres lavar a buceta por dentro para não ficar prenha de homem.
Enquanto falava acariciava os seios e a vagina da menina com as mãos e ela já bastante excitada gemia de prazer e já desejava que Ângelo a possuísse conforme estava propondo, mas mesmo com todo esse desejo ainda não concordava com o pedido de Ângelo e o rapaz insistia para conseguir o total consentimento dela, que ele sentia estar prósimo.
Tirou a calça e foi falando:
Chega de papo e tire logo a roupa para eu comer você. Já estou aperreado de tesão. Pegue no meu pinto para você ver como está duro.
Pego sim, pois ele é gostoso e vô chupá ele, mais num sei si devo deixá tu botá ele dentro de mim não. Nem num sei si vo ganhá dinhero mesmo como tu falô.
Você está a fim de gozar de prazer ou de ganhar dinheiro?
To afins dos dois, mais tu disse num vai querê me pagá.
Eu num pago, mas vou arranjar muitos homens para te pagar. Tu vai ver. Meu irmão Pedro vai ser um deles e muitos homens daqui não vão precisar ir até São Pedro e vão usar você. Tu vai ver como vai ganhar bastante dinheiro depois de aprender.
Eu só fico na roça e num é sempre qui venho aqui. Vai ficá difícil de dá jeito de metê com os homens qui vai me arrumá.
Você mesma pode ensinar teus irmãos e eles avisam aos homens nas roças que todos vão querer.
Meus irmão num tem dinheiro pra me pagá.
Porra, mas você já é puta de nascença mesmo. Só pensa no dinheiro. Tu queres cobrar até de teus irmãos?
Dá de graça pra eles com a condição de eles arrumarem homens para pagar para ti.
Mais eu num tenho casa pra isso.
Vai no mato ou deixa que eles arrumam lugar. Isso não será problema.
Mercedes ao mesmo tempo em que falava chupava o pênis de Ângelo que gozou ejaculando em sua boca e rosto.
Ele preocupado em gozar mais vezes desta maneira acabando o desejo totalmente e não conseguindo possuí-la foi tratando de fazer o que já tinha aprendido não encontrando nenhuma resistência por parte dela que facilitou as coisas, por que esse era também o seu desejo.
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ENQUANTO ISSO NA ROÇA
Acabando as orações na casa de Afonso este se dirigiu a Maria Quitéria perguntando:
Purque deixô Mercedes í mais Zezinho na vila?
Ora home tu num sabe qui ela anda de namorico de criança com o minino Ângelo?
Num sabia disto não. Si soubesse eu num deixava ela í lá não. Ela só tem treze anos e num pode ficá namorando não.
Deixa de bobage. Ela é minina nova mais ele tamém é i num vai acontecê nada e pode inté dá casamento nos futuro.
Num credito que ele vá querê nossa filia prá casá não. Lá onde tá estudando tem muntias moças de boas família, muntio milhó qui a nossa. Ele vai escolhê moça estudada pra casá.
Te arrepito qui num gostei dela tê ido pra vila agora qui to sabendo destes namoro.
Num carece de te preocupa não. Ele é só um minino.
Sei lá. Na cidade qui estuda qui é lugá moderno insinam muntias coisas na escola e foras dela tamém.
Ângelo é só uma criança de quinze ano.
Quinze ano?
É. Porque pergunto assustado quando falei quinze ano.
Por nada não.
A preocupação de Afonso aumentou assustadoramente ao saber que Ângelo já tinha quinze anos.
Com certeza ele já frequentava as casas de prostituição porque ele próprio após essa idade já viajava até São Pedro com a finalidade de usar as prostitutas.
Inclusive até atualmente quando passava por lá pra seguir viagem para a Bahia, nas épocas de muita seca nunca deixava de procurá-las, para relembrar suas aventuras da juventude e para fazer algumas farras.
Sabia que Ângelo que já tinha idade que lhe permitia frequentar a zona sem dúvida assim fazia, aprendendo sobre o sexo, e por isso seria muito perigoso deixar sua filha com ele, pois era possível que o rapaz tentasse seduzir a menina.
Quis ir até a vila, mas Maria Quitéria não permitiu, pois não sabendo o que o marido desconfiava achou que sua preocupação era tolice.
Ela supunha que Ângelo era um menino bem educado por Sr. Antonio e Sra. Mirtes e jamais haveria de querer fazer nada de errado com nenhuma moça, principalmente com sua filha que até namorava.
Josefa era da mesma opinião e até falou que em seus sonhos e previsões nunca tinha visto ou imaginado nada sobre isso.
Comentou que tanto Ângelo como Pedro sempre frequentaram sua casa na ausência de Sebastião sem que nenhum deles tivesse lhe faltado com o respeito.
Eram moços bem criados e de boa índole assim como a própria Mercedes.
Maria das Dores e Severino filhos caçulas do casal, gêmeos de doze anos, insistiram que nada de mal poderia acontecer, pois afirmaram que Ângelo gostava muito de Mercedes e que o namoro deles sem dúvida era direito e até com jeito de casamento para mais adiante.
Com toda a argumentação dos familiares, Afonso menos preocupado deu-se por vencido e não foi até a vila.
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DE VOLTA À VILA
Pedro quando soube por Zezinho no armazém que este tinha deixado a irmã sozinha com Ângelo em sua casa preocupou-se como o Afonso, pelo mesmo motivo e decidiu ir até lá impedir o que imaginava estar prestes a acontecer.
Ele chegou e entrou sem ser percebido, pois os jovens copulando como estavam, gemendo alto de prazer, e pelos gritos do choro de Tiãozinho seu barulho não foi percebido.
Ao vê-los em tal situação, sem o menor pudor, indignado aplicou uma severa surra nos dois adolescentes.
Ângelo injustamente contou-lhe sem muitas explicações culpando Mercedes identificando-a como uma prostituta nata e a única responsável pelo acontecido.
Ela defendia-se alegando que Ângelo a forçou sem ser do desejo dela na tentativa de culpar o rapaz.
Pedro irritado aos gritos perguntou:
Mercedes, o Ângelo antes de lhe possuir prometeu-lhe em casamento?
Isso não. Mais ele prometeu qui eu ia ganhá muntio dinheiro fazeno isso. Que iria ganhá dinheiro inté teu.
Meu?
É sim. Ele disse qui tu frequenta as casa de mulhé qui ganha dinheiro pra metê. Qui inté tu vai me usá pagando dispois qui ele falasse prá tu e prá mais homes qui também vão mi pagá prá metê mais eu, sem precisá casá.
Vocês dois não prestam. São dois sem vergonhas.
Forçou-os a contarem em detalhes todo o incidente e assim descobriu claramente como fora a sedução.
O que ouviu nas explicações deles foi uma monstruosidade.
Foi o demônio que em seu dia de glória dominara os dois meninos.
Não cabendo culpa direta a nenhum deles e sim a ambos voltou a agredi-los energicamente pela irresponsabilidade exigindo a promessa deles de nunca mais se verem.
Procurou não machucá-los para não dever esclarecimentos aos pais e mesmo enfurecido como estava propôs-lhes que nada falaria para não haver represálias à nenhum dos dois, porque nada se poderia fazer para reverter o fato já consumado e principalmente para não atrapalhar sua festa de casamento no dia seguinte.
Após exigir que os jovens se vestissem e que Mercedes acalmasse o Tiãozinho dando-lhe o que comer, conversou demoradamente com eles explicando-lhes muitas coisas sobre a vida.
Iniciou confessando a Mercedes que ele frequentou sim, algumas vezes, as casas das prostitutas para se satisfazer quando o desejo era muito grande e fazia sexo com elas porque tais mulheres já se vendiam a qualquer um quando ele as procurou.
Que ele nunca tinha ensinado a nenhuma moça virgem tais coisas.
Explicou-lhe também que todas prostitutas assim procediam por desgraças que lhes ocorreram anteriormente.
Geralmente eram pobres infelizes que seduzidas por namorados mal intencionados que prometiam amor eterno, casamento e et cetera as abandonavam após conseguirem o que queriam, deixando-as desiludidas e impossibilitadas de arrumarem alguém decente e por isso acabavam por prostituirem-se.
Outras que desamparadas e abandonadas pelos próprios maridos e não tendo condições de sobrevivência para criar filhos que geralmente nasciam ou para sustentar pai e mãe muitas vezes até doentes é que elas procuravam tal vida.
Nunca se tornavam prostitutas antes de ser mulher conforme Mercedes fizera, deixando-se deflorar com a decisão já tomada de ser cortesã.
Ela estava totalmente errada e nunca mais deveria fazer com Ângelo ou com qualquer outra pessoa o que fizera até que se casasse com alguém que a aceitasse.
Que assim deve ser o procedimento dela de agora em diante.  Deveria tornar-se decente e honesta.
Ao Ângelo explicou que ele que já tinha casado no cartório desde a semana anterior lá em São Pedro nada tinha feito com sua já esposa, até então.
A festa e as bênçãos do padre e dos familiares só seriam no dia seguinte por isso somente depois disso que ele iria ensinar sua a mulher a fazer sexo com ele.
Que assim deve ser o procedimento de um homem correto.
Para sua surpresa ouviu Ângelo que quis falar e ficou terrivelmente aborrecido com o que ouviu alegando que era mentira dele, mas não tomou nenhuma atitude, pois foi atender à porta porque alguém chamava.
Não teve tempo de repreender ou espancar Ângelo pelo que este falara, porque Zezinho que já estava com o carrinho de compras pronto e chegara para chamar Mercedes para irem embora.
O que Pedro e Mercedes ouviram de Ângelo tentando dizer que decência e honestidade não eram o que o irmão pregava e sim o que ele sabia, deixou não só Pedro boquiaberto e incrédulo como também Mercedes.
Ele contou que ouvira dizer lá em São Pedro que Afonso pai de Mercedes muitas vezes foi visto lá no meretrício e que Maria Quitéria mãe da garota quando saia à procura de emprego de doméstica na verdade ficava em outras cidades servindo homens nos matos ou em lugares que os eles próprios levavam-na.
Que Afonso viajava para a Bahia e consentia e até incentivava que ela assim se portasse para ganhar dinheiro rápido.
A intenção de Pedro era surrar até machucar muito seu irmão que com certeza estava tentando manchar o nome de pessoas decentes com aquela mentira destruidora.
A reação de Mercedes foi de chorar pelo que escutou, mas não reagiu agressivamente porque talvez acreditasse na historia ou preferisse que assim fosse para justificar seu procedimento e desejos, pois adorou o que fez e gostaria de continuar fazendo ingressando definitivamente na vida proposta por Ângelo.
Com a entrada de Zezinho na casa eles interromperam a conversa e passaram algum tempo totalmente calados. Fato que deixou o rapaz um pouco desconfortável.
Achou estranho eles estarem conversando no quarto de dormir do Sr. Antonio e calarem-se quando de sua chegada.
Olhando ao redor do quarto percebeu que a cama de dormir estava desarrumada naquela hora da tarde. Continuou estranhando tudo, mas nada falou ou comentou e chamando a irmã para irem embora, despediu-se e foram para a roça onde moravam.
No caminho indagou da irmã o que tinha acontecido na casa do Sr. Antonio e ela prometeu-lhe que contaria tudo no momento oportuno, ou seja, quando já estivessem em casa em local confortável e seguro. Calaram-se durante todo o restante da volta, embora Zezinho visse a felicidade estampada no rosto da irmã e já imaginando o que teria acontecido também estava bem feliz por saber que ela iria contar como aconteceu o que ele já imaginava, consequentemente ele também poderia fazer com ela o que os irmãos já teriam feito.
Ao chegarem na roça Zezinho ajudado por Mercedes rapidamente desembarcou as compras, após entregarem Tiãozinho para a mãe e procurarem um lugar propício para conversarem secretamente fóra da casa debaixo de uma árvore. Infelizmente para eles não muito longe estava Maria das Dores brincando com sua boneca.
Como era o único lugar disponível que encontraram longe dos pais, Mercedes em vóz baixa contou-lhe o que soube sobre eles.
Disse ao irmão que Ângelo lhe falou que seus pais os abandonavam a própria sorte desde que eram pequenos aos cuidados dele para gozarem os prazeres da vida em outros lugares e com outros parceiros, sem importar-se com os filhos e que por isso eles poderiam e até deveriam fazer o mesmo.
Zesinho imaginava que tivessem acontecido outras coisas além da conversa, por isso insistiu com Mercedes:
Voces só conversaram isso? Ví a cama do Sr. Antonio desarrumada
Teve outras conversas e outras coisas também.
Intão me conte tudo que aconteceu.
Calma que vou contar tudo direitinho, mas em vóz baixa porque Das Dores não pode ouvir.
Ela contou o que já acontecia entre ela e Ângelo há algum tempo e também toda a conversa que teve com ele explicando em detalhes como ele iria ensiná-la foder de verdade transformando-se em seu amante gratuito e em troca arrumar homens para pagá-la como prostituta. 
Falou para Zezinho sobre sua experiência sexual com Ângelo, deixando claro que fora os momentos mais gostosos que já tivera em toda sua vida, embora não tivessem feito tudo que ele propusera em ensinar, pela intromissão de Pedro que atrapalhara tudo.
Durante a narrativa ela se acariciava nos seios e nas coxas, pois abriu os botões da camisa e levantou o vestido para fazer o que fez provocando no irmão tanto tesão ao ponto de ele com a mão dentro do bolso masturbar-se até ao orgasmo, arrancando gargalhadas de Mercedes pelo incidente que lhe disse:
Seu apressadinho.
Fiquei doido de desejo de gozar.
Pode ficar tranquilo que vou fazê-lo gozar muitas vezes.
Agora?
Não dá. Só se for uma punhetinha rápida, porque Das Dores iria ver. Hoje só dá mesmo com minha mão em seu bolso.
Espere que vou rasgar o fundo dele para você pegar melhor.
Safado. Já pensou nisso. Rasgue logo.
Pronto. É só você enfiar a mão em meu bolso.
Que gostosão você tem aí. Vai ser uma delicia trepar com você.
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SEBASTIÃO CHEGA A SANTA ASSUNTA
A vila de Santa Assunta do Norte é pequena, mas contrariando os costumes de tais lugares ninguém notou a presença de mais um estranho, pois viviam chegando de diversos lugares todos com a mesma finalidade. Subirem nos caminhões que os levariam para São Paulo.
O maltrapilho, barbudo, sujo e cansado homem conseguiu limpar-se um pouco com a pequena quantidade de água que um dos encarregados dos caminhões lhe dera tirada das enormes tinas que tinham nos veículos.
Sebastião agradeceu a Deus por sua sorte.
Conseguiu chegar em Santa Assunta do Norte são e salvo e encontrar os caminhões ainda lá.
Deveriam estar para partir, pois aquele amontoado de gente ao seu redor deixou-lhe claro que se tratava das últimas despedidas.
Sua entrevista com o médico não foi boa, pois foi considerado muito fraco, embora não tivesse nenhuma doença, mas não aprovado para falar com os chefes e subir aos caminhões.
Ele aborreceu-se e prestes a tentar fazer a mesma estupidez que tentara em sua vila foi acalmado pelo médico que lhe informou que eles só seguiram viagem no dia seguinte à tarde com tempo suficiente para Sebastião descansar, banhar-se e novamente apresentar-se no outro dia.
Só assim talvez ele o liberasse para falar com os patrões.
Sebastião descobriu um rio fora da cidade onde se banhou, lavou a única roupa que lhe restava, alimentou-se com comida que ainda tinha e dormiu na grama fresca embaixo de uma arvore até por volta de meio dia do dia seguinte.
Com seu facão que afiou em uma pedra, barbeou-se e recuperado fisicamente, pois emocionalmente seria impossível, voltou à apresentar-se ao médico que o considerou apto, pois a ele só interessava a saúde física. Encaminhou-o aos chefes.
Ele apresentou-se como solteiro e só na vida à um dos patrões.
Antes, porém escolheu a fila correta para não falar com o mesmo que o havia entrevistado em sua vila com medo de ser reconhecido e este também o aprovou dando-lhe um documento que lhe permitiria viajar.
Procurou um ajudante do caminhão indicado que lhe informou que partiriam dentro de três horas e que seria melhor se ele subisse depois. 
Como o veículo já estava lotado e ele era o único que faltava embarcar poderia deixar para o último instante.
Sebastião até gostou da idéia e procurou uma igreja. Rezou muito por ele, sua família, e principalmente para a alma de Adelina.
Conseguiu papel e lápis em um bar e escreveu durante quase duas horas uma longa carta explicativa de sua viagem para enviar a Ângelo em São Pedro.
Narrou tudo em detalhes excluindo apenas a forma exata da morte de Adelina. Contou-lhe que apesar dos pesares chegou bem e estava prestes a embarcar para São Paulo e que tão logo chegasse tornaria a escrever, dentro de poucos dias.
O único inconveniente foi o fato de não poder tê-la enviado, pois Santa Assunta era pequena, só um pouco maior que a vila de onde viera e também não tinha correio.
Pensou em deixar a carta com alguém do lugar com a possibilidade dessa pessoa viajar para São Pedro e levar a carta em mãos ou mesmo viajar para outra cidade maior que tivesse como enviá-la, mas isso seria impossível.
Além de não conhecer ninguém que pudesse fazer tal favor e supondo que a demora seria grande, concluiu que seria mais rápido enviá-la quando chegasse a São Paulo.
Demoraria apenas mais alguns dias e ele poderia inclusive corrigi-la com calma.
Guardou a carta. Subiu no caminhão e acomodou-se como pode e em total silencio ficou relembrando tudo o que passou na viagem para retificar a carta se tivesse errado em alguma informação.
Chegou à conclusão que sua narrativa estava correta exceto o fato, propositalmente escondido por ele que jamais alguém saberia sobre seu amor com Adelina.
Os caminhões partiram para sua viagem.
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O CASAMENTO DE PEDRO
Na casa do Sr. Antonio todos os amigos chegaram com seus familiares para o casamento que seria muito bonito.
Josefa, Tiãozinho, Afonso, Maria Quitéria, Maria das Dores e Severino também estavam presentes.
Um padre viera de São Pedro exclusivamente contratado, para celebrar a união do casal e dar suas bênçãos.
O que foi estranho ao casal de anfitriões foi a ausência de Mercedes e Zezinho que não estavam entre os convidados e Sra. Mirtes, indagou de Maria Quitéria o porquê do não comparecimento dos meninos.
Obteve como resposta que Mercedes não se sentia bem e preferiu ficar em casa, mas que lhe mandava abraços e felicidades e também ao Sr. Antonio.
À Pedro e à noiva ela enviara parabéns pela data e desejo de ótima união.
Mandou dizer a Ângelo que estava com saudades e que qualquer dia o veria.
O porquê de Zezinho não ter vindo foi a indagação feita por Ângelo à Maria Quitéria que lhe respondeu que ele havia prontificado em ficar com a irmã adoentada para socorrê-la se fosse necessário, embora ela própria soubesse que não se tratava de nada grave.
Apenas uma pequena indisposição que nem sequer a impediria de vir, mas como ela preferiu ficar com o Zezinho todos concordamos e viemos sem eles.
Ângelo achou péssima aquela ausência, pois com certeza teria outro dia de orgia e amaldiçoou-a por isso.
Imaginou que Mercedes estava trocando-o pelo irmão e que nesse momento estaria fazendo tudo o que aprendeu e não com ele conforme seu desejo.
Pedro recebeu a notícia a principio com alegria, pois supôs que a doença de Mercedes era apenas uma boa desculpa para ela não vir encontrar o Ângelo conforme ele aconselhara e exigira.
Entretanto com sua vivencia e experiência de pessoa mais velha já previra pela conversa do dia anterior que seu irmão dificilmente seria uma pessoa de bem.
Com certeza seria mais um gigolô de mulheres e que Mercedes também dificilmente se regeneraria e sem dúvida seria uma depravada prostituta sem nenhum escrúpulo.
Em suas conjecturas se perguntou por que Zezinho já com seus quatorze anos de idade, cheio de vigor e sem mulher o que estaria fazendo lá na roça com Mercedes?
Sua alegria desapareceu por imaginar que Mercedes estava seduzindo o próprio irmão, mas deixou de pensar no assunto, pois todos os demais já não se interessavam mais pela falta deles e contentes estavam nos comes e bebes do casamento. 
Só restou a Pedro esquecer-se também e continuar alegre e feliz como todos os demais presentes, no dia de sua festa maior.
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NA ROÇA ACONTECIA
A convicção, a vivência e a experiência de Pedro não falharam, pois de fato na roça, Mercedes que já começara a seduzir Zezinho desde o dia anterior, copulava incestuosamente com ele na cama dos pais. 
Ela que já havia provocado muitos desejos no irmão com sua narrativa dos atos sexuais com Ângelo continuou neste dia pondo em prática tudo o que já sabia desde os tempos de namoro e o que aprendera no dia anterior.
Praticou com o irmão coisas que apenas havia conversado com Ângelo e que não tiveram tempo de perpetuar devido à interrupção de Pedro, como sexo anal, lavagem vaginal para não engravidar e et cetera. 
Nesse dia tudo fora posto em prática, para o grande deleite dos irmãos.
Zezinho muito bom aluno aprendeu rápido e gostando do que aprendera concordou e combinou com a irmã que como ao Ângelo ele também seria seu amante gratuito, mas em troca lhe arrumaria muitos homens para comprar-lhe sexo nas roças vizinhas.
Como ele tinha percebido que a irmã adorava quando ele comia-a pela frente introduzindo seus dedos atrás lhe propôs que ela deveria ensinar ao Severino, pois ele próprio trataria de ensinar Maria das Dores para que todos os irmãos pudessem ser muitos felizes na deliciosa prática do sexo que sendo grupal seria muito melhor.
Alegou que a caçula Das Dores após aprender a ajudaria nos casos amorosos com outros homens e que eles todos ganhariam muito dinheiro.
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A SAÍDA DE SANTA ASSUNTA
A viagem poderia ser considerada penosa, mas para aqueles homens e mulheres sofridos do sertão era algo maravilhoso.
Os caminhões comuns que conduziam o pessoal após sairem de Santa Assunta do Norte viajaram a noite toda e na madrugada ainda escura, tal comboio foi substituído por caminhões furgões, sem nenhum questionamento dos viajantes. Viajavam quietos e felizes.
Comiam todos os dias. A água que no início era escassa na medida em que o tempo passava tornava-se cada vez mais abundante.
Aqueles que se consideravam rivais entre si, pois cada qual se julgava o mais capaz e com possibilidade de conseguir serviços melhores, agora conversaram amistosamente entre si sobre seus desconfortos dentro daqueles baús fechados.
Entretanto ninguem se atrevia em perguntar aos encarregados porque viajavam daquela forma, coisa se tornara muito penosa à todos pela falta de ar puro e pelo mal cheio de seus corpos, suas fezes e urinas.
Numa das paradas para refeição Sebastião perguntou ao encarregado que lhes trouxe comida porque viajavam trancados daquela maneira. Não podiam sequer sair para suas necessidades fisiológicas que eram feitas dentro do veículo por entre frestas existentes no assoalho de madeira para essa finalidade e para a entrada de ar que trazia junto a fumaça que exalava do escapamento do veículo prejudicando-os na própria respiração.
Obteve a resposta que ficavam trancados para evitar que alguém caísse dos caminhões abertos e também para ninguém fugir. 
Cair era muito dificil, pois todos ficariam muito bem agarrados para evitar isso. Fugir seria improvável por que sabia que todos viajavam de livre e grande vontade de chegarem ao destino que era São Paulo e em assim sendo tal resposta deixou-o insatisfeito e em duvidas.
Indagava-se a si próprio tentando conseguir uma resposta mais convincente, mas não encontrava nenhuma, por isso com seu facão e com muita dificuldade, não auxiliado e nem impedido por nenhum dos viajantes, conseguiu fazer um furo no metal que fechava a carroceria do caminhão.
O furo que fez serviu para a entrada de ar mais puro e para olhar o lado de fora, com ampla visão da parte externa, mas não lhe mostrou nada além de maravilhosas paisagens até então nunca vistas por ele e por ninguém daqueles outros pobres sertanejos que ali estavam.
A explicação do porquê de alguém fugir não apareceu.
Todos queriam apreciar a paisagem e revezando-se viam desfilar belos campos pastoris com capim alto, gado gordo, outros animais saudáveis, rios largos e grandes arvores frutíferas e floridas.
A maravilhosa visão de riquezas nunca vista deixava-lhes hipnotizados, a ponto de felizes começarem a conversar amistosamente entre todos em voz alta.
Tal atitude impediu-os de sentirem a parada do caminhão e a aproximação dos encarregados que nunca tinham sido gentis nem hostis.
Eles aproximaram-se do amontoado de gente olhando pelo antigo furo que se tornara um grande rasgo na parede metálica, tornando-se energicamente cruéis e a golpes de cassetete queriam saber o causador do estrago.
Sebastião sabia que mais cedo ou mais tarde alguém lhe delataria e para acabar com a crueldade coletiva confessou sua culpa sendo violentamente surrado e devidamente informado que se tentasse novamente tal feito teria a mão cortada.
Sem que ninguém se preocupasse em cuidar dele e com o caminhão devidamente consertado continuaram a viagem.
Sebastião durante algumas horas sofreu dores horríveis, mas ao recuperar-se começou a raciocinar com clareza e se perguntou: Qual o motivo de ser surrado apenas por estar vendo a maravilhosa paisagem das terras dos homens civilizados?
Quando em sua vila quis invadir a força um dos caminhões até achou justo ter sido espancado, mas agora por quê?
Ele estava indo para São Paulo para civilizar-se e o que aprenderia?
Espancar outras pessoas? Seria isso ser civilizado?
Decepcionou-se, mas não o suficiente para desgostar da civilização.
Respondeu suas próprias perguntas.
Esses homens que trabalham para os patrões talvez fossem selvagens por índole e não conseguiram educar-se, conforme ele pretendia para si, seus familiares e para os companheiros que estavam indo à procura do mesmo Paraíso que ele.
Com certeza os patrões se soubessem da agressividade dos empregados não permitiria e até os demitiria.
Eles sim são civilizados e vou querer ser como eles.
Pediu perdão a Deus pela revolta por ter tido vontade de agredir aos que o surraram com seu facão que portava escondido e não mais pensando no assunto continuou viagem com os pensamentos voltados para Josefa e outras vezes para Adelina.
Imaginava também a bela cidade que deveria em breve aparecer-lhe à frente, talvez na próxima parada do caminhão, pois por terem viajado muitos dias já deveriam estar próximos da chegada.
Achou estranho não ouvir barulhos de muitos carros que imaginava existirem pela estrada. Somente de vez em quando ouvia barulho de motor de outro veiculo, mas não com a constância que deveria ser, pois nos filmes eram muitos e muitos carros que andavam pelas estradas tão pertos uns dos outros que até se chocavam.
Continuava pensativo e absorto em seus pensamentos via Adelina em sua estranha e cruel morte da qual se culpava quando o veículo parou sem ele perceber o fato.
Ouviu mugido de gado, canto das aves, cacarejar das galinhas, latido de cães, vozes de pessoas, mas a porta do caminhão não se abre e ele e os demais esperam algumas horas em silêncio e expectativa até que anoitece.
oooOooo
CHEGADA DOS NORDESTINOS
É uma noite fria nunca sentida por Sebastião.
A brisa que entra no veículo é deliciosamente reconfortante e causadora da calma e tranquilidade dos aprisionados nordestinos que aguardavam sua soltura.
Já era madrugada quando se abrem as portas dos caminhões.
Não mais se ouve o gado, as aves, nem as galinhas e a sinfonia é composta pelo ladrar dos cães, pelo coaxar dos sapos, pelo cricrilar dos grilos, e pelo barulho do vôo dos morcegos e das corujas. A escuridão é total, tal qual as noites em sua vila sem luz elétrica.
A lua naquele dia estava ausente e é nessa escuridão que os sertanejos são guiados à luz de lanterna a um alojamento que está totalmente vazio à espera deles.
No alojamento existem vários colchões e cobertores que deverão agasalhar aquelas mais ou menos trezentas pessoas que chegaram.
No amplo barracão existiam dois outros ambientes além do dormitório.
Um deles tem vários chuveiros feitos de grandes latas de querosene e o outro com instalações sanitárias rústicas sobre fossas feitas no chão de terra batida.
O lugar é iluminado por lampiões de querosene e a ventilação vem através de janelas de grades de ferro situadas a altura de uns quatro metros do solo na sólida construção de pedras e cimento.
Nesta noite debaixo da água gelada Sebastião e os demais se lavaram e ele imaginou que seu irmão Afonso ruim dos pulmões não resistiria a tanto frio.
Foi nesta mesma noite sob a mesma temperatura e também tomando banho após os homens, que as moças mais bonitas e mais saudáveis foram separadas ainda nuas do restante das mulheres e levadas pelos vigilantes para outro local sem que ninguém procurasse perguntar o porquê de tal atitude.
A presença de mais de vinte homens armados com os revolveres a mão, chicotes e cassetetes metiam-lhes medo e não houve nenhuma reação nem dos maridos ou dos pais que tiveram suas parentes levadas.
Ato seguinte foi a retirada de todas as outras mulheres mais velhas e feias que também se foram do alojamento depois de seus banhos.
Tiraram os lampiões de querosene e a ordem para os homens que ali ficaram era para dormirem sem conversas ou qualquer barulho.
A porta de ferro fora trancada por fora e os cansados nordestinos dormiram em silêncio absoluto. Ninguém ousou sequer roncar.
O sol já estava alto quando abriram a porta daquela prisão e vários homens armados trouxeram alimentos e roupas aos desgraçados e sofredores, heróis da vida, que ali estavam à mercê de qualquer coisa.
Alimentados e vestidos sairiam para serem entrevistados pelos patrões um a um.
Foram proibidos de se falarem antes ou depois da conversa sob pena de serem chicoteados.
Sebastião ao sair do barracão verificou que havia outra construção ao lado da que eles dormiram à apenas alguns metros de distância e por ser exatamente igual imaginou que as mulheres estavam alojadas naquele barracão, mas ao passar em frente viu pela porta aberta que não tinha ninguém.
Estava totalmente vazio, sem colchões, sem cobertas e sem gente.
Em sua caminhada com os companheiros de infortúnio foi sendo empurrado como mula empacada por homens armados aparentando soldados preparados para a guerra.
Ele foi verificando tudo que havia ao seu redor.
Viu outra construção nos mesmos moldes que as anteriores também aberta e vazia já bem mais longe e próxima a essa, outra de menor porte, porém tão sólida quanto às demais e tudo cercado por um muro altíssimo que calculou uns seis metros, construído como os barracões de pedra, ferro e cimento.
Tal muralha era de construção quadrangular com aproximadamente cem metros de lado totalmente inviolável e sem passagem alguma a não ser uma pequena porta de ferro encravada no paredão para a qual caminhavam.
Ela estava aberta e do outro lado vários outros homens igualmente armados seguravam cães que não eram cachorros de fazenda e sim ferozes animais que tentavam avançar sobre os nordestinos.
Os homens que os continham calçavam longas botas até acima os joelhos, luvas de couro bem grossas que iam a altura dos ombros e mascaras nos rostos, com certeza para se protegerem das feras.
Ao contrário do solo dentro dos muros que era de chão via-se fora uma paisagem bem bonita.
A sua frente Sebastião viu e caminhou numa passarela de pedras sobre um imenso jardim gramado e com plantas floridas por toda parte e ao longe uma casa de belíssima construção no alto de uma colina. De lá vinha uma queda d’água cristalina formando um lago mais abaixo que na verdade era uma piscina de água mineral para lazer dos moradores.
Uma imagem tão bonita só vista nos filmes que lhes eram exibidos uma vez por ano em sua região de origem.
Ele viu também não muito longe da casa bonita um barracão de construção semelhante ao que ele estava instalado. Era menor. Igual ao barracão pequeno que tinha dentro da muralha.
A casa principal à qual estavam sendo conduzidos era rodeada por um jardim florido que maravilhava a todos, mas apesar de toda essa beleza Sebastião estava aborrecido, pois não era isso que ele esperava ver.
Caminhava na ponta dos pés e as vezes saltava para olhar mais longe a procura de prédios, carros, aviões, trens, caminhões, mar, parques de diversões, muita gente caminhando, tal qual via nos filmes sobre São Paulo.
Estava desapontado, mas a decepção foi ainda maior quando conversando com o patrão que o recebeu soube que deveria assinar um contrato já redigido concordando em trabalhar na roça, pois ali era uma fazenda e não se importando com mais nada que pudesse acontecer-lhe, retrucou agressivamente:
Mais, seu doutô. Num vim pra cá não prá trabaliá na roça. Prá isso eu ficava lá mesmo onde eu inté tenho roça mais meu irmão.
Eu quero é cidade com escola pra aprendê, caminhãos prá dirigi, construçãos pra fazê, escritório, farmácia e fábrica pra trabaliá, e mar e parques de diversão prá brinca como nos filme que a gente via na vila.
Acalma-se morto de fome. Tiramos você da miséria para uma vida calma, tranquila, com alimentos, agasalhos, casa, e ainda me vem com reclamações?
Sebastião não se preocupou com a aproximação de dois homens armados que traziam um cão feroz e se postaram atrás dele e continuou falando:
Sim sinhô. A maió parte destes home passava miséria sim, mais eu não. Tinha casa de comida sim sinhô. Tinha tamém salário, pois trabaliava no armazém da vila de onde vim. Eu num era perdido no mundo, não sinhô. Vim é prá vencê na vida em São Paulo. Eu quero isso qui foi prometido.
Está bem meu rapaz. Se esse trabalho nas lavouras não lhe satisfaz eu o colocarei para trabalhar no curral com o gado.
Num seio mexê com gado não. Quero é cidade grande de São Paulo prá trabaliá nos escritório, nas fábrica e tamém estudá.
Gostei de ouvir isso. É assim que se fala meu jovem. Você irá pra São Paulo estudar como quer e trabalhar em grandes organizações como pretende, mas primeiro terá de trabalhar conosco até que nos pague o que deve.
Qui eu devo pro sinhô? Nunca te comprei nada e nem nada pedi emprestado.
Sua vinda nos causou gastos de aproximadamente... Ainda preciso ver os relatórios, mas creio que uns mil cruzeiros e terá que nos reembolsar por esta despesa. Não acha certo?
Sim sinhô. Num sabia qui eu tinha que pagá tal viagem, mais se o sinhô tá falando tá certo. Eu trabalho inté pagá e depois vô simbora da roça prá cidade.
É bom negociar com homens honestos como nós. Gostei de você meu rapaz. Quando terminar sua dívida conosco eu lhe mandarei pra São Paulo ajudar a tomar conta de uma grande empresa que tenho lá. Está bom assim?
Vai mandá prá São Paulo por quê? Nois num tamo em São Paulo não?
Estamos sim. As grandes construções estão um pouco mais adiante de nossa fazenda por isso que falei que vou mandá-lo, pois a caminhada até lá é longa e o mandarei de carro.
Como já nos entendemos volte com os rapazes para o alojamento para se prepararem para o trabalho a partir de amanhã cedo.
Sim sinhô. Mais quanto é qui vô tê de salário por mêis? É uns dois ou treis mil cruzeiros por mêis?
Que é isso meu filho? Quando você for para São Paulo ser chefe em minhas fábricas ganhará até mais do que isso, mas aqui na fazenda você vai ganhar igual todos os outros. Não podemos ser injustos pagando salários diferentes para trabalhadores que vão fazer a mesma coisa, não acha?
Ta certo sim, mais quanto quí é os salário?
É de quinhentos cruzeiros por mês.
Intão vô tê de trabaliá dois méis nas roça?
Mais ou menos meu caro amigo. Mais ou menos. Agora vá com os outros.
Antes de retirar-se Sebastião vendo que o patrão era diferente dos empregados, pois não tinha armas, falava calmo, entrava em acordo, chamava-o de meu amigo, meu filho e et cetera, só carinhosamente que até se comparou a ele quando falou “homens honestos como nós”, julgou ser possível outro acordo, por isso falou-lhe:
Isso é qui é sê civilizado e é assim qui quero sê e vou fazer tudo para sê como o sinhô.
Desejo-lhe sorte.
Hei de conseguí.
Ainda parado diante do patrão Sebastião voltou a falar o que ainda pretendia.
Tamo tudo combinado nos acordo, mais eu quero pedí pro sinhô mi arranjá papel e lápis ou caneta prá eu escrevê carta lá pra vila de onde vim.
Não se preocupe que mandarei o encarregado disso escrever sua carta mais tarde. Aqui temos um homem destinado especialmente a escrever as cartas para todos vocês. Na hora certa vamos resolver isso.
Muntio obrigado seu dotô, mais num carece disso não, pois na minha roupa que vistia na viagem já tenho carta escrita pro filio de meu padrinho mandá prá minha mulhé e meu irmão e só falta contá os acontecimento de Santa Assunta prá cá prá eu acrescentá na já escrita.
Eu estudei um pouco e eu mesmo posso escrevê minhas carta. Só falta é papel e lápis.
Sinto muito pelas roupas e pela carta nela guardada, pois suas roupas assim como as dos outros já foram queimadas.
Estavam muito sujas e estragadas. Nós já lhe demos roupas novas e lhe daremos mais.
Intão minha carta já escrita sumiu? Sumiu também meus documento?
Infelizmente sim meu rapaz. Depois nos seus dias de folga você escreve outra ajudado pelo encarregado e nela pede novos documentos para sua família mandar-lhe. Está certo?
Mais eu num sei não quem é este encarregado prá ajudá?
Fique sossegado que isso nós mesmos vamos providenciar qualquer dia desses na hora certa.
Quando chegar sua vez o responsável lhe procurará para escrever. Demora um pouco de tempo para isso. Você sabe. São muitas pessoas que querem mandar notícias e cada um com sua historia para contar. O encarregado vai escrevendo tudo um por um.
Aguarde sua vez chegar e fique sabendo que deverá cumprir todas as ordens recebidas, principalmente você que já ganhou o privilégio de quando sair daqui virar chefe em minhas fábricas na cidade.
Procure cumprir todas as normas e conte aos encarregados tudo que souber de errado feito por algum dos trabalhadores que você só vai ganhar com isso. Está bem?
Tá tudo certo sim. Intão inté mais ver.
Sebastião ia se retirando quando foi interrompido pelo próprio patrão que lhe perguntou:
Você nos enganou não é mesmo? Como chegou aqui sem sua família?
Ele ingenuamente contou tudo em detalhes desde a chegada dos caminhões em sua vila. A recusa por parte dos patrões em trazê-lo. Sua ida até Santa Assunta e seu embarque como solteiro morador de lá.
Concordou que realmente mentiu e enganou-os, pois seu intento era vir para São Paulo de qualquer jeito. Era um sonho que alimentava desde criança e só daquela forma conseguiria.
Qual é o seu nome?
É Tião.
Só isso? Sebastião de que?
Sebastião Pereira da Silva, mais todo mundo só mi chama de Tião. O sinhô pode chamá de Tião tamém.
Está bem Tião. Vamos chamá-lo assim. Você se acha muito esperto não?
Não seu dotô. Nunca enganei, nem roubei, nem matei, e nem nunca fiz mal pra mulhé casada ou amigada.
Minha única mentira foi esta prá podê viajá e prometo desde já qui dagora prá frente num minto mais não e num faço mais nada errado não.
De onde você é?
De uma vila pertencente à cidade de São Pedro.
Como chama essa vila?
Todo mundo conheci como Vila Córrego Seco.
Córrego Seco?
Sim sinhô.
Agora pode ir.
Chamou os homens que estavam atrás de Sebastião.
Disse a um deles que acompanhasse o rapaz de volta ao alojamento e verificasse seu procedimento.
Ao outro falou para que anotasse o nome Córrego Seco, vila pertencente a São Pedro no Ceará para nunca mais irem lá, pois ficaria perigoso porque o tal Tião viera de lá e deixara muitos parentes que com certeza nos anos vindouros estariam furiosos a espera de notícias e poderiam provocar tumultos que causaria muitos problemas.
Poderiam até informar polícia federal do desaparecimento do parente por isso naquela região inclusive Santa Assunta do Norte e vilas próximas jamais deveriam voltar.
Avise meus superiores em meu nome que quando forem contratar novos caminhoneiros para o translado desses miseráveis que mudem suas rotas para outros locais bem distantes daquele lugar para se verem livres de preocupações futuras.
Foi isso que ficou decidido entre os patrões que buscavam os nordestinos e os fazendeiros que na verdade eram os mandantes de tais viagens e que nunca eram vistos por nenhum dos trabalhadores.
Tal entrevistador foi aconselhado a dar um rápido sumiço no tal Tião, mas já que ele estava lá e era forte pra o trabalho e mais cedo ou mais tarde desapareceria mesmo, optou por deixá-lo vivo para que trabalhasse até a morte.
Ele não significava mais nenhum problema assim como todos os milhares de trabalhadores que passaram por lá causou a mínima preocupação em todos esses anos de atividade.
Em seus pensamentos Sebastião agradecia ao caridoso patrão e ia imaginando que na sua carta explicaria tudo e pediria a Josefa mais paciência, pois depois de passados os dois meses na fazenda iria para o centro de São Paulo e finalmente tudo iria dar certo.
Trabalharia em São Paulo mais uns dois ou três meses e já teria dinheiro suficiente para ela viajar com Tiãozinho e a família inteira de Afonso, pois ia ganhar muito dinheiro sendo chefe nas fábricas do patrão.
Enquanto caminhava na fila de volta à amurada que continha seu alojamento ia rememorando sua viagem toda até aqui próximo a São Paulo para se lembrar de tudo na hora de escrever.
Não poderia esquecer de pedir-lhe que trouxesse cópias de sua certidão de nascimento e de casamento que eram seus documentos.
Lembrou-se que Josefa estaria com a barriga crescendo e na carta mandaria o nome para por na criança quando nascesse, se bem que viria nascer em São Paulo, mas em todos os casos já estaria mandando o nome. Se fosse homem seria o mesmo do patrão que gostou dele.
Procuraria saber o nome dele para depois falar e se fosse mulher Josefa deveria escolher o nome que quisesse, mas se ela concordasse em colocar Adelina ele gostaria muito em homenagem a sua companheira de viagem que morrera pouco antes de chegar à Santa Assunta do Norte.
No dia seguinte logo ao raiar do sol fora levado junto com os demais homens para uma construção que ficava atrás do alojamento e lhes deram ferramentas para uso na roça e contente Sebastião foi para seu trabalho.
Foram levados para a lavoura sempre vigiados por vários homens armados e cães ferozes.
Passados alguns dias Sebastião trabalhando em um arrozal percebeu que todos os trabalhadores eram seus companheiros de viagem.
Não via ninguém com ares de velhos empregados e isso o entusiasmou, pois passou a ter certeza que os mais antigos sem duvida já haviam saído de lá e mandados para São Paulo para bons empregos.
Trabalhava com afinco e vigor e animava seus companheiros a darem o melhor de si para aqueles caridosos patrões que estavam proporcionando-lhes uma grande mudança em suas vidas para o progresso deles em troca de apenas dois meses de trabalho.
Decorridos mais alguns dias em certa noite Sebastião acordou com um barulho de caminhões e ficou alerta, mas nada descobriu.
Soube no outro dia que era nova turma que chegava quando viu muitos homens saírem do outro alojamento existente, igual ele fizera cerca de quinze dias antes para falarem com o patrão que ele nunca mais viu.
Nos dias seguintes reparou que muitos dos que chegaram recentemente falavam uma língua diferente da dele, por isso percebeu que não eram nordestinos.
Talvez nem fossem do Brasil misturados com brasileiros.
Sua vida na fazenda era sempre igual. Cinco horas da manhã acordava e trabalhava até dez, quando era alimentado em seu próprio serviço e continuava a labuta até cinco da tarde quando era trazido de volta com seus companheiros entregando as ferramentas que eram guardadas pelos encarregados no barracão muito bem trancado.
No percurso que fazia da roça ao barracão já eram alimentados nos próprios caminhões que os conduziam.
O desgaste físico do trabalho árduo fazia-o adormecer logo, mas sempre tinha alguns minutos para pensar em sua família e em Adelina antes de dormir no barracão que já não mais tinha lampiões de querosene. Quando chegavam ainda existia a claridade do sol suficiente para o rápido banho.
Achou que foi muito bom seus familiares não terem conseguido a viagem com ele, pois embora os patrões fossem bons os encarregados não lhes davam tréguas, exigindo trabalho contínuo e sem descanso e quando alguém rebelava era severamente punido a chicotadas.
Seus familiares ficaram livres desse destino cruel.
Tais homens eram muito violentos e já tinham matado um trabalhador a pancada sem que eles nada pudessem fazer para impedir, pois além dos feitores estarem armados, tinham aqueles cães que estraçalhariam qualquer um em poucos minutos.
O morto era um dos novatos que estava a poucos dias no serviço.
Dias antes tinha visto outro homem ser morto a tiros e esse era um dos nordestinos que veio com ele e tinha achado sua morte muito cruel, pois ele nada fizera de grave.
Apenas pediu aos encarregados para falar com os patrões e ao ser espancado pelo simples pedido saiu correndo e foi fuzilado.
Sebastião concordava que todo empregado deve zelar pelo seu trabalho por isso sempre fez o melhor possível e sabia que os encarregados também obedeciam a ordens e deveriam cumpri-las direito. Entretanto julgava-os muito rigorosos e rudes e por isso alimentava o desejo de no dia que fosse entrevistar-se com aquele patrão que emprestaria o nome a seu filho iria revelar-lhe as crueldades dos encarregados.
Não com intenção de prejudicar nenhum deles, mas sim para evitar uma tragédia ainda maior, pois ele pressentia uma revolta dos trabalhadores que poderia ocasionar muitas mortes desnecessárias.
Haveria de descobrir um jeito de falar com tal patrão porque com certeza ele não sabia o que estava acontecendo e se os encarregados fossem proibidos de serem tão cruéis a situação iria melhorar.
Muitos trabalhadores quando conseguiam burlar a vigilância danificavam ferramentas e plantações já revoltados com tanta maldade que era talvez pior que no tempo da escravidão, da qual já ouvira falar quando de seus estudos.
Sua idéia era propor ao patrão que ele próprio passasse o mês que lhe faltava na fazenda como um dos encarregados dos nordestinos que o obedeceriam por ser um deles e ele os trataria bem não permitindo nenhuma crueldade, conforme presenciava quase que diariamente nestes últimos dias.
Em contrapartida conseguiria deles mais cuidado com as ferramentas e a plantação.
Não tinha idéia de como conseguiria falar com o patrão, pois seu destino seria o mesmo do companheiro se pedisse aos encarregados e ficou aborrecido e triste nos próximos dias pensando em como resolver esse grande problema.
Tinha também a carta que queria escrever e nunca lhe permitiram que a fizesse nem tampouco teve dia de descanso, pois trabalhava todos os dias desde que chegou há quase um mês.
Sua alegria voltou dois dias depois pela manhã quando avisaram ser o acerto de contas do mês trabalhado.
Sabia que seria o dia em que falaria com o patrão, mas ainda esse não foi o dia, pois quem veio fazer os acertos foi outra pessoa que ele nunca tinha visto.
O acerto de contas constituía-se apenas em assinar, quem soubesse ou gravar a impressão digital em uns papeis que lhe foram apresentados para tal fim e ninguém se preocupou pelo fato de não receber nenhum dinheiro, pois eram sabedores que ainda faltava outro mês de trabalho para eles pagarem sua viagem.
Cada pessoa era rapidamente atendida e informada que deveria voltar para trás dos muros e fazerem deste dia o que quisessem, pois era dia de folga para todos nordestinos que receberam bolas para jogar e brincar.
Os outros homens que tinham chegado depois deles já tinham ido para as lavouras.
Os nordestinos solteiros ficaram naquele dia de folga jogando futebol.
Os casados choraram por não ter visto suas mulheres e filhas em visita a eles.
Sebastião ao ser atendido criou coragem e falou com o homem que o recebeu que pretendia falar com o patrão sobre muitas coisas e ficou a espera da resposta ou da atitude que seria tomada pelo pedido que ele não imaginava qual seria.
Talvez o espancamento pelos encarregados chamados por este homem ou a morte sumária ou se tal homem, nem gentil, nem agressivo fosse bom e honesto como o outro e tomasse alguma providência para proporcionar-lhe tal satisfação.
Ficou trêmulo no aguardo do que aconteceria.
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ACONTECEU NA ROÇA DOS PARENTES DE SEBASTIÃO
Passados mais de três meses da partida de Sebastião e nenhuma notícia havia chegado por isso Josefa só chorava embora Maria Quitéria sempre a consolasse.
Afonso encorajou-a a irem até a vila, pois estava nos dias de Sr. Antonio ir buscar mantimentos em São Pedro e trazer o Ângelo com notícias que desta vez ele acreditava que chegaria.
Mercedes desaconselhou Josefa de ir a pé até a vila, pois estava muito gorda da gravidez de quase seis meses. Não seria bom tal caminhada.
Mercedes se prontificou em ir com o pai e todos concordaram com tal sugestão.
Partiram pai e filha a procura de notícias de Sebastião.
Chegando a Córrego Seco encontraram no armazém apenas Ângelo que viera antes com o propósito de apanhar a carroça do pai, o dinheiro para a compra mantimentos que ele próprio iria a São Pedro buscar.
Retornaria com as compras para que seu pai que estava adoentado ficasse na vila sem ter de fazer tal trabalho.
Afonso perguntou-lhe sobre notícias de Sebastião e ficou sabendo que nada tinha de carta, bilhete ou qualquer recado, por isso chamou a filha para retornarem à roça.
Ela pediu que ficassem para visitar Sr. Antonio adoentado na casa dele e também visitar Pedro e a esposa.
Afonso respondeu:
Intão vamo a casa deles e dispois vamo simbora.
Inquanto tu vai meu pai eu fico mais Ângelo aqui no armazém conversano um poco.
Tá bom mais oceis dois tenha juízo.
Embora Afonso não gostasse muito daquele namoro dos dois, o já falado namorico de crianças, permitiu, pois no armazém nada poderia acontecer e ele voltaria logo.
Também já achava que o menino Ângelo seguia os passos de Pedro como sendo bom filho por ele ter vindo para fazer serviço do pai.
Deixou de pensar tão mal do rapaz.
Chegou até desejar que aquele namoro fosse à frente e dar certo, pois como filho de Sr. Antonio seria um bom partido para qualquer moça do lugar se fosse de fato um bom homem o que demonstrou ser pela atitude que tomara.
Saiu para a visita e deixou-os no armazém, por bastante tempo, propositadamente para que a conversa entre os jovens pudesse ser longa e o namoro fosse firmando.
Atualmente concordava e até facilitava tal namoro que julgava que realmente era ainda infantil.
Sem nada imaginar de ruim deu o tempo suficiente para os desavergonhados se amarem e conversarem a vontade nos fundos do armazém que por falta de estoque não recebia a visita de quase nenhum freguês.
O rapaz fechou a porta para ficar a vontade com a menina amante com a qual copulou rapidamente nos fundos do armazém por diversas vezes.
Mercedes contou a Ângelo como havia seduzido o irmão Zezinho e como no outro dia conquistara Severino, para participar junto.
Informou-o que ambos eram seus maiores amantes e ajudantes no encontro de outros homens que já eram muitos.
Que infelizmente dinheiro mesmo recebia muito pouco porque era escasso o que as pessoas da roça tinham, mas como gostava muito de fazer sexo, não importava e ficava sem receber de quase ninguém.
Geralmente se dava de graça mesmo para matar a vontade que sentia durante praticamente as vinte e quatro horas do dia.
Confessou-lhe que isso acabaria um dia quando pudesse partir dali para outros lugares melhores e com homens com dinheiro para pagar-lhe.
Falou-lhe que ela e os irmãos não conseguiram de maneira nenhuma seduzir a irmã Maria das Graças que inclusive ameaçava-os de contar tudo aos pais.
Contaram-lhe que os pais frequentavam as casas de libertinagem em São Pedro.
Que o pai deles é quem levava a mãe para vender-se aos homens de lá e de outros lugares.
Explicaram tudo que ele tinha dito, mas mesmo assim a menina que não acreditava continuava irredutível e ameaçava dedurá-los aos pais.
Foi só sob a ameaça de Zezinho e Severino de fazer com ela tudo que eles quisessem e de até chamar outros homens para participarem, obrigaram-na sob tal ultimato de não falar nada aos pais. Ela assustada prometeu que nada falaria desde que a deixassem em paz para sempre.
Acordo feito e cumprido nada mais aconteceu na roça de lá para cá.
Mesmo copulando sem parar eles conversavam e no diálogo Ângelo propôs seu plano a Mercedes que aceitou ficando encantada pelo que viria acontecer.
Com a chegada de Afonso, Mercedes despediu-se de Ângelo e voltou para a roça com o pai para dar a Josefa a triste notícia de não haver carta de Sebastião.
Ângelo ficou pensando sobre as histórias que ele contara sobre Afonso e Maria Quitéria, embora tivesse certeza das frequências de Afonso na zona de meretrício, pois pessoas da cidade já o viram e afirmavam como verdade, entretanto com referencia as alegações sobre Maria Quitéria só ouvira dizer alguma coisa sem ninguem afirmar com certeza. Tais acontecimentos ninguém jamais veio saber ou afirmar se foi verdade ou não.
Provavelmente não passsava de boatos sem provas, mas ele afirmou serem fatos consumados em suas histórias para a menina acreditar.
Fechou e trancou o armazem e foi para a casa providenciar a viajem para o dia seguinte.
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DE VOLTA A FAZENDA
O atendente pensou alguns minutos que foram uma eternidade para Sebastião, deixando-o desesperado, principalmente quando a atitude dele foi chamar um dos homens armados que rapidamente chegou.
Sebastião estava prestes a correr ou atacar tal homem quando o viu mudando de ideia dispensando o individuo armado fazendo-lhe a pergunta:
Que é que você quer com Dr. Jorge?
Quero falá muitas coisa qui é preciso.
Dr. Jorge só estará aqui no próximo mês e se quiser falar comigo talvez eu possa resolver seus problemas. Que acha?
Qual é o nome do sinhô?
É Eudes. Dr. Eudes e o seu?
É Tião sim sinhô.
O que você quer falar ou saber Tião?
Onde tão as mulier, filias e esposa dos homes?
Estão trabalhando e estão muito bem. Elas são cozinheiras, arrumadeiras, e babás dos filhos dos encarregados.
São elas também que fazem a comida e as roupas para vocês.
Só vejo alguma pocas por aí nos jardim e nas orta, mais num vejo todas não.
Todas fazem o mesmo serviço e é você que não as vê.
Quando é qui os home vão vê e recebê carinho das mulieres e filias?
Qual é o nome de sua esposa e filha para eu falar-lhe delas?
Eu num tenho mulié nem filia aqui não sinhô. Tô sozinho.
Então o que quer saber das mulheres dos outros seu sacana?
Está a fim delas? Não tem vergonha de pensar nisso?
Se está com desejo de sexo procure alguém no dormitório que lhe de o cú ou se preferir consiga alguém que lhe enfia o pinto para você engoli-lo inteiro no seu rabo se achar melhor.
Se arranje lá mesmo.
Se vire como puder e me deixe em paz antes que eu mande aplicar-lhe um corretivo que jamais esquecerá.
Num é nada disto não Dotô Eudes. É qui os home tão muntios aborrecido com os maltrato e com a falta de carinho das familha que tão inté se revoltano.
Porque acha que eles estão se revoltando?
É qui muntios dele estraga ferramenta e colheia quando num são visto pelos encarregado.
Estão fazendo isso?
Não todos, mais aos pouco vai acabá todo mundo revoltado. Purisso carece qui o Dr. Jorge fique sabeno prá podê mandá os encarregado tratá milhó a gente pra impedí tal revolta. E tamém deixá os homes vê suas mulhé.
Pode ir embora que eu providencio o término da revolta.
Vá com os outros.
O sinhô vai resolvê os problemas também dos maus tratos dos capatazes e deixá eu tê tempo de iscrevê minha carta?
Logo mais você presenciará como vou resolver tudo rapidinho. Aguarde e verá.
Sebastião foi para trás das muralhas com os pensamentos em alvoroço sem conversar com ninguém nem brincar com eles com as bolas.
Imaginava que aquele homem mentira porque as mulheres que chegaram com eles, as adultas e as adolescentes eram aproximadamente uma centena e ele quando saía para o trabalho no arrozal nunca via além de umas dez. Sempre as mesmas velhas e feias.
As novas e bonitas jamais foram vistas por ele e nem por ninguém que inclusive quexavam-se quando conversavam no alojamento.
A informação de que elas trabalham nas casas dos encarregados cuidando de suas crianças também estava muito estranha, pois nunca viu nenhuma casa além da grande e bonita e um alojamento próximo e muito menos viu criança alguma em nenhum lugar.
A promessa de Doutor Eudes de resolver o problema ainda naquele mesmo dia fazia-o pensar que era ele que estava com pensamentos errados e imaginando besteiras.
Sua ingenuidade não o deixava ver as coisas claras e em sua simplicidade via-as ao contrário e sentiu-se enormemente recompensado por saber o nome do bondoso patrão que colocaria em seu filho ao nascer.
Chamaria Jorge Eudes em homenagem também ao novo patrão que resolveria ainda hoje os problemas que muito lhes afligiam.
Não haveria necessidade de terem de esperar mais um mês para que Dr. Jorge chegasse e solucionasse-os.
Imaginava que logo mais Doutor Eudes mandaria as mulheres irem visitar os maridos e pais e que os encarregados teriam ordens para serem menos cruéis e só punirem quem realmente merecesse por erro grave.
Foi pensando assim que Sebastião teve vontade de reunir todo o pessoal e gritar-lhes que todos seriam bem tratados a partir daquele dia, mas sua timidez o impediu de tal ato e ele ficou quieto em um canto, agora pensando em sua família que logo estaria com ele.
Lembrou-se de Adelina. Chorou pela recordação e orou por ela.
Após todos estarem de volta à amurada chegaram vários homens armados de chicotes e cassetetes que os surrou violentamente informando-os que tal fato acontecia pelas desobediencias às regras e pelos estragos que faziam propositadamente nas ferramentas e na lovoura.
A violência era vigiada por homens armados com fuzis e cães ferozes que faziam o cerco a todos.
Não havia a mínima possibilidade de reação por parte daqueles homens cansados e desarmados que só faziam era apanhar sem poder fazer nada além de gritar de dor.
Apenas dois deles tentaram reagir e foram mortos a golpes de cassetetes pelos mesmos que aplicavam a surra sem a necessidade da interferência dos homens com armas de fogo tão frágeis e indefesos que eram.
Durou aproximadamente duas horas o massacre que deixou apenas dois mortos, pois a covarde punição era de tal forma bem aplicada pelos profissionais que lhes causava muita dor, mas nenhum ferimento de maior gravidade para que eles pudessem continuar seu trabalho escravo.
Após isso chegou ao local Dr. Eudes que lhes falou:
Isso foi muito pouco pelos prejuízos que vocês estão causando. Eu já sei que estão estragando ferramentas e plantações porque tem entre vocês quem me conta tudo o que se passa. Se continuarem esses prejuízos mando matar a todos os revoltosos e jogar os corpos para os jacarés comerem porque porcaria de gente como vocês está cheio por aí e pedindo a Deus para vir trabalhar aqui.
São todos imprestáveis e fáceis de serem substituidos e não hesitarei em cumprir o que prometí.
Saiu acompanhado pelos algozes e ao passar por Sebastião disfarçadamente pisca-lhe um olho mostrando-se ser seu amigo, pois a mando dele foi-lhe poupado do espancamento.
A vontade de Sebastião era atacar aquele homem e matá-lo, mas sabia que não conseguiria e seria morto ou abandonado a sua própria sorte junto aos homens do sertão que ao saberem de sua delação o puniria de forma muito mais violenta que um simples tiro porisso nada fez.
Ficou quieto prometendo a si mesmo que nada mais falaria a não ser com o bondoso Dr. Jorge no mês seguinte e assim como os demais se recolhera e fora dormir mesmo o dia ainda estando claro.
Nova manhã e todos calados, pois se tornaram suspeitos uns dos outros, voltaram a seus serviços, entretanto agora todos inimigos entre si.
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AINDA NA ROÇA DE AFONSO
A madrugada estava dando lugar ao dia quando Afonso acordou e foi acordar o restante da família.
Todos acordados conversavam e foi Josefa quem falou dirigindo-se a Maria Quitéria:
Onde tá a Mercedes?
Num seio. Deve tá lavando roupa ou cuidando das galinhas e porcos.
Mais tão cedo? O dia só tá clareano agora.
Vô procurá ela por aí.
Eu vô junto mais tu.
Quem primeiro falou foi Zezinho com vontade de encontrá-la, pois estava com más intenções e quem pretendeu acompanhá-lo foi o irmão com os mesmos desejos e saíram a procura da irmã nos locais possíveis de ela estar fazendo algum serviço.
Procuraram nos matos copulando com algum homem, mas a tarefa foi cansativa e infrutífera, pois não a encontraram embora tenham ido a outras roças onde eles sabiam ter homens que a possuíam e ninguém soube dizer do paradeiro de Mercedes.
Eles cansados voltaram para casa trazendo a notícia do desaparecimento da irmã, mas antes Severino perguntou:
Mercedes já chegô?
Não meu filio. Ela num tá aquí não.
Mais pai nois rodamo por todas roça e num encontramo ela não. Ninguém sabe nada.
Não é possível. O qui teria acontecido?
Num seio. Onte a tarde quanto tu chegô mais ela da cidade ela nem conversô com a gente e ficô no quarto dela mais Das Dores.
Afonso gritou para Maria da Dores que já estava preparando a refeição, pois já era quase hora do almoço.
Veja se as coisa dela tão nos lugá.
Num tão não pai.
Respondeu a menina após ir e voltar do quarto.
Mais tú dorme lá cum ela e tem de sabê o que aconteceu?
Num sei não meu pai.
Não é verdade tua. Conte logo o qui tu sabe.
Sei de nada não. Pode inté me surra e tamém juro prá Deus qui num sei nada não du qui aconteceu cum ela.
Ela dormiu na cama dela de onte prá hoje?
Durmiu sim meu pai. Inté antes de eu. Bem mais cedo sem conversá nada. Paricia inté contente e alegre.
Intão ela deve tê acordado antes de amanhecê.
Deve tê sido isto porque eu num vi ela levantá cedo não.
Onde tará esta danada?
Vai inté a vila Fonso. Vê se ela tá lá.
Vô já Quitéria e mato aquela peste de tanto surrá quando incontrá mais ela.
Num vai comê primero?
Vô não. Tenho pressa de encontrá mais ela.
Partiu para a vila Afonso e os dois filhos que aconselhados pela mãe deveriam ir juntos a procura da menina e lá chegando por volta de doze horas procuraram-na por toda a vila.
Nas casas de amigos, no armazém do Sr. Antonio ninguém soube informar absolutamente nada sobre o paradeiro de Mercedes.
Afonso soube que ninguém tinha visto a menina a não ser no dia anterior quando lá esteve com ele próprio.
Pedro contou-lhe que o irmão tinha partido para a cidade de São Pedro para a compra de mercadorias, mas tinha saído sozinho da vila e muito cedo. Logo que clareou o dia.
Afonso falou-lhe que Mercedes tinha deitado muito cedo na noite anterior, bem mais cedo que de costume e que provavelmente teria acordado ainda na escuridão da madrugada. Essa informação foi o suficiente para Pedro descobrir o que tinha acontecido.
Foi Pedro quem pediu aos irmãos que voltassem para a roça avisar Maria Quitéria que ele e Afonso iriam até a cidade de São Pedro porque ele imaginava que Mercedes teria ido para lá com Ângelo e que Afonso não teria tempo de regressar naquele mesmo dia.
Que não preocupassem com ele, pois dormiria em sua casa na vila naquela noite após encontrar e trazer Mercedes que deveria estar em São Pedro.
Afonso não achou boa idéia, pois se Ângelo partiu muito cedo voltaria no mesmo dia, lá pelas cinco horas, com as compras e com Mercedes por isso falou com Pedro:
Pedro. Eu acho bobage a gente ir lá. Já passa da uma hora da tarde e quando nois chegá lá a pé eles já terão voltado pra cá.
Não Afonso. Se está acontecendo o que imagino eles não vão voltar hoje. Eu lhe conto o que estou pensando no caminho.
Pedro eu acho qui ela fugiu prá sempre.
Quem falou foi Severino.
Porque pensa assim minino?
Tú num lembra pai quanto tu falô pra Das Dores procurá as coisa dela no quarto?
E mesmo. Tinha inté se esquecido disso.
O que aconteceu Afonso?
Poisé Pedro. As ropas dela num tavam mais no quarto dela não. Ela levou todas as muda de roupa dela.
Então temos mesmo que ir muito depressa para São Pedro. Vamos logo.
Nóis vamo simbora prá roça meu pai e qui Deus acompanha vois nas procura.
Zezinho. Antes de voltarem avisa em minha casa para minha mulher Adelaide o que esta acontecendo e também vá à casa de meu pai e diga-lhe para ele vir tomar conta do armazém que tenho de sair.
Vô correndo num pé lá e outro cá.
Você Severino fique aqui no armazém até meu pai chegar e se aparecer algum freguês mande esperar um pouco até a chegada dele.
Partiram para a cidade de São Pedro e no caminho Pedro contou à Afonso tudo que sabia sobre seu irmão e Mercedes.
Comentou todo seu ensinamento a eles imaginando-os arrependidos, mas eles estavam se mostrando muito piores do que ele julgava, pois com certeza Ângelo teria levado Mercedes para a fuga, mas eles os encontrariam lá em São Pedro e ele iria punir o irmão de forma muito rigorosa.
Chegaram à cidade e rapidamente souberam de tudo o que aconteceu naquele dia na cidade.
Todo o pessoal da lá estava em alvoroço, mas nada podiam fazer mais e contaram à Pedro e Afonso as peripécias de Ângelo.
Ele teria premeditadamente planejado a fuga acompanhado de toda maldade que praticara.
Já tinha há alguns dias proposto a venda da carroça de seu pai ao dono do grande armazém de lá que era fornecedor das mercadorias ao interior, alegando ter permissão do pai e depois ninguém mais o viu.
Com certeza desapareceu embarcando ainda pela manhã no caminhão que faz viagem para o interior da Bahia duas vezes por semana. Já estaria muito longe sem nenhuma possibilidade de ser alcançado.
Levara o dinheiro da venda da carroça com o cavalo, o dinheiro que trouxera para as compras e toda sua roupa que estava na pensão onde morava.
Inevitavelmente Mercedes havia ido com ele.
Com o decorrer de pouco tempo descobriram que ele levara junto, além de Mercedes que viera da roça para a vila, a filha da dona da pensão e a filha do funcionário do correio, pois essas meninas também tinham desaparecido com suas roupas.
Através dos rapazes da cidade souberam que ele tinha desvirginado ambas as meninas da cidade, além de outras que não fugiram com ele.
Os rapazes recusavam-se a contar quais eram as outras meninas para não prejudicá-las, pois estavam na cidade, mas deixaram claro o quanto Ângelo era um canalha.
Inconformados Afonso e Pedro voltaram para a vila e Afonso mesmo cansado como estava preferiu ir para sua roça ainda neste final de tarde para contar a família, a desgraça que Ângelo e Mercedes aprontaram.
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NA FAZENDA DE ARROZ
O mês seguinte correu da mesma forma que o anterior em todos os sentidos.
Trabalho árduo e contínuo. Falta de descanso. Não permissão para ver as mulheres. Agressões violentas até com assassinatos.
Morreram mais três pessoas que tentaram fugir durante o trabalho no arrozal.
Para esses três os encarregados não gastaram munições e nem esforço físico usando chicotes ou cassetetes.
