Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha







orlando ciuffi filho






Amor Assassino

AMOR ASSASSINO
Introdução do autor:
``Quem lhes fala estava tempo atrás no bar Anarquia Total onde durante muitos anos frequentou e era amigo de todos que o chamavam carinhosamente de Velho Gordo careca e de barbicha branca.
Em uma noite calma com temperatura elevada e o vento forte que amenizava um pouco o calor, jogava areia, folhas secas, papeis velhos e guardanapos usados nos rostos e nos copos dos frequentadores das mesas postas nas calçadas do bar, azucrinando-os.
Eu usava a mesa mais afastada do passeio público em frente tal boteco de minha preferência ingerindo minhas costumeiras cervejas, fumando e comendo acarajé, sempre só e meditativo, quando chegou e se pôs a minha frente um desconhecido bem apessoado e finamente trajado.
Educadamente solicitou permissão para assentar-se, embora houvesse muitas outras mesas sem clientes, com cadeiras desocupadas``...
Toda essa arenga nada mais é do que o início de meu livro (Inferno), que talvez já tenham lido. Por isso solicito-lhes minhas desculpas pelo fato de tê-los feito ler o que realmente não faz parte da história atual, entretanto são informações imprescindíveis para poder começar a nova história.
Será necessário aguardar um pouco mais, pois vou precisar falar-lhes sobre outras coisas acontecidas naquela época, algumas já contadas e outras não, pois algo que ouvira de uma jovem senhora antes mesmo de escrever o livro Inferno, nunca foi escrito e decididamente tal narrativa com suas personagens já existentes entrelaçou-se em meus pensamentos com a atual história apenas esquematizada.
Esse é o motivo por eu ter de mencionar tais fatos antigos, pois são extremamente necessários para o desenrolar do (Amor Assassino) propiciando seu perfeito entendimento.
A história sem nome contada pela mencionada senhora nunca foi escrita, mas suas personagens já haviam sido criadas por mim e há muito deixadas de lado, pois fui obrigado a repudiá-las para, de maneira forçada escrever o livro Inferno.
Como atormentadores e inquietos espectros essas criaturas passaram a reprimir e dominar minha mente torturando-me dia e noite exigindo serem mostradas, pois já que tinham sido criadas, estavam existentes e bem vivas com suas personalidades instituídas assim como sua história já existente, entretanto eu nunca a tinha escrito.
Elas insistentemente cobravam-me tal feito e como é quase impossível à qualquer escritor abandonar figuras dramáticas já viventes antes de registrar toda sua trajetória, elas não me consentiam a criação de outras para começar a atual narração, pois exigiam de mim, primeiro a sua história.
Tal tormento tem-me impedido totalmente de dar vida às outras que insistente e inutilmente tento instituir para o novo conto, pois as primeiras, evidentemente mais velhas não me consentem, porque teimam em serem mostradas e isso vem emperrando minha criatividade.
Tenham paciência mais um pouco que em breve iniciarei a história que propus escrever, tão logo consiga convencer os violentos filhos gêmeos de uma jovem senhora idosa, (tais personagens já existentes) que elas participarão do atual romance e também serão eternizadas junto aos ainda embrionários participantes do Amor Assassino.
No inicio da história Amor Assassino, infelizmente terei de algumas vezes aparecer com outro assunto, mas tudo será para comunicar-me com vocês leitores e dar as devidas explicações para tais fatos no momento que for necessário, por isso ainda tenho de contar-lhes alguns eventos aparentemente desconexos, mas vão entender perfeitamente tais necessidades de interrupções.
Dando sequência ao inicio do livro Inferno, pois ainda se faz indispensável digo-lhes:
``... Antes de minha resposta que certamente seria negativa tal individuo rapidamente acomodou-se em uma das cadeiras, portando na mão um enorme e bonito copo de cristal cheio de uísque com gelo.
Tomado de espantosa surpresa pelo atrevimento fiquei no momento sem nenhuma reação e calado ouvi-o:
§  O senhor quem escreveu os dois livros que falam da família Pereira da Silva, não foi?
§  Sim. E daí? O que lhe interessa tais livros? Por acaso quer comprar os direitos autorais para fazer alguma novela ou filme? Nunca vi sua cara na televisão, portanto não é diretor de merda nenhuma.
Ø    Foi minha resposta agressiva com enorme mau humor pela ousadia do jovem.
§  Tenho muitas revelações importantes a lhe fazer.
§  Não me diga que pretende contar-me sua história para que eu a escreva.
Saiba que não tenho o mínimo interesse nela e se me der licença prefiro permanecer apenas com meus pensamentos procurando inspiração para meu próximo livro. Só consigo isso quando estou absolutamente só e sem ninguém me aporrinhando, por conseguinte, faça-me o favor de retirar-se tão cortês como chegou, pois por sua história não dou a menor importância e muito menos por sua presença.
§  Está agitado, nervoso e até mal educado Velho Gordo. Mantenha a compostura sem alterar a voz, pois não pretendo fazer-lhe mal algum. Apenas civilizadamente conversar, pois tenho certeza que tirará de nossa conversa subsídios para um livro verdadeiramente maravilhoso.
Tão espetacular que jamais conseguirá outro.
§  Já lhe disse que não me interesso por sua história. Ontem mesmo fui procurado por uma mulher ainda jovem, mas bastante desgastada, aparentando muito mais idade justamente pelos sofrimentos que passou. Contou-me ter sofrido em toda sua vida muitas angustias pelos crimes horríveis causados por seus filhos gêmeos e queria o mesmo de mim, entre outras coisas, que até julguei justo e certo se realmente suas informações forem corretas.
Ela havia me procurado após educadamente mandar-me seu recado e só se apresentou a mim após minha concordância e não invadindo meu espaço como você fez. Isso é uma coisa que não admito de ninguém.
§  Então me desculpe pelo que achou atrevimento de minha parte e me ouça. Tenho certeza que minha história será muito melhor que qualquer outra que possa tomar conhecimento.
§  Não creio, pois a da mulher eu já ouvi o suficiente para ficar convencido que será uma história muito interessante e até já concordei que a partir de hoje irei escutá-la sobre tudo e daqui a pouco ela já deverá chegar para conversarmos, portanto por obséquio meu caro levante-se e deixe-me só. Não o conheço. Não quero conhecê-lo e menos ainda tenho a menor necessidade e desejo em falar com você. Inclusive já estou arrependido de ter falado tanto, principalmente sobre o que vou fazer ou deixar de fazer. Portanto saia já de minha mesa, deixe-me só e passe muito bem longe de mim.
§  Infelizmente não posso deixá-lo enquanto não o convencer em ouvir-me.
§  Então com licença. Saio eu``...
O que escrevi até o parágrafo acima aconteceu há muitos anos e o relato que havia ouvido da mencionada senhora foi realmente muito interessante e realmente digno de ser contado desde aquela época. Foi impossível, pois o desconhecido bem apessoado e finamente trajado com seu espetacular plano me sequestrou, na frente de um monte de amigos meus sem que eles suspeitassem de nada, portanto nada fizeram e lá fui eu para o cativeiro, satisfazer suas exigências.
Onde fiquei aprisionado meu sequestrador com suas artimanhas, obrigou-me escrever sobre sua vida (Inferno) e muito tempo se passou desde então que até esqueci-me da história da jovem senhora idosa e sofredora com seus filhos gêmeos assassinos, já criados em minha imaginação aos quais eu iria dedicar em escrever naquela época.
A seguir iniciarei a história atual e no momento oportuno quando julgar conveniente incluirei os gêmeos homicidas nessa narração, pois já consegui convencê-los dessa decisão e eles concordaram, portanto agora poderei dar vida às personagens do livro Amor Assassino, que começará assim:
oooOooo
Pela manhã, prestes a sair de casa, Tadeu despede-se de sua esposa Miriam:
·        Querida. Vou trabalhar e não venho almoçar. Vou comer por lá mesmo.
·        Mas meu amor, você tem de trazer dinheirinho para eu pagar algumas continhas, além da faxineira que vem hoje.
·        Tudo bem. Então eu venho para o almoço e trago. Quanto vai precisar?
·        Seiscentos reais.
·        Porque tanto assim?
·        Duas semanas de faxina e algumas pequenas dívidas no açougue, no armazém, na farmácia, na padaria...
·        Sem ser a menina da faxina, o restante você poderia adquirir com o cartão de compras da cooperativa do meu trabalho para descontar no pagamento.
·        Eu sei, mas o supermercado e a farmácia de seu convenio ficam longe. Não compensa eu ir de carro e gastar combustível apenas para algumas comprinhas que faltam no dia a dia. Além do tempo perdido eu gastaria muito mais dinheiro com gasolina do que comprar aqui no bairro mesmo.
·        Faz sentido. Você tem razão.
·        Tem também a manicura, a costureira, o cabeleireiro, a depiladora, a massagista...
·        Chega. Pode parar. Está mais que explicado e justificado, mas procure fazer economia que estamos devendo muito. Já venho lhe falando isso faz muito tempo e parece-me que você não está entendendo nada do que eu digo.
·        Mais economia que eu já faço?
·        Okey Miriam. Eu é que estou ganhando pouco.
·        Também acho querido amor da minha vida. Não tem nenhuma promoção em vista para você meu bem?
·        Nada. Ninguém acima de mim no trabalho aposenta ou morre para eu substituir.
Tenho aqui no bolso duzentos e dez reais. Quanto você tem em casa para saber quanto ficará faltando, para eu trazer o restante?
·        Não tenho nadinha comigo, por isso traga o que pedi ou mais para eu guardar o que sobrar.
·        Guarde os duzentos e dez que acabei de lhe dar.
·        Não vai dar, pois com esse dinheiro vou trocar o óleo e colocar gasolina no carro. Pensando melhor é bom você trazer mil reais para depois de pagar minhas continhas, termos uma sobrinha para o final de semana.
·        Vai por gasolina? Não encheu o tanque ontem?
·        Sim, mas usei o carro para ir ao shopping, e também para visitar meu irmão e alguns amigos.
·        Gastou um tanque cheio em apenas um dia?
·        Claro que não. Ainda deve ter um pouco.
·        Então para que abastecer?
·        Para completar o tanque, antes que acabe.
·        Está bem. Beijos querida.
·        Um beijão meu amor.
Despediram com um apaixonado beijo na porta da casa, com Tadeu indo para o ponto de ônibus e Miriam voltando para dentro, para ir deitar em sua cama e fazer suas rotineiras e longas ligações telefônicas, que sempre excedem muito ao limite adquirido, aumentando o preço das contas a altos valores.
No serviço Tadeu procurou um colega de setor e solicitou-lhe mil reais emprestados.
·        Tadeu. Não dá mais. No pagamento que recebemos no inicio da semana era para você quitar os dois mil e pouco que já me deve e ainda quer mais? Nem sequer conversou comigo para trocar o cheque antigo acrescentando os juros para o próximo pagamento.
·        Estou enrolado por enquanto, mas logo vou acertar com você.
·        Quando?
·        Mês que vem é certeza. Arrume mais esses mil e vamos trocar o cheque.
·        Todo mês ouço a mesma coisa. Vamos apenas trocar o cheque, pois infelizmente não posso lhe arrumar mais nenhum centavo, enquanto você estiver devendo-me.
·        Porra. Que amigo e companheiro você é?
·        Colega de serviço eu sou e amigo também, por isso não quero ficar seu inimigo se você me der calote.
·        Acha que não vou pagar-lhe? Quem você pensa que sou?
·        Está vendo? Está gritando comigo, apenas por eu estar negando emprestar mais.