Apenas soltaram meia dúzia de cães que os estraçalharam a mordidas.
No dia deste crime Sebastião já bastante revoltado com tudo conseguiu sorrateiramente jogar junto aos cães uma cobra jararaca do brejo bastante venenosa que conseguiu picar um dos cães matando-o.
Ele sabia que não era desta forma que resolveria o problema, pois seria impossível acabar com todos os cães com as cobras pelo fato de ser difícil a vitória delas sobre os mesmos bastante ágeis e por serem as feras assassinas em número bastante superior as cobras encontradas.
Maltratado, cansado e cheio de revolta, porém vivo Sebastião chegou ao final daquele mês que seria o último naquele lugar com a certeza de que no dia seguinte seria solto com todos os companheiros do nordeste.
Mesmo assim reivindicaria ao Dr. Jorge mudança nos tratos para com o pessoal restante, pois acreditava que os vindos após eles deveriam da mesma forma cumprir dois meses de trabalho para pagar a viagem e sabia que no futuro ainda chegaria mais pessoas e ninguém deveria ser tratado da forma como foram.
No alojamento tenta conversar com outros homens, pois imaginava que alguns conversavam entre si, porque aqueles três que tentaram a fuga com certeza haviam combinado tal façanha.
Procurou pessoas longe de onde dormia, pois os que lhe estavam próximos o evitavam, mas foi rejeitado por todos.
Ciente de ter sido o culpado da tirania do final do mês anterior concordou com tal rejeição que até achou que foi punição muito inferior à merecida.
Foi dormir em seu canto contente por ter tido um castigo bastante ameno, mas ao mesmo tempo insatisfeito pelo total desprezo que recebia dos companheiros, pois sua intenção tinha sido a melhor possível. Gostaria de explicar-lhes.
Em verdade ninguém nunca conversou com ele e com nenhum outro, pois desconfiados entre si jamais se falaram e inclusive deixaram de danificar as ferramentas e plantações de arroz, o que fora previsto pelos patrões pela atitude tomada de incutir-lhes a certeza de ter um alcaguete entre eles, sem delatar quem fora para ele não ser eliminado.
Aqueles mortos soube-se depois que eram irmãos e por isso confiáveis entre si, portanto tinham combinado a fuga desastrosa.
Cumpriram seu tempo da obrigação com a dívida e como Sebastião todos esperavam o dia seguinte para a definitiva soltura.
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O DIA DA LIBERTAÇÃO
Enfim chega o dia seguinte.
O dia do acerto de contas do segundo e último mês de trabalho que seria a libertação de todos aqueles que foram escravizados por dois meses.
Em fila os nordestinos foram encaminhados à casa principal da fazenda onde um a um eram recebidos.
A guarda do chefe que os recebia era muito maior, mais severa e muito mais bem armada que todas as outras anteriores.
Chegada à vez de Sebastião ele viu que não era Doutor Eudes e muito menos Dr. Jorge quem o atenderia, mas como seria a sua despedida decidiu não conversar com mais ninguém e apenas assinou os papeis que lhe foram dados voltando rapidamente ao alojamento.
Começou arrumar suas coisas para partir nem que fosse a pé para São Paulo já que Dr. Jorge não estava para cumprir a promessa de levá-lo de carro e arrumar-lhe o emprego de chefe nas suas fábricas.
Nada disso lhe interessava mais.
Queria apenas ir embora daquele lugar o mais rápido possível.
Sua intenção era partir nessa mesma tarde já que tinha terminado de pagar seu débito.
Foi surpreendido a chicotadas. Ficou indignado e cônscio de que seria morto por aqueles homens, mas mesmo assim entregou-se ao castigo, pois não tinha forças para reagir até que um dos encarregados pôs fim à tortura falando aos que lhe surravam:
Parem de bater nele. Este homem é bom de trabalho e não deve morrer assim.
Sebastião encorajou-se e conversou com tal encarregado perguntando-lhe:
Qui foi que eu fiz?
Não estava tentando fugir?
Num tava não sinhô. Eu devia mil cruzero da viagem e Dr. Jorge me contratou para trabalhá dois mês pra pagá e já trabalhei dois mês e já paguei minha dívida porisso vô simbora daqui porque num tenho mais nenhuma dispesa pra pagá.
Está doido homem. Não leu os documentos que assinou? Os dois meses que trabalhou pagaram a viagem, mas o alojamento, a alimentação, a comida e as ferramentas que usou nestes dois meses de lá para cá quem é que paga?
Num sei não sinhô.
É você.
Mais intão quanto é qui ainda to devendo?
Está devendo sem cobrar as ferramentas danificas e parte do arrozal estragado de propósito por vocês outros mil cruzeiros.
Intão tenho de trabalhá otros dois meis pra paga tais dívida?
É lógico. Todo homem honesto tem de pagar o que deve.
Sei sim sinhô. Mais e dispois de trabalhá mais dois meis vô podê ir simbora ou vô tê mais dívida?
Se você quiser fazer dívida terá, mas se não quiser fazê-la não terá e poderá ir embora após pagar com seus salários o que já deve.
Intão como faço pra num tê mais dívida?
É só você trabalhar sem alimentação, sem roupa, sem alojamento, sem transporte, e com as mãos que você não gastará nada e receberá seu salário para pagar o que já deve.
É muito difícil passá dois meis assim, mais vô fazê isso prá num devê mais nada e podê ir simbora.
Acontece que se você for trabalhar sem ferramentas e sem comida vai render pouco no serviço e terá de trabalhar muito mais que dois meses para merecer o total de mil cruzeiros e quitar o que já deve.
Você irá ganhar por produção e não quinhentos cruzeiros por mês já que irá produzir pouco.
Quando fizer os cálculos certos lhe aviso o tempo que faltará, mas deve passar de quatro meses de trabalho que ainda deverá ficar prestando serviço aqui, se a partir de agora não fizer mais nenhuma divida.
A conversa foi mantida pelo encarregado em voz muito alta para que todos os que estavam próximos ouvissem e tomassem conhecimento das exigências, pois a situação de todos era exatamente igual à de Sebastião.
Um trabalhador que tinha desejos de ir embora falou mais alto e mais forte que o encarregado para que nenhum dos próximos e também dos mais longe deixassem de escutar.
Repetiu com seu sotaque nordestino a proposta que ouviu do encarregado a Sebastião e dando sua opinião gritou para todos:
Eu tamém topo ficá trabalhando sem dívida os tais quatro meis para ir simbora deste inferno. Quem mais topa mais eu e o Tíão?
Assim é qui se fala meu irmão. Vamo todo mundo topá. Deste jeito nois vai todo mundo simbora daqui.
Outro dos nordestinos berrou de longe.
Somente os três estavam encorajados a tal proposta e eles, mais o encarregado e os vigilantes, ficaram alguns minutos mirando o restante do pessoal que calados olhavam uns para os outros sem nenhuma reação aparente.
Aquele pessoal em sua maioria estava acostumado a trabalhar em suas terras no seu antigo habitat por mais tempo que esse praticamente apenas com as mãos e sem alimentação adequada constituída de apenas alguma caça por isso refletiram por poucos minutos.
Foram se entendendo apenas com o olhar e rapidamente bem mais da metade deles concordaram com a proposta.
Gritaram alto sua aceitação de serem escravos por mais quatro meses e depois a liberdade total.
Somente os mais velhos e doentes preferiram trabalhar pela alimentação, roupas e alojamento.
Outros poucos que se satisfaziam em trabalhar em troca apenas da comida e roupa estavam satisfeitos e recusaram-se a aceitar a libertação preferindo trabalhar como escravos para o resto de suas vidas conforme estavam fazendo porque em suas próprias terras jamais conseguiam a metade do que recebiam que era apenas comida, roupa, banho e repouso.
Os dissidentes foram separados do pessoal e a turma maior foi levada para outro local bem mais longe dos alojamentos do arrozal para trabalharem em uma lavoura que lhes era desconhecida.
Lá se misturaram à outros aproximadamente cem trabalhadores que já estavam no local perfazendo um total de mais de duzentos homens cobertos com tangas feitas de capim seco ou totalmente nus trabalhando o dia todo e dormindo ao relento.
Esses empregados nas tardes ainda claras pelo sol matavam cobras e lagartos para alimentarem-se escondidos dos encarregados que vigilantes sempre notavam e lhes tomavam tais caças impedindo-lhes a alimentação.
Às vezes faziam vistas grossas e permitiam tais caçadas e alimentação, pois era previsto eles agirem de tal forma para mantê-los vivos enquanto ainda podiam produzir.
Durante o primeiro mês de trabalho nada aconteceu, mas ao iniciar-se o próximo sem saber por que, os vigilantes mataram a tiros mais de dez dos trabalhadores à vista de todos.
Alegaram aos gritos para que os demais ouvissem e ficassem cientes que foram mortos porque estavam muito preguiçosos e que nada mais valiam por estarem fracos, doentes, ou revoltados e por isso produziam pouco e só estavam atrapalhando por isso deveriam ser descartados como foram.
Mereceram descansar para sempre.
Tal atitude deixou claro qual era o fim de todos.
Os antigos trabalhadores liderados por um deles que já idealizava uma revolta manda informar aos nordestinos, às escondidas, que a sobrevivência deles só poderia acontecer se voltassem ao sistema antigo de trabalho porque era impossível continuarem na situação atual.
Informou que já estava no local há mais de dois meses e não percebeu nenhuma forma possível de fuga.
Inevitavelmente morreriam de fome, de tiros ou comidos pelos cães.
Que no isolamento do alojamento com pessoal alimentado e descansado, poderiam idealizar algum plano de fuga.
A informação foi passada de um a um para reivindicarem a volta ao alojamento. Lá ficarem isolados dos guardas e formariam um grupo de decisão para arquitetar um plano de fuga de maneira ordenada e maciça.
A morte como sendo único e último pagamento foi motivo suficiente para que os nordestinos começassem a pensar na fuga coletiva conforme pregava tal homem, mas não confiavam no estranho que jamais conheceram.
Esse líder era um dos homens que já estava no local quando o pessoal do nordeste chegou e já tinha apoio de todos os demais que eram paraguaios.
Ele precisava conseguir a concordância dos nordestinos e para tal mandou um de seus companheiros fazer a aproximação com o líder daquele pessoal que lhe era desconhecido.
Quem fez o primeiro contato com os brasileiros foi o mais falante e com certeza o mais convincente.
Conseguiu entusiasmar um Piauiense alto e jovem, pouco mais que um menino, talvez com uns dezoito anos de idade, mas que tinha ascensão apenas a um pequeno grupo, mas por ele soube que era necessário incentivar um outro que teria poder de persuasão sobre todos.
Era um cearense chamado Tião que embora pouco falador seria o mais importante, pois em todas as ocasiões em que houve discordância com os patrões era ele quem tomava a frente. Embora não demonstrasse liderança seria ele quem uniria os nordestinos até porque neste mês de total sofrimento já estavam muito unidos e em condições de se revoltarem coletivamente bastando um plano razoável.
O rapaz procurou Sebastião que se prontificou a ouvir a proposta do estranho e após ouvi-la concordou de imediato.
Foi Sebastião, o rapaz alto com mais dois amigos de Sebastião que falando aos nordestinos conseguiram a anuência e união de todos.
Unânimes concordaram, pois sabiam que jamais sairiam vivos dali a não ser por fuga e para isso teriam que estar pelo menos alimentados para planejarem e executarem tal façanha por isso não fizeram nenhuma objeção.
Reuniu-se Sebastião, seus amigos, o estranho que trouxe a proposta e o outro desconhecido que tivera a idéia de tudo para conservarem com os encarregados em nome de todos.
Conseguiram propor tal sugestão que com certeza os vigilantes já esperavam e sem necessidade de maltratar ninguém e nem consultar os chefes concordaram com eles avisando-os que em virtude disso começariam novamente a fazer dívidas que depois teriam de ser acertadas.
Todos concordaram e passaram a dormir em um alojamento nesta mesma fazenda, com banhos, mictórios, roupas, refeições, repouso, ferramentas e trancafiados da mesma forma que na antiga fazenda de arroz.
Os vigilantes eram tão bem armados quanto os anteriores e os cães tão ferozes quanto os outros, mas a muralha de pedras que cercava o único alojamento ali existente era mais baixa. Não passava de quatro metros de altura o que foi de agrado dos prisioneiros, pois seria de fácil acesso na fuga.
Desde o primeiro dia no alojamento os lideres procuraram ficar próximos. Eram seis.
O mais importante deles e que começou tal movimento chama-se João Batista, carioca de nascimento, malandro dos morros do Rio de Janeiro, assaltante de banco, traficante de drogas, estuprador e assassino procurado pela polícia do Rio, por sua alta periculosidade.
Tinha se refugiado no Paraguai onde também cometeu vários delitos e como sua intenção era fugir também de lá, pois corria perigo de ser preso ou morto pela polícia ou por maridos traídos, pais revoltados ou traficantes rivais. Lá estava sendo mais caçado que no Brasil por isso se infiltrara entre os lavradores paraguaios e acabou vindo no comboio que os trazia de lá às fazendas do Brasil. Realmente conseguiu a fuga nessa viagem sem saber exatamente o que lhe esperava.
Seu companheiro o mais falante e bastante esperto que convencera Sebastião ao plano já iniciado era o Guará. O segundo lugar na hierarquia do grupo formado.
Esse era brasileiro nascido em uma tribo de índios de Goiás e veio na mesma caravana do Paraguai, apenas porque queria voltar a suas origens e não tendo dinheiro para a viagem infiltrou-se na mesma caravana.
Desde menino rodou mundo com os pais, irmãos e irmãs após abandonarem sua aldeia há muitos anos.
Tinha percorrido todo o Brasil e países da América do Sul vendendo raízes, ervas e chás milagrosos que lhes eram conhecidas até que estando só no Paraguai, onde não se deu bem, encontrou tal caravana que o traria de volta.  Sua intenção era de reencontrar a família que havia retornado à tribo de origem e aproveitou-se de tal chance e assim como João Batista veio sem suspeitar o que lhe aconteceria.
Eles não se conheciam, pois seus caminhos no Paraguai eram diferentes e só se falaram quando tomaram conhecimento que estavam presos em caminhões furgões logo que saíram de lá.
Nada puderam fazer para safarem-se, mas já armavam planos de fuga desde aquela época, sem poder contar com os pobres paraguaios que em sua maioria estava feliz pelas comidas que receberiam, pois em sua pobreza não as tinham e vieram satisfeitos com a viagem e assim permaneceram até dois meses atrás quanto ainda estavam na fazenda de arroz.
Só após estarem nessa plantação nus e sem comida que começaram também revoltar e unirem-se.
Aceitavam as sugestões, imposições e o comando de João Batista e Guará.
Os dois brasileiros apenas uma vez tentaram fugir, mas não conseguiram, porém estavam vivos e idealizando nova tentativa mais organizada e arrojada com grande possibilidade de êxito.
Espertos como eram eles burlavam a vigilância, sempre tirando proveito da ignorância dos infelizes paraguaios que estavam no local, usufruindo alguns privilégios no trabalho usando parte da produção deles para si pelo respeito adquirido, entretanto sem conseguirem um plano perfeito.
Sonhavam e idealizavam a fuga, mas nunca acharam a possibilidade real para tal intento a não ser agora com os brasileiros em número maior, mais arrojados e corajosos.
Em ordem de importância entre os lideres vinha em terceiro lugar Sebastião pelo seu domínio sobre os compatriotas, tão somente pelo seu ímpeto, pois vivência do mundo, esperteza ou malandragem não tinha nenhuma.
A seguir o piauiense alto que apresentou Sebastião ao Guará e que mantinha sob seu controle um pequeno grupo de nordestinos.
Só se sabe dele apenas que era bonito e afeminado não sabendo se sua liderança sobre o grupo era por este motivo ou por outros méritos, pois por ser muito jovem com certeza não teria muita experiência de vida, mas, independentemente disso era muito corajoso. Seu nome é Caetano.
Os outros dois são os que inflamaram o pessoal quando da decisão de Sebastião em trabalhar sem roupa, comida e et cetera por suas participações que impuseram aos nordestinos a atual condição que agora tinha mudado totalmente por motivos bem definidos e claros.
Foram eles quem mais se destacaram em levar as informações aos demais e convencê-los novamente de modificarem tudo, pois com certeza seria muito melhor voltarem a situação anterior.
Apenas sabe-se deles que são irmãos vindos de Santa Assunta do Norte com a mesma experiência de vida de Caetano e Sebastião, mas com certeza os mais corajosos de todos e seus nomes são Josué e Emerson.
Assim era composta a cúpula dos lideres que idealizariam a rebelião para acabar com a escravidão e tirania sem terem ainda a idéia definitiva de como proceder.
Para isso eles passariam todas as noites que fossem necessárias conversando entre si, contando um ao outro suas vivências e conhecimentos e cada um opinando seu plano ideal para a fuga, até arquitetarem o melhor.
Trancados no alojamento longe dos vigilantes os lideres conversavam muito.
João Batista o principal chefe falou de si e seu passado, claro que escondendo praticamente tudo, e fez uma proposta que não agradou a nenhum dos outros.
Sua idéia era de conseguirem as armas dos encarregados propondo um levante de todos os homens, excluindo-se eles próprios, que atacariam armados de foices, facões e enxadas usados na lavoura, pois sendo em número muito maior conseguiriam muitas baixas entre os vigilantes.
Eles que só presenciariam o levante, sorrateiramente, tomariam posse das armas dos vigilantes mortos para uso próprio em sua fuga relativamente tranquila enquanto os outros matavam e morriam.
Tal sugestão não foi aceita porque a idéia inicial e mais honesta seria a fuga de todos os trabalhadores mesmo que para isso morressem alguns, mas nunca a morte de quase todos para a escapada de poucos.
Sebastião falou sobre ele e sua viagem para São Paulo. Propôs caçarem vivas, ao invés de matarem as cobras venenosas, pois as atirando às escondidas elas poderiam fazer o trabalho de eliminar os cães assassinos como ele já havia feito com um em outra ocasião.
Tal sugestão foi aceita apenas por Caetano que propôs orientarem o pessoal para assim fazer, mas não apenas para matar os cães e sim para matar também os guardas. Os demais discordaram por ser uma forma muito lenta e pouco eficaz. Portanto essa idéia não também não foi aceita.
Os outros nordestinos que eram Caetano, Josué e Emerson contaram alguma coisa de suas vidas e da vinda deles que era com o mesmo desejo de Sebastião e nenhum apresentou idéia de fuga, pois nada imaginavam, mas concordariam e fariam tudo que fosse proposto pelos demais, desde que não fosse conforme a primeira sujestão.
Guará falou sobre si, suas experiências e conhecimentos com raízes e plantas nativas das quais a maioria só serviam para enganar incautos. Afirmou que algumas eram de grande valor de cura, outras alucinógenas e outras venenosas. 
Contou-lhes como foi parar no Paraguai e que estando de volta ao Mato Grosso estava próximo de sua tribo em Goiás.
Somente após ouvir Guará é que Sebastião tomou conhecimento que não estava perto de São Paulo e sim em pleno interior do Mato Grosso muito longe de onde imaginava estar.
O índio narrou muitas outras histórias inclusive como haviam sobrevivido ele e João Batista na única tentativa de fuga deles.
Em um ataque dos cães matou dois deles com as próprias mãos e depois se fingindo de mortos ficaram a salvo dos demais.
Eles não atacaram deixando-os totalmente livre de ferimentos, pois usaram em seus corpos outras ervas o que impediu o ataque das feras e de serem identificados pelos encarregados quando se misturaram aos demais trabalhadores já que tal tentativa de fuga tomara-se impossível.
Foi Sebastião com muito interesse quem perguntou:
Como pôde sê isso?
Eu conheço uma erva que ingerida causa sono de imediato e foi com ela que adormecemos os cães que matamos com as mãos após eles dormirem.
Tem uma outra planta muito mal cheirosa aos animais que esfregamos em todo nosso corpo quando fingimos de mortos impedindo-os de atacarem-nos, pois o cheiro é insuportável a eles que sequer aproximaram de nós e foram embora.
Intão vamo usá as ervas prá fazê a fuga. Onde têm elas?
Não tem mais nenhuma em condições de uso, mas onde eu achei no meio da plantação da maconha, pois se parecem tem uma plantação muito grande espalhada e plantada talvez por outro índio que aqui esteve anteriormente e já está quase na hora de colhê-las. Tanto as que provocam sono como as outras que repelem animais selvagens.
No meio das plantação di quê?
De maconha ou não sabe que o que estamos cultivando é maconha.
Num sei não e nem conheço tal erva a não sê de ouví falá.
Pois aqui nestas fazendas no interior de Mato Grosso só se plantam maconha e refinam cocaína que vem da Bolívia através do Paraguai. Estamos escravizados até a morte por uma grande quadrilha de plantadores, traficantes de drogas e de mulheres.
Nunca pensei nisto não, mais sempre achei estranho num vê as mulhié moças.
Por que você acha que eles separam as mulheres novas e bonitas quando chegam nas caravanas?
Num seio não.
Pois é. E para usarem elas a vontade e depois venderem-nas para os prostíbulos da Europa que de lá raramente voltam, e quando voltam já acostumadas continuam na mesma vida sem reclamar para ninguém.
Quanta maldade. Eu já achava muita covardia o que eles faiz com a gente, e nem imaginava todo o mal que ainda faiz, com as mulhié e com muito mais pessoas.
São homens poderosos e da pior espécie. Não só os encarregados, mas principalmente os chefes e os donos das fazendas que a gente nem imagina quem sejam.
Como nois vamo planejá a fuga e acabá com toda essa maldade?
Vamos dormir agora, pois já estamos conversando faz tempo e amanhã quando estivermos novamente no alojamento conversaremos mais, pois já é tarde da noite e se não descansarmos não conseguiremos trabalhar e isso poderá ser fatal.
Todos concordaram com a decisão de João Batista que propôs continuarem a conversa no outro dia e calaram-se, com exceção dele próprio que ainda falou mais um pouco com os irmãos Emerson e Josué. Ninguém soube do que se tratava porque eles estavam muito próximos entre si falando baixo e também porque a ordem era respeitar os lideres em sua hierarquia.
João Batista falaria com quem quisesse a hora que desejasse e assim fazia todas as noites conquistando definitivamente os irmãos nordestinos e nenhum dos lideres nem mesmo Sebastião amigo dos irmãos jamais questionou ou perguntou qual era a conversa entre os irmãos e o líder já que nenhum deles falou sobre tais conversas.
Na reunião seguinte João Batista falou que aqueles homens mortos a tiros duas semanas antes eram bem mais antigos que os nordestinos e os paraguaios e que em conversa com alguns deles descobriu muitas coisas importantes que todos deveriam saber.
Contou-lhes que os assassinados eram provenientes de um antigo comboio de trabalhadores escravos, cujos companheiros já tinham sido mortos por doenças, fraquezas ou tiros. Que eles eram sempre transferidos do cultivo de arroz para o de maconha e vice versa por interesse dos encarregados e que os mortos tinham descoberto muitas coisas que lhe contou.
Tal informação que lhe foi passada seria de grande valor para eles.
Explicou que na plantação de arroz a muralha que cerca os alojamentos era bem mais alta. Guardada por cães ferozes pelo lado de fora e pelos próprios vigilantes que lá dormiam na casa grande, prostituindo e fazendo toda espécie de libertinagem com as moças virgens cativas.
Que quando chegavam outras novas e virgens vendiam as mais antigas para o tráfego de escravas para o exterior.
Informou-os que no lugar que estavam na plantação de maconha, durante a noite não ficava nenhum vigilante, pois caso a federal descobrisse a plantação eles jamais seriam pegos.
Entretanto a quantidade de cães era muito maior que lá e eles eram soltos dentro da muralha e ficavam sempre próximos da única porta de saída do alojamento por isso os muros não precisavam ser tão altos e que também muitos outros cães ficavam do lado de fora dos muros.
A impossibilidade dos prisioneiros fugirem, pois a porta era de ferro encravado nas pedras da construção com enormes trancas pelo lado de fora rodeado por animais ferozes, dava segurança aos guardas que não faziam a vigilância naquele local para usufruírem das farras e descanso na casa da fazenda de arroz.
João Batista conhecia esse procedimento deles que imaginavam que os prisioneiros nada tentassem nas noites silenciosas por medo de serem devidamente punidos por eles.
Tal informação foi de grande valia aos demais lideres que gritaram bem alto acordando todo o pessoal que foi convidado a também participarem da grande algazarra que aconteceu naquela noite.
Tal baderna serviu para certificarem da veracidade da informação, pois realmente nada aconteceu em represália a não ser os latidos ferozes e os ataques dos cães na parede pelo lado de fora.
Foi proposto por Caetano fazerem fogueiras dentro do alojamento para que todos participassem dos planos, mas não foi aceita a sugestão porque muitos palpites seriam dados sem proveito e perderiam muito tempo em planejamentos inadequados e ninguém dormiria satisfatoriamente, por conseguinte não trabalhariam conforme deveriam fazer.
Para não levantar suspeita e para não serem mortos por falta de trabalho todos os outros deveriam estar descansados e somente eles sacrificariam parte de suas noites que mesmo cansados no trabalho seriam apenas seis dentre os mais de duzentos homens e passariam despercebidos até porque os demais sabedores do plano facilitavam a produção para eles conforme já faziam.
Acalmaram o pessoal que cientes de suas obrigações para com os lideres fizeram silencio e voltaram ao sono, pois tudo tinha de ser bem pensado e resolvido a contento. Era a única maneira de dar certo.
Mais duas noites foram usadas para concluírem a forma de como fugiriam e na noite que tudo estava resolvido pensado e repensado, os chefes acordaram e informaram todo o grupo de homens exatamente como tudo seria feito, pois todos participariam.
Demoraria mais alguns dias, pois teria de ser executado muito devagar para não levantar nenhuma suspeita.
A possibilidade de salvarem os prisioneiros da fazenda de arroz era zero e eles tinham que se conformar com isso mesmo que lá tivessem mulheres e filhas, mas ao conseguirem o sucesso em sua fuga delatariam tal fazenda e trariam a polícia federal para salvar os demais.
Por enquanto nada podiam fazer por eles e todos teriam de concordar para o sucesso da libertação deles que a partir do dia seguinte seria o inicio aos procedimentos e que demoraria apenas mais alguns dias.
Todos concordaram em assim proceder.
O plano constituía em roubarem da casa de ferramentas onde guardavam e afiavam as foices e enxadas que sempre eram trancadas antes de virem para dentro da amurada apenas duas grosas, duas limas, e meia dúzia de serras. Nada mais que isso seria necessário.
Como já era costume sempre quebravam tais ferramentas de propósito, fato que os encarregados jamais incomodaram substituindo-as por outras novas, pois tudo era cobrado em dobro nos acertos de contas.
Não deveriam mais danificá-las e sim pegarem peças inteiras e novas, pois os vigilantes não desconfiariam porque já era hábito sumirem várias delas por dia quando inutilizadas e jogadas fora.
As ferramentas seriam trazidas uma a uma escondidas nas roupas pelos irmãos, Josué e Emerson.
Tal decisão de que eram eles que deveriam trazer as ferramentas partiu de ordem de João Batista que não foi questionada até porque eram tais irmãos os mais corajosos para a façanha que era muito perigosa e porque eles próprios concordavam com a tarefa.
Todos os demais deveriam trazer as ervas que provocam sono, a outra mal cheirosa e pequenos pedaços de ramos, capins secos, e cipós, tudo em pequenas quantidades escondidas nas roupas.
Guará mostraria a eles onde estava a plantação de tais ervas para que as colhessem.
Todo excremento humano seria retirado de uma privada e transferido para a outra deixando uma exclusivamente para receber o material que trariam.
Fariam suas necessidades no serviço, nas próprias roupas quando trabalhando, para evitar o uso da latrina que ficou lotada de fezes.
Com certeza tal local seria o mais seguro esconderijo porque em suas saídas para o trabalho os vigilantes se fiscalizassem o alojamento nada procuraria lá, pois sabiam que só encontrariam fezes mal cheirosas.
Coelhos, ratos, sapos, rãs, aves e cobras mortas e salgadas assim como parte de seus próprios alimentos também fariam parte dos guardados no mesmo local para serem usados no momento necessário.
Toda essa carne seria esfregada nos corpos suados de todos os homens para impregnar nelas o cheiro humano.
Os animais silvestres guardados seriam internamente cheios da erva sonífera que os cães comeriam vorazmente pela sua própria necessidade de alimentação, pois propositadamente eram mal alimentados para serem mantidos famintos e altamente ferozes.
Sentiriam comendo carne humana a qual já eram acostumados e sedentos que eram por ela ingeririam também as ervas soníferas.
Os fugitivos não levariam provisões para si próprios, pois naqueles matos do Mato Grosso a caça era abundante e fácil.
A dificuldade maior era com as ervas, pois ficavam longe e a colheita e o transporte deveriam ser feito muito lentamente revesando-se entre muitos por vários dias.
Primeiro foi Guará se infiltrando na plantação e mesmo sendo visto pelos vigilantes que o imaginando procurar algum lugar afastado para evacuar não se importaram.
Sua volta deveria ser bastante rápida após de fato defecar na própria roupa para o mau cheiro dos excrementos impedir o cheiro das ervas exalarem.
Deixou sua ferramenta no local para marcar as plantas para o próximo encontrá-las.
Depois de algum tempo foi Caetano pelo mesmo caminho aparentando a mesma intenção para ele aprender o local e trazer mais um pouco da erva e trazer de volta a ferramenta.
No outro dia ele iria primeiro procedendo da mesma maneira que Guará e seguido por outro e assim por diante para não chamar a atenção.
Tudo estava acontecendo conforme o previsto sem nenhum problema.
Quando já tinham uma boa quantidade das ervas, ramos secos e cipós procurou-se entre eles quem soubesse amarrá-los e transformá-los em cordas.
Assim foi sendo confeccionada durante parte das noites grande quantidade de cordas, muito rapidamente, pois quase todos sabiam como fazer.
Tudo era guardado nas fossas antes do amanhecer e da chegada dos vigilantes.
Guará auxiliado por outros homens conseguiu subir até uma das janelas de grade encravada no alto da parede de pedras, amarrado a uma corda e com as serras, limas e grosas começou serrar as barras.
Era um trabalho muito difícil, pois ficava pendurado na corda segurando com uma das mãos e serrando com a outra.
Nesse trabalho alguns homens ficaram grande parte da noite, em revezamento, sem a mínima preocupação, pois somente os cães, além deles, presenciavam tal cena.
As feras não podiam impedir, pois estavam a quatro metros abaixo do lado de fora do alojamento.
Saltavam sem chegarem a altura da janela e arranhavam e mordiam o grosso muro de pedra que nem ficava marcado por ser muito duro.
A fuga não poderia de forma alguma falhar, pois eles aos poucos serrariam as barras e após o buraco aberto jogariam pedaços de carne cheios de ervas aos cães que ficavam no lado de dentro do muro.
Trabalho que seria fácil porque fariam bastante barulho no local, para atraí-los e após os animais adormecerem um a um os homens escapariam, pela mesma abertura para o chão do outro lado do alojamento tendo somente os muros e outros cães para a total liberdade.
Após isso alguns deles ajudados por outros subiriam ao alto dos muros e alimentariam os cães do lado de fora que fatalmente também dormiriam.
Saltariam para o outro lado amarrando as compridas cordas que jogavam de volta facilitando o acesso ao alto do muro e a descida de todos para o outro lado.
O último passo era só correr e fugir o mais rápido possível do local embrenhando na mata para desaparecer para sempre em um único grupo para ajudarem-se uns aos outros.
Todos esfregariam em seus corpos a outra erva que era repugnante aos animais, pois esses ao acordarem não os encontrariam pelo faro e até os evitariam pelo cheiro que lhes era ruim.
Entretanto deveriam levar consigo tais plantas e as outras também para qualquer emergência no decorrer da debandada.
A fuga seria logo no inicio da noite depois que todas as cordas estiverem feitas e as barras da janela quase inteiramente serradas faltando apenas alguns milímetros para serem mantidas no local, mas facilmente quebradas com pequeno esforço, na hora exata.
Como o trabalho com os cães seria rápido eles teriam toda a noite para sumirem para muito longe dali colocando grande distancia dos perseguidores que só descobririam seus desaparecimentos no amanhecer.
Nada podia dar errado e cientes disso trabalhavam nos seus afazeres a noite e durante o dia nas lavouras dos fazendeiros de maconha, até com maior disposição quanto mais próximo chegava o dia.
Prestes a completarem suas atividades para a fuga que não demoraria mais de dois ou três dias todos os homens foram surpreendidos pelos tiros dos vigilantes, num final de tarde, e foram informados pelos próprios atiradores no alojamento que dois deles estavam armados com foices roubadas no depósito com o propósito de fugirem, por isso foram mortos.
Que ninguém mais tentasse, pois teria o mesmo fim.
Descobriram que tais homens eram os irmãos Josué e Emerson, pois desapareceram totalmente de suas companhias naquela noite e nas outras que se seguiram.
Ninguém entendeu nada a atitude tresloucada dos irmãos que tinham certeza da fuga em massa porque participaram ativamente e eram lideres do movimento, mas tal incidente não diminuiu o ânimo dos outros, pois ninguém mais faria tal besteira.
João Batista pela amizade conquistada dos dois irmãos já há algum tempo induziu-os a trazerem as armas, alegando que elas seriam muito importantes na fuga mesmo sabendo da impossibilidade delas serem escondidas entre as roupas deles. 
Entretanto sua idéia, que nunca ninguém soube, era para acontecer exatamente o fim que teve.
Tinha a preocupação de que os vigilantes desconfiassem de algum movimento devido à boa vontade que todos demonstravam no trabalho escravo sem reclamar e sem tentar fugir. Tal fato era pouco comum acontecer e estava acontecendo ultimamente.
Se ele não fizesse os ingênuos irmãos encenarem, sem saber, tal fuga solitária poderia deixar os guardas atentos e desconfiados.
Assim como João Batista previu, os vigilantes não descobririam nada do que estava por vir e continuaram deixando-os à vontade para completarem o plano que já estava no final e com toda a chance de sucesso.
Essa traição de João Batista nunca foi descoberta, mas os demais líderes desconfiavam que ele tivesse alguma culpa porque sempre conversava com os irmãos às escondidas, mas nada fizeram por falta de certeza e provas de que ele fizera alguma coisa.
Ficou sendo considerado simplesmente como um gesto de loucura dos irmãos.
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A FUGA
Finalmente chegou verdadeiro dia da liberdade.
Fizeram tudo conforme planejado acontecendo o previsto e antes das vinte e duas horas todos os homens estavam do lado de fora do alojamento, comandados pelos lideres, sem terem necessidade sequer de matar os animais que dormiam a sono solto e nenhum deles ficara ferido por mordidas dos cães ou por acidentes.
Estava sendo a noite mais feliz da vida deles, pois deixavam a morte de lado para a salvação e liberdade e nada pagava por essa graça.
Passado mais alguns minutos os cães restantes do lado de fora dos muros também já dormiam e finalmente Guará os guiaria pelas matas do Mato Grosso para definitivamente desaparecerem sem rastros daquela fazenda prisão de escravos.
Juntos delatariam e conduziriam a polícia federal ao local para salvarem os outros e acabar com a prática escravagista daquelas fazendas punindo seus responsáveis.
Esse foi o plano que até agora cumprido a risca os libertaram, mas infelizmente dali para frente aconteceu o imprevisto.
Após o acesso ao lado de fora os lideres não conseguiram acalmar os descontrolados fugitivos que corriam para todos os lados, sós ou em pequenos grupos procurando o mais rápido possível e a esmo desaparecerem daquele local sem se organizarem conforme combinado.
Estavam juntos apenas João Batista, Guará, Sebastião e Caetano que idealizadores e comandantes que eram foram os últimos a saírem das muralhas para porem em prática a última e mais fácil das etapas para a salvação que era serem guiados pelo índio Guará através das matas.
A noite seguiu e ao invés de estar sendo a noite mais maravilhosa para os fugitivos repentinamente transformou-se rapidamente na noite dos desesperados.
Alguns fugitivos correram desorientados e desorganizados em direção a plantação de arroz e foram atacados pelos cães soltos nesta fazenda que os mataram a mordidas.  Tal barulho acordou os vigilantes que rapidamente em jipes e a cavalo começaram a caça aos fugitivos após certificarem-se que todos haviam desaparecido da fazenda de maconha.
Os cães daquele local recuperados do efeito das drogas anexaram-se aos outros animais e aos guardas para o massacre total aos desamparados escravos que eram mortos a tiros ou pelas feras e até por jacarés e piranhas quando se aventuravam nas águas dos rios do pantanal mato-grossense.
Os quatro lideres que sabiam por onde andar guiados pelo índio não conseguiam muita distancia na fuga mesmo correndo de maneira ordeira e sentindo a morte chegando muito próxima através dos cães foram deixando estrategicamente provisões de carnes infestadas com ervas soníferas ao longo do caminho.
Ao mesmo tempo impregnavam seus corpos com a outra que mudaria seus cheiros por odores repugnantes aos animais.
Mas com toda essa artimanha ainda continuavam ouvindo tiros e latidos de cães ainda muito próximos, mas não tinham outra saída a não ser continuarem a fuga mesmo cientes que morreriam, pois suas capturas era questão de pouco tempo.
Toda a sabedoria do índio em andar por matas desconhecidas era ineficiente em despistar os vigilantes conhecedores do local e os animais com o faro que tinham.
Os animais certamente não mais comiam as carnes impregnadas de drogas para dormir impedidos e impulsionados pelos vigilantes em continuarem as buscas.
Parecia que tudo estava terminado para eles independente do odor das ervas repulsivas aos cães para não os farejavam corretamente, mas aproximavam-se rapidamente guiados pelos guardas.
Pela pouca quantidade de tiros e o grande furor dos animais cada vez mais próximos no decorrer da madrugada, era certo que todos os outros companheiros já estivessem mortos e que eram somente eles os únicos a serem caçados e sem nenhuma esperança de salvação seriam assassinados cruelmente como os demais.
A decisão final que lhes daria a morte quase iminente ou a vida partiu do conhecedor de homens e não do conhecedor das matas, das raízes, das ervas milagrosas e dos cães.
Foi independentemente de ser o principal líder que João Batista propôs uma mudança radical nos planos discutindo aos gritos e quase a vias de fato com Guará insistindo:
Temos que enganar os homens e não mais os animais, pois enganar pessoas é mais fácil que tapear animais.
São os cães que farejam nossos rastros e não os homens.
São eles que mandam e dominam os animais forçando-os a nos encontrar.
Os homens não sentem cheiro e nem a repugna aos maus cheiros.
Exatamente por isso que são eles que continuam nos procurando com ou sem cheiro. Os cavalos e cães só os seguem por serem comandados.
Insisto que são os animais que nos perseguem e deles é que devemos fugir.
Guará deixa de besteira. Você soube fazer tudo que conhecia e fez bem feito dando resultado na fuga, mas a maioria dos idiotas foi para o arrozal e trouxeram os homens em nosso encalço e aí a coisa mudou e estamos próximos da morte igual a eles.
Como assim?
Alguém duvida que só nós estejamos vivos e que vamos morrer muito em breve?
Sebastião e Caetano não duvidavam dessa infeliz certeza e não falaram nada. Apenas concordaram com um movimento da cabeça que era certo que só eles estavam vivos e continuaram calados.
Ouviam o que discutiam João Batista e Guará, pois eles nada tinham como proposta de solução e só lhes restava sujeitarem-se ao que fosse decidido por um ou por outro muito mais experientes e sábios que eles.
Nada mais esperavam além da morte e qualquer coisa melhor que isso era um milagroso lucro.
A discussão continuou entre os dois com Guará perguntando ao João Batista qual seria a proposta dele para safarem-se e ouvindo atentamente sem acreditar que daria certo, mas com a concordância dos outros dois que decidiram opinar, também aceitou e assim procederam.
João Batista propôs que desfizessem das roupas e atirassem-nas no rio que estava próximo junto com todas as carnes que ainda lhes restavam, pois as piranhas iriam devorá-las porque esse era o procedimento de tais cardumes de peixes.
Eles continuariam a fuga pelo outro lado do rio porque seria fácil atravessá-lo longe dos peixes carnívoros que não os molestariam por terem alimentos suficientes em seu banquete já enviados por eles.
Os vigilantes chegando e vendo a festança no rio imaginariam que todos estivessem mortos, pois as roupas boiando e os peixes alimentando-se de carne lhes passariam essa certeza.
Eles abandonariam as buscas até porque não entrariam no rio infestado de piranhas assim como também os animais que por instinto não aventurariam a tal façanha. Enquanto isso eles fugiriam tranquilos pelo outro lado, livres de qualquer perseguição.
Fizeram o combinado e á medida que se afastavam muito pouco do ladrar dos cães era ouvido até que definitivamente nada mais escutaram.
Continuaram sua fuga sem nenhum descanso até que algumas horas depois cientes que estavam a salvo e muito longe da fazenda e dos perseguidores pararam sob uma árvore para descansarem mesmo sabendo que o dia estava nascendo, pois os raios do sol já se faziam vistos no horizonte.
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OUTRA VEZ NA ROÇA DE AFONSO
O sol iluminou de vez mais esse dia e já acordados conversavam tristemente Josefa e Afonso.
Eu já to viúva de Tião. Fais mais de cinco meis que ele foi simbora, e nunca deu notícia. Eu acho qui ele morreu.
Eu tamém acho isso Zefa. Já tem tempo de tê ido pra São Paulo, voltado, tornado ir e voltado e tornado e retornado muntias veis.
Tu tava certo em dizê qui ninguém volta das tais viagem e Tião nunca acreditô.
Todas veis qui vô a São Pedro procurá notícia nada acho de carta, nem dele, nem do desgraçado do Ângelo e da miséria da minha filia que também já considero morta.
O minino meu filio vai nascê meis que vem e num sei o nome que Tião qué e num tenho o nome prá bota nele ou nela si fô minína.
Só peço a Deus qui mande meu Tião de volta ou si ele morreu qui leve a alma dele pro céu junto dele e de Jesus, seu filio.
Num sonha mais as coisa que vão acontecê? Eu sei disso porque ocê falô prá Quiteria qui contou prá mim.
Nunca mais sonho nada com Tião nem com ninguem.
Qui Deus tenha as almas do Tião e dos míninos desavergonhado qui fugiram se é qui morreram tamém e se tão vivo que ajude todos eles entrá nos bom caminho.
Repentinamente chegou ao sítio Pedro que deixou toda família de Afonso feliz por imaginarem que o rapaz trazia as notícias tão esperadas.
Tal visita não trouxe nenhuma novidade de Tião, Ângelo ou Mercedes, mas uma agradável surpresa para todos.
Contou-lhes que sua esposa estava grávida e viera convidar Afonso e Maria Quitéria para padrinhos do bebê.
Maria Quitéria ficou muito satisfeita com tal honraria.
Agradeceu-o e comentou que ainda poderiam ficar mais unidos se seu desejo realizasse.
Que era ver Mercedes e Ângelo casados. Coisa que ainda alimentava esperanças.
Pedro que não queria nem ouvir falar de ambos tentou desestimular tais pensamentos de Maria Quitéria dizendo ser impossível aqueles dois tornarem-se decentes e pediu-lhe que não se referisse mais ao irmão que provocou tantos transtornos à família, inclusive como era do conhecimento de todos o falecimento da própria mãe.
Por desgosto definhara-se rapidamente até a morte após seu golpe à família, suas atitudes cafajestes e seu desaparecimento.
Despediu-se e foi acompanhado por Maria Quitéria que lhe pediu desculpas para falar no assunto que ele não gostava, mas ela estava com muitas saudades da filha mesmo sabendo que ela era uma perdida.
Queria sua ajuda em descobrir o paradeiro dela para pelo menos saber notícias e obteve como resposta que Mercedes se estivesse com Ângelo ou não que voltasse por conta própria porque nem ele e nem o seu pai gostariam de vê-los jamais.
Não moveriam uma palha para encontrá-los a não ser que fosse para puni-los como mereciam, mas preferiam evitar tal punição porque só matando-os vingariam tais ofensas e dissabores causados.
Correram boatos que Sr. Antonio para se refazer dos prejuízos causados por Ângelo vendeu algumas terras que tinha e depois de cobertas as dívidas ainda teve dinheiro suficiente para contratar alguns jagunços para dar fim nele no interior da Bahia vingando-se da vergonha e viuvez ocasionada pelo filho, mas nunca se soube se alguém o encontrou.
Toda essa ocorrência fez os irmãos Severino e Zezinho sofrerem muito vendo os pais e a família de Sr. Antonio chorarem de tristeza e mágoa pelo roubo e desaparecimento de Ângelo e Mercedes que serviu para refrear-lhes os ímpetos, provocando-lhes uma repentina recuperação na conduta.
Pararam de tentar aliciar Maria das Dores.
Nesses últimos meses tinham para com a irmã, com os pais, com a tia Josefa, e com o Tiãozinho, um carinho exagerado muito maior do que sempre lhes dedicaram.
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A FUGA DESESPERADA CONTINUA
O sol já estava alto quando os fugitivos finalmente acordaram felizes por verem-se sãos e salvos e continuaram sua fuga.
Comeram caça mesmo crua que conseguiram matando animais silvestres, mal limpos com um pedaço de serra que Caetano ainda conservara entre suas poucas vestes que era apenas um pedaço de pano cobrindo-lhe parte do corpo.
A seu exemplo Sebastião e João Batista mantinha as genitálias cobertas por trapos e somente o índio Guará permaneceu totalmente nu desde que abandonaram as roupas no rio.
Alguns dias após, cansados, mal alimentados e próximos à exaustão, avistaram uma cabana e encaminharam-se para lá.
Vendo-a sem ninguém, a não ser um velho cachorro dócil e sem nenhum poder de guarda saquearam tudo que encontraram.
Alimentaram-se da comida que acharam, roubaram roupas, facas, facões e punhais e partiram rapidamente para não serem procurados e encontrados por tal falcatrua.
Outros dois dias passaram-se e eles plenamente convictos da salvação deram-se ao luxo de descansarem a noite inteira dormindo e refazendo-se dos desgastes dos dias ensolarados que fugiam a passos largos.
Foi na segunda noite que dormiam despreocupados que Sebastião e Guará acordaram na madrugada com uivos de ódio, pavor e desespero e correndo para o local dos gritos viram João Batista com o pescoço cortado a facão bem afiado esvaindo em sangue.
O líder e dito conhecedor do caráter humano, que já matara, estuprara, traficara drogas, corrompera mulheres casadas, menores virgens, assaltara bancos, contrabandeara bebidas, drogas e armas sucumbiu degolado. 
Ele que fora o mentor intelectual do plano de fuga da fazenda, mesmo usando de vis artimanhas quando provocou a morte de dois companheiros para despistar os vigilantes e que mais recentemente usara da inteligência para pôr em prática a definitiva fuga deles acabava de morrer. 
Quem o assassinara foi Caetano o jovem nordestino que era apenas um recém saído da adolescência, até então sem nenhuma maldade a não ser o grande ódio que se instalara em seu coração nesses últimos meses e que culminou com o crime sem a mínima piedade, enquanto o outro dormia.
Sebastião e o índio não entenderam nada do acontecido.
Guará tentou socorrer o moribundo com ervas e preces, mas sem êxito.
João Batista estava morto com a cabeça quase separada do resto do corpo presa apenas por alguns nervos ainda interligados.
Souberam por Caetano que ele sempre tentou seduzi-lo sexualmente em seus desejos pervertidos desde o tempo em que estavam na fazenda.
Seu desejo de matá-lo já existia desde aquela época, mas só decidira agora porque tinha o facão bem afiado roubado na cabana e que não estava arrependido e que faria novamente com qualquer outro que o aborrecesse por qualquer motivo, pois tinha sentido um grande prazer em matar. Tal atitude assustou os outros dois.
O índio após aproveitar as roupas do morto, fez-lhe o enterro e propôs separarem-se, pois embora tenha feito muitas trapaças e tramóias na vida jamais praticara, participara ou presenciara um assassinato tão cruel entre amigos e isso além de revoltá-lo também o assustou e preferiria estar só que na presença de Caetano.
Sebastião também amedrontado com o rapaz preferia sua ausência, pois nunca cometera nenhum ato errado de tamanha gravidade. Jamais praticara ou praticaria um crime de morte, mas achava que não sairia do pantanal sem a ajuda do índio e por isso não concordou com a separação.
Foi o próprio Caetano com o mesmo medo e temeroso em ser abandonado por Guará quem propôs desfazerem-se das armas.
Nenhum deles causaria problema à outro e continuariam juntos desarmados, com exceção do índio, que teria direito a arma que quisesse para caçar.
Guará optou por flechas que fariam com as facas e depois as jogariam em um rio fundo e só assim continuariam juntos.
Fizeram várias flechas de madeira e um arco para atirá-las que ficou em poder do índio Guará sem nenhuma arma branca em poder deles e assim caminharam por vários dias sem nada de errado acontecer.
Muitos outros dias depois avistaram ao longe uma fazenda com muitas casas e currais para gado e muitos animais pastando e homens trabalhando longe nas lavouras e pastos.
Nas proximidades dessa fazenda e a presença de homens e animais a caça de pequenos animais silvestres tinha tornado escassa e eles precisavam alimentar.
Encaminharam-se para lá e foram direto à maior casa que deveria ser a sede da fazenda para procurar comida e emprego e encontraram-na desocupada, mas não abandonada, pois havia vestígios de ser habitada.
Novamente a idéia deles em tal situação era roubar e já dentro da casa comendo os alimentos encontrados foram surpreendidos por um velho armado de espingarda ao qual se desculparam pela invasão alegando tal procedimento por estarem famintos.
O velho estava sozinho na fazenda, pois seus empregados estavam longe nas lavouras e seus filhos viajando trazendo uma boiada comprada bem distante dali.
Mesmo assim sentiu-se superior por portar uma arma apontada aos ladrões desarmados.
Resolveu tirar proveito da situação exigindo dos maltrapilhos em troca da alimentação roubada seu trabalho até o regresso dos filhos.
Os três amigos temerosos em aceitar a proposta pela terrível experiência que tiveram não concordavam, mas estavam sob a mira de uma espingarda além das garruchas na cintura do fazendeiro e dos cães ferozes que estavam presos num canil próximo e que depois de soltos seriam tão bravos quanto os que já conheceram.
Se ficassem trabalhando até o retorno dos filhos do fazendeiro teria mais gente impedindo-lhes a partida e em seus pensamentos, escravizados não seriam mais.
Tinham que evadir-se de lá enquanto estavam sob a ameaça apenas do velho.
Comunicaram-se apenas com o olhar e Guará com pequenos gestos do rosto incutiu-lhes a idéia de saírem correndo, pois o velho com sua espingarda de dois canos poderia errar os tiros ou na pior das hipóteses acertar apenas um deles.
Os outros fugiriam embora ainda fossem ter os cães aos seus calcanhares, mas não tinham outra opção.
A um quase imperceptível gesto do índio ele e Sebastião precipitaram para a porta ao mesmo tempo em que ouviram um único disparo.
Gritos rápidos e depois silencio total dentro da casa.
Já fora da casa correndo para o mato perceberam que nem Caetano nem o velho e nem os cães aproximavam-se deles por isso resolveram parar e retornar para saber o que ocorrera. Encontraram ambos mortos dentro da casa.
Caetano com um tiro no peito jazia caído sobre o velho com um enorme corte no pescoço causado por um facão bem afiado.
Assim descobriram que Caetano escondera-o por todos aqueles dias após propor desfazerem-se de suas armas.
Mais mortes e apenas os dois continuavam vivos e livres e tão desesperados quando de sua partida da fazenda de maconha.
Outros dias se passaram na fuga e chegaram a um lugarejo onde conseguiram algum alimento roupas e descanso, por caridade dos moradores, pois trabalho não existia.
Viram uma boiada que vinha ao longe indo em direção de onde vieram.
Pelas informações dos moradores tratava-se de boiadeiros que iriam para a única fazenda na região exatamente onde deixaram mortos seu companheiro de fuga e o fazendeiro, por isso tinham de sumir o mais rápido possível daquela região.
Tinham de continuar urgente sua fuga, pois, mais gente estaria em suas capturas e assim o fizeram sem descanso e quase sem nenhuma esperança.
Muitos outros dias e noites mal dormidas passaram-se até que finalmente Guará falou:
Tião. Estou conhecendo esta região. Ainda é Mato Grosso, mas já na divisa com Goiás e para eu ir para meu povo devo seguir ao norte e você se quiser ir para São Paulo tem de ir para o sul.
Como vou andá no mato sem sabê nada?
Alguns quilômetros a frente encontrará a estrada que vai do Mato Grosso para São Paulo e é só arrumar carona em caminhões, mas se quiser vir comigo para Goiás será bem vindo na casa de meus pais.
Eu sou sapateiro. Ensino-lhe a profissão e depois quando tiver condições mais favoráveis você viaja para São Paulo.
Muntio brigado, mas eu vô direto prá São Paulo sem profissão nenhuma mesmo.
Continue por essa trilha de carroças que mais uns trinta quilômetros daqui vai encontrar o asfalto para lá.
Qui que é asfalto?
E uma estrada larga de cor preta cortando o mato, onde passam os carros, ônibus e caminhões com destino a São Paulo.
É pra lá qui vô.
Em sentido leste na estrada você vai para Brasília que não fica longe e é tão bom, ou melhor que São Paulo. Porque não vai para lá?
Só quero é São Paulo qui sempre soube que é o “Paraizo”.
Então boa viagem.
Prá ti tamém índio Guará e já qui nois si separa aqui qui Deus ti acompanha.
Meu nome é Guará, mas fui registrado na reserva indígena de Aragarças, próximo daqui, como José Guará Goiano.
Eu sô Tião, mais fui registrado Sebastião Pereira da Silva na cidade de São Pedro, no finzinho do Ceará, perto das divisa com o Piauí.
Você é do nordeste e nunca conheceu nada por aqui no centro e no sudeste do país?
Nunca saí de lá da vila que morava a não ser meninu quandu fui inté a cidade de São Pedro qui é la perto mesmo, prá estudá o grupo escolar.
Então está louco em querer ir para São Paulo. Você não vai conseguir nada lá.
Eu tenho de conseguí nem que para isso demore toda minha vida.
Que lhe adiantará demorar toda sua vida para conseguir alguma coisa?
Num sei. Hei de consegui muinta coisa qui preste, mesmo qui seje prá meus filios ou netos, mais tenho de procurá, inté encontrá. Si eu vê pelos menus um filio meu formado doto, eu já tarei muntio sastisfeito.
Nem qui fô pra morrê em seguida que morrerei o home mais feliz do mundo, pois esse filio dará continuamento das coisas boas para a familha Pereira da Silva para todo o sempre.
Então preste muita atenção no que vou falar-lhe. Eu já rodei mundo. Já vivi por uns tempos em São Paulo, mas lá é muito grande e tudo muito difícil. Lá só vencem os mais estudados e esclarecidos ou os mais espertos que conseguem enganar e trapacear os outros. Nada disso você é e está destinado a ser mais um dos sofredores que no máximo transformará em simples ladrão barato, cafetão de puta pobre, ou assassino, com um breve final de vida. Eu acho que não deveria ir para lá.
Eu vô de qualqué jeito e hei de vencê, sem sê por ruidade. Vô vencê na vida só nos trabalios honesto.
Tem boas cidades bem mais próximas daqui. Além de Brasília que é a capital do país tem Goiânia, outras no Triângulo Mineiro e no interior de São Paulo porisso ainda insisto que você deveria vir comigo para Aragarças e depois pensar em ir para lugares grandes. Eu até vou com você daqui mais algum tempo para qualquer lugar bom de se morar e trabalhar para tentarmos sucesso na vida.
Num dianta não. Si já to perto das estrada qui vai direto prá São Paulo, é prá lá qui vô e o mais depressa possível.
Então boa sorte.
Agradecido por tudo e boa sorte prá ti tamém e qui Deus te leve prá teus pais e a mim prá São Paulo.
Um abano de mão e eles seguem seus caminhos determinados e opostos.
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A PROCURA DA ESTRADA PARA O “PARAIZO”
Guará parte à procura de seu lugar em Aragarças em Goiás e Sebastião a procura de tudo ou de nada, sem direção e destino ignorado apenas sonhando com o seu “Paraizo” ruma para a estrada. A obsessão dele era tamanha que nada o impediria de ir para São Paulo.
Tudo que tinha passado era motivo mais que suficiente para a grande maioria das pessoas desistirem, porém ele poderia ter sofrido muito mais que não desanimaria de tal intento, principalmente agora que já estava em condições de conseguir.
Estava tão longe de seus perseguidores e também da família há tantos meses sem a mínima possibilidade de voltar por isso sua única condição era continuar e chegar em São Paulo seu “Paraizo”.
Assim que lá chegasse mandaria noticias, porém os detalhes da ida até Santa Assunta do Norte já há muito tinha esquecido para escrevê-los integralmente, mas os da época de sua escravidão e fuga estavam bastante claros em sua memória para contá-los em cartas aos parentes.
Conforme conselho do índio, seu único companheiro sobrevivente da escravidão não deveria escrever e nem falar nada a ninguém, pois seriam somente eles a tentarem provar todos os crimes vistos na fazenda.
Como nem documentos tinham para provar quem eram, além dos problemas maiores que foram seus próprios crimes, não praticados por eles, mas por estarem envolvidos com certeza seriam punidos severamente como cúmplices que foram.
Jamais seriam punidos os grandes proprietários das terras de escravos que provavelmente seriam amigos da justiça ou os próprios julgadores que continuam até hoje permitindo a mesma impunidade aos poderosos criminosos que sempre fizeram e continuam fazendo a miserável história do Brasil recente.
Não foi muito demorado nem difícil chegar à estrada e a sorte já se fez presente, pois Sebastião encontrou um caminhão parado e encaminhando-se para o local encontrou um homem agachado trocando um dos pneus.
Tu aceita meus auxilio?
E claro amigo. Ajuda-me tirar essa porca que está emperrada que não estou tendo força para arrancá-la.
Num seio como fazê não sinhô, mais si me ensiná eu ajudo sim.
Como tal serviço não exigia técnica nenhuma e sim força, o motorista deixou a cargo de Sebastião a troca do pneu furado que não foi muito difícil de conseguir pelo entusiasmo dele em lidar com o veículo e principalmente motivado em ganhar a simpatia do homem para que ele lhe desse carona.
Concluída a tarefa o motorista conversou com Sebastião:
Quem é você e que faz perdido sozinho neste fim de mundo?
Sô Tião. Sebastião Pereira da Silva, sim sinhô, e estou aqui por que...
Não cumprindo a promessa ao amigo índio toda a história desde sua saída da vila sua passagem pelas fazendas de arroz e de maconha foi contada ao motorista do caminhão que se identificou como Sr. Alfredo de Souza e ambos dentro do caminhão em movimento seguiram viagem para São Paulo com Sebastião feliz como nunca e Sr. Alfredo incrédulo pela história ouvida.
Sebastião ficou sabendo que estava longe de São Paulo bem mais de mil quilômetros e que a viagem demoraria de três a quatro dias, pois caminhavam vagarosamente devido ao peso da carga e arroz.
Ao passarem em uma cidade já no sul do estado de Mato Grosso Sebastião pediu que parassem para escrever carta para a família, mas Sr. Alfredo não concordou porque perderiam muito tempo com isso e propôs que seguissem viagem e lá em São Paulo ela seria escrita e enviada.
O interesse do rapaz em guiar o veículo era tão grande que fez tantas perguntas e obteve tantas respostas que logo nas primeiras horas de viagem teoricamente já conhecia toda técnica necessária aos motoristas. Inclusive conheceu de nome muitas partes e peças para o funcionamento do veículo.
No segundo e terceiro dia Sr. Alfredo passou a direção em alguns lugares, considerados seguros, à Sebastião e no último dia deixou-o guiar parte da manhã até o horário do almoço.
Feliz e com competência, após almoçarem, o jovem voltou a conduzir o veículo como um velho e experiente profissional.
Sua inteligência, dedicação e vontade fizeram com que isso fosse possível e o Sr. Alfredo somente voltou ao volante já próximo da capital.
Por tudo que Sr. Alfredo viu e ouviu de Sebastião percebeu que era um rapaz bastante ingênuo e sem nenhum conhecimento, porém com uma inteligência rara e por tais predicados não titubeou em oferecer-lhe emprego.
Teria que viajar com carga de São Paulo para sua fazenda em Mato Grosso e vice-versa duas vezes por mês depois de tirado a carteira de motorista e documentos.
Enquanto estivesse em São Paulo teria local para dormir gratuitamente.
Não teria outros afazeres e receberia um salário mensal de dois mil cruzeiros.
Sebastião nunca em toda sua vida esteve tão contente como neste momento e no restante da viagem conduzida pelo patrão ficou calado, tão absorto em pensamentos que não eram outros a não ser providenciar um meio de estudar durante suas folgas e economizar todo o dinheiro possível para trazer logo sua família.
Em sua total abstração não percebeu a linda visão da cidade que é seu “Paraizo”.
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A TRIUNFAL CHEGADA EM SÃO PAULO
Eis finalmente o caminhão parado em frente a um enorme barracão em São Paulo no Bairro Vila Maria na Rua Guaranesia número 2.432 local onde Sr. Alfredo descarregaria sua carga, guardaria seu caminhão e deixaria o Sebastião morando.
Era uma velha construção bastante sólida com um grande armazém na frente, onde foi colocado o caminhão e nos fundos um pátio também grande com uma casa de três cômodos.
Um deles com uma cama e armário para roupas.
O outro com pia, mesa, cadeiras, fogão e geladeira e o último com vaso sanitário e chuveiro elétrico.
Será a residência de Sebastião que ficou deslumbrado, pois nunca tinha visto acomodações com todo esse luxo.
Dois grandes cães ferozes foram presos por Sr. Alfredo até que os animais e Sebastião ficassem amigos.
Sr. Alfredo despediu-se falando:
Tião. Irei de táxi para minha casa e voltarei amanhã ao meio dia com alguns rapazes para descarregar o caminhão. Faça bom proveito da sua casa e não saia porque quero que esteja aqui para ajudar na descarga do veículo.
Pode deixá, Sinhô Alfredo que eu acordo bem cedo e tiro toda carga do caminhão e quando chegá já tá tudo pronto.
Não vai fazer isso porque as chaves que lhe dei só servem para abrir sua casa e o portão de saída. O caminhão ficará trancado dentro do armazém.
Pois intão mi dá a chave de lá qui faço os serviço ou num tem confiança em mim?
Não tenho a mínima desconfiança de você, mas tenho medo que ladrões invadindo o armazém aberto e encontrando apenas você farão a festa com minha carga.
O sinhô qui sabe, e si assim é milhó, que seja.
Obrigado meu rapaz. Amanhã quando chegar trarei algumas roupas para você, pois estas que compramos no meio do caminho é a única que tem. Também vou fazer um adiantamento de quinhentos cruzeiros para você comer e comprar o que quiser. Está bom assim?
Num carece de me pagá adiantado não. Eu trabalho primeiro o mês inteiro e dipois o sinhô me paga.
Fique com o dinheiro e boa noite.
Boa noite pro sinhô também.
Estava em seu quarto após um reconfortante banho quente no chuveiro que Sr. Alfredo ensinou-lhe usar e não se cabia dentro de si de tanta felicidade.
Teve certeza que São Paulo era o “Paraizo” que sempre sonhou e falou.
Emocionado e não conseguindo dormir passou grande parte da noite pensando e se perguntando:
Porque um homem que conheceu apenas há pouco tempo estava fazendo à ele tudo aquilo?
Deu-lhe carona para São Paulo. Alimentou-o na viagem. Comprou-lhe roupas e deu-lhe essa maravilhosa casa para morar em troca de nada.
Inclusive já lhe arrumou emprego e até fez pagamento adiantado.
Muito mais que seu padrinho Antonio fizera por ele em toda sua vida.
Isso é que é ser gente boa.
Com certeza todos os daqui são assim e irei aprender com eles.
Fazia planos para seu futuro e da família até que teve uma súbita crise de choro.
Lembrou-se do trágico fim de Adelina.
Cobriu-se para aquecer da noite fria e em lágrimas finalmente dormiu.
Seus pesadelos foram horríveis.
Foi perturbado pela presença da moça que implorava que ele voltasse para o sertão.
Ela estava desfigurada tal como deveria realmente estar agora já comida pelos vermes.
Acordou suado embora a noite estivesse muito fria.
Rezou e ficou muito tempo acordado e amedrontado, pois não lhe pareceu sonho e sim uma aparição da própria morta.
Levantou-se ao nascer do sol e foi caminhar pelos arredores deslumbrado com a quantidade de pessoas que viu e com a grandiosidade da cidade que não tinha fim.
Mais tarde em uma loja comprou um par de sapatos, uma calça e uma camisa e após pagar descobriu que sua nota de quinhentos sofreu um grande desfalque com apenas essa compra.
Usaria o que lhe sobrou apenas para adquirir alimentos, pois tinha de economizar muito para trazer a família.
De qualquer forma como não tinha o hábito de bebida e nem do fumo conseguiria passar o restante do mês com os duzentos e oitenta e dois cruzeiros que lhe sobraram porque sua alimentação não seria tão farta e cara como as da viagem que Sr. Alfredo pagava.
Ele compraria comida mais simples e barata.
Sua primeira alimentação em São Paulo foi em um pequeno restaurante próximo ao armazém onde comeu um prato feito, conhecido como “sortido” que soube ser o mais barato.
Sebastião estava vestido em sua roupa nova a espera do patrão que chegou próximo às doze horas em um belíssimo carro que ele jamais vira nem nos filmes.
O rapaz ficou tão encantado que apalpava a Rural como se fosse um nenê recém-nascido que nem ouvia os elogios do patrão por sua elegância.
Sr. Alfredo após abrir a porta do armazém entra nele com o carro mandando que Sebastião aguardasse do lado de fora.
Trancou a porta por dentro e lá permaneceu por mais ou menos uma hora.
Saiu outra vez com o carro fechando novamente a porta atrás de si e falou ao empregado:
Tião vou deixar a chave do armazém com você, pois dentro de uma hora virá um caminhão escrito nas portas SUPERMERCADOS ARRUDA & CIA. LTDA. com duas pessoas que passarão os sacos de arroz para o caminhão deles e os levarão embora.
Vô ajudá os homes?
Faça isso e lhes entregue esta nota fiscal.
Que mais que faço?
Depois que eles forem embora lave o caminhão. Tem todo o material de limpeza e torneira com água para o serviço lá dentro.
No final da tarde virá um mecânico procurá-lo para lubrificar e fazer a manutenção do motor. Ele se identificará como Genésio, meu mecânico. Pode deixá-lo entrar e quando sair tranque tudo direito e fique a vontade.
Num vô esquecê nada não.
Trouxe caneta, papel e envelope para você escrever sua carta. Aqui perto você encontrará uma agencia dos correios para enviá-la.
Si escurecê posso ficá com as luz acessa pra escrevê?
Claro que pode.
Fique sempre por perto daqui, pois venho apanhar o caminhão dentro de dez dias para nós fazermos outra viagem.
A propósito trouxe uma televisão para você se distrair, pois nesses dias frios nada terá a fazer.
Qui qui é televisão?
O patrão ligou o aparelho que tirou do carro na casa de Sebastião e ensinou-o a usá-la.
Despediu e foi-se.  Deixando-o com seus afazeres.
A entrega da carga de arroz e da nota fiscal aos funcionários do Supermercado transcorreu corretamente e rápido.
O jovem pôs-se imediatamente a lavar e limpar o veículo com o maior carinho possível e todo o restante da tarde passou nesse serviço.