·        Não é por isso não. É por estar pondo em dúvida minha honestidade.
·        Não acho que você seja desonesto, mas que está sem possibilidade de solver suas dívidas isso está na cara. Nem consegue pagar o que já deve e está querendo mais e nem faz uma semana que recebemos o salário.
·        Você é um merda e sacana.
·        Preste atenção Tadeu. É justamente isso que acontece. Sempre que alguém ajuda um amigo que está enrolado e esse vai perdendo o controle de sua situação, começa a exigir o permanente auxilio.
Quando tal amigo percebe a dificuldade do outro e começa negar, pronto acaba em confusão e a amizade de muitos anos desmorona como um castelo de areia.
·        Tudo bem. Foi mal. Qual o valor do cheque que terei de fazer para trocar o anterior?
·        Dois mil seiscentos e vinte dois reais do cheque anterior, mais trezentos e noventa e três dos 15% de juros para mais um mês.  Faça um cheque de três mil e quinze reais.
·        Credo. Seu agiota safado. Mais que dobraram os mil e quinhentos iniciais que peguei com você?
·        Não sou agiota e muito menos safado e sim um amigo prestes a ser um ex-amigo, que empresta dinheiro aos colegas, quando tem certeza que vai receber.
Faz cinco meses que pegou o dinheiro comigo para pagar no mês seguinte e nunca deu nada para abater o principal e sequer quitar os juros. Nunca pagou absolutamente nada. Faça as contas para conferir.
·        Está certo. Tudo bem. Se você falou tá falado. Devo e não nego e lhe pagarei assim que puder.
Após a discussão, a troca do cheque e o estremecimento da relação de amizade entre eles, Tadeu procurou por outro colega de serviço em outra sala da empresa e com esse teve um pouco mais de sorte.
Não houve negativa nem discussões, entretanto conseguiu apenas quinhentos reais emprestados, após substituir o cheque já em poder desse outro, atualizando a dívida anterior acrescida dos quinhentos reais e dos respectivos juros cobrados, sobre o valor total.
Tal cheque feito foi no valor de quatro mil duzentos e quarenta e oito reais, pois a esse amigo a dívida era mais antiga e os juros maiores, mesmo em se tratando do principal ter sido igual.
Na volta para casa no horário do almoço, dentro do ônibus que o transportava foi meditando sobre sua situação financeira.
Para esses dois colegas de serviço ele devia pouco mais de sete mil reais. Concluiu que para quem ganha por mês seis mil como ele não seria difícil conseguir pagar, entretanto seu salário, descontado os valores empregatícios normais tinha atualmente como saldo um valor muito baixo, próximo à zero.
Em convênio com a empresa em que trabalha, existiam as despesas feitas em um supermercado, uma farmácia, o celular empresarial pós-pago, empréstimos feitos na cooperativa dos funcionários que já não lhe permitia mais crédito, pois seus descontos já haviam chegado aos 50% do salário, que era o máximo permitido.
Além disso, descontavam-lhe a pensão alimentícia judicial de seu filho ainda adolescente do casamento anterior.
Já havia algum tempo que sobrava-lhe quase nada e mês a mês tinha de recorrer a novos amigos que sequer imaginavam que seu salário já estava todo comprometido por muito tempo à frente.
Seu último acerto com a cooperativa datava de três meses quando assinou a documentação de unificação de vários empréstimos e o refinanciamento do mesmo para um único empréstimo para quitação em 60 meses, portanto era uma dívida que terminaria somente quase cinco anos após, consumindo 49% de seu ordenado bruto.
Seu filho de apenas nove anos, demoraria ainda muitos anos para completar a maioridade e desobrigá-lo da pensão de vinte e cinco por cento do mesmo salário.
O imposto de renda retido na fonte era restituído uma vez por ano, por deCarlações feitas desonestamente por um contador duplamente safado, que lesava a receita federal com despesas falsas e o contribuinte, pois ficava com cinquenta por cento do valor restituído ao Tadeu.
Ele que desde criança nunca fora nada cuidadoso com seus direitos e suas obrigações deixava que tal contador amigo consultasse pela internet quando de sua restituição e o avisasse.
Na época ambos iam juntos ao banco receber o dinheiro, pois existia esse acordo já determinado entre eles que seria rachar meio a meio quando o dinheiro chegasse da receita federal. Como Tadeu jamais teve como pagar antecipadamente os vinte por cento do valor a restituir conforme exigia o profissional quando da confecção e entrega da deCarlação de ajuste anual e como poderiam descobrir as irregularidades elas seriam glosadas diminuindo o valor a ser restituído, ou a deCarlação ser pega pela malha fina atrasando em muitos meses a restituição, justificava o pacto entre eles.
Joias da esposa que ele mesmo comprara antes de se endividar totalmente já não existiam, pois as hipotecara na CEF e por falta de pagamento das cautelas elas já haviam sido leiloadas, assim como as de uma sua irmã que lhe emprestara.
Nos vários bancos onde tinha conta, não poderia mais recorrer, pois os diversos empréstimos sacados e não pagos com a enorme quantidade de cheques devolvidos, já haviam encerrado suas contas bancarias fazia muito tempo.
Financeiras tampouco poderia apelar, pelo mesmo motivo.
Bens para serem vendidos não existiam, pois nunca conseguiu adquirir nenhum ao longo se sua desregrada vida nesses últimos anos, após casar-se com Miriam.
Um carro que tinha e já próximo de ser quitado, havia sido vendido para parte do dinheiro pagar dividas urgentes e outra para dar de entrada na compra de outro veiculo novo cujos pagamentos iniciais à financeira já estavam atrasados e com iminente perda do mesmo.
Lembrou-se que o valor para quitar as dívidas consideradas imprescindíveis na época foi consumido com compras compulsivas e irresponsáveis pelo casal e tais contas urgentes jamais foram pagas, gerando mais protestos em cartório, mais móveis retirados por lojas fornecedoras e mais vezes seu nome apontado no Serasa.
Convenio médico para si e seu filho dependente já deixara de pagar fazia bem mais de dois anos.
Foi com tais pensamentos e com a certeza que nos próximos dias chegaria definitivamente ao fundo do poço e com total impossibilidade de voltar ao topo, chegou ao ponto final da linha de ônibus. Viajara muito além de sua casa por isso permaneceu dentro do veiculo para fazer a viagem de volta e quando chegou novamente próximo a sua residência descobriu que consumira quase todo seu horário de almoço nessa viagem errada e cheia de reflexões, sem, contudo encontrar nenhuma solução possível para salvar-se da bancarrota que se aproximava rapidamente.
Sua permanência no lar foi apenas o suficiente para repassar os quinhentos reais a esposa e tomar um leite quente com pão e ovo, pois Miriam tinha estado ocupada fazendo algumas compras e não havia feito o almoço, aliás, coisa bastante comum.
Geralmente era ele quem fazia a comida ou comiam em um restaurante próximo.
·        Já vai querido? Amor de minha vida?
·        Estou atrasado. Perdi muito tempo no ônibus.
·        Vamos namorar um pouquinho primeiro.
·        Não dá tempo.
·        Dá sim. Pelo menos uma rapidinha e depois eu o levo de carro para o serviço.
·        Você é mesmo minha rainha. É minha Deusa. A mulher de minha vida.
·        Então vamos para o quarto.
·        E a faxineira?
·        Já foi embora. Ela acabou o serviço antes de você chegar. Estamos a sós.
Aqueles minutos de caricias e sexo o fez voltar feliz ao trabalho e mais nada pensou em sua situação no decorrer da tarde, retornando a noitinha, após pagar o mico de ter de saltar do ônibus pela porta traseira, pois não tinha no bolso absolutamente nenhum dinheiro para pagar a passagem.
Chegou quase chorando perto da esposa que o consolou pela desdita, com várias caricias e mais sexo. Desta vez demorado e após o carinhoso romance o dialogo:
·        Querida tem mais alguma coisa para eu comer sem ser você? Estou praticamente sem alimentar o dia todo.
·        Então vamos ao restaurante.
·        Não tenho nenhum dinheiro e meu cartão está estourado e bloqueado e não será aceito.
·        Não tem problema. Ainda tenho algum dinheiro que sobrou do que me deu.
·        Fez mágica ou milagre?
·        Por quê?
·        Porque eu lhe dei apenas quinhentos e não os seiscentos que você precisava para pagar as contas.
·        Vou lhe explicar direitinho o que aconteceu. Como eu não fiz almoço comprei comida para mim e para a empregada com o dinheiro da troca de óleo e da gasolina, além de pagar as duas diárias dela. Com isso acabaram-se os duzentos e dez reais que você havia deixado.
Depois de levá-lo ao trabalho fiz a manutenção do carro e com a troca de óleo do motor, do cambio, do freio, mais o filtro de ar e o de óleo que o rapaz disse que estava tudo vencido e a complementação da gasolina gastei mais de duzentos e cinquenta e como o que sobrou era insuficiente para pagar as continhas deixei para pagar amanhã ou na segunda.
Com os duzentos e pouco que sobraram eu fiz umas comprinhas básicas, mas ainda tenho o suficiente para a gente jantar.
·        Meu Deus!
·        Que tem você e seu Deus, meu querido?
·        Nada não. Acho que nem ele dá jeito mais.
·        Então tomemos um banho rápido para irmos.
·        Okey.
·        Escolha qual dessas calcinhas novas que você quer que eu use.
·        Nossa. Quantas têm?
·        Comprei doze e ganhei uma de brinde. Não são lindas e sensuais?
·        São delirantes. Gostei de todas.
Foram jantar depois do banho e ao pagar a conta Tadeu viu que a gorjeta dada por Miriam ao garçom foi superior aos 10% costumeiros, por isso perguntou-lhe:
·        Porque deu vinte e dois reais de gorjeta? Bastava dez, pois a conta foi noventa e oito.
·        Acontece que eu só tinha os últimos cento e vinte reais e para que ficar com os dez que sobrariam?
·        Como assim?
·        Era todo o dinheiro que havia sobrado.
·        Dos quinhentos? Mas você não gastou duzentos e cinquenta no posto? Teria de ter outros duzentos e cinquenta de troco e não somente cento e vinte. Agora me lembrei. Gastou com as calcinhas. Não foi? Tinha me esquecido.
·        Das calcinhas? Como poderia se esquecer delas?
·        Não delas, mas sim da compra delas. Foi com elas que você gastou o dinheiro, não foi?
·        Você acha que comprei treze calcinhas com apenas cento e poucos reais? Está louco? Dos duzentos e cinquenta que sobraram do posto comprei uma rasteirinha e uns cremezinhos para a pele por cento e trinta, por isso só tinha cento e vinte reais.
·        E as lingeries?
·        Comprei de uma fornecedora amiga que virá receber na quarta feira da semana que vem.
·        Quanto?
·        Quinhentos e quarenta. Por eu ser uma boa cliente ela me cobrou apenas quarenta e cinco cada ao invés de cinquenta e ainda me deu uma de brinde.
·        Santo Deus!  Caro assim?
·        Você acha que uso qualquer porcaria? Trata-se da coleção completa da Luana Piovani. Todos os modelitos que ela usou na série Mulher Invisível.
·        Como passaremos amanhã e domingo sem um puto no bolso?
·        Amanhã a gente vai até uma agencia bancária e você saca no caixa eletrônico.
·        Já disse que não tenho nada no banco. Não tenho mais conta e nem cartão, pois há muito estou com as contas encerradas em todos os bancos com os quais trabalhava.
·        Eu não sabia nada disso. Porque você nunca me falou?
·        Sempre venho lhe dando toques para ver se entende, mas acho que tem sido em vão. Faz bem mais de um ano que estou totalmente falido e vivendo com dinheiro emprestado a juros altos.