Por volta das dezoito horas terminou o trabalho e estava no portão do depósito absorto em seus pensamentos tentando relembrar coisas para continuar escrevendo sua carta que iniciara no intervalo da saída do patrão e da chegada do caminhão do supermercado. Assustou-se quando um carro parou perto dele e ouviu a pergunta:
Você que é o Tião?
Sim sinhô. Sou sim.
Eu sou Genésio mecânico de Sr. Alfredo e vim para revisar o motor e lubrificar o caminhão.
O sinhô é mecânico do Sinhô Alfredo?
Porque o espanto?
Num sabia qui esta profissão de mecânico dava prá ganhá tanto dinheiro assim!
Assim como?
Num foi tu que chegô neste carro?
Um Fordeco velho deste qualquer um tem.
Eu num tenho não sinhô.
É barato para comprar, pois é velho. Só precisa ter coragem para encarar os consertos.
Corage é coisa qui nunca me fartô, mais eu num tenho é dinheiro.
Quanto você vai ganhar trabalhando para o Sr. Alfredo?
Dois mil cruzeiros por meis.
Pois é, conterrâneo. E só economizar uns três a quatro mil para dar de entrada e depois pagar doze prestações de mais ou menos setecentos a oitocentos por mês.
Só que você tem de tomar cuidado para não comprar um carro muito estourado. Quando você for comprar um me avise que eu vou ver o motor do carro para você.
Vamos ver o caminhão?
Sim sinhô. É pra já.
Cara! Você caprichou. Nunca vi esse veículo tão limpo em toda minha vida.
Fiz o qui pude. Achô qui tá bem lavado?
E claro. Está parecendo novo.
Intão acha qui vô dá certo no emprego?
Sem dúvida que vai. Conte-me como arrumou o emprego com Sr. Alfredo.
Enquanto o mecânico revisava o veículo foi ouvindo a história do rapaz que estava recém chegado de uma escravidão, após abandonar sua terra no nordeste sem conhecimento de nada no mundo.
Mostrava-se tão dócil, sem revolta e tão caprichoso que Genésio ficou em dúvida sobre a veracidade da história.
Toda sua odisséia estava sendo contada outra vez e Genésio indeciso não sabia se ria ou se assombrava com o que ouvia.
Amistosamente convidou-o para continuar a narrativa em um bar próximo, enquanto tomariam alguma bebida e jantariam, pois já passava das vinte horas e seu serviço já estava terminado.
Sebastião não deveria ter falado das fazendas de escravos na plantação de maconha e refino de cocaína e principalmente dos crimes conforme orientado por Guará, mas em sua simplicidade não se conteve e novamente falou tudo.
Já era a segunda pessoa a qual ele contara o que não devia.
Foram até o bar, mas Sebastião nada comeu e nem bebeu por não gostar de bebida e para não gastar dinheiro mesmo porque já havia se alimentado com o sortido na hora do almoço.
Conversaram até por volta da meia noite e Genésio já crendo no que ouvia comentou:
Sabe que também sou do nordeste? Sou de Garanhuns, mas nunca ouvi falar dessas histórias que me contou. Lá de Pernambuco a gente vem para São Paulo de caminhão mesmo que é mais barato que ônibus, mas vem direto sem nenhum aborrecimento, pagando nossa passagem.
Mais, num sabe? Nois lá da minha terra, num tem caminhão, nem dinheiro prá pagá ninguém pra trazê a gente, e o jeito é vir nestes caminhão de graça que aparecem por lá, sem nunca ninguém sabe da sorte de quem já veio antes. Agora sei purquê ninguém que veio nos anos passado nunca mandô notícias e nem voltô.
É por isso. Todos eles ficam para sempre escravizados nas tais fazendas até morrerem sem ninguém saber de nada. Foi muito sorte sua encontrar o tal índio que conhecia as drogas que pôs os cães para dormir para conseguirem a fuga.
Num tem jeito do sinhô, ou do sinhô Alfredo, conseguir acabá com isso?
Teria que falar com delegados federais ou políticos influentes, mas desde que estou aqui há doze anos nunca falei ou vi pessoas de tamanha altura. Só por televisão ou jornal e para a gente chegar até eles é impossível, portanto aconselho-o a trabalhar e ganhar dinheiro para trazer sua família pagando-lhes as passagens e esquecer definitivamente o que aconteceu.
Esquecê eu num vô esquecê nunca.
Eu acredito que sim, mas acho que deveria calar-se e nunca mais contar essa história para mais ninguém, pois você pode se complicar.
Deve ter muita gente grande metida nisso. A maconha e a cocaína têm chegado em São Paulo aos montes e ninguém nunca descobriu como e de onde vem.
A gente só lê nos jornais e vê na televisão assassinatos pelo esquadrão da morte que dizem ser os próprios políciais e só morrem coitados iguais a nós que por desventura viciaram no uso de tais drogas.
Jamais ouvi falar que algum fazendeiro, algum milionário ou político fosse sequer preso para averiguação como traficante de drogas.
Só prendem e somem com pobres, negros e artistas que dizem ser subversivos e inimigos do governo.
Tu acha mesmo?
Acho não. Tenho certeza. Não deve contar nada a não ser que veio do nordeste em busca de emprego e nada mais.
Nem para sua família na tal carta que me falou que estava escrevendo.
Mais eu já tinha escrivido muntia coisa sobre a viage.
Escreva de novo não mencionando nada da escravidão. Apenas aconselha-os a não virem nos caminhões e para impedirem outros de virem alegando que demora muito para chegar e que passam fome e sede no caminho. Que quando chegam só arrumam empregos ruins e têm de trabalhar duro e muito tempo para pagar as despesas. Por isso não compensa. Só isso e nada mais.
Acha qui devo escrevê assim?
Creio que é bem melhor. Posso ler a carta que já começou escrever?
Pode sim.
Sua história seria considerada como doidice ou invencionice e nunca como verdadeira. Ninguém acreditaria em você.
Acho que nem sua família. Se você mandar essa carta que li acredito que eles nunca vão querer vir para cá.
Num quero sê chamado de doido, e muntio menos de mentiroso, pois num sô nem um nem outro, não sinhô.
Guará já mi conselhô pra nunca contá nossa estória, mais já contei pro sinhô e pro Sinhô Alfredo. Num vô contá prá mais ninguem não sinhô.
No começo eu não estava acreditando em nada, mas agora até que acredito porque acho você sincero e honesto, mas é difícil crer na época de hoje que ainda façam pessoas de escravos.
Será que Sr. Alfredo acreditô?
Ele comentou ou aconselhou-o a fazer alguma coisa?
Não. Só ouviu e nada falô.
Então acho que ele não acreditou, ou não se interessou em aconselhá-lo de nada.
Vô escrevê outra carta.
Vou para casa dormir e você deve fazer o mesmo. Amanhã volto à tarde depois do serviço e lhe ajudo escrever outra melhor.
Brigado.
Boa noite.
Sebastião demorou a dormir lembrando de toda conversa com Genésio sobre sua incrível história.
Pensava em tudo que aprendera durante a noite sobre o motor do caminhão e na carta que iria escrever no outro dia.
Lembrou-se que o filho já teria nascido, mas provavelmente ainda não registrado e daria como sugestões para o nome. Se fosse homem poderia ser José Guará Goiano Pereira da Silva ou Alfredo Pereira da Silva ou ainda Genésio Pereira da Silva.
Deveria homenagear seus benfeitores, mas qual?
O índio que lhe salvou?
O patrão que lhe deu emprego?
Ou o mecânico também nordestino que estava sendo tão seu amigo propondo-lhe ajuda para sobreviver em São Paulo?
Poderia ser José Guará Alfredo Genésio Pereira da Silva, pois assim teria o nome de todos, mas indeciso decidiu que escreveria para Josefa para que ela escolhesse o nome que achasse melhor.
Adormeceu e na manhã seguinte acordou cedo embora tenha ido dormir tarde da noite e foi alimentar os cães, pois Sr. Alfredo havia mostrado onde tinha alimentos e como fazer.
Bastou este dia para que os animais e o rapaz se entendessem e já no fim da tarde Sebastião soltou-os dentro do pátio, sem o mínimo receio e sem risco de nenhum ataque dos mesmos.
No portão encontrou Genésio que chegava e combinaram de trazer comida do restaurante para que ambos alimentassem dentro de casa antes de escreverem a carta.
Sebastião concordou, pois não tinha almoçado e assim fizeram e quando voltaram ao abrir o portão os cães atacaram para grande susto do mecânico.
Genésio novamente ficou surpreendido com o recém chegado ao vê-lo levar aquelas feras para o canil para que ele entrasse.
Elas o acompanharam dóceis como se fossem amigos de longa data.
Em apenas um dia aquele rapaz domesticara tais animais assassinos.
Escrita a carta bastante simples e rápida conforme proposto por Genésio somente dizia que chegara em São Paulo e que estava bem de saúde, trabalhando e economizando para enviar-lhes dinheiro para suas vindas de ônibus.
Comentou sobre a impossibilidade deles e de outras pessoas virem nos caminhões conforme combinado e mandou permissão para Josefa escolher o nome do filho.
Pediu-lhes mais um pouco de paciência, pois ainda demoraria algum tempo para guardar o dinheiro suficiente para trazê-los.
Escreveu seu endereço para que mandassem a resposta da carta, colocou-a no envelope e endereçou-o a Ângelo na cidade de São Pedro.
Guardou-a para colocá-la no outro dia bem cedo na agencia dos correios que já sabia onde era, pois o novo amigo ensinara-o antes de irem ao restaurante.
Ao despedirem Genésio prometeu que falaria com seu patrão na oficina onde trabalhava para que o deixasse passar os dias lá aprendendo mecânica de carros.
Para isso ensinou-o como ir até a oficina que não era longe indo a pé, mas mesmo assim deu-lhe por escrito o endereço e o telefone para o caso de ele se perder pedir informações.
Na manhã seguinte Sebastião foi ao correio postar sua carta após alimentar os animais e foi à procura da oficina.
Perdeu-se. Não conseguiu chegar ao local que era próximo à rua da garagem do Sr. Alfredo menos de um quilometro, mas algumas praças no meio o fez mudar de rua e ele não sabia como conseguir informações e muito menos como telefonar por isso voltou à sua casa também com muito sacrifício, pois também teve dificuldade em voltar.
Seu desespero durou quase o dia todo, rodando em círculos, até que finalmente conseguiu encontrar seu lar e foi dormir sem comer nada. Apenas alimentou os animais.
Nova tentativa foi feita na outra manhã com sucesso e junto a Genésio após contar-lhe sobre seu dia anterior conversaram com o patrão de Genésio que concordou que ele ficaria durante o dia na oficina como ajudante nos dias que permaneceria em São Paulo.
É de se imaginar que o patrão de Genésio tiraria proveito da situação nada pagando ao rapaz.
Seus serviços prestados seriam pagos com o aprendizado da profissão.
Situação que satisfez Sebastião, pois já tinha salário no outro emprego.
A sorte dele era coisa que acontecia inexplicavelmente e dia após dia durante os próximos que foi à oficina aprendeu muita coisa como também ganhou muita gorjeta por serviços simples que ele conseguia executar.
Ele como qualquer pessoa simples e ingênua era muito falante e por seus discursos intermináveis, coisa incomum entre os paulistanos tornara-se simpático aos fregueses da oficina que ao esperarem os consertos em seus veículos ao invés de irritar-se com as demoras se deliciavam com o modo de falar dele e suas histórias.
Foi assim que Sebastião conseguiu de um professor vários livros didáticos com os quais fora adquirindo conhecimentos devorando-os até altas horas das madrugadas.
Escreveu nova carta à família exibindo-se da melhor escrita assim como deixou bilhete colado à porta de seu quarto, pois estava prestes a ser procurado por Sr. Alfredo indicando-lhe onde ficava durante seus dias caso ele o procurasse durante o dia.
Foi coisa bem pensada, pois aconteceu conforme previsto.
Sr. Alfredo guiado pelo bilhete encontrou-o para sua surpresa sob um carro regulando freios e foi comentando:
Tião. Vejo que está progredindo.
Desculpe senhor Alfredo tou tão sujo.
Que é isso! Estou vendo que está trabalhando aprendendo boa profissão e até na única frase que ouvi já melhorou também as palavras.
Percebi logo que é muito inteligente, mas não imaginava que em apenas duas semanas já teria aprendido tanto, sem falar no zelo que tem por meus animais e meu armazém que nunca vi tão limpo.
Eu num sabia que o senhor vinha aqui.
Quando cheguei ao armazém vi seu bilhete e contratei uns ajudantes e já preparei o caminhão com a carga que vamos levar e vim encontrá-lo. Prepare suas coisas à noite que amanhã cedo iniciaremos nova viagem.
Está bom patrão. Tarei pronto amanhã antes de raiar o dia.
Meus parabéns pelo progresso que está tendo. Está conversando bem. Está bem alimentado e sadio, cabelos cortados, barba raspada.
Está com ótima aparência e com certeza quem o viu quando lhe encontrei não o reconhecerá de modo algum.
Tou fazendo forças para aprender depressa.
Você vai se dar bem na vida por todo esse esforço em aprender.
Que te ouça o bom Deus, pois isso é o que mais quero.
Tchau. Até amanhã as cinco da matina.
Até as cinco sim senhor.
Sebastião durante mais esta noite quase não dormiu.
Não por ter ficado lendo ou estudando, mas pela emoção da nova viagem em que conduziria o caminhão muito mais tempo para melhorar seu aprendizado como motorista.
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A PRIMEIRA VIAGEM DE SEBASTIÃO COMO AJUDANTE DE CAMINHÃO
Já no segundo dia de viagem bastante longe das estradas movimentadas Sr. Alfredo passou o volante a Sebastião que conduziu o veículo até uma estrada já no Mato Grosso mais ou menos próximo ao local que ele reconheceu ser onde se encontrou com o caminhão parado.
Sentiu-se amedrontado de estar indo para a fazenda onde fora escravo por isso pediu ao Sr. Alfredo que voltasse a dirigir para ficar mais atento, pois não queria de modo algum voltar àquele local a não ser com a polícia, coisa que será impossível.
Conforme prometera ao amigo Genésio não falaria mais daquela vida miserável que passou, mas era importante que tivesse que conversar com Sr. Alfredo para não voltar mais àquele lugar por isso quando parados para almoçarem, Sebastião conversou com o patrão:
Senhô Alfredo lembra-se da minha estória que lhe contei?
Aquela de escravo nas fazendas de arroz e maconha?
Sim Senhor. Poisé. Quando de lá fugi incontrei-me com seu caminhão parado e já passamos pelo lugar e estamos adentrano por estradas nas matas e tenho medo de tar-me indo para os mesmo lugar para onde nunca mais quero voltá.
Por isso que está com todo esse medo que demonstra no rosto e no modo de falar que já está voltando ao sotaque antigo?
Tou com muntio medo sim sinhô e acho milhó mi deixá poraqui mesmo e me desculpe por num podê devolvê os dinheiro que já me pagô, as ropas e as comidas, pois logo além daqui já fica os lado que meu amigo indio Guará foi simbora para Goiás e eu vô procurá ele por lá. Pro Mato Grosso adentro num vô não.
Calma Tião.“Num te aperreie não, cabra da moléstia”.
Num brinque cum coisa séria. O sinhô foi muito bom mais eu, mais, num pode mi levá de volta praqueles inferno não.
Deixe de bobagem. Nós não estamos indo para nenhuma fazenda do Mato Grosso e sim para Goiás onde o arroz é o melhor do país. É nas fazendas do Vale de Paranaíba que compro o arroz que levo para São Paulo, mas primeiro temos que descarregar a carga que levamos em Anápolis. Talvez você até veja seu amigo índio por lá, pois passaremos perto de Aragarças de onde ele é conforme você disse.
Intão é isso?
É claro. Pode voltar a guiar que lhe ensino o caminho até chegarmos sem nenhum problema.
Devidamente tranquilizado pelo patrão Sebastião voltou a dirigir o caminhão até chegarem bem próximo a Anápolis quando foi substituído por ele, pois por ser uma cidade grande e movimentada Sr. Alfredo receava uma possível imperícia do rapaz provocando algum acidente e também pela possibilidade de alguma blitz polícial pegá-lo dirigindo sem carteira de motorista e sequer documentos pessoais.
Toda vez que passavam próximos a postos políciais, balanças, fronteiras estaduais, cidades movimentadas, havia a troca de motorista.
O caminhão foi descarregado por chapas contratados no local ajudados por Sebastião e a carga vinda após entregue deu inicio a viagem para as fazendas de arroz.
Dois dias passaram na fazenda cujo trabalho de carregar o caminhão foi executado pelos próprios empregados da fazenda.
Sebastião devorou nesse descanso todos os livros que levara.
Voltaram a São Paulo numa viagem bem rápida, pois se poderia dizer que o caminhão estava sendo conduzido por dois motoristas bem experientes que revezavam.
Sr. Alfredo já mais confiante em Sebastião que além de guiar bem tinha memorizado bastante a estrada podendo deixá-lo descansar o suficiente no próprio veículo e suas paradas eram apenas para refeições, banhos e alguma farra em prostíbulos pelo caminho.
Sebastião jamais foi a essas folias com o patrão permanecendo no caminhão. Vontade não lhe faltava, mas não sabia se em tais farras o patrão arcaria com as despesas dele.
Para não gastar o seu que miseravelmente guardava ficava no caminhão, alegando não ter interesse nesse tipo de lugar.
O patrão acreditava em seus argumentos e respeitando-os não insistia.
Já próximos ao destino de volta conversam:
Tião você já é um perfeito motorista. Um ás no volante.
Num carece dizê elogios não. Ainda estô aprendendo.
Estou falando a verdade. Você está apto a conduzir um caminhão em qualquer estrada e quando chegarmos em São Paulo mandarei providenciar seus documentos, pois farei mais uma viagem com você para familiarizar-se melhor com o caminho e daí em diante você poderá viajar sozinho.
O senhor acha que já vou podê.
Vai sim. Só falta aprender direito o caminho que com certeza aprenderá em mais uma viagem e portar seus documentos para qualquer eventualidade.
Num vai sê difícil, pois nesta volta já marquei na minha cabeça todos os lugar de paradas e quase já conheço as estrada toda.
Não duvido que você já a conheça, mas de qualquer forma faremos a próxima viagem juntos, pois seus documentos ainda não estarão prontos.
Para guiar carece de documentos mesmo?
E lógico. Você não pode dirigir sem carteira de habilitação e não pode andar sem documentos pessoais nem a pé nas ruas.
Não sabia não senhor.
Se algum polícial lá na cidade lhe pedir documentos pessoais e você não tiver vai preso para averiguação. Dá um trabalhão para sair.
Quando o senhôr arrumar meus documento, num tiro eles do bolso não. Vou comprá uma carteira pra guardá eles e vô escrevê em carta para toda minha família fazê o mesmo.
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NOVAMENTE EM SÃO PAULO
Chegaram a São Paulo no mesmo local e o procedimento foi exatamente igual ao anterior.
Caminhão trancado e as ordens para Sebastião proceder da mesma forma que já fizera antes.
Sebastião brincou um pouco com os cães e lembrou-se de procurar na caixa de correspondência cartas resposta das suas enviadas.
Sua tristeza foi enorme ao perceber que não havia nenhuma correspondência destinada a ele.
Só tinha folhetos de propagandas e jornais de distribuição gratuita.
Ficou meio desiludido, mas reconheceu a dificuldade de se levar carta de São Pedro até a vila e de lá para a roça do irmão, pois Ângelo só ia de mês em mês para a vila.
Teria que aguardar mais tempo.
Sr. Alfredo despediu-se dando-lhe outro adiantamento de salário que desta foi de setecentos e cinquenta cruzeiros e retirou-se após avisá-lo que no dia seguinte tudo seria igual da outra vez.
Sebastião viu um pouco de televisão, leu muito e dormiu.
No outro dia após a chegada do patrão que se fechou com a caminhonete dentro do armazém saindo algum tempo depois é que chegou o caminhão do supermercado por volta das treze horas e antes das quinze já haviam feito a troca da mercadoria nos caminhões.
Como ainda era cedo Sebastião foi até a oficina sem fazer o serviço de limpeza do caminhão, pois deixaria para fazer tal trabalho à noite depois da sujeira que Genésio aprontava para não ter de fazer a mesma coisa duas vezes.
Foi muito bem recebido pelo Sr. Fábio alegando que muitos fregueses perguntaram por ele enquanto viajava.
Reclamaram da ausência do jovem que com muito carinho e dedicação limpava vidros, lavava carburadores, trocava velas, regulava, freios, aceleradores, motores, calibrava pneus e trocava óleo dos seus carros.
O fato de essas pessoas terem simpatizado com o simplório e simpático Tião fez com que Sr. Fábio independente de estar permitindo que ele fosse aprendendo o serviço de mecânico nas horas vagas lhe propusesse um pequeno ordenado para garantir a permanência dele na oficina durante sua estada em São Paulo, por isso conversou com ele neste sentido:
Tião vamos fazer-lhe um ordenado enquanto estiver aqui.
Não é preciso me pagar salário não senhô.
Porque não?
O senhor é muintio bom deixando eu aprendêr os serviço de mecânico.
Vou lhe pagar durante a semana que ficar aqui cem cruzeiros para você ficar encarregado da borracharia, troca de óleo, calibragem de pneus e lavagem de veículos.
Serviço de borracharia ainda num seio.
Nós lhe ensinaremos e você ficará doutor nisso.
Dotor? Sem estudar?
Hum... É só modo de dizer.
Quero ser dotor sim.
Então tem o compromisso de trabalhar todos os dias, durante sua permanência aqui em São Paulo na oficina e nós lhe ensinaremos virar “doutor” borracheiro.
Se o senhor quer pagár eu aceito, mais num carece não.
Vou pagar sim. Você bem o merece.
Obrigado. Só qui tem que amanhã cedo tenho de lavá todo o depósito porque as deiz o Sr. Alfredo vai me buscár para ir arranjár meus documentos e acho que num posso me compromissár com o Senhor inté que o Sr. Alfredo me avisár que posso.
Está bem. Depois que você acertar suas coisas você vem.
O resto dessa tarde posso trabalhár aqui sim. Já vim inté com minha roupa de trabalho.
Está bem. Fique por aí que os rapazes da oficina lhe dirão o que fazer.
Sebastião estava limpando vidros de um carro quando seu amigo Genésio informou-lhe que ele já encerrara seu expediente e poderiam ir para ele fazer a manutenção do caminhão do Sr. Alfredo.
Foram para o depósito neste final de tarde e Genésio fez o costumeiro serviço de acertos no caminhão, mas quando terminou já era noite e Sebastião deixou para lavá-lo pela manhã bem cedo antes da chegada do patrão ficando conversando um pouco mais com seu amigo.
Tião você acertou com Sr. Fábio para ficar na oficina como ajudante geral?
Ele me convidou eu para trabalhá lá em orários inteiro.
Daí não vai aprender nada de mecânica. Vai ficar direto só fazendo o serviço que ninguém quer.
Estou muito sastisfeito. Vou aprendendo de tudo.
Quanto vai ganhar para fazer tais serviços?
Senhôr Fábio vai pagar para meus serviços cem cruzeiros por semana.
Sr. Fábio é um malandro mesmo. Com apenas cem mangos por semana vai ficar livre de grandes problemas. Fora o serviço de borracharia os outros são feitos por moleques que aparecem por aqui ganhando até mais que isso e geralmente roubam coisas ou mexem nos carros só trazendo complicações para ele e com você pelo menos duas semanas por mês estará tranquilo.
Mesmo assim não deixe de nos momentos de folga ficar espiando os mecânicos trabalharem para você ir aprendendo a profissão de mecânico.
Tá certo sim.
Despediram e Sebastião cuidou dos cães e foi dormir.
Bem cedo acordou fez a limpeza no caminhão e ficou aguardando a vinda do patrão para irem providenciar seus documentos.
Por volta das dez horas Sr.Alfredo chegou ao armazém e em outro belo carro passeio levou Sebastião para o centro da cidade.
Lá se encontraram com um advogado que passou com eles o dia todo visitando cartórios, delegacias de polícia, despachantes e no final da tarde retornaram à Vila Maria.
Que tal achou a cidade?
É uma beleza. Iguao nos filme que vi. Nunca não imaginei coisas tão bonitas.
É o que todos acham quando vem pela primeira vez aqui.
Tantos carros, tanta gente, tantos prédio, tudo muito bonito, mais eu tive medo mesmo daqueles quartinhos que leva a gente pra cima e prá baixo dos prédios. Fiquei com medo de caí deles.
São os elevadores. Existem escadas rolantes que fazem o mesmo serviço sem você ficar preso dentro do “quartinho”. Ainda vai conhecer muito mais coisas bonitas.
Quero sim cunhecêr as tais escadas, mais o que mais me intrigô é que eu num vôu sabêr guiár aqui dentro da cidade não. É muintio gozado e até assusta a gente. Os carro das veiz anda por cima das casas e dos outros carros e das veiz anda por baixo. Como é que pode sê isso.
São os viadutos. Lembra-se daquele enorme que passamos?
Lembro, que as casa das veis ficava por cima, das veis no prumo e das veia por baixo?
É o Minhocão.
Minhocão?
O nome é Elevado Costa e Silva, mas todo mundo chama de Minhocão.
Estou gostando muito daqui. A cidade é maravilhosamente maravilhosa.
Não existe no mundo lugar melhor para ganhar dinheiro quando se é esperto.
Que lugá é aquele que tem os rio nos meio das casas?
É o Ibirapuera. O que viu não é rio. São lagos artificiais construídos para embelezamento do local onde tem prédios do governo e da prefeitura e serve também para lazer das pessoas nos finais de semana.
Que é lazer?
Recreação, diversão ou brincadeiras.
Então foi construído para as pessoas divertir? É sem pagar?
É. Aqui em São Paulo tem muitos parques para as pessoas divertirem, sem gastar dinheiro algum.
Minha nossa. Como as pessoas daqui são boas. São os homens ricos que fazem isso?
Mais ou menos isso.
Isso é que é vivê. Os que pode mais ajuda os outros que pode menos. Num é assim?
Mais ou menos assim.
Quando eu enricá fazerei o mesmo pra os outros num sabe?
Mais ou menos.
Porque o senhor só tá falando “Mais ou menos”. O senhor num pode mais que eu? Num está me ajudando? O Senhor Fábio da oficina que também pode mais também começou também me ajudar. Quando eu poder eu vôu ajudár os outros também.
É. É isso mesmo. Mas o que falou? O Fábio da oficina está ajudando-lhe? De que forma?
Ele está me ajudando porque eu vou trabalhar lá ganhando salários para ficar depois que o senhor me deixár folgado prá próxima viagem limpando carro, calibrando pneus, trocando os óleo dos carro, arrumando as câmaras de ar, conforme vou aprender.
Hum... Ótimo. Quanto ele vai lhe pagar?
Cem cruzeiros pela semana que o senhor num tem serviço prás viagens, mais só vô confirmar com ele como eu já disse se o senhor deixar. Posso ou num posso?
Pode sim. Não tem problema algum. Após cada viagem, a entrega da mercadoria e a limpeza do caminhão os restantes dias que você estiver livre pode fazer o que bem entender até a próxima viagem e se o que bem entender é para sua melhora profissional e ainda ganhar uns trocos a mais eu fico até contente. Pior é se fosse para as farras, gastar dinheiro e arrumar confusões como muita gente faz por aí.
Tá vendo como as pessoas que pode mais são boas. Se o senhor quisesses não deixava eu trabalhár na oficina, pois já é meu patrão primeiramente.
Tá certo Tião. As pessoas ricas geralmente são boas para os pobres, mas não se fia muito nisso, pois algumas não são e procuram ao contrario de mim que quero lhe ajudar apenas explorar. Tome muito cuidado com quem lidar.
Será Sr. Alfredo? O Sr. Fábio quer me explorar ou me ensinar?
Não disse nada contra Fábio que até gosto muito, mas com o tempo você vai compreender que muitos procuram abusar da ignorância de outros explorando-os.
Tem gente ruim de qualquer jeito mesmo entre os pobres como já falei pro Genésio e pro senhô. O Caetano que fugiu mais eu era um pobre e muito ruim. Acho que entre os rico também tem, mais como eles num tem carência de nada não, eles podem até ser muito ruins com os da sua igualdade, mais com os pobres num tem motivo pra serem ruim por isso eles são bons para nois.
Já vou indo. Boa noite.
Boa noite Senhor Alfredo e que Deus lhe pague por tudo que tá fazendo de caridade por mim.
Não estou fazendo nenhuma caridade Tião. Estou fazendo apenas minha obrigação de patrão.
Deus o nosso criador e movedor das pessoas que lhe pague por tudo que me faiz.
Suas palavras fizeram lembrar-me de um poema antiquíssimo que creio que nada lhe acrescentará, mas talvez sim, pois de você pode se esperar de tudo por isso vou dizer como é, se é que eu ainda me recorde. É mais ou menos assim: “SOMOS COMO VERDADEIRAS PEÇAS DE UMA PARTIDA DE XADREZ JOGADA POR DEUS, QUE NOS MOVE, NOS ADIANTA, NOS ATRASA, TORNA A MOVER E DEPOIS NOS COLOCA UM A UM A CAIXA DO NADA”.
Foi escrito por Omar Khayyam.
Isso e muito mais de sua obra de inspiração sensual que envolve o prazer da vida, do vinho e do amor, com otimismo, mas principalmente com amargura conforme o poema que lhe disse pela incerteza do além vida estão em sua obra prima RUBAIYAT.
Claro que você nunca vai ouvir falar dele e de seus poemas assim como a grande maioria das pessoas, mas... Esqueça.
Apenas lembrei deste poema de Omar Khayyam porque me disse “Deus criador e movedor das pessoas”.
Muitos acham que Ele é o responsável e faz as coisas a sua maneira, doa a quem doer, sem se preocupar com o que queremos, mas deixa isso pra lá.
Sr. Alfredo se foi deixando Sebastião que ficou até altas horas da madrugada escrevendo nova carta à família contando todas as novidades e informando-os que já tinha economizado bastante dinheiro e que a vinda deles estava bem próxima.
oooOooo
A PRIMEIRA APARIÇÃO DO MENDIGO
Pouco dormiu nessa noite, e já esperando por Sr. Fábio na porta da oficina, lendo seus livros, foi interrompido por um pedinte que lhe falou:
Caridade meu bom homem. Esmola para quem carece de comida pra mim, meu neto ainda nenê aqui no colo e para todo o restante da família que nem pode andar de tanta fome.
Dê de comê pra seus mininos e si precisá mais, amanhã nestas mesma hora eu te dô mais pra te ajudá que é minha obrigação de homem de bem.
Esse foi o gesto e a resposta de Sebastião ao mendigo que retirou-se rapidamente.
“Que Deus lhe pague” foi o que disse o esmoleiro após Sebastião ter-lhe dado os trinta cruzeiros que tinha no bolso para suas despesas do dia.
Genésio ao chegar convidou Sebastião para um café no bar da esquina e para lá foram conversando e ao chegarem ao bar Sebastião espantou-se tanto que chamou a atenção do amigo.
Que susto foi esse Tião?
Aquele homem!
Que tem aquele bêbado vagabundo? Aborreceu-o? Eu o vi conversando com você quando chegava na oficina.
Dei-lhe dinheiro pra ele dar de comida pra si, pros filhos e pros netos e ele tá bebendo cachaça.
É um sem vergonha. Não trabalha de safado, pois até profissão tem. É pedreiro e vive de mendicância por preguiça e se têm filhos ou netos não sei, porque ele aparece com crianças pequenas sempre de colo, mas depois de algum tempo muda de bebês. Já apareceram com ele crianças brancas como ele, morenas, pardas, mulatas, negras, índias e até loirinhas de olhos claros. Até um japonesinho de olhos puxados já trouxe falando que era seu neto. Já o conheço por aqui há muitos anos e os tais netos nunca são os mesmos. Fica com cada um não mais do que alguns dias e depois aparece com outro e os troca sempre.
Como pode ser isso?
Ele deve trazer crianças emprestadas de mulheres que querem desfazer-se delas, ou roubadas que ele usa por algum tempo depois dá para outros ou simplesmente as abandona a própria sorte, se não as mata.
Num acredito nisso não. Filho ninguém dá prá ninguém, não empresta e num deixa ser roubado e muito menos ser morto.
Você ainda não viu nada das misérias daqui de São Paulo. Muitas mulheres matam seus próprios filhos, recém nascidos ou os jogam no lixo, mesmo vivos, para ficarem livres deles, porque eles são empecilhos para sua própria sobrevivência cruel e difícil das ruas.
As mulheres que os dão a outros até sentem-se honradas e bondosas assim procedendo.
Num pode sê. Quem mata é só Deus ou homens quando tem vingança muito forte pra cumprir, mas matar criancinha ainda nenê nunca pode ser feito por ninguém.
Tião você ainda verá muita coisa. Infelizmente a vida em São Paulo é assim.
Quer dizer que o dinheiro que dei pra ele foi para as bebida?
E claro. Tais vagabundos usam o dinheiro para bebidas, maconha, cocaína, cola, outras drogas, e até comida pra si próprio, mas para essas criancinhas eles nada dão.
A noite devolvem para a mãe com algum trocado para a infeliz que amamenta a criança e no outro dia empresta de novo, para o mesmo ou para outros que usam o mesmo golpe da fome.
A maioria desses pedintes são vigaristas que abusam da boa fé dos incautos.
Vou lá tomar satisfação com ele.
Não vai Tião. Você já deu tua esmola e está dado. Se for brigar com um safado como ele pode até levar uma facada e se dar mal. O jeito é não se apiedar mais de qualquer um.
Com o tempo você irá verificando quem é que realmente está em dificuldades e de fato precisando de esmolas.
Por enquanto é melhor você não dar esmolas a ninguém para não alimentar vícios de desocupados e tome muito cuidado com garotos de doze a quinze anos. São os piores. Eles fingem que esmolam, mas é só para se aproximarem dos trouxas e depois eles os roubam e para isso na maioria das vezes as matam.
É verdade isso?
E sim. Tais bandidos desde pequenos são criados e orientados por esses marginais que lhes ensinam a roubar para eles em troca de alguma ajuda que nunca dão e quando os meninos ficam maiores descobrem que são tapeados e não sabendo fazer nada além do que aprendeu, reúnem-se em bandos e cometem verdadeiras atrocidades com as pessoas inocentes.
São revoltados com os que os usaram por muitos anos nada lhes dando descontando-se nos que não têm nada a ver com sua desgraça. São os chamados trombadinhas.
Por que os homens ricos e as autoridades não ajudam essas crianças e adolescentes abandonados?
Eles não têm tempo para isso. Para dizer a verdade eles nem sabem que existe isso.
Mais os homens ricos e os governos não constroem lugar de divertimento pros pobres?
Deviam também cuidar das crianças perdidas.
É muito complicado tentar entender porque isso não acontece e muito mais difícil ainda é eu tentar explicar o que nunca compreendi.
Deixe pra lá e vamos tomar nosso cafezinho. Não façamos política que não é nosso forte.
Si eu num visse esse home aí nem creditava no que tú me contô.
A vida aqui não é fácil não Tião.
Tem muitas misérias, muitas injustiças, muita fome, talvez, até pior que lá no sertão.
Num é possível não. Aqui tem muinta comida, trabalho, dinheiro e gente boa que ajuda a gente pobre como estão me ajudando.
Nem sempre é assim. Na maioria das vezes os mais fortes, violentos, sabidos ou malandros engolem os outros e sempre impunemente.
Sr. Alfredo me falô isso mesmo. Disse que têm muitos espertos que exploram os outros.
Não tenha dúvida disso, pois ele próprio já está lhe explorando. Sabe quanto deve ganhar um motorista para fazer o que você vai fazer?
Num seio não. Muito menos do que eu?
Você não me falou que está ganhando por mês dois mil cruzeiros?
Pois assim é.
Então você ganha a metade ou menos do que deveria ganhar na profissão de motorista.
Num diga isso não.
Digo sim. Um motorista neste trabalho cobraria uns cinco mil cruzeiros por mês carteira profissional assinada, Assistência Médica, Seguro de Vida, Previdência social e tudo o mais que a lei garante e pelo menos um ajudante para acompanhá-lo.
Mais eu num sô motorista não. Num sabia nada. O Sr. Alfredo é muito bom me ensinando sê motorista e me dando documentos e todos os confortos que êle me dá, de roupa e comida, além da casa para morar de graça sem pagá nada. Que mais preciso?
Está certo que ele vai gastar uma grana alta com seus documentos. Deverá comprar sua carteira de motorista, sua identidade, mas arranjará um jeito de forçá-lo a trabalhar para ele muito tempo por esse salário miseravelmente baixo que lhe cobrirá rapidamente as despesas feitas e depois o explorará por muito tempo ainda. Tenho certeza.
Num acho não. O Sr. Alfredo é gente muito boa e se depois que arranjar meus documentos e eu tiver trabalhando direito, com afinco e eu merecê, ele vai me pagar mais. Se bem qui nem tem precisão disso não.
Num acho que ganhar dois mil cruzeiros por mes, casa para morar, conseguí documento e ainda ter de folga semana intera ou mais a cada viagem e fazer um trabalho bem gostoso e bom que é guiar caminhão é ser explorado.
Ele é homem de bem. É dificil de encontrar igual. Nem me proibe de trabalhar nas folgas, na oficina.
Trabalhar na oficina é outra história. Vai trabalhar por apenas cem cruzeiros por semana e também sem os direitos das leis do trabalho do mesmo jeito que trabalha com Sr. Alfredo.
Mais eu inté tava trabalhando de graça só pelas gorjetas. Foi você mesmo que me aconselhô dizendo que era bom para mim para aprendê a profissão de mecânico. Agora que esto arrecebendo salário você acha que num é certo?
Desculpe-me, mais, acho que tu tá com as inveja, e querendo mudar minhas cabeça contra quem está me ajudando, e num sei se devo continuar ser seu amigo não. Tú num está sendo meu amigo como eras.
Tião quero fazer sua cabeça sim, mas é para melhor perceber as coisas, pois se você estivesse na oficina mesmo que de graça não teria obrigação da fazer certos serviços e iria aprender a profissão de mecânico, mas com o tal salário que receberá, menor que os moleques de rua cobram você ficou amarrado em pequenos serviços que não te levarão a nada.
Pode apenas executar o serviço combinado que não lhe trará futuro nenhum. Nunca aprenderá ser mecânico e vai ficar lavando carros e enchendo pneus para o resto da vida.
Tá bom demais, cabra da moléstia. Tu num sabe o que fala. As miséria que já passei, num to mais passando não, e nem vô passá mais, mesmo que você queira, fingindo ser meu amigo, que to pensando que num é mais não.
Percebendo que Sebastião estava irritado, pois em sua ignorância nada entendia, Genésio preferiu ir embora e nada mais falar, mas antes de despedir-se ainda disse:
Se acha que está bom assim não falo mais nada. Deixo que o tempo fale por mim.
Só tô aperriado mesmo é com esse tal de pedidor de esmola e com tuas conversa.
Esqueça tudo se é que pode e vamos para a oficina que já deve estar aberta.
Calados permaneceram na ida para o trabalho e por muitos outros dias, pois continuaram sem se falar.
O dia de trabalho na oficina transcorreu normalmente, mas Sebastião ficou sem almoçar por ter dado seu dinheiro ao mendigo, mas isso não era problema, pois estava acostumado a ficar sem comer por vários dias seguidos e não se perturbaria com isso, até porque para comer não precisaria caçar, nem pedir.
Tinha dinheiro em casa em suas economias para jantar e para muito mais que quisesse. Resolveu jantar e foi o que fez. Alimentou-se. Voltou para casa, cuidou dos cães e foi dormir.
A noite novos pesadelos.
Sebastião via Adelina desfigurada implorar-lhe para voltar.
Via Josefa morrer de fome no sertão da mesma forma que morreu a outra, mas não com ele.
Quem a amava na hora da morte era seu amigo Genésio e ela chamava por ele para socorrê-la.
Viu o mendigo que conheceu pela manhã comer seu filho Tiãozinho, inteiro, assado como um leitãozinho de natal, lambendo os beiços ao devorá-lo da mesma forma que ele comeu seu pernil assado no jantar.
Vomitou dormindo enquanto continuava o pesadelo quase que se sofucando com o próprio vômito, por isso, acordou sobressaltado e ficou acordado pensando nos sonhos após limpar-se da sujeira incômoda.
Lembrou-se que já sonhara com Adelina pedindo-lhe que voltasse em outro sonho anterior. 
Não parecia ser sonho e sim aparição como da outra vez, porém em ambas as vezes que apareceu ela não dizia por que ele deveria voltar e nem para onde ir.
Lembrou-se de Josefa morrendo no sertão e isso era motivo muito forte para tirá-la de lá o mais rápido possível e odiar seu amigo, agora ex-amigo Genésio pelo recado recebido em seus pesadelos.
Lembrou-se do mendigo comendo seu filho, mas isso seria impossível, pois ninguém come gente e ele jamais daria seu filho a outrem e o menino quando chegasse ficaria consigo, com documento e nunca seria um menino perdido, portanto, esse sonho era bobagem e pensando melhor concluiu que todos os sonhos eram bobagens.
Ele deveria continuar sua vida em São Paulo economizando para trazer seus familiares o quanto antes.
Dormiu novamente e acordou cedo indo para a oficina. Neste dia de trabalho apareceu o professor que tinha arrumado-lhe os livros didáticos.
Desta vez além dos didáticos trouxe-lhe livros variados.
Tinha romances, políciais, suspense, poesias, aventuras, contos, ficções, religiosos e principalmente pornográficos.
Entre os vários autores desfilaram-se humildemente para Sebastião: Balzac, Juca Chaves, Steinbeck, Chico Anísio, Stendhal, Rui Barbosa, Oscar Wilde, Jorge Amado, Pirandello, Machado de Assis, Agatha Christie, Ziraldo, Vitor Hugo, Millôr Femandes, Boccaccio, Lion Eliachar, Leon Denís, Arí Toledo, Saint Exuperi, Costinha, Og Mandino, Graciliano Ramos, Júlio Verni, Jô Soares, Shakespeare, Vinicius e tantos outros.
Até o tal Omar Khayyâm que ouvira Sr. Alfredo falar estava lá à sua espera com o tal Rubáiyát.
Quase todos os pornôs eram revistas somente com figuras de homens com mulheres, mulheres com mulheres e homens com homens fazendo sexo. Todas as posições e devassidões sexuais possíveis.
Era uma biblioteca de fazer inveja a muitas escolas, excluindo-se é claro os pornográficos. Mais de cem livros dos maiores escritores que o mundo já leu ou ouviu falar.
Só faltaram mesmo Homero, Dante Alighieri e Edgar Allan Põe os mais difíceis para o entendimento do rapaz ou talvez do próprio professor.
Esse professor maluco era o mestre universitário chamado Evandro, pessoa muito decente de ótimas qualidades e atitudes, de grandes influências e amigos, e que nada tinha de bobo. Era homossexual e estava com segundas intenções, com Sebastião por isso presenteava-o com os livros e grandes gorjetas em dinheiro, mas mesmo assim nada conseguiu do ingênuo Sebastião na cama por falta de maiores intimidades, mas foi-lhe de grande valia, pois tais leituras proporcionou-lhe a melhoria na fala e na escrita.
Infelizmente apenas isso, pois Sebastião não tirou nenhum proveito, além disso, nas leituras de tais histórias que nada entendia.
A semana de folga terminou entre o trabalho na oficina e as leituras à noite e logo chegou o novo dia de viagem para Goiás.
Desta vez Sr. Alfredo percorreu alguns armazéns onde apanhava mercadorias bem empilhadas por Sebastião e rumaram para o estado de Goiás da mesma forma que as anteriores.
A alimentação durante a viagem como sempre era paga pelo patrão o que proporcionava para Sebastião total economia de seu salário, pois o que ganhava na oficina, já era o suficiente para sua manutenção.
Quase nada gastava.
Desta vez a viagem foi mais vagarosa, pois Sr. Alfredo pretendia que Sebastião se inteirasse bem do caminho porque as próximas seriam feitas por ele sozinho.
Na fazenda combinou com o proprietário como seriam as próximas viagens, ou seja, os empregados da fazenda deveriam lotar o caminhão da mesma forma de sempre e como ele não estaria mais presente apenas o rapaz traria a carga de volta para São Paulo.
Sebastião que passava por perto dos dois homens conversando ouviu parte da conversa, melhor dizendo ouviu o fim da conversa.
Não se preocupe. Ele é um paspalhão e não saberá de nada e de nada desconfiará.
Tem certeza, Alfredo?
E claro. Não há nada que possa nos preocupar, mas é importante que seus empregados façam a carga como sempre a fizeram sem a presença do Tião.
Está bem. O risco é seu.
Não haverá risco nenhum. O cara além de muito ingênuo é inocente e confia totalmente em mim. Acha-me no mundo o melhor dos homens.
Está na cara. É verdadeiramente um enorme beócio e paspalhão.
Fôra isso que Sebastião ouviu da conversa e não teve dúvidas que falavam de si, porém embora se esforçasse para tentar decifrar o significado de ingênuo, beócio e paspalhão já lido nos livros ganho, desistiu, pois lembrava que seu patrão estava insistindo para que ele viajasse sozinho. Isso era o suficiente para ele imaginar os predicados a seu respeito como coisas boas, pois ouvira falar que ele era um inocente e isso ele sabia muito bem que é o contrário de culpado e é um ótimo predicado a qualquer um, portanto os demais termos que lhes eram desconhecidos com certeza também só seriam elogios à sua pessoa.
Deu-se por satisfeito e feliz por saber que falavam bem dele.
A volta transcorreu normalmente e a vinda do patrão na outra manhã ao armazém fechado saindo logo com o carro aconteceu como das outras vezes.
A ausência de carta endereçada a ele também continuava conforme sempre.
Nova carta foi escrita e postada no correio já reclamando de seus familiares a falta de resposta.
A única mudança na rotina foi que no terceiro dia após a chegada a São Paulo Sr. Alfredo procurou Sebastião na oficina e solicitou que seu outro patrão o dispensasse durante o restante desta tarde.
No armazém mais exatamente na casa de Sebastião Sr. Alfredo ao pagar-lhe o restante do salário, entregou-lhe seus documentos que já estavam prontos, informando-o:
Aqui estão sua certidão de nascimento e sua identidade. Essa é sua carteira de habilitação. Você deverá carregá-la consigo toda vez que estiver guiando, pois se algum polícial solicitar terá de mostrá-la.
Num deixo ela em nenhum outro lugar a num sê dentro do caminhão para não perdêr ela não.
Esses são os documentos do caminhão que também devem ficar com você assim como a autorização para guiá-lo.
Essa autorização está assinada por Sr. Candido de Alcântara que era o dono anterior do caminhão antes de eu o comprar por isso está assinada por ele e se lhe acontecer qualquer coisa a autorização tem de ser do dono que consta nos documentos e que é Sr. Candido.
Qualquer ocorrência com a polícia fale que ele é seu patrão. Está certo?
Após a concordância de Sebastião com um sim com a cabeça continuou falando:
A carteira de identidade também deverá ficar com os outros documentos. A certidão de nascimento pode guardar em casa mesmo que não vai mais precisar dela. Só foi necessária para tirar a identidade e agora só será usada para quando for casar.
Mas eu já sou casado.
Por enquanto guarda essa de solteiro mesmo.
Num tem problema não que num vô perdê nada não.
Está bem. Então todos esses documentos você guarda bem guardado dentro do caminhão e só mostra ou entrega a algum polícial se lhe pedir, fora isso, não deverá mostrar a mais ninguém. Entendeu?
Sim senhor.
Não vai fazer nenhuma confusão? Lembra-se daquele documento que você vai receber na fazenda? Aquele é a nota fiscal que deverá ser mostrada nas barreiras entre o estado de Goiás com Mato Grosso e de Mato Grosso com São Paulo quando voltar para cá.
A mesma coisa você faz na ida mostrando a nota fiscal daqui para lá.
Num tem problema Sr. Alfredo. Sei fazer tudo direitinho conforme já vi o senhor fazer e conforme já me ensinou.
Então guarda seus documentos.
Num tem mais documentos não?
Não. São só esses que precisa.
Mais e minha carteira profissional, minha certidão de casamento, meu registro de emprego?
O quê?
Todos nóis num carece desses outros documentos não?
Tenha calma. Sua carteira de identidade resolve todos os problemas e quando sua mulher chegar conseguiremos sua certidão de casamento.
A profissional e o registro de emprego são documentos muito difíceis de conseguir, mas depois com o tempo iremos providenciá-los. Está bem assim?
Sim senhor.
Muito bem meu caro amigo.
Agora temos aqui um contrato que teremos de assinar para que seu emprego fique garantido perante a lei.
Num carece não. Sei que o senhor num vai me manda embora do serviço.
É claro que não vou, mas de qualquer forma sempre é bom termos um contrato. Para você é importante. Vamos assiná-lo.
Se o senhor assim quer, vamos assiná-lo.
Ambos assinaram tal documento que o Sr. Alfredo guardou, mas antes o leu para Sebastião.
Nele constava que ambos estavam concordes após assinarem esse contrato de trabalho autonomo por três anos no qual Sr. Alfredo de Souza a partir daquela data pagaria mensalmente a importância de dois mil cruzeiros a Sebastião Pereira da Silva. O segundo se comprometia durante esse período à entrega de mercadorias de São Paulo em Anápolis e a volta com carga de arroz da fazenda Três Onças também em Goiás fazendo três viagens por mês.
Que qualquer rompimento do contrato por qualquer das partes acarretaria uma multa de duzentos salários mínimos vigentes na época da quebra.
Após o texto identificavam-se o nome de ambos com seus respectivos documentos e endereços.
Havia também duas testemunhas identificadas e já devidamente assinadas que Sr. Alfredo informou serem respectivamente seu advogado e seu contador.
Nada havia que estivesse em desacordo entre ambos, mas Sebastião por simples curiosidade perguntou após ouvir a leitura.
Senhor Alfredo o que significa que o senhor leu que tem residência e domicilio aqui no endereço do armazém se o senhor não mora aqui?
Este é meu endereço comercial por isso diz no documento que eu resido aqui, mas não tem problema nenhum, pois é reconhecido pela lei como meu domicílio comercial.
Se o senhor não tem outro lugar para morar pode ficar com a casa que eu moro no armazém.
Obrigado Tião. Não se preocupe, pois tenho onde morar.
Essas informações são só pró-forma de documentos.
Como sou bobo. Se o senhor é homem rico deve ter casa prá morar e muito boa.
Tenho sim Tião. Qualquer dia levo você lá para conhecê-la.
Gostaria muito para quando eu ficar rico já ter idéias de como fazer casa bonita.
Até qualquer dia Tião e divirta-se.
Em uma das cláusulas do contrato de prestação de serviços rezava que não havia nenhum vinculo empregatício entre as partes, e isso não foi lido propositadamente para Sebastião nunca saber.
No outro dia na oficina Sebastião estava muito feliz e até pretendia contar a Genésio, debochando dele, que assinou um documento garantindo-lhe seu serviço por três anos, mas sua revolta com o amigo pela antiga discussão impediu-o de tal aproximação.
Foi Genésio quem o procurou na hora do almoço e acabou por saber das novidades e com suas sempre boas intenções, começou novamente alertar o amigo dizendo-lhe:
Não lhe avisei? Já está aí a exploração documentada. Agora você terá de trabalhar três anos seguidos por dois mil cruzeiros mensais sem poder reclamar nada.
Tá bom demais.
Bom uma merda. Do jeito que sobe o custo de vida nessa terra daqui a três anos dois mil cruzeiros não vão dar nem para comprar um rolo de papel higiênico.
Não exagere. Dá muito bem para meus gastos, pois estou economizando demais e daquí uns quatro a cinco meses já tenho suficiente para trazer minha família que vai me ajudár arribar na vida.
Deixe-me ler a cópia do contrato que assinou?
Num tenho não.
E lógico que não recebeu. Seus documentos? Deixe-me vê-los.
Tão guardados no caminhão inté eu comprar uma carteira para guardar eles. Ainda hoje a tarde vou comprar uma. Amanhã cedo trago e te mostro a ti.
No dia seguinte na oficina nova conversa.
Genésio. Trouxe os documentos para mostrar para tu ver e ler.
Após vê-los e lê-los Genésio disse:
Cadê os outros?
Que outros?
A profissional assinada, o INPS. O Seguro de Vida e a Assistência Médica?
Num deu tempo de tirá esses aí não. O senhor Alfredo disse que a profissional e esses outros demora muito e que é muito difícil de arrumar.
Difícil uma droga. Tira-se carteira profissional muitíssimo mais rápido que carteira de identidade e de habilitação que você precisa estar presente mostrando em provas sua competência para dirigir, atestado de bons antecedentes, impressões digitais, etc. Nenhum dos documentos de trabalho foi feito o que significa que as carteiras de motorista e identidade que ele lhe entregou foram arrumadas.
Depois ele vai arranjá minha profissional também. Eu confio nele.
Ele é um malandro. Esses documentos são frios.
Que frio? Pego eles e tem a mesma quentura de qualquer outro papel.
Frio que eu digo significa falso. Esses documentos nada valem.
Num acredito nisso não. Você novamente está falando de uma pessoa muito direita e boa que está me ajudando e num gosto que fala assim de Sr.Alfredo, pois num vô ficar só com raiva de ti como da outra vez.
Sou até capaz enfrentar tú numa briga se continuar e também contar para Sr. Alfredo toda a maldade que está falando dele.
Está bem. Então foda-se.
Novo desentendimento entre eles e a possível ruptura irreversível dos laços de amizade que os unia.
Genésio jamais convenceria Sebastião que ele estava sendo usado e explorado miseravelmente, por isso preferiu simplesmente ignorá-lo e abandoná-lo a sua própria sorte.
Não mais o procurou e até pediu ao Sr. Fábio que mandasse outro mecânico fazer a manutenção do caminhão do Sr. Alfredo, quando dos regressos a São Paulo para não ter de estar com o idiota do Sebastião em momento algum se aborrecendo e enfurecendo o amigo.
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A PRIMEIRA VIAGEM DE SEBASTIÃO COMO MOTORISTA
A permanência de Sebastião em São Paulo transcorreu normalmente e chegou o dia de sua primeira viagem sozinho.
Ele fez tudo da forma que fora avisado e transcorreu ida e a volta tudo na maior calma possível e apenas foi repreendido pelo patrão, pois contou que dera carona a dois rapazes em certo trecho da estrada.
Prometera-lhe que isso não mais aconteceria, pois, foi avisado que os caronas poderiam ser bandidos ou ladrões de carga, coisa muito comum nas estradas do Brasil e que todo cuidado ainda era pouco. Que atualmente carona até para mulher estava sendo perigoso e não estava sendo mais como antigamente, apenas para sexo. Muitas já eram bandidas e assaltantes de caminhoneiros.
Se quisesse mulheres deveria procurá-las nos lupanares e sempre deixando o caminhão bem trancado.
A decepção de não receber correspondência de Córrego Seco permanecia.
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MUITAS OUTRAS VIAGENS ACONTECERAM
Assim foi a vida de Sebastião durante os próximos quatros meses sem nada de anormal acontecer.
A única coisa que o irritava era que nunca recebia notícias embora escrevesse constantemente para sua família através de correspondência endereçada a Ângelo em São Pedro.
Lia muito os livros ganhos, mas nunca mais viu o tal professor que talvez tivesse mudado de bairro ou cidade e comprava com seu próprio dinheiro outros livros sempre em sebos por serem mais baratos para continuar suas leituras.
Além da alimentação só gastava dinheiro com livros, móveis e objetos para casa.
Roupas tinha muitas, dadas pelo patrão e por outras pessoas que frequentavam a oficina que não sabendo que ele tinha emprego de motorista julgavam-no apenas um pobre coitado vivendo na miséria e de sobras dos outros.
Ele nunca se fazia de rogado aceitando tudo que lhe davam, pois era importante gastar o mínimo possível para economizar o máximo.
Suas economias já estavam grandes, pois lhe sobrava muito dinheiro.
A cada viagem levava quatro mil cruzeiros para sua alimentação hospedagem e abastecimento do caminhão e o troco Sr. Alfredo sempre deixava para ele, que gastava o mínimo possível para as sobras serem sempre grandes.
Jamais pernoitou em hotel. Dormia dentro do caminhão.
Mulheres nunca foram procuradas nos prostíbulos. Satisfazia-se nos matos com alguma roceira que encontrava pelo caminho e concordasse em satisfazer-lhe sem nada em troca, ou pouquíssimo dinheiro.
Mais de trinta e seis mil cruzeiros Sebastião tinha guardado em seu quarto e com certeza daria para trazer toda sua família de ônibus para São Paulo, mas não tinha nenhuma notícia deles, e nem sabia como fazer para enviar-lhes o dinheiro.
Um ano e onze meses era o tempo que Sebastião estava fora de casa sem saber de nada o que se passava com sua família.
Seu desespero era tal que decidiu procurar o ex-amigo Genésio para ajudá-lo resolver tal problema. Ele não sabia como solucioná-lo, a não ser viajar para lá, mas isso não lhe era possível, pois o contrato que mantinha com seu patrão não poderia ser quebrado, pois a multa rescisória seria maior que todo seu dinheiro guardado, além de perder o emprego e a casa onde morava. Não teria como voltar novamente e muito menos trazer a família. Tentou, ao fazer as pazes com o amigo, pagar-lhe a passagem para que ele fosse buscar seus familiares, mas não conseguiu que Genésio se dispusesse a isso, pois também teria muitos problemas com seu próprio emprego, seus estudos e sua vida particular. 
Genésio aventou a possibilidade do tal Ângelo não morar mais em São Pedro por isso nunca suas cartas encontravam o destinatário, se bem que era curioso e estranho que elas jamais voltavam ao remetente.
Genésio aconselhou-o em destinar carta á outra pessoa mais conhecida com possibilidade de recebê-la.
Foi assim que essa carta foi enviada para São Pedro escrito na frente de um envelope enorme da seguinte maneira:
Peço que esta carta chegue com destino ao Armazém Principal na rua Principal da cidade de São Pedro no estado do Ceará-Brasil, cujo proprietário Sr. Aroldo dos Reis Dias muito conhecido por ser um homem rico da cidade receba e a entregue para Sr. Antonio de Jesus Pedrosa dono do armazém da vila Córrego Seco. Também pode ser entregue à sua esposa Mirtes e na falta destes aos seus filhos Pedro ou Ângelo para que um deles fizesse o envio da mesma para Afonso Pereira da Silva meu irmão ou para Josefa de Deus Pereira da Silva minha querida esposa, pois se trata de correspondência urgente. O remetente sou eu, Sebastião Pereira da Silva morador em São Paulo, com muito dinheiro, mas desesperado para corresponder-se com seus familiares.
Dentro do envelope lia-se a seguinte carta:
São Paulo, 05 de janeiro de 19....
Prezados Senhores.
Qualquer dos senhores que receber e ler essa missiva ou carta faça-me o grande obséquio e favor de tomar conhecimento das informações urgentes e importantes.
Humildemente solicito e peço que a transfiram e levem em toda sua integra o conteúdo a quem de direito que como destino final, pode ser Afonso Pereira da Silva ou Josefa Pereira da Silva na vila Córrego Seco, pertencente à cidade, município ou comarca de São Pedro.
Aqui é Sebastião Pereira da Silva vindo daí há quase dois anos e que está em São Paulo gozando grandiosamente de saúde e maravilhosamente de felicidades e que augura e deseja que o mesmo aconteça com vocês e vos digo de todo coração bem do fundo da alma: Agora, estou em condições plenas, e dinheiro suficiente para trazer toda minha família para cá, com a graça de Deus, seu filho Jesus, e sua Mãe Virgem, pois, estou ficando rico, e já tendo casa e espaço para construir mais cômodos, pois meu patrão, já me permitiu aumentar aos cômodos já construídos, onde moro, outros mais para abrigar todos meus familiares. Para isso até contribuirá com o material de construção, sem nenhum ônus, ou seja, sem nenhuma despesa para eu arcar ou gastar.
Tudo que já falei nas cartas anteriores, que creio não terem recebido depois eu falo de novo, se me lembrar de tudo, mas preciso que meu irmão Fonso, minha mulher Zefa, meus filhos, meus sobrinhos, saibam tudinho o que de bom está me acontecendo comigo aqui. Por isso quero urgentemente, que eles desfrutem das minhas felicidades, alegrias, riquezas e progressos, que são muitos e serão sempre melhores e maiores para todos nós.
Agora é para você Fônso:
Querido mano:
Estou muito bem aqui em São Paulo, e sei que ao ler minhas palavras escritas, passaram-se muitos dias após hoje, por isso quando estiver lendo-as, já estarei fazendo nova viagem para Goiás.
Sou motorista, como já disse em outras cartas, talvez não lidas, ganhando muito dinheiro e em condições de enviar-lhe o dinheiro suficientemente, para você vir para cá de ônibus, com todos os demais.
Para isso você deverá informar-me em sua resposta, qual o nome e endereço certo e direito de uma pessoa, idônea, correta, de integridade moral, para que eu remeta o dinheiro por envelope postal. Isso é permitido pelos correios e o dinheiro vai em dinheiro vivo, portanto deve enviar-me o nome e endereço correto da pessoa correta de São Pedro para recebê-lo e entregá-lo a você.
Meu endereço aqui em São Paulo, nosso Paraíso, é Rua Guaranesia, 2.432, no Bairro de Vila Maria - São Paulo - Capital.
Responda-me com urgência.
Minhas informações e notícias para você acabaram-se, mas, mano velho, leia essa parte para Zéfa para ela saber o que quero falar com ela.
Querida mulher, patroa ou esposa e inesquecível Zefa:
Estou muito bem aqui, de saúde, de dinheiro e de felicidade.
Só falta mesmo a alegria de seus chamegos e a visão e presença dos meus filhos, cujo um nunca nem vi.
Estou estudando muito e pergunte ao Fonso, Pedro, ou Ângelo, ou a quem estiver lendo para você, como minha escrita é de gente sabida, que ele te fala para ti.
Têm palavras que escrevi dobrada, ou, triplada, pois, se não entenderem o significado de uma, tem os sinônimos, para que eu me faça claro, entendido ou esclarecido por vocês.
Tenho boa profissão. Sou motorista de caminhão, e ganho muito dinheiro. Dá de sobra para nós vivermos aqui, com o de bom e do melhor.
Venham logo para cá, do jeito que vou explicar para Fonso, na próxima carta, depois de receber suas respostas desta.
O nenê está bom?
Já é nascido há muito?
Qual o nome que pôs nele?
É menino ou menina?
Estou com muitas saudades de ti, dos carinhos, cafunés, satisfações dos prazeres da carne, dengos, gozos do sexo, cujo nome correto é orgasmo e não gozo, coisa que nunca mais tive, por não poder tê-la, e, não só por isso, mas, principalmente pelo amor real e verdadeiro, que é sua presença, amizade, preocupação, compreensão, zelo e cuidados comigo.
Estou com muitas saudades, também, de todos e como não tenho mais outras notícias a informar-lhe, para o momento, com muito carinho dedicação e amor despeço-me de você e dos demais presentes, leitores ou ouvintes.
Mui atenciosamente, Pedindo deferimento.
(ass) Sebastião Pereira da Silva
Tal carta escrita na presença de Genésio, além de diverti-lo muito, pela inconsequência das misturas de formalidades com informalidades e da tentativa de ele mostrar-se instruído o que definitivamente não era extrapolou os limites de sua compreensão e paciência, mas em nada interferiu.
Considerou que esta carta deveria chegar à cidade de São Pedro.
Infelizmente houve mais um motivo para sua revolta contra Sr. Alfredo e outro momento de discórdia entre eles surgiu inevitavelmente.
Discussões que nunca tinham fim.
Após Genésio dizer-lhe que toda construção feita em terreno de outros as benfeitorias sempre ficariam para o dono do terreno, portanto era mais um golpe aplicado em cima dele pelo patrão, foi à gota d’água para o término definitivo da amizade entre ambos.
Grande briga aconteceu quase às vias de fato, pois Sebastião pretendia enfrentar e agredir Genésio que foi embora se desculpando humildemente, porém Sebastião guardou rancor e mágoa do amigo.
Cada qual julgava Sr. Alfredo à sua maneira, que era totalmente oposta.
Genésio insistia em abrir os olhos de Sebastião, pois julgava Sr. Alfredo o pior homem do mundo, mas era em vão porque Sebastião nada via no patrão que o desabonasse. Para ele Sr. Alfredo era o melhor homem do mundo.
Tudo que Sebastião precisava dele conseguia e de Genésio?
O que já conseguira dele? Quase nada. Só conversas, alguns pequenos favores e grandes discussões e brigas.
Sua carteira profissional ainda não havia aparecido mesmo ele insistindo de vez em quando sem muita veemência por medo de perder o emprego que lhe era bom.
Afinal de contas tudo o mais que lhe era dado compensava a ausência de tal documento registrado.
Em certa ocasião Sebastião sofrera um acidente tendo se cortado no braço na oficina do Sr. Fábio e quem o socorreu não foi Sr. Fábio e nem Genésio.
Foi Sr. Alfredo pagando-lhe médico, farmácia e curativos particulares, com muito mais presteza e eficiência que se tivesse ido aos hospitais da Previdência Social se tivesse a tal carteira profissional.
Nisso o próprio Genésio tinha concordado porque foi ele quem acompanhou o amigo em sua sutura e seus curativos concordando com a presteza do atendimento confessando na época que o melhor atendimento é o particular e por mais esse motivo Sebastião jamais teria dúvidas quanto à honestidade e bondade do patrão.
Tal fato fora colocado por Sebastião a Genésio em sua última briga que o fez calar em suas observações e repreensões, pois ele sempre usava a Previdência muito precariamente atendido, pois nunca pode pagar e nenhum patrão jamais pagou-lhe atendimento particular para nada.
Sebastião pensava que Sr. Alfredo o ampararia como já havia acontecido na doença qualquer que fosse ela, quando preciso.
Imaginava que quando estivesse velho já estaria rico e não precisaria dos benefícios da aposentadoria, portanto o pagamento da previdência nem seria necessária mesmo.
Tinha certeza que trabalhando com Sr. Alfredo, o melhor homem do mundo, não existiria nenhum motivo para preocupações e teria onde morar com sua família na própria casa que já morava que seria ampliada por eles e seus familiares quando chegassem.
Não havia mais diálogos entre ambos e Sebastião julgando-se mais entendido, sabido e melhor amparado que o amigo afastou-se definitivamente dele.
Julgava-o um bobo invejoso e inconveniente sempre falando mal de seu benfeitor por isso não deveria continuar sendo seu amigo. Ao contrário e definitivamente passou a ser seu inimigo.
Tinha algumas dúvidas quanto ao recebimento dessa nova carta cujo ex-amigo auxiliou-o na possível solução, mas não teria mais complicações futuras, pois, se dessa vez a carta não chegasse ele já saberia como resolver o problema definitivamente.
Pelas informações escritas e na discussão com Genésio, Sebastião lembrou-se de como Sr. Alfredo era imensamente bom e que sempre lhe ajudou em vários momentos.
Imaginou que se pedisse com tempo suficiente para ter um mês de férias teria permissão para viajar para sua terra em busca da família, pois dinheiro ele já tinha e muito. Assim resolveria seu dilema caso quando voltasse dessa viagem não recebesse carta resposta, portanto não teria de suportar Genésio que lhes prestava alguns pequenos favores em troca de discussões inúteis e intermináveis.
Era pura inveja do outro e não precisaria dele para mais nada.
Considerava-o um recalcado, incapaz e inútil que só pensava em falar mal dos outros. Era um revoltado, pois nunca estudava ou lia como ele, portanto não seria ninguém na vida além do que já era.
Pensava. Ele não terá futuro como eu e meus familiares teremos.