·        Sempre achei que era sovinice sua. Vamos para casa e lá nós conversaremos com calma.
Lá chegando e confortavelmente instalados no maravilhoso sofá de couro, comprado há seis meses no crediário e ainda sem nenhuma prestação ter sido paga Tadeu chorou no colo de sua Deusa que o acalmava com cafunés e ele ainda choramingando perguntou-lhe:
·        Não dá para devolver pelo menos umas seis ou oito calcinhas e ficar apenas com as que já usou?
·        Não dá meu amor. Minha amiga virá receber somente na quarta feira e inclusive me trará também a coleção completa das usadas pela Débora Falabella na mesma série da TV.
·        Mesmo preço?
·        É claro.
·        Como vou fazer? Só de calcinhas serão quase mil e cem, além dos seiscentos que já deve. Como vou conseguir?
·        Primeiro vou buscar água e seu remédio e depois lhe falo como resolvo seu problema, meu adorado marido.
·        Como?
·        Você ainda tem folhas de cheques?
·        Tenho diversos talões ainda intactos.
·        Veja como foi importante você ter aberto contas em vários bancos e solicitar muitos talões de cheques de cada um, conforme lhe aconselhei. Agora a gente pode ir usando as folhas para garantir empréstimos com vários amigos e depois aos poucos ir pagando um a um.
·        Mas como? Nem tenho mais amigos para solicitar e agiotas desconhecidos o risco de ser morto por algum deles por falta de pagamento é muito grande.
·        Acontece que eu tenho amigos fieis e ricos. E são muitos. Também tem Carlos, meu irmão que é garantido. Amigos antigos tenho vários que não deixarão de ajudar-me jamais.
Primeiro faça um relatório o mais preciso possível de todas suas dívidas, com seus colegas de serviço, parentes, financeiras, bancos e etc. para sabermos o montante de suas dividas.
Deveria ter me falado há muito tempo para eu socorrê-lo meu amor. Imagino o quanto tem sofrido.
·        Acho que você não faz ideia dos perrengues que tenho passado.
·        Domingo vamos conseguir dinheiro no sítio de um grande amigo que vamos ao churrasco.
·        Mas não vamos não é no sítio do Roger?
·        Pois é lá mesmo.
·        Não é a esposa ou namorada dele que é sua amiga?
·        É lógico que ela é minha amiga há muitos anos. Desde que começaram namorar ele apresentou-me e ficamos amigas. Eles nunca se casaram, mas é como se fossem marido e mulher. Ela tem um ótimo emprego e mora no Jardim Europa em um belo apartamento de Roger que mora com ela, exceto quando ela tem férias ou feriados prolongados que eles ficam no sítio dele.
·        Mas então ele é quem era seu amigo primeiro?
·        Somos íntimos, desde os tempos de escola.
·        Você namorou-o em alguma época?
·        Sim. Apenas um mês. Desde então sempre fomos só amigos.
·        Antes de seu primeiro casamento já o conhecia?
·        É claro.
·        Você não era novinha quando casou? Foi você mesma quem me contou.
·        Eu tinha vinte anos. Mas, o que tem a ver suas dívidas com meu primeiro casamento, minha amizade ou meu antigo namoro com Roger?
·        Nada. Só curiosidade.
·        Já que quer saber. Conheci Roger quando tinha dez anos. Bem antes de meu primeiro casamento e só o namorei quando tinha pouco mais de dezoito. Éramos apenas bons amigos antes desse único mês e ao terminarmos o namoro voltamos à mesma amizade de antes.
·        Ele foi o seu primeiro?
·        Não tem nada a ver com nossa história, mas se lhe interessa saber, foi sim. Foi ele o meu primeiro homem e foi logo após isso acontecer que rompemos. Fui eu quem não quis mais. Naquela primeira vez não tinha gostado nem um pouco de fazer sexo, por isso rompemos o namoro e continuamos somente amigos.
·        Mas, agora você gosta e muito não é?
·        Só com quem eu realmente amo. No atual momento e espero que para sempre apenas com você, meu doce e delicioso maridinho querido, que eu sinto amor eterno.
·        Você é mesmo minha Deusa. Além de amar-me tanto ainda vai socorrer-me financeiramente.
Sempre me protegeu e é muito prestativa e cuidadosa em minhas doenças. Nada posso negar-lhe por tudo que fez e faz para mim, minha Deusa.
·        É meu jeito de ser. Só fazer o bem para as pessoas. Sempre fiz o mesmo com os três maridos que tive antes de você.
·        Todos três anteriores a mim, também se endividaram assim como eu?
·        Infelizmente sim. Todos foram à falência e sempre fui eu quem os socorreu.
·        Então todos são muito gratos a você, não?
·        Deveriam ser, mas não aconteceu com nenhum deles de mantermos um relacionamento amigável.
·        Porque eles a deixaram sendo você tão carinhosa e caridosa como é?
·        Nenhum deles deixou-me. Fui eu quem sempre terminei os relacionamentos. Acho que é minha sina. Só conseguir homens irresponsáveis. Sempre que eu os socorria com dinheiro emprestado com meus fieis amigos ao invés de eles limparem seus nomes, quitar suas dívidas com bancos, financeiras, seus próprios amigos ou parentes eles nada faziam e sempre solicitava que eu conseguisse mais e mais com meus amigos.
Eles acabavam por não ajudar-me mais e assim eu era obrigada a terminar o casamento, pois no final as dívidas com meus amigos eram responsabilidade minha e eu quem tinha de arcar com os pagamentos.
·        Mas logo no primeiro quando separou se ficou cheia de dívidas com seus amigos, como conseguia novos empréstimos para o segundo e assim por diante?
·        O primeiro morreu antes de nossa separação sem deixar-me nada além das dívidas é claro.
Nessa época estava terminando o inventário dos bens deixados por meus pais que morreram em acidente e meu irmão como já estava em situação financeira muito boa abriu mão de tudo para mim, a recém-órfã de pais, recém-viúva e sozinha no mundo.
Dos apartamentos e casas que os velhos deixaram fui obrigada a vender grande parte para pagar todas as dívidas do primeiro.
·        Mas no caso da morte dele, tais dívidas não seriam cobertas por algum seguro?
·        Nada. Eram calotes mesmo que ele tinha dado em bancos, financeiras, factures, agiotas, ao Roger, à meu irmão e outros amigos meus.
O Carlos e o Roger perdoaram-me tais dividas, mas o restante dos outros amigos não. Eram dívidas de altíssimo valor e só com a venda de vários imóveis consegui pagar tostão por tostão que o safado irresponsável me deixou como herança.
Quando aconteceu a segunda separação foi pior que a primeira, pois ninguém perdoou dívidas. Acabei com tudo que tinha restado de minha herança verdadeira para quitar as dívidas do safado, que desapareceu do mapa. Jamais soube onde ele se meteu, pois ninguém nunca mais o viu.
Após o rompimento do terceiro casamento sofri terrivelmente para quitar os débitos e manter meus amigos preservados. Demorei três anos e com muito trabalho árduo, resgatei todos os cheques e promissórias assinados por ele, mas sob minha responsabilidade, pois fora eu que o apresentara ao pessoal, assim como farei para você. Espero que você seja o último que eu tenha de socorrer.
Na época trabalhei em três empregos. Pela manhã e a tarde dava aulas em uma escola particular infantil, à noite em outra e aos finais de semana em minha casa, a várias crianças horrorosas e burras as quais odeio até hoje.
·        Caramba? Mas você não é enfermeira?
·        Não. Sou professora.
·        Mas eu a conheci como enfermeira, quando estive internado.
·        Quando eu lhe conheci no hospital, eu estava como acompanhante de quarto de um grande amigo, na época. Apenas isso. Já fui vendedora de loja, professora de autoescola, mas enfermeira nunca.
·        Tudo bem. Continue sua história.
·        Com o que ganhei em tais trabalhos paguei até o ultimo centavo que o miserável ficou devendo ao pessoal.
·        Quem são essas pessoas amigas e ricas?
·        Tem meu irmão que obviamente nos conhecemos desde nossos nascimentos, depois veio o Roger, e através dos dois fiquei amiga de vários outros que constituem praticamente a minha turma de inseparáveis.
·        Então todos estarão no churrasco de depois de amanhã?
·        Grande parte deles sim. Praticamente todos.
·        Além de seu irmão e Roger eu conheço mais algum?
·        Todos, pois nas comemorações que fazemos nós nos convidamos reciprocamente e raramente deixamos de estar presentes nas festas de um ou de outro. Aliás, geralmente os festejos são sempre no sítio do Roger por questão de espaço e conforto.
·        Dificilmente passa uma semana sem festa naquele sítio.
·        Pois é. Todos os nossos aniversários, das esposas ou esposos, de novos amigos, novos namorados são feitas lá.
Seu aniversário, por exemplo, que foi comemorado lá, todos meus amigos estavam.
·        Então não são amigos apenas seus. São nossos amigos, pois eu conheço todos os frequentadores do sítio.
·        Agora você corrigiu o erro com o qual iniciara a frase. Você os conhece. Apenas os conheceu porque está meu companheiro e eu o apresentei, mas está longe de serem seus amigos.
·        Você acha que eles não gostam de mim?
·        Não se trata disso. Apenas são seus amigos porque está comigo e caso nos separemos com certeza não o aceitarão entre eles, pois não vão prescindir de minha presença para ter a sua.
Veja meus três maridos anteriores. Está certo que um morreu de doença, porém tem dois que estão por aí e meus amigos não são amigos dele.
·        Mas isso é óbvio. Eles deram calote no pessoal do sitio, por isso é lógico que sumiram do convívio deles.
·        Quando alguém da turma original separa-se do companheiro ou da companheira e o casal continua com amizade, ambos são bem recebidos, mas quando há a necessidade de preservar apenas um sempre será o mais antigo na turma, portanto nunca separe de mim, ou se separarmos continue meu amigo para não perder seus amigos adquiridos através de mim.
oooOooo
Intervenção do autor:
Vou contar-lhes agora mais um trecho escrito no final do livro Inferno e depois revelar-lhes sobre os filhos da jovem senhora idosa, pois tais personagens desde que prometi colocá-los nessa história continuam inquietos e exigentes, pois querem que eu conte suas origens desde o inicio de suas criações e eu considero que o momento já seja oportuno para acrescentá-los.
Parte do final do livro Inferno:
“... Infelizmente para mim esse minúsculo espaço de tempo ainda deu para eu pensar na terrível asneira que cometi desde o início.
Ao saber que o anomalia só completaria sua obra após destruir todos os seus parentes, não me veio em momento algum a lembrança da história que a jovem senhora idosa contou-me no bar, um dia antes de meu sequestro.
Era impossível fazer voltar o tempo, mas era só informar-lhe que ainda existiam vários parentes seus ainda vivos para tudo modificar-se desde o principio e eu continuar vivo até que ele os eliminasse.
A mulher que me procurou era ainda uma adolescente há muitos anos atrás, quando foi iludida, desvirginada e engravidada pelo então namorado José Pereira da Silva, na época ajudante de demolições na Rua Minas Gerais em São Paulo e após abandonada por ele voltou para sua terra natal e lá gerou seus dois filhos gêmeos que hoje são adultos e criminosos da mais alta periculosidade e com muitos filhos cada um que conforme o raciocínio do anomalia transformar-se-iam também em péssimas pessoas, por serem filhos de seu primo Zezinho.
Ao ler meus livros Paraizo e Tempestade tal mulher tomou conhecimento que o José era nada mais nada menos que o Zezinho, filho de Afonso e por esse motivo havia me procurado para que eu conseguisse fazer seus filhos bandidos tornarem-se herdeiros do Professor Zinho, pois sendo seus únicos parentes vivos teriam esse direito.
Sua intenção era de que eles de posse de tanto dinheiro herdado parassem com seus crimes.
Foram as últimas coisas que me lembrei antes de chegar aqui”.
Esclarecendo dúvidas que com certeza ainda ficarão em muitos leitores dessa história, vou aCarlar rapidamente sobre o livro Inferno.
Tal livro é o último da trilogia “Saga dos Pereira da Silva” que começou com “Paraizo” e que se seguiu com “Tempestade”.
Neles eu escrevo a história de uma família de nordestinos que veio para São Paulo.
“Paraizo” conta que toda a família morreu, com exceção de um nenê desaparecido por roubo e de uma adolescente chamada Mercedes que se tornara prostituta na Bahia e também sumida e possivelmente já morta desde aquela época.
Em “Tempestade” reaparece o nenê desaparecido na figura de Tiãozinho, ou Professor Zinho, adulto e bem criado sendo médico e também surge sua prima Mercedes com uma filha, a Doutora Rosa, que era uma mulher de muita maldade e que cometeu vários crimes hediondos, independente de sua esmerada criação e formação universitária. Ela formou-se em psiquiatria.
“Inferno”, o último livro da série, quem comanda todos os crimes e desgraças acontecidos, foi o Anomalia (nome dado por mim, pois nem nome o individuo tinha). Foi o primeiro filho de Mercedes e quando recém nascido levou três tiros que o próprio pai dera. A intenção do homem era matar a amante, mas ela com o nenê recém-nascido nos braços fez dele seu escudo e safou-se com vida, abandonando-o na areia da praia imaginando-o morto, pois ele era tão somente uma massa de carne, sangue e miolos.
Ele estava em seus braços, pois ela dirigia-se ao mar para jogá-lo na água para desfazer-se dele, logo ao nascer.
Esse seria seu destino, mas jamais foi explicado pela ciência como não morreu, embora tivesse levado um dos tiros na cabeça, destruindo grande parte de seu cérebro.
Resumindo ele foi levado a um hospital onde nada puderam fazer para recuperá-lo, entretanto ele foi por si só tendo uma evolução de vida diferente de todos os humanos existentes e viveu.
Ele cresceu totalmente deformado, mas praticamente indestrutível, transformando-se no monstro que disfarçado em gente me sequestrou para escrever-lhe a história, que intitulei de Inferno, que nada mais era que contar como ele existiu e como praticou todos os crimes de sua medonha vida.
Sua única motivação era matar todos os descendentes de seu bisavô conhecido por Zeca Malvadeza, formador da família Pereira da Silva, pois todos sem exceção seriam tão malditos ou piores que seu antecessor.
Ele não, mas eu sabia que ainda existiam aqueles dois filhos gerados pela adolescente que era a continuação de sua origem embora sem o nome Pereira da Silva, entretanto foram fecundados por um legitimo Pereira da Silva.
Quem engravidou a adolescente foi seu primo Zezinho e somente a jovem mãe desgastada pelo sofrimento sabia disso antes de contar-me.
Após ela falar-me eu também fiquei sabendo, portanto éramos apenas nós a sabermos que ainda existiam além dos irmãos gêmeos e seus filhos como legítimos parentes de Zeca Malvadeza, portanto portadores do gene maldito que transforma as pessoas em terríveis pessoas e sanguinários assassinos.
oooOooo
Conforme a narração que ouvi da jovem senhora idosa seus filhos gêmeos nasceram e ela os registrou como Álvaro e Sergio.
Ainda crianças e tão logo lhes despertou a libido, Álvaro, começou usar sexualmente Sergio, que desde bem pequeno já se mostrava atraído por coisas de menina e exatamente ele por ser mais afoito induziu o irmão a tais práticas.
Álvaro sabia que tal atitude não era correta, mas como sua índole era a mesma do irmão aceitou de bom grado usá-lo como mulher.
Começaram assim a trilhar o caminho do mau, ainda bem pequenos.
Acostumados com seus atos pervertidos e incestuosos certa vez foram surpreendidos por seus avós maternos e só não foram devidamente punidos, pois fugiram.
Como a mãe estava fora trabalhando mataram ambos os velhos colocando sorrateiramente soda caustica na comida deles antes que eles pudessem punir ou orientar os netos e a mãe dos meninos nada ficou sabendo.
Nunca se soube exatamente como aconteceu o envenenamento dos velhos.
A jovem mãe começou desconfiar apenas um ano depois, quando uma vizinha que morava sozinha morreu da mesma maneira, também tido como acidente doméstico, ou fatalidade, pois nessa época todas as famílias tinham tais venenos assim como outros em suas casas, para matar ratos, animais peçonhentos, etc., pois sua aquisição era totalmente liberada no Brasil e incidentes como esses infelizmente eram bem comuns acontecerem.
Não somente ela sabia que sua vizinha e amiga tinha dinheiro guardado e em qual local da casa, pois eram confidentes e como as crianças eram pequenas era-lhes permitido ouvirem suas conversas.
Como se lembrou de que o pouco dinheiro de seus pais também havia desaparecido por ocasião de suas mortes, tidas como descuido caseiro, foi à casa da vizinha verificar e descobriu que também a pequena economia dela tinha sumido.
Só ela e seus pequenos filhos tinham conhecimento de onde encontrar o dinheiro guardado tanto por seus pais quanto por sua amiga e por isso, concluiu que tais mortes foram premeditadas pelos meninos para roubarem tais economias.
O sofrimento dessa mãe começou nesse momento, pois não podia entregar as crianças ainda com onze anos à polícia e tão pouco falar com elas, pois seu pavor sobre a índole dos meninos quase a enfartou.
Sabia que o dinheiro roubado era bem pouco, assim como o que pegaram de seu pai concluindo que por ínfimas importâncias eles matavam violentamente sem a mínima piedade.
Passou a temer suas crianças com imenso pavor.
Não poderia correr riscos de ter o mesmo fim, por isso calou-se, tentando com orientação religiosa e bons conselhos desviar-lhes do caminho do mau, sem jamais deixá-los notar sua desconfiança, ou melhor, sua certeza.
Meses se passaram e nada adiantava seus ensinamentos, pois eles agora aliados a um amigo de quinze anos e tão mau elemento quanto eles começaram ausentar-se do lugarejo onde moravam e nessas ocasiões soube-se de vários estupros ocorridos com garotas na zona rural além de roubos com mortes em varias casas dos sítios adjacentes.
Sergio definitivamente não gostava da pratica sexual hétero, mas mesmo assim a praticava, com o único intuito de ser perverso e abusar sexualmente das jovens indefesas, só para vê-las sofrerem aos seus desrespeitos forçados. 
Ao mesmo tempo em que servia como mulher ao irmão e ao amigo Sandro, assim como eles engravidou algumas moças da região quando de seus abusos às garotas desprotegidas que violentavam, o que sem dúvida iria deixando seus genes malditos sendo disseminados.
Com o passar do tempo e usando sua maldade em outros crimes mais hediondos abandonou totalmente essa pratica, tornando se apenas homossexual.
Alguns anos depois quando os irmãos tinham dezesseis anos e Sandro dezenove decidiram mudar do interior de Minas, pois muita gente desconfiava do trio de desonestos que sendo filhos de pobres sempre tinham dinheiro para bebidas, farras e drogas.
Roubaram todas as economias da jovem senhora idosa e da também mãe solteira de Sandro, mas na casa desta foram pegos em fragrante por ela e não titubearam em assassiná-la a machadadas.
O lugarejo onde moravam não tinha delegacia de polícia e nenhum carro que pudesse ser utilizado na busca dos assassinos, por isso eles desapareceram dessa região para sempre.
Dois dias depois já bastante afastados do local e em outro vilarejo conseguiram carona em um caminhão de carga, pois o motorista não se assustando com três adolescentes bastante jovens combinou que além da viagem gratuita para São Paulo pagaria suas alimentações e eles em troca descarregariam seu caminhão na capital paulista.
Era uma boa troca de favores, pois os jovens teriam viagem e comida, e o motorista teria companhia que assustaria possíveis saqueadores de estrada, além de ter gastos bem menores que se tivesse de contratar chapas na capital paulista para o desembarque de sua carga.
oooOooo
A jovem mãe dos meninos assassinos, desta vez realmente enfartou e foi encaminhada a um hospital de uma grande cidade de Minas e ao recuperar-se, felizmente sem nenhuma sequela, decidiu ficar morando lá mesmo trabalhando como doméstica.
Conseguiu emprego na residência do casal de médicos que a socorreu, Dr. Mauro Nakeda e Dra. Lúcia Aparecida, por sinal sua xará, pois seu nome também era Lúcia Aparecida.
Pensando que abandonando seu humilde casebre, sua vida anterior também ficaria lá e desapareceria de seus pensamentos com o passar do tempo.
Se isso não fosse possível trancaria tais recordações eternamente no mais profundo abismo de seu inconsciente, para ter outra vida dali para diante junto à família que a acolheu. Seu segredo seria guardado até sua morte.
Com o passar de vários anos permaneceu na mesma casa trabalhando como babá dos filhos do casal e conforme oportunidade oferecida pela patroa ampliou em uma escola noturna seus parcos estudos, melhorando-os e adquirindo um pouco de conhecimento e cultura.
Ela também estava bastante mudada em suas atitudes cotidianas, pois aprendera muita coisa com Doutora Lúcia.
Mesmo assim vivia uma vida vazia sem nenhuma expectativa tentando de todas as formas desvencilhar-se de seu passado que insistia em não a abandonar em suas eternas e constantes noites de insônia. Não havia uma só noite que dormia tranquila, pois seus pensamentos relacionados aos filhos a impediam, pois não a abandonaram conforme imaginou.
Seus pesadelos jamais a deixaram em paz por isso passou a alimentar a esperança em encontrá-los e tentar suas recuperações, mas não tinha a mínima ideia de onde eles poderiam estar se ainda estivessem vivos.
A família dos médicos decidiu mudar-se para São Paulo por motivos profissionais e pretendiam levá-la e no dia em que a convidaram, sentiu-se imensamente feliz e ao dormir nessa noite não teve nenhum sonho alvissareiro, mas para sua felicidade ao acordar não recordou de nenhum pesadelo que era uma constante em todo esse tempo.
A patroa notou sua alegria durante o dia inteiro e lhe perguntou se era por ir morar em São Paulo que a fez feliz e com o sorriso enigmático, parecido com o da Senhora Lisa Gherardini, mulher de Francesco del Giocondo.
   Quem é essa senhora, patroa?
   Foi a modelo que posou para Leonardo da Vince no ano de 1503.
   Nossa. E ela existe até hoje?
   Ela não. É lógico, mas a pintura sim. Já foi roubada. Também foi danificada, pois jogaram ácido nela, mas foi recuperada e existe até hoje como sendo a obra de arte mais cara do mundo.
   Nossa!
   Pois é. É conhecido por vários nomes, mas os mais populares são A Gioconda, Mona Lisa e Mona Lisa del Giocondo.
   A senhora está me comparando a Mona Lisa? Por quê?
   Pelo seu sorriso meio sem graça como o dela na obra.
   A senhora sabe tantas coisas. Aprendeu muito.
   Se você continuar esforçada como é aprenderá bastante em São Paulo, pois as escolas de lá são bem melhores que as daqui.