Nunca mais vou falar com esse ingênuo, beócio e paspalhão.
Sebastião atualmente sabia o significado de tais palavras que usou em seus pensamentos, diminuindo e menosprezando Genésio, mas não se lembrou que tais expressões já foram usadas no passado para caracterizá-lo.
Na época ele até achou tratar-se de elogios.
Alguns dias depois fez nova viagem, feliz, pois seu problema seria solucionado com certeza de uma forma ou de outra, tão logo voltasse de Goiás.
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NA ROÇA
As rezas e pedidos a Deus para que protegesse Sebastião embora já se passassem quase dois anos continuavam todos os dias, pois sua família embora intimamente já o imaginasse morto e desaparecido mantinha-se unida na vã esperança de que ele estivesse bem em algum lugar do mundo. Enganavam-se julgando que ele ainda apareceria, mas cada qual escondia para si os mórbidos pensamentos nunca discutindo tal possibilidade bastante clara.
Nessa época do ano passando dificuldades de tudo, pois o dinheiro há muito já acabara davam duro nas lavouras, mas pouco conseguiam, pois a seca nesse lugar no sertão na época do verão não tinha solução.
Nunca houve governo capaz de dar jeito e infelizmente parece que nunca haverá, pois há quem creia ser mais interessante continuar assim para todo o sempre para a felicidade dos governantes desse país que enriquecem com as monstruosas verbas destinadas ao socorro sempre desviadas para suas monstruosas contas bancárias.
Os familiares de Tião tocavam a vida sem muita conversa para não se traírem confessando-se desiludidos com a existência dele e muito trabalhavam para continuar vivos e foi com grande felicidade que receberam seus amigos de São Pedro que chegaram com um enorme envelope.
Gritos de alegria, choros, palmas, e até festa foi feita na roça de Afonso quando a carta chegou até eles.
Os portadores foram os familiares de Sr. Antonio ainda vivos e presentes que foram Pedro, sua esposa e o filho já nascido que tinha o nome do avô.
Sr. Antonio e a moça Ivone nova companheira dele que estava viúvo, algumas famílias amigas de São Pedro que levaram além da carta muitos comes e bebes para fazerem a comemoração devida que se fazia necessária para a ocasião.
Todos os vizinhos das roças próximas compareceram levando suas poucas galinhas, porcos, feijão de corda, farinha, pimenta, rapadura e muita cachaça para a festança que durou o dia todo até a noite.
Foi à primeira vez que Josefa bebeu e tanto que desmaiou não se sabe se de felicidade ou de embriaguez. Provavelmente foi mesmo a cachaça, pois não fora à única a desabar.
Todos os presentes, adultos, jovens, adolescentes, crianças e bebês, tiveram o mesmo fim dormindo ao relento até o dia seguinte e ficaram sem bebida e comida por muitos dias, pois consumiram tudo o que lhes restavam, mas o motivo foi justo e assim exigiu. Aconteceu como era de direito.
Toda a ladainha escrita na frente do envelope deu resultado, pois tal carta chegou ao destino.
As anteriores destinadas a Ângelo nunca foram entregues a ninguém porque o encarregado dos correios era o homem que teve sua filha roubada pelo rapaz e seu desejo era e continuava sendo não encontrá-lo e nem à filha que não mais amava.
Odiava-os e queria que ambos se matassem, morressem ou se desgraçassem pelo resto de suas vidas.
Tais correspondências eram simplesmente queimadas sem sequer serem lidas, pois o encarregado do correio imagina serem cartas escritas por sua filha ou a mando dela procurando pelo Ângelo que talvez a tivesse abandonado e voltado para São Pedro.
Como ele não queria saber do Ângelo e muito menos da filha que lhe trouxera tantos aborrecimentos fugindo com o vagabundo as queimava sem sequer as devolver ao remetente como destinatário não encontrado como é o devido procedimento dos correios.
Esta carta recebida por ele embora procurasse por Ângelo entre outros foi muito clara, dizendo tratar-se de carta muito importante e urgente, cujo destinatário final era Afonso e o remetente Sebastião.
Ficou arrependido pelas várias outras que destruiu, pois o rapaz seria apenas o portador das anteriores.
Abriu o envelope e sabedor do sofrimento da família de Sebastião pela qual tinha grande estima leu seu conteúdo e percebendo sua real importância e fez chegar aos destinatários proporcionando-lhes tal festança da qual ele participou com sua família doando muita coisa em troca de suas irresponsabilidades anteriores que nunca contou a ninguém.
Após, a cachaçada do dia anterior e acordados todos os visitantes foram embora menos Sr. Antonio e seu filho Pedro que ficaram com a família de Afonso discutindo as alternativas de irem ou não para São Paulo.
Eles conflitavam entre si totalmente indecisos, ou melhor, todos eram contra Afonso, que só tinha a esposa Maria Quitéria, que não era contra e nem a favor.
Ela simplesmente se mantinha neutra e no término da discussão concordaria com a decisão final.
Continuava a discórdia com Josefa falando:
Que acha, Fonso?
Num seio, Zefa.
Mais tu num leu o que Tião falô que tá rico?
Eu lí e tú ouviste, mulhé. Ele falô e provô, que tá com muntios dinheiro. Nunca ouví falá de tantos dinheiro, prá pagá tanta viagens prá tanta gentes. Acho que nem sinhô Tonho tem mais dinheiro nas mão, iguáo o Tião já tem, pelo que li na carta, mais, num falô quanto tem no total, porisso, sô contra nossa ida. Vai vê que ele só tem pras nossas passagens, que já é muntio, e usou a têrmo “to rico”, só prá nos imprecioná, e fazê nois decidí de í.
Tú tem razão. Num falô nos quantos que tem, mais falô que tá rico e que vai mandá dinheiro prá nois viajá, de onibus e isso é sinal que tem muntio, porisso Fonso, vamos nois, mais Quitéria e os meninos para São Paulo.
Num seio não, mulhé. Acho muito arriscado.
Porque arriscado home? Num lêo o qui Tião falô? Tudo lá é tão bom e fácil? Que os patrão de lá, dão inté casa prá gente morá, sem num precisá nem pagá aluguel?
Porque ele num falô da moça que foi mais êle. Num falô dos nossos amigos que já foi há muntio mais tempo e nunca mandaram ninhumas notícia?
Dasveis ele, prá num tê de escrevê muintio é que num falô.
Eu inda acho que num devemo í não, Zefa.
Interrupção feita pelos filhos de Afonso que falaram juntos sem combinarem entre sí. Apenas resolveram dar suas opiniões e coincidentemente foi uníssono:
Pai, tu acha que não, mais, eu acho que sim. Vamos nois.
Oceis num sabe o que fala, mininos.
Nova discordância e desta vez foi Maria Quitéria quem falou desistindo de sua neutralidade:
Os mininos, tem as vontade de vencê na vida e si Tião tá tão bem nas vida e chamando prá gente í e pode ajudá nisso, porque tu num qué?
A mãe tem toda razão, meu pai. Vamo pai?
Quem disse a última frase foi Maria das Dores que quase nunca falava e teve a concordância dos irmãos e do pequeno Tiãozinho de apenas três anos que confirmaram tal desejo com sinais afirmativos com a cabeça.
Deixa de dá palpite mininada. Vão todos brincá com o nenê da Zefa e o do Pedro, lá fora e deixa que isso é conversa de gente grande.
Afonso mandou os filhos saírem e ficou durante horas discutindo com a esposa, a cunhada e os amigos.
Agora definitivamente todos eram contra ele, pois estavam favoráveis à viagem e Pedro inclusive manifestou desejo de ir também com a esposa e filho. Seu pai discordou de sua ida e convenceu-o a ficar porque muito em breve teria de assumir seus negócios na vila, pois já estava com casa montada para mudar-se para a cidade de São Pedro com a nova esposa que não queria mais ficar na vila.
Toda discussão acabou por minar a resistência de Afonso que acabou cedendo aos desejos dos familiares falando:
Tá bom. Nois vamo, mais, vamo nos caminhão de graça que levô Tião, sem usá dinheiro dele não. Vô escrevê mais ele, falando de nossas idéia, qui todos, concordaram e forçaram eu também concordar em ir, embora eu fosse contra.
Home, tú num ti lembra, qui já foi recusado naquela viagem com Tião por teu adoençamento que inda num curô de tudo? Tú num sabe que eles num vieram este ano, pois a época das vindas deles já passô, i num veio nenhum caminhão pegá gente ninhuma daquí? Acho que eles num qué mais levá nóis daqui não e mesmo que eles chegá, prá levá gente, num vão querê levá mais eu e mais o Tiãozinho pequeno e mais o nenê de colo, ainda amamentando.
Num seio, si devemo arrecebê dinheiros do Tião não.
É claro qui devemo. Os dinheiro qui êle vai mandá vai sê menor du que ele pensa, pois num sabe qui Mercedes, desaparecida, num vai, porisso as despesa vai ficá mais barata prá ele.
Tu tem razão, Zefa. Temos que arrecebê os dinheiro de Tião. Vô escrevê carta prá ele e indicá o Sr. Tonho, que além de home muito direito é padrinho dele e já tá com endereço na cidade de São Pedro prá arrecebê os dinheiro pelos correio.
Posso indicá o sinhô, seu Tonho?
É claro que sim. Assim que arrecebê o dinheiro, mando avisá, prá vocêis ir prá cidade prá gente providenciá tuas viagem e fique tranquilo que arrumo alguém de meieiro para cuidá de tuas roças, com todo zêlo.
Escreveram neste mesmo dia a carta para Sebastião redigida por Pedro em concordarem e confirmarem a ida conforme Sebastião tinha proposto.
Dois dias após Sr. Antonio a postaria na agencia do correio de São Pedro, pois já estaria lá com sua mudança.
Não esqueceram de avisar a Sebastião que o dinheiro deveria ser enviado a menor, pois Mercedes já não morava com eles.
Tinha se mudado com Ângelo para lugar ignorado.
Falaram de todo amor, respeito e agradecimento por ele estar fazendo tudo isso por eles.
Josefa esqueceu-se de mandar escrever que iria registrar o filho deles em São Pedro com o nome de Cícero em homenagem ao famoso padre milagreiro do Ceará.
Ela acreditava que a carta recebida provando a sobrevivência dele, que não mais imaginava, tinha sido mais um dos grandiosos milagres do Santo Padre Cearense que tanto fez e faz para seu povo.
Receberia o nome de Cícero Pereira da Silva e ela faria o possível para que quando o menino crescesse fosse tão grande ou maior que o homenageado milagroso e salvador das pessoas, pois seria criado e estudado em São Paulo e não no Ceará como o “Padim Padre Cirso”.
Depois ela informaria o nome do menino.
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O RECEBIMENTO DA CARTA DE PEDRO
Sebastião foi o homem mais feliz do mundo ao chegar de sua viagem e receber a carta dos familiares e em sua nova carta endereçada a seu padrinho Antonio, propôs e esclareceu todo o procedimento para a viagem dos parentes para São Paulo, além de enviar-lhe o dinheiro necessário para as despesas da viagem.
Nela explicou que quando eles chegassem a São Pedro registrasse todos os que ainda não estavam registrados para que ninguém ficasse sem documentos, pois em São Paulo era muito importante que eles os carregassem consigo em seus bolsos ou carteiras. Nas crianças que colocassem em seus pescoços correntes ou cordões amarrando tais documentos dobrados e guardados em carteirinhas de plástico grosso ou de couro.
Na narrativa disse:
Afonso. Aqui é muito bom, mas a polícia prende quem não tem documento e também os malandros roubam as crianças que não tem dono por isso todos devem ter seus documentos para provar quem é ou que tem dono.
Quanto tú e os outros chegarem à rodoviária daqui pergunta quais os ônibus urbanos para Vila Maria que passe na Rua Guaranesia. São muitos que passam na minha rua ou pode até apanhar táxi, que é carro próprio para conduzir pessoas que tem dinheiro para pagar a corrida e dê-lhe o endereço da Vila Maria que chegarão tranquilos aqui.
É uma rua conhecida cheia de firmas de transporte e os motoristas dos táxis a conhecem muito bem.
Anote novamente o endereço, pois é muito importante:
É Rua Guaranesia, 2.432 - Vila Maria - São Paulo - Capital.
Não adianta perguntar para ninguém quem é Tião, pois aqui tem mais pessoas que no mundo todo e mingúem saberá quem é Tião.
Nunca perca o endereço se não tu nunca mais vai me achar, pois a cidade é muito maior do que pode imaginar.
Acho que é mais grande que o resto do mundo todo.
Estou aqui há muito tempo e só conheço poucas pessoas que moram próximas a mim e só no bairro mesmo que já é muito maior que todos os lugares juntos do sertão que tu conhece.
Mando-lhe através do meu padrinho Tonho vinte mil cruzeiros que lhes farão toda a fartura da viagem dos registros necessários e muita alimentação no caminho e num te apoquente em não gastar porque tenho muito mais aqui comigo e não vai faltar nada para vocês quando chegarem.
Vou explicar-lhe todo o trajeto. Vão demorar uns dois dias para irem de carroça só com roupas até São Pedro e mais uns dois para ficarem aí fazendo os registros das crianças e até dos adultos que não os tiverem.
Mais outros dois de ônibus até a ida em Juazeiro no interior da Bahia onde pegarão outro ônibus até Salvador demorará mais um dia.
De lá demorarão outros três para chegarem a São Paulo.
Se vierem logo ao receber minha carta demorarão uns treze dias e não me encontrarão aqui ao chegarem, pois estarei viajando, portanto quando recebê-la espere passar seis dias para começar a vinda que vai coincidir a chegada de vocês um ou dois dias depois de eu já estar aqui esperando-os.
Muitos abraços e saudades do irmão Sebastião novamente despedindo atenciosamente e pedindo deferimento.
Josefa para não me alongar muito com você apenas digo. Amada amante quando o inverno chegar eu quero estar junto a ti para aquecê-la neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno.
(ass.) Sebastião Pereira da Silva.
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TUDO TRANSCORRIA A CONTENTO
Sebastião fez nova viagem, a Goiás, feliz por saber que sua família estaria em São Paulo após a viagem seguinte.
Foi e voltou, trabalhou na semana de folga na oficina e novamente viajou muito feliz, pois nessa próxima volta encontraria finalmente seus familiares.
Chegou rápido em Goiás, apressando os trabalhadores da fazenda para fazerem a carga de regresso o mais depressa possível, para seu retorno a São Paulo.
Tudo transcorreu normalmente e rapidamente retornou. Estava tudo transcorrendo maravilhosamente bem.
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VIAGEM DA ROÇA A CIDADE DE SÃO PEDRO
Atendendo as explicações de Sebastião, seus parentes iniciaram a viagem seis dias após o recebimento da carta. Partiram para São Pedro em uma carroça velha conduzindo toda família puxada por um cavalo mais velho ainda, cansado, doente e mal alimentado que lhe custou à vida ainda na metade do caminho.
A demora de muitas horas andando a pé sob o sol forte foi o suficiente para que Tiãozinho também cansado, doente e mal alimentado não resistisse e morresse no caminho onde fora chorado, rezado e enterrado por sua mãe, tios e primos, gerando uma polêmica entre Afonso e Josefa.
Tá vendo Zefa? Já te morreu teu filho mais velio. Será que o nenê vai aguentá? Num tem nem um ano de vida.
Foi assim que Deus quis e num podemo fazê nada contra os desejo dele.
Si nois num tivesse saido de nossa terra, acho que ele num tinha morrido não.
Qui que é isso Fonso? Viajá num mata ninguem não. É qui os distino dele era curtinho mesmo, conforme nosso Pai Criadô assim quis e assim feis.
Tu vai chegá em São Paulo sem os dois menino e Tião num vai gostar nada não. Vai querê conta dos dois filios.
Ele vai intendê que Tiãozinho morreu por seu distinus e dispois lá, nois dois felizes vamo arruniá mais filios pra ficá nos lugar deste que num viveu muntio, por desejo e graça de Nosso Pai, Nosso Senhor Jesus Cristo, qui assim quis.
Num foi Nosso Pai qui num quis não, i, nem os distinu dele não. Ele num resistiu por causa da viagem dura qui fazemo, qui inté morreu o cavalo, i num sei si num vai morrê, mais ninhum de nois. Tá uma viagem muntio dificiu, pra todos, e vai sê muntio mais dificiu daquí prá frente si fomos continuá.
Num me aperreie não, Fonso. Tua mulhé Quitéria, num já perdeu dois mininos, nascido e treis ainda sem nascê, lá nas roça, sem viajá nem nada. É que os distino deles, conforme, já tava escrito, era prá eles vivê pouco, igual meu Tiãozinho.
Tá bom. Num falo mais nada, porque voltá prá casa é muntio mais longe do que acabá de chegá inté São Pedro, porisso vamo continuá nossas andanças, e rezá muntio prá Senhor Jesus nos levá inté lá.
Continuaram a viagem dentro da carroça que transportava todos até a morte do animal, apenas o nenê e Josefa acomodados nela, que era puxada por Afonso, seus filhos Zézinho e Severino e a filha Maria das Dores.
Maria Quitéria não viajava sobre a carroça, mas também não a empurrava. Apenas caminhava a pé ao lado.
Foi assim que chegaram à cidade de São Pedro com dois dias de atraso e sofrimento dos quais a menina Maria das Dores foi quem mais se esforçou na condução da mesma não só empurrando-a com vigor, mas também incentivando os demais que não suportando tal tarefa desanimavam constantemente.
Seu esforço sobre humano foi quem trouxe a família até a cidade de São Pedro sem mais nenhum incidente pior além dos já passados.
Foram muito bem recebidos por Sr. Antonio que lhes deu o dinheiro já recebido de Sebastião.
Alimentados e descansados no dia seguinte foram registrar os dois que ainda não eram registrados e que eram Maria das Dores, nome recebido pelo fato de ter propiciado à mãe muitas dores ao nascer e também por ter sido muito fraca e doente cheia de dores em sua infância e o nenê Cícero, pois Tiãozinho ainda não registrado já havia morrido.
Como não tinha certidão de nascimento também não teria a de óbito.
Passou, como muitos outros no Brasil, rapidamente pela vida sem sequer existir como cidadão.
Maria Quitéria propôs que a menina não devesse ser registrada Maria das Dores, pois dores há muito não existia para ambas e ela estava proporcionando à família somente graças. Não só pelo fato de ser como era em suas atitudes corretas, mas principalmente porque em sua frágil aparência tinha sido a mais forte na viajem que graças a ela chegaram ilesos por isso deveria ser Maria das Graças e não Maria das Dores.
Fora a força, determinação e decisões dela que os conduziu até São Pedro, pois o pai tuberculoso e totalmente desanimado da viagem não liderava ninguém.
Os irmãos cansados e preguiçosos nada fariam se dependesse deles e só fez o pouco que fizeram exigidos, comandados e liderados pela menina.
A mãe mal tinha força para carregar-se a si própria.
Josefa tinha que cuidar do nenê por isso fora poupada de qualquer trabalho, pois já perdera um filho na aventura e não poderia perder o outro que dependia exclusivamente dela para alimentar-se pela amamentação.
Toda a viagem após a morte do cavalo foi feito, planejado, exigido e executado pela adolescente das Dores, portanto nada melhor que mudar-lhe o nome para Maria das Graças Pereira da Silva.
Assim seria seu nome de registro, mas pelo fato de já ser costumeiramente chamada de Das Dores ficou a dúvida.
Será que acostumaremos chamá-la de Das Graças?
Para não ter esse problema registraram-na como Maria Das Dores e Das Graças Pereira da Silva com a concordância de todos inclusive dela.
Josefa na hora de registrar o filho também decidiu mudar-lhe o nome, pois o recém nascido só era chamado de bebê ou nenê, portanto nunca haveria confusão com seu nome.
Ninguém o chamava de Cícero nome proposto em homenagem ao Padre Cícero.
Não houve discussão relacionada com a troca do nome do pequeno sem nome com o mesmo nome do irmão morto que para todos os efeitos legais nunca existiu.
Decisão tomada por Josefa. Os demais acataram sem discórdia.
Josefa registrou o filho mais novo agora o único com o nome de Sebastião Pereira da Silva Filho e não Cícero, pois seu marido sequer sabia de tal nome para o filho mais novo.
Como ele já conhecia o Tiãozinho esse seria o seu Tiãozinho vivo e no futuro quando tiverem outros aí homenageariam o Padre Cícero se a graça de Deus Todo Poderoso assim os permitissem.
Tal criança nascida há quase um ano foi registrada com o nome do pai.
A partir desta data começou ser Sebastião Pereira da Silva Filho em substituição ao primogênito já falecido.
Zezinho fez uma carteirinha de couro cru na qual colocou a certidão de nascimento do novo Tiãozinho devidamente lacrada em tal carteira e com um cordão também de couro bem folgada para não sufocar a criança amarrou em seu pescoço seguindo a orientação de Sebastião para que todos portassem seus documentos.
Abandonaram a velha carroça que não tinha nenhum valor, após servir-lhes de condução até a morte do animal e depois ao transporte de Josefa, do nenê, das roupas, dos alimentos e água.  Alimento e água não precisariam levar mais porque o ônibus até o interior da Bahia fornecia-lhes ao preço das passagens tais regalias e necessidades.
De Juazeiro da Bahia divisa com Petrolina em Pernambuco aonde chegaram admiraram-se com um lugar cheio de irrigação e plantações ao longo do rio São Francisco. Lá eles mudaram de ônibus para Salvador.
Já foram felizes na ida até Juazeiro, pois fora uma viagem boa e não cansativa com comodidade nunca vista, independente das péssimas estradas. Após embarcarem no ônibus para Salvador sentiram-se os donos do mundo tamanho o conforto que nunca imaginaram existir.
Até músicas ouvia-se no ônibus principalmente as de João Gilberto, pai da Bossa Nova que nascera em Juazeiro onde só se toca musicas dele.
Eles nada entendiam e nenhum proveito tiraram do que ouviam do “Desafinado” dos belos baiões de Luiz Gonzaga, das lindíssimas músicas de Dolores Duran, que tocavam no rádio do ônibus e seguiram para Salvador, levando além do som das melodias, duas malas compradas em Juazeiro para as poucas roupas deles e de outras compradas na cidade pois, dinheiro lhes era farto.
Faltavam algumas horas para chegarem em Salvador e estavam muito contentes só em pensar que de lá para São Paulo a viagem seria ainda muito melhor se é que fosse possível existir melhor.
Finalmente Afonso concordou entre risos de felicidade pôr terem-no convencido a fazer tal viagem com toda essa comodidade, abundante alimentação, água, clima ameno e até música e sentia-se como nunca o homem mais feliz do mundo.
Chegando em Salvador embarcaram para São Paulo em ônibus ainda mais confortável e a viagem transcorreu as mil maravilhas como imaginada, mesmo viajando por estradas tão esburacadas como as anteriores.
Com toda a mordomia que estava tendo Afonso concluiu que seu irmão estava realmente rico e capaz de proporcionar-lhes tudo que quisessem.
Só faltava chegar em São Paulo e abraçar-se a ele que estaria esperando com casa, comida, dinheiro, trabalho, escola e tudo o de bom que só os homens ricos conseguem e que agora pela grandiosidade da viagem proporcionada por ele tinha plena certeza que Sebastião tinha realmente conseguido ficar rico.
Não preocupando mais com todas suas desventuras passadas todos dormiram tranquilamente durante quase todo o tempo do trajeto.
Josefa acordou sobressaltada de um pesadelo no qual o ônibus tinha capotado pouco antes de chegarem à cidade e muita gente tinha morrido, mas ao acordar percebeu que nada acontecera e para sua alegria descobriu tratar-se apenas um mau sonho.
Um pesadelo inexplicável e sem sentido.
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A VOLTA DA VIAGEM DE SEBASTIÃO
Sebastião em sua volta mergulhado em seus pensamentos lembrou-se de não ter mandado o nome para registrar seu filho que se fosse homem de Alfredo Fábio Guará Evandro Pereira da Silva, em homenagem aos dois patrões, ao Índio do qual guardava ótimas recordações e ao professor que o incentivara aos estudos aos quais se julgava grande devedor.  Eram eles os considerados como sendo as melhores pessoas que já conhecera em toda sua vida se bem que sempre lembrasse de Genésio constantemente visto na oficina, mas do qual nunca mais se aproximara, pois tomara-se seu eterno inimigo cheio de rancor e mágoa, mas não sabia o por que de ele continuar pensando nele. Julgava-se melhor que ele, mas sempre copiava-lhe as atitudes que julgava sensatas e de boa paz para com os outros.
Procurava portar-se igual a ele perante todos, pois seu instinto dizia que essa era a melhor maneira de ser por isso assim fazia mesmo odiando o ex-amigo.
Desejava que seu filho tivesse entre os nomes já propostos o nome do ex-amigo.
Se já estivesse registrado um outro filho seu no futuro teria o nome de Genésio, pois não distinguia exatamente a linha divisória entre o ódio e o amor se é que existe esta linha e pretendia homenagear o odiado ou amado amigo do qual copiava sua maneira de ser e de viver.
Nessa viagem além desses pensamentos, suas lembranças e recordações pulavam de sua vila de Córrego Seco para sua atual vila, a Vila Maria de São Paulo, comparando sua vivência em ambos os lugares completamente incomparáveis até que em certo momento misturaram-se às suas lembranças várias aparições.
Adelina chegou nítida em seus pensamentos e chegou para ficar com ele ou levá-lo.
Ela veio maravilhosa e vitoriosa dominando-o por completo.
As imagens agora eram de Josefa morrendo sob seu corpo em êxtase no sertão e tais visões mudavam constantemente de uma para a outra.
Ficavam ora nítidas como a realidade, ora disformes qual a irrealidade jamais imaginada.
Trocavam-se as visões. Agora era Adelina. Ela estava viva e sensual amando-o como nunca aconteceu dentro de seu caminhão em movimento.
Beijava com ardor, acariciava e lambia-o por todo o corpo não só o pênis como toda sua genitália coisa que jamais lhe fizeram em toda sua vida antes ou depois do casamento.
Era o prazer sexual mais intenso que já sentira e que iria querer sempre.
Era uma satisfação deliciosamente incontrolável e masturbando-se prazerosamente Sebastião gozava tais maravilhas no local que deveria ter cautela e inconscientemente ao invés de frear o veículo pisou fundo no acelerador e depois o freou bruscamente desgovernando-o provocando um espetacular acidente.
Foi assim que Sebastião já próximo a São Paulo em uma curva perigosa fez tombar seu caminhão, espalhando toda a carga pela estrada antes de cair em uma ribanceira destruindo-o totalmente e só não morreu carbonizado no incêndio do mesmo devido ao socorro imediato de outros motoristas que trafegavam pelo local.
Ele foi levado em coma à um hospital em São Paulo e todos os jornais da capital no dia seguinte noticiaram tal desastre, pois junto à carga de arroz do caminhão havia oitocentos quilos de cocaína pura.
Tal quantidade da droga jamais fora vista ou encontrada e não era entendido pela polícia federal porque as grandes transações de tal entorpecente nunca passavam de cem a duzentos quilos e eram sempre traficadas por aviões e nunca por inocentes caminhões que sempre passavam com simples muambas de maconha para uso dos motoristas que quando descobertos eram devidamente punidos.
Esse fato inusitado mexeu com todo o Governo Federal que pôs a Polícia com todos os recursos para desvendar tal crime nunca ocorrido no Brasil.
Foram recuperados os documentos de Sebastião em seu bolso junto com os documentos de propriedade do dono do veículo.
A carteira de motorista de Sebastião e os documentos do caminhão cujo proprietário Cândido de Alcântara constavam como residentes em Osasco cuja cidade vasculharam inteira tentando descobrir a quadrilha de traficantes em vão.
A federal descobriu que todos os documentos eram falsos e ficaram sem nenhuma pista.
A Nota Fiscal para os Supermercados Arruda & Cia. Ltda. que era a única possibilidade de os políciais chegarem ao destino final da carga que traficava a cocaína, infelizmente para eles queimou-se junto ao caminhão, pois não estava na carteira do motorista socorrido e sim no porta luvas totalmente destruído.
Também se queimou todo o restante do dinheiro que Sebastião economizou e que levava na viagem.
As averiguações continuavam em Osasco sem nenhuma sorte para os políciais.
Após saberem que tal caminhão transitava havia anos entre São Paulo e Goiás com carga de arroz sempre devidamente documentado e sem suspeitas ao passar nos postos políciais concluiu que o tráfego da droga era antigo e constante. Tinham que chegar aos transgressores rapidamente.
A polícia só tinha Sebastião para solucionar e desvendar a procedência da droga, porém ele estava gravemente ferido sem condições de ser interrogado.
Sebastião não poderia falar qualquer coisa porque estava à morte em coma profundo e teve toda a assistência médica garantida pelo governo federal, pois era a única pessoa que depois de recuperada teria condições de elucidar e auxiliar na captura de tal quadrilha.
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A CHEGADA DOS NORDESTINOS A SÃO PAULO
Dois dias após o acidente de Sebastião chega de Salvador o ônibus com sua família.
Para irem até Vila Maria não foi difícil assim como foi fácil localizar o endereço vindo de táxi na manhã que chegaram, pois ainda tinham dinheiro.
Encontraram apenas um barracão fechado embora imaginassem que Sebastião estivesse esperando-os.
Sentados felizes a porta do local permaneceram durante todo o dia à espera e durante toda à noite dormindo no local ao relento.
Ao acordarem pela manhã conversaram:
Num to gostano não, Zefa.
Num ti afrija Fonso. Tião deve tá prá chegá. Vamo esperá mais ele.
Continuo num gostano nada. Tu viu como é grande demais essa danada de cidade? Será qui Tião num si perdeu poraí?
E claro qui não Fônso. Deve tá vindo de viage, no seu caminhão, qui pára aqui conforme ele escreveo. Logo chega.
Num sei purquê num tem nenhum visinho prá dá ninhuma informação e a gente estamos nessa ispera sem fim desde onte.
Fonso, vamo comprá de comê pras criança mais nois?
Vamo. Mais num temo muntio dinhero não. Gastamo muntio nas ropas e nas condução de carro, pensando qui encontrava Tião, na hora da chegada.
Compraram alimentos para o dia todo e todos se alimentaram razoavelmente bem assim como nos próximos três dias de espera.
O restante do dinheiro deu apenas para alguns pães e dois litros de leite na outra manhã.
Mais dois dias se passaram após este e sem nada para comer resolveram logo pela manhã, Josefa, Maria Quitéria e os meninos darem uma volta pelos arredores perguntando às pessoas se conheciam Sebastião coisa que Afonso discordava por orientação do próprio irmão, mas as mulheres com os meninos achavam que obteriam êxito e foram.
Para não acontecer de Sebastião chegar e não encontrar ninguém ficariam no local Maria das Dores com o nenê e Afonso já que este recusava sair de lá.
Algumas horas depois foi o próprio Afonso quem decidiu procurar pela esposa, filhos e cunhada, pois eles ainda não tinham regressado de tais procuras e já passava muito do meio dia.
Foi à procura dos outros deixando Das Dores com Tiãozinho aguardando a possível volta de Sebastião.
Eram mais ou menos duas horas da tarde quando o mendigo que já enganara e explorara Sebastião que andava pelas imediações à procura de pessoas incautas aproximou-se da adolescente suja e cansada, com uma criancinha no colo, assentando-se próximo a elas.
Começou conversar e interrogar Das Dores e Das Graças que com toda ingenuidade deu-lhe respostas e conversa por longo tempo até que finalmente...
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NO HOSPITAL
Sebastião encontrava-se desacordado com traumatismo craniano sem nenhuma condição de comunicar-se com os médicos que o assistiam e muito menos com os políciais que se mantinham de guarda a espera de sua recuperação.
Estava sendo atendido no Hospital Albert Einstein um dos melhores hospitais do Brasil, pois sua cura se fazia necessária para a polícia, mas todas as cirurgias e procedimentos médicos por melhores que foram em suas operações, transplantes e intermináveis transfusões de sangue e et cetera, nada resolviam.
Seus transplantes de um dos rins e do pâncreas sem ficar na fila de espera e tudo o que fizeram não o traziam de volta à consciência, pois seu problema maior era o cérebro que não há transplante e que comanda a vida insistia em não comandar a dele.
Era a morte que chegava impiedosa, apesar de todas as tentativas de salvar o quase morto.
No entender de muitos médicos e enfermeiros ele é quem deveria ser o doador de seus órgãos, ainda doáveis e nunca o receptor de outros, mas essa era a orientação da Polícia Federal para tentar recuperá-lo a qualquer custo para livrar o Brasil de uma quadrilha até então jamais vista e descoberta.
Tal tentativa valia a pena, mas infelizmente os diagnósticos eram cada vez mais desfavoráveis quanto a sua recuperação, porém como era de grande serventia suas informações para o governo federal mantinham-no no hospital com enorme equipe especializada tentando salvá-lo.
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ENQUANTO ISSO...
As mulheres, Zezinho e Severino que foram procurar informações conseguiram-nas no bar próximo à oficina que Sebastião trabalhava nas folgas em São Paulo e isso aconteceu por volta de três horas da tarde.
Poisé seu doto. Sou Zefa, a mulhé de Tião e essa é a mulhé de Fonso, que é irmão de Tião. Seu nome é Quitéria e aquele mininu é Zézinho e o outro é Severino, que são filhos dela e a menina Maria das Dores, qué dizê, agora, é Maria Das Dores e Das Graças, qui num tá aqui, porque, ficô tomando conta do Tiãozinho que é meu filho, mais, Tião, ficou nos lugar da morada do Tião, aguardando a volta dele.
Está bem Dona. Pare um pouco de falar e ouça. Esse moço que você falou e descreveu é nosso conhecido sim, pois de vez em quando vem tomar café e alimentar-se no meu bar.
Intão seu doto que o Senhô Nosso Pai e o Padim Padre Cirso o conserve a vois e toda tua família, cum as graças de saúde e felicidade, mais me dê as notícia do meu Tião. Onde é que vô me encontrá mais ele?
Já lhe disse Dona. Dois quarteirões daqui fica a oficina do Sr. Fábio onde ele trabalha de vez em quando. Na frente está escrito Auto Mecânica e Funilaria Fábio e é só ler a placa que é bem grande.
Nóis num sabe lê não meu sinhô seu doto.
Não é difícil encontrar, pois basta irem neste mesmo lado da rua atravessando duas ruas que cruzam com esta e perguntarem pela oficina do Sr. Fábio. Todos ensinam e com licença, pois tenho que atender aqueles fregueses que chegaram e antes impedir de entrar aquele mendigo com um bebezinho no colo que vem chegando para encher o saco dos clientes, como sempre faz quando eu me descuido dele.
O Bom Deus que te pague os favô, seu bom home.
Bastou o dono do bar sair à porta, para o mendigo nem atravessar a rua e sumir daquele local rapidamente, antes de a família de Sebastião chegar a porta para sair a procura da oficina que ficava ao lado oposto de onde tinha ido o mendigo.
Foram procurar a oficina mais ou menos na mesma hora que Afonso regressava de suas infrutíferas procuras para junto da menina Das Dores e Das Graças e do nenê.
Na porta da oficina foram recebidas por um empregado que lhes ofereceu moedas quando elas aproximaram dirigindo-se a ele.
Nóis num carece de dinhero não sô moço, pois dinhero nóis inté tem e muintio cum meu marido. Só quero mesmo é sabê notícia do Tião. O Sebastião Pereira da Silva qui é meu marido e falaram qui ele trabalha aqui pro sinhô.
Zezinho que em tempos de muita seca no sertão tomando conta dos irmãos mais novos havia esmolado muito, por isso esticou a mão á frente da tia recebendo as moedas que ela recusava receber.
Minha nossa. Vocês são a família do Tião? Eu sabia que estavam para chegar.
Pois somo sim senhô e o sinhô é o Sinhô Fábio?
Não. Sou João empregado do Sr. Fábio.
Intão deixe nóis falá com sinhô seu patrão o sinhô Fábio.
Esperem eu chamar o Genésio que é muito amigo do Tião e é melhor vocês falarem com ele do que com o patrão, pois além de muito ocupado não teria muito a falar com vocês, pois pouco sabe de Tião que aqui só trabalhava às vezes como bico. O Genésio é quem sabe tudo sobre Tião.
Tal empregado sem conversar mais chamou Genésio para atender o pessoal, após pedir-lhes que esperassem na rua, pois embora a oficina não fosse nenhuma coisa luxuosa não poderia receber tais pessoas não tão sujas, pois ainda tinham roupas para trocar, mas mau cheirosas como já estavam, por falta de banho.
O rapaz chegando até eles chamou-os pelos nomes, pois sabia pelo amigo como era cada um e dirigindo-se a Josefa perguntou:
Cadê o Tiãozinho e o nenê? Falta também o Afonso e a Maria Das Dores.
Cumo ocê sabe assim de nóis seu moço?
Eu sou muito amigo de Tião e sei tudo sobre vocês e se não me engano falta mais uma moça da família de vocês. É a Mercedes não é? Onde estão os outros?
Josefa explicou-lhe tudo sobre o sumiço de Mercedes. A morte de Tiãozinho. O registro do outro filho como sendo o novo Tiãozinho com seu registro de nascimento dentro de uma carteirinha de couro pendurada ao pescoço por uma tira também de couro e onde deixaram Maria das Dores e Das Graças com ele e Afonso e como descobriu o endereço da oficina.
Vou com vocês até o barracão para falar com Afonso. Esperem um momento que vou tirar o macacão e tomar um banho.
Antes de retirar-se explicou que o Sebastião não trabalhava na oficina.
Que aqui só fazia uns pequenos trabalhos quando estava de folga em São Paulo.
Que seu serviço é de motorista para o Sr. Alfredo no local que eles tinham o endereço.
O Sr. Fábio nada saberia o que falar dele, portanto não deveriam procurar por ele que nada resolveria.
Quando Genésio entrou na oficina foi chamado pelo patrão que o interrogou no escritório:
Quem são esses mendigos com que está falando?
São os familiares do Sebastião que chegaram ao nordeste há dias e ainda não o encontraram.
E agora? O Sebastião está ruim de saúde e mal arrumado com a polícia.
Pois é. Não sei o que falar para eles o que aconteceu com Tião, por isso vou até o barracão falar com o irmão e tentar explicar e se o senhor der-me uns dois dias de licença vou tentar descobrir onde ele está hospitalizado através da polícia.
De jeito nenhum. Não vamos nos meter nessa encrenca. Eu te proíbo de falar com a polícia que ele trabalhava aqui.
Não podemos de modo nenhum nos envolver nessa transação de droga.
Como envolver?
Não sabe que ele transportava droga para o tal de Senhor Cândido ou Alfredo sei lá?
Aqui ele se dizia Sr. Alfredo.
Não tem lido os jornais?
Noticiam que o endereço de Tião e do dono do caminhão Senhor Cândido é em Osasco e que a polícia não encontrou nada lá e que Tião está à morte.
Nunca vieram e não virão para cá, pois nada sabem daqui e não será você que nos envolverá no problema.
Se for apresentar como conhecido do quase morto ou já morto trará toda a federal em cima de nós e com certeza iremos ser muito prejudicados com isso.
Você não poderá fazer nada porque se prejudicará e a mim também.
O medo de Sr. Fábio em envolver-se com a polícia era grande, embora nada soubesse sobre o tráfego de entorpecentes. Entretanto antigamente teve problemas com desmanches de carros roubados juntamente com seu amigo o Sr.Alfredo que ele julgava regenerado como ele.
Só agora descobriu que é o traficante das drogas procurado.
Ambos foram descobertos na época dos desmanches, mas conseguiram esconder-se e nada pagar pelos crimes, mas agora não poderia jamais ser pego, pois o problema era muito maior e com certeza ele seria considerado cúmplice.
Mas Sr. Fábio eles acabarão vindo aqui mais cedo ou mais tarde, pois nós cansamos de ver o caminhão do supermercado vir até aqui no bairro no barracão do Sr. Alfredo apanhar os cereais que vinham de Goiás e com certeza os donos dos supermercados acabarão contando tudo.
Você nada sabe sobre a história. Tenho acompanhado nos jornais sobre os acontecimentos. Os donos do supermercado já falaram à polícia que os cereais eram para eles e sobre o caminhão que transportava o arroz usando o nome do supermercado era pertencente ao próprio entregador. O adesivo com o nome Supermercado Arruda era colado com sua permissão e agrado, pois era motivo de propaganda, mas que só conhecia o endereço do transportador há muitos anos como realmente Osasco.
Para a federal tudo está preso a Osasco e não seremos nós que falaremos nada.
E a família de Tião como fica?
Sei lá. Isso é problema deles e não seu e muito menos meu. O próprio Tião que trabalhava aqui e que nem era mais seu amigo será que estava sendo enganado mesmo como você imaginava ou era também da quadrilha das drogas?
Não creio que Tião fosse traficante, pois pelo muito que conversei com ele não passava de um pobre coitado e acho que ele nem sabe o que é maconha e muito menos cocaína. Nem fumar ou beber o infeliz sabia. Para falar a verdade nem meter ele não metia com mulher nenhuma.
Com um quarto independente como tinha e cheio de mulheres por aí nunca levou nenhuma para lá.
Era um trouxa mesmo e dos maiores. Só pensava mesmo em juntar dinheiro.
O desejo dele foi sempre trabalhar e conseguir a grana suficiente para trazer a família para cá e agora que conseguiu deu essa grande zebra.
Isso era o que Genésio pensava, pois sem que mais ninguém soubesse Sebastião sem nunca divulgar tinha feito muitas farras com meninas do bairro que ele levava para sua casa, sem se preocupar se eram prostitutas, casadas ou virgens incautas.
Ele com sua aparecia de bom moço e ingênuo convidava-as para um simples bate papo, mas quando elas se viam prestes a serem possuídas tentavam escapar, sendo sempre impedidas pelos ferozes cães que eram soltos propositadamente amedrontando-as e assim ele conseguia suas vítimas sexuais e gratuitas.
Continuando a conversa Genésio falou:
Se ele fosse cúmplice nesse tempo todo que já está aqui teria ganhado muito dinheiro e não precisava estar trabalhando para o senhor em troca de migalhas.
O senhor me desculpe, mas eu que também sou nordestino e não só por isso, pois sou amigo dele de fato vou tentar descobrir onde ele está e ver se consigo resolver o problema da família dele.
Preste atenção Genésio. Eu nunca fui sacana e tenho você como empregado há mais de seis anos, mas se faltar ao serviço para fazer o que pretende pode desde já procurar outro emprego.
E tem mais. Se a polícia ou qualquer outra pessoa aparecer por aqui para encher-me o saco e me complicar com a justiça eu te fodo.
E te fodo mesmo, pois você tem o rabo preso e fui eu quem o ajudou a livrar sua cara.
Eu nunca tive problema com os “homens” e não será agora que estou velho e com prestigio no bairro que vou me danar por causa de uns filhos da puta lá do nordeste.
Veja lá o que está pretendendo fazer. Você não imagina o que poderá te acontecer, pois não sabe com quem está lidando. Eu acabo com você.
Pelo jeito que o senhor está falando é metido a bravo, mas parece que está morrendo de medo da polícia e como o senhor mesmo lembrou-me eu é quem tenho a rabo preso com eles e não estou com nenhum medo assim.
Escute bem. Está falado. Eu te proíbo de tentar qualquer coisa, pois tenho medo sim da polícia. Tenho é pavor, pois sou espanhol e estou aqui no Brasil clandestino.
Se você me aprontar pode crer que aprontarei para você muito pior e está terminada a conversa e não se toca mais no assunto.
Mande esse pessoal ir-se daqui para não mais voltar.
A lembrança de fatos passados e seu crime ainda impune foi o motivo que fez com que Genésio optasse em continuar trabalhando não contrariando o patrão e mandar o pessoal sair de lá, mas ao despedir-se dos nordestinos na porta da oficina pediu-lhes que aguardassem próximos ao depósito fechado onde Sebastião morava que a noite conversaria com eles. Explicou rapidamente, mentindo, que Sebastião estava viajando e demoraria muito tempo para retornar, mas que ele pessoalmente iria tentar uma solução para resolver-lhes o problema até que Sebastião chegasse.
Josefa, Maria Quitéria, Zezinho e Severino voltaram para o local onde deixaram Afonso, Das Dores e Das Graças e Tiãozinho satisfeitos com a descoberta de um amigo de Sebastião que viria conversar com eles logo mais à noite, mas amargurando imensamente o fato de Sebastião não estar presente e por muito mais tempo ainda estaria ausente.
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O PASSADO DE GENÉSIO
 
Antes de Genésio ser mecânico na empresa do Sr. Fábio trabalhava em Campinas também em oficina mecânica e namorava a filha do patrão.
Isso sem o consentimento do mesmo que vivia discutindo com a filha por te-lo escolhido, mas o romance dos jovens era realmente difícil de impedir, embora o pai da moça ameaçasse-a com colégio interno assim como ameaçava também o empregado com demissão.
Genésio namorava decentemente a moça com boas intenções, jamais a seduzindo e mantinha relações sexuais com uma amiga da namorada que era vizinha da oficina.
Não se tratava de prostituta, mas de uma garota pobre que por alguns modestos presentes entregava-se ao rapaz sabendo ser namorado da outra, sem importar-se, pois além dos carinhos ganhava presentes e tudo andava bem para todos.
Ele satisfazia-se sexualmente com tal moça e mantinha o amor cauteloso de decente com a namorada.
A moça pobre ganhava alguns presentes e também se satisfazia com ele e isso era do conhecimento da namorada se Genésio, que desconfiava deles, mas não se importava com tal fato, pois assim ela própria não corria o risco de entregar-se a ele enquanto não casasse, pois era amada com intenções de casamento, portanto nunca procurou descobrir se sua desconfiança era verdadeira.
O então patrão de Genésio também sabia do caso do rapaz e também gostava da situação, pois sua filha correria menos perigo de perder a virgindade como aconteceu com a outra, mas mesmo assim cumpriu a ameaça levando a filha para um colégio interno.
Não demorou cinco dias e a garota fugiu do colégio voltando para casa e passou de ameaçada à ameaçadora, dizendo ao pai que se ele demitisse Genésio ela fugiria com ele para onde ele fosse. Até para o nordeste se ele quisesse voltar para lá levando-a.
Não havendo solução o namoro foi permitido sob grande vigilância.
Quando tudo parecia estar caminhando a contento para todos a amante de Genésio morreu, após submeter-se a um aborto em que Genésio fora o total responsável pelo delito, pois fora ele quem a convenceu em fazê-lo.
Arrumou e pagou por tal procedimento clandestino.
Com esse trunfo nas mãos o antigo patrão de Genésio prometeu-lhe não contar nada de seu crime a polícia e nem aos familiares da vítima que eram pobres, mas muito rudes e com certeza iriam querer vingar a morte da menina. 
Seria morte certa se caísse nas mãos do pai e dos irmãos da morta ou iria mofar na cadeia por muito tempo pelo crime de indução ao aborto que acabou com o falecimento da menor de idade.
A única condição é que sumisse para sempre da vida deles mudando-se de cidade e para isso até recomendaria a um amigo na Vila Maria em São Paulo.
Genésio sem nenhuma opção aceitou tal condição pensando na possibilidade de conseguir algum meio de ver a namorada depois de algum tempo.
Foi feita a demissão de Genésio da oficina não levantando nenhuma suspeita entre os demais empregados e vizinhos, pois todo pessoal já esperava por esse acontecimento mais cedo ou mais tarde pelo motivo conhecido de todos e então ele partiu para Vila Maria.
Seu ex-patrão o apresentou ao Sr. Fábio como ótimo mecânico, coisa que foi comprovada pelo mesmo, pois isso era fato.
A garota havia sido informada pelos pais sobre o desaparecimento de Genésio como sendo para fugir dos familiares da morta e da polícia, mas que voltaria dentro de um mês.
Contaram-lhe tudo sobre o ocorrido com a intenção de que ela se desgostasse do namorado. Não conseguiram, pois seu amor era tão grande que ela não só perdoaria o rapaz como o receberia de braços abertos após seu retorno e até se entregaria a ele, para o desespero dos pais.
Sr. Fábio tinha sido devidamente informado de todo o ocorrido para que impedisse Genésio de faltas ao serviço para não tentar voltar a Campinas para reencontrar a namorada.
Sr. Fábio durante muito tempo impediu de todas as maneiras que Genésio faltasse ao trabalho ou se ausentasse por tempo longo cumprindo com o prometido ao amigo.
Após uns três meses quando o Sr. Fábio viajou por um dia foi a primeira e única chance de Genésio voltar à Campinas, mas para sua desagradável surpresa não encontrou a namorada no colégio que estudava, pois havia sido transferida para outro colégio não informado por ninguém da secretaria.
Todas as cartas enviadas a ela, jamais chegaram em suas mãos porque os únicos endereços que ele tinha eram os da residência dela e o da oficina e com certeza o pai as recebia e destruía.
Teve a idéia de anotar o endereço do colégio assim que chegou até ele, com intenção de enviar suas próximas cartas para lá, mas lembrou-se que esse novo endereço já não resolveria nada, pois a menina não frequentava mais tal colégio.
Telefonema era impossível porque na oficina a menina jamais ia, e na residência não havia telefone.
O amor de Genésio pela namorada fora aos poucos acabando a ponto de ele já andar namorando outras jovens na Vila Maria como no caso da “Magrela” que ele também deflorou, engravidou e abandonou.
Tal nenê a moça deu-o em adoção ajudada por sua irmã que era enfermeira na maternidade onde acontecera o parto.
Frequentava vários ambientes que conheceu em São Paulo como o Clube Som de Cristal no Largo do Arouche, boates da Av. Ipiranga, os hotéis de rápidas entradas da Praça Marechal, a Casa de Portugal na Liberdade, o clube Esso do Centro e o da Pompéia. Nesses locais arrumava, namorava e deflorava virgens como a “Dentinho de Leite”, que conheceu no Palmeiras numa matinê de carnaval na qual também fez filho e abandonou.
Nunca mais se lembrou do antigo amor campineiro.
Seu grande prazer agora era usar e abusar de todas que conhecesse como prostitutas, domésticas, estudantes, sem nenhum compromisso ou responsabilidades.
A paixão da menina também fora refreando, desiludida pelo total desaparecimento de Genésio.
Sem nenhuma notícia e após esses dois anos passados já estava noiva de casamento marcado com um rapaz que conhecera no colégio para onde tinha sido transferida.
Ambos já cursavam faculdade e eram da mesma classe social, financeira e intelectual, para a alegria de seus pais.
Nessa época Sr. Fábio já sabia que Genésio e a namorada não reatariam mais, pois sabia das peripécias dele que há muito já esquecera a antiga namorada e também por ter sido informado pelo pai da menina que ela também não mais lembrava do rapaz e que inclusive estava prestes a casar.
Sr. Fábio então lhe contou saber de toda sua história em Campinas, principalmente sobre seu crime e a possibilidade de vingança do pai e irmãos da ex-amante. Mesmo depois de tanto tempo eles ainda iriam vingar-se se descobrissem o culpado que jamais imaginaram ser ele porque como todos, eles também sabiam do seu namoro com a filha do patrão e da demissão por esse motivo que culminou com sua volta para o nordeste, que foi o que foi mencionado.
Sr. Fábio disse-lhe que tal historia mentirosa foi o que se espalhou em Campinas, mas que ele poderia através do amigo de lá desmentir aos familiares dos revoltados parentes de sua antiga amante que o procurariam aqui para fazerem a justiça com as próprias mãos, há muito esperada.
Deixou-lhe claro que o tinha sob controle.
Nunca mais falaram sobre o assunto a não ser nesse momento em que Genésio insistia em tentar descobrir o paradeiro de Sebastião procurando a polícia.
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O ENCONTRO DE AFONSO COM DAS DORES
Enquanto as mulheres conservavam na oficina com Genésio, Afonso chega até o local onde deveria estar a filha com o sobrinho e discute com ela sobre o paradeiro do nenê.
Mais pai. (chorava a menina) Eu imprestei ele prum home bom qui prometeu qui levando ele, arumava de comê mais ele e mais nois todo, sem tê de pagá nada e inté dinhero arrumava prá repartí mais nóis.
Como assim?
Chegô mais nois, um home, assim de ropa suja e véia, pió que as nossa e pergunto purque nois tava aqui?
Eu contei pra ele qui tu tinha ido atrais dos outro qui tinha ido a procura de tio Tião, que num aparecia tem muitos dias e qui ia arrumá casa e de comê mais nóis.
Isso eu seio. Vamo lá. Conte comu tu deu o mininu pro home?
Poisé assim meu pai. Contei tudo da nossa viagem prá cá pro encontro cum o tio Tião e que nóis num tinha mais dinhero e num sabia quando o tio ia aparecê.
Daí ele falô mais eu, que com o nenê, no colo ele mais Tiãozinho arrumaria dinhero e comidas pra nóis, das pessoa que mais pode, por bondade e amor de Deus.
Ele inté me deu-me o de comê, pra mim. Me deu um pedaço de pão. Porisso é que dei pra ele levá o Tiãozinho, mais num aperreie não pai, pois o Tiãozinho tem seu documento no pescoço e conforme o sinhô leu das esplicação do tio nas carta, qui criança cum documento tem dono e se tem dono qui é nóis ele trais de volta conforme prometeu pra mim, até no final da tarde, mais comida e dinhero.
Minina loca e doida.
Afonso gritava, xingava e agredia a socos e pontapés sua filha e só parou pela interferência de pessoas que passavam evitando agressão pior que a já imposta.
Um pouco mais calmo depois de contido pelos transeuntes que impediram o espancamento Afonso chorando contou-lhes o que tinha acontecido, porem, devido ao seu próprio estado de miséria, não convenceu nem comoveu ninguém com essa história e um a um foram saindo deixando-os novamente a sós com seus problemas.
Imaginaram que ele tentava com essa história iludir os transeuntes para surrupiar-lhes dinheiro.
Pai dus céu. Qui foi qui feiz comigo?
Inda fiz poco, sua porcaria.
Nunca tinha batido im nóis assim, tão muito. Todas veis qui nóis fazia artes, só batia nas bunda, prá aprendê. Purque qui mi maltratô tanto?
Fiquei loco di raiva qui na verdade ia ti matá si num fosse aquele povo impedí.
Ia mi matá de verdade?
Ia sim e si num te afastá de mim e voltá minha raiva continuo u qui comecei.
Deus ti livre meu pai. Num mi mata não.
Qui dirá Tião quando sobé que seu filho mais vélio morreu e seu nenê sumiu?
Mais num sumiu não meu pai. O home vai trazê ele traveis.
Onde é que anda aquelas marditas mulheres cum os minino qui num volta?
Sei não pai. Só temo mesmo é qui esperá a mãe mais a tia Zefa e os mininu chegá, cum as notícia de tio Tião e o home voltá cum Tiãozinho e mais o qui ganhô de dinhero e cumida prá arreparti mais nois conforme comprometeo.
A menina sangrava muito pela boca com dentes arrancados e nariz quebrado pelos socos e pontapés, longe um do outro e calados continuaram a espera dos demais.
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TERMINO DO EXPEDIENTE DE GENÉSIO
Ao terminar o trabalho Genésio não foi direto para a garagem procurar os nordestinos.
Foi para sua casa tomou banho jantou e encontrou sua atual namorada. Só depois de conversar e explicar-lhe que teria compromisso com parentes de um amigo que chegaram do nordeste, por volta das dez da noite foi procurar o pessoal que deveria estar lá e aguardando-os até meia noite foi dormir preocupado porque não os encontrou.
 
Quando Josefa, Maria Quitéria e os filhos haviam chegado souberam por Afonso e Das Dores do empréstimo do Tiãozinho e ansiosos aguardaram o regresso do mendigo com a criança. Eles até estiveram bem perto dele na porta do restaurante quando se informavam sobre Sebastião. Nenhum deles havia reparado que quando o comerciante avisou-os que iria espantar o mendigo vagabundo da porta de seu estabelecimento ele estava com o Tiaozinho no colo, recém raptado.
O tempo passou e já quase dez horas da noite desiludidos, xingaram, brigaram, choraram, agrediram mais um pouco a menina culpada e desesperados saíram à procura do pedinte e do nenê.
A busca durou toda a noite, o dia seguinte e outras noites e dias diretos, mendigando comida pelas ruas de São Paulo perguntando e procurando pelo ladrão da criança.
Orientados por transeuntes, mendigos e vagabundos de rua aos quais pediam ajuda procuraram sob pontes, viadutos, favelas, terrenos baldios, sem nada conseguir.
Totalmente perdidos e abandonados pela cidade perderam o pouco de pertences que ainda tinham esquecendo-os ou sendo roubados por malandros de rua.
As informações eram que jamais encontrariam a criança raptada e ao cabo de cinquenta dias resolveram desistir das buscas e retomarem ao local onde ainda poderiam encontrar Sebastião ou seu amigo Genésio.
A duras penas e a pé totalmente desesperados demoraram uns treze dias para conseguirem regressar orientados apenas pela intuição, pois não tinham mais dinheiro, malas, roupas, papeis com endereço e nada que os orientassem a volta.
Nada mais possuíam a não ser tristeza, sofrimento, desgosto, dor e amargura além de um pouco de esperança.
Chegaram trazendo não só essa mínima quantidade de esperança, mas uma grande quantidade de desespero, ódio, mau caratismo, embriagues, revolta, miséria, mau cheiro e se postaram a espera de alguma novidade no único local possível de seu parente retornar ou Genésio os encontrar.
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NOVO ENCONTRO DE GENÉSIO E OS NORDESTINOS
Todas as noites Genésio insistentemente passava no depósito tentando localizar o pessoal e nessa noite finalmente houve o encontro com eles.
Tão assustado e até desesperado como os demais ele ouviu a história de tudo o que passaram nesses dois meses de procura à criança desaparecida.
Ficou sabendo também que Severino foi atropelado e morto por um ônibus elétrico.
Foi mais um nordestino que serviu de sebo para lubrificar os trilhos dos ônibus em São Paulo como já o fizeram muitos e muitos de seus conterrâneos nos tempos dos bondes.
Soube que nem enterro fizeram porque levaram o morto conforme era o procedimento com mendigos mortos na rua para um tal de Instituto Médico Legal para enterrar como indigente.
Não podiam reclamar de nada e até agradeceram por tal atitude das autoridades políciais que assim procederam.
Nada podiam fazer a não ser agradecer e ficar satisfeitos com tal situação.
Ficaram até contentes, pois o adolescente teria um enterro digno e até poderia ser doador de órgãos, pois sua morte cerebral, conforme souberam poderia salvar outras vidas se aproveitasse seus órgãos internos. Afonso até assinou certos documentos autorizando tal procedimento, talvez até invalidado, pois não portava nenhum documento que comprovasse sua paternidade com o jovem.
Tudo foi dito ao Genésio que assustado gritou:
Pelo amor de Deus. Vocês têm de voltar para o nordeste imediatamente antes que todos sejam destruídos.
Num volto não seu moço. Despois que perdí meus dois sobrinho e meu filio Severino em tão poco tempo por essa desgraça de encontrá mais Tião num volto mais não. Agora tenho de encontrá mais ele nessa peste de cidade custe o qui custá.
Por favor, minha gente. Eu vendo meu carro para arrumar dinheiro para suas passagens de volta e lá vocês tocam a vida como sempre tocaram e quando o Tião aparecer na oficina eu conto a ele tudo que aconteceu e ele irá procurar vocês.
Num carece disso não, sô moço. Já falei. Daqui num arredo pé mais não, inquanto num incontrá mais Tião, i acertá tudo. Si tu qué mesmo ajudá nóis dê de comê mais eles qui tão cum muntia fome.
Vamos para minha casa para darmos um jeito e no bar próximo arrumo alguma coisa para vocês comerem.
Mi compre prá mim um poco de cachaça.
Você bebe Afonso?
Pai mais eu, aprendemo bebê cum os home qui incontramo nas rua e nas favela, quando nóis procurava o Tiãozinho.
Você também bebe Zezinho?
Sim sô moço. Ajuda a gente se esquecê das coisa ruim qui si passa im antes de dormi e inté mata as fome i si num é pedí muitio, traga pra nóis uma garrafa inteira daquela grande de litro intero e si possível inté mais de uma.
Genésio não conseguiu que a dona da pensão onde morava deixasse aquele pessoal maltrapilho e mal cheiroso entrasse em sua casa e muito menos para passar a noite por dinheiro nenhum. Por esse motivo dormiram como já faziam ao relento nas imediações da pensão.
Antes de dormirem comeram o lanche comprado para eles, mas Afonso e Zezinho pouco comeram bebendo todo o litro de cachaça trazido por Genésio.
Pela manhã quando o rapaz saiu para o trabalho viu as mulheres acordadas mendigando pelas imediações e os homens dormindo de tão bêbados que estavam.
Ao passar por Das Dores pediu-lhe que avisasse aos outros para não se afastarem do local, pois em sua hora de almoço traria comida para todos e disse-lhe que iria tentar faltar ao trabalho à tarde para ver se conseguia algum serviço para Afonso e Zezinho.
Sim. Eu aviso mais eles e ti peço para arrumá emprego prá mim tamém.
Assim é que se fala. Gostei dever. Tão pequena e já está interessada em ajudar a família.
Sô pequena só no tamanho. Já vô fazê quinze ano. Posso inté trabalhá de puta si tu me ajudá.
Que é isso menina? Essa não é profissão decente. Vamos tentar de empregada doméstica por uns tempos e depois em alguma fábrica como operária.
Não é mais virgem?
Sô sim. Mais minha irmã Mercedes qui sumiu no mundo pra sê puta, disse que já na nossa vila ganhava bastante coisa e que em cidade grande ganharia muito dinheiro na profissão. Meus irmãos inté qui quizeram mi insiná sê mulié puta, mais eu nunca quis, mais si tivé qui sê assim, qui seja. Priciso é ganhá dinhero para ajudá os meus. Pode sê o sinhô o home a mi ensiná fazê os trabalio de puta qui agradeço i num ti cobro quando quizé me usá.
Não seja maluca menina. Não fale mais essas coisas, pois se seus pais souberem vão te açoitar e muito. Nunca mais fale ou pense nisso. Tem de me prometer que assim será senão nunca mais vou ajudar vocês.
Mi disculpe seo Genésio, eu num quero isso pra mim não. Foi só nas desesperança qui falei assim. Eu num quero isso não e te prometo nunca mais pensá nisso não.
Genésio afastou pensativo encaminhando-se para o serviço.
Sendo mulherengo sem escrúpulos e safado como era não deveria ter ficado desapontado e aborrecido pela conversa com a menina, mas ficou.
Alguma coisa mudava nele para torná-lo preocupado e pensava:
Ela jamais deveria ser seduzida como ela própria propusera.
Tinha certeza que o desespero a induziu pensar em tal coisa.
Ele caminhava com lágrimas nos olhos pedindo a Deus o perdão pelos seus erros e sua compaixão com aquele povo infeliz principalmente para com a garota tão desorientada.
Ainda não tão distante olhou para traz e viu Maria Das Dores e Das Graças que se desmanchava em lágrimas e sentiu-se confortado por vê-la totalmente arrependida.
O milagre aconteceu em frações de segundos por isso continuou caminhando e falando com Deus só que não mais pedindo e sim agradecendo.
Na oficina procurou pelo patrão e contou-lhe rapidamente os últimos acontecimentos suplicando-lhe:
Sr. Fábio. Pelo amor de Deus me dê folga hoje à tarde para eu tentar arrumar alguma coisa para aqueles pobres miseráveis.
Porque está tão interessado neles?
É por muita coisa. Estou com muita dó deles, pois vendo-os imagino que meus irmãos passaram por tudo isso quando vieram para cá atrás de mim.
Faz dez anos que vieram e nunca chegaram e nem voltaram para o nordeste.
Aconteceu isso com seus irmãos?
Não sei o que aconteceu. Só sei que depois de dois anos que eu estava aqui, pois vim para cá primeiro antes de ir para Campinas e escrevi à minha família que estava aqui. Meus dois irmãos e minha única irmã escreveram-me que também viriam.
Nunca mais soube deles e nem meus pais que ainda estão lá no nordeste e até hoje nunca receberam notícias.
Sinto como se estivesse tentando recuperar minha própria família, ajudando os parentes de Tião.
Numa conserva que tive com a menina Das Dores sobrinha de Tião até chorei imaginando minha irmã tendo passado ou feito à mesma coisa que ela estava propondo. Tenho de ajudá-los custe o que custar.
Está bom. Trabalhe só pela manhã e pode ir, mas já sabe. Aquele assunto de falar sobre Tião aos familiares ou à polícia nem pensar.
Está certo. Vou ver se arrumo algum emprego ou algum lugar para aqueles infelizes.
Ele almoçava sempre no restaurante do Paulinho perto da oficina por isso após o almoço regressou direto à pensão e ao passar em frente ao armazém de Sr. Alfredo na vã ilusão que também alimentava de encontrar Sebastião de volta verificou movimento de pessoas no local por isso parou o carro e foi verificar o que estava acontecendo.
O que estão fazendo aqui? Perguntou a um dos homens.
Não sei. Pergunte prô chefe. É aquele ali e se chama Onofre.
Sr. Onofre que vão fazer nesse barracão? Moro aqui perto e é só curiosidade.
Conforme eu sei isso aqui estava alugado, mas foi devolvido pelo inquilino que nunca saía e de repente desmanchou o contrato e o dono vendeu-o.
Vão construir um prédio de dezessete andares de apartamentos com lojas em baixo e tudo mais.
Santo Deus. É o senhor Alfredo?
Alfredo? Não. O dono era Sr. Álvaro que alugava isso aqui para um camarada que fazia transportes. Parece-me que era um tal de Roberto de Guarulhos. Ele vendeu para uma construtora.
Filho de uma puta. O Cara era Alfredo, depois virou Cândido e agora se transformou em Roberto. É muito safado mesmo e já deve ter sumido para sempre.
Que é? Se ele lhe deve algum dinheiro pode desistir, pois Sr. Álvaro há muito tempo queria o terreno e ele nunca devolvia amparado pelas leis do inquilinato e alguns meses atrás sem mais nem menos devolveu as chaves com uma carta de desistência do imóvel por portador avisando que viajaria para o exterior urgente para receber herança de parentes.
Num tenho nenhuma divida para receber dele não. É outra estória bem diferente e bem pior.
Deixa prá lá. A propósito é o senhor quem vai fazer a construção?
Não. Por quê? Quer serviço?
Não é para mim. Tenho dois amigos que precisam.
Um tem uns quarenta anos, mas é forte. Veio recentemente do nordeste e está acostumado no duro e serviço de servente vai ser mole para ele. O outro é o filho já rapaz feito de uns dezesseis ou dezessete anos.
Para o velho eu não arrumo não. Vai querer carteira assinada, salário de maior e tudo o mais, mas para o garoto eu posso arrumar na minha firma de demolição que é o que vou fazer aqui, mas sem registro e com salário de menor. Preciso vê-lo para saber se não é doente.
Não é não. Está meio fraco porque fez uma viagem muito penosa para chegar aqui, mas dentro de três a quatro dias estará em forma e o trarei aqui.
Tome meu cartão e leve-o ao escritório no início da semana que vem. O serviço aqui que começará amanhã só levará no máximo três dias. É pouca coisa para demolir neste armazém e depois em outras demolições o garoto já pode estar dentro.
Então até segunda feira Sr. Onofre.
Até mais ver.
Espere um momento. Eu acho que a firma que vai construir é a Simplicio & Santos Construções e é certo que irão precisar de serventes na obra.
Se quiser eu consigo o endereço da firma, pois amanhã já virão engenheiros fazer estudos para a obra.
Você pode levar seu parente para procurar emprego com eles.
Não é meu parente não. E só amigo e quero sim. Amanhã passo daqui para pegar o endereço.
Tudo bem.