   Já tenho aprendido bastante aqui mesmo. Sei inclusive quem foi Leonardo da Vince. Sei que foi um grande pintor, escultor, inventor e pensador italiano. Que pintou o quadro Mona Lisa, o teto da Capela Sistina, a última ceia. Fez as esculturas de David, de Moisés e projetou o submarino, o helicóptero, o salva-vidas, o paraquedas, a bicicleta, além de ter escrito o livro Código Da Vince, mas Mona Lisa com o tal nome de Lisa Gherardini, que a senhora falou eu nunca tinha ouvido falar.
   É certo que você já aprendeu muita coisa, mas está misturando obras dele com as de Michelangelo, que viveu na mesma época e foi tão bom ou melhor que ele e com o escritor contemporâneo Dan Brown.
   O que eu errei?
   Pesquise na internet e depois você me conta o que errou. Está bem?
   Estou aprendendo aos poucos e ainda faço confusões.
   Mudando de assunto. Você está feliz com nossa mudança porque está com esperança de arrumar um casamento em São Paulo, não é? Afinal de contas só tem trinta e poucos anos de idade e é sozinha na vida. Precisa casar e ter filhos, para cuidarem de você em sua velhice.
A resposta foi apenas um “nada disso” e não falou mais nada, pois seu segredo jamais deveria ser revelado a ninguém. Não falou que já havia morado em São Paulo, quando era apenas uma adolescente de treze anos e que fora lá que engravidara de seus filhos que a patroa jamais soube e nunca saberia da existência.
Ela própria não sabia o porquê da felicidade repentina e imaginou ser sua intuição que a fazia imaginar que lá encontraria seus meninos e os socorreria.
oooOooo
Em uma parada na estrada para alimentação, Sergio saiu rápido do caminhão para ir ao banheiro se limpar, pois durante toda a viagem viera fazendo sexo com o irmão e o amigo dentro do caminhão, pois a propósito disso ele só viajava na caçamba. Enquanto um fazia sexo com ele o outro ficava em companhia do motorista e depois revezavam.
Durante o tempo em que estava dentro do sanitário, percebeu a entrada de dois homens que chegaram após ele, para urinar e lavar as mãos, julgando estarem sós.
Por uma pequena fresta que tinha na porta do sanitário que Sergio usava ele os olhou para ver-lhes os tamanhos dos membros para ir abocanhá-los, entretanto aquietou-se onde estava ao ouvir o que conversavam. Ficou totalmente quieto e interessado no que escutava deles, que foi:
·        Alfredo. Reparou naquele caminhão azul que está encostado à bomba para abastecer. É o que saiu de Belo Horizonte e está indo para São Paulo e é dele que devemos roubar a carga. Na semana passada Souza passou em minha casa em Aparecida, quando ia para Belo Horizonte e pagou-me adiantado seis mil reais para que nós o interceptássemos e o levássemos com o motorista dominado e amarrado para o esconderijo em Guarulhos que ele já estaria lá esperando.
Dois dias depois, aquele alemão branquelo e bravo como quase todos de sua origem, telefonou de Belo Horizonte em minha casa em Aparecida dando-me a descrição do caminhão inclusive o numero da placa, além do dia e horário mais ou menos que deveria passar por aqui onde deveríamos esperá-lo para mais a frente, já próximo a Guarulhos fazermos o serviço e tudo está conferindo.
Qual sua ideia para nos apossarmos dele? 
·        Como sempre. Vamos com nossa moto acompanhando-o e perto de Guarulhos nós o alcançaremos e obrigaremos o condutor parar e tomamos seu caminhão.
·        Isso seria o normal, mas o problema é que o motorista não está só, pois o vi chegando com mais três que desceram primeiro logo na entrada do posto. Será impossível para nós termos de dominar quatro. Somos apenas dois.
·        Você sabe João, que o chefe é foda e não aceita erros.
·        Aquele alemão grandalhão filho da puta é realmente um tirano e não dá mole.
·        Como vamos resolver esse problema?
·        Não sei. Souza não aceita que ninguém faça nada diferente do que ele manda, mas nesse caso estamos em uma enrascada. Teremos antes que falar com ele, pois será bastante difícil dominarmos quatro homens.
·        Não acho que seja bastante difícil. Será impossível.
·        Pois é. O que devemos fazer?
·        Porque você não liga no celular dele que você tem para emergências?
·        Porque é só em caso de vida ou morte dele. Não me permite telefonar-lhe para mais nada, para nunca ser rastreado pela telefônica.
·        Então vamos de moto para Guarulhos falar com ele que ficou impossível tal abordagem. Ou ele manda mais gente de lá do depósito voltar conosco, ou se for o caso a gente devolve a grana que ainda está toda com você. Que acha?
·        É a única coisa que podemos fazer. Se não der certo de voltarmos com outros ficaremos sem o dinheiro por não termos cumprido o combinado, pois acho que assim a bronca será menor. Ele irá compreender que seria impossível apenas nós dominarmos os quatro que estão no caminhão.
·        Vamos almoçar primeiro, depois a gente corre pra lá para saber o que fazer, pois dá muito tempo de irmos e voltarmos com outros e ainda encontrarmos o caminhão na estrada. 
A dupla saiu do sanitário sem imaginarem que foram vistos e ouvidos.
Sergio reuniu-se com seus amigos, contando-lhes rapidamente tudo que ouviu e propôs seu plano para conseguir roubar os seis mil reais que eles tinham. Coisa que jamais conseguiram em nenhum de seus roubos e assaltos anteriores.
Primeiro ele aproximou-se do condutor do caminhão que estava sentado na parte de rodízio de carnes, e solicitou dele que lhe entregasse o dinheiro correspondente as refeições deles, pois as fariam no local do self service para que lhes sobrasse algum troco, pois nada tinham.
Conseguindo o dinheiro procuraram pelos saqueadores e se assentaram em sua mesa e embora Sandro por ser mais velho e maior fosse o mais indicado para conversar com os bandidos, tal tarefa ficou para Sergio.
Mesmo ele sendo afeminado, pois nitidamente demonstrava total vocação para ser mulher, passou a ser o mais indicado, pois além do plano ter sido dele ele viu muito bem tais homens pelo vão da porta do sanitário, sabendo exatamente quem era quem e quem falara o que, na conversa escutada.
Olhando sério para João ele falou com sua voz de mulher:
·        Vocês já sabem que os planos mudaram.
·        Quem são vocês?
·        O chefe não lhes telefonou?
·        Primeiro respondam-me quem são vocês?
·        Se não sabem quem somos é porque ele não conseguiu falar com vocês, portanto prestem atenção ao que eu tenho a falar.
Somos da equipe do Souza e trabalhamos para ele em Minas e no Rio de Janeiro.
·        Por acaso são policiais tentando descobrir alguma coisa?
·        Temos cara de tiras? Eu além de ser gay e meu irmão aqui temos quatorze anos e meu amigo dezesseis. Poderíamos ser meganhas? Deixa de ser burro João e me ouça com atenção.
Mentiu, diminuindo um pouco suas idades e com sua voz afeminada, porém com atitudes bastante agressivas contrastando com sua fala, continuou falando olhando energicamente primeiro para João e depois para Alfredo que tentou falar alguma coisa.
·        Cale a boca e escute sem interrupções você também Alfredo. Fiquem calados e ouçam o que tenho a dizer, pois são as novas ordens do chefe.
·        Como você sabe quem somos?
·        Já disse para calarem a boca e ouvirem. São novas resoluções do Souza, que trouxemos para vocês cumprirem sem discussão.
Quando ele estava em Belo Horizonte e nós também, procurou-nos, pois teve a ideia de nos apresentarmos ao Pedro que é o motorista do caminhão e apenas em troca da comida e carona até São Paulo oferecêssemos como ajudantes dele, para carregar e descarregar a carga na chegada.
Exatamente por sermos jovens não lhe assustaríamos e até serviríamos de companhia na viagem, pois ele mesquinho como quase todos os caminhoneiros aceitaria para fazer economia não tendo de pagar chapas que cobram caro em São Paulo.
Disse-nos que é para nós continuarmos com ele até próximo a Guarulhos, com vocês seguindo-nos a distancia de uns cinco a seis quilômetros para nos dar tempo de o dominarmos quando for o momento certo que como sempre é próximo de Guarulhos onde fica o nosso depósito.
Deveremos dominá-lo e deixá-lo bem amarrado na cabine do caminhão parado no acostamento, com a chave no contato para vocês chegarem devagar e conduzir o veículo até o depósito.
Após fazermos nossa parte sumiremos em seguida, pois temos de ir rápido para o Rio de Janeiro onde temos outro serviço bem mais importante que esse para fazer.
Uma das coisas que muda no plano é que quem deve dominar o motorista somos nós e não vocês. Fica muito mais fácil para vocês que apenas assumirão o comando do veículo até o deposito. Até aqui está entendido?
·        Porque o Souza, aquele baixinho e negrão de merda, não falou nada disso com a gente? Bastaria me telefonar em casa, ou em meu celular.
·        Deixa de ser besta seu idiota. O Souza não é negro. Até pelo contrário. Ele é branquelão e alto de origem alemã. Pensou que me pegaria achando que eu não o conheço? São ordens dele e vocês pagarão caro se não cumprirem conforme ele determinou. Se ele não os avisou, talvez tenha sido porque quando ele teve a nova ideia tinha de aguardar nosso contato com o motorista para saber se ia colar nossa carona ou não e como tudo só deu certo quase na hora do caminhão partir, avisamos-lhe ainda em BH. Como ele tinha de vir na frente para aguardar em Guarulhos veio rápido e nos disse que iria ligar para você João “Mula” quando chegasse lá para avisá-lo da mudança de planos e dar-lhe nossa descrição detalhada para vocês entrarem em contato conosco aqui onde esperariam pelo caminhão.
Deve ter telefonado, mas com certeza não o encontrou mais em Aparecida do Norte e seu maldito celular ou estava descarregado ou fora de área.
Esses inconvenientes já eram previstos e ele iria correr esse risco por isso lá em Belo Horizonte mesmo já tinha nos dado a completa descrição de vocês, para que soubéssemos exatamente quem são, seus nomes, onde estariam e o que fariam. Ficou ainda alguma dúvida seus babacas?
·        Acho que não. Tudo que você falou confere com o que deveríamos fazer.
Quem falou foi Alfredo que olhando para seu comparsa percebeu sua confirmação de que deveria estar certo, pois tudo que foi dito pelo jovem fazia sentido e eles realmente sabiam tudo sobre eles, o roubo da carga, o depósito escondido em Guarulhos e principalmente sobre o chefe Souza.
·        Só falta mais um pequeno detalhe, Joãozinho. Como nós vamos precisar dez mil reais no Rio, Souza mandou-me pegar com você...
Sergio interrompeu o que falava para tossir.
·        Mas é impossível. Ele não me deu dez mil.
·        Eu ainda estava falando e você me cortou enquanto eu tossia seu intrometido. Ele mandou-me pegar com você os seis mil, pois já tinha nos dado quatro.
Mandou-nos avisá-los que em Guarulhos quando entregaram o caminhão com a carga ele lhes restituirá os seus seis mil reais.
Tudo bem? Passe-me a grana logo, pois estou vendo que o Pedro já acabou de comer e está levantando da mesa.
Ele deverá seguir viagem em seguida e não queremos que ele nos veja conversando com vocês, pois pode desconfiar de alguma coisa e partir sozinho, ou mesmo não seguir viagem e chamar a polícia para nos interrogar e qualquer uma das atitudes dele fará o plano do Souza ir por água abaixo, por causa de sua demora em acatar as ordens dele.
Sergio havia tentado descobrir se realmente o dinheiro em poder de João era mesmo seis mil reais e usou o artifício totalmente premeditado e bem executado, pois ele cessou o que falava na hora exata para tossir e ser interrompido, para saber se João tinha mais dinheiro do que tinha falado ao companheiro no banheiro.
João ao saber que deveria entregar o dinheiro para o afeminado interlocutor voltou a ficar muito desconfiado e energicamente falou:
·        Não tem importância se ele partir só, pois assim a gente executa o primeiro plano que era para nós mesmos apoderarmos do caminhão.
·        E se ele fizer a outra coisa que é chamar a polícia? Como fica seu idiota? Está bom. Tudo bem. Então fica assim. Vocês façam como quiserem, mas acontece que vou alugar um táxi, para nos levar até Guarulhos para falar com Souza que vocês não nos deram atenção e fizeram conforme suas próprias decisões e não as dele.
Fora a despesa com o taxi para pagar, talvez não tenha o restante do dinheiro para nos dar, além de nos fazer perder um tempão para voltarmos ao Rio, onde possivelmente não conseguiremos realizar o negocio milionário que temos lá, que é muito mais lucrativo que esse caminhão, daí ele decidirá o que fazer com vocês. Já que querem assim, assim será.
Virou-se para o irmão e o amigo e falou-lhes:
·        Como eles não querem cumprir o que Souza determinou vamos contratar um táxi e deixe esses dois imbecis se arrumarem com o poderoso chefão quando chegarem lá sem ter aceitado o plano dois, por ele resolvido. Fizemos direito o que ele mandou e foram essas duas bestas que não quiseram aceitar.
Sergio arriscando-se um pouco, pois imaginou que eles não ousariam, falou para João:
·        Sua última oportunidade de não se dar mal é telefonar para o Souza. Você não tem o numero do celular dele? Ligue e lhe pergunte.
·        Eu tenho o número, mas é proibido ligar para ele. Só em caso de extrema urgência. Praticamente só para salvar-lhe a vida.
Assim falando, João tirou da carteira um cartão com o número exibindo-o.
Sergio rapidamente arrancou o cartão da mão do rapaz, que nesse momento estava amedrontado, dizendo agressivamente:
·        Então ligo eu, seus cagões de merda.
Os dois assaltantes que sabiam que não poderiam nunca discutir ou questionar qualquer plano do chefe violento concordaram em dar o dinheiro e obedecer, com ambos falando ao mesmo tempo:
·        Não precisa telefonar. Não vamos mudar o plano dois do chefe. Tome aqui o dinheiro que o caminhoneiro ainda não foi. Deve ter ido cagar, pois o caminhão ainda está parado no pátio. Estou vendo daqui. Devolva-me o cartão com o numero do telefone de Souza.
·        Não. Vou ficar com ele. Você não tem culhões mesmo para falar com ele. Eu ainda tenho os meus e caso venha a precisar falar com ele ficarei com seu cartão, pois o meu eu perdi e me esqueci de pedir outro.
·        Você também tem o cartão dele?
·        É claro.
·        Não é para todo mundo que ele entrega seu cartão. São apenas os mais importantes do grupo que tem essa regalia.
·        Pois fique sabendo sua besta que estou além de sua categoria, pois a mim é permitido telefonar quando quiser para resolver algum embaraço na hora que aparecer, sem problema algum e não somente em caso de vida ou morte.
Afastou-se levando o dinheiro e o cartão.
Próximo ao banheiro viram que o caminhoneiro estava tirando uma soneca num banco perto dos bebedouros, pois cochilar na boleia do caminhão é coisa para motoristas ingênuos e insensatos, por isso era prudente um pequeno repouso após o almoço para seguir viagem.
O dinheiro estava em um saco plástico e foi dividido pelos amigos em partes iguais dentro do sanitário antes de eles irem se encontrar com o caminhoneiro.
Álvaro perguntou a Sergio:
·        Como saberemos onde obrigar Pedro a parar o caminhão?
·        A estrada é bem sinalizada e quando chegarmos em uma placa indicativa de que faltam uns dez quilômetros para Guarulhos você pede para ele parar no acostamento para urinar. Vocês dois descem que eu dou jeito no cara. De agora em diante eu viajo na cabine com ele e vocês atrás.
·        Não vai precisar de nós para dominá-lo?
·        Claro que não.
·        O que fará?
·        Cortarei a jugular dele e dou mais umas espetadelas no coração e no fígado para ele ficar quietinho jorrando sangue pra todos os lados e daí eu desço e nós sumimos no mato e logo os outros chegarão para tentar fazer a parte deles.
·        Então vai matá-lo?
·        Faz parte de meus planos. Será perfeito. Depois eu conto, pois o homem já está acordando e indo para o caminhão. Vamos encontrá-lo.
Em um determinado local próximo a um lugarejo o caminhão parou para Álvaro e Sandro descerem para urinar e Sergio fez o que se propôs e foi ao encontro dos outros para fugirem.
Já bastante longe do local, mato adentro, ele exibiu aos companheiros um revólver, uma carteira com bastante dinheiro, além da chave do caminhão, que atirou dentro de um córrego.
Às gargalhadas conversaram, com Sandro perguntando:
·        Será que aqueles cretinos terão coragem de fazer ligação direta no veiculo naquele local que mandamos o Pedro parar?
Quem respondeu foi Álvaro.
·        Sei lá. Problema deles. Acredito que não terão peito para isso, pois o lugar é próximo de um povoado com muita gente circulando e com um monte de sangue na cabine escorrendo porta afora. Quando eles chegarem vão é sumir voando de lá, para não serem pegos e até linchados pela população que pensará que foram eles.
Sergio entrou na conversa emitindo sua opinião:
·        Devem fugir para longe em sua moto, pois não irão enfrentar o tal Souza, contando aquela história maluca que eu os fiz acreditar, sem o dinheiro e com o caminhão com aquele presunto ensanguentado para todos verem, filmarem e exibirem nas televisões.
·        Claro que o chefão não entenderia e nem acreditaria em absolutamente nada de tal história e iria dar um sumiço neles rapidinho.
·        Fizemos nossa boa ação, evitando que uma empresa tivesse sua carga roubada.
·        Deveriam nos dar uma recompensa.
·        Vamos pedir?
Ainda brincando e gargalhando pararam, repartiram os nove mil e trezentos reais tirados do defunto e continuaram andando de fazenda em fazenda para bem longe do local, sempre margeando a BR que os levaria à São Paulo, até que Álvaro falou:
·        Já faz mais de quatro horas que estamos andando pelo mato e como em momento algum ninguém nos viu e nem nos conhecem por essas bandas, já podemos voltar a rodovia e pegar um ônibus ou até mesmo um táxi para São Paulo que pelos meus cálculos já deve estar perto.
·        Tem razão, pois paramos a oito quilômetros de Guarulhos, que é colado a São Paulo e provavelmente já andamos essa distância. Já estamos chegando a Guarulhos ou estamos bem próximos e logo deverá chover, pois o céu está escurecendo. É melhor irmos para a BR.
Quem falou desta vez foi Sandro que havia feito essa viagem uma vez tempo antes e sabia da proximidade das duas cidades.
·        Não é perigoso chegarmos assim, bem na toca do leão?
·        Sem problema nenhum Álvaro, pois o tal Souza e sua gang nunca ouviu falar em nós. Somente aqueles dois e pelo que ouvi deles o tal Souza deve ser o demônio e é certo que eles não iriam encontrar-se com ele de jeito nenhum, porque é claro que não assumiriam nenhum risco de conduzirem um veiculo com ligação direta, todo cheio de sangue, inclusive escorrendo pela porta, com um defunto dentro dele.
A história que eles diriam ao alemão seria a mesma que contariam ao capeta quando chegassem ao inferno mandado pelo Souza. Isso se não levarem a polícia junto, pois fatalmente ela já deve ter aparecido no local.
·        Então vamos para estrada.
Tal crime foi comentado em todos os jornais de São Paulo, de Guarulhos, de Belo Horizonte e provavelmente de outros locais do país.
Em Belo Horizonte nada que pudesse esclarecer o mistério foi possível saber, pois o caminhoneiro saíra de lá absolutamente só e ninguém soube que ele dera carona a seus assassinos no meio do caminho.
Na distante localidade em que apanhou os rapazes, possivelmente não foi presenciado por ninguém, ou se foi, todos do lugar, sem acesso a jornais, TV, etc., com certeza não ficaram sabendo do ocorrido na estrada, longe de tal lugar, para poder falar alguma coisa.
No posto de abastecimento onde o motorista parou para almoçar, os caronas desceram logo na entrada, dois encaminhando-se ao bebedouro e o outro ao sanitário, portanto não foram vistos quando o caminhão parou próximo as bombas, apenas com o caminhoneiro.
Pedro conduziu o caminhão sozinho no pátio para ir abastecer e lá vários frentistas que tentaram contribuir com a polícia disseram tê-lo visto, porém sem nenhuma companhia.
No rodízio de carnes do restaurante o encontro entre Pedro e seu assassino foi tão rápido, que nenhum funcionário presenciou o breve diálogo entre eles, ou se presenciaram imaginaram tratar-se apenas de algum jovem conhecido, pois é comum caminhoneiros encontrarem-se rapidamente em tais locais e esse acontecimento não foi mencionado por ninguém.
Se algum cliente os viu naqueles poucos minutos que estiveram conversando na mesa do rodízio, ou não souberam do ocorrido depois, ou mesmo que tenham visto na TV ou nos jornais, apenas comentariam com seus familiares ter estado no mesmo local mais ou menos na hora em que o motorista assassinado também esteve.
Não se lembrariam de nenhuma fisionomia que justificassem suas apresentações como testemunha de nada.
Ao termino do almoço da vitima e dos assassinos, que fora em locais diferentes, encontraram-se rapidamente na saída do restaurante onde o caminhão estava parado e seguiram viagem sem nenhuma testemunha do fato.
Somente João e Alfredo sabiam sobre os jovens, mas deveriam estar muito longe e amedrontados, pois se falassem alguma coisa à polícia, seriam presos e teriam de contar toda a história, envolvendo-se e delatando o chefe que com certeza se vingaria no futuro.
Perto do caminhão na estrada, foi descoberto pela polícia marcas de pneus de moto que parou próximo, sujando-se de sangue já escorrido até a estrada deixando nítidas as marcas ao efetuar a manobra para fazer o caminho de volta. 
A polícia rapidamente descobriu a motocicleta abandonada no meio do mato próximo ao local do crime e consultando seus arquivos localizou a queixa do proprietário dela como tendo sido roubada por assalto a mão armada e junto ao processo havia os retratos falados feitos pelo verdadeiro dono quando do ocorrido que datava de alguns dias antes.
As cópias de tais retratos foram mostradas no posto de combustível da estrada onde o caminhoneiro havia almoçado e foram vários os trabalhadores que reconheceram os dois, alegando terem-nos visto durante muito tempo rondando as bombas sem nada fazer, a não ser, talvez, esperar pelo caminhão cujo motorista fora assassinado.
Teve testemunhas que os viram saindo com a moto pouco depois de um caminhão azul ter deixado o posto rumo à BR.
Esses testemunhos estavam indicando Carlamente quais foram os cruéis assassinos do caminhoneiro e a caçada aos criminosos foi intensificada, até que foram encontrados escondidos nas matas não muito longe do local e a violenta troca de tiros culminou com a morte dos meliantes e assim cumpriu-se a lei, fazendo justiça punindo os criminosos do motorista.
Tudo foi mostrado e explicado em vários programas sensacionalistas da televisão brasileira, e o trio dos verdadeiros assassinos descobriu um novo sistema de cometer crimes e ficarem impunes.