Até amanhã e muito obrigado Sr. Onofre.
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NO HOSPITAL
Todos os recursos médicos não fizeram Sebastião voltar à consciência.
Os ferimentos já estavam curados, os ossos colados, as cirurgias absolutamente bem feitas foram sucesso e os órgãos de Sebastião como pulmões, rins, intestinos e coração funcionando perfeitamente, tendo sido desativados todos os aparelhos de vida vegetativa, porém seu único movimento era com os olhos que vagava pelo teto da UTI aparentemente sem nada ver.
Nenhum som era emitido. Nenhum movimento de braços, pernas ou da cabeça.
Tal situação deixava os médicos atonitos, pois seu cérebro trabalhava corretamente mandando informações à muitos órgãos que funcionavam adequadamente permitindo-lhe defecar, urinar, suar, respirar e et cetera.
Até ereção do membro genital acontecia.
Como era possível o cérebro enviar mensagens tão perfeitas a muitos nervos e músculos e nada a outros?
Por isso ainda acreditavam na total recuperação de Sebastião que já não corria risco de vida, entretanto permanecia em sono profundo sem acordar já há muitos meses.
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GENÉSIO CONTINUA TENTANDO AJUDAR OS NORDESTINOS
Genésio foi até onde estavam os nordestinos e encontrou Afonso e Zezinho ainda dormindo no chão tamanha fora a bebedeira da noite anterior que os fizera permanecer dormindo a manhã inteira até esse inicio de tarde.
Eles haviam aprendido beber cachaça com outros mendigos, mas em pequenas quantidades quando compravam com esmolas ou ganhavam.
Um litro todo foi demais para eles e como nada havia a conversar com as mulheres que nem estavam próximas achou melhor voltar ao trabalho e deixar o meio dia de folga para a segunda feira para levar Zezinho à empresa de demolição.
Na ida à oficina encontrou com Josefa nas imediações e pediu-lhe que não deixasse os homens saírem de lá, pois a noite iria conversar com eles sobre emprego para ambos e que os impedisse de tomar cachaça.
Deixou-lhe vários embrulhos com comida voltando à oficina.
Procurou pelo patrão insistindo em conversar com ele que o recebeu nervoso e agressivamente.
Sr. Fábio.
Não está vendo que estou lendo o jornal? Não me incomode.
Preciso falar com o senhor.
Que está fazendo aqui? Não pediu folga nessa tarde?
Pedi sim, mas não será necessário hoje e sim em outro dia.
Então vá ao trabalho que já são uma e meia. Já atrasou meia hora no almoço.
Que almoço? Ainda nem almocei.
Quer dizer que ainda vai ao restaurante?
Não vou não. Na hora do café como um sanduíche.
Então suma que quero continuar lendo meu jornal.
O senhor tem lido tantos jornais o dia todo. Que tem lido neles de tão ruim que está sempre mal humorado?
Nada não. Nada de ruim nem nada de bom. É que quando lia sobre o Tião acabei tomando gosto pela leitura e viciei. Agora não passo um dia sem ler as notícias do Brasil e do mundo. Caia fora que não quero conversas.
O rapaz sem conseguir falar com seu patrão trabalhou o restante do dia e voltou apressado para a pensão.
No caminho como sempre decidiu passar em frente o armazém que iria ser demolido no dia seguinte e ao ver o portão totalmente aberto teve uma idéia que o fez voltar rapidamente à oficina.
Encontrando o patrão que o atendeu muito a contra gosto contou como o armazém fora entregue ao dono pelo Sr. Alfredo que usava o nome falso de Roberto na locação, de maneira apressada sem haver retirado nada e que o início da demolição seria no dia seguinte, pois o terreno fora vendido.
Toda a roupa de Sebastião, seus pertences pessoais e móveis ganhos do Sr. Alfredo ou comprados por ele próprio estariam nos cômodos e com certeza seriam pegos pelos empregados da demolidora.
Não seria errado se ele os pegasse para os parentes de Sebastião que deveriam usufruir dos bens deixados.
Sr. Fábio nas últimas conservas que teve com Genésio percebeu suas boas intenções e decidiu ajudá-lo. Concordou com a idéia e foi com ele de caminhão apanhar todos os objetos de Sebastião cujas roupas serviriam para os homens e os móveis e eletrodomésticos vendidos para com o dinheiro auxiliá-los.
A chave da casa estava guardada como era costume em um local próximo dela e isso era do conhecimento de Genésio que não teve dificuldade em encontrá-la e abrir a casa.
Com a ajuda de Sr. Fábio colocou tudo no caminhão levando para a oficina.
Ficaram surpresos em ver que todos os móveis e eletrodomésticos eram novos e de ótima qualidade como televisores, aparelhos de som, relógio de parede, máquina de lavar roupa, máquina de escrever elétrica das mais modernas, geladeira, freezer e muitas outras coisas. Até cordões, anéis e relógios de ouro encontraram.
Entreolharam-se indignados em dúvida se Sebastião fazia parte da quadrilha por ter tantos objetos caros ou se seriam presentes do patrão traficante.
Provavelmente jamais alguém fosse saber da verdade.
Concluíram que Sr. Fábio ficaria com muitos objetos de Sebastião por um preço razoável, pois não tinha em sua casa mobílias e eletrodomésticos de tão boa qualidade, além de já serem velhas.
O que lhe interessava levaria naquela mesma noite e no outro dia avaliaria nas lojas para repassar o dinheiro da compra ao Genésio.
Em vista de todos os bens deixados por Sebastião com certeza seus familiares teriam suas vidas acertadas rapidamente.
Prometeu a Genésio que a partir dessa noite deixaria a chave da oficina com ele para que o pessoal de Sebastião tomasse banho e até dormisse lá dentro desde que ele chegasse muito cedo para retirá-los para não atrapalharem no serviço.
Roupas para as mulheres ele traria de sua esposa e filhas na manhã seguinte.
Retornaram a oficina e guardaram o que não lhe interessou para ser vendido a outros.
Concluída a tarefa despediram-se.
Sr. Fábio levou em seu caminhão os móveis que iria comprar.
Genésio foi para a pensão encontrando-se com os nordestinos nas imediações.
Eles recusaram a oferta de ele ir comprar mais alimentos, pois o que sobrara do almoço mais o que conseguiram pedindo fora suficiente para o dia todo.
Conversaram:
Sr. Afonso acho que consegui emprego para o Zezinho. Para o senhor vamos tentar mais à frente. O que vocês têm de fazer é parar de beber.
Isso é da minha conta seo moço. Eu num to aqui prá arrumá imprego seu não. Tô e fico aquí pra esperá Tião e daí ele que vai sabê o emprego mió para mim, mais, Zezinho.
Calma Fonso. Tu despois qui morreu nosso filho Severino ficou tão bravo. O moço só qué ajudá mais nóis. Nada si pode falá com ocê, qui já vem cum brutalidades, além do que só fica bebendo. Virô outro home, muitio diferente do que era.
Cale essa peste dessa boca mulhé. Num to falando mais tú.
Sr. Afonso já que a conversa é conosco então vamos continuar com calma. O senhor quer encontrar Tião não é? Então é claro que tem de continuar vivo e para viver tem de alimentar, tomar banho, vestir e para conseguir isso é não bebendo mais e trabalhando.
Tu tem te mostrado muitio intereçero em nóis. Que qui tú tá querendo em troca?
Ô pai. O sinhô Genésio é amigo do tio e é a única pessoa qui encontramo aquí, cum carinho prá nóis e tu fica brigando mais ele? Tem ajudado tanto nóis, qui só Deus vai recunhecê e pagá o que ele tem feito.
Obrigado Das Dores, mas o que estou fazendo é o que todas as pessoas deveriam fazer aos que precisam, pois só assim resolveríamos muitos problemas que existem nesse país. Essa é minha obrigação.
Fale logo seo moço o que qué falá e num pensa qui purque tem ajudado mais nóis, tú vai mandá em nóis. Num pensa que vai arrumá emprego pra nóis home e despois ficá mandando nas mulieres sendo dono delas e sastisfazendo agrado cum elas.
Josefa irritou-se com o cunhado entrando na conversa.
Cale essa boca maldita home. Eu acho qui to inté viúva do Tião, teu irmão e si eu quizé carinho de outro home eu inté posso tê e si tua mulié também quizé é só te mandá simbora, purque num faiz mais nada a não sê ficá bebendo, desmaiado pelo chão, ou quando acordado só resmungando e brigando. Toma tenência home e para cum as bebida e volte a sê o cunhado bom e carinhoso que sempre foi.
Nois mulieres num queremo ninhum home não, pode tá certo disso. Só queremo que os que sobrou de nóis fique vivo e cum saúde pra encontrá Tião, que já sabemos que vai demorar muitio pra voltá. Esse moço seo Genésio só faiz é nos ajudá, porque é amigo do Tião e num qué nada de nois duas mulieres vélias e muitio menos da minina nova que nem mulhé é.
Tá bão mulhé. Tú pode fazê o qui quizé de tua vida, si acha que num tem mais marido nem filios, mais em minha mulié e filia mando eu. Num quero que Das Dores caia nas vida igual Mercedes, pois essa eu vô casá direito e si algum cabra botá as mão nela eu mato.
Está totalmente desmiolado Sr. Afonso. Sou homem direito principalmente de alguns dias para cá quando aprendi uma grande lição com uma menina pequena e tenho certeza que ela também aprendeu muito com a mesma lição e ninguém aqui pretende fazer nenhuma besteira. Ninguém mesmo. Nem hoje, nem amanhã e nem nunca.
Genésio falava com os olhos vermelhos prestes a chorar.
Maria Quitéria percebeu a emoção do rapaz entrando na conversa sem ver que Das Dores afastara-se chorando de vergonha e arrependimento confirmando que realmente aprendera a lição.
Vamo acalmá todo mundo i pará cum essa briga da muléstia atoa. Tú Fonso escuta o que o moço Genésio tá querendo falá dos emprego, qui só pode sê coisa boa. Si nóis tá aqui e aquí vamo ficá como tú qué, temos qui arrumá emprego prá todo mundo prá ajeitá nossas vida.
Tá bom seo moço. Fale o que tu qué fala qui num vô mais aborrecê mais.
Sr. Afonso como eu já falei várias vezes volto a falar agora. Se vocês quiserem voltar para o nordeste vendo meu carro e pago a passagem de volta para todos.
Também podemos escrever para o padrinho do Tião que ficou tomando conta de suas terras para que ele as venda e lhe mande o dinheiro para as passagens se é que não quer usar meu. Que o senhor acha?
As mulieres qué voltá. Das Dores num sabe si qué ou num qué. Zezinho e eu num queremo voltá não. Meu motivo de ficá é prá encontrá mais Tião que vai tê de esplicá tudinho direito o que apronto prá nóis e daí quem sabe, eu inté penso em querê volta, mais só dispois de falá com ele.
Então já que não quer mesmo voltar podemos escrever para o Sr. Antonio para vender as terras e mandar o dinheiro para o senhor.
Não seo moço. Num tem jeito de vendê. Uma qui as terra lá, num tem documentos dela, outra, porque ninguém lá, tem dinhero prá comprá si pudesse vendê e por último e maió motivo, é que as terras lá, tá nas mão de nossa família desde os tempos de nossos tataravó e vão ficá lá continuando sendo nossa. Algum dia quando as coisa estivé arranjada aqui eu dô jeito de sabê o que faço com elas. E mais outra coisa, que me alémbrei-me agora e é o motivo mais maió de todo. Num quero escrevê prá lá contando as miséria que tamo passando aquí nas terra das fartura que Tião tanto falô que é o Paraizo.
Então vamos falar nos empregos.
Eu já trabalhei muitio de domésticas na Bahia e posso também trabaliá. Das Dores que já tá mocinha também pode. Zefa nunca trabalhô nas casa dos otros mais é nova e forte e aprende os serviço. Fonso e Zezinho já tá quase empregado cumo o sinhô já falô, intão fica bão para nóis.
Ótimo Dona Quitéria. Assim que pensa gente forte e se Deus quiser assim será. Mas temos que arranjar para vocês onde morar e roupas.
Nóis vamo ficá pedindo nas casa e nas ruas, comidas e ropas e a gente vai ganhando algumas coisa.
Não devem fazer isso. Vocês têm de parar de pedir, pois assim não vão ter tempo de procurar emprego e acabam acostumando com essa vida e depois não saem nunca mais. Para Zezinho e Afonso já tenho bastante roupas que ganhei de uns amigos e algumas minhas que não me servem mais e para vocês eu conseguirei com a esposa de meu patrão, com a dona da pensão e com os colegas de trabalho de suas esposas e filhas. Tenho certeza que se eu pedir-lhes eu conseguirei muita roupa.
O sinhô num mandô nóis pará de pedí? Agora falô que o sinhô é qui vai pedí. Num vai acabá parando de trabalhá e acustumá nas vida de pedinte cumo nóis?
Todos da família riram com o raciocínio de Maria das Dores, pois julgaram acertada sua interpretação, mas as explicações de Genésio de que ele pediria aos amigos de muitos anos que doariam tais roupas em consideração ao amigo, não significava mendigar.
Isso aconteceria somente uma única vez e pedido às pessoas certas que estariam prestando um grande favor até com certa satisfação em ajudar e não dando esmolas que geralmente são dadas de mal grado.
Num devemo esperá o tio Tião chegá prá começa trabaliá?
Não Zezinho. Não devem esperar por Tião porque quando eu lhes disse que ele demoraria eu sabia que ele tinha viajado levando seu patrão para longe, mas não sabia o quanto era esse longe. Meu patrão disse-me ainda hoje que soube por uns conhecidos dele que o Sr. Alfredo com Tião tinham ido para o exterior, ou seja, para fora do Brasil e ninguém sabe para onde e sua volta poderá demorar meses ou até anos.
Genésio prometeu-lhes suas roupas que na verdade eram as de Sebastião. Mentiu-lhes sobre a longa viagem do parente ao exterior influenciado pela fuga do traficante para fora do país e não falou nada sobre os móveis e eletrodomésticos, pois não poderiam saber a verdadeira estória. Ele os venderia e de alguma maneira conseguiria dar-lhes o dinheiro.
Quando Zezinho vai começá trabaliá?
Eu conheci o dono de uma firma de demolições justamente iniciando a demolição do armazém onde Tião morava e é com esse homem que o Zezinho vai trabalhar.
Combinei que o levaria na próxima segunda feira na firma dele que é aqui no bairro.
Si vão destruí a casa de Tião, intão adonde Tião vai morá quando chegá?
Não sei Dona Josefa, mas isso ele resolverá quando voltar.
Sinhô moço. Meu filio está muito sujo para í procurá emprego.
Isso já está resolvido. Tenho permissão de meu patrão de deixá-los tomar banho na oficina a partir dessa noite, pois ele deixou a chave comigo para todas as noites irem banhar-se e dormir num cômodo lá saindo sempre muito cedo. Antes de o pessoal chegar para o trabalho.
Genésio levou-os à oficina, acomodou-os e despediu-se.
No outro dia pela manhã antes do sol nascer ele foi tirá-los de lá conforme combinado.
Sr. Fábio chegou tarde e pagou a Genésio a importância correspondente aos móveis que comprara por um valor bastante razoável além de doar seus usados substituídos para serem vendidos junto aos que sobraram e trouxe roupas de sua família.
Novamente nesta noite Genésio levou-os à oficina onde todos se banharam vestiram roupas limpas e dormiram até o dia seguinte.
Chegado o final da semana ele aproveitou para vender o que sobrou dos pertences de Sebastião aos amigos e conseguiu mais dinheiro que juntado ao já recebido somou-se uma importância bem interessante jamais imaginada e que facilitaria muito a vida dos nordestinos.
Ainda no final da semana conseguiu alugar uma casa nas imediações com facilidade, pois o dinheiro arrecadado deu para pagar adiantados seis meses de aluguel, além de sobrar uma boa quantia em dinheiro.
Deixou de vender o fogão, o televisor, o chuveiro elétrico e a geladeira que Sr. Fábio trouxe e comprou vasilhas de cozinha, redes, e mantas para o pessoal.
Com o restante do dinheiro fez um bom suprimento de alimentos não perecíveis e procurou pelos ainda pedintes com roupas limpas.
Explicou-lhes, mentindo, que através de um deputado conseguiu do governo casa gratuita por seis meses, alimentos para dois meses e alojou-os na casa com todo o conforto que ela oferecia.
Deixou-os usufruírem todo final de tarde de sábado e o domingo inteiro só aparecendo na segunda feira no início da tarde quando tirou sua folga já combinada com o patrão.
Conforme previsto nada de bebida fora consumida pelos homens por terem adquirido todo o conforto até então nunca tido e Genésio ao convidar Zezinho para irem ao provável emprego não encontrou resistência.
Sr. Onofre gostou do rapaz e deu-lhe emprego para começar no dia seguinte solicitando-lhe que ficasse naquela tarde para fazerem alguns acertos e passar-lhe algumas orientações.
O benfeitor antes de despedir-se de Zezinho conversou rapidamente com ele:
Ficou satisfeito Zezinho?
Nem sim nem não. Pedino nas rua num trabalhava duro não.
Que é isso rapaz?
Agora eu vô acordá cedo e trabalhá no duro. Já peguei no duro, lá nas roça, mais lá era trabalio para nois mesmo e aquí vô tê de pegá nos duro e é pros otros. Num acho lá muintio certo não.
Ficou maluco? E claro que não é emprego muito bom, pois é certo que você não terá registro em carteira nem nada, mas o salário que vai receber ajudará sua família. Se fizer hora extra que é muito comum ainda aumenta mais seu salário e depois das suas experiências vai arrumar empregos muito melhores.
Num sei se vô gostar não.
Fique firme no trabalho que você vai se dar bem. Vai começar amanhã e o caminhão do Sr. Onofre leva-o e o traz na demolição onde quer que seja, pois ele mora aqui perto e o trará de volta. Boa sorte.
Voltou à casa da família de Zezinho para contar as novidades e encontrou somente Quitéria, pois, Afonso estava dormindo e Josefa não estava com Das Dores e Das Graças e soube que ambas saíram para procurar emprego de domésticas.
Porque o Sr. Afonso está dormindo?
Quando o senhor saiu mais o mininu ele saiu por aí cum aqueles dinhero qui nos deixô, volto bêbado e foi dormí.
Não pode continuar assim. Ele tem de parar com a cachaça para trabalhar também. Eu sei que vocês todos são gente boa e nunca beberam. Só aconteceu naquelas andanças atrás do menino sumido, mas não é vicio antigo e ele tem de parar com esta besteira.
Gente boa nois somo mesmo, seo moço, mais por tudo que acontecu com a gente fás todo mundo mudá o que pensá. O pió qui ficô foi o Fonso. Não só a morte de Severino como dos dois mininus de Tião, si bem qui quem morreu foi só um, pois, o outro só desapareceu, o qui é o mesmo que morrê, mais o mais pió é qui eu acho que ele acha, qui num vai guentá trabaliá muito por causa dos peito que anda doendo muintio. Ele tem dores nus peito faiz muintios ano.
Que dores são estas?
Pelas explicações de Quitéria Genésio desconfiou da tuberculose e entendeu porque o homem estava amalucado.
Até certo ponto tinha muitas razões para estar enraivecido.
Não era para menos o desânimo de Afonso.
Ficou pensativo e entristecido, pois o homem chefe da família estava entregue a bebida e a doença e o filho ainda menor de idade sem ânimo para o trabalho.
Seu aborrecimento ficou estampado no semblante o que fez Quitéria perguntar:
Tú tá aperriado seo moço?
Não é nada não. Estava apenas pensando.
Tú vai arrumá emprego mais eu, Das Dores e Zefa?
Por enquanto ainda não.
Tú falô qui nois é gente boa, mais mais boa é o sinhô.
Obrigado Dona Quitéria.
Moço Genésio. Tú num é casado e vive só, num é? Purquê tú num casa cum minha filia Das Dores, qui já tá moça feita e nas idade inté de casá e mora tudo junto de nóis, todos trabaliando? Ela é moça boa. Fora esses tempos de disgraça ela foi muintio bem criada e orientada. Tá mau vistida e feia, mais agora qui tá se limpando e vistindo roupa boa num viu que ela é bem bonitinha?
Não Dona Quitéria. Isso nunca.
Qui é isso seu moço? Respondeu cumo se eu tivesse te ofereceno o diabo? Ela num é moça torta não sinhô. Lá nas nossas roça e desde qui tamos aqui ela nunca nem namorô ninguem. Ninhum home se aproveito e nem síquer se aproximô dela não.
Não se trata disso. Acontece que já tenho namorada com a qual estou pensando em casar e também porque por aqui a gente só casa quando ambos namorados se amam e não só porque resolveria alguns problemas ou porque as pessoas já estão na idade.
Num se aperreie não, pois tú tá certo. Eu já me rependí de fazê tal proposta.
Tudo bem então? Gosto muito da Das Graças como se fosse minha irmã mais nova. Tenho 28 anos e ela quase pode ser minha filha.
Despediu-se prometendo que voltaria para jantar com eles.
Voltou ao local da demolição para procurar com o engenheiro da firma construtora que lá estaria o endereço da construtora para levar Afonso a procura de emprego.
Encontrou-o e conseguiu tais informações e ao retomar não parava de pensar nas dores de Sr. Afonso.
Será que estaria mesmo tuberculoso ou seria alguma dor qualquer sem grandes preocupações?
Chegou na casa dos amigos e encontrou toda a família reunida inclusive Afonso já acordado que se mostrou arrependido pela besteira feita durante à tarde.
O homem já estava bem dócil, pois agora tinha um teto, roupas e comida e surpreendentemente passou a aceitar Genésio como realmente o que ele era.
Um benfeitor honrado e disposto a ajudá-los.
Combinaram que na manhã seguinte iriam até a empresa procurar trabalho.
A Construtora Simplifico & Santos ficava no centro de São Paulo e para lá foram os dois.
No departamento de recursos humanos souberam que não havia vagas para pedreiros e serventes. Estavam precisando de técnicos em manutenção hidráulica e elétrica além de profissionais de acabamento. Profissões essas que Afonso nem sabia o que significavam e que muito menos poderia exercer.
Genésio insistiu com o atendente conversando:
Senhor. Eu estou sabendo que essa empresa vai começar a construção de um prédio na Rua Guaranesia, em Vila Maria. Como não vai precisar de serventes?
Acontece que a construção é de nossa responsabilidade, mas terceirizamos sub-empreiteiras para as fundações e construção do esqueleto dos prédios. Nosso pessoal só vai para as construções na fase de acabamento e como já temos vários prédios levantados precisamos somente profissionais especializados.
O Senhor pode indicar a empreiteira que irá para a Vila Maria?
É claro. Deixe-me verificar nos arquivos. Rua Guaranesia que você disse? Que número?
Recebido o novo endereço os dois homens rumaram para lá e conheceram Sr. Mauro que era o empreiteiro que daria início à construção. Já no dia seguinte iria construir um barracão de madeira no terreno para a guarda das ferramentas, material de construção e morada do vigia noturno, pois as obras iniciariam dentro de alguns dias.
Tais empresas de empreitadas trabalhavam como prestadoras de serviço. Seus empregados eram por obra, portanto sem registro e consequentemente sem exames médicos pré-admissionais e por esse motivo nada souberam da doença de Afonso. Deram-lhe o emprego para já iniciar no dia seguinte como servente de obras.
Sr. Mauro informou-lhes que era uma empresa de pequeno porte que não poderia arcar com despesas de registros, pagamentos de direitos trabalhistas, mas em contrapartida pagava sempre em dia e 50% a mais que o salário mínimo e fornecia almoço para seus trabalhadores.
Disse-lhes ainda que em se fazendo horas extras daria para ganhar até dois salários mínimos ou mais no fim de cada mês e integtrais sem nenhum desconto.
Genésio sabia da artimanha de tais patrões para fugirem dos encargos trabalhistas, mas Afonso estava numa situação bem delicada para conseguir um emprego correto, pois talvez não passasse nos exames de saúde por isso aconselhou-o a aceitar.
Ficou combinado o trabalho e voltaram ambos para casa com a novidade de emprego arrumado para inicio no dia seguinte pela manhã.
Como estava em horário de almoço Genésio propôs passarem na demolição onde Zezinho já estava trabalhando, pois na volta passariam próximo do local.
Encontraram-no sentado na calçada comendo em uma marmita que também era oferecida pelo patrão. Essa prática era muito comum.
O patrão fornece a comida que rapidamente é consumida e o retorno ao trabalho se faz rapidamente após o almoço sem que esse tempo fosse considerado serviço extra. Era a troca do horário da refeição pelo almoço grátis.
As horas extras só eram pagas pelo trabalho após o expediente.
Quando chegaram próximo foi Zezinho quem falou:
Pai. Nunca ti vi tão bunito assim!
São as roupas que Genésio nos deu e inté imprego já arrumou pra mim. Começo amanhã naquela construção onde era a casa do Tião qui foi derrubada.
Qui bom, pois assim que Tião chegá lá, tú vai tá lá para arrecebê-lo.
E mesmo. Num tinha nem pensado nisso
Despediram-se do rapaz e Genésio levou Afonso até sua casa conversando:
Antes de chegá em casa, tú para num bar para tomar uma cachacinha. Umazinha só.
Não Sr. Afonso. O senhor não pode continuar bebendo.
Tem de parar imediatamente e depois que tiver firme no serviço e bem alimentado, pois passou meses praticamente sem comida vá lá que tome um aperitivo ou outro antes do jantar.
Eu mesmo costumo tomar uma pinguinha para abrir o apetite nos finais de semana.
No verão uma cervejinha bem gelada até faz bem.
Mas nunca por vício. Só de vez em quando.
Estamos entendidos assim? É para o seu bem.
Principalmente porque não está bem de saúde.
Quem qui ti falô de minha doença?
Eu sempre soube. Foi Tião quem me falou de suas dores no peito. (Mentiu para não complicar Maria Quitéria).
É. Tenho sim. Mais num é nada que carece preocupação maió.
Vou deixá-lo em sua casa e vou direto para o trabalho, pois não vou ter tempo para almoçar.
Onde tú moras são teus parentes?
Não. São pessoas que tem casas grandes, geralmente senhoras viúvas que não encontram mais serviço, pois, é difícil conseguir emprego quando velhos que enchem os quartos com beliches e alugam vagas para pessoas sem família morar nas casas delas. Essas casas são chamadas de pensões ou pensionatos.
Que é beliche?
São camas sobre camas normalmente duas onde pessoas que vêm de fora de São Paulo sem família, alojando-se dormindo um em cima do outro sem sequer se conhecerem, mas com o tempo acabam até sendo grandes amigos ou as vezes grandes inimigos.
É paga pelos governo?
Não. São pagas por nós mesmos.
O governo não ajuda ninguém não.
Ocê disse que emprego para mulieres de idades é dificiu?
É sim Sr. Afonso, pois só se encontram bons empregos para as moças novas, em escritórios, balconistas de loja, secretárias, telefonistas e professoras.
Geralmente todas têm algum diploma ou curso profissional. As mais velhas sem nenhum curso quando conseguem algum emprego é só de empregada doméstica e mesmo assim com grande dificuldade, pois as mais novas que não têm nenhum curso tomam-lhes os lugares mesmo como domésticas.
lntão, num vai arrumá imprego prá Quitéria e prá Zefa?
Nós vamos tentar. Vamos procurar sim.
Ocê falô qui os governu não ajuda ninguém. Comu disse que um deputado dos governo qui deu casa e comida pra nóis?
Meio engasgado nas palavras Genésio se corrigiu, alegando que aquele político ajudou-os com o próprio dinheiro porque além de muito caridoso tinha ganhado muito na loteria federal e precisava doar um pouco para se safar do imposto de renda.
Inverdade que foi aceita por total desconhecimento de Afonso sobre tudo.
Por insistência dele Genésio após levá-lo em sua casa entrou para almoçar com eles.
Maria Quitéria ficou muito contente por vários motivos.
Por receber o rapaz como visita.
Por servir-lhe de seu modesto, mas caprichado almoço e principalmente pela notícia do emprego do marido.
Combinaram que Maria Quitéria tomaria conta de todo serviço da casa e Das Graças e Josefa procurariam emprego nas imediações como domésticas e assim fizeram nos dias seguintes por vários dias sem nada conseguirem.
Genésio também nada conseguiu para as duas porque seu conhecimento era só com pessoas também pobres que não tinham condições de terem empregadas e nem de indicar quem pudesse.
Tanto Zezinho como Sr. Afonso deixaram o vício da bebida.
Trabalharam com afinco e receberam seus primeiros salários, valores que consideraram muito bons a ponto de decidirem que todas as mulheres ficariam em casa, porque seus ordenados eram suficientes para todos.
Genésio que quase todo final de semana era convidado para almoçar com eles orientava-os que tais salários pareciam muito dinheiro, pois não tinham que pagar aluguel, comprar roupas, alimentação, por algum tempo, mas que ao terminar esse tempo teriam de arcar com tais responsabilidades. Aconselhou-os que por esse motivo os homens deveriam continuar trabalhando muito como fizeram nesses últimos vinte dias e que as mulheres deveriam arrumar emprego logo pois, iriam guardando os ganhos para um futuro já próximo.
Em sua visita no outro final de semana Genésio surpreendeu-se, pois seus conselhos não foram atendidos. Eles fizeram exatamente o contrário.
A seu ver houve descuido e muito grande por parte de toda família.
As mulheres não procuraram emprego porque todos entenderam que os homens ganhavam muito dinheiro e conforme falaram estavam de fato no “Paraizo” que Sebastião sempre falou.
Na refeição servida havia alimentos recém-comprados a custo caro.
Cervejas foram abertas e todos estavam com roupas novas também compradas por eles.
Sua surpresa ainda foi maior após o almoço ao ver que Zezinho sacou um maço de cigarros para fumar.
Decepcionado com tais procedimentos discutiu com todos alertando-os que essas extravagâncias não podiam continuar acontecendo de forma nenhuma.
Que eles estavam completamente enganados e iludidos com o dinheiro recebido.
Houve até a ameaça de ele não procurá-los mais nos finais de semana se eles não mudassem tal comportamento urgentemente.
Orientou-os do pagamento do aluguel adiantado a cada três meses além da compra de alimentação e roupas tão logo acabassem as que tinham, pois não conseguiria mais nada gratuitamente.
Conversaram bastante sobre tal situação. Muito sobre Sebastião que não chegava e sobre Tiãozinho desaparecido.
Tal conversa irritou Afonso que falou:
Num mi fale mais do Tião. Onde será qui ele si infiô qui num volta? Eu sempre qui posso fico trabalhano na obra no chão da rua prá vê se ele aparece e nada.
Num devemo perdê as esperança.
Num sei não Josefa si tu ainda tem marido. Eu inté acho qui Tião morreu por aí, iguao meu minino Severino sem ninguem sabê.
Num algóre, home de Deus. Meu Tião há de voltá mais nois.
Conversaram e oraram para Sebastião e Tiãozinho por várias horas.
Josefa às vezes chorava às vezes rezava pela volta do marido e também do filho roubado pelo mendigo.
Não só Afonso como Genésio que trabalhavam próximo ao local do desaparecimento do menino, mas também as mulheres sempre procuravam nas imediações, inutilmente notícias da volta do mendigo com a criança.
As próximas cinco semanas transcorreram mais ou menos satisfatoriamente sem abusos exceto o fato de Zezinho não ter parado de fumar.
Tinham recebido salário de outro mês vencido.
Infelizmente as mulheres continuavam sem emprego.
Finalmente numa sexta feira conseguiram em uma casa não muito distante de onde moravam proposta de emprego para Maria Das Dores e Das Graças.
Combinaram que iriam conversar com toda a família e voltariam com a resposta na segunda.
No domingo quando Genésio encontrou-se com eles no almoço conversaram sobre tal situação. Foi Josefa quem lhe explicou a proposta feita à menina.
É numa casa grande que mora um home cum sua mulhé, mais treis filias e um moço casado com uma delas.
Deve ter muito serviço em tal casa.
Eles já tem outra empregada de muitos ano com eles. A moça casada está esperando nascer criança no mês que vem e daí o casal com o nenê vão si muda para a casa deles próprio levando das Graças para trabalhar para eles.
Assim fica mais fácil para Das Graças.
Conforme a Senhora Dona da casa falô eles ficam com Das Graças que tem de dormí lá para aprendê todos os serviço da casa com a empregada mais velha e mais um mêis do nenê nascido. Daí eles vão simbora para outro bairro levando ela mais eles.
Então está tudo bem encaminhado para Das Graças. Ótimo.
Quitéria, Fonso e Zezinho num tão muintio sastisfeito não.
Por quê?
Porque a Das Graças vai pra otro bairro longe daqui e eles num vão podê vê ela sempre.
Isso é questão de acostumar. Com o tempo vocês aprenderão ir até a casa que ela vai trabalhar como também ela poderá vir em suas folgas para cá ver vocês. A própria moça com certeza virá visitar a mãe que mora perto daqui e trará das Dores e Das Graças.
Num é só isso, não.
Que é mais que tem para estarem desconfiados?
É que prometeram de saláriu somentemente a metade, nestes tempo que ela vai ficá aprendendo e só despois de mudá com o casal, que receberá os saliriu inteiro assinado na cartteira.
Prometeram inté colocá ela na escola a noite para estudá. 
Que ótimo se tudo for resolvido assim.
Dêem-me o endereço da família que propuseram o emprego que amanhã farei uma visita a eles apresentando-me como tio de Das Graças, pois tenho mais experiência no trato com as pessoas e verei se são gente decente para tranquilizá-los. Está bom assim?
Tudo bem para nóis.
oooOooo
A CONVERSA DE GENÉSIO COM O PATRÃO
Segunda feira pela manhã quando Genésio encontrou Sr. Fábio na oficina ele como sempre lia os jornais.
Sr. Fábio.  Nunca mais teve notícias do Tião?
Não. Por quê?
Não sei. O pessoal dele está muito aborrecido e aos domingos quando eu almoço com eles só se fala na volta dele.
Eu fico até sem jeito junto deles. Penso até em contar a verdade.
Escute aqui Genésio. Não conte nada para a família dele e a ninguém e nem tente encontrá-lo, pois não vai conseguir.
Por que acho que não conseguirei?
Eu mesmo já tentei e não foi possível.
O senhor procurou-o? Qual o motivo?
Nenhum. Foi por nada. Apenas bisbilhotice.
Tive no Hospital das Clínicas em visita a um amigo e só por curiosidade de saber notícias do Tião é que andei sondando sobre ele.
Como o senhor não conseguiu notícias se quando houve o acidente ele foi para lá? Só depois que o mandaram para o Albert Einstein para as cirurgias. Deveriam ter pelo menos algumas informações.
Não sabem nada.
Nos jornais não se fala mais nada sobre o caso?
Nada. Só se fala na atual política.
É. A tomada do poder do país pelos militares que o senhor falava aconteceu mesmo. Sem nenhum tiro, nem mortos, nem nada. Ainda bem que essa tal revolução foi só mais uma mentira de primeiro de abril e não mataram ninguém.
Foi 31 de março e não primeiro de abril.
Logo depois da meia noite, portanto já tinha acabado o 31 de março.
Tenho medo de muita coisa ainda por vir.
E sobre o Tíão o que o senhor acha que está acontecendo com ele?
Sei lá. Nas Clínicas, a boca pequena e não oficialmente, disseram-me que ele foi transferido do Albert Einstein para um Hospital da Polícia.
Sabe-se lá qual ou onde. Deve ser para ficar fora do alcance de alguém da quadrilha de traficantes para não efetuarem a queima de arquivo.
Na verdade esconderam-no até que se cure para dar o serviço completo ou para morrer definitivamente.
Será que ele se recuperará e contará tudo?
Não sei e digo-lhe mais uma vez que deve esquecê-lo. Nunca deverá falar sobre ele, pois com esse novo governo se descobrirem que o conhecíamos estaremos fodidos para o resto de nossas vidas, pois quererão saber de nós coisas que nunca sonhamos em saber.
Estou preocupado é com a família dele.
Acho melhor você ficar na sua. Nada de dizer a eles a não ser depois de muito tempo quando eles já estiverem conformados e se mantendo por eles próprios.
Gostaria de tentar descobrir alguma coisa sobre ele.
Não tem jeito. Você teria de procurar a Federal para perguntar sobre ele e com certeza ganharia cana no ato.
Com as torturas tão violentas que lhe aplicariam, pois agora é moda, fariam você confessar tudo que eles quiserem. Você envolveria a mim, ao papa e até ao Jesus Cristo.
Nem imagina como os homens sabem fazer as coisas.
Volto a lembrar-lhe para que nunca se esqueça. Se fizer alguma besteira e me ferrar com os homens vou dedurar seu passado.
Tudo bem Sr. Fábio. Não vou tentar fazer nada. Nada falarei e agora vou para o trampo.
Espere um pouco. Está fraco de serviço hoje e você poderia fazer-me o favor de ir até o centro resolver um negócio para mim.
Okey. Vou sim. O que é?
Após saber o que deveria fazer ao patrão Genésio foi ao centro passando antes no endereço dado por Josefa na casa dos prováveis patrões de Maria das Graças conhecendo e os considerando pessoas decentes, honestas e de posses, pela construção da casa e pela aparência e educação do casal que o recebeu.
Deixou quase certo que no dia seguinte a mãe e a tia da menina a levariam logo cedo para o trabalho.
Continuou seu caminho para o centro da cidade ainda pensando em Sebastião intrigado por saber que Sr. Fábio tentou descobrir sobre ele. Qual seria o motivo?
Chegou ao destino. Praça da Sé.
Procurou o endereço recebido e entregou um envelope fechado, em um escritório de advocacia.
O que Genésio não soube é que seu patrão já tinha feito o possível e até o impossível através de propinas, subornos e influencias para descobrir algo sobre Sebastião e que realmente nada conseguiu.
A preocupação do homem era muito grande, pois se Sebastião se curasse e levasse a polícia até sua oficina ele ficaria em grandes apuros, pois teria de explicar seu relacionamento com o traficante.
Aos investigadores seria fácil descobrir que a amizade e sociedade entre ambos já vinha de longa data e ele não teria como se safar de grandes problemas do passado e indubitavelmente se complicaria com a lei, pois embora nada soubesse sobre o presente do antigo amigo seria inevitavelmente envolvido no tráfico das drogas e por ser um clandestino no Brasil.
oooOooo
DE VOLTA A CASA DE AFONSO
Enquanto isso Josefa e Das Graças voltavam para casa para o almoço. Tinham passado toda a manhã nas imediações procurando emprego como domésticas.
Nada encontram e ao chegarem Josefa perguntou a Maria Quitéria:
Quitéria alguma novidade sobre Tião ou Tiãozinho?
Nada. E oceis arrumaram algum imprego?
Não. Nestas casas daquí de próximo parece que só moram gente pobre iguais nóis mesmo. Uma mulhé me falô prá pegá onibus pra mais longe uns pouco, sem precisá inté de saí do bairro, mais, nos lugá de mais residença que fica mais fácil. Muitas mulieres daqui tem suas própias filias trabaliano em casas mais ricas nos lugar melhor. Aquele dia fomos justamente bem longe para conseguí aquela casa que aceita a Das Graças. Num é muito perto não. Acho que tem de sê longe mesmo.
Já fiz o almoço e então dispois de comê, voceis voltam nos lugar mais longe.
Ao retornar do centro Genésio passou na casa do pessoal para dizer-lhes de sua impressão sobre a família que oferecera emprego a Das Graças.
Disse-lhes que se fosse para sua irmã ou mesmo para sua esposa ou filha se ele as tivesse entregaria sem nenhuma dúvida àquela família, pois era gente de fino trato.
Com certeza não só tratariam bem da menina como até exigiriam dela que se instruísse, por esse motivo iriam até colocá-la para estudar.
Contou-lhes que a senhora dona da casa ficou muito satisfeita com Das Graças exatamente por ela ser uma menina ainda nova, sem defeitos e nem vícios, além de achá-la muito bonitinha.
Ela por não saber ainda quase nada seria até melhor, pois aprenderia tudo de forma correta conforme acontecera com a outra empregada que está com eles há vinte anos.
Que seria empregada, mas tratada com carinho, pois a intenção da nova patroa, sua filha é tê-la como babá da criança que está para nascer se possível até o nenê ficar adulto e casar tal qual ela fora criada pela empregada mais velha que continua na casa da patroa antiga.
Todos ficaram contentes em saber as novidades e combinaram que Das Graças iria ao tal emprego no dia seguinte, após conversarem com Afonso e Zezinho à noite.
Genésio despedindo-se caminhou para o carro para ir trabalhar, mas percebendo que não portava a carteira com seus documentos, voltou novamente a casa dos Ferreira da Silva, mas não a achou.
Como não se lembrava do nome do advogado para procurar nas listas telefônicas seu numero não teve alternativa a não ser voltar ao centro da cidade e reaver sua carteira que tinha esperança de encontrar no escritório.
Rumou para a Sé e foi parado e barrado em uma blitz de trânsito, pois com a instalação do novo regime político do país, políciais do exercito, da marinha, da aeronáutica e a federal fervilhava pela cidade fazendo festa na captura dos terríveis terroristas militantes do comunismo que inundavam o país e precisavam ser eliminados urgentemente.
Excluindo-se as crianças, naquela época no Brasil só existiam duas outras classes de pessoas. Polícia e Comunista.
Esse era o conceito. Quem não era um era outro.
Após o almoço Maria Quitéria e Josefa foram de ônibus após pedirem informações para um local onde havia bonitas casas para lá tentarem suas sortes.
Ficaram encantadas ante a beleza das casas com grandes e muito bem cuidados jardins na frente. Vários carros em suas garagens. Ficaram mais fascinadas ainda porque em quase todas elas viam-se placas de metal ou de madeira pregadas nos muros ou nos portões.
Não sabiam ler o conteúdo das placas, mas tinham sido informadas que muitas patroas quando precisavam de empregadas costumam colocar tais placas com os dizeres “OFEREÇO EMPREGO”.
Batiam palmas para serem atendidas, pois não conheciam campainha e muito menos porteiro eletrônico.
Inicialmente levaram grandes sustos ao aproximarem-se dos portões, pois eram recebidas por poderosas mandíbulas com dentes pontiagudos de cães ferozes que as recepcionavam tentando mordê-las.
Com mais cautela chamavam aos gritos de longe dos portões e foram obtendo informações que as placas informavam “CÃO FEROZ” ou “ESTACIONAMENTO PROIBIDO”.
Entretanto encontraram algumas placas com “PRECISO DOMESTICAS”, mas a decepção fora maior, pois nunca eram aceitas.
Choraram ao saber que teriam de fornecer referências de patroas antigas, carteiras profissionais com registros de trabalhos anteriores, informações de capacitações dos trabalhos domésticos e necessariamente o nível escolar de pelo menos alfabetização.
Nada disso era possível de elas oferecerem.
Tinham de agradecer aos céus de pelo menos Das Graças ter caído na simpatia da família que a queria ensiná-la, educá-la, instruí-la e pagar seus salários pelos serviços prestados.
Voltaram à tarde desanimadas em não conseguirem emprego, mas contentes com a experiência que tiveram, pois ao explicarem a Afonso e Zezinho de todas essas dificuldades eles não proibiriam Das Graças de ir para seu emprego praticamente conseguido.
Na conversa a noite os homens consentiram que Das Graças fosse trabalhar em tal casa graças ao conhecimento que tiveram das boas informações de Genésio e da real dificuldade de se conseguir outro emprego conforme as terríveis experiências passadas pelas mulheres.
No dia seguinte logo cedo a menina seria levada ao trabalho.
oooOooo
NA OFICINA SR. FÁBIO PROCURA POR GENÉSIO
Nesse mesmo dia após o almoço Sr. Fábio procurou por Genésio e não o encontrando na oficina preocupou-se gritando aos demais funcionários:
Genésio não veio trabalhar?
Até agora ainda não. Respondeu João um dos funcionários.
Que filho da puta. O que estará fazendo?
Calma Sr. Fábio. O senhor não o mandou ao centro hoje cedo?
Ele só foi entregar uns documentos. Já deveria ter voltado ainda pela manhã.
Deve ter acontecido alguma coisa.
Vou telefonar ao escritório do advogado.
Alô.
Alô Doutor. Aqui é Fábio da Oficina Fábio e quero saber se meu empregado já esteve aí com os documentos?
Calma Senhor. Quem está atendendo é a telefonista. O advogado ainda não chegou do almoço, mas deve chegar dentro de quinze a vinte minutos. Vou transferi-lo para a recepção para o senhor saber se seu portador já esteve aqui. Um momento.
Pois não.
Recepção de Advogados Associados boa tarde.
Aqui é Fábio da Oficina e quero saber se meu empregado já esteve aí com os documentos?
Sim Senhor. Seu funcionário já trouxe a correspondência e foi imediatamente entregue ao Doutor.
Então eu ligo logo mais.
Um momento. Quando seu funcionário chegar na oficina avise-o que ele deixou sua carteira de documentos em cima do balcão e que eu a guardei.
Mande-o procurar-me. Sou o Orlando.
Falo sim. Até logo e obrigado.
Acendeu um cigarro no toco do outro que ainda fumava e nervosamente começou ler o jornal da tarde.
Leu as manchetes chamativas e encontrou:
MILAGRES DA MEDICINA BRASILEIRA:
ENTRE OUTROS MILAGRES VEJA O MORTO QUE VOLTOU A VIVER DEPOIS DE MUITOS MESES. Página 6 do caderno 3 em Ciência e Pesquisas.
Tal manchete deixou-o transtornado a ponto de acender outro cigarro também no toco do que estava fumando, porém pelo lado do filtro e fumou-o assim mesmo enquanto procurava pela tal página no caderno de Ciência e Pesquisas.
Foi lendo toda a página:
“Em um importante hospital de São Paulo o engenheiro Abrado Moinêz Cerqueira Suarêz que teve seu pênis decepado pela esposa traída teve alta nesta manhã com o mesmo órgão implantado totalmente recuperado sem possibilidade de rejeição e executando plena e satisfatoriamente todas as suas funções. Esse inusitado implante foi realizado pela equipe médica do genial Dr. José Kells Zoldre Ramos.
Em outro excelente hospital dessa capital, após sete meses de vida vegetativa um motorista de caminhão recuperou seus movimentos, visão e fala.
Milagrosamente o indivíduo cujos documentos falsos o identificam como Sebastião Pereira da Silva, motorista do caminhão acidentado onde a Polícia Federal encontrou 800 quilos de cocaína pura saiu de seu estado de coma profundo. Moderníssimo aparelho de indução neurológica de origem alémã, com infiltrações a laser, ligado ao cérebro do doente totalmente inerte enviava-lhe estímulos orientados fazendo com que ele saísse da inconsciência total comandando seus músculos e nervos, permitindo ao homem, mover-se, enxergar e até emitir sons ainda ininteligíveis.
Agora com a semi-consciência conseguida fez com que a equipe de cientistas que executam a pesquisa acredite que em um tempo relativamente curto, entre trinta e quarenta dias, o cérebro do paciente voltará a executar suas funções de maneira correta e sem os aparelhos. Sua cura total parece ser perfeitamente viável. Essa pesquisa em andamento inédita no país é um trabalho da equipe do Neuro cirurgião Dr. Alcyr Hasenberg Dantas Silverinha Neto.
As pesquisas de fertilização artificial humana também realizadas nessa capital seguem mostrado seus avanços pelo nascimento do primeiro bebê de proveta...”
O desespero de Sr. Fábio foi tamanho que discutiu e brigou com um de seus melhores fregueses que entrou em seu escritório interrompendo-o em sua leitura.
O freguês queria o telefone emprestado para fazer uma ligação, mas Sr. Fábio também queria usá-lo e aos maus tratos colocou o freguês para fora.
O coitado do homem foi embora para nunca mais voltar achando que o espanhol Fábio tinha enlouquecido.
Ele fez nova ligação para o advogado encontrando-o.
Doutor. Sou eu novamente. O Fábio. O Senhor já leu o jornal da tarde? Estou em pânico. O que faço?
Calma Fábio. Fale devagar que não entendi nada do que disse.
Está bem. Vou falar calmo. O Senhor sabe tudo de minha vida e que não devo nada. O que fiz de errado já é coisa tão antiga que ninguém lembra mais, por isso não me sinto mais devedor.
Pois é. Seus erros são passados, mas não estão pagos e nem perdoados. 
Estou aterrorizado pelo que li no jornal da tarde. O Sr. já leu?
Não. Nem estou comprando mais o jornal da tarde, pois só trazem notícias da política, por isso não me interesso mais.
Vou ler para o senhor. Preste atenção.
Após ler perguntou:
Se Tião falar? Não vai encher de polícia aqui?
Vai ser muito ruim para você.
Mesmo eu não devendo nada para a polícia nesse caso?
Você disse-me que o tal Tião é um bode expiatório e se realmente ele não souber nada com certeza trará a polícia até você para inocentá-lo e com isso passará ser você que terá de dar conta do tal traficante que era seu cliente e amigo. Irmão espremê-lo mais que limão em caipirinha.
Eu sei de muitos endereços e muitas coisas antigas dele.
Sei que não sou obrigado falar nada. Que devo transferir para meu advogado que é o senhor para falar por mim e tem mais...
Espere Fábio. Isso só acontece nos Estados Unidos. Aqui no Brasil não é assim, princip...
Espere o senhor. Eu estou falando e quero que não me interrompa e continue ouvindo. Eu não vou falar nada se a polícia chegar, mas meu maior medo é do danado do Alfredo estar escondido em algum lugar e suspeitar que eu vá abrir o bico e mandar matar-me.
Calma Fábio...
O senhor não entende? Só fica pedindo calma. Não entende que estou falando de um cara perigoso e estou com muito medo. Ele já mandou matar muitos desafetos dele.
Não se desespere e venha amanhã em meu escrit...
Escute Doutor. Quer que eu fique louco? Escute. Ou melhor. Não adianta nada falar com o senhor, pois então até logo.
Desligou o telefone quase que o quebrando.
Entregou as chaves para João fechar a oficina e foi para casa.
O funcionário achou estranho, pois já era quase hora de fechar.
Porque a pressa? Perguntou a si próprio e ao colega Jorge.
Ao chegar em casa Sr. Fábio foi avisado pela esposa que o advogado telefonou após ligar à oficina não o encontrando.
Deixou o recado para ligar ainda hoje sem falta.
Deu o número da casa dele e o da faculdade onde leciona e disse que é muito urgente e para não deixar de procurá-lo.
O homem, mais calmo, ligou ao escritório, mas o advogado já tinha saído.
Ligaria mais tarde na residência.
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A PRISÃO DE GENÉSIO
Nesse dia cheio de desventura, após Genésio ser barrado pela blitz foi conduzido pela polícia para ser detido, pois não portava documentos pessoais e nem os do carro que conduzia.
O carro foi guinchado e ele para o quartel militar.
No anarquismo criado pelos militares recém-donos do poder qualquer ocorrência até o simples fato da falta de porte de documentos era caso grave só resolvido pelo Departamento da Ordem Político Social (DOPS).
Lá encontrariam um grande delito terrorista para impingir ao rapaz que fatalmente confessaria sob torturas, coisa que era usual.
Encaminharam-no ao quartel e essa foi a sua grande sorte, pois entre os políciais militares que receberam as viaturas lotadas de pessoas presas nas ruas, dois irmãos, um cabo e um soldado reconheceram-no, pois ambos residiam próximos à pensão que Genésio morava e inclusive eram amigos dele.
Frequentavam há muitos anos o mesmo bar nos fins de tarde.
Os mesmos bailes ou peladas de futebol de fins de semana.
O cabo militar namorava a filha mais nova da dona da pensão, sempre o encontrando na própria casa.
Os irmãos não tinham porque não facilitar a vida do amigo e conseguiu sua soltura sem sequer deixarem autuá-lo.
Eles intercederam por ele junto aos superiores garantindo que não precisariam perder tempo interrogando-o, pois ele nada devia.
Era um simples e bom mecânico amigo deles além de habilitado a dirigir e verdadeiro proprietário do carro.
Tinham e teriam muitos e muitos outros jovens não amigos de militares para seu trabalho de prender, torturar, punir ou matar como terroristas comunistas.
Os irmãos obtiveram ordens de soltá-lo e assim fizeram sem antes exigirem a promessa de que tomariam muitas e muitas cervejas por sua conta em paga pela sua soltura e liberação do carro apreendido sem nenhuma multa ou pagamento de estadia do veículo desde que ele retornasse nesse mesmo dia com seus documentos, pois teria muito tempo de ir à Praça da Sé apanhá-los.
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NOVA CONVERSA ENTRE SR. ALFREDO E O ADVOGADO
Novo telefonema de Sr. Fábio ao advogado que o atendeu marcando encontro para aquela mesma noite com urgência na própria residência dele onde se encontraram e conversaram muito tempo:
Preste bem atenção Fábio. Eu li todos os jornais da tarde.
Então?
Nenhum outro jornal noticiou o fato e com certeza não noticiará mais.
A censura do governo militar é muitíssimo rígida em todos os meios de comunicação. Nada se escreve ou diz que não seja lido ou ouvido primeiro por eles.
Com certeza houve uma grande falha dos censores, pois tal noticia não foi matéria polícial, social ou artística. Nessas não passa nada. Como era sobre ciência falharam e a deixaram passar descuidadamente.
Até uma simples peça teatral ou músicas está levando nossos jovens talentos à tortura, exílio ou desaparecimento. Só quando dão sorte de fugirem antes é que recebem a mais suave das penas que é apenas o exílio voluntário.
Com certeza quem deixou passar essa matéria assim como quem escreveu serão rigorosamente punidos.
Nessa ditadura militar todos nós somos culpados por algum terrível delito se cairmos nas mãos deles sendo ou não culpados por esse motivo não devemos correr nenhum risco e você corre muitos e grandes riscos.
Devo fugir?
Seu desejo de há muito é voltar para sua terra natal. Não é o que vem falando há tempos?
Sim.
Pois bem. Acho que a hora está quase tardia.
Não falo como advogado, mas como amigo que somos há muito tempo.
Sua ligação com o traficante já vem desde que você chegou ao Brasil e ficou amigo do homem de muitos nomes que já estava aqui também proveniente da Espanha.
Sua amizade com ele por ser seu compatriota fez com que você cometesse muitos crimes como: compra de carros roubados no desmanche que vocês eram sócios.
Adulteração de documentos, estelionato, formação de quadrilha e et cetera.
Coisas que você nunca esquecerá e se a polícia militar apanhá-lo você confessará tudo e muito mais.
Até que matou Getúlio Vargas e Jesus Cristo. Que foi você quem lançou as bombas atomicas no Japão. Tudo que eles quiserem.
É o que realmente vou fazer. Vou mandar-me para a Europa, pois embora tenha casado aqui minha esposa também é de lá e meus filhos estão com os passaportes em ordem devido as férias que sempre passamos na Espanha.
Acho que essa é sua única saída.
Você é do mesmo lugar que seu amigo traficante?
Não. Conheci-o aqui e não creio que ele tenha ido para lá porque ele próprio contou-me que saiu fugido de lá por crime de morte sequestro e estupro.
Então venda rápido o que puder e boa viagem.
Muito obrigado Doutor e desculpe-me pela falta de educação no telefone a tarde.
Eu entendo. Não se aborreça.
O senhor sabe não é doutor. Todo espanhol é por natureza estourado, ainda mais quando está com o fiofó apertado como eu estou.
Tudo bem.
Se achar que pode confiar em mim espero que me escreva de lá mandando-me seu endereço, pois como qualquer brasileiro que se presa sou simpatizante do comunismo e se inventarem de pegar-me talvez tenha de cair fora também.
Despediram-se combinando uma visita ao escritório no dia seguinte para alguns acertos.
O advogado orientaria como planejar a fuga sem deixar suspeita e rastro.
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NOVO DIA DE GENÉSIO
Genésio após solucionar seus problemas do dia anterior, durante o dia inteiro só a noite terminou tudo e foi dormir.
Chegou a oficina pela manhã receoso pela bronca por estar atrasado, pois nervoso com o acontecido dormiu mal e também por ter faltado no dia anterior, mas para sua surpresa encontrou apenas seus colegas de trabalho.
Jorge que é o funileiro e pintor de carros estava terminando um trabalho lá dentro.
João, eletricista de carro havia aberto o portão, mas ficou conversando fora com Genésio, pois não tinham nada a fazer.
Contou-lhe porque estava com as chaves deixadas pelo patrão que passara a tarde anterior brigando com eles, com os fregueses e ao telefone com o advogado.
Quase na hora de fechar saiu com muita pressa sem saber por que, deixando a chave com ele e não aparecera até o momento. Continuando a conversa perguntou:
Genésio você tem o telefone da casa dele?
Não. Ele nunca me deu o número, mas sei onde ele mora. Não é longe.
Já que você sabe não é melhor ir lá saber o que está acontecendo?
Vamos esperar até à tarde depois eu faço isso. Fizeram ambos alguns pequenos serviços e saíram para o almoço.
Genésio decidiu procurar Sr. Afonso para saber se concordaram com a ida da Das Graças para o serviço.
No meio da conversa o rapaz que já insistia há tempos com Sr. Afonso para procurar um médico, fazer chapa dos pulmões e tomar remédios para recuperar a saúde e procurar emprego melhor não conseguia convencê-lo.
Conseguiu foi uma grande discórdia entre ambos.
Istô bem aqui i num me aperreie que num mi carece otro emprego não.
Que conformado o senhor é! Mesmo que não queira outro emprego pelo menos cuide da saúde.
Num tó sentindo nada de doença não e sabe sô moço tu tá querendo muintio mandá na gente.
Não quero mandar nada. Estou apenas tentando ajudar e ainda sou mal tratado pelo senhor com essa grosseria?
Seu filho é do mesmo modo.
Falo tanto para ele providenciar carteira profissional de menor, para tentar um emprego em fábrica cujo trabalho e salários são melhores e não tem jeito.
Diz que está bem no emprego, mas eu sei que não está. Fiquei sabendo que não está fazendo mais horas extras e está sempre chegando tarde em casa e muitas vezes totalmente embriagado.
Aonde ele fica inté tarde?
Deve ser más amizades que estão levando-o à bebida, ao jogo e as farras com mulheres.
Ocê é pai dele? Ele deve tá se divertindo-se, porque é novo e tú qué mandá nos afazer meu e dele também?
O senhor está sendo mal educado novamente.
Isso mesmo sô moço. Meu filio é macho e é claro que qué mulhé para divertí. Tú só vê maldade nas coisa da gente.
Não é assim como o senhor pensa.
A gente tem de ter responsabilidade e dar valor primeiramente ao trabalho e só nos dias de folga à diversão, que é até necessária, entretanto sem abusos.
Ocê que é abusado seu moço. Já manda nas mulieres lá de casa que nunca faiz nada sem sua orde, mais, ni mim e no Zezinho pode pará de querê mandá.
Escute aqui senhor Afonso. Eu estou com muitos problemas hoje e com muitos motivos para estar de saco cheio por isso não quero mais discutir para não apelar com o senhor.
Estou apenas querendo ajudar para vocês também não terem o mesmo fim que teve o... (calou-se)
Si tú qué perdê as estriberas, tú é que sabe. Se tú é cabra macho nordestino impatô, purque também sô nordestino e muintio macho. Muintio mais do qui pode imaginá.
Até logo senhor Afonso.
Té logo não. Tem de ouví umas coisa.
Chega de discussão Sr. Afonso.
Tú tem de sabê e tá tratando com home macho e vou inté te dizê que o dono das casa esteve no sábado em casa para refazê o tal contrato dos aluguel e eu mandei ele fazê nos meu nome e não no seu e assinei, para te prová que eu que sô o responsáve pela minha familha e não tu.
Até logo.
Foi a despedida de Genésio virando-lhe as costas e saindo.
Afastou-se da construção irritado pela briga inesperada, pois os dois estavam com péssimo humor, mas foi chamado pelo patrão de Afonso que disse-lhe:
Estava de briga com seu parente?
O senhor viu?
Presenciei alguma coisa. Não tenho nada a envolver-me com problemas familiares de meus empregados, mas esse tal de Afonso é uma fera. Trabalha até muito bem, mas vive de cara amarrada. Não aceita brincadeiras dos colegas, aliás, não é amigo de ninguém e nem sequer conversa com os outros.
Soube que já agrediu um colega de trabalho com um tijolo e ameaçou outro com uma faca.
Não sabia de tanta agressividade assim não. Sempre soube de sua cara emburrada e mal humorada.
Se eu não ouvisse sua conversa com ele poderia apostar que não conhecia sua voz.
Nunca fala nada. Tem apelido de mudinho e quando brincam com ele tenho medo de quando tiver com umas pingas a mais na cabeça agrida alguém para valer.
O que o senhor falou?
Sobre agredir alguém?
Não. Sobre umas pingas a mais.
Toda manhã, horário de almoço e lanches vai até o trailer perto daquele galpão de madeira e toma suas canas.
Não chega a embriagar-se até porque o tempo que tem nesses horários é curto e não dá para tomar muitas, mas que ele bebe isso é certo. Muitos fazem isso.
Meu Deus. Ele também? Até outro dia senhor.
Genésio despediu-se ainda mais aborrecido e voltou à oficina deixando o patrão de Afonso sem entender sua brusca despedida e sem corrigi-lo de que não são parentes, como sempre fazia quando ele se referia ao Afonso como seu parente.
Os três rapazes na oficina trabalharam toda à tarde fazendo alguns serviços cujos valores sabiam cobrar e João por já estar encarregado de abrir a oficina ficava também com a guarda do dinheiro recebido.
Aos trabalhos de reformas maiores pediam que trouxessem o veículo no outro dia para o patrão fazer os devidos orçamentos.
Combinaram que pela manhã do dia seguinte se encontrariam e caso Sr. Fábio não aparecesse Genésio iria procurá-lo em sua residência.
Despediram e cada qual foi para suas casas.
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O TÉRMINO DO NAMORO DE GENÉSIO
Genésio decidiu encontrar sua namorada na porta da universidade em que ela estudava antes do inicio de suas aulas.
A jovem estudante propôs cabular as aulas, pois tinha muita coisa a falar com ele e ficaram conversando na praça em frente o prédio.
Foi na mesma praça, no mesmo banco que Genésio a conheceu e iniciou o namoro e após alguns sorvetes e refrigerantes ele ouviu todos os lamentos e reclamações dela.
Esse encontro culminou com o rompimento e desistência do namoro conduzido e determinado por ela.
Nos últimos meses de namoro a moça vinha cobrando-lhe mais atenção com ela porque sua ligação com a família de nordestinos estava afastando-o dela.
Ambos trabalhavam durante todo o dia e não se viam.
A noite a moça frequentava as aulas e só podiam encontrar-se nos finais de semana e de há muito tempo os finais de semana estavam reduzidos apenas aos sábados, pois invariavelmente todos os domingos o namorado tinha compromisso com os nordestinos.
Ela disse-lhe estar desgostosa com o namoro embora considerasse Genésio sério e com boas intenções, mas que estava achando-o meio frio pela pouca frequência aos encontros e mais principalmente pelo fato de que seus pais decidiram mudar-se de São Paulo.
Esses foram os motivos que fizera com que ela resolvesse romper definitivamente o romance sem mágoas e rancores.
Genésio tentou ainda segurar-se no último e fraco ramo antes de despencar-se mundo abaixo em seu destino.
Lembrou-se que ela referiu-se a ele como “meio frio”.
Entendeu totalmente errado o sentido da frase por isso contou-lhe que sempre fora um namorador garanhão.
Que ele era quem sempre terminava os namoros após fazer “isso, aquilo e outras cositas mas” com todas suas ex.
Que justamente ela com a qual ele se portava decentemente com fins de casamento recebeu cobrança de falta de sexo e o abandono.
Se ela o achava meio frio ele aqueceria com todo fogo necessário.
A jovem petrificada pelo aloucado e descabido discurso nem se movia do lugar e ele totalmente fora de si enquanto falava começou agir.
Brutalmente beijou-a ao mesmo tempo em que uma mão acariciava seus seios a outra entrava por baixo de sua saia em direção a suas genitálias.
Seus atos insensatos ficaram apenas na tentativa.
Após levar um solene e potente tapa no rosto viu sua amada afastar-se chorando e humilhada sem olhar para trás. Agora com mágoa e rancor.
Não foi a gota d’água. Foram trilhões de gotas d’água.
Foi o oceano inteiro que viera com o maior dos maremotos sobre a jovem.
Ele percebeu que jamais reconquistaria sua agora outra ex-namorada.
Afastou-se e foi para casa.
Sem dormir a noite que passara chorando, desiludido, chateado, com remorso e odiando-se encontrou pela manhã seus colegas na oficina onde trabalharam normalmente sem a presença do patrão.
Combinaram que no horário do almoço Genésio iria procurá-lo em sua residência.
Ao regressar informou aos colegas que a esposa dele disse-lhe que ele estava doente fazendo uma série de consultas e exames médicos e que só voltaria ao trabalho na próxima segunda feira.
Que eles deveriam manter a oficina aberta trabalhando normalmente todos os dias, mas que devolvessem as chaves na sexta feira ao terminar o expediente.
Que estariam dispensados do trabalho no sábado e que retornassem só na segunda feira.
A orientação dada pelo advogado para não levantar nenhuma suspeita estava sendo cumprida.
O restante da semana transcorreu da mesma forma sem nenhuma novidade.
Trabalharam até sexta feira a tarde conforme orientação e Genésio no final do expediente levou as chaves para serem devolvidas.
Foi novamente recebido pela mesma senhora que o informou da cura de Sr. Fábio e garantia de que o mesmo estaria na ativa no início da semana.
Após jantar Genésio procurou pela namorada no intervalo de suas aulas sem nenhuma idéia de como se desculpar.
Mesmo assim foi, mas não a encontrou.
Assistiu uma sessão de cinema escolhendo um filme romântico para tentar inspirar-se e encontrar um meio inteligente e sutil de como se portar diante da ex-namorada, reconquistando-a.
Na fita não encontrou nenhuma situação semelhante a sua para copiar o galã que sempre se dá bem no final e foi dormir desiludido.
No outro dia telefonou a casa dela e teve como resposta que ela não estava e não sabiam para onde fora.
Procurou pessoalmente na residência e foi informado que ela fora estudar fora com um grupo de colegas, mas não sabiam onde.
Na faculdade onde procurara não encontrou nenhum grupo de alunos em trabalhos de pesquisa.
Tal procura foi repetida durante o sábado inteiro até que à noite desistindo de encontrá-la foi para a pensão ciente que não conseguiria nenhum outro encontro com a garota.
Inconformado foi dormir.
No domingo quando Genésio foi visitar o pessoal de Sebastião encontrou Sr. Afonso emburrado e com raiva dele pela briga que tiveram e por isso manteve conversa apenas com as mulheres.
Reencontrou Das Graças, pois conforme previra viera visitá-los neste seu dia de folga.
A menina estava contente com o que estava aprendendo no emprego e muito feliz com o tratamento que lhe era dado por toda a família.
Apesar da felicidade deles pela visita da menina havia um motivo para aborrecimento e em conversa com Maria Quitéria soube que Zezinho não estava.
Sinhô Genésio. O Zezinho num apareceu desde onte.
Pode ter ficado fazendo horas extras sábado à tarde e depois deve ter ido a alguma festa que durou a noite toda. Talvez chegue logo.
Das vezes ele num aparece para dormi a gente procura ele nos serviço no outro dia e encontra ele trabaliando.
Nos fins de semana ele nunca dormiu fora?
Nunca. Porisso é que estou muintio preocupada e já tá quase na hora do almoço. Alguma coisa aconteceu.
Vou procurar saber sobre ele perto do serviço.
Descobriu no bar do Odair que Zezinho brigou no jogo de sinuca agredindo outro rapaz com um taco do jogo, nada muito grave, mas que fora recolhido pelo Juizado de Menores.