Deveriam aperfeiçoar tais roubos de cargas valiosas, usando cobaias para serem mortas em seus lugares, pois bastava forjarem provas que levassem a eles.
Inicialmente sondaram todos os armazéns em sítios afastados na cidade de Guarulhos, pois como imaginaram o tal Souza e seus comparsas deveriam tê-lo abandonado provisoriamente enquanto as investigações estavam sendo feitas bem próximas.
É óbvio que a polícia vasculhou toda a área a procura de algum lugar cheio de cargas roubadas e nada encontrou.
O trio de criminosos também fez suas investigações e procuraram locais grandes e bem escondidos, preferencialmente vazios sem nenhuma carga roubada e guardada, pois isso os policiais haviam praticamente descartado, pois procuraram algum galpão cheio de objetos roubados.
Localizaram um grande barracão que fora arrombado pela polícia e depois rejeitado, pois se tratava de um local grande e limpo que em breve possivelmente seria usado por uma fábrica ou simplesmente estava para ser alugado.
Deveria ser lá o esconderijo de Souza. O local estava totalmente vazio, porém bem limpo, o que sem dúvida alguma deixava claro à eles e não aos policiais que pelo fato dele ser mantido limpo é por que provavelmente é utilizado.
Para eles era impossível crer que tal construção tão asseada estivesse abandonada como imaginou os investigadores, que estavam tentando encontrar um barracão lotado de carga roubada.
Precisariam descobrir exatamente como aquela quadrilha operava e para isso compraram uma ótima filmadora e um atualizado computador. Todos eles frequentaram um curso rápido para manuseio do micro e roubaram três velhas motocicletas, pois sendo bastante usadas e desgastadas, poderiam modificar-lhes as aparências com pinturas feitas por eles mesmos, no quintal da casa que alugaram bastante afastada de vizinhos em um bairro de Guarulhos.
Provavelmente os donos das motos roubadas nem deram queixa ou se deram elas não seriam encontradas, pois através de suborno registraram com novas cores e novas placas em seus respectivos nomes, totalmente limpos e isentos de qualquer culpa com a polícia e com a justiça.
Feito isso voltaram à região e de longe fiscalizavam o barracão para verificar movimento de gente.
Varias vezes assim procederam em horários diferentes, até que dois meses depois em um dia qualquer Sergio do alto de uma arvore escondido entre suas folhas conseguiu com seu possante binóculos ver o que acontecia lá dentro. Com sua não menos potente filmadora captou e filmou tudo que via através de uma alta janela aberta.
Quatro pessoas conversavam e jogavam cartas em uma mesa.
Não demorou muito a aparecer um caminhão de carga, que também foi filmado entrando no deposito limpo e vazio.
Imediatamente duas pessoas deixaram o veículo e se uniram aos outros que lá estavam e os seis apressadamente descarregaram metade da carga colocando-a em carros menores.
Os veículos pequenos eram quatro vans. Ao termino do trabalho rapidamente três dos carregadores e um que provavelmente era o Souza, pois falava e gesticulava muito, além de ter aparência de alemão, saíram guiando os veículos menores tomando a estrada em direção a BR.
Não houve necessidade de Sergio abandonar seu posto, pois estava posicionado longe da estrada por onde eles passaram.
Logo a seguir outro elemento saiu com o caminhão ainda com parte da carga e também foi para a rodovia.
Um deles permaneceu no armazém lavando e varrendo todas as marcas que por ventura tivesse ficado no chão e terminado sua tarefa saiu de moto, fechou o portão com controle remoto e partiu, deixando o galpão totalmente limpo e vazio.
Pelo celular, Sergio havia telefonado aos seus cúmplices que estavam posicionados próximos a esse desvio avisando-os para que um deles seguisse um comboio de quatro vans e o outro deveria aguardar a passagem do caminhão e verificar o que fariam com ele. Encontrar-se-iam à noite em casa, para todos tomarem conhecimento do que cada um descobriu.
Sergio foi direto para casa transferiu o filme para o computador, fez fotos e imprimiu copias de cada elemento para depois serem procurados por eles.
À noite quando se reuniram todos viram o filme e cada um contou o que descobriu em suas tarefas executadas.
Álvaro que seguiu o comboio das peruas descobriu que elas foram para São Paulo, direto para a rua Vinte e Três de Março. Ficou esperando por mais de meia hora e viu quando elas saíram de uma fabrica e cada van foi para destinos diferentes.
Com certeza foram descarregadas naquele local. Anotou o endereço e seguiu uma das vans e anotou também o endereço onde o carro foi guardado na garagem de uma casa.
Carlos que seguira o caminhão contou que devidamente escondido viu quando o transportador desse o parou engrenado ou freado bem próximo a uma alta ribanceira colocando um calço em uma roda dianteira, para depois voltar para a cabine e deixá-lo em ponto morto, soltando o freio de mão, depois de ter tirado de dentro dele uma possante moto. Em seguida só teve o trabalho de tirar o calço da roda para o caminhão começar andar e cair ladeira abaixo com o motorista dentro.
O participante da quadrilha subiu em sua moto e desapareceu, antes mesmo do veículo espatifar-se lá em baixo e continuou falando:
·        Andando devagar com a moto, olhei para trás e vi perfeitamente o caminhão estraçalhado com o motorista provavelmente destroçado e o restante da carga sendo saqueada pelo pessoal que vivia em um lugarejo próximo.
Foi assim que descobriram como a quadrilha de Souza trabalhava.
O caminhão roubado era levado rapidamente para o galpão esconderijo e grande parte de sua carga transferida para carros pequenos e levada diretamente para o receptador, enquanto um dos assaltantes levava o caminhão de volta para a estrada simulando um acidente. Isso foi feito em um local realmente perigoso da estrada, próximo a uma vila cujos habitantes saqueariam o restante da carga e um último fazia a limpeza para o armazém não ficar com nenhum vestígio de que fora usado.
Quando a polícia chegava em socorro ao acidente encontravam o veiculo destroçado, o motorista morto e a carga saqueada pelos moradores.
Mesmo que recuperassem alguma coisa confirmariam o acidente com carga saqueada pelos moradores próximos ao local da ocorrência.
O trio de criminosos só não descobriu se o motorista era atirado vivo e dopado dentro do veículo para morrer na queda, ou se já estava morto ao despencar do caminhão.
Se fosse atirado vivo havia o pequeno risco de ele não morrer e delatar tudo, e mesmo que morresse, em sua autópsia seria constatado o uso de boa noite Cinderela, que é exatamente o que nenhum motorista usa. Arrebites são as drogas usuais deles na estrada e não o calmante, por isso imaginaram que eles não caiam vivos, e concluíram que ele já deveria ir morto dentro do veículo.
Poderiam matá-los quebrando-lhes o crânio de forma que não sangrasse dentro do caminhão e sua destruição na queda quebrando-lhes mais ossos permitiria o escoamento do sangue, provocado pelo próprio “acidente”.
Tais assassinatos sempre seriam momentos antes de provocarem o desastre com o caminhão, para que a hora da morte constatada na autopsia sempre fosse muito próxima do momento do acidente, não deixando dúvidas aos legistas de diagnosticarem que a morte fora provocada pela queda do caminhão.
As possíveis testemunhas nunca teriam o horário correto, até porque só veriam o ocorrido após ele acontecer e nunca no momento exato do acontecido, pois o cuidado do assassino era exatamente provocá-lo sem testemunhas para garantir a perfeição do crime, por isso a hora do desastre seria sempre mais ou menos a mesma da causa mortis do motorista.
Após descobrirem tudo que a quadrilha de Souza fazia, decidiram mudar totalmente o plano original, que seria entrar em contato com o bando de Souza, fazendo amizade para unirem-se a eles.
Concluíram que seriam apenas empregados do chefe Souza e isso eles não queriam, por isso decidiram que iriam ter seu próprio bando, usando o mesmo procedimento.
O trio bateu palmas pela perfeição do plano utilizado pela quadrilha de Souza e decidiu que iria aplicá-lo, porém nos estados do Espírito Santo e em Minas Gerais onde teriam muito mais locais apropriados para provocarem acidentes com os caminhões porque tais estados apresentavam muito mais pontos de ribanceiras em suas estradas que em São Paulo.
Primeiro precisavam acabar com a quadrilha de Souza delatando-a à polícia. Não que eles fossem amigos da lei. Muito pelo contrário. Eram totalmente contra, mas eram tão perversos que queriam ver a destruição dos outros, pelo simples fato de verem-nos mortos.
Em seu computador, Sergio digitou um texto explicando com poucos detalhes um plano inventado por ele delatando a quadrilha de Souza, com cópias de fotos de todos os participantes.
Identificou-se apenas como sendo um dos comparsas que enraivecido pelos maus tratos do patrão estava denunciando-o e também porque ia embora para o Sergipe onde vivia sua família.
Em um grande envelope sem destinatário e sem remetente colocou em uma caixa de recebimento de correspondência de uma delegacia de polícia em Santos durante a madrugada para não ser visto.
A polícia checando tal delação pegou em fragrante a quadrilha e após violento tiroteio entrou no depósito salvando a vida do verdadeiro motorista, pois conforme a carta anônima todos os assaltados eram mantidos vivos, para depois aparecerem mortos dentro de próprio caminhão vazio abandonado em algum lugar distante de Guarulhos e de São Paulo.
A informação passada à polícia não era exatamente como acontecia os assaltos, pois se Sergio explicasse detalhadamente como acontecia, todo e qualquer acidente daquele dia em diante seria muito bem investigado e atrapalharia seus próprios planos que era de proceder conforme descobrira, aprendera e poria em prática daquele dia em diante. Exatamente conforme o alemão inventara.
Do local escondido entre os galhos da arvore que servia de vigília ao armazém, Sergio e seus amigos a tudo assistiram.
Viram exatamente a posição dos policiais no cerco e a tranquilidade de Souza dentro do depósito aguardando a próxima vítima.
Momentos antes da chegada de um caminhão roubado, Sergio que tinha o numero do celular de Souza telefonou-lhe avisando que eles estavam cercados, inclusive indicando-lhe a colocação estratégia dos homens da lei, evidentemente mentindo-lhe quanto à quantidade dos mesmos, com a premeditada intenção de que eles não se entregassem e se preparassem para a contenda.
Eles não queriam um simples fragrante policial levando os ladrões presos e tão pouco queria que os homens da lei ficassem sem nenhuma baixa.
O plano era para que os policiais fossem pegos de surpresa pelos tiros dos bandidos, mas por serem em número muito maior terminarem vencendo a batalha conforme aconteceu.
Cinco baixas entre os fardados, todos os bandidos mortos e o caminhão e sua carga recuperados assim como o motorista salvo foi o saldo do tiroteio.
Os amigos mudaram-se para Minas Gerais e se instalaram em Confins e lá usaram um sítio abandonado como esconderijo e começaram sua vida de assaltos a caminhões.
No primeiro golpe ficaram com a carga escondida no sítio, pois não tinham veículos para transportarem-na em seguida conforme aprenderam com a quadrilha de Souza, mas após apenas um único assalto de carga valiosa e vendida a receptadores que fizeram o transporte, já lhes foi possível comprar um velho caminhão baú para eles próprios transportarem seu roubo rapidamente.
Após isso se mudaram de cidade para um novo esconderijo, pois esse já era do conhecimento dos primeiros receptadores e eles não podiam confiar em ninguém.
Foram três anos bastante lucrativos, mas com a invenção do GPS e de outros aparelhos que rastreavam veículos por empresas que vendiam tais parafernálias e serviços às transportadoras, tiveram de mudar de ramo, pois essa atividade passou a ser arriscada.