Fora informado que sua soltura só seria na segunda feira desde que alguém da família responsável por ele comparecesse.
Anotou o endereço do Juizado e despedindo-se voltou para casa do pessoal onde inventou uma desculpa para contar-lhes o verdadeiro motivo somente após o almoço.
Poupou-os do aborrecimento, pois faziam festa para a Das Graças e para Josefa que havia conseguido um emprego como faxineira em uma pensão no próprio bairro.
Quando ficou a sós com Maria Quitéria contou-lhe a verdade sobre Zezinho.
Ninguém saberia de nada, pois Das Graças nessa mesma noite iria para a casa dos patrões e após a saída de Afonso e Josefa para seus respectivos trabalhos na manhã da segunda feira ele viria buscá-la para irem soltar o menino.
Nesse final da tarde de domingo não iria procurar a ex namorada, pois não imaginou nenhum argumento que pudesse usar para reaproximar-se dela e também por julgar que não a encontraria como no dia anterior.
Procurou João seu colega de trabalho avisando-o que iria chegar tarde na oficina no dia seguinte e novamente foi ao cinema assistindo várias seções seguidas para passar o tempo.
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UM DIA DE CÃO
Pela manhã Genésio quando levava Maria Quitéria ao juizado passou primeiro no serviço de Zezinho inventando uma doença passageira do garoto para justificar sua falta ao trabalho nessa manhã, mas teve assim como a mulher de ouvir comentários do patrão do jovem.
Souberam que Zezinho era muito indisciplinado e que não trabalhava mais em horas extras.
Que se atrasava sempre em seu horário de almoço, pois ficava no bar do Zé bebendo ou no do Odair jogando sinuca e bebendo.
Que ele e seus amigos maus elementos e vadios da redondeza iam à noite aos locais das demolições fumar maconha e fazer arruaças com mulheres depravadas e o que era pior é que durante o serviço dirigia palavras obscenas às moças que passavam próximas ao local mesmo tratando-se de pessoas decentes.
Que só não demitira o rapaz ainda porque era bom trabalhador, mas que suas chances de continuar no emprego eram muito pequenas.
Aconselhou-os em convencerem o menino modificar-se rapidamente e para tal concedeu permissão para que ele nem fosse trabalhar a tarde para que eles tivessem uma conversa bastante longa e decisiva sobre o comportamento do rapaz para o futuro.
Não foi complicado tirarem o menino do Juizado e já em casa Maria Quitéria ouvia os dois conversarem sem saber como interferir.
Estou sabendo de suas atitudes e seu patrão está na iminência de demiti-lo.
Já tô de saco cheio de trabalhá. Tenho amigos que num carece de trabalià e tem muintio mais dinheiro que eu. Eles vivem mió. Arrumam mulieres todas hora, bebem e jogam o dia intero, sem batê a merda dos cartão de ponto e ouví bronca de patrão. Tem um deles que disse que inté vai comprá carro logo logo.
Ele vai comprar carro coisa nenhuma. Com certeza vai roubar algum.
Que é isso, seo moço? Tu nem conhece meus amigos e já os qué chamá de ladrão?
Só podem ser. Trabalhando no duro já é difícil conseguir comprar bicicleta que dirá carro.
Vagabundos como seus amigos onde arrumam dinheiro?
Eles faiz uns negócio por conta.
Tú num tem de se metê cumigo e nem cum eles e si tú continuá se infiano na minha vida mais eles, vou contá que tu chama eles de ladrão e vagabundos e tu vai tê de encará eles. São seis e si eles ti pegá, sei não?
Está bem seu filho da...(calou-se). Faça de ti o que quiser e vá pró inferno com seus amigos bandidos.
Até logo Dona Quitéria.
Não tenho mais paciência e não posso fazer mais nada para Sr. Afonso e para Zezinho. Vou dar um tempo com vocês.
Abriu a porta e saiu e ao entrar no carro viu que Zezinho também saiu batendo a porta da casa com força à suas costas.
Aonde iria?
Com certeza para o trabalho é que não era.
Enganou-se, pois Zezinho foi exatamente para o trabalho.
Procurou pelo patrão e pediu conta.
Foi aconselhado pelo mesmo de que deveria mudar suas atitudes e continuar no trabalho para o próprio bem e da família.
Nada e ninguém o convenceriam. Estava decidido cuidar da própria vida.
Sua irmã mais nova já tinha saído de casa para morar sozinha em outro lugar, porque ele também não poderia sair e morar onde e com quem achasse melhor?
Essa foi à decisão tomada pelo rapaz que recebeu algum dinheiro do patrão e foi à procura dos amigos usuários de drogas, ladrões e traficantes para unir-se a eles. Decidiu que jamais procuraria pelos familiares. Nunca mais queria vê-los ou ser visto por eles.
Como Genésio tinha ido ao Juizado muito cedo, antes mesmo das seis horas da manhã, atrasara-se no trabalho somente uma hora.
Era pouco mais de oito horas quando chegou à oficina encontrando João e Jorge desesperados a porta e lhes perguntou:
O que houve gente?
Olhe lá dentro para ver.
Mas que foi isso?
Desde cedo vimos que não tem mais nada dentro da oficina.
Onde está Sr. Fábio?
Não apareceu e não sabemos dele.
Procuraram na casa dele?
Nós não sabemos onde é e procuramos por você na pensão que também não estava.
Está certo. Esqueci-me que só eu sei onde ele mora. Vamos até lá.
Foram à casa de Sr. Fábio encontrando-a fechada e recorrendo a informações de vizinhos descobriram que no decorrer de semana anterior tudo foi vendido inclusive a casa e que a família tinha ido embora, talvez para a Espanha, na tarde de domingo.
Que desgraçado. Sumiu.
O que será que aconteceu Genésio?
Acho que sei.
Eu também acho que sei. É alguma coisa ligada ao caso do Tião e o tráfico de drogas.
É isso mesmo João.
Jorge que estava empregado há apenas quatro ou cinco meses nada sabia dos fatos ocorridos anteriores a sua admissão por isso não participava da conversa dos outros.
Genésio. Segunda feira passada quando Sr. Fábio deixou-me as chaves telefonou e conversou muito tempo com seu advogado.
A única coisa que sei é que era o mesmo advogado que você tinha levado uns documentos pela manhã. De lá para cá não sabemos de mais nada.
Vamos logo voltar à oficina.
Para que?
Quem sabe encontramos um cartão do advogado que é na Praça da Sé onde fui. Sei ir até o local, mas se telefonarmos é mais rápido.
Voltando a oficina, agora trancada com corrente e cadeados novos, pularam o muro e constataram que tudo possível de ser vendido fora retirado no sábado e talvez no domingo de manhã antes da fuga.
Jornais velhos não são vendidos e por esse motivo encontraram um jornal jogado em um canto do escritório do patrão ainda aberto na página 6 do caderno 3 em “Ciência e Pesquisas”.
Leram a notícia da possível e breve cura de Sebastião e concluíram que Sr. Fábio tinha ligação com o tráfico de cocaína porque tal notícia provocara seu desaparecimento.
Como não encontraram nenhum cartão com o telefone do advogado foram os três imediatamente para a Praça da Sé a procura dele.
Os rapazes não o conheciam, mas seria a única pessoa possível para saberem de alguma coisa já que o último contato do Sr. Fábio na oficina fora um longo telefonema para ele.
O advogado recebeu-os amável, calmo e sereno, mas ficou boquiaberto e incrédulo quando os rapazes contaram da fuga de Sr. Fábio e o provável motivo.
Assustou-se tanto quanto o Jorge que de nada sabia quando João e Genésio revelaram todo o possível envolvimento de Sr. Fábio com o tráfico.
O astuto advogado informou-lhes que seu contato com Sr. Fábio era somente para negócios de cobrança.
Todo problema de não pagamentos de duplicatas ou cheques sem fundo de clientes da oficina eram passados para que ele efetuasse as cobranças judicialmente.
Comentou inclusive sobre aquele telefonema em que Sr. Fábio insistia em que a cobrança que lhe enviara pela manhã pelo próprio rapaz presente deveria ser efetuada no decorrer da semana. Coisa que é quase impossível.
Disse ter achado estranho Sr. Fábio estar oferecendo quarenta por cento de honorários ao invés dos normais vinte sempre cobrados como era praxe.
Orientou-os a procurarem o escritório de contabilidade para talvez conseguirem alguma informação embora ele não conhecesse o contador nem seu telefone ou endereço.
Aconselhou-os às vezes dócil às vezes energicamente sobre os grandes problemas que eles teriam se o traficante sarasse e falasse, pois na falta dos maiores culpados os políciais poderiam incriminá-los pelo simples fato de terem trabalhado juntos de tais meliantes e antes de despedirem ainda orientou-os de evitar contarem tal história a outros.
Pediu-lhes que se eles fossem presos que não falassem sobre seu escritório de advocacia, pois ele nada tinha como ajudar nem prejudicar ninguém, mas poderia ser prejudicado só por conhecer Sr. Fábio, que só agora ficara sabendo ser um bandido fugitivo.
Devidamente enganados e assustados os três voltam ao carro e João e Genésio comentaram não saber o endereço do escritório contábil, pois quando foram registrados o escritório era lá no bairro, mas que tinha mudado para o centro há mais de um ano.
Foi Jorge, muito sobressaltado, mas menos apreensivo com relação aos prejuízos, pois suas perdas trabalhistas eram pequenas quem disse:
Sei onde é o escritório. É no começo da Liberdade antes da praça dos japoneses. Dá para ira pé.
Então vamos lá.
Gente. Estou com medo de toda essa história e quero ficar fora. Ensino-os onde é e daqui mesmo caio fora.
Está bem. Onde é?
Foi explicado o local, mas Jorge antes de despedir-se teve a idéia de dividirem entre eles o dinheiro arrecadado na oficina durante a semana.
Ele insistiu em receber apenas o equivalente aos seus dias trabalhados naquele mês e deixaria a maior parte aos outros cujas perdas eram bem maiores.
Acharam justa a proposta e depois de consumada separaram-se.
Era horário de almoço por esse motivo o escritório estava fechado.
Foram almoçar para esperar o novo período e foi na mesa do restaurante que os jovens conversaram menos estressados.
Você viu João? O medo do Jorge em se envolver com a polícia.
Será que tem alguma coisa a pagar?
Sei lá. O advogado também teria algum problema?
Parece homem honrado.
Mas ficou muito assustado e não quer envolver-se.
É Genésio. Acho que os militares estão pegando todas as pessoas, comunistas ou não para cobrar todos os males do mundo.
Nunca tive tempo de contar-lhe o perigo que passei. Se não fosse pelos amigos militares que tenho eu estava mal arrumado. Fui parado em uma blitz e...
Aconteceu tudo isso?
Interromperam a conserva enquanto aguardavam serem servidos para ouvirem o tiroteio que acontecia ali perto na Praça da Sé.
Sirenes de viaturas e políciais a cavalo passavam pela porta do restaurante como se caminhassem para a guerra.
Almoçavam naquele horário mais ou menos umas quinze pessoas, mas o local foi invadido por mais de trinta homens armados e fardados exigindo-lhes documentos, explicações aos berros e maus tratos.
Daquelas poucas pessoas cujos semblantes se mostravam pessoas simples, direitas e trabalhadoras cinco foram retiradas algemadas aos empurrões para a rua.
O Crime praticado?
Não portavam documentos.
Souberam por pessoas que chegaram depois que os mais de duzentos tiros ouvidos foram para matar dois perigosos terroristas assaltantes de banco.
O saldo dos mortos?
Outros seis transeuntes que acolheram em seus corpos balas perdidas.
Balas saídas das armas dos tais terroristas?
Claro que não. Nem sequer tinham armas.
Só tinham seus rostos semelhantes aos vários rostos mostrados como assaltantes de banco em grandes cartazes colados em todos locais públicos da cidade como PROCURADOS.
Seriam os próprios procurados ou apenas parecidos?
Jamais saberemos.
Estavam desfigurados pelos tiros. Como seriam reconhecidos.
A conversa entre os rapazes durou apenas mais duas frases com João falando:
Então também estou fora.
Minha vida vale muito mais que o dinheiro que acho que não vou receber mesmo.
O contador também não deve saber de nada e nada irá nos pagar.
Vou cair fora para o interior hoje mesmo para onde mora minha família.
Acho que você está certo. Eu também estou fora. Não vamos procurar por nenhum contador e sair da área.
Como o almoço ainda não tinha sido servido dispensaram-no e saíram sem comer e foram para o carro estacionado encontrando os tradicionais compradores de carro, espalhados pela cidade a mando das agencias de compra e venda de veículos.
Olharam o carro de Genésio e ofereceram um valor razoável o que o fez interessar-se pela venda, pois precisaria dinheiro para montar uma pequena oficina ou entrar como sócio em alguma já montada.
Despediu-se do amigo e foi fechar negócio na loja.
Essas transações eram bastante ágeis.
Bastava entregar o carro, os documentos, as chaves, assinar a transferência, assinar um cartão de cartório para reconhecimento de firma, receber o dinheiro e despedir.
Tudo foi feito tão rápido que antes das quatorze horas Genésio saltava do ônibus no ponto próximo à pensão.
Nada tendo que fazer nessa tarde fria de inverno entrou no costumeiro bar do Zé, ainda inconformado e descrente de tudo e de todos, pediu uma dose de conhaque e uma cerveja e ficou pensativo solitário em uma mesa imensamente aborrecido relembrando tudo que passou nos últimos dias.
Enquanto bebia pensava e sofria sem saber o que faria daquele dia em diante.
Chorou amargurado por ter sido abandonado pela namorada.
Odiou-se por ter confessado à pessoa que mais amava ter sido um despudorado e tentado agarrá-la a força no meio da praça na presença de todos os transeuntes.
Xingou por ter sido roubado por Sr. Fábio.
Lamentou por não ter mais onde trabalhar.
Desejou a morte de Sebastião para ele nada falar, pois possivelmente o prejudicaria.
Pediu o segundo conhaque e outra cerveja.
Sofreu ao pensar em Maria Quitéria, Josefa e Das Dores. Qual seria a sorte delas?
Enraiveceu por lembrar de Zezinho, pois sabia que estava enveredando por maus caminhos cuja volta seria irreversível.
Ficou com imensa pena de Sr. Afonso. Homem doente, trabalhador, ciente de suas responsabilidades de chefe de família que abandonara toda sua vida do sertão para encontrar-se com o irmão, provavelmente traficante em coma em um hospital e a cada dia que passava mais irritado ficava por não poder resolver, nem decidir nada e tampouco se reencontrar com o irmão.
Lembrou-se do orgulho com que ele contou ter assinado o novo contrato de aluguel isentando-o de tal responsabilidade para provar aos outros e a si próprio que ainda mantinha sua autoestima e o amor próprio.
Recordou com tristeza do horrível mau humor desse mesmo homem que aumentava a cada dia e das cachaças que estava bebendo diariamente.
Sentiu pena do pessoal que gastou as economias para pagar o próximo aluguel trimestral.
Perguntou-se se eles conseguiriam economizar para os próximos.
Imaginou Zezinho totalmente perdido drogando-se, traficando, roubando, estuprando, matando e morrendo.
Sorriu por lembrar que Das Graças já trabalhava e também iria ajudar nas despesas da família.
Pediu o terceiro conhaque e mais uma cerveja.
Amaldiçoou-se por tal atitude.
Chorou novamente por lembrar-se que a namorada escondia-se dele não lhe permitindo a tentativa de reconciliação.
Ficou intrigado com a mudança repentina dos pais da namorada. Imaginou-os também fugindo de alguma coisa. Seria da repressão dos militares?
Será que eles também tinham alguma dívida com o país? Ou seria só medo.
Sorriu por lembrar que Josefa também arrumara emprego.
Enfureceu ao lembrar que Zezinho estava prestes a perder seu emprego. Não sabia que isso já tinha acontecido desde manhã.
Continuou enfurecido por lembrar que Sr. Afonso também corria o mesmo risco.
Imaginou o horror que seria o futuro da família de Tião.
Conformou-se com a situação de todos, inclusive com a sua e pediu o quarto conhaque e mais outra cerveja.
Estava agindo de forma até então incomum, pois beber durante a semana era coisa muito rara de ele fazer e quando bebia nunca era mais de uma simples cerveja ou no máximo duas.
Voltou a pensar na fuga do patrão.
Perguntava-se: O que iria acontecer daqui para frente?
Viaturas da polícia, políciais a cavalo e a pé passavam por todos os lados e a toda hora.
Alguns entraram no bar olhavam para tudo e para todos com cara de maus. Parece que tiveram treinamentos e aulas para fazer cara feia.
Procuravam não se sabe o que nos banheiros, na cozinha e em outros cômodos reservados e sem nada achar lançando olhares ameaçadores aos poucos fregueses daquela hora iam embora.
Já estava muito bêbado quando pediu o quinto conhaque, a quinta cerveja e o primeiro torresmo.
Arrependeu-se imediatamente. Beberia ou deixaria tudo na mesa e iria para casa? Decidiu beber.
Seria a saideira e foi ao término dessa rodada rodeado pelos seus terríveis demônios já totalmente embriagado foi abordado pelos dois amigos militares de folga nesse dia, a paisana que chegaram ao bar.
Olá Genésio. Como está?
Tudo bem.
Viemos tomar umas cervejinhas por sua conta, pelos favores.
Tudo bem.
Parece aborrecido e de porre? Por quê?
Tudo bem.
Olhe cara. Você só sabe falar “tudo bem?” Está acontecendo alguma coisa?
Não houve resposta. A atitude de Genésio foi chamar o garçom solicitar-lhe mais uma cerveja com dois copos para os amigos e a conta acrescentada de mais meia dúzia de cervejas que deixaria paga aos amigos.
Que é isso cara? Vai deixar cerveja paga para nós e correr que nem um coelho?
Acontece que eu estou bêbado e vou embora, pois nunca bebi tanto na minha vida e não aguento mais.
Que você está bêbado dá para ver. Mas fugir de nós por quê?
Não estou fugindo de vocês e nem de ninguém.
Será que você tem rabo preso e a gente nunca desconfiou?
Não aguento beber mais nada e é por isso que vou embora.
Nós vamos aceitar as cervejas sim, mas sua atitude irritou-nos. Será que é também algum comunista disfarçado e não quer ficar em nossa presença?
Não é nada disso. E desculpem-me, pois não aguento mais ficar aqui.
Só fica repetindo as mesmas frases. Isso é alguma orientação de seus superiores da militância comunista? Agora só fala: “Não aguento mais”. Suas atitudes são suspeitas.
Outro dia conversaremos. Boa tarde.
O interrogatório continuava:
Será que é só bebida mesmo? Nada de erva ou pó?
Que é isso? Nunca usei nada.
Vamos ficar de olho em você.
Pelo amor de Deus gente. Vocês conhecem-me há tanto tempo e estão imaginando besteiras a meu respeito. Não devo nada e nada tenho a esconder. Apenas dei uma bobeira e enchi a cara, por que levei o fora da namorada.
Irritado o soldado deu por terminado o interrogatório ameaçando-o:
Já que quer ir então vá. Mas vá com muito calma, pois as ruas estão cheias com nossos colegas que caçam bandidos, vagabundos e comunistas e se pegarem-no nós vamos deixar que eles descubram se deve alguma coisa para nós, pois agora mandamos e queremos cobrar tudo o que nos devem. Eu acho que você deve muito, pois numa segunda-feira magra dessa em plena cinco horas da tarde estar nesse porre é porque tem coisa escondida e o medo está tomando conta de você.
Genésio despediu nervoso e afastou cambaleando.
Estava bastante embriagado, mas soube entender bem o recado dos que eram tão seus amigos, mas que com o poder estavam autoritários, arrogantes e sedentos de vingança.
Vingar o que?
O que o povo simples, pobre e sofredor dessa terra teria feito de ruim ao país ou aos militares?
Lembrou-se das patentes dos amigos. Um soldado e um cabo e agindo assim com os próprios amigos.
Como estariam agindo os graduados?
Principalmente com os estranhos?
Perguntava-se isso quando já estava próximo de sua casa graças aos céus são e salvo.
No portão, antes de entrar vomitou tudo que tinha no estomago.
Apenas alguns torresmos engolidos mal mastigados, muito líquido e todas suas esperanças jaziam no chão sujo.
oooOooo
SONHO DE AMOR OU TARDE DE ORGIA?
Terrivelmente embriagado entrou na casa e em seu quarto sem sequer despir-se, praticamente desmaiado sem nenhuma consciência e reflexos, caiu na cama dormindo a sono profundo imediatamente.
Em seu sonho amou maravilhosamente a namorada.
Ela chegou linda em sua cama. Despiu-se e despiu-o carinhosamente.
Acariciou beijando e chupando seu pênis e abaixo dele no escroto.
Delicadas mordidas eram um delicioso afago em seus testículos. Tornava colocar seu pênis na boca engolindo-o por inteiro, voltava aos testículos e mesmo com a boca sempre ocupada gemendo e com voz rouca, chamava-o de meu amor. Meu tesão.
Pedia-lhe suplicante e insistente:
Penetre em mim. Deflore-me. Coloque esse pinto maravilhoso atrás, na frente, na minha boca, na orelha, nos seios, no umbigo. Quero que goze em meu corpo inteiro.
Quero que me chupe. Que me rasgue. Quero tudo. Tudo.
Quero tudo e muito mais. Dá-me tudo até que sangre.
Seria o mais admirável dos sonhos se não fosse mau sonho.
Era um pesadelo, pois em seu devaneio ele estava dormindo bêbado e embora visse e sentisse o que acontecia permanecia impotente. Seu corpo não respondia aos impulsos dos desejos.
Às vezes sentido-se meio acordado lembrava que dormiu bêbado, mas porque no sonho também estava dormindo embriagado e nada fazia?
Viu-se cambaleante ser levado por sua amada ao banheiro que por muito tempo banhou-o com água fria, continuando as carícias até sentir sua ereção. Foi levado de volta para o quarto e à cama.
Ambos se acariciavam, e agora menos bêbado seu pesadelo desaparecia.
O sonho passou a ser mais magnífico ainda, pois agora ele participava das carícias chupando-a por todo o corpo prometendo-se amor eterno um ao outro.
Penetrou-a rígido e profundamente deflorando-a, com uma só estocada forte e brutal.
Lambuzaram-se com o néctar do prazer chupando-se em posições invertidas, alimentando-se mutuamente com o líquido quente de seus orgasmos intermináveis.
Gemiam alucinadamente, choravam e riam de prazer e êxtase.
Trocavam mais juras de amor eterno.
Descansavam alguns minutos sem abandonar os beijos e as carícias para novamente começarem a frenética dança do amor com toda volúpia que sentiam.
Penetrou-a vigorosa e vorazmente por trás fazendo-a lamentar de dor no início, para logo depois os gemidos passavam a ser de prazer.
Gozavam cada vez mais demoradamente que era muito melhor e mais deleitoso.
Foram tantas as vezes que chegaram ao clímax que seria impossível se não fosse em sonho.
Nunca ninguém viu nem em filmes pornográficos tantas penetrações e gozos mesmo com dois ou mais homens participando juntos da mesma mulher.
Sentiu-se o super homem do sexo.
Prometeram-se em casamento e despediram-se após incontáveis penetrações e prolongados e simultâneos orgasmos.
Continuou seu sono ofegante de cansaço, depois de terminado o sonho deslumbrante só acordando depois das vinte e duas horas abraçado fortemente ao travesseiro que substituía sua amada.
Assustou-se com toda bagunça que fizera na cama.
Toda roupa de cama estava espalhada pelo quarto, molhada de água, suor e esperma.
O cheiro que emanava de seu corpo e das roupas era fortíssimo. O quarto todo era um depósito do odor do sexo.
Feliz e curado da bebedeira foi lavar-se e embaixo do chuveiro recordando-se de tudo que sonhou excitou-se novamente.
Masturbou violentamente sob a água.
Gozou sem ejaculação.
Riu por perceber ter esgotado todo seu esperma no decorrer de sua deliciosa tarde de núpcias.
Lembrou-se de como sua namorada era surpreendente também na cama.
Entristeceu ao lembrar que tudo não passou de sonho. Simples obra criada por sua imaginação e cabisbaixo voltou ao quarto para vestir-se com roupas limpas.
O forte odor permanecia impregnado por todo o quarto e isso fê-lo enrolar toda a roupa de cama e levá-la para a lavanderia para serem lavadas.
Naquela noite dormiria sobre o colchão e no outro dia inventaria uma desculpa qualquer para a dona da pensão justificando-se pela balbúrdia.
Ao amontoar as roupas viu manchas de sangue e de fezes espalhadas pelos lençóis.
Assustou-se.
Verificou todo seu corpo a procura de algum ferimento e nada achou. Percebeu que seu pênis estava bastante inchado, um pouco arranhado, mas com certeza não seriam esses arranhões os causadores de tais manchas.
E as manchas misturadas de sangue e fezes?
Passou sua mão em seu traseiro.
Enfiou um dedo inteiro dentro de seu ânus e não percebeu nada de anormal. Ele saiu totalmente limpo, pois há dois dias nada tinha comido para transformar-se em excrementos.
As únicas exceções foram os torresmos que já estava fora de seu organismo por outra via.
Recordou-se do sonho e sentiu que ele fora muito real.
Pareceu-lhe que tudo de fato tinha acontecido.
Achou tudo muito estranho e foi até a sala da casa conversar com a dona da pensão, que com certeza estava acordada esperando a filha chegar do colégio às vinte e três horas.
Perguntou se sua namorada visitara-o à tarde, pois tinha ido dormir meio embriagado mais ou menos às dezessete e só acordara a pouco e não sabia o que aconteceu daquela hora até agora.
Soube que a dona da pensão após o almoço tinha passado fora a tarde toda em visita a um parente doente e que somente sua filha mais nova é quem ficou em casa, pois todos os inquilinos, sua outra filha, inclusive a menor só chegariam à noite.
Soube também que os que estudavam curso noturno ainda não tinham chegado e os outros que não estudavam a noite já estavam dormindo ou ainda estavam na rua.
Sua filha sabia que a senhora só chegaria à noite?
Sabia. Eu avisei-a disso e inclusive pedi que não saísse para lugar nenhum para a casa não ficar sozinha até que eu chegasse próximo das vinte e duas horas para ela ir estudar. Por quê?
Por nada.
Você disse que chegou cedo e embriagado. Que aconteceu?
O patrão está doente e deu-nos folga hoje após o almoço.
E a bebedeira. Qual o motivo?
Levei o fora da namorada. Foi por isso.
Então porque quer saber se ela esteve aqui?
Imaginei que ela tivesse arrependido e me procurado para fazer as pazes.
Daqui a pouco minha filha chega do colégio e você pergunta a ela.
Quando a senhora chegou sua filha estava aqui?
Estava. Arrumava-se para ir para a escola após o intervalo, pois nas duas primeiras aulas o professor estava faltando por doença.
Que horas eram?
Próximo das vinte e uma horas.
Ele lembrou-se o que aconteceu nessas quatro horas de orgia.
Há muito já percebia que a menina olhava-o com malicia se oferecendo.
Ele nunca lhe deu qualquer chance de aproximação por vários motivos:
Era filha de sua senhoria.
Era menor de idade. Só tinha quinze anos.
Era namorado do seu amigo. O cabo militar.
Desconfiou que tudo que acontecera naquela tarde e inicio de noite fora real, mas não com sua namorada e sim com a filha da dona da pensão.
Que loucura.
Estava entrando em pânico e o desespero veio devassador pouco depois quando a menina chegou da escola.
A resposta dada por ela à pergunta da mãe sobre a visita da namorada de Genésio foi uma solene negativa, o que deixava bastante claro o que se passara.
Em seguida a menina, mesmo na frente da mãe lançou-lhe um olhar imoral e pornográfico cheio de tara e desejo.
Maliciosamente piscou-lhe mandando um beijo e com a boca entreaberta colocou a língua para fora fazendo o típico gesto depravado de chupar.
Não tinha mais dúvidas. Estava esclarecido. Nada fora sonho.
Estava aterrorizado e tinha de sumir antes que seu colega de quarto chegar e querer saber o porquê da sujeira.
Pelo descaramento da menina estava certo que ela falaria ao namorado militar incriminando-o. Iria culpá-lo de abuso sexual.
Seria considerado e caçado com sendo um estuprador.
O que lhe aconteceria quando tudo viesse à tona?
Como escaparia da dona da pensão?
E do polícial militar?
Seu mundo ruiu. Definitivamente seu planeta despencou.
Só a fuga e imediata poderia dar-lhe alguma chance de continuar vivo.
Despediu-se da mãe e da filha alegando que iria até um bar próximo comer alguma coisa para curar a ressaca.
Levou a tiracolo sua polchete que era hábito antigo.
Nada mais levou de seus pertences para não deixar suspeitas de que não voltaria e foi direto para a rodoviária, pois embora já passasse muito das vinte e três horas, viagens de São Paulo para o Rio permaneciam a noite toda.
Para outros locais era praticamente impossível, pois os horários de ônibus eram poucos na madrugada e só com passagens já compradas antecipadas.
Iria para o Rio.
Já na rua e ao olhar para traz viu apenas a menina à porta e ouviu quando ela lhe gritou:
Quero tudo. Tudo e muito mais. Até sangrar. Não abro mão.
oooOooo
A FUGA DE GENÉSIO
Dentro do ônibus abriu sua bolsa conferiu e encontrou seus documentos e seu talão de cheques. Em sua carteira achou o dinheiro proveniente da divisão com os colegas e o da venda do carro.
Estava intacto excetuando-se apenas o que ele próprio gastara na bebedeira.
Era bastante que somado às suas economias depositadas no banco seria suficiente para montar uma oficina longe dali.
Ficaria no Rio de Janeiro em alguma cidade do interior ou talvez na própria capital.
No decorrer da viagem foi imaginando os possíveis acontecimentos que se seguiriam.
Como era costume na pensão a mãe e a filha logo após sua chegada, entrariam para o quarto de dormir onde normalmente a outra filha já dormia, pois chegava do trabalho por volta de vinte e uma horas e nada iria acontecer à noite que o prejudicasse.
Com certeza a menina não iria procurá-lo, pois seu colega de quarto invariavelmente chegava e se recolhia mais ou menos no mesmo horário que ela.
Também era hábito ele e seu colega de quarto serem os primeiros a acordar e sair muito cedo e por isso levaria bastante tempo para descobrirem seu desaparecimento.
Durante as manhãs a mãe e as filhas faziam a limpeza dos quartos e ele acreditava que a menina faria a limpeza do seu para esconder os vestígios do que acontecera.
Ela iria descobrir as roupas sujas na lavanderia e provavelmente também as lavaria.
Pairava a dúvida se ela o delataria de imediato ou se o aguardaria para conversarem primeiro, pois houve muitas juras de amor e promessas de casamento.
Se ela esperasse para tal conversa havia a possibilidade dela encobrir tudo na manhã que se aproximava aguardando sua volta à noite.
Acontecendo assim talvez só fossem descobrir seu desaparecimento no inicio da noite quando aguardado não aparecesse. Se tivesse mais sorte ainda talvez a menina só deixasse para delatá-lo na outra manhã subsequente.
Teria muito tempo para chegar ao Rio e de lá tomar outro rumo para esconder-se.
Agradeceu o corretor de carros por ter-lhe comprado o mesmo, pois além do dinheiro arrecadado também despistaria sua fuga, pois como ninguém sabia da venda do veículo imaginariam que estivesse fugindo de carro que poderia ser para muitos outros lugares e não obrigatoriamente para o Rio de Janeiro.
Lembrou-se que não pagou ao Paulinho dono do restaurante onde comia cuja conta acertava por mês.
Não pagou a dona da pensão, a padaria, a farmácia, a lanchonete e ao alfaiate que também mantinha conta. 
Perdoou Sr. Fábio por não ter-lhe pago nada antes de fugir, pois ele estava fazendo o mesmo.
Quando se está fugindo desesperado ninguém se lembra ou tem tempo para essas coisas.
Não dormiu no ônibus embora já amanhecesse e estava chegando ao Rio quando pensou na represália que sofreriam seus pais pelos militares, por seu ato totalmente inocente, assim como seu possível envolvimento com os traficantes em que também era inocente. Como provar sua inocência?
Não tinha como, nem em um caso nem no outro.
Descendo no Rio comprou passagem de ônibus direto para Recife de onde iria para Garanhuns sua cidade de origem.
No bar onde tomava o café da manhã, nervoso, pois sua viagem levaria muito tempo e quando lá chegasse poderia encontrar a polícia a sua espera com seus pais já detidos.
O ônibus demoraria duas horas para partir.
Foi a um posto telefônico na rodoviária e fez ligação para a padaria próxima a casa de seus pais como fazia com certa frequência.
Teria tempo de falar a eles que fugissem para Recite muito rapidamente e que o esperassem na rodoviária de lá após quatro dias, à tarde, pois seria o horário e data previstos para sua chegada.
Ele acertaria os pagamentos das suas hospedagens assim como explicaria o porquê da exigência de que eles deveriam com urgência sair da cidade sem falar para ninguém para onde iam.
Por todo o nervosismo que passava ou pelo leite ingerido com pão e manteiga misturado com a sobra de bebida ainda em seu estomago teve uma súbita dor de barriga que não podia esperar.
Desligou o telefone antes mesmo de ele ser atendido e procurou rápido um sanitário.
Abendiçoou e agradeceu aos deuses da diarréia, pois foi no sanitário defecando um líquido mal cheiroso que se lembrou que as únicas pessoas que sabiam de sua origem eram Sebastião, Sr. Fábio, o colega de trabalho João, sua ex-namorada, o contador da Oficina que tinha cópias de seus documentos, seu ex-patrão de Campinas e sua ex-namorada também de Campinas.
Além desses ninguém mais sabia qual era sua cidade natal.
Pelo que tinha lido sobre a recuperação de Sebastião, ainda não tinha acontecido. Que era coisa quase certa, mas ainda dentro de muitos dias após aquela data ainda recente do jornal, portanto ele iria demorar muito tempo para falar sobre ele.
Sr. Fábio não seria encontrado, pois sumira para Espanha.
O contador e o pessoal de Campinas só seriam conhecidos com a volta do Sr. Fábio que era improvável de acontecer para sempre.
Seu amigo João conforme conversaram teria viajado a dois dias atrás para sua cidade no interior. Cidade que ninguém sabia qual era.
Sobre sua ex-namorada ninguém da pensão ou do bairro conhecia e tampouco sabia de sua existência.
Concluiu que poderia voltar tranquilo para sua terra de origem que não haveria ninguém para delatá-lo.
Finalizou sua conclusão ciente que os seus possíveis perseguidores, já chamados de macacos desde o tempo de Lampião, continuavam tendo o mesmo cérebro desses animais e não teriam eficiência nenhuma em investigar nada.
Somente sabiam prender e torturar pessoas que pegavam ao léu pelas ruas, as que fossem devidamente denunciadas e aos artistas por suas evidentes competências e inteligências que lhes faziam inveja.
Teria muito tempo de chegar e explicar calmamente toda situação aos pais para depois mudarem-se de lá por precaução sem deixar endereço com ninguém.
Faria as coisas com calma.
Agradeceu novamente aos deuses fecais que o tinham ajudando.
Os pais que viviam de aposentadoria e dinheiro que ele próprio enviava iriam com ele para Amazonas ou Rio Grande do Sul.
Para qualquer lugar que fosse bem longe de Pernambuco e de São Paulo.
Já dentro do ônibus para Recife e crendo que jamais alguém que deixava para traz o descobrisse viajou sereno.
Idealizou para si e imbuiu-se do fato de se transformar em outro homem, pois todos os erros cometidos e os não cometidos ensinaram-lhe muito e o fez crescer. Propôs-se um futuro totalmente diferente e assim pensando finalmente adormeceu sonhando maravilhas para seu futuro e recomeço de vida junto aos pais longe de tudo e de todos que conhecera.
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EM SÃO PAULO
Passado dois dias da fuga de Genésio o pessoal da pensão desconfiado de seu sumiço procurou-o, encontrando a oficina fechada e desativada.
Reclamaram e provaram ao cabo militar o estupro por ele praticado, pois a menina propositadamente guardara as roupas sujas para incriminá-lo de tal fato.
Iniciou assim uma grande caçada em toda capital e na grande São Paulo.
Felizmente para ele ninguém tinha foto dele, pois com certeza seria impressa nos grandes cartazes de terroristas procurados espalhadas por todos os locais públicos do país inteiro.
Nessa época os investigadores não tinham capacidade sequer de fazer um retrato falado. Só usavam fotos reais quando conseguiam.
No final de semana pelo fato de ele não ter aparecido na casa do pessoal de Tião fez com que Maria Quitéria o procurasse para saber dele como fazer para encontrar o filho que nunca mais voltou, após aquela manhã de segunda feira.
Já fazia uma semana e ninguém o encontrou ou soube dar informações sobre Zezinho.
Sua surpresa foi desagradável em encontrar a oficina fechada e pior ainda quando o procurando na pensão ficou sabendo o que ele havia feito.
Seu desconforto foi enorme, pois imaginou que Genésio teria feito o mesmo com Das Graças sem que ninguém soubesse.
Pelo antecedente da outra filha julgou que a menor com a mesma índole de Mercedes já estava desvirginada escondendo tudo.
Chorou muito, mas nunca comentou com a filha e nem com o marido.
Preferiu a dúvida que a cruel realidade que imaginava.
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ALGUM TEMPO DEPOIS
Após dois meses em certa delegacia de polícia conversavam alguns investigadores com o delegado.
Doutor. Já cansamos de procurar em toda Rua Guaranesia o tal armazém sem nada encontrar. Eu o Nilson e o Cícero daremos um jeito dele falar a verdade.
O homem está tão assustado que não acredito que esteja mentindo. Vamos interrogá-lo mais. Deve ter outros endereços e mais coisas para falar.
Deixe comigo Doutor que eu arranco toda confissão a minha maneira.
Calma Popopó. O homem não aguentará nenhuma porrada. Nem consegue nem ficar em pé.
Precisa ainda de muita fisioterapia para movimentar-se direito. Está com as pernas meio atrofiadas por ter ficado muito tempo deitado e também está muito fraco.
Temos sorte de ele estar falando e parece que com a memória já bastante restabelecida.
Aguentar cacete ele não vai e morto de nada servirá.
Vamos com muita calma.
Muito mais perguntas e respostas levaram novamente os investigadores à Vila Maria que finalmente encontraram o prédio em construção onde fora um armazém.
Ficava bastante isolado tendo em frente e aos lados enormes terrenos baldios e nenhum vizinho ao longe nada informou, pois ninguém conhecia as pessoas que usaram o local quando era armazém e moradia de Sebastião.
Com o chefe das obras conseguiram o nome dos atuais donos que os levaram somente ao dono anterior e depois a procura do tal Sr. Roberto de Guarulhos que era o inquilino anterior à venda com o ramo de transportes. Nome e endereços falsos e nada encontraram em tal cidade.
Imaginaram se tratar do mesmo homem que Sebastião identificava como Sr. Alfredo.
Teriam de ter mais informações, pois o que Sebastião falava de fato existira o que contrariava as suspeitas de que ele mentia. A única coisa que não confirmava era que em todas as investigações antigas os políciais tomaram conhecimento de um tal Cândido como sendo o proprietário do caminhão e possível patrão de Sebastião. Atualmente com o preso dizendo ser seu patrão o Sr. Alfredo, pairava a dúvida. Seriam duas pessoas diferentes ou uma só com dois nomes?
Sebastião não se lembrava que o documento do caminhão estava em nome de Cândido por isso nunca esclareceu tal confusão.
Até então a polícia apenas imaginava se tratar do mesmo homem que Sebastião identificava como Sr. Alfredo. Agora com o nome de Sr. Roberto e endereço em Guarulhos fizeram a polícia concluir que era uma única pessoa com vários nomes e endereços falsos. Fizeram novas buscas em Osasco e em Guarulhos e continuaram sem descobrir nada.
Até o uso de violência já estava sendo ameaçado na chefatura sem fazer o rapaz mudar em nada suas respostas sempre alegando inocência dizendo nem saber o que era cocaína.
Palavra que só ouvira falar e em toda sua vida sequer vira o tal produto. Não sabia se é sólido, líquido, pó ou gás.
O delegado enraivecido energicamente falou para Sebastião:
Acho bom você contar tudo que sabe, pois estou tentado em deixar que o pessoal interrogue-o conforme é o costume. No pau de arara, porrada, choque elétrico e afogamento.
Só terá duas opções. Ou falará ou morrerá.
Seo delegado deixe eu contá toda minha vida, sem sê só respondendo perguntas que não sei as resposta?
Das vez eu contando tudo que se passou desde minha saída de minha casa, em Córrego Seco, no Ceará, o senhô pode encontrar alguma coisa que quer saber.
Tudo bem. Vou ouvi-lo. Vomite tudo que quer falar.
O delegado que estava de plantão nessa noite após alguns tragos acalmou-se e reuniu paciência para ouvir durante toda a madrugada a história incrível que Sebastião lhe contou.
Ficou boquiaberto diante do relato sincero e esclarecedor de como os fazendeiros plantadores de maconha tratavam as famílias tiradas da seca transformando-as em miseráveis animais totalmente subumanas.
Sabia da existência de tais fazendas, pois no Brasil sempre existiram, continuam e infelizmente continuarão existindo.
Dificilmente acabarão com elas. Pelo contrário. Elas até aumentam em quantidade cada vez mais.
Nunca nenhum escravo havia fugido para indicar os locais exatos.
Esse homem estava contando a verdade, mas não saberia voltar ao local de onde fugiu levando os federais.
O delegado estava à procura do tráfico de cocaína, portanto a maconha não lhe interessava.
Tudo o que foi dito serviu apenas para o delegado tomar conhecimento do que já sabia sobre as fazendas de escravos, sobre o patrão traficante e o tráfico em si.
Felizmente para ele conheceu um fato novo que poderia ser útil.
Ficou sabendo da existência da oficina mecânica, dos colegas de trabalho nela, dos bares, farmácia, padaria e restaurante que Sebastião frequentava antes do acidente. Teria muita gente para ser investigada.
Soube que no local em que Sebastião buscava o arroz em várias viagens que fez ele saberia voltar, pois havia dado informações em qual cidade era e sua correta localização inclusive o nome da fazenda.
Não precisaria de ele ir até o local de onde vinha a cocaina, pois a própria Federal em Goiás informada por ele faria o serviço lá.
Nos próximos dias a polícia vasculhou as fazendas do interior de Goiás e descobriu a tal Fazenda Três Onças com o laboratório de refino de cocaína e um campo de pouso clandestino. Estava tudo abandonado.
Não havia ninguém e o mato já tomava conta de tudo.
O delegado que acreditou nas histórias de Sebastião decidiu levá-lo até o local onde trabalhava como motorista de caminhão e na oficina mecânica.
Primeiro passaram no prédio em construção. Desceram do carro olhando para os lados procurando coisas ao redor sem nada encontrar que pudesse ajudar elucidar o caso.
Já que nada encontramos aqui vamos para a oficina.
Tá bom Seo doutor. É naquela esquina lá em baixo, que vira para outra rua e mais treis quarteirões chega lá. É perto daqui.
Sargento ajude o preso subir no carro.
No exato momento em que o carro andou um homem que veio voando do céu se arrebenta no asfalto atrapalhando o tráfego caindo do alto da construção a apenas dois metros atrás da viatura.
Gritos dos operários e transeuntes fizeram com que os políciais olhassem para traz, após o motorista ter freado bruscamente.
Recebeu imediatamente a ordem.
Toque em frente. É só mais um operário em construção tentando voar.
Eles vivem tentando isso e nunca aprendem. São uns incompetentes não é?
Só servem para dar trabalho aos bombeiros do resgate, aos políciais de trânsito e as margaridas para limparem suas merdas espalhadas pelo chão.
Vivem sujando a rua com suas porcarias.
Os risos e as piadas continuavam enquanto Sebastião olhava para trás com o carro já em movimento.
Uma grande mancha de sangue misturada com miolos tinha borrado todo o vidro traseiro do veículo impedindo-o de ver o operário estatelado no chão como um trapo imundo.
A polícia encontrou a oficina fechada e abandonada.
Nos outros locais indicados por Sebastião encontrou muitas pessoas que só falaram bem dele como sendo muito trabalhador e esforçado.
O delegado soube mais que o dono da oficina e os demais empregados desapareceram do bairro já fazia algum tempo sem deixar vestígios e ninguém acrescentou mais nada.
Moradores que eram fregueses da oficina também foram interrogados nada tendo a declarar para elucidar o caso.
Pessoas aproximavam do carro para olharem o preso que tentavam inocentar.
Quando a viatura já tinha saído com os federais um homem chegou correndo tentando inutilmente fazer o carro parar mesmo batendo com a mão no mesmo. Quase foi atropelado pelos federais que não permitiram sua aproximação.
O recém chegado informou ao pessoal aglomerado em frente à padaria que um homem caíra do alto de uma construção ali perto e que esse homem é o irmão de Sebastião que chegara a muito tempo do nordeste a procura do mesmo.
Um dos colegas de serviço que estava trabalhando próximo ao acidentado disse que quando viram o carro de polícia chegar ele gritou: “É meu irmão Tião” e caminhou para o mesmo sem lembrar-se que estava a mais de trinta metros de altura.
Despencou-se do andaime voando pelos céus como um saco de lixo em dia de vendaval até próximo a seu irmão que nada viu além de seus miolos e sangue que manchou o vidro do carro formando ironicamente a imagem do diabo.
Espalhou-se rapidamente a noticia da morte de Afonso e do aparecimento de Sebastião.
Maria Quiteria, Josefa e Das Graças que foram avisadas, auxiliadas por algumas pessoas fizeram o enterro de Afonso sem a presença de Zezinho que nunca mais tinha aparecido.
A tristeza novamente abateu sobre aquelas mulheres pela morte de Afonso, mas a notícia da volta de Sebastião fora a nova força a impulsioná-las em continuar suas vidas a sua espera.
Souberam que estava preso, porém vivo e o descobririam mais cedo ou mais tarde.
Muitos dias passaram tendo os políciais federais, comandados pelo mesmo delegado voltado à Vila Maria e interrogando várias pessoas encontraram a residência da esposa e cunhada de Sebastião.
Interrogaram-nas assim como à menina Das Graças.
Ficaram sabendo que a vinda deles para São Paulo acontecera na época do acidente de Sebastião e que eles nunca chegaram a vê-lo e que nada sabiam sobre ele.
Esperaram-no todo esse tempo para viverem com ele no tal do “Paraizo” do Tião.
Souberam de tudo que aconteceu aquela família desde o início da saída de Sebastião do Ceará até os dias atuais.
Tal história coincidia com o que Sebastião afirmava.
Não descobriram para onde o dono da oficina viajara. Talvez para a Espanha ou para as cavernas subterrâneas do Afeganistão.
Souberam sobre Genésio, da ajuda que ele deu aos parentes de Sebastião e descobriram a pensão onde morou.
Tomaram conhecimento de sua fuga para local desconhecido após estuprar a filha da dona da pensão e não tendo mais nada a fazer arquivaram o caso, deixando o preso não sabendo se culpado ou inocente jogado em uma penitenciária ignorado por todos.
Em certa ocasião os que restaram da família encontraram e falaram com o delegado federal e nem o choro comovente da menina Das Graças foi suficiente para que o enérgico polícial devolvesse seu tio sem sequer falar onde ele se encontrava detido.
Mesmo auxiliadas pelos patrões de Das Graças nunca descobriram seu paradeiro, pois não houve julgamento e consequentemente nenhum encaminhamento oficial do preso fora feito pela justiça para nenhum lugar.
O delegado federal no novo governo tinha muito serviço a fazer caçando, prendendo e torturando estudantes e artistas que não lembrou mais desse caso esquecendo-se por completo de Sebastião e sua família.
Josefa e Das Graças usavam seus salários para manterem a casa alugada onde morava Josefa e Maria Quitéria que ainda alimentavam a esperança da volta do parente preso.
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A VOLTA DE ZEZINHO
O jovem delinquente que perambulava pelo bairro com a quadrilha de ladrões soube da morte do pai, da prisão incomunicável do tio pelo gravíssimo crime cometido e acreditando ser impossível sua soltura teve uma idéia.
Planejou com os amigos criminosos o roubo de tudo que sua mãe e tia tinham em casa, pois logo perderiam mesmo quando não pudessem mais pagar o aluguel.
Invadiram a casa da mãe no horário que só estaria ela para em um caminhão roubado levarem todos os pertences que venderiam à receptadores.
A heróica mulher enfrentou-os e foi o próprio filho que a espancou deixando-a desacordada e muito ferida enquanto efetuavam o saque.
Somente à tarde quando Josefa regressou do trabalho que lhe prestou socorro em um hospital público.
Os patrões de Das Graças auxiliaram-na transferindo a doente para um hospital particular.
Ao cabo de oito dias, recuperou-se dos ferimentos, mas o traumatismo craniano deixou grave sequela. Ela perdeu totalmente a razão e a coordenação motora dos músculos.
Caminhava cambaleante. Não segurava nada direito com as mãos trêmulas e não tinha capacidade de nenhum raciocínio sensato devido ao desequilíbrio mental dominante. Nada mais podendo fazer por ela internaram-na em um manicômio.
Quando Das Graças e Josefa fizeram sua segunda visita após quinze dias souberam que Maria Quitéria fugira já há alguns dias e que não conseguiram encontra-la.
O hospício tinha feito de tudo para recuperar a fugitiva.
Informaram que inclusive procuraram por Josefa no endereço que lhes fora fornecido, mas que encontraram a casa fechada por esse motivo não foi possível notificá-la da fuga da doente.
Josefa tinha combinado na pensão em que trabalhava morar lá em um quartinho que lhes forneceram para não ter de pagar aluguel. Não teria como morar sozinha numa casa sem móveis, manta ou rede para dormir, sem parentes e sem a mínima possibilidade de pagar o aluguel.
Recorreram à polícia para localizar Maria Quitéria, mas eles tinham coisas muito mais importantes a fazer.
A ininterrupta caça aos artistas, compositores, jornalistas e escritores, considerados por suas maiores aptidões como de altíssima periculosidade e violentos subversivos ao regime militar imposto no país pondo em risco sua magnânima continuidade.
Não tinham tempo nem permissão de procurar uma doida pela cidade.
Nada fizeram.
Não demorou mais de dois meses para que Josefa sofrendo aborrecimentos com os pensionistas como maus tratos, investidas e tentativas de violência sexual, desanimada pela falta dos parentes, principalmente do marido e do filho pequeno sem nenhuma perspectiva de vida, desiludida de tudo também acabou desequilibrando-se.
Mentalmente insana vagava pelas ruas do bairro esmolando e dormindo ao relento.
Num determinado dia encontrou-se com Maria Quitéria que também vagabundeava pelas ruas do bairro tão maltrapilha quanto ela.
Ao mesmo tempo pediram esmola uma à outra e atirando pedras e xingando-se grosseiramente afastaram-se continuando suas andanças sem se reconhecerem.
Foi uma situação tragicômica bem própria das narrativas de Poe ou de Dante, mas fora real e não ficção desses escritores.
Andavam a procura do nada e encontravam de tudo.
Exatamente tudo o que a sarjeta tem a oferecer.
Sol, chuva, fome, frio, fumo, bebida, restos de lixo conseguidos em ferozes disputas com cães de rua, entre outras coisas.
Não tinham a mínima possibilidade de voltarem à razão e acabaram por adaptar a suas situações tornando-se mansas e cordatas com tudo e com todos.
Espancamentos e estupros não mais lhes aconteciam, pois já se entregavam até com prazer, sem o mínimo pudor aos doidos e vadios que como elas reinavam na noite de São Paulo também a procura do nada.
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NA PRISÃO
Na penitenciária Sebastião dedicava-se a leitura e nada mais fazia a não ser ficar cada vez mais e mais revoltado com sua injusta prisão na medida em que o tempo passava sem nada acontecer.
Há muito o delegado federal e nenhum outro inspetor procurou-o para interrogatórios.
Estava totalmente abandonado sem contato com ninguém e nenhuma noticia de fora.
Ficava resignado sentado no chão em um canto da cela lendo sem arrumar confusão e nem reclamar de nada e de ninguém.
Conversava apenas com poucas pessoas. Somente com alguns prisioneiros e uns carcereiros que lhe emprestavam os livros.
Sempre aborrecido foi perdendo o contato até com os esses únicos amigos passando ao isolamento total.
Não era mais aquele homem cheio de vida que era cinco anos antes ansioso em melhorar na vida e dar um destino bom a seus parentes.
Havia escrito várias vezes ao filho de seu padrinho no nordeste para saber notícias da família.
Com as primeiras cartas nunca soube o que aconteceu e imaginava que não eram enviadas e destruídas pela polícia, mas com as mais recentes soube serem enviadas, pois retornavam como não encontrado o destinatário.
Sem encontrar o destinatário voltaram também às dezenas delas que escreveu para São Paulo mesmo para Genésio e para Sr. Fábio.
Noticias de seu pessoal e seus amigos eram inexistentes.
Constantemente se perguntava até quando ficaria na penitenciária?
Essa mesma pergunta já fora feita a muitos políciais e carcereiros e sempre a resposta evasiva: “Talvez dentro de um mês”.
Procurou saber do delegado federal que lhe pareceu ser um homem bom, pois não permitiu em todos os interrogatórios abusos e maus tratos por parte dos agentes investigadores sempre furiosos e sedentos de punições violentas.
Nunca soube dele a não ser recentemente quando uns políciais federais lá estiveram conduzindo três presos perigosos de uma quadrilha de sequestradores, assassinos e assaltantes de banco.
Para sua tristeza o que soube foi que tal delegado tinha sido promovido e assumindo um cargo superior em Brasília.
Aborreceu-se com a notícia e continuou sempre amuado em seu canto.
Com o passar dos dias sequer saía do lugar, perdido em seus pensamentos.
Só ia ao pátio tomar sol, ao refeitório e retornava a cela conduzido por políciais porque se recusava a sair do lugar onde estava por livre e espontânea vontade.
Onde o colocavam permanecia calado e inerte.
Comia de vez em quando e muito pouco se enfraquecendo cada vez mais.
Leitura nunca mais. Jogou fora os livros que conseguiu com seus ex-amigos.
Esse comportamento de Sebastião chamou a atenção não só dos políciais como também dos detentos que comentavam entre si perguntando-se o que estaria acontecendo com aquele homem.
Os três bandidos trazidos pela federal ouviram de outros detentos a história dele e porque estava preso.
Souberam de sua revolta pela prisão injusta que o impedia de encontrar a família que fizera vir do nordeste e que nunca pode encontrar para orientar e ajudar.
Entreolharam-se ao descobrirem que estavam diante do tão falado Tião.
Foi assim que eles descobriram o tio de seu parceiro Zezinho que muito lhes falou a respeito.
Os criminosos tinham certeza que ele chegaria à loucura se soubesse o que aconteceu aos parentes se lhes contassem o que sabiam.
Tratavam-no com fictício respeito e até com carinho dirigindo-lhe sorrisos com a intenção de cativar-lhe.
Conseguiram dos guardas penitenciários permissão para auxiliarem o preso que recusava-se andar e comer.
Ajudavam-no na ingestão dos alimentos, na sua locomoção e aos poucos foram conseguindo tirar Sebastião daquele marasmo.
Os presos e os políciais amigos de Sebastião não gostavam do que viam, pois tais bandidos violentos condenados a dezenas de anos de reclusão não tratariam bem a ninguém sem querer algo em troca.
Eles tinham razão.
Os delinquentes tinham arquitetado seu plano.
Quando o homem estivesse em condições de ouvir e resistir eles contariam o quanto eles, amigos e colegas de trabalho de Zezinho fizeram por toda sua família ajudando-os no que foi possível, mas que infelizmente não conseguiram impedir a desgraça de quase todos.
Mentiriam tornando-se seus amigos, pois se Sebastião fosse realmente traficante de cocaína como muitos, inclusive eles pensavam, teriam um grande aliado no futuro quando fugissem para poder facilitar seus ingressos no tráfico da droga muito mais lucrativa que o tráfico de maconha e crimes de mando e muito menos perigoso que assalto a bancos e sequestros.
Passaram-se vários dias para que Sebastião voltasse a se comunicar com alguém e fora justamente com os três bandidos que lhe contaram suas histórias de vida, suas boas ações lá fora antes de suas condenações injustas que fizeram com que Sebastião tivesse interesse em contar-lhes sua própria história.
A quadrilha já sabia de tudo, mas queriam ouvi-la como se fosse pela primeira vez para poderem a partir daí contar-lhe o que Sebastião desconhecia.
Foi nessa época que Sebastião ficou sabendo da chegada dos seus.
Seus destinos cruéis e o que restou deles, pois os bandidos sabiam de tudo por serem amigos de Zezinho.
Conforme o relato soube que só sobrara Das Dores que agora atendia por Das Graças que trabalhava em casa de gente rica e que infelizmente não tinham o endereço.
Que Zezinho homem honrado e trabalhador estaria morando em Santos já casado, também sem conhecerem o endereço.
Que seu filho caçula que fora registrado como Sebastião Pereira da Silva Filho em substituição ao primeiro Tiãozinho que morrera antes mesmo de ser registrado e que estava desaparecido há vários anos roubado por um mendigo que perambulava por perto do antigo depósito onde ele morou.
Sebastião lembrou-se ter conhecido o pilantra quando trabalhava na oficina mecânica assim como foi enganado por ele.
Que sua esposa e cunhada se ainda estivessem vivas estariam vagando totalmente loucas irrecuperáveis pelas ruas de São Paulo.
Tião chorou desesperadamente. Lamentou, gritou e amaldiçoou seu Deus.
Culpou-se por tudo durante horas até tornar-se novamente melancólico e silencioso.
Voltou a permanecer recolhido ao canto de sua cela sem conversar nem com esses novos amigos.
Só chorava amargurado e escrevia.
Escrevia alucinadamente com canetas e papeis que eram as únicas coisas que aceitava de outros detentos e de políciais.
Durante meses permaneceu escrevendo o livro que teria por título: A odisséia da família Pereira da Silva que a procura do Paraíso encontrou o Inferno.
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NA CASA DA PATROAZINHA DE MARIA DAS GRAÇAS
Maria das Graças já com dezoito anos era uma menina de muito boa aparência, bem bonita e continuava no mesmo emprego cuidando do casal de filhos da patroa e estudava.
Estudava muito não só à noite na escola que frequentava como no próprio serviço.
Seus patrões ainda jovens eram talentosos empresários e moravam confortavelmente em um elegante apartamento de cobertura nos Jardins e tratavam-na como da família, pois reconheciam o amor e dedicação da jovem pelas crianças.
Ela era ainda uma criança quando nasceu o primeiro filho do casal que ela considerou e sentiu o substituto de Tiãozinho amando-o como se fosse seu próprio primo desaparecido.
Dedicava o mesmo amor à menina nascida no ano seguinte.
Seu relacionamento com o patrão era apenas cordial, pois muito pouco eles conversavam e sempre em vóz baixa como que mantendo algum segredo de seus assuntos, mas com a esposa era excelente a ponto de ela tratar a jovem patroa carinhosamente de patroazinha.
Em um determinado dia elas conversavam:
Das Graças.
Que foi patroazinha?
Quando terminarão suas aulas?
Daqui duas semanas.
Na semana que vem vamos de férias para nossa casa em Guarujá.
Você quer ir com a gente ou prefere ficar até iniciarem suas férias na escola?
Prefiro ficar para não perder dias de aula.
Vão tirar férias finalmente?
Pois é. Depois que casei nunca tirei férias. Eu e meu marido tivemos de trabalhar duro esses anos todos para montar a empresa e somente agora que está tudo bem organizado e com um ótimo gerente para substituir-nos que podemos descansar um mês inteiro longe da poluição e do corre corre de São Paulo.
Lá é bonito?
Você verá quando for com minha cunhada que também irá com sua família daqui a duas semanas após seus filhos também estarem em férias escolares como você.
Vou avisá-la para lhe apanhar aqui quando forem descer.
Vou ficar com saudades das crianças. Nunca fiquei longe delas tanto tempo.
Nós também teremos saudades de você.
Já estou triste só em pensar que vou ficar sem meus irmãozinhos do coração.
Ambas riram pelo carinhoso tratamento que era usado para as crianças da patroa e continuaram a conversa.
Vou levar comigo a cozinheira e a arrumadeira. Você se cuida sozinha.
Pode deixar que cuidarei bem de mim e da casa.
Você vai arrumar um namorado bonito lá. Tenho certeza.
Não fale assim patroazinha. Fico com vergonha.
Estou vendo. Está coradinha.
Sou muito nova para namorar. Primeiro quero estudar bastante e ter boa profissão para depois pensar nisso.
Nova nada. Eu casei-me com dezessete. Era mais nova que você na época.
Mas já tinha estudado muito e continuou estudando mesmo depois de casada.
Conhecimento e profissão são as únicas formas de vencer na vida.
Faz bem em pensar assim.
Mas não pense que depois de formada vai nos abandonar. Continuará morando conosco até casar e trabalhará em nossa empresa.
Obrigada por dizer isso patroazinha.
Depois de tudo que fez por mim pretende ainda fazer mais? Deus há de pagar-lhe em dobro, triplo ou muito mais.
Você merece. É de ótimo caráter e muito dedicada aos meus filhos.
Infelizmente minha família toda desapareceu. Os que não morreram perderam-se pelo mundo afora.
Não vamos falar de coisas tristes. Deus com sua divina misericórdia um dia se apiedará dos vivos e os salvará.
Dos mortos ele já está cuidando.
Estou triste por ser tão feliz e eles não poderem ser.
Falava entre soluços e choro.
Vamos falar das férias. Enxugue essas lágrimas.
Na semana que ficará aqui vá a algum shopping e compre alguns biquínis, saída de praia, chapéu... Melhor ainda. Eu vou fazer minhas compras amanhã e levo você comigo para você escolher o que precisar e dou-lhe de presente assim você não precisará gastar de sua poupança.
Em seguida a patroa ligou para a cunhada.
Alô!
......
Aqui é sua tia. Tudo bem com você Osvaldinho?
......
Chame sua mãe.
......
Não está? Quando ela chegar peça-lhe para ligar-me para combinarmos sobre as férias.
Nós vamos nesse final de semana, mas a Das graças ficará mais uma semana por causa das aulas e quero combinar com vocês de levá-la quando forem na semana que vem.
......
Não deixe de avisar para ela telefonar-me.
......
Avise-a que não precisa levar sua empregada, pois vou levar as minhas.
......
Deus te abençoe e tchau.
Encerrando a conversa desligou o aparelho.
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EM UM SÁBADO TRÁGICO
No final da semana muitos detentos comandados pela quadrilha de assaltantes a banco iriam efetuar a fuga há muito planejada, mas ninguém conseguiu convencer Sebastião em ir com eles, pois ele julgava-se o maior dos criminosos por culpar-se de ter sido o destruidor de quase toda sua família.
Resignado mantinha-se cumprido a pena que ele mesmo se impusera e que seria até a morte já que jamais alguém lhe falou qual o tempo de sua permanência na detenção.
Ele nunca mais iria procurar saber dos políciais quando seria solto, pois conforme já percebera estava esquecido de todos para sempre.
Prisão perpétua é o que merecia e que cumpriria escrevendo o livro de sua história até terminá-lo.
Depois deste escreveria outros possivelmente menos amargos.
Dos vários livros que lera na oficina e na prisão e dos seus maravilhosos sonhos no sertão tiraria idéias de como escrever livros alegres e felizes.
Isso é o que propusera para terminar seus dias e alheio aos movimentos dos presos não viu nem participou da enorme rebelião que aconteceu à sua volta no sábado que culminou com a morte de vários detentos, de alguns políciais e a fuga de muitos prisioneiros inclusive dos três cabeças do movimento.
Neste mesmo sábado pela manhã um dia após a patroa de Maria das Graças viajar, a menina ao olhar no visor da porta quem tocava a campainha abriu-a.
Oi Das Graças. Como vai?
Vou bem. É o senhor Seu Osvaldinho?
Porque me chama de senhor. Tenho praticamente a mesma idade que você. Ainda nem fiz vinte.
Porque é minha obrigação respeitar meus patrões e os parentes deles assim como as pessoas mais velhas.
Não me chame mais de senhor está bem?
Como a menina nada respondeu o rapaz insistiu:
Como é? Vai chamar-me direto pelo nome ou não vai?
Está bem, senhor Osvaldinho.
Tomou a falar senhor. Pare com isso sua gostosinha.
Que é isso? O senhor trate de me respeitar.
Mas você é um tesão mesmo. Eu acho isso mesmo. Qual é o desrespeito?
Tudo que o senhor está falando.
Ora sua deliciosa. Deixe de se fazer de boa.
Senhor Osvaldinho pare com essa conversa e vá embora daqui.
Estou na casa de minha tia e tenho muito mais direito de ficar que você.
Então o senhor fica e eu saio. Fico na portaria e só volto quando o senhor sair.
Não vai conseguir porque quando entrei tranquei a porta e guardei a chave no bolso.
Pelo amor de Deus. Vá embora ou grito se continuar aqui.
Está bem. Vou parar de falar, mas só saio daqui depois que você for boazinha comigo.
Está louco?
Dê-me um beijo.
Afaste-se seu descarado. Vou contar tudo a patroazinha e a sua mãe.
Vai contar não é? Então tem de deixar-me te comer para ter o que contar.
Já lhe pedi Sr. Osvaldinho. Deixe-me em paz. Nenhum homem jamais encostou um dedo em mim e ninguém me fará nada sem eu permitir a não ser que me mate antes.
Deixe de besteiras. Eu lhe dou grana e presentes. Está bem assim?
Eu trabalho e não preciso de seu dinheiro.
Vai dizer-me que nunca transou com ninguém?
Vá embora agora. Deixe-me em paz que prometo nada contar a sua tia e nem à sua mãe.
Deixe de conversa e fique boazinha. Olha só que tesão estou? Meu pinto está quase furando as calças.
Seu desgraçado. Socorro.
Pode gritar a vontade. O apartamento é o único no topo do prédio e também a prova de som.
Socorro.
Já que não quer por bem vai ser na marra sua cadela. Garanto que vive dando o rabo para os nordestinos da limpeza e fica se fazendo de direitinha comigo.
Largue-me seu cachorro.
Agora não me escapa.
Socorro.
Não adianta gritar sua puta.
Não sou puta seu indecente. Sou virgem, honesta e direita.
Pare de palhaçada e deixe. Você vai gostar
Deixe-me. Seu canalha ou mate-me primeiro.
A menina não tinha resistência para dominar o rapaz, porém impediu-o de tirar-lhe a calça comprida, mas estava acabando suas forças.
Com o corpo todo dolorido prestes a desmaiar e ele também bastante cansado numa pequena pausa propôs:
Está bem. Não vou forçar mais. Vamos conversar.
Então me largue.
Está bem. Está solta. Depois de tanta luta eu até broxei mesmo. Olhe meu pinto como está murcho.
Guarde isso e vá-se embora.
Cumpri minha parte largando-a para conversar. Agora cumpra a sua.
Não prometi nada e nada tenho a cumprir.
É só conversar. Se continuar insistindo que eu vá embora lhe agarro de novo.
Está bem. O que o senhor quer falar?
Quero falar que você é uma delícia. Porque você me recusa?
Nunca fiz isso com ninguém e só farei quando casar com alguém que me ame e que eu ame.
Deixe de conversa. Duvido que nunca deu para ninguém. No nordeste de onde vem com doze anos a mulherada já é até mãe.
Conversavam mais ou menos amistosamente com ambos idealizando seus próprios planos.
Ele descansando ao mesmo tempo em que tentava induzi-la ao ato, pois em sua concepção ela não era virgem.
Ela também descansando e tentando convencê-lo que não deixaria que nada lhe acontecesse.
Ofereceu em fazer-lhe café para fugir pela porta de entrada da cozinha.
Café eu não quero. Quero um whisky.
Vou pegar gelo na cozinha.
Vou junto.
Pode ficar.
Vou à frente para tirar a chave da porta de lá que tinha me esquecido. Depois do whisky quero você.
Pelo amor de Deus senhor Osvaldinho. Deixe-me em paz.
Pare de dar trabalho e vamos logo.
Tire essa calça. Você vai gostar.
Na tentativa de embriagá-lo Das Graças serviu-lhe um copo cheio da bebida e continuou conversando:
Deixe para outro dia. Hoje não posso.
É claro que pode e já estou de novo com tesão. Quero agora.
Seja decente como sempre foi na frente de sua tia.
Nunca fiquei só com você. Acha que vou perder essa oportunidade?
Temos uma semana inteira ainda. Deixe para depois.
Quero agora.
Estou menstruada.
Mentira. Deixe-me passar a mão para ver.
A moça que sentia muitas dores na virilha pela luta que mantivera com o rapaz imaginando-se ferida ou mesmo com a menstruação adiantada pelo esforço enfiou sua mão na braguilha das calças imaginando trazê-la suja de sangue.
Quase perdeu as esperanças quando voltou com a mão limpa, mas mesmo antes de retirá-la completamente de dentro das calças voltou com ela ao mesmo lugar ferindo-se com as unhas para em seguida mostrar-lhe as pontas dos dedos molhadas de sangue.
A irritação do rapaz foi tanta que fê-la lamber os próprios dedos.
Esmurrou-a violentamente jogando-a ao chão quase desmaiada.
Sentou-se sobre seu corpo e masturbou-se ejaculando por todo o rosto de Das Graças.
Esfregou sua sujeira na boca da menina fazendo-a engolir.
Partiu deixando-a chorando no chão prometendo nova visita para após três dias.
Esse abuso durou toda a manhã de sábado e Das Graças humilhada, estuprada moralmente e quase deflorada fisicamente passou o restante do dia chorando, vomitando e lavando-se.
Não conseguiu dormir a noite pensando em como fazer para encontrar a patroa em Guarujá cuja casa recém construída ainda estava sem telefone.
Abandonaria o apartamento e fugiria? Para onde?
Decidiu se trancar lá dentro.
Não abriria a porta e nem atenderia ninguém até que a patroa retornasse das férias ou telefonasse para que ela se explicasse.
Não atenderia nem a cunhada da patroa quando essa viesse buscá-la para a viagem que definitivamente não faria.
Pensou que seria melhor ir à escola na segunda feira e pedir socorro ao diretor e aos professores.
Tais pessoas iriam salvar uma simples babá de um rapaz rico e filho de um dos famosos coronéis do exercito mandante no país que inclusive não gostava também de professores?
Alimentou-se pela primeira vez na segunda feira à noite prestes a sair para a escola.
Repensou sua situação achando perigoso sair de casa.
Poderia encontrar-se com o depravado esperando-a na rua ou com outros malfeitores, pois agora tinha medo de qualquer homem.
Preferiu manter sua idéia inicial de não ir às aulas para não sair de sua clausura.
Nada e ninguém a tiraria de dentro daquela casa fechada.
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NO DECORRER DA SEMANA
Nesse mesmo inicio de semana alguns prisioneiros já estavam de volta à penitenciária recapturados pela polícia.
Muitos foram mortos em confrontos com a mesma e outros permaneciam foragidos.
Dois dos malfeitores que se fizeram amigos de Sebastião desde domingo recapturados estavam novamente recolhidos e enfurecidos pela morte de um deles, pois não conseguiram ir muito longe na fuga.
Na terça feira tentaram de toda forma conseguir de Sebastião informações de como encontrarem seu antigo bando de traficantes de cocaína que julgavam muito bem organizado, pois a Federal nunca descobriu.
Quiseram saber também onde Sebastião guardava seus pertences e dinheiro que imaginavam que ele tinha escondido.
No futuro breve em outra fuga cientes que Sebastião não iria com eles saberiam como encontrar seus antigos chefes e onde ele guardava seu próprio dinheiro de tráficos anteriores para eles apossarem-se.
Nesse dia eles tirando suas máscaras contaram-lhe que nunca foram direitos e muito menos boa gente conforme ele acreditava e que foi seu sobrinho Zezinho que pertencia à quadrilha o causador direto pela loucura de sua cunhada pela surra que lhe aplicara e indiretamente pela loucura de sua esposa.
Contaram-lhe que ele já estava bem enterrado, pois tinha sido morto pela polícia na tentativa do assalto a um banco quando eles foram presos.
Falando a verdade sobre eles próprios e sobre Zezinho e também inventando mentiras sobre Genésio e Sr. Fábio transformando-os em más pessoas como amantes de sua esposa, cunhada e sobrinha pensaram que deixariam o homem com ódio de tudo e de todos e por isso concordaria em fugir com eles e acabaria falando tudo que sabia.
Nada conseguiram saber de Sebastião que aparentemente nem prestava atenção na conversa.
Mudaram o procedimento.
Pararam com as conversas e passaram à ação.
Sebastião que nunca tinha sido torturado pelos políciais fora agora pelos criminosos sem nada dizer até por não saber responder o que eles perguntavam.
Apanhou muito tendo dois dentes sido arrancados e algumas costelas e um braço quebrados.
Foi socorrido por vários detentos e políciais para não ser morto.
Coisa que até desejava por tomar conhecimento de mais desgraças que aconteceram por sua causa.
No ambulatório médico manteve-se em silencio total odiando-se cada vez mais.
Na noite dessa terça feira em outro lugar aconteceu:
O senhor é o zelador do prédio?
Sim seu moço.
Sou o sobrinho dos moradores da cobertura.
Eu sei. Já vi você e sua família virem aqui muitas vezes. Eles estão viajando.
Sei disso e é por isso que preciso de sua ajuda.
Que ajuda?
Preciso da chave de emergência do apartamento.
Não posso entregar moço. As chaves de emergência dos apartamentos são só para socorrer incêndio e temos orientação de só entregar aos bombeiros se for o caso.
Eu acho que a babá que não viajou está doente ou morta lá dentro.
Então vamos telefonar e chamar a polícia para verificar.
Calma zelador. Não precisa de polícia. E só brincadeira. Minha tia telefonou de Guarujá pedindo-me que viesse aqui, pois o telefone do apartamento não está atendendo.
Então use a campainha da porta que das Dores e Das Graças atende.
Deve ter acontecido alguma coisa na eletricidade, pois já estive ontem aqui e tentei com o outro zelador da noite falar com ela pelo telefone, pelo interfone e nada. A campainha não toca.
Acho que nada funciona, pois a empregadinha não atendeu de nenhuma maneira. Só se tiver surda.
Será que está doente mesmo?
Acho que não. Deve ter sido alguma pane na eletricidade. Quero verificar, pois estudo engenharia elétrica e sei consertar se for preciso.
Tenho ordens da administradora para não dar as chaves a nenhum desconhecido.
Não sou nenhum estranho. O Sr. mesmo disse que me conhece. Sou sobrinho dos donos e praticamente seu patrão.
Volte amanhã de dia e fale com o zelador do dia. Ele é o nosso encarregado e saberá o que fazer.
Acontece que hoje de manhã já estive aqui e o zelador do dia que é o encarregado é muito mal educado e não me atendeu de jeito nenhum.
Tive de fazer queixa dele na administradora. Acho que vão demiti-lo.
Acho não. Tenho certeza.
Você fez isso com o outro zelador?
O de dia que é o mais antigo e o chefe de todos os outros?
É claro. Tenho de entregar compras no apartamento e verificar se está tudo em ordem a pedido de meus tios e estão impedindo-me de fazer minha obrigação.
Terei de fazer queixa sua também.
Calma moço. Tenho filhos para criar e já sou velho para ficar desempregado.
Mas parece que já está rico e não está preocupando em segurar seu emprego.
Está bem. Vou pegar a chave extra e iremos ver o que aconteceu.
Não deve ir, pois se abandonar à portaria e entrar ladrões no prédio como o senhor vai se explicar?
Que fui verificar a eletricidade da cobertura.
Acha que é mais importante verificar eletricidade de um apartamento com os moradores viajando e deixar os outros a mercê de ladrões e assassinos?
Está bem rapaz. Tome a chave da cobertura.
Foi assim que Osvaldinho ardilosamente conseguiu a chave do apartamento de Das Graças e para lá subiu pelo elevador sem a presença do ingênuo zelador que amedrontado pela possibilidade de perder o emprego agiu incorretamente.
Maria das Graças não estava doente e nem a energia do apartamento danificada.
Nunca atendeu os chamados porque tinha decidido assim proceder e estudava na varanda da sala quando o rapaz apareceu frente a ela que assustada começou chorar e implorar de joelhos que o rapaz fosse embora.
Nada impediria a consumação dos fatos, pois com certeza o rapaz não acreditaria em suas histórias de virgindade, de menstruação e até para facilitar não estava de calças compridas.
Se tivesse havido menstruação naquele dia já havia terminado e virgindade seria para ele como para qualquer malfeitor nessa situação um valioso troféu.
Estava preparada para dormir.
Apenas uma camisola larga de tecido fino e transparente tentava cobrir seu corpo só de calcinha naquela noite de verão.
Em frações de segundo ela se perguntou: Vou lutar até não conseguir mais e ser estuprada ou vou facilitar as coisas e ser desvirginada sofrendo menos?
A segunda opção seria menos dolorosa, tentadora até, mas lembrando-se da promessa feita anos antes a Genésio fez com que ela tomasse a iniciativa na luta.
Atracou-se com o rapaz, mas antes mesmo de dar-lhe um simples arranhão levou um potente soco na cabeça seguido de um violento empurrão que a fez voar acima do parapeito das grades da varanda do alto dos dezoito andares do edifício.
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NOTICIÁRIOS DE JORNAIS
Os jornais de São Paulo informaram a tragédia acontecida no elegante edifício de classe média alta dos Jardins.
A manchete dizia em letras enormes: MARIA DAS DORES E DAS GRAÇAS A BABÁ DA RESIDÊNCIA DE CONHECIDOS EMPRESÁRIOS SUICIDOU ATIRANDO-SE DO 18º. ANDAR.
Essa tinha sido a versão inicial dada por Osvaldinho que não tendo como negar sua estada no local falou a imprensa e a polícia na mesma noite.
Disse que quando entrou no apartamento para consertar um problema na energia elétrica a menina no escuro com medo de ser algum assaltante assustada saltou do alto do prédio sem que ele tivesse tido tempo de segura-la.
Já no outro dia acabou mudando a história e seu depoimento confirmado pelo porteiro da noite ficou como queda involuntária.
Quando ele ajudado por ela trocavam uma lâmpada na varanda acidentalmente ela caíra da escada para fora do edifício.
Tudo estava arrumado na casa.
Absolutamente nada fora do lugar. Nenhum vestígio de luta. Tanto o rapaz como a menina sem nenhuma marca de agressão.
O soco dado na cabeça não deixou nenhum sinal, pois o crânio quebrado na queda escondeu qualquer possível hematoma.
Nenhum vestígio de relação sexual.
A própria virgindade intacta da menina foram provas suficientes para o caso ser encerrado e arquivado como acidente.
O interrogatório do rapaz fora o mais brando possível, pois era filho de um militar de alta patente do exercito ora mandante no país e poderia mudar seu depoimento quantas vezes quisesse que nada aconteceria.
Entristecida a patroazinha que abandonara suas férias não pode fazer nada para ajudar na elucidação do acontecido cuja verdade tinha convicção ser outra.
Desconfiava da culpa do sobrinho, mas calara-se porque o pai dele irmão mais velho de seu marido, além de toda influência poderia até prejudicar a vida deles porque eles não eram nada favoráveis a ditadura existente.
Seu marido permitiu-lhe dar a menina um enterro de primeira categoria no jazigo da própria família e concordou em diminuir as visitas entre as famílias e sempre em horários que Osvaldinho não estivesse presente.
A alegria de suas crianças seria recuperada com o passar do tempo.
Não muito depois Osvaldinho foi terminar seus estudos no exterior.
Nada mais aconteceu a não ser o fato de que um delegado federal em Brasília lendo a manchete dos jornais de São Paulo lembrar-se daquele nome incomum Maria Das Dores e das Graças Pereira da Silva.
Acompanhou no outro dia mais noticias agora como acidente e vendo as fotos reconheceu-a.
Isso o fez lembrar daquele pobre coitado do tio da menina que ele deixara abandonado por tempo indeterminado numa penitenciária condenado a nada e sem nenhuma pena a cumprir.
Logo mais iria para São Paulo de férias e mandaria soltar Sebastião que ele acreditava ser inocente. Sabia que ele era apenas um pobre coitado que iludido por um patrão traficante transportava carga de arroz, com cocaína escondida ao sem realmente saber de absolutamente nada sobre a drogas.
Fora enganado e explorado pelo patrão traficante que ele e sua equipe nunca conseguiram descobrir e prender.
Algum tempo depois já em São Paulo o delegado providenciou os trâmites dos papeis para a soltura do preso e pessoalmente procurou-o na penitenciária.
Conversou um dia inteiro com o detento já recuperado da surra sem dois dentes na boca e ainda com o braço engessado.
Na conversa informou-o do acidente da sobrinha.
Falou-lhe que acreditava em sua inocência e que logo estaria solto aconselhando-o a procurar os antigos amigos de Vila Maria que gostavam dele para conseguir serviço honesto e refazer sua vida daquele dia em diante.
Desejou-lhe boa sorte e ao despedir-se o avisou que deixaria uma mala com roupas além de algum dinheiro para que ele recomeçasse sua vida em liberdade.
Sebastião pediu para continuar preso, pois lá fora não tinha mais nada e ninguém.
Implorou-lhe para que o deixasse lá como já estava para sempre.
Não era possível. O delegado estava tardiamente corrigindo seu erro e a ordem de soltura viria dentro de alguns dias.
oooOooo
A LIBERTAÇÃO DE SEBASTIÃO
Sebastião já sem o gesso após sua soltura sem saber o que fazer de sua totalmente vazia existência, com o dinheiro ganho do delegado hospedou-se em uma pensão ali mesmo próxima ao Carandirú fazendo de seu minúsculo quarto sua cela e continuou preso por sua própria vontade escrevendo furiosamente em seus papeis.
Passado alguns dias descobriu que nessa prisão paga por ele com o dinheiro acabando quer quisesse ou não teria de ter alguma atitude para não ser colocado na rua.
Conforme sugerira o delegado deveria procurar seu antigo habitat e amigos para começar nova vida.
Abandonou tal local com a mala de roupas na mão, algum dinheiro e foi para Vila Maria.
Tudo estava diferente.
Não existia mais a oficina mecânica, a farmácia, o restaurante, a padaria e nem o bar.
Em seus lugares funcionavam respectivamente um clube dançante, um açougue, uma clínica veterinária, uma gráfica e uma loja de roupas.
Apenas a lanchonete que as vezes frequentava ainda permanecia no local.
O dono já não era o mesmo e tão pouco os frequentadores, pois não servia mais pão com manteiga, mortadela, pastel e cachaça. Toda reformada só servia lanches requintados e caros além de ter ao entrar que atravessar uma grossa porta de vidro sempre fechada para manter o ar condicionado interno em funcionamento correto.
Já não era local para ele e seus antigos conhecidos frequentarem.
Permaneceu nas imediações andando de um lado para outro durante horas.
Não reconheceu nenhum transeunte ou foi reconhecido.
Nada e ninguém mais existia naquela parte do bairro frequentada por ele em outros tempos.
No antigo depósito onde morava já sabia há muitos anos estarem construindo um enorme prédio.
Com certeza já estaria terminado e nada encontraria por lá a não ser os atuais moradores que com certeza não conheceria.
Lembrou-se da pensão onde morava Genésio, do qual se tornara inimigo, mas como isso era passado provavelmente já esquecido pelo rapaz foi para lá a sua procura.
Encontrou um terreno baldio, pois a casa abandonada estava em ruínas entre o mato.
Perguntou-se irritado:
Que faria de seu presente? Qual seria seu futuro?
Não encontrou nenhuma resposta.
Muito mais irritado ainda pensava seriamente.
Suicídio? Seria a única solução ou encontraria outra melhor?
Só existia de real seu passado e mesmo assim se alguém lesse seus escritos.
Talvez aquele professor que tanto lhe ajudou poderia ser-lhe útil. Onde encontrá-lo?
Estava com fome, pois já era fim de tarde e soube por um estranho que logo próximo de onde estavam encontraria um shopping com lanchonetes, restaurantes e tudo o mais que quisesse.
Encaminhou-se ao local indicado.
Viu o prédio residencial bem alto e em frente dele uma construção baixa, porém grande em extensão muito bonita que era o shopping.
Embora muito modificada reconheceu a rua.
O prédio estava construído no numero 2432, da rua Guaranesia exatamente onde era o armazém que morava, de onde seu irmão caiu ajudando construí-lo e o shopping no enorme terreno baldio que existia em frente.
Nem precisou entrar no shopping, pois nas lojas abaixo do prédio residencial viu uma lanchonete e para lá se encaminhou passando por uma farmácia com novas e bonitas instalações, mas com o mesmo velho Luiz antigo e eterno gerente fumando à porta.
Reconheceram-se de imediato e foi recebido com muito carinho pelo gerente da farmácia.
Ficou sabendo que praticamente todo o pessoal antigo mudara-se lá de baixo para as lojas do edifício ou para o shopping novo.
Que o Paulinho estava com um grande e moderno restaurante self service no shopping.
Que o Zé montou ao lado da farmácia um grande bar e lanchonete.
Que o Tadeu vendeu a lanchonete e mudou-se para outro bairro, mas aparecia de vez em quando para bater papo e beber cerveja.
Somente o dono da padaria e o Sr. Fabio com os empregados da oficina é que desapareceram sem deixar endereço.
Lula após a pergunta de Sebastião respondeu-lhe que o professor Evandro também nunca mais aparecera.
Que com o fechamento da oficina muitos fregueses de lá que talvez morassem longe nunca mais foram vistos nas imediações. 
O professor deveria ser um deles.
Encaminharam-se para a lanchonete, pois a fome apertava encontrando Zé servindo sua enorme freguesia.
Entre os frequentadores em uma mesa estavam Paulinho com sua mais recente namorada, o Ravengar, o Jean e o Edgar. Os dois encaminharam-se em direção aos amigos, que fizeram uma grande recepção ao ex-presidiário.
Apresentaram-lhe pelo menos oito ou nove novos amigos que frequentavam o local todos os dias unindo-se em várias mesas para conversarem, jogarem dama, dominó e às vezes xadrez ou palitinho.
O recém-chegado não participou de nenhum dos jogos, pois não sabia jogar.
Permanecia vendo e ouvindo as brincadeiras dos outros e às vezes conversando meio isolado com Paulinho que lhe dava mais atenção.
Com o passar das horas e a chegada de outros que se integravam ao grupo o feliz encontro mexeu com a cabeça de Sebastião que ria em altas gargalhadas, como nos velhos tempos, ao ouvir as piadas dos já meio embriagados amigos até que um a um despedia-se e saía.
Como de costume o primeiro a sair foi Paulinho que levaria sua namorada para casa e voltaria mais tarde. Antes de sair pediu a Sebastião para esperá-lo para terminarem a conversa que mantinham e que ficara incompleta.
Mais tarde todos tinham saído e somente um Velho gordo, careca e de barbicha branca permanecia no bar conversando, vendo a TV Cultura e bebendo cerveja com o Zé.
O tal Velho gordo fora-lhe apresentado, mas não lhe dera nenhuma atenção e nem sequer dirigiu-lhe a palavra.
Mantinha conversa só com seu amigo Zé por isso timidamente Sebastião afastara-se para uma mesinha na calçada e esperou pelo Paulinho bebendo mais um refrigerante e saboreando um cheiroso e apimentado pé de porco com feijão manteiga.
Enquanto esperava se perguntava:
Quem seria o velho gordo? Aquele homem não lhe era estranho.
Do lado de fora olhava incessantemente para ele tentando lembrar se o conhecia ou não e de onde?
Não lembrava quem poderia ser por mais que o olhasse e rebuscasse em sua memória a mesma imagem em outro local ou em outra situação.
Talvez algum preso da penitenciária que vira ao acaso lá dentro?
Seria parecido com Sr.Alfredo dono do caminhão?
O traficante também era meio gordo e usava barba.
Quem sabe era o pai daquele safado. Refletiu um pouco e chegou a conclusão ser impossível, pois o Velho Gordo aparentava ter uns sessenta anos de idade e o Sr. Alfredo mais de cinquenta, portanto a impossibilidade de ser pai e filho.
Mesmo pensando assim, entrava no bar de vez em quando para disfarçadamente vê-lo de frente, mas não encontrava nenhuma semelhança entre tal velho e o patrão antigo.
Nada tinha de semelhante com o traficante.
Provavelmente todos os velhos gordos, carecas e de barbicha branca se parecessem e existem muitos pelas ruas. Concordou com seu raciocínio.
É igual crianças pequenas ou japoneses.
Todos têm a mesma cara. Só muda a cor e os nomes.
Encontrou somente essa explicação e deu-se por satisfeito.
Paulinho retornou por volta das dez horas e sentando-se com Sebastião ouviu resumidamente o restante de sua história de quando estava na penitenciária.
Confirmou a Paulinho toda a desgraça da família dele corrigindo a mentira sobre Sr. Fábio e Genésio inocentando-os.
Informou-o que eles sumiram porque provavelmente deviam alguma coisa a justiça, mas que ambos sempre ajudaram seus familiares sem nada exigirem em troca.
Corrigiu-se contando que Genésio de fato teve forte motivo para desaparecer pelo que tinha feito à filha da dona da pensão que também já tinha mudado do bairro com as filhas e a casa nunca mais fora alugada destruindo-se com o tempo.
Paulinho respondeu-lhe que todos no bairro souberam do acontecido e da culpa do rapaz.
Ele próprio tinha sido testemunha da grande embriagues de Genésio na tarde em que tudo aconteceu.
Estava chegando ao bar do Zé que ainda era lá na rua de baixo quando viu Genésio sair totalmente bêbado e ir para a pensão.
Por volta de meia noite outros frequentadores do bar entraram e foi neste momento que o Velho gordo saiu despedindo-se de todos apenas com um aceno de mão.
Sebastião seguiu-o atentamente com o olhar vendo-o afastar-se meio cambaleante pelo excesso de bebida, até entrar no prédio residencial ao lado.
Paulinho que percebeu a curiosidade de Sebastião perguntou-lhe:
Você já o conhecia?
Não. Quem é ele?
É um amigão. Gente boa. Toda noite vem ao bar.
Todos são amigos dele?
É claro, Todos nós o respeitamos muito. Até os mais velhos que ele chama-o de Senhor.
Tem alguma coisa esquisita com ele.
O que?
Sei lá. Parece que eu conheço esse gordo de algum lugar.
Agora conhece. Eu lhe apresentei a ele.
Eu sei, mas ele não fez a menor questão de conhecer-me. Não foi como os outros que conversaram comigo e até chamaram-me para jogar.
Ele é assim mesmo. Meio caladão, mas é um grande amigo.
É muito estranho. Ao mesmo tempo em que acho que o conheço sinto medo dele.
Medo? Como assim?
Não sei. As poucas vezes que olhou para mim provocou-me arrepios. Seu olhar é esquisito.
Está doido. 
O Velho é gente fina. Com o tempo vai gostar dele.
A conversa voltou ao assunto anterior culminando por Paulinho sabedor da situação ruim do rapaz propôr-lhe que dormisse em sua casa que ainda era no mesmo lugar e como era muito grande teria um quarto para ele para no outro dia voltarem ao assunto.
Deixaram o bar com Paulinho pagando toda a despesa e foram descansar.
Na manhã seguinte como sempre acontecia Paulinho, o grande coração, como era apelidado já tinha colocado Sebastião como seu empregado na entrega de refeições que fornecia às empresas próximas.
Passavam-se os dias com Sebastião trabalhando de ajudante na faxina, na cozinha, acompanhando o patrão ao Ceagesp e entregando quentinhas.
Tudo corria bem para o ex-detento que continuava frequentando o bar do Zé com o patrão todos os fins de tarde até a noite.
Geralmente os frequentadores eram os mesmos, mas a atenção para com Sebastião mudou logo nos primeiros dias.
Ele começou entender pelo olhar vazio sem brilho, mas fulminante que o velho gordo dirigia-lhe penetrando pelos seus olhos indo fundo em seu cérebro falando-lhe silenciosa, mas energicamente que ele estava no lugar errado e com pessoas erradas. Era isso que Sebastião entendia como recado do Velho gordo.
Aquelas pessoas que carinhosamente receberam-no, não eram seus amigos.
Lembrou-se que eram essas pessoas que lhe davam ajuda como livros, gorjetas, roupas usadas e pequenos serviços em seus carros na antiga oficina.
A recepção calorosa que recebeu quando chegou não foi de pessoas amigas e sim de pessoas educadas que antigamente conheceram e ajudaram-no.
Nesse dia como sempre fazia ficou só em uma mesa esperando o patrão que levara a namorada para dormir.
Bebendo uma cerveja que como sempre era paga pelo Paulino lembrou-se que quando ia ao bar em outros tempos era em companhia dos colegas de serviço, dos irmãos militares e de alguns outros indivíduos do seu mesmo nível e que com esses sim mantinha conversas animadas.
Jogavam palitinho, tomavam cervejas, refrigerantes e cachaças próximos aos fregueses atuais apenas seus conhecidos, mas nunca juntos na mesma roda, pois suas classes sociais eram diferentes.
Seus relacionamentos nunca foram além de um cumprimento, um tapinha nas costas, um sorriso ou uma despedida.
Entendeu porque excetuando à sua chegada esse pessoal voltou a ser simplesmente o que sempre foram. Apenas conhecidos.
Ele nada tinha a acrescentar àquele pessoal.
Os raros palpites que dava em suas conversas ou brincadeiras eram sempre errados gerando polêmicas e fim de assunto dos mesmos.
Só fazia era perturbar o pessoal alegre que nada tinha a ver com ele.
Apenas o Paulinho dava-lhe atenção com o qual ficava bebendo e conversando separados do grupo e achou não ser correto seu atual benfeitor perder seu devido lugar, para dar atenção a suas lamúrias.
Decidiu que não iria mais frequentar o bar.
Pagou sua despesa e despedindo foi para seu quarto nos fundos da casa do patrão.
Paulinho chegou e não vendo Sebastião perguntou:
Zé. Onde está o Tião?
Antes de começar o jogo do “Fluminenço” ele bebeu duas cervejas, comeu dois “figo” de galinha, pagou a conta e foi para casa.
Estranho.
É. Ele nunca pagou o que comia e bebia. Deixava tudo pra você pagar.
Estranho é ele ter saído sem esperar-me.
O patrão amigo e empregado conversaram no dia seguinte dentro da moderna caminhonete de Paulinho a caminho do Ceagesp.
Que aconteceu que você não me esperou ontem no bar?
Lá não é meu lugar.
Por que Tião?
Só dou palpites errados. Meus amigos de conversa sumiram.
Mas e seus novos amigos? Não gosta deles?
Não é isso Paulinho. Esse pessoal só conheceu-me naquela época. Com exceção de você ninguém ficou meu amigo. Eles sempre foram e serão apenas meus conhecidos e não amigos, por isso não vou mais frequentar o bar.
Se tiver um pouco de paciência aos poucos você vai se enturmar.
Não dá certo. Não tenho a mesma competência que vocês.
Você é quem sabe. Se não está gostando daqui então fique onde achar melhor.
Paulinho. Aquele velho gordo é seu amigo faz tempo?
É. Foi um dos primeiros amigos que fiz quando comecei frequentar o bar. Faz mais de dez anos que o conheço. Uns doze ou treze.
Então ele mora perto faz tempo?
Acho que mais de vinte anos. Antes ele morava no prédio da esquina, mas depois da construção desse novo mudou-se para cá.
Ele não faz nada na vida?
Quando saio com as refeições do almoço vejo-o sempre por perto de chinelos e bermudas andando do bar para o prédio e vice-versa.
Uns dizem que ele é rico. Outros que ele é desempregado falido e duro tentando manter as aparências.
Tem quem diz que é aposentado.
Às vezes ele trabalha em alguma empresa, mas por pouco tempo e depois para de novo.
Porque quer saber dele?
Eu acho ele muito estranho.
Vem você outra vez com birra do Velho.
Sei lá. Esse homem me dá medo.
Deixa de besteira. Conheço e sou amigo de toda família dele.
Tem dois ótimos filhos cursando faculdade.
Sua esposa é muito educada.
Almoçavam todos os dias no meu restaurante quando era na outra rua, mas parece que arrumaram uma empregada muito boa e deixaram de comer fora.
Aqui no shopping eles vêm muito pouco.
Não sei. Nunca falou comigo, mas só com o olhar ele me diz tanta coisa.
Como assim?
Nada não. Acho que é cisma mesmo.
Claro que é.
Fizeram as compras de mantimentos no Ceagesp e regressaram ao depósito do restaurante que era nos fundos da casa de Paulinho.
Com o passar do tempo Sebastião que nunca mais foi ao bar percebeu que tinha decidido certo.
Muitas pessoas que frequentavam o bar almoçavam no restaurante do Shopping e nenhuma delas ao vê-lo no serviço jamais lhe perguntou por que tinha deixado de ir lá. Estava claro que lá não era seu lugar.
Passou a ter muito mais tempo para escrever sua história.
Com rapidez escreveu minuciosamente até os dias atuais.
Descobriu que tudo que tinha de ser escrito já estava nos papeis. E agora?
Assustou-se ao perceber que sua história já tinha terminado, mas não teve fim.
Nesses quatro meses de serviço nada acontecia de diferente que valesse a pena ser escrito principalmente para terminar seu conto.
O seu dia a dia normal e repetitivo nada tinha de interessante e importante e nem mantinha a sequência de sua vida anterior até então complicada e sofrida.
Concluiu que tudo que escreveu fora em vão.
Que história era essa?
A história do sem fim?
Quem interessaria pelos seus escritos se nem ele próprio, apenas alfabetizado embora com alguma cultura conseguida a duras penas dava o mínimo valor?
Estava vivendo e trabalhando como um simples entregador de refeições sem nenhuma perspectiva de futuro, sem parentes, nem amigos e vindo do interior com muito entusiasmo e nada conseguiu?
Com certeza nada conseguirá.
Como sua história que foi movida durante anos por uma violenta trajetória ainda o mantinha percorrendo atrás de um grande ideal poderia acabar assim.
Sem um final grandioso e totalmente vitorioso.
Jamais conseguiu e nunca encontrará seu Paraíso para ele e para nenhum de seus parentes.
Perguntava-se insistentemente se algo de bom, de útil, de maravilhoso ou de gloriosas realizações bem sucedidas ainda ocorreria?
Sua certeza. Nunca.
Lembrou-se que em muitos livros que leu terminaram em tragédias.
Se pelo menos conseguisse um fim maldito, aterrorizante, igual a tudo que passou justificaria seu término.
Nesses últimos meses nada ocorreu de trágico, de monstruoso que servisse para o final de sua história.
Talvez ainda pudesse acontecer.
Sabe-se lá se acontecerá mesmo e quando?
Em sua permanente depressão, após muitos devaneios, decidiu inventar algum fato violento para si próprio para terminar seu livro, morrendo de forma bárbara.
Refletiu e acertadamente concluiu.
Certamente seria provado que com ele permanecendo vivo tal encerramento era mentira e toda sua história seria considerada ficção.
Isso ele não queria, pois até então tudo acontecera de fato.
Toda sua história tinha sido real e teria de terminá-la verdadeira.
Pensou muito em suas noites de lucubração e finalmente conseguiu.
Encerraria sua história escrevendo e praticando seu suicídio. Tudo seria verdadeiro.
Usando sua imaginação escreveu vários finais violentos e assustadores culminando com seu suicídio que nunca teve coragem de cometer.
Outra grande idéia apareceu em sua mente conturbada a custa de muitas ulteriores noites não dormidas.
Escreveu vários outros finais com sua morte praticada por outros.
Ser assassinado será mais fácil que cometer o suicídio.
“... Ao assaltar um banco trocando tiros com a polícia Tião foi morto...”.
Concluiu ser esse o melhor de todos os finais que escreveu.
Isso não seria difícil de escrever em sua história e depois realizar o assalto com o atroz final.
Tinha lido em um recente jornal sobre a fuga da penitenciária dos dois assaltantes de banco que lá conhecera. Exatamente os mesmos que o maltrataram.
Desta vez eles tinham conseguido êxito na evasão, desaparecendo.
Bastaria encontrá-los o que seria fácil, pois eles próprios em certa ocasião ensinaram-lhe como localizá-los.
Uniria-se a eles. Participaria de um assalto a banco.
Deixaria ser morto pela polícia conforme planejado e provocaria o final já antecipadamente escrito.
Novo e grande problema surgiu.
Como alguém escreveria sua própria morte exatamente como iria acontecer antes mesmo dela ocorrer de fato?
Não precisou pensar muito para saber que tal fraude também seria descoberta.
A primeira pessoa que lesse perceberia que o final fora planejado e seria pior que ficção.
Seria uma realidade forjada não acontecida conforme os desígnios de Deus.
Seu livro não teria nenhum valor.
Seria desprezado.
Pensando ajuizadamente chegou a conclusão que tudo que tinha escrito não serviu para nada.
Não seria nenhum livro.
Jamais seria publicado.
Ouviu seus demônios falarem alto em sua mente.
Joga fora no lixo.
Assim fez.
Arrependeu-se rapidamente recolhendo suas folhas.
Reconheceu que não tinha nada a fazer a não ser guardar tudo e deixar passar o tempo para no futuro descobrir alguma solução.
Guardou seus rascunhos em vários sacos plásticos de lixo bem fechados com fita adesiva para conservá-los e continuou sua vida.
Nada mais escreveu.
Voltou a interessar-se pela leitura.
Trabalhava de seis as dezesseis e depois lia em seu quarto até adormecer.
Há muito não via mais o Velho gordo quando saía para suas entregas, nem nunca mais ouviu falar dele e dos outros amigos de seu patrão.
Desinteressou-se de quase tudo que a vida podia proporcionar sempre pensativo a procura de seu atual e único desejo. Terminar sua história.
Abandonou a leitura e pôs-se apenas em pensar.
Sua insônia era quase permanente.
O tempo voava e nada acontecia e nenhuma boa idéia aparecia.
Certa madrugada angustiado por ficar quase todas as noites sem dormir decidiu queimar seus manuscritos.
Não encontrou fósforos para consumar seu desejo.
Nessa noite dormiu até razoavelmente bem, embora aborrecido, por não ter ficado livre de seu tormento que eram suas folhas.
Voltou a ler.
Trabalhava, lia livros que comprava no sebo do Zé da Banca e permanecia em vigília quase todas as noites sempre lendo.
Procurava incessantemente em sua leitura alguma forma para concluir sua história que ainda imaginava transformar em livro.
Em quase sua totalidade os livros lidos eram de ficção.
Alguns livros eram de histórias verdadeiras sobre países, cidades e até pessoas.
Os que contavam a vida de pessoas eram sempre sobre gente famosa em alguma atividade.
Tais livros eram escritos por outros também famosos. Escritores e pesquisadores consagrados.
Em seus livros não existiam nenhum que fosse autobiografia por isso nunca encontrou um livro contando a vida de alguém escrita pelo próprio.
Ele nunca foi nem ficaria célebre em nada para ter sua história contada por alguém.
Há muito já perdera a esperança em melhorar de vida.
Ficar famoso nunca pensou nem nos melhores e mais afortunados sonhos de antigamente.
Como algum escritor importante se interessaria em contar sua vida?
Seu único amigo e de sua confiança era seu patrão.
Pensou que talvez Paulinho se interessasse em escrever sua história após sua morte.
Seria muito complicado, pois tinham a mesma idade e suas vidas provavelmente terminariam próximas.
O patrão poderia até morrer primeiro.
Outro problema.
Quem escrevia sobre a vida de pessoas ilustres também já deveria ser famoso.
Eram escritores consagrados ou pesquisadores do mesmo nível que davam credibilidade às histórias.
O Paulinho era um ótimo administrador de restaurante e organizador de festas e excelente cozinheiro, com boa cultura, mas escrever não fazia parte de suas aptidões, portanto não daria confiabilidade à história que também não seria de ninguém importante.
Rasgou tudo e socou os pedaços de papel destroçado em um grande saco de lixo que colocou no local próprio para o caminhão levar e foi dormir.
Bem cedo ainda antes do sol nascer foi até a lixeira arrependido e constatou que seu saco de lixo ainda não fora levado.
O caminhão que recolhe à noite já havia passado quando depositou seu lixo e o da manhã ainda não tinha chegado.
Levou o entulho para seu quarto e deixou-o amarrado em um canto do quarto.
Passado mais de um ano empregado e patrão ao voltarem do Ceagesp avistaram próximo ao Shopping um Velho careca de barba branca, porém magro entrando no condomínio residencial e Paulinho que o reconheceu comentou com Sebastião.
Viu o Velho gordo?
Não. Onde você o viu?
Entrando no prédio.
Agora?
Sim.
Vi um homem barbudo entrando lá, mas era magro.
É ele sim.
O magro?
É. Faz tempo que ficou doente. Dizem que com câncer. Acho que no estomago.
Câncer no estomago?
Foi o que ouvi dizer. Todos achavam que ele não iria escapar da doença.
E será que escapou mesmo?
Tenho certeza. Foi ele mesmo que entrou. Vou avisar o pessoal à tarde da sua volta do hospital.
Esteve internado quase um ano na Fundação Antonio Prudente.
Para a surpresa de muitos amigos que continuavam reunindo-se no bar foi o próprio Velho agora magro definhado pela doença e não mais com a barbicha branca e sim com a branca barba grande cobrindo todo o rosto quem apareceu com a novidade da sua cura e retorno.
Notícia que agradou a todos e de todos arrancou gargalhadas quando informou depois do primeiro copo de sua cerveja que terminou definitivamente seu regime a partir daquele gole.
Estava pronto para engordar novamente.
Quando Paulinho chegou para avisar a todos que tinha visto o velho amigo chegar do hospital teve um sobressalto.
Estava frente a frente com um homem com uma semelhança incrível com o mendigo que anos antes vagabundeava pela região e que roubara o filho nenê de Sebastião.
Lembrou-se que seu empregado já via no Velho alguma aparência com alguém perdido no passado que nunca conseguia lembrar.
Magro como estava com a barba sem aparar conforme usava era sem tirar e nem por o próprio mendigo.
Sósia perfeita.
Algum parente próximo?
Era o mais provável.
Sebastião não poderia vê-lo pelo menos por enquanto, pois não entenderia tal semelhança e iria com certeza julgar que se tratava da mesma pessoa.
O indesejável e inevitável poderia acontecer.
Como o Velho não estava em nenhuma atividade nos jogos de mesa e nem vendo noticiário ou jogo de futebol na televisão, Paulinho convidou-o para tomarem cervejas em uma mesa afastada para conversarem.
Não foi bem uma conversa.
Foi um verdadeiro interrogatório que o ex-doente foi submetido. Paulinho estava certo de não ser a mesma pessoa, pois conhecia ambos.
Anos antes e na mesma época que via o magro mendigo de barbas grisalhas cobrindo todo o rosto via o gordo amigo de barbas grisalhas aparadas apenas contornando o rosto.
Nunca notou nenhuma semelhança entre os dois, pois o velho gordo já era gordo e nunca maltrapilho além de usar a barba sempre aparada.
Não tinha dúvidas tratar-se de pessoas diferentes, mas precisava saber a todo custo se a outra pessoa era algum seu parente próximo.
Foi sincero com o amigo informando-o que suas perguntas eram urgentes e necessárias e explicou o motivo.
As respostas precisariam ser honestas para resolver uma situação que deveria ser solucionada antes de virar um problema cuja solução seria muito mais complicada.
As respostas foram simples, diretas e corretas.
O Velho só tinha um irmão até parecido com ele que morava em Portugal há pelo menos vinte anos.
Era um artista plástico muito famoso chamado Wanderley e tinha um casal de filhos ainda jovens.
Uma irmã que morava em São Paulo com uma filha e dois filhos. Todos adolescentes.
Outra irmã residente em Vitória no Espírito Santo.
Essa tinha uma filha e quatro filhos. Todos parecidos com o próprio pai que era muito diferente dele além de serem todos jovens.
Todos seus parentes estavam muito bem de vida sem a mínima possibilidade de terem sido mendigos em São Paulo.
Tios e tias por parte de mãe ele tinha muitos.
Esses com muitos filhos e netos.
Moravam espalhados pelo interior de São Paulo e Minas.
Desde que casou a quase trinta anos pouquíssimo contato teve esses parentes.
Poderia até ser que o mendigo parecido com ele fosse algum tio, primo, ou sobrinho que ele não conhecera porque da enorme prole que tiveram seus avós maternos muitos ele jamais conheceu.
Se fosse algum seu parente desse ramo familiar, hipótese não descartada seria totalmente desconhecido dele e sem possibilidade de nenhuma informação.
O Velho gordo também por várias vezes já vira o magro mendigo barbudo sem nunca ter conversado com ele e muito menos ter-lhe dado um níquel, pois não era dado a fazer caridade a ninguém que esmolava, pois sempre achou que todas as pessoas de alguma forma poderia ter um emprego. Seu argumento era que esmolar era vagadundagem e não necessidade, a menos que a pessoa fosse aleijada e realmente não teria condições de trabalhar. A esses ele até dava esmolas as vezes que era solicitado.
Esse mendigo em questão sempre lhe negou esmolas por saber que não passava de um vagabundo e mau caráter.
No outro dia na hora do almoço Sebastião provavelmente encontraria com o Velho e poderia acontecer alguma desgraça em função de alguma possível vingança.
Paulinho teria só sua palavra como prova de que eram pessoas diferentes e isolado em uma mesa bebendo sua cerveja e fazendo beicinhos pensava em como resolver a situação.
Fazer beicinhos era um cacoete que tinha quando o seu Vasco da Gama perdia ou quando estava aborrecido com alguma coisa.
Estava aborrecido. Tinha de encontrar uma saída para o problema.
Amuado em seu canto ouviu quando o chamaram para unir-se ao pessoal que ria muito alto das brincadeiras que faziam com o Velho gordo agora magro.
Atendeu e foi encontrar-se com os demais que olhavam uma antiga foto com alguns deles reunidos no extinto bar do Zé na rua de baixo.
O Zé exibia a foto aos novos amigos que não conheciam o Velho quando era gordo.
Eram novas amizades que frequentavam o bar a menos de um ano que estavam vendo o Velho pela primeira vez nessa noite.
A fotografia era grande e nela via-se claramente na parede de fundo do bar uma flâmula.
PALMEIRAS CAMPEÃO PAULISTA DESTE ANO DE 19....
A data na bandeira deixava claro que a foto foi tirada exatamente sete anos antes.
No mesmo ano do roubo do bebê e o Velho já era gordo, careca e de barbicha, na época grisalha, conforme se via claramente na foto.
Todos os amigos foram reconhecidos, pois seus semblantes mantinham-se como os atuais apenas alguns anos mais novos.
Com a foto emprestada Paulinho foi para sua casa.
Lá chegando chamou Sebastião e confirmou ao empregado que o velho magro era de fato o Velho gordo curado da doença, mas agora magro definhado pela internação prolongada.
Que sua atual aparência era exatamente igual ao mendigo que lhe roubara o filho.
Foi com a foto levada que provou a Sebastião que eram pessoas diferentes, pois no mesmo ano que o mendigo magro e barbudo roubou-lhe o filho o Velho já era gordo de barbicha, morador e frequentador do local conforme ele mesmo já havia confirmado verbalmente.
A fotografia e a data nela provaram a veracidade das informações.
Sebastião quis ir até o bar para vê-lo e foram ambos para lá.
Verificou a incrível semelhança entre o velho atual com o mendigo de antigamente.
Não tinha como não acreditar nas provas e concordou com o amigo que de fato existem as duas pessoas.
Bebeu algumas cervejas pagas por Paulinho.
Sentiu-se embriagado pela quantidade exagerada, pois há muito não bebia e ficou choramingando e conversando apenas com seus capetas afastado em uma mesa, pois se recusara a continuar na mesa do patrão.
Vendo o mendigo à sua frente recordou da perversidade feita com seu pequenino filho, mas não podia tomar nenhuma satisfação visto que não se tratava do verdadeiro malfeitor.
Saiu sem despedir de ninguém.
Nessa noite ficou novamente sem dormir, imaginando ter encontrado a solução para seu dilema.
Já havia acostumado a ser só e não pensava mais em seus familiares.
Lembrava de suas existências, mas já há muito se conformara com seus desaparecimentos.
Do bebê que sequer tinha visto uma única vez nem lembrança tinha.
Imaginava-o também já morto assim como o ladrão.
A revelação ocorrida nessa noite no bar o fez sentir ter encontrado a chave de seu problema.
Poderiam estar vivos. Jamais alguém falou em suas mortes.
Encontraria seu filho com provavelmente uns oito anos.
Proporcionaria a ele estudos para que quando fosse adulto formado em escritor escrevesse a história até o final, pois morreria antes que o filho que já formado seria conhecido e famoso escritor.
Ele escreveria somente o final, editaria e daria credibilidade à história para ser lida talvez no mundo todo.
O término de sua história seria a que de fato sempre quis desde o seu início.
Seria um final vitorioso e feliz, pois a partir de seu filho a família Pereira da Silva iria crescer e continuar brilhante, rica e famosa.
Importantes moradores de São Paulo seu “Paraizo”.
Estava decidido. Encontraria a criança.
Apanhou o grande saco de lixo cheio de papeis rasgados beijando-o carinhosamente.
Partiria a procura do mendigo que devolveria o menino.
Trabalhou normalmente mais uns de dez dias usando seus finais de tardes, noites e parte da madrugada gastando rolos e rolos de fita adesiva na colagem dos pequenos pedaços de papel que minuciosamente ia montando como a um grande quebra cabeças folha por folha.
Colocou todas as folhas recuperadas novamente na sequência correta leu toda a história e embrulhou tudo em vários sacos plásticos conforme anteriormente já havia feito.
Colou triunfante o último saco lacrando todas as folhas amareladas pelo tempo.
Escreveu com letras grandes em uma folha os dizeres:
“Paulinho se eu não aparecer de volta em dois meses e precisar do quarto e encontrando esse embrulho guarde-o para mim que algum dia virei buscá-lo”.
Colou a folha por fora do grande embrulho.
Escondeu-o muito bem colado na parede atrás do pesado guarda roupas.
Dormiu a melhor de suas noites nos últimos anos.
Na manhã seguinte conversou mentindo ao patrão a caminho do Ceagesp que após ter visto o Velho com a mesma aparência do mendigo, todas as noites sonhava com seu encontro com ele e que ele lhe devolveria o filho são e salvo.
Ainda inventando disse que durante sua vida teve muitos sonhos visionários e que todos eles aconteceram.
Que ele acreditava piamente que este também seria transformado em realidade muito em breve.
Como já estava trabalhado há mais de um ano precisaria de um mês de férias para buscar o garoto que moraria com ele no mesmo quarto e para ter esse direito prestaria algum serviço gratuito no restaurante nas folgas dos estudos que seria sua principal atividade.
Perguntou a Paulinho se seria possível atender esse pedido.
O “Grande Coração” supersticioso e crédulo como era acreditou nas mentiras e com os olhos vermelhos e banhados de lágrimas não só concordou como ofereceu dois meses de férias, dinheiro e até o velho carro Gurgel ou uma moto para suas andanças.
Prometeu pagar os estudos do menino que ajudaria criar e muito mais.
Sebastião aceitou apenas os dois meses de férias.
Dinheiro ele tinha bastante porque pouco gastava e guardava muito e carro, nem moto jamais dirigiu depois do acidente com o caminhão e não tinha mais vontade de dirigir nenhum veículo.
Precisava apenas de outro grande favor que era uma foto recente do Velho que ainda continuava magro e mantinha a barba branca cobrindo-lhe todo o rosto tal qual o mendigo.
Tal foto serviria para exibir nas favelas, nos albergues e et cetera para identificar o verdadeiro mendigo localizando-o.
Foi fácil para Paulinho convencer o Velho posarem juntos numa fotografia recente para recordação de sua magreza já que ele voltando às suas cervejas e petiscos naqueles poucos dias já tinha ganhado uns quilos e consequentemente recuperaria suas gorduras muito em breve.
Tal foto seria memorável.
O Luiz da farmácia e o Jean foram com eles ao shopping e confortavelmente bem instalados em uma mesa de uma lanchonete saboreando rãs empanadas e chope, Fernando fotógrafo de um famoso estúdio instalado no local e também amigo e frequentador do bar imortalizou-os numa bela foto revelada em quatro cópias.
Uma para cada.
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SEBASTIÃO VAI A PROCURA DO FILHO ROUBADO PELO MENDIGO
Algum tempo depois, numa noite, Paulinho bebia cerveja fazendo seus beicinhos abandonado e sozinho numa mesa de fundos no bar quando o Velho, agora já menos magro, mas que ainda não chegava ser tão gordo como antes se aproximou lhe perguntando:
Porque o beiço? O Vasco ganhou ontem. Foi de goleada. Devia estar feliz.
É que estou chateado.
Brigou com a namorada?
Faz tempo. Até já estou de olho em outra.
Outra? Você nunca fica muito tempo com nenhuma?
É. Continuo procurando a certa.
Essa que estou apenas na paquera trabalha aqui perto e é sócia em um ferro velho.
Bonita?
Linda e parece que está na minha. Vive passando na porta do restaurante e disfarçadamente olha para dentro para olhar-me. Já está na hora de eu dar o bote.
Então qual é o problema que lhe aborrece?
É o Tião.
Que tem ele?
Sumiu.
Como sumiu?
Dei-lhe dois meses de férias para ir procurar o filho, mas passaram-se mais de três e ele nem sequer telefonou.
Não sabia. Você nunca comentou.
Lembra-se quando lhe contei do roubo do filho bebê dele.
É claro. Na época que me contou que eu corri o risco de ser considerado o mendigo ladrão.
Pois é. A partir daquela época Tião sonhava direto que iria encontrá-los. Por isso dei-lhe férias para ir procurá-los.
Isso de sonho é besteira. Onde ele poderia procurá-lo e como identificá-lo.
Sua fotografia.
O que?
Aquela que tiramos com você magro e barbudo foi para ele levar e exibir por aí procurando o tal bandido igual a você quando veio do hospital.
Pôrra. Você é foda. Enganou-me direitinho.
Foi por uma causa justa.
Tudo bem. Valeu. Para boas causas vale quase tudo.
Vou tratar de beber e comer dobrado para engordar logo antes que ele me encontre e confunde-me novamente.
Risos.
Foram interrompidos por um jovem aparentando uns dezesseis ou dezessete anos que educadamente chegou à mesa se desculpando pela interrupção e avisou ao Velho que a esposa chamava-o.
Antes de atender ao chamado por mais alguns segundos enquanto o Velho rapidamente terminava sua cerveja continuaram o diálogo:
Repare neste garoto que veio aqui.
Que tem ele?
Só repare por enquanto. Depois que atender a patroa eu falo.
Seu parente?
Calma Paulinho. Volto já. Só olhe para o rapaz. Sua aparência e seu porte, pois a educação já percebeu ou não?
Sorveu o último gole distraidamente e já em pé afastou-se com um volto já.
Nessa noite os parceiros Jean e Paulinho estavam infernais no dominó. Simplesmente imbatíveis.
Rodaram cinco duplas por três vezes seguidas.
O Velho regressara e fazia tempo que bebia suas cervejas assistindo o costumeiro jornal da TV Cultura sentado numa banqueta no balcão do bar conversando com o Zé.
A dupla imbatível foi finalmente eliminada do jogo e Paulinho chegou ao Velho perguntando-lhe o que queria falar sobre o garoto.
Afastaram para uma mesa isolada e conversaram longamente durante muito tempo.
Porque foi que o senhor pediu-me para reparar no garoto?
Por enquanto por nada. Primeiro vamos terminar a conversa sobre Tião.
Terminar o que? Já falei tudo.
Ainda não contou o porquê desse grande aborrecimento com o sumiço dele.
Estou preocupado por três motivos.
Primeiro por ele próprio. Gostaria de saber se está bem, se encontrou o filho, se tem dinheiro, se está vivo e tal.
Segundo é o mais complicado, pois seu trabalho tornou-se imprescindível. Não dá para esperar mais o seu retorno.
É isso que eu queria saber.
Isso?
É. Você precisa de outro empregado para colocar em seu lugar?
Prefiro que ele volte, mas os outros empregados estão me aporrinhando.
Todo pessoal está revoltado, pois estão sobrecarregados fazendo mais que o normal para suprir-lhe a falta.
Tem gente ameaçando sair do emprego se Tião não voltar urgente para fazer seu trabalho, ou se eu não colocar outro.
Pretende esperar quanto tempo mais?
Não dá para esperar mais. Nos jornais de amanhã já sai anuncio oferecendo emprego.
Então vai contratar outro? Já é fato consumado?
A contra gosto, mas é.
A propósito o senhor interrompeu-me antes de eu falar o terceiro motivo de meu aborrecimento.
Desculpe. Fale.
Na verdade minha bronca maior é colocar alguém no lugar dele e ele voltar.
Terei de fazer injustiça com o novato, pois acho que Tião por tudo que passou na vida e até por promessas que fiz a ele terei de devolver-lhe o lugar. Não poderei abandoná-lo
Isso fica para depois. Para o momento já estamos com tudo solucionado.
Como assim?
A conversa foi interrompida quando Jean chamou Paulinho, pois estava na vez da dupla voltar ao jogo.
Ele recusou o convite, pois o assunto era importante e atentamente continuou ouvindo.
O Velho contou-lhe que sua empregada estava separada do marido há dois meses e como seria difícil para ela pagar o aluguel e o estudo do filho vieram morar com ele.
Entregaram o imóvel onde moravam, pois não haveria possibilidade de reconciliação com o marido porque ele fora para a Bahia com outra mulher.
Que o filho era aquele jovem que ele tinha mandado-o olhar.
É um menino muito bom, honesto como a mãe, muito inteligente e trabalha como moto boy na entrega de pizzas, lanches e refeições no bairro onde moravam.
Seria muito mais útil que Sebastião que só fazia entregas a pé em locais próximos, pois se recusava em dirigir moto.
Ótimo. Já tenho um substituto para o Tião.
Um substituto muito melhor que o substituído.
Mas não poderei deixá-lo usar moto. É menor de idade não é?
Não. Tem dezenove anos e carteira de habilitação não só de moto como de veículos de passeio e grandes.
Muito bom mesmo. Gostei do garoto.
Tem tão boa aparência que pensei que fosse seu parente.
O Luquinhas? Não é meu parente.
É filho da Luciene que trabalha lá em casa.
Acha que empregadas e filhos delas têm de ser feios? Isso é discriminação.
Gargalhadas.
Quem chamaria “Grande Coração” de racista?
Só mesmo o Velho gozador e chato.
Riram muito da chacota deixando Paulinho ruborizado pela vergonha da mancada que imediatamente começou com seu tradicional tique nervoso.
Pare com os beiços.
Senhor. Resolveu meu sufoco muito melhor que eu poderia resolver, mas e se Tião voltar?
Qual o problema?
Terei um problemão. Com qual ficarei? Já falei ao senhor que não posso abandoná-lo.
Problemas só se resolvem quando eles aparecem de fato.
Esse ainda não existe.
Tem razão. Mande o rapaz amanhã cedo falar comigo.
Cedo não dá. Quando eu chegar hoje ele já estará dormindo e quando eu acordar amanhã ele já saiu para trabalhar.
Então ele trabalha?
Você esqueceu, mas eu já lhe disse que ele trabalha no bairro que morava.
Então pode ser que ele não queira sair do emprego.
Quer sim. Já comentou que procuraria serviço aqui por perto, pois lá ficou longe demais para ele.
Então acho que vai dar certo. Mas continuo preocupado com a possível volta do Tião.
Já que tem essa idiota e prematura ocupação sobre coisas que talvez jamais venham a acontecer, dou-lhe a solução futura se for necessário.
Se o Sebastião voltar algum dia pode tranquila e sem remorsos dispensar o menino, pois com a presteza e capacidade dele não ficará desempregado nem dois dias. Arrumará outro emprego rapidamente e até melhor, pois Self Service e Pizzarias por aqui não faltam e até melhores e maiores que seu restaurante. Poderia ter ido dormir sem ter de ouvir isso, mas fez questão.
Apesar do seu desprezo por meu restaurante conseguiu solução para mais esse problema.
Emprego para o garoto nunca será difícil e se algum dia chegar a ser a gente resolve na hora exata.
Então me resolva mais um.
Qual?
Formar uma dupla comigo para ganharmos no dominó. Vamos?
Onde está o Jean?
Está de parceiro com o Sucata.
Então vamos, mas você sabe que sou ruim.
Melhor que o Bertilon o senhor é.
Vamos.
Como sempre qualquer dupla formada com o Velho ficava muito fraca.
Perderam rapidamente de buchada.
Desapontados já na mesa afastada voltaram à conversa já terminada reiniciando-a.
Paulinho comentou que Sebastião sempre trancado em seu quarto durante mais de um ano que morou lá silenciosamente deveria ter escrito muita coisa, pois sempre as faxineiras encontravam canetas com cargas acabadas e muitas folhas de papel amassadas no cesto de lixo.
Seriam poesias? Letras de música? Histórias? Sabe-se lá o que?
Contou-lhe que alguns dias antes de sua saída fora achado um grande saco de lixo cheio de papeis rasgados e amassados, mas que Sebastião impediu de levarem para o lixeiro recolher bem cedo. Ainda na madrugada.
Que tal saco de papel rasgado não foi levado por Sebastião quando partiu e nem encontrado por ninguém.
Essa noitada durou até altas horas.
Houve de tudo no bar e nas imediações.
Briga de bêbados. Discussão de casais. Término de namoro. Batida de carro. Início de romance. Roubo de bicicleta. Batida da polícia.
E pasmem. Até vitória do Velho no dominó aconteceu.
O Velho de parceria com o Bertilon considerada a pior dupla ganhou não só da dupla Jean e Paulinho, mas também da dupla Zé do Bar com o Zé da Pica consideradas as melhores duplas de toda Vila Maria.
As cervejas geladas do bar pela primeira vez acabaram todas.
Nem latinha tinha mais.
O Zé em caráter de emergência teve de buscar reforço, em outro bar cujo dono o baiano do bar Anarquia Total tinha um estoque muito maior e cedeu-lhe várias grades.
Diga-se de passagem, bem mais geladas.
No outro dia o Velho levou o rapaz ao restaurante de Paulinho, apresentou-os e os deixou conversando sobre os deveres e obrigações do trabalho e seus direitos.
Quando o garoto voltou disse a mãe e aos patrões dela ter gostado muito do Sr. Paulo que lhe concedeu o emprego.
O salário fixo era bem melhor que o que ganhava e ainda ganharia comissão nas entregas de refeições, com moto do próprio restaurante sem necessidade de usar a sua.
Iria pedir demissão nesse mesmo dia do atual emprego e começaria pela manhã no shopping com ele.
À noite Paulinho conversou com o Velho agradecendo-o pela indicação, pois o jovem surpreendera-o.
Era muito melhor que pensavam.
Já era brilhante e muito experiente na profissão.
Não tinha vícios.
Não bebia, não fumava e ainda sabia tudo de computador.
Estava muito satisfeito com a contratação.
Informou que tinha combinado que o rapaz dormiria no quarto que fora de Sebastião, pois todos os dias mesmo antes de o dia clarear iriam fazer compras de mantimentos na Ceagesp e estando próximos um do outro tais viagens seriam mais rápidas.
Justificou ao amigo que para o jovem seria muito mais interessante morar no quarto nos fundos de sua casa, pois teria total liberdade para namorar e et cetera e tal.
O velho até que gostou da idéia, pois além da liberdade que o garoto teria proporcionaria mais conforto à mãe, pois em sua casa repartiam um minúsculo quartinho que constroem nos apartamentos com o nome de dependência para empregadas.
A noite estava muito quente e própria para a rotineira prática de muito consumo de “geladas”.
O bar estava repleto e contrariando sabedoria de Paulinho quem ganhava todas as partidas de dominó era a dupla Bertilon e Sucata que ele considerava como os piores jogadores além do Velho.
Indiferentes à grande animação que reinava no ambiente ambos retiraram-se cedo para tentarem recuperar o sono perdido na noite anterior.
Despediram e saíram.
No outro dia o velho foi com o rapaz no restaurante do shopping por volta de dez horas com os documentos.
Encontraram o dono que após telefonar ao contador ensinou ao jovem como ir até o escritório para ser devidamente registrado.
Conservou mais um pouco com o Velho que saiu com uma chave na mão entregue pelo comerciante.
Ele já em sua casa chamou Luciene e levou-a até a casa de Paulinho para ela fazer uma boa limpeza no cômodo que seria a moradia de seu filho.
Ambos ficaram perplexos.
Não se tratava de um quartinho de fundos, mas de um belo e bem montado apartamento bastante amplo dando inveja à doméstica que se lembrou que quando vivia com o marido e filho nunca tiveram uma moradia como essa e ainda pagavam aluguel.
O velho confortavelmente instalado no sofá da sala ligou a televisão, enquanto sua empregada limpava os outros cômodos. Quarto cozinha e banheiro.
Quando ela terminou a faxina do restante do apartamento veio higienizar a sala e ele foi para o quarto, deitando-se na cama que fora de Sebastião, olhando fixamente ao enorme guarda roupas que tinha em frente. Percebeu marcas no chão, identificando que tal móvel tinha sido removido de seu antigo lugar e reunindo todas as suas forças começou movê-lo do lugar, desencostando-o da parede.
Terminado todo trabalho da moça saíram,  sem antes o patrão aparentemente carrancudo com um sorriso maroto nos lábios falar a empregada:
Lá em casa você não limpa tão bem assim.
Que é isso senhor?
Foi com mais carinho para seu menino não foi?
Do mesmo jeito patrão.
Estou brincando. Não me leve a sério.
Já na rua a moça perguntou ao velho.
Que é isso que está trazendo de lá?
Nada importante. É só um punhado de lixo.
O velho assim respondeu-lhe ao mesmo tempo em que olhou para sua mão direita na qual carregava um pacote de sacos de lixo sobrepostos e muito bem colados vedando grande quantidade de folhas de papel dentro deles.
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ENQUANTO ISSO NAS RUAS DE SÃO PAULO
Sebastião obcecado em encontrar o mendigo com seu filho logo na primeira noite dessa aventura deu-se mal.
Sua primeira tentativa foi motivo de briga quando exibiu a foto na mão perguntando a dois indivíduos de rua se eles conheciam o mendigo da foto.
Os baderneiros estranharam a pergunta ao ver a fotografia lhe perguntando:
Como você procura por um pedinte mostrando-nos uma foto de uns caras bem vestidos deliciando-se em um rico ambiente?
Aproveitando-se da aproximação entre eles os arruaceiros bêbados agressivamente discutiram com Sebastião entrando em luta corporal com ele com a finalidade de roubarem sua mala com seus pertences.
Sebastião defendeu-se e graças ao estado de embriagues dos vagabundos e levou a melhor pondo-os a correr cambaleantes, doloridos e derrotados.
Procurou uma pensão barata e hospedou-se.
Antes de dormir imaginou-se um idiota.
Era de fato muita ingenuidade mostrar aquele retrato com gente elegante alegando que um deles era um mendigo.
Tal atitude seria desacreditada por todos que recorresse e iria arrumar muitas outras confusões.
Deveria mostrar uma foto do verdadeiro mendigo maltrapilho, e não de pessoas bem vestidas, mas com sua fértil imaginação encontrou a solução para continuar exibindo tal foto mesmo.
O que idealizou seria até melhor que se fosse a imagem do verdadeiro mendigo maltrapilho, sujo e pobre. Bastava apenas modificar o que falaria aos passantes.
Pelo que pensou tinha a possibilidade de encontrar o mendigo de forma bem mais rápida.
Arquitetou de forma ideal o plano correto para suas idas e vindas e das aproximações aos estranhos.
Nunca mais carregaria sua mala. Deixaria sempre em alguma pensão que hospedasse bem fechada, guardando nela, também seu dinheiro. Carregaria consigo só o necessário para o dia.
Diria aos que indagava estar à procura de um homem de família rica que tinha perdido o juízo e vagava pelas ruas, sujo, maltrapilho e esmolando, provavelmente acompanhado de um garoto de rua.
Só após falar assim mostraria a foto alegando ser do irmão gêmeo do procurado ou do próprio procurado fotografado antes da loucura.
Tanto fazia. Ambas as histórias seriam convincentes e não lhe agrediriam mais.
Explicaria que quem o orientasse ou ajudasse na localização do doido, idêntico ao homem da foto seria muito bem recompensado pela família.
Assim aconteceu daquele dia em diante. Muitos se mostraram prestativos e até participaram das buscas fazendo planos para o uso da milionária recompensa.
Pobres de rua desempregados e desocupados se punham à procura do tal doente em todos os bairros que Sebastião passava e contava essa história.
Ao cabo de quatro meses mudando de bairros e pensões, andando perdido por todos os cantos da cidade. Procurando em favelas, albergues, debaixo de pontes, viadutos, terrenos baldios, sempre utilizando a fotografia, na tentativa de que alguém o ajudasse. 
Ninguém conseguiu auxiliá-lo, mas ajudado pela sorte aconteceu finalmente...
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...O ENCONTRO COM O MENDIGO.
 
...numa tarde fria com muitos trovões e relâmpagos anunciando uma tempestade, ele viu o homem procurado.
Estava trêmulo de frio debaixo de um viaduto procurando em um monte de lixo sobras de comida para dividir com um cão tão doente quanto ele que lhe fazia companhia.
O interrogatório não surtiu efeito, pois o velho magro, barbudo e maltrapilho nada respondia sobre o bebê perguntado, alegando nunca ter feito o que Sebastião lhe imputava.
Não havia nenhum argumento que fosse capaz de convencer o homem a falar sobre o paradeiro do menino desaparecido.
Pelo que Sebastião soubera tinha sido o mesmo homem que há muitos anos ele próprio fora enganado, quem lhe roubou o filho.
Esse era o homem que ele conheceu e que foi ludibriado por ele com um nenê no colo dando-lhe seu dinheiro. Tinha certeza.
Mesmo assim ele confirmou com perguntas e respostas afirmativas relacionadas com a época.
O homem não negou ter andado naquele tempo pelo bairro de Vila Maria, mas alegava que nunca tinha feito uso de crianças roubadas. Sempre andava com seus próprios netos.
Após muito tempo de perguntas que não levavam a nada em duvida Sebastião perguntava-se:
Será que foi mesmo esse mendigo? Não seria outro parecido com esse? Os velhos carecas e barbudos sempre se parecem.
Resolveu abandonar o velho e retirar-se.
Afastou-se, mas como sempre quase todas suas decisões modificavam-se em seguida, parou e pôs-se novamente a pensar.
Deram-lhe certeza que foi o mesmo homem que ele conheceu quem lhe roubou o filho.
Teve gente no bairro que garantiu ter dado comida e dinheiro a ele com um bebê no colo alegando ser seu neto naquele mesmo dia do desaparecimento do Tiãozinho e bem próximo ao local do rapto.
Tinha de ser ele e ele teria de falar.
A confissão deveria ser arrancada nem que fosse a força.
Voltou ao mendigo.
Não poderia desistir depois de tanto tempo de procura.
Na penitenciaria assistira muitas imobilizações doloridas aplicadas pelos guardas aos presos quando brigavam.
Foi com uma chave de braços bem aplicada pelos seus fingidos amigos que ele teve seu braço quebrado na prisão.
Naquele dia Sebastião nada falou, pois realmente nada tinha a falar, mas a dor do braço faria qualquer um falar se caso tivesse realmente o que contar.
Rudemente passou das perguntas à ação.
A dor provocada pela torção no braço do mendigo doente mudou o rumo da conversa.
Seu moço. Solte-me. Está doendo muito.
Só depois de falar.
Pare de torcer meu braço moço. Não estou aguentando a dor. Está quebrando meu braço.
Então fale logo seu animal.
Quando se ouviu o estalido de osso quebrado o homem começou falar.
Era um pretinho?
Não. Era branco. Moreno claro. (Nunca tinha visto o filho, mas como todos de sua família eram claros assim como sua esposa, o menino  teria de ser da cor deles).
Uma menininha clara?
Não seu cretino assassino. Era um menino.
Um alemãozinho loiro?
A cada menção de crianças roubadas pelo homem, mais ódio Sebastião tinha dele e a cada erro nas informações mais e mais crianças desfilavam em sua confissão.
Para cada criança mencionada Sebastião torcia-lhe mais forte o braço.
Já tinha partido os fracos ossos daquele braço.
Mudou sua tortura para o outro membro torcendo-o também até quebrá-lo como o primeiro quando o homem que nem dor sentia mais acertou a criança.
Era aquele pequenininho? Que tinha um cordão de couro, amarrando uma bolsinha também de couro presa no pescoço?
É esse mesmo seu bastardo criminoso.
Fiquei só dois dias com ele. Era muito fraquinho e chorão. Deixei-o direitinho no bairro de Vila Madalena na porta da igreja Católica de lá.
Sabendo o que queria, porém ainda com muito ódio auxiliado por seus demônios Sebastião apanhou um velho e enferrujado facão que estava próximo ao mendigo e furou-o violentamente várias vezes até quebrar a arma ao meio bem próximo a um casal de moradores de rua que faziam sexo alheios ao que acontecia ao lado.
Outro mendigo no mesmo viaduto masturbava-se olhando muito mais interessado para o casal em coito que a ele e seu desafeto.
Outro andarilho a seu lado esquerdo defecava com o cão do assassinado mendigo lambendo suas fezes e bebendo sua urina.
Tudo que acontecia debaixo de tais locais ficava escondido ali mesmo, misturado com todo o lixo já existente sem ninguém ver, ouvir ou saber de nada.
Saiu rápido na escuridão causada pela violenta tempestade que já tinha chegado há muito tempo.
Aqueles trapos humanos nada falariam. O que aconteceu ali era rotina para eles.
Ao atravessar a rua correndo graças a um forte relâmpago enxergou e conseguiu desviar da trombada que daria de frente com um homem que estava parado em seu caminho olhando-o.
Teve impressão que o conhecia de algum lugar.
As luzes da cidade acenderam um pouco mais cedo que o normal devido à escuridão ocorrida pelo temporal naquele final de tarde.
Ele parou em sua desenfreada corrida e olhou para traz.
Lá estava o Velho careca novamente gordo e de barbicha branca olhando-o com aquele mesmo olhar penetrante que infiltrava em seu cérebro dando-lhe ordens.
Só então percebeu que tinha à mão aquele pedaço de facão todo ensanguentado.
Desfez-se imediatamente dele jogando-o em um bueiro que o levou para sempre.
Lavou sua roupa cheia de suor e sangue na água da própria chuva que escorria de uma calha entupida no alto de uma casa e antes de continuar sua fuga, mais calmo, não mais correndo pela rua deserta tornou olhar em direção ao Velho.
Ele já não estava mais lá. Tinha desaparecido subitamente.
Sebastião nessa noite não dormiu.
Ficou pensando e tentando justificar seu ato, pois cometera um violento crime de morte. Desculpava-se por ter assassinado um ladrão e muito provavelmente matador de criancinhas. Esse cara merecia o que recebeu, mas agora ele era um assassino.
Pela manhã comprou e leu todos os jornais da cidade para saber sobre seu crime e nada encontrou.
Tendo certeza que agora encontraria seu filho comprou roupas novas para vitorioso usá-las no encontro e uma bela corrente de ouro e um relógio que seria presente para o menino.
Dinheiro ainda lhe restava muito, pois tinha guardado praticamente tudo que ganhara no trabalho e gastava muito pouco em suas andanças a pé e alimentação e hospedagem sempre procurou as mais baratas.
Quando Sebastião chegou bem próximo à igreja de Vila Madalena ficou escondido atrás de uma árvore por algum tempo porque havia muitos políciais rondando pelo local.
Imaginou que o mendigo que ele esfaqueara talvez tivesse sobrevivido delatando-o e informando o provável lugar que o encontrariam.
Assustado manteve-se abrigado e viu um garoto pré-adolescente maltrapilho que tentava escapar dos homens da lei.
Descuidou-se e o menino ao vê-lo precipitou-se em sua direção a procura de proteção. Aos gritos pedia por socorro.
Sebastião sem muito pensar sentiu que deveria ajudar aquela criança e sem refletir muito abandonou seu esconderijo dirigindo-se a ele, mas imediatamente parou ao ver um enorme guarda atirar-se e agarrar o menino acalmando-o com palavras suaves e carinhosas.
Parado a alguns metros de distância ouviu nitidamente quando não só o enorme polícial como seus colegas que cercaram o garoto falavam-lhe no mesmo tom.
Não estamos prendendo-o e nem vamos fazer-lhe nenhum mal.
Acariciando-o continuavam dizendo que apenas o iriam levar de volta a seus pais que estavam ansiosos e desesperados com seu sumiço.
Que sua mãe por tanta amargura estava até doente pelo seu procedimento.
Sebastião foi visto também por alguns políciais que nada lhe fizeram ou falaram, mas mesmo assim voltou a esconder-se ainda com certo receio, pois poderiam alguns deles estar a sua procura.
Embora as viaturas já tivessem saído, por cautela continuou em seu esconderijo até que todos os fieis deixassem a igreja e desaparecessem de suas vistas para só então entrar no templo com a finalidade de descobrir algo sobre o filho desaparecido e colocado nesse local oito anos antes.
Adentrou à mencionada igreja, indagou dos padres, dos funcionários da casa paroquial, dos vizinhos do templo e ninguém soube de nenhuma criança abandonada oito anos atrás, naquela igreja.
Conseguiu endereços de padres que mudaram de paróquia e de visinhos que mudaram de local.
Viajou para cidades do interior a procura deles e mesmo encontrando-os não descobriu quem ficou ou quem soubesse do bebê.
Como seu filho portava sua própria certidão de nascimento no pescoço foi orientado procurar o Juizado de Menores, pois se fora encontrado por alguém que o entregou à polícia ou por ela própria teriam o registro do encaminhamento para qual orfanato do governo tinha ido.
Muitos Sebastião Pereira da Silva Filho foram encontrados nos arquivos do Juizado que por vários motivos passaram por lá.
Era óbvio que o nome do pai de todos era Sebastião Pereira da Silva, mas com a mãe chamada Josefa de Deus Pereira da Silva foi encontrado somente um.
Esse era natural do Embu.
Foi abandonado recém-nascido pela própria mãe dois anos atrás com seu registro e a carta explicando que ficara viúva e não tendo como criá-lo deixou-o para ser adotado.
Todos eram homônimos, pois ao checarem todos os dados descobriam isso.
Nunca tal bebê que confirmasse com as informações de Sebastião esteve lá.
As buscas prosseguiram com ele procurando por todas as igrejas de São Paulo na vã esperança de que o ladrão confundira-se de igreja, pois tantos foram os bebês que ele roubou que provavelmente não saberia ao certo em quais igrejas os abandonara.
Nunca encontrou ou obteve informações sobre a criança.
Cinco meses haviam transcorrido após seu encontro com o mendigo quando Sebastião já sem dinheiro, chorando sentado em um banco da Praça da Sé comendo dois pães cuja compra levou sua última moeda, amargurado pensava na vida.
Os pombos que habitam os telhados da Catedral da Sé rodearam-no e comiam a seus pés as migalhas de seu pão.
Seria verdade que o ladrão colocava mesmo os bebês nas igrejas ou simplesmente os matava e jogava no rio Tietê ou no Pinheiros?
Muitos corpos não só de adultos como de crianças e bebês sempre eram encontrados boiando em tais rios.
Ou deixava-os debaixo dos viadutos onde ninguém mais via, pois os ratos os devorariam até os ossos.
Nada mais podia fazer.
Fez uma ligação telefônica a cobrar ao restaurante do antigo patrão.
Só agora descobriu que nunca lhe telefonou. Ainda tinha o número na memória.
A fita gravada pela companhia telefônica informava que o número não existia mais e que deveria consultar as listas telefônicas.
Não sabendo como fazer pediu ajuda em um bar e mesmo assim não teve êxito, pois foi informado pelo dono do bar que o ajudou que o nome dado por ele deveria ser nome fantasia do restaurante e que o telefone estaria em nome da razão social do estabelecimento ou do dono do restaurante.
Sebastião não sabia qual era nem um nem outro.
Sempre só soube que Paulinho chamava-se Paulinho e nada mais.
Decidiu que iria a pé a Vila Maria para procurá-lo.
Voltando ao banco da praça imaginava o que deveria contar ao amigo.
Lembrou de seu crime.
Nunca tinha cometido um ato de maldade até aquele dia e nem depois dele.
Somente aquele.
Justificou-se que não fora assassinato e sim justiça feita, pois aquele infeliz nunca mais roubaria e mataria nenhuma criança.
Perdoava-se pensando: Foi somente o ajuste de contas para os muitos crimes até então impunes cometidos por aquele indivíduo.
O que ele recebeu fora o que plantou e colheu merecidamente.
Essa é a lei da natureza.
Lembrou-se que nos dias posteriores ao acontecido nunca viu nenhuma notícia nos jornais mencionando o fato.
Sempre teve o cuidado de comprar os jornais.
O Paulinho não sabia de nada e nem iria saber.
Procurou o rapaz do bar que tinha prestado ajuda para ver a lista e vendeu-lhe seu relógio e sua grossa corrente de ouro a preço ínfimo e almoçou lá mesmo.
Encheu-se de coragem e foi para Vila Maria chegando à tardinha.
Ao aproximar-se do bar uns quinze ou vinte metros avistou um único freguês sentado em uma mesa na rua, bebendo cerveja aquecendo-se no fraco sol daquela tarde nublada.
Era o Velho gordo que de longe o fulminava com seu olhar ordenando-lhe que não se aproximasse.
Aquele maldito Velho que viu o seu crime estava destruindo seu último sonho.
Compreendeu imediatamente que todos dali já sabiam de seu delito ou saberiam tão logo tentasse aproximar-se deles, pois o malvado Velho contaria tudo o que presenciou.
Literalmente estava expulso daquela região.
Por mais compreensivo que o Paulinho fosse não iria aceitar que tal procedimento fora correto principalmente porque o Velho gordo com certeza tinha assistido a toda a violência com que fizera a sua vingança justa para ele, mas impossível de ser aceita por outros.
O Velho nem precisaria aumentar os fatos para torná-lo extremamente violento, pois ele em si fora de uma agressividade inusitada, própria de um assassino perigoso e insensível. Não tinha mais lugar para ele naquelas imediações.
oooOooo
COMO SEBASTIÃO PASSOU A VIVER EM SÃO PAULO
Subiu no primeiro ônibus que passou para rapidamente afastar-se dali.
Naquele horário de pico estranhamente tinha poucos passageiros e todos o olhavam de maneira não amistosa parecendo-lhe que eles se conheciam e não o desejava em seu meio, mas não deu importância ao fato.
Como andava muito assustado com os últimos acontecimentos estava imaginando perigos inexistentes.
Após o coletivo passar com extrema dificuldade por uma rua muita estreita e sinuosa parou em uma praça bastante movimentada não muito longe de onde ele subira no coletivo.
Teve de descer, pois era o ponto final da linha.
Esse final de linha era no mesmo bairro não muito longe do bar do Zé, do Velho e do Paulinho com o qual ainda pensava em encontrar-se.
Hospedou-se por uma única noite pagando adiantado em um hotel de baixa categoria e alta rotatividade, cuja atendente carrancuda com a mesma falta de educação e mau humor só o aceitou, pois cobrara um preço exorbitante e ele pagou.
Era um entra e sai incessante de prostitutas e seus clientes fazendo sempre muito barulho, com gritos e xingos de toda espécie.
Banhou-se e com o pouco dinheiro que lhe restou da venda do relógio e da corrente procurou um bar para beber uma cerveja e comer alguma coisa antes de ir dormir.
Nos tempos que frequentou o bar do Zé com Paulinho tinha acostumado beber algumas cervejas por noite. Nunca mais tinha ingerido uma sequer nos últimos dois anos que peregrinou pelas ruas de São Paulo.
Nessa noite sem esperanças de nada e sem nada a pensar ou resolver decidiu beber uma ou duas, pois o que sobrou do dinheiro daria para pagá-las com uma pequena sobra.
Sentiu-se constantemente vigiado pelos frequentadores do local assim como foi igualmente mal atendido pelo dono do bar.
Assustou-se com todos os maus encarados a sua volta e teve medo de permanecer ali, mas mesmo assim decidiu ficar.
Na primeira meia hora que estava no bar assistiu uma cena própria de locais infestados de maus elementos.
Três meninos que não tinham mais de doze anos de idade roubaram a bolsa de uma senhora que saía de uma igreja evangélica derrubando-a violentamente no chão e fugiram passando correndo próximo a ele que apenas olhou.
Ninguém fez nada.
Nem os outros religiosos, nem os transeuntes e muito menos os frequentadores do bar.
Todos, como ele apenas olharam.
Muitos até deram risada apontando as calçinhas da velhinha caída no chão decomposta com as pernas para o ar.
Não demorou muito a acontecer uma briga entre os amigos que bebiam cachaça e cerveja apostando em um jogo de palitinhos muito discutido, dentro daquele antro de vagabundos.
A seu lado caiu um dos contendores quase degolado por uma faca.
Sua aorta estava cortada jorrando sangue como um chafariz desgovernado.
Lembrou-se imediatamente de como Caetano matara por duas vezes do mesmo modo.
Retirou-se rapidamente antes da polícia chegar.
Não pagou o requentado pedaço de pizza e as três cervejas que tinha consumido.
No hotel tentava dormir e não conseguia.
O barulho das meretrizes não deixava e um turbilhão de lembranças passava em sua mente com um violento filme de horror.
Recordou com exatidão de João Batista degolado pelo afeminado Caetano.
A visão do fazendeiro velho também com o pescoço cortado pelo mesmo Caetano apareceu-lhe nítida.
Viu-se assassinando o velho mendigo.
Relembrou dos meninos roubando a senhora religiosa sem que ele e ninguém os detivessem.
Lembrou-se da briga no bar e viu-se saindo rapidamente sem pagar a despesa sem que ninguém o impedisse.
De seu quarto ouviu a sirena dos carros da polícia chegando.
Amanheceu sonolento apanhou sua mala e rumou para outro local que não fosse tão violento e promíscuo, no primeiro coletivo da manhã que partiu levando apenas ele como passageiro.
Sentiu-se feliz por sair vivo de tal local.
Procurar o ex-chefe ainda não era a hora por isso ao passar pela rua Guaranesia onde estava localizado o shopping e o restaurante até se escondeu encolhendo-se na poltrona do ônibus.
Tinha de primeiro conseguir um meio de chegar a ele.
Foi de ônibus para bem longe. Estava no outro lado da cidade.
O bairro das Perdizes era um local de gente de bem e lá seria bom para ficar.
Passou o dia todo a procura de emprego como entregador de refeições para restaurante.
O dinheiro que economizou esquecendo-se de pagar o pedaço de pizza e as cervejas na noite anterior gastou com seu almoço.
Não tinha mais nada para a hospedagem dessa noite.
Com a mala na mão entrou em um restaurante e propôs as famílias frequentadoras, a negociação de seus objetos, mas nada conseguiu.
Um dos garçons bastante educado, mas energicamente pediu que se retirasse.
Novas tentativas foram feitas em outros restaurantes próximos e os resultados foram os mesmos.
Em um bar bem longe frequentado por mulheres bêbadas exibindo seus corpos e se insinuando a qualquer um e homens jogando bilhar, palitinhos, bebendo pinga, cerveja e vinho em copos descartáveis conseguiu vender tudo que lhe restava.
Vendeu um bom despertador, seu rádio gravador com toca fitas, sua máquina fotográfica Fujica V-2 muito valiosa, a calça, a camisa e os sapatos novos nunca usados. A correntinha de ouro e o relógio banhado a ouro e cheio de rubis que seriam do filho ele já tinha vendido na Praça da Sé.  
Todo o restante de seus objetos foi vendido por preço irrisório, mas o suficiente para pelo menos uns vinte dias de alimentação e hospedagem baratas.
Em sua mala sobraram algumas cuecas e duas mudas de roupa além da do corpo.
Não teria mais nada para vender.
Era urgente conseguir emprego.
Procurou pensão, mas nessa região não encontrou nenhuma. Só tinha hotéis caros.
Voltou ao bar e o dono do mesmo mandou-o procurar na Lapa ou na Pompéia, pois seria fácil.
Foi para o bairro Pompéia que estava mais próximo.
Encontrou uma pensão perto da Sociedade Esportiva Palmeiras no início da Av. Pompéia cuja dona, uma italiana muito falante, concedeu-lhe hospedagem por quinze dias com pagamento antecipado.
Hospedou-se.
Na pensão de Dona Eda conheceu vários moradores, trabalhadores e amigos entre si. A turma era formada pelo China, Orlando, Mineirão, Ivo, Emilinho, Albino, Boca e o Bororó que tocava violão toda noite com os amigos após seus serviços, na varanda da casa bebendo caipirinhas, cantando e comendo amendoim torrado que compravam no bar em frente o Palestra Itália na rua Turiassú.
Bororó dedilhava e conseguia ótimos acordes que acabou sendo convidado a ensinar uma jovem menina e seu irmão moradores da rua Homem de Melo ou da Raul Pompéia, não me lembro bem, a tocarem tal instrumento.
Tais irmãos transformaram-se em artistas de um conjunto famoso na época dos festivais, cuja fama a menina roqueira carrega com sua performance até aos dias de hoje com muito sucesso.
Infelizmente Sebastião não fez amizade com esse grupo de pessoas de bem que talvez pudesse ajudá-lo.
Isolado em seu quarto certa noite lembrou que não sabia dirigir moto para a entrega de refeições.
Não tinha referências e nem experiência em outro serviço.
Não conseguiria arrumar nenhum emprego.
Duas semanas passaram rápido confirmando suas suspeitas.
Realmente não conseguiu serviço e já devia pagar outra quinzena pela estadia.
Nova noite desesperado. Depressivo e com insônia veio-lhe a memória o mendigo que ele matou comendo lixo e dividindo-o com um cão.
Os mendigos que copulavam debaixo do viaduto, sobre excrementos humanos e animais.
O outro que se masturbava ao lado do que defecava.
Recordou-se de muitos e muitos outros infelizes e famintos que ele vira pela cidade afora durante muito tempo sofrendo todas as misérias da vida, na época em que passou ao redor deles.
Não era esse o fim que ele poderia aceitar.
Jamais seria um mendigo.
Lembrou-se da penitenciária.
A maioria dos detentos eram violentos sequestradores, assaltantes de banco, estuprados, assassinos e traficantes.
Nada disso também queria ser.
Lembrou-se trabalhando.
Viu-se de uniforme calmamente servindo as mesas no restaurante do shopping, entregando refeições a domicilio e sendo bem tratado pelos fregueses e pelo patrão.
Isso sim. Esse é seu desejo, mas não consegue.
Não lhe é permitido. Não tem lugar para ele trabalhar decentemente em São Paulo.
Lembrou-se de seus manuscritos.
Imaginou que já tinha sido jogado fora. Não valia nada mesmo e seu filho não existia para escrevê-lo.
Sacudiu a cabeça na tentativa de excluir o livro e o filho definitivamente de seus pensamentos. Não voltou a interessar-se por eles.
Lembrou-se dos meninos roubando a bolsa da religiosa e fugindo impunemente.
Lembrou-se dele próprio saindo daquele bar, cheio de gente mal encarada, sem pagar sua despesa sem ser molestado.
Veio-lhe a memória que na Praça da Sé vendeu seu relógio e a corrente ao dono do bar cujos frequentadores eram pessoas comuns do povo e ninguém tomou conhecimento como se nada visse.
Lembrou-se do outro bar que vendeu o restante de seus objetos sem nada ser considerado estranho a ninguém.
Recordou que nessa mesma manhã o Mineirão e o Orlando reclamaram que seu colega de quarto, o Boca havia sumido com várias roupas deles para viajar.
Eles apenas ficaram desapontados e enraivecidos, mas não tomaram nenhuma atitude contra o rapaz.
Não deram queixa a polícia e nem fariam isso.
Eles próprios justificaram que o Boca tentava há muito tempo ser jogador de futebol do Palmeiras, mas nunca teve chance e como estava para ir para a Bolívia contratado pelo Petroleros para jogar profissionalmente precisou surrupiar-lhes suas roupas. Era por uma causa justa. Perdoaram-no pelo roubo.
Concluiu que essa noite não dormida foi muito proveitosa.
Vislumbrou seu horizonte.
Pequenos furtos como o dos meninos na porta igreja e do Boca aos seus amigos não davam em nada.
Vender objetos mesmo a desconhecidos também nada acontecia.
Acrescentar aos roubos de bolsas e carteiras, toca fitas e objetos encontrados em carros estacionados também não seriam punidos.
Bastaria vender tais objetos como sendo seus nos lugares certos era fácil. Nunca em lugares chiques de boas famílias.
Sempre em bares de má frequência cujos donos geralmente são muito mais interessados em tirar proveito das dificuldades dos fregueses do que servir-lhes bem.
Outros pequenos golpes como comer, beber e sair de fininho ou correndo não seria difícil.
Estava resolvido.
Viveria assim.
Como um malandro de rua, pois não seria mendigo comendo merda nas ruas e nem bandido matando e sequestrando.
Seria apenas um vigarista que não daria grandes prejuízos a ninguém.
Roubaria só é suficiente para não lhe faltar comida nem dinheiro para roupas, hospedagem e pagamento das meretrizes que usasse.
Sua primeira experiência foi logo pela manhã quando na pensão andando pelo corredor viu um quarto com a porta aberta sem ninguém dentro.
Entrou rápido e saiu mais rápido ainda com um barbeador elétrico, um secador de cabelos, um relógio de pulso e algum dinheiro miúdo.
Os objetos foram vendidos no mesmo bar que tinha vendido todos os seus pertences.
Vagabundeou o dia todo pelas ruas do bairro da Pompéia e das Perdizes olhando o movimento e reparando nas pessoas bem vestidas, nos carros modernos, nas elegantes moças bonitas, nos majestosos edifícios que antigamente tinha visto nos filmes mostrando seu “Paraizo” que nunca tinha percebido desde que chegou a São Paulo.
Agora pela primeira vez viu a maravilhosa cidade de seus sonhos sentindo-a de perto e ao alcance de suas mãos.
Ao voltar à noite para a pensão dentro de um supermercado deslizou silenciosa e sorrateiramente atrás de incautas pessoas que colocavam suas carteiras e bolsas dentro dos carrinhos de compra, aliviando-as de tais objetos.
Na pensão com duas carteiras conferiu os resultados.
Em uma delas encontrou documentos, cartões de credito, talão de cheques, fotografias, algumas passagens do metrô, uma nota de valor alto e alguns trocados.
Na outra encontrou muito dinheiro que somado ao da venda dos produtos roubados das hospedes daria para pagar mais meio mês de pensão e sobraria bastante para a alimentação de muitos dias.
Para o seu primeiro dia de golpista até que foi muito bom.
Foi bastante rentável.
Nas mesas do café da manhã do dia seguinte ninguém acusou ninguém do roubo.
As duas moças que moravam no quarto surrupiado apenas olhavam para cada um dos outros moradores inquirindo-os com o olhar sem culpar nenhuma pessoa.
Apenas comentaram o fato com todos sem nada falar, mas imaginavam ter sido o Boca, pois era o único que não tinha emprego. Só jogava futebol, mas não pertencia a nenhum clube. 
Ao Sebastião ninguém ousou suspeitar, pois sempre saía cedo como os demais e voltava à tarde.
Imaginavam-no um trabalhador como todos os demais.
Não sabiam que ele era um desempregado, atualmente ladrão.
A dona da pensão nem chegou a cobrar-lhe os próximos quinze dias de estadia, pois os primeiros só venceriam no dia seguinte. Foi ele que lhe entregou o dinheiro corretamente.
Dedicou o dia inteiro para conhecer outros lugares.
Atravessou toda a Avenida Paulista a pé deslumbrado com o que via. Desceu a Rebouças e passeou pelos bairros Jardins.
Na Paulista esquina com a Brigadeiro abandonou uma carteira atrás de uma banca de revistas e na Faria Lima já nos Jardins jogou a outra ao pé de uma árvore.
Sentiu-se um bom caráter e enorme benfeitor não destruindo as carteiras e os documentos das pessoas roubadas. Alguém as acharia e faria a devida devolução dos documentos.
Não havia necessidade para novos roubos.
Tinha dinheiro suficiente para muitos dias.
Passou mais três dias passeando pelo Ibirapuera, Moema e conheceu o aeroporto.
Até então pagava seus alimentos e cervejas que agora bebia todas as noites.
Ainda tinha dinheiro quando resolveu almoçar sem pagar para treinar para quando viesse a precisar.
Alimentou-se no centro da cidade em um restaurante de esquina com porta para as duas ruas.
Entrou e assentou-se de propósito em uma mesa próxima a porta que dava acesso a outra rua e não a movimentada pela qual tinha entrado.
Quando terminou sua refeição bem requintada e cara saiu correndo por ela.
Essa porta dava saída exatamente ao topo de uma escadaria de mais de trinta degraus.
Ele não sabia disso e caiu rolando escada abaixo por pelo menos uns vinte degraus.
Safou-se sem pagar a conta, mas a queda custou-lhe outros três dentes e um corte profundo no queixo.
Gastou metade do dinheiro que ainda tinha em um pronto socorro na sutura dos ferimentos.
No bar onde tomava suas cervejas à noite assim como na pensão no outro dia disse ter sido acidente de trabalho.
Na pensão não poderia entrar mais em nenhum quarto, pois todos foram informados inclusive ele que o Boca ou algum ladrão de rua tinha invadido a casa sem ninguém ver e assaltado um quarto de meninas.
O alerta fora dado e todos os quartos ficariam sempre fechados e vigiados.
Não podia se arriscar.
Comer de graça e fugir passou a ser fácil, após verificar antes as possibilidades da escapada de uma maneira não desastrosa como da primeira vez.
A cidade é uma das maiores do mundo, portanto para repetir a façanha em um mesmo restaurante levaria anos.
Já estava na hora de conseguir mais dinheiro.
Rondava as pessoas nos supermercados.
Não estava mais obtendo muito êxito com carteiras ou bolsas.
Dentro de um ônibus conseguiu tirar a carteira de um homem em pé à sua frente, pois a mesma já estava quase caindo pelo bolso de trás da calça do descuidado.
Foi fácil, mas o pouco dinheiro que havia nela, naquela mesma noite acabaria.
Com esta ele não teve caridade. Rasgou-a assim como aos documentos e jogou tudo dentro de um bueiro de águas pluviais, para desaparecer.
No outro dia teria de aliviar mais alguém.
Passado um ano agindo assim numa noite refletiu e fez o balanço desse tempo.
Concluiu que foi sorte de principiante que o fez conseguir além do saque no quarto das moças duas carteiras em um só dia.
Com exceção de mais duas ou três outras vezes nunca teve posse de bastante dinheiro em nenhuma carteira ou bolsa roubada.
Às vezes chegava passar dois a três dias sem dinheiro, pois não era tão fácil conseguir objetos dentro de carros todos os dias e quando os conseguia arrecadava muito pouco por eles vendidos a receptadores diversos por valores muito baixos.
Sua situação estava cada vez mais difícil só cometendo pequenos furtos.
Atualmente sua necessidade de dinheiro era bem maior, pois além do vício de beber e o uso das decaídas, tinha o cigarro e a maconha que aprendera usar.
As mulheres da vida eram exigentes e cobravam caro, assim como os hotéis da Praça Marechal Deodoro e os da Barão de Limeira que frequentava.
Em pensões aplicava o golpe da mala para não pagar sua hospedagem que eram sempre por poucos dias. Prometia pagamentos semanais após os vencimentos e deixava a mala fechada e pesada cheia de jornais velhos como garantia enquanto ia buscar o dinheiro no serviço ou no banco.
Em seguida sumia para longe bem antes de abrirem a mala e verificarem o logro e assim sua despesa com hospedagem estava reduzido à apenas a compra de malas baratas.
Contudo estava difícil manter-se ganhando pouco e ao contrário que pensava antes tal vida era muito complicada e arriscada.
Por várias vezes foi visto mexendo em carros ou cometendo outros furtos levando-o a brigas.
Apanhou de muita gente defendendo seus objetos ou de transeuntes que o flagrava em ação.
Sempre levava a pior.
Certa vez quase foi linchado e só não morreu por espancamento porque foi salvo por políciais que o socorreram colocando todos os agressores a correr.
Ninguém o acusou de nada por isso nem foi detido como ladrão. Ficou como sendo uma simples briga de rua.
Dentes na boca só existiam oito ou nove.
Cicatrizes no rosto e no corpo eram incontáveis.
Voltou-lhe a depressão.
Tinha que fazer alguma coisa realmente grande para conseguir em um único delito dinheiro para pelo menos três a quatro meses.
Em um determinado dia pela manhã tinha conseguido um toca fitas de boa marca e tentava vendê-lo em um bar.
O mesmo acontecia com outro freguês que tentava vender um revólver.
Naquela manhã o receptador ainda não tinha dinheiro para comprar nada e por isso Sebastião trocou o toca fitas pela arma ofertada pelo polícial a paisana. Tal revólver fora conseguido por ele de um assaltante morto quando em serviço.
Tião aprendeu atirar.
Cometia assaltos à mão armada.
Prostituta não mais procurava, pois com a arma ameaçava e rendia estudantes e domesticas bem mais bonitas e asseadas que as vadias de rua e dos prostíbulos.
Tais moças amedrontadas eram para ele presas fáceis.
Conheceu vários delinquentes, falsários e estelionatários, com os quais aprendeu muitas falcatruas e andou participando dessas quadrilhas só como executor dos crimes. Na divisão dos lucros cabia-lhe sempre a menor parte.
Desmembrava-se dos grupos para permanecer só.
Seu aprendizado no uso de cheques roubados e falsificação de documentos, assim como os demais crimes foram sendo praticados por ele sempre só.
Cometia todos os crimes e atrocidades violentas como homicídios por dinheiro, latrocínios e outros mais que antes não queria para si.
Não tinha mais volta.
Teria de continuar afundando-se cada vez mais.
Seu nome já não era Sebastião.
Foi preso várias vezes por furtos, mas sempre portando documentos com nomes diferentes, por isso era sempre considerado primário e suas solturas rápidas, pois os políciais queriam prender eram os subversivos terroristas comunistas como os professores, os compositores, os jornalistas, os autores, os cantores e os artistas em geral. Esses eram os verdadeiros inimigos perigosos da pátria amada Brasil.
Por sorte nunca foi pego pelos muitos crimes como assaltos a mão armada, assassinatos e estupros que cometia, pois esses eram hediondos e do mesmo nível que compor uma música.
Os poucos dentes da boca, foram extraídos por um protético que os substituiu por dentaduras por preço barato.
Os cabelos aos poucos caiam. Os que ficavam tornavam-se grisalhos e as marcas da violência aumentavam a quantidade de suas cicatrizes.
Durante mais de dois anos viveu assim.
Sempre praticando seus delitos só ou quando muito acompanhado de um ou dois adolescentes que principiavam em suas vidas de crimes, mas assustados com ele desapareciam sempre.
Mudou de idéia e chegou a conclusão que tinha de formar uma quadrilha forte e poderosa.
Mas como?
Aqueles fedelhos que às vezes conhecia logo desapareciam ou ele próprio os enxotava.
Certa vez Sebastião aceitou um grupo de jovens adolescentes para assaltar e estranhando as boas maneiras e educação de um deles que lhe chamou a atenção perguntou-lhe o nome.
Foi informado pelo garoto que seu nome era Zinho.
Evidentemente tratava-se do diminutivo de João, de José, de Alencar ou até mesmo de Sebastião, mas como ele próprio não dava seu nome correto a ninguém julgou desnecessário descobrir os verdadeiros nomes dos adolescentes que se identificavam com seus apelidos, com certeza sempre incorretos.
Ao ser perguntado pelo seu pelo adolescente simplesmente respondeu que deveria ser chamado de chefe ou de instrutor.
Informou e os orientou para que tivessem vários nomes para safar-se de incômodos com a polícia.
Percebeu que aqueles jovens eram pouco experimentes e nada eficientes em assaltar pessoas e que só lhe serviram de estorvo e nunca de auxílio, pois por intervenção de Zinho, uma de suas vítimas quando ele já se aproximava para esfaqueá-la para depois apossar-se de seus bens, fugiu apavorada orientada pelo garoto.
Desfaz-se deles apenas algumas horas passadas.
Entretanto o fascínio que ele exerceu sobre o adolescente Zinho, que com certeza era o mais assustado e discordante de suas façanhas, fez o garoto insistir em permanecer com ele que abrupta e agressivamente aos empurrões e ponta pés o fez ir embora correndo enquanto lhe gritava.
Vá procurar sua família seu pirralho incapaz. Você não serve para amedrontar ninguém e é até provável ser assaltado por sua própria vítima. Deixe-me em paz e desapareça.
Correndo e chorando o menino ainda lhe gritou de longe.
Deixe-me ficar com você instrutor. Eu aprendo tudo, pois é só ensinar-me que entenderei tudo direito como sempre faço em minha vida.
Escute bem Zezinho, ou seja, lá como se chama. Se aparecer outra vez para encher-me o saco dou-lhe um tiro na bunda.
No íntimo Sebastião desejava que se algum dia tivesse muito dinheiro procuraria tal menino para substituir seu desaparecido filho que teria mais ou menos a mesma idade dando-lhe escola, casa e formação, pois também tinha sentido forte atração pelo educado adolescente perdido nas ruas, sabe-se lá por qual motivo.
Refletiu e concluiu: Jovens inexperientes nunca mais.
Teria de conseguir adultos já espertos e capazes.
Veio-lhe a lembrança os ex-companheiros de penitenciária que lhe espancaram, pois eram especialistas em sequestro e assaltos a banco. Deveria procurá-los.
Lembrou-se que sabia como localizá-los.
Estariam ainda no local indicado há tanto tempo antes?
Pelas instruções que tinha recebido na época foi procurá-los. Foi recebido por moradores para ser encaminhado aos mandatários do lugar que eram exatamente os procurados por ele como seus amigos.
Essa foi sua salvação, pois não era permitida a entrada de ninguém naquele local. Se alguém ousasse seria imediatamente expulso ou morto lá dentro.
Estava exatamente naquela praça em uma vila escondida entre pedras e mato no bairro Vila Maria onde não pagou o pedaço de pizza e as cervejas naquela vez que lá esteve, cuja época era mais branda com relação a entrada de estranhos indesejáveis.
Só o vigiaram quando lá apareceu ao acaso.
Ali era uma região de criminosos que a polícia só ia quando chamada e mesmo assim para socorrer algum esfaqueado ou ferido a bala em brigas entre eles como aquela que presenciara quatro anos antes.
Interrogar ou prender alguém não atreviam.
Todos eram criminosos com suas esposas, amásias e filhos.
Os jovens que ainda não eram delinquentes estavam aprendendo.
Raros eram os pais que mandavam seus filhos estudarem em outras escolas fora da vila.
Aprendiam ler e escrever ali mesmo com as mulheres.
O restante do aprendizado era profissionalizante e ministrado pelos homens sobre o manejo de armas, como assaltar, sequestrar, estuprar, matar e et cetera.
Muitas casas do local eram próprias para cativeiro de sequestrados.
O reduto era domínio deles e nenhuma autoridade jamais efetuou prisão de ninguém naquele antro.
A vila era cercada por florestas por dois lados e montanhas pelos outros dois.
Só tinha uma rua para entrar e sair de lá espremida entre as rochas que dava acesso e esse lugarejo escondido.
Pelo lado da mata existiam algumas trilhas conhecidas e usadas só pelos moradores assaltantes, criminosos e sequestradores.
Outros poucos moradores escondiam-se em suas casas construídas nas pedras do outro lado do povoado e praticavam o tráfico de entorpecentes.
Eram inimigos entre si.
Por esse lado nas rochas haviam várias entradas e saídas muito bem vigiadas pelos traficantes que também só permitiam o movimento deles próprios e seus convidados.
Para uso publico como caminhão de lixo, táxis, carros, ambulâncias, carros da polícia e ônibus somente pela rua cujo nome Rua Única lhe era propicio e só dava acesso ao povoamento onde residiam os ladrões.
Sebastião foi encaminhado para encontrar-se com os ditos amigos e chefões no mesmo bar da praça.
O dono era o mesmo e o reconheceu cobrando-lhe a antiga despesa não paga, ameaçando-o com um revolver.
Os criminosos que foram seus amigos na penitenciária ouviram seu relato dos últimos anos e concordaram em permitir-lhe a presença em sua fortaleza e incluí-lo entre os seus se ele indicasse um bom assalto, já que definitivamente não o acreditavam mais como traficante de drogas, pois se assim fosse teria procurado pelos outros e não por eles.
Tião contou-lhes sobre a casa do ex patrão Paulinho que ficava totalmente sem vigilância grande parte do dia com deposito de mantimentos e inclusive com todo seu dinheiro guardado em um grande cofre, pois ele não usava fazer depósitos em banco. Que era realmente muito dinheiro que encontrariam lá.
O inconveniente seria como explodir tal cofre. Passaram vários dias em vigília a casa para de fato certificarem-se da fragilidade da mesma, entretanto se explodissem o cofre seriam logo cercados pela polícia, pois estavam bem próximos de um quartel. 
Coincidentemente com a chegada de Tião ao reduto dos bandidos tinham aparecido por lá e dormia no meio do mato, um velho mendigo, que nada assustou ou deixou os assassinos preocupados pela sua total impossibilidade de movimentar-se, enxergar e sequer ouvir. Apenas estava lá, pois encontrou uma caverna entre as pedras e fizera de tal lugar sua casa. Nunca incomodou ninguém e tão pouco foi incomodado pelos bandidos. Um dos lideres dos criminosos por pura sacanagem, ao passar pelo velho que ficava transitando pelas ruas do bairro perguntou-lhe:
Velho mendigo. Como se faz para carregar um cofre de ferro de mais de trezentos quilos? 
Para a surpresa de todos os velho respondeu-lhe:
É só contratar o Alberto Negrão que ele carrega até mais peso que esse com facilidade.
Imediatamente os homens que brincaram com o velho sacaram suas armas e as apontaram para o mendigo e um deles perguntou enérgico.
Como ouviu o que eu perguntei se é surdo?
Pois sou completamente surdo sim senhor, mas acontece que quando estou de frente para quem fala eu leio suas palavras pelo movimento dos lábios. Imediatamente quem estava atrás do velho falou e ele nem moveu do lugar e nada ouviu e tal pessoa abrutalhadamente virou o velho de frente para si que o olhou simplesmente abobalhado, ao mesmo tempo em que outro que ficou-lhe de lado também fez uma pergunta não obtendo nenhuma resposta como o anterior. Esse também arrastou o mendigo colocando-o de frente que continuava calado. Judiaram do velho até que ele caiu no chão poeirento da rua e os homens foram embora o abandonando em sua quase inútil tentativa de levantar-se.
Os lideres ficaram refletindo sobre a resposta do mendigo e decidiram procurá-lo para informarem-se melhor sobre o tal Negrão. Não precisou procurar muito, pois ele estava sentado bem próximo a eles numa calçada.  Todos ao mesmo tempo gritaram para que ele viesse até a mesa do bar onde estavam, mas a total surdez do velho impediu-o de qualquer ato. Aproximaram-se dele e em voz alta chamaram-no e ele como estava cabisbaixo não mexeu um só músculo, obrigando que os bandidos lhe tocassem no toco do braço e só assim ele olhou para os homens irritados.
Agora está me vendo e ouvindo?
Sim. Estou lendo seus lábios.
Então conte-nos sobre esse negro fortão.
Ele é um bandido muito perigoso e geralmente trabalha sozinho, pois sua força supera a de dez homens ou mais.
Então como conseguiríamos contratá-lo conforme falou.
Ele é muito meu amigo, pois eu o salvei de um cerco polícial há muito tempo. Nessa época eu também praticava meus crimes e nesse dia fiquei totalmente inutilizado, justamente por servir-lhe de escudo quando começou o tiroteio com os homens. Ele conseguiu escapar ileso e momentos depois ele apareceu de surpresa matando todo o batalhão com as próprias mãos, socorrendo o que sobrou de mim. De lá para cá ele mantem minha alimentação e até moradia, mas como eu não gosto de ficar parado num só lugar fico uns tempos num lugar, outros noutro, mas sempre me encontro com ele para ele dar-me algum dinheiro para eu ir vivendo. 
Tem condições de levar-nos até ele?
Infelizmente não, pois sou fiel a quem eu prezo e jamais direi onde encontrá-lo, mas posso mandá-lo vir encontrar-se com vocês.
Quanto tempo precisará para trazê-lo?
Amanhã mesmo ele estará aqui, se eu sair agora e for chamá-lo.
Então vá e se ele é tão bom assim como fala nós tentaremos trazê-lo para cá e a você recompensaremos com muito dinheiro. Tá bom assim?
Está combinado, mas nada de colocarem alguém me espionando, pois se eu descobrir que estou sendo seguido levarei quem estiver atrás de mim para uma tocaia e tais pessoas morrerão sem piedade.
Não tem medo de falar assim conosco?
Não. Não tenho muita coisa mesmo a perder, porisso não preciso ter medo de ninguém.
Okey. Então vá fazer seu serviço em paz.
O mendigo deu-lhe as costas e saiu caminhando em direção não a rua principal, mas sim ao mato, pois por lá existem saídas escondidas.
Os dois mandantes do antro e o Tião gritaram chamando pelo mendigo que se afastava com o mesmo caminhar cambaleante de sempre sem dar-lhes atenção. Em rápidas passadas os três chegaram até ele parando-o e se postando a sua frente para conversarem novamente.
Traga-o até nós aqui no bar.
Eu não virei junto, pois como não me permitem subir em ônibus ficarei na casa dele descansando, pois é longe e ele virá sozinho. Vocês avisam seus seguranças do bairro que quando virem um negro forte basta perguntarem. “Você é amigo de quem?” Ele responderá somente “Sou amigo do mendigo”. Essa é a senha, para saberem quem é ele.
Combinado. 
No dia seguinte Alberto Negrão apareceu, encontrou-se com os chefões do lugar e decidiu que moraria no bairro e participaria de assaltos com os criminosos. propuseram que ele ficasse como chefe de segurança dos lideres, após provar sua força conforme ouviram contar. Foram até os fundos do bar e lá ele levantou com apenas uma mão, um carro que estava estacionado. Como se isso não bastasse ele com um soco destruiu uma rocha de pedra de talvez uma tonelada.
Contaram-lhe o que deveriam fazer no dia seguinte em que ele iria guiando um caminhão para fazer o saque na casa do dono do restaurante. 
Ele concordou com as condições dos criminosos e fez apenas uma exigência que seria ausentar-se quando tivesse suas próprias necessidades sem ter de dar nenhuma satisfação do que iria fazer, voltando tão logo pudesse. Que tais ausências nunca seriam por mais de uma noite ou um dia e mesmo assim não seriam muito repetidas. No máximo umas três vezes por mês. Nada além disso.
Tudo foi acertado e ele iria morar na casa de um dos chefes durante um mês e na do outro no outro mês.
No dia seguinte Alberto guiou o caminhão apenas uma viagem para entender o percurso entre a vila e o local que seria assaltado, pois era bem próximo.
Dois dias após por volta de onze horas da manhã entraram pelo portão dos fundos da casa de Paulinho com o caminhão.
O terreno era enorme assim como o barracão do depósito.
Tinha uma casa retirada no outro lado sem nenhuma visão do local.
Tudo que estava no depósito que Tião conhecia muito bem passou para o veículo rapidamente.
Levaram também mantimentos não perecíveis e caros como azeite e uísque importados e alimentos congelados.
Sebastião levou os criminosos até o local onde ficava o enorme cofre e o fato considerado impossível foi consumado velozmente.
Alberto colocou-o sozinho sobre o veículo como se fosse uma simples caixa de guardanapos deixando-os boquiabertos e assustados com sua força.
Tranquilamente iam sair pelo portão quando Sebastião solicitou aos chefes da gang permissão para ir procurar algo em sua antiga moradia.
Foi com ele o negro gigante possuidor de força inacreditável.
Todos estavam trabalhando duro no restaurante no shopping exceto o rapaz Lucas que substituira Sebastião e hoje era o braço direito do Paulinho nos negócios e o futuro gerente da filial que seria aberta em breve.
O rapaz foi imobilizado pelo fortão e Sebastião tentou recuperar não se sabe por que seus rascunhos atrás do móvel de roupas que ainda era o mesmo.
Nada encontrou e reclamou do funcionário.
Onde está um saco que eu deixei aqui anos atrás?
Então você é o Tião?
Sou falado é?
Sim. Paulinho esperava muito por sua volta.
Cale a boca e diga logo o que perguntei.
Foi o Velho gordo, careca e de barbicha branca que o levou. Já tem mais de quatro anos.
Filho da puta. Naquele saco tem minha história e de toda minha família. Eu preciso recuperá-lo e matar aquele cachorro velho maldito que sempre me prejudicou.
Sem que o próprio grandalhão percebesse o rapaz que segurava já estava bem morto pelo violento golpe que Sebastião deu com uma faca de açougueiro bem afiada.
Há muito ele já havia praticado bastante em troncos de árvores, em porcos e outros animais para degolar alguém conforme já fizera com outros, mas como o braço do negro estava segurando o rapaz pelo pescoço tal corte não poderia ser executado naquele local.
Foi no meio da barriga que por não ter ossos foi muito mais terrível. Cortou-o em dois pelo meio.
Deixaram os pedaços ainda estrebuchando no chão e saíram apressados para encontrar os outros que já estavam no veículo.
No outro lado da rua Sebastião viu o Velho gordo que assistia a fuga olhando como sempre direto em seus olhos sem nada falar.
Pediu ao Alberto para andar mais devagar, pois iria matar o maldito velho gordo que estava no passeio a seu lado. Fez mira para atirar nele, mas o veículo mesmo em movimento lento, repentinamente fez uma manobra inesperada e o tiro saiu para o alto com o bandido apenas amaldiçoando-o. Gritou:
Seu velho cretino. Ainda está vivo? Deixa estar que é por pouco tempo.
Abandonaram o local e descobriram na partilha que tudo dividido pelos quatro criminosos que participaram do assalto era de fato muito dinheiro.
Tanto quanto um assalto à banco e sem nenhum risco.
Estavam satisfeitos.
Apenas um assassinato até desnecessário, pois o jovem estava longe do local e nada viu.
Decidiram que não venderiam os aparelhos para a montagem do restaurante. Combinaram que eles próprios iriam montar um restaurante na vila para explorá-lo comercialmente.
Seria de propriedade dos dois amigos antigos e de Jonas que indicou o assalto e já estava devidamente aceito na quadrilha. Jonas era o atual nome de Sebastião.
O outro participante que era o Alberto receberia um pouco mais na divisão do dinheiro para não ser sócio no restaurante e se deu por satisfeito.
Sebastião que atualmente tinha documentos que o identificam como Jonas Cardoso dos Santos sabia que a polícia estaria procurando por Sebastião Pereira da Silva por esse assalto e pelo crime, pois com certeza o velho o delataria às autoridades.
Não o procurariam nas imediações, pois nunca praticou nenhum delito nesse bairro e também porque onde estava escondido jamais iriam procurar alguém.
Lá onde escondia não entrava polícia a não ser para recolher defuntos, mas mesmo assim decidiu dar cabo do Velho e combinaram que no dia seguinte traçariam planos para um novo e lucrativo assalto que culminaria com a morte dele.
Durante a noite os lideres foram para suas mulheres e o assaltante grande e forte conversou com Sebastião por muitas horas.
Qual o seu nome negrão?
Chamo-me Alberto e vim de Salvador e você?
Tião. Sebastião Pereira da Silva do Ceará.
Por acaso é dos Pereira da Silva de Córrego Seco.
Sim sou de lá. Como soube?
Tive um amigo que conheceu uma parenta sua. Uma tal de Mercedes.
É filha de meu irmão Fonso.
Sabe dela?
Dela nada. Mas dos outros sei muito e vou contar-lhe tudo sobre eles. Aceite pelo menos um copo de cerveja.
Obrigado. Jamais bebi ou fumei.
Então fique com sua água mesmo.
Depois de muitas cervejas Sebastião contou ao Alberto resumidamente sobre toda sua vida, até o atual dia. Disse-lhe inclusive que tinha tudo escrito, até antes de sair a procura do filho, nas folhas guardadas no saco de lixo que tinha ido procurar e que descobriu que o Velho roubou.
Por falar nele porque deu aquele solavanco no caminhão justo na ora que eu ia matá-lo.
Foi apenas reflexo de motorista. Um cachorro atravessava a rua e instintivamente desviei rápido. Sinto muito.
Retiraram-se para seus descansos e no outro dia após o almoço reuniram-se os dois lideres com Sebastião para idealizarem o novo assalto.
Alberto que exibiu toda sua força no dia anterior foi convidado para estar sempre junto deles e por isso foi chamado para participar da reunião da cúpula e não teria de sair as ruas para praticar crimes e roubos.  Ficaria como segurança dos chefes.
O local do próximo assalto seria o bar do Zé que mesmo sendo próximo ao depósito que saquearam não iria proporcionar nenhuma dificuldade.
Era isso que Sebastião insistia com os demais que acabaram concordando em praticá-lo na sexta feira próxima, pois era o dia que tinha mais magnatas no lugar.
Conversando na quinta feira Sebastião explicou aos amigos que não teria necessidade de muitos homens para o trabalho do outro dia.
Eles três e o negrão seriam suficientes, pois o que ele queria na verdade era matar o Velho que sempre aparecia a sua frente com aquele olhar inexpressivo que sempre lhe bagunçava as idéias impedindo-o de muitas decisões e influindo-o em outras não imaginadas por ele.
Mas Tião. Isto é. Jonas. Você não disse que o tal bar depois das dezenove está sempre cheio?
Sim. Com gente graúda que dará bom dinheiro.
Então é melhor irmos em seis ou mais.
Não é preciso. São todos uns bunda-moles que tremerão de medo ao ver às armas. Não criarão nenhum problema. Tenho medo só do Velho. Não sei por que, mas tenho.
Enquanto eu fico com o revolver em seu ouvido vocês limpam os demais e quando formos cair fora eu atiro e acabo com o maldito dito cujo.
Está combinado. Iremos amanhã à noite em carro pequeno, só nós quatro.
Não reagirão. Tenho certeza.
Não é muito próximo da chefatura da polícia civil do bairro?
Não. É um pouco longe e seremos rápidos. Não dará tempo de ninguém chegar até lá e avisar os políciais.
Está combinado então?
Okey. Amanhã à noite.
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NO BAR DO ZÉ NA VÉSPERA DO ASSALTO
Eram dezenove horas quando o Velho chegou ao bar para beber suas costumeiras cervejas e conversar com os amigos.
Tinha apenas uma mesa formada com duas duplas jogando dominó e a televisão do bar infelizmente quebrada, por isso ele procurou uma mesa afastada na rua e apenas ele tomava sua gelada quando apareceu um mendigo com a mão estendida que lhe falou.
Por caridade senhor uma esmola.
Sinto muito. Não tenho.
Não ouvi? Sou surdo.
Não dou esmola.
É só hoje que pedirei.
Não dou e até logo.
Não ouvi o que falou? Além de todo estragado também sou surdo. 
O velho pedinte mostrou-lhe o lugar onde tinha a orelha direita. Era apenas uma grande cicatriz e voltou a insistir.
Não precisa ser dinheiro nem comida. Basta alguma conversa.
Não o conheço e nada tenho a falar com você. Pegue esse dinheiro que vou lhe dar porque é aleijado e caia fora.
Veja meu pé direito que também não tenho assim como minha mão esquerda. Faltam muitas parte em meu corpo e sou velho. Pelo menos um pouco de prosa.
Falando isso exibiu embaixo de sua imunda e maltrapilha roupa a ausência desses membros falados.
O que quer afinal?
Agora melhorou. Quero apenas avisá-lo de algo importante por isso estou insistindo em conversarmos.
Fale o que tem a falar, pois o Zé já está vindo para cá colocá-lo a correr se é que conseguirá. Ele não aceita pedintes incomodando seus fregueses.
É sobre Tião.
O dono do bar chegou bravo com o velho mendigo expulsando-o, mas o Velho gordo impediu-o dizendo ser seu convidado e que estava conversando com ele.
Se é assim Senhô. Então pode, mais que seja rápido, pois sabe que não aceito esse tipo de gente incomodano ninguém no meu bar.
Ele não está me incomodando. Fui eu quem o chamou.
Olhe aqui sô moço. Dispois que o Senhô falar com você caia logo fora. Não o quero com suas catingas de sujeira espantano e afugentando meus freguês.
Ele não escuta direito Zé. É surdo.
Eu vou conversar com ele lá na frente e deixaremos seu bar sossegado.
Não carece disso não. Converse logo cum ele aqui mesmo. Já tão longe da entrada mesmo e o fedô dele num chega lá dentro.
Ele não está fedendo não. Só está com roupa velha, mas não tem nenhum mau cheiro.
Vai vê qui ainda num peidô e num levanto os braço.
Tá bom Zé. Seremos rápido e ele vai embora. Agora dê licença para nós conversarmos. É coisa rápida.
O velho olhou para traz e verificou que como por encanto o bar estava recebendo uma multidão de clientes e de fato aquela mesa faria falta aos clientes se ele a usasse só, pois o pedinte estava de pé ao lado.
Ele deveria ser rápido e procurar outra mesa já ocupada com seus amigos para liberar essa inteiramente vazia para quatro pessoas usarem-na.
Olhou para o esmoleiro que lhe falou em voz baixa sem nenhuma entonação.
Se esse nordestino não falasse tanto eu já teria ido embora há muito tempo.
Se é surdo como ouviu o Zé falando com sotaque nordestino?
Sou surdo sim. Totalmente surdo. Entendo o que falam lendo em seus lábios e sei que o cara é nordestino pela aparência que tem de Cearense ou Piauiense.
Ele é piauiense. Mas que tem a falar-me sobre Tião.
Apenas isso. Ele virá aqui amanhã para matá-lo.
O que?
Se não quiser acreditar que venha então para ser morto.
Estou acreditando sim.
Trouxe-lhe escrito de forma resumida tudo sobre Tião, após ele sair daqui a procura do filho para você ficar sabendo de tudo que lhe aconteceu até hoje. O inicio você já se apoderou não é? De tempos em tempos eu irei entregando-lhe o que irá acontecendo com ele daqui para frente para você saber de toda sua vida até o seu final.
Espere um pouco. Quero saber mais. Espere. Volte aqui.
Não adiantava o Velho gordo gritar, pois o velho mendigo surdo, maneta e coxo já se afastava com muita dificuldade tentando ser rápido. De costas não tinha como ler-lhe os lábios para saber que o Velho chamava-o. A intenção do Velho era saber mais coisas e até gratificá-lo, pois realmente sentiu ser verdade o que ouviu.
Foi a cerveja mais rápida que já tomou em toda sua vida e retirou-se com a mesma ligeireza para sua casa sem despedir-se de ninguém e sequer pagar a despesa que com certeza seria anotada talvez dobrada pelo Zé, em sua conta.
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O ASSALTO
 
Tudo decidido conforme combinado Sebastião e companheiros chegaram de carro na frente do bar na sexta feira as vinte e duas horas.
O bar do Zé fervilhava de gente.
Efetuaram o assalto que como previsto não houve reação e o fruto do roubo muito bom.
Conseguiram vários relógios de ótimas marcas e originais.
Grossas correntes e pulseiras de ouro maciço.
Montanhas de cartões de crédito, talões de cheques, vales de refeição e vários outros documentos, que seriam usados para golpes futuros.
Muito dinheiro.
Nenhuma arma.
Aqueles granfinos bestas não portavam armas.
Nem sombra do procurado.
Naquela noite o Velho gordo, careca e de barbicha branca não tinha aparecido.
No assalto Sebastião tinha rendido o Paulinho e insistiu em saber onde estava o Velho e com isso deixou bem claro suas intenções.
Como se não bastasse a impressão deixada, no ódio que estava naquele momento de tremenda decepção falou claro que tinha ido lá para matá-lo.
Voltou decepcionado e pensativo.
Passou a ter certeza o Velho gordo nunca mais iria se expor, e de caça passaria a caçador, pois poderia com a polícia descobri-lo como fez em outras vezes em lugares diferentes.
Sempre que ele fazia algo errado lhe aparecia à frente saindo do nada.
Acreditava ser mais fácil o Velho gordo encontrá-lo do que ele ao Velho, por isso, mesmo a contra gosto desistiu de seu intento de matar tal homem e decidiu esconder-se na vila e de lá não saia, com terrível medo do velho o encontrar.
Nunca mais praticou nenhum crime com o bando nas imediações.
Satisfez-se em pensamento e com o desejo:
O câncer não o matou. Eu também não, mas felizmente a velhice vai matá-lo logo. Está muito velho o demônio.
Aquele cretino imbecil já tinha passado da hora de morrer pela idade.
Logo, logo irá para os quintos do inferno.
Continuou sua vida de malfeitor por muitos anos.
Atualmente era o manda chuva de quase toda vila.
Era ele quem permitia a entrada de novos assassinos, assaltantes, sequestradores e ladrões de carro dando-lhes guarida e apoio para suas atividades.
Seus dois amigos já estavam mortos por isso era único dono do restaurante que tinham montado anos antes de se transformado no grande poderoso chefão da quadrilha.
Um morreu de AIDS e o outro assassinado por um dos moradores que o flagrou com sua companheira e sua filha adolescente em sua própria cama.
Matou todos e suicidou deixando duas crianças órfãs que foram adotadas por famílias da própria vila.
Jonas Cardoso dos Santos novamente atendia por Sebastião Pereira da Silva.
Há tempos já assumira sua real identidade.
Jamais casou nem amasiou.
Nunca teve filhos. Sempre evitou que isso acontecesse.
Seu sonho quando ainda jovem e recém-chegado a São Paulo tinha sido para uma brilhante e bem sucedida família Pereira da Silva através da educação estudo e trabalho.
Atualmente estava cheio de dinheiro e de poder conseguidos de maneira criminosa durante muitos anos.
Não deixaria herdeiros para suceder-lhe nesse ridículo sucesso que nunca pretendeu. Apenas aconteceu.
A sarjeta fez com que assim fosse.
O Inferno de São Paulo auxiliou muito.
O que de fato sempre quis nunca conseguiu.
Sebastião já velho não assaltava mais.
Recebia parcela dos lucros entregue pelos mais de duzentos criminosos que protegia, apadrinhava e comandava.
Era o comprador dos objetos roubados que vendia com altos lucros a comerciantes próximos à Estação da Luz e à gang chinesa de contrabando da Galeria Pajé.
Receptava os roubos dos asseclas por preços muito melhores que qualquer receptador da cidade.
Ajudava com dinheiro famílias mal sucedidas.
Não deixava ninguém passar necessidade de remédios e alimentação em sua fortaleza.
Tal atitude proporcionava-lhe uma imensidão de amigos que dariam a vida por ele se assim precisasse.
Na pequena região entre as rochas também impenetrável pelas autoridades o domínio era do pessoal do tráfico de maconha, cocaína e outras drogas que ainda mantinham-se rivais de Sebastião em poder.
Antigamente eram os traficantes que pretendiam apossar-se da vila inteira para terem mais espaço e conforto em suas atividades criminosas do tráfico de entorpecentes.
Atualmente com Sebastião no poder da outra gang a situação mudou.
Era ele quem pretendia apoderar-se do comando das drogas e unificar as duas atividades sobre seu domínio.
Tráfico de drogas se ganha muito mais dinheiro que assaltos.
Ganham-se verdadeiras fortunas.
Sebastião queria também esse poder. Tentava de tudo.
Muitas pessoas importantes da outra facção que eram seus desafetos apareciam mortas.
Por esse motivo Sebastião era jurado de morte pelos chefes dos traficantes.
Tinha conseguido muitos amigos, mas também esses grandes inimigos muito mais poderosos que ele em dinheiro, mas infinitamente inferior em homens por isso não conseguiam ultrapassar seus limites para eliminá-lo.
O velho Tião só andava rodeado por quatro elementos fortes e bem armados pagos por ele e chefiados pelo amigo Alberto, o poderoso Negrão, exclusivamente para sua segurança vinte e quatro horas por dia.
Dormiam em sua casa em turnos para proteger-lhe a vida.
Sempre eram mulheres da própria região que lhes faziam companhia não levando nenhum perigo, mas ele precavido adotara tal prática por medo que alguma delas pudesse ter sido previamente contratada pelos traficantes para assassiná-lo.
O risco era praticamente zero, pois os próprios homens que o idolatravam indicavam-lhe suas esposas, filhas, sobrinhas e até netas adolescentes para tais noites garantindo-lhe tranquilidade.
Davam suas palavras de honra que a parenta era honesta e de confiança.
Sebastião acreditava em seus homens.
Sempre escolhia uma dessas indicações.
Era totalmente seguro.
As mulheres candidatas à escolha para frequentar sua alcova brigavam entre si pelas raras noites de prazer que ele necessitava, pelo status que conseguiriam por ter dormido com o todo Poderoso Chefão e pelos ricos presentes que ganhavam que eram sempre grossas correntes de ouro e muito dinheiro.
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FINAL
 
Em um final de tarde o mendigo aleijado procurou pelo Velho Gordo no bar e conversou com ele, pouco mais de cinco minutos e novamente desapareceu, deixando o Velho muito excitado e ele sem conversar com ninguém voltou para sua casa nervoso e preocupado.
No outro dia pela manhã ensolarada Sebastião com quase sessenta anos de idade totalmente careca com barba branca escondendo-lhe as cicatrizes que desfiguravam seu rosto totalmente diferente de quando tinha vinte e poucos anos e viera para São Paulo, foi com seus guardas-costas entregar mercadorias na Galeria Pajé onde fazia negócios rotineiramente toda semana.
Concluída as negociações e dentro de seu carro, na volta foi violentamente esfaqueado pelos seus muito bem pagos contratados protetores sem ter tido a mínima chance de defender-se.
Fugiram com o carro jogando o moribundo num monte de lixo embaixo de um viaduto, sem dinheiro nem documentos para não ser identificado.
Em um terreno baldio distante o carro foi incendiado bem mais tarde.
O irmão do Alberto Negrão que pertencia a quadrilha dos traficantes e que o contratou juntamente com os demais seguranças, foi ao encontro dos traficantes na Vila Maria receber a valiosa recompensa para pagar pelo seu feito e desaparecer para sempre de São Paulo.
O plano fora executado corretamente conforme planejado por eles.
Sebastião acordou quando estava sendo colocado em uma maca da ambulância que o socorria e com muita dificuldade abriu o olho, mas fechou-o imediatamente após o susto que levou.
Viu novamente aquele Velho gordo olhando-o fixamente no único olho que lhe restou.
O outro foi vazado por uma das punhaladas.
No chão junto aos pedaços das dentaduras partidas e da metade da língua também cortada ficaram alguns dedos, um pouco de seus miolos e uma orelha.
Antes de desmaiar novamente tentou falar alguma coisa com o Velho, mas nenhum som saiu de seus lábios.
Queria saber muitas coisas do Velho gordo.
A primeira era pedir-lhe que falasse qualquer coisa, pois ele nunca tinha ouvido a sua voz.
Outra coisa que queria saber era como ele mesmo tendo tido câncer, envelhecia, mas não morria.
Queria saber também porque o velho sempre lhe aparecia do nada e sumia repentinamente sem deixar pistas.
Interessava-se em descobrir por que ele vivia perseguindo-o.
O último desejo que era mais importante era saber se ele era homem, Deus ou o Demônio.
Não conseguiu satisfazer-se, pois quando novamente fazendo um esforço sobre-humano abriu seu único olho o Velho gordo, careca e de barbicha branca já tinha sumido como sempre acontecia.
Resignou-se imaginado que talvez conseguisse no próximo encontro se houvesse e desfaleceu novamente.
Na sala de emergência do hospital acordou novamente do desmaio intrigado e desorientado ao ouvir o chamado pelo alto falante:
“Doutor Sebastião Pereira da Silva Filho venha urgente à emergência do Pronto Socorro”.
Abriu o único olho que lhe restava e viu o velho gordo vestido de enfermeiro ao lado de um médico que estava a sua frente.  O médico era ele próprio.
Ele Sebastião Pereira da Silva quando jovem estava a seu lado medicando-o.
Fechava e abria seu único olho para saber se sonhava se delirava ou se realmente ele bem mais jovem estava diante dele velho e agonizante.
Encostado ao moribundo um homem exatamente igual Sebastião quando tinha mais ou menos uns trinta anos de idade com o mesmo nome acrescido do “Filho” fazia o possível para curá-lo.
Finalmente entendeu o que estava acontecendo e ao fazer forças para gritar suas fezes saíram pelos rasgos das facadas em sua barriga impregnando o local com um horrível mau cheiro.
O som do grito “CONSEGUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍI” ecoou por muito tempo pelos labirintos do hospital após sua morte indigente.
Nenhuma das pessoas presentes entendeu nada e se entreolharam boquiabertas ao verem que após aquele estrondoso berro o ferido deixara esse mundo com o semblante alegre.
Ele morreu sorrindo feliz.
Intensamente contente com os braços abertos em direção ao jovem médico que rapidamente deixou a sala de operações muitíssimo assustado.
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A NOITE NO BAR
Nessa mesma quinta feira 12 de setembro um dos fregueses do bar Anarquia Total procurou pelo Baiano dono do bar para fechar o ambiente por sua conta para festejar o ingresso de seu filho na faculdade de direito, mas soube que tal noite estava por conta de outro.
O próprio Velho gordo, careca e de barbicha branca que estava no local convidou-o e aos futuros advogados para a noitada que seria dele e seus amigos em comemoração ao termino de seu livro Paraizo, que logo estaria nas bancas e nas livrarias.
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Por volta de vinte e quatro horas todos os frequentadores do bar estavam amontoados dentro do bar, pois não havia como ficarem nas mesas de fora devido a chuvarada que inundava São Paulo, quando o Velho gordo de dispôs em ir para sua casa abanando ambas as mãos aos diversos amigos como despedida, quando ouviu Jean chamá-lo:
Já vai pai?
Sim. Tenho de começar ainda hoje um novo livro.
Terminou um ainda a pouco e já vai começar outro?
Se essa tempestade deixar-me chegar até em casa começarei hoje mesmo?
Sobre o que?
Será a continuação do “Paraizo”.
Vai demorar outros trinta anos para terminar? Igual Paraíso?
Não. Este já tenho tudo na cabeça. O começo, o meio e o fim. Será bem rápido. Só falta mesmo bolar as frases para encher linguiça.
Já tem título?
Sim. Será “Tempestade”.
Então boa sorte e tchau.
Tchau.
 
ACABOU.

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