Já tinham bastante dinheiro guardado nesses mais de três anos de atividade ilícita e foi assim que Sergio quando estava com dezenove anos de idade decidiu fazer a cirurgia de mudança de sexo transformando-se definitivamente em mulher.
Conseguiu documentos que o identificavam como sendo Miriam Benetti Croce Brandit. Seu irmão aproveitando o mesmo falsificador passou a ser Carlos Benetti Croce Brandit e o amigo Sandro transformou-se em Roger Stern Silvense.
Voltaram para o estado de São Paulo onde Roger comprou um sítio e todos moravam nele e o antigo Sergio, agora Miriam os servia sexualmente como verdadeira mulher que se transformara.
Miriam investiu o restante de seu dinheiro em aplicações financeiras, o Roger além do sítio adquiriu um apartamento nos jardins e o restante depositou em contas bancárias no exterior.
Carlos aplicara somente em imóveis fora do país e foram levando a vida com golpes aplicados em pessoas geralmente ricas ou com bons empregos e incautas.
Miriam conquistava um homem, amasiando-se ou casando-se com ele e dilapidava suas fortunas, alegando compras inexistentes ou superfaturadas.
Quando seus maridos naufragavam em dívidas ela que previamente já havia apresentado ao irmão e ao amigo, levava-o para com eles conseguir empréstimos a juros altos.
Conseguido tais favores ela própria desviava a maior parte do recebido aplicando-o para si e gastava o restante para obrigar o marido a novos empréstimos.
Formaram uma grande quadrilha, contando com a participação de outras mulheres tão safadas e vadias como ela e homens com perfis de boas pessoas, porém inescrupulosos, além de vigilantes para o sitio, que era o local para suas transações financeiras e assassinatos de maridos das esposas carinhosas, quando esses não morriam por doenças plantadas por elas.
Alguns deles se matavam desesperados por não conseguirem se livrar de suas iludidas irresponsabilidades administrativa financeira, ou morriam por várias doenças causadas pelo aborrecimento por suas situações irrecuperáveis, sempre auxiliados pelas amorosas companheiras.
Elas lhes forneciam remédios errados, ou os envenenavam lentamente administrando-lhes ano após ano pequeninas doses de substancias nocivas a saúde que não apareceriam em nenhuma autópsia.
Geralmente Miriam ou outras mulheres da quadrilha, sempre apaixonadas e amantíssimas esposas de seus companheiros, escolhidos por elas pela riqueza que possuíam ou pelos altos salários, participavam dessas mortes sem deixar vestígios do crime.
No sítio de Roger tinham vários empregados muito bem remunerados que se passavam por amigos ricos para participarem das inúmeras festas que aconteciam frequentemente, mas não passavam de pessoas contratadas e eram cúmplices nos golpes aplicados.
Geralmente os homens, entre os quais tinham médicos e enfermeiros que se apresentavam como amigos com a finalidade de arrumarem além de doenças, dinheiro emprestado aos maridos já falidos trazidos por Miriam e pelas outras esposas às constantes festas.
Geralmente os maridos arruinados conseguiam empréstimos e lá mesmo os perdia integralmente ou grande parte dele, pois durante as festas havia jogos de baralho roubado pelo próprio pessoal do sítio.
oooOooo
Nova intervenção do autor:
A jovem senhora idosa, totalmente ao acaso, tinha descoberto tudo isso quando veio para São Paulo e foi parte do que me contou no dia anterior ao meu sequestro.
Ela estava fazendo compras em um hipermercado e reconheceu entre os clientes da loja, Sandro que atualmente atendia por Roger.
Cautelosamente aproximou-se e verificou que ele não estava lá como cliente, e sim como namorado de uma funcionária do estabelecimento.
Escondeu-se e esperou muito tempo até que finalmente viu a saída dele após ter brigado com a namorada, pois saiu apressado, gesticulando e falando alto deixando-a chorando após estapeá-la.
De onde estava viu-o entrar em um bonito e valioso carro e sair em alta velocidade cantando os pneus. Não foi difícil aproximar-se da moça após tal fato.
A jovem senhora idosa foi consolar a moça e perguntou-lhe:
·        O que foi que houve com o Sandro para ele brigar tanto com você a ponto de dar-lhe uma bofetada?
·        A senhora o conhece?
·        Sim. De Minas Gerais.
·        Afinal o nome dele é Sandro ou Roger?
·        Eu o conheço por Sandro, por quê?
·        Ele se aproximou de mim, aqui mesmo há alguns meses e apresentou-se como Roger. Naquele mesmo dia fomos a uma boate e eu acabei indo com ele hospedar-se em um hotel e lá ele preencheu a ficha e exibiu sua identidade e seu nome era Roger Stern Silvense.
·        Então se é Roger, eu o confundi com outra pessoa, mas sua pergunta querendo saber se o nome é Roger ou Sandro, pareceu-me que você tinha dúvidas.
·        Acontece que ele apresentou-me um amigo que veio do interior com ele e no meio da conversa o Carlos o chamou de Sandro, mas logo corrigiu para Roger. Deu-me a impressão que eles estavam ainda se acostumando tratar-se por nomes novos.
·        Como assim?
·        Nessa mesma conversa Roger também gaguejou ao falar o nome do amigo. Chegou a falar uma sílaba que me lembro muito bem ter sido Al, e depois mudou para Carlos. Tive impressão que ele iria chamá-lo de Alberto, Álvaro, Alfredo ou Augusto. Algum nome começado por Al ou Au.
Em outro encontro foi o Carlos que confundiu o nome da própria irmã chamando-a de Sergio.
Vê se pode. Chamar uma mulher com nome de homem. Depois corrigiu rapidinho para Miriam.
·        Então se aconteceu tudo isso não fiz confusão nenhuma, pois esse cara que lhe fez chorar é realmente Sandro e os outros são Álvaro e Sergio. São eles mesmos. Tenho certeza.
·        São eles quem?
·        Você gosta muito desse rapaz e confia nele?
·        Pelo contrário. No dia em que o conheci fiquei entusiasmada, mas com o passar do tempo fui desgostando dele.  Atualmente eu não gosto nada dele e muito menos confio nele. Ele é quem vive dando em cima de mim, mas eu estou tentando dar um tempo. Ele é quem não desiste.
Quando nos conhecemos ele me proporcionou uma noitada maravilhosa e acabei indo com ele para um hotel como já disse, logo na primeira noite, mas depois conforme fui conhecendo-o só penso em sair fora dele, mas ele fica bravo e discute e não está querendo aceitar nossa separação. Estou caminhando devagar, pois tenho medo de alguma represália mais séria, pois até bater-me ela já faz quando eu falo em separação.
·        Então temos muita coisa a conversar sobre ele e os outros.
·        A senhora tem certeza de conhecê-lo?
·        Tenho certeza sim e é realmente urgente que saiba tudo sobre ele e os outros. Os seus amigos são irmãos e são gêmeos não são?
·        Sim. O Carlos e a Miriam. São parecidíssimos.
·        Então agora que confirmou isso passei a ter absoluta certeza de conhecê-los e tornou-se muito importante você saber sobre muita coisa, pois você corre um grande perigo.
·        Eu realmente tenho muito medo dele e é por isso que não o abandonei ainda.
Dá para esperar meia horinha, pois meu expediente já vai encerrar e poderemos conversar com tranquilidade na praça de alimentação.
·        Certo. Vou aproveitar esse tempo para comprar o que vim buscar e telefonar para casa avisando que vou atrasar para podermos ficar a vontade.
·        Mora longe daqui?
·        Não. É bem perto.
·        Qual é o seu endereço?
·        É Alameda Santos numero...
·        Casa ou edifício?
·        Casa térrea.
·        Mora bem. A casa é sua?
·        Não. Sou empregada doméstica. Somos duas. Eu e Dona Rute que é diarista. Ela só vai duas vezes por semana. Tem semanas que vai três vezes fazer faxina na casa de meus patrões.
·        Como é mesmo seu nome? Não me lembro quando falou.
·        Acho que nem cheguei a apresentar-me. Chamo Lúcia.
·        Prazer. Eu sou Carla.
Após o telefonema Lúcia fez suas compras e tornou encontrar-se com Carla e enquanto lanchavam no restaurante, a funcionária do hipermercado ouviu calada e assustada o que Lúcia, mãe dos gêmeos lhe contou.
Ficou sabendo exatamente tudo sobre Sandro e os irmãos gêmeos Álvaro e Sergio, até o dia em que fugiram da vila no interior de Minas quando a roubaram e mataram a mãe do Sandro que os pegou em fragrante roubando-a.
·        Não é possível?
·        Sou a mãe dos gêmeos e sei o que estou falando. Quando os meninos tinham onze anos já haviam matado meus pais e depois uma vizinha nossa.
·        Mas um dos gêmeos é homem e a outra é mulher. Como pode ser isso? A senhora deve estar fazendo confusão. Não são os seus filhos.
·        O amigo deles, que atualmente atende por Roger eu tenho certeza ser o mesmo Sandro que conheci. Quando você disse que os gêmeos, um era Carlos e confundiu a irmã Miriam chamando-a de Sergio, passei a suspeitar serem eles sim, pois Serginho desde criancinha gostava de coisas de menina. Quando ainda era menino já virou bicha e inclusive soube que ele se dava de mulher tanto ao irmão Álvaro quanto ao amigo Sandro.
Com certeza ele se veste de mulher por que resolveu adotar sua identidade feminina.
·        Então se de fato forem eles são criminosos muito cruéis, mas a tal Miriam é mulher de verdade e não homem transvestido de mulher.
·        Como sabe isso?
·        Porque ela é inclusive casada com Tadeu, além de já ter sido casada antes com outros homens.
·        Não pode ser que ele tenha feito operação de mudança de sexo?
·        Isso até pode ser, pois filhos ela nunca teve com nenhum dos maridos anteriores e nem com o atual.
·        Ajude-me encontrá-los.
·        Qual o interesse que a senhora tem depois de tantos anos?
·        Pode ter certeza que vou consertar suas vidas, pois descobri que recentemente morreu um professor riquíssimo e eles são primos legítimos desse professor. Vou conseguir através do escritor que sabe de toda história e provar isso. Depois que eles herdarem muito dinheiro deixarão a vida de crimes, se é que ainda sejam bandidos, pois não sei de nada sobre eles nesses últimos anos. Desde quando fugiram do interior de Minas nunca mais ouvi falar deles.
·        Eu não sei se eles são criminosos, mas não trabalham como todas as pessoas e têm bastante dinheiro. O Roger tem um belo carro e diz ter um apartamento em São Paulo e vários no exterior, além de um lindo sítio onde eu até já fui a uma festa.
Tanto o Carlos quanto a Miriam tem um carrão cada um, além de muito dinheiro aplicado, pois o Roger me falou.
Se eles nada tinham alguns anos atrás como poderiam estar tão ricos? Ou ganharam na loteria ou roubaram.
Pelo que a senhora está contando é mais possível que seja dinheiro sujo mesmo, pois o Roger já me deu um golpe, de dezoito mil reais.
·        Como foi?
·        Fez uma compra aqui no hiper de coisas caras logo na primeira semana que estávamos juntos e eu boba autorizei a compra em meu nome para ser descontado em meu pagamento e já venceram as parcelas e nada de ele pagar-me. Diz que está em dificuldade e quando estiver melhor ele me reembolsará.
Está na cara que não vai pagar-me nunca. Aliás, deve estar apenas usando meu corpo até quando arrumar outra para então me descartar, mas como eu me aborreci antes e eu quem estou querendo sair fora, ele até já me ameaçou.
Não disse Carlamente o que fará se eu o largar, mas falou que eu sofreria as consequências se abandoná-lo. O que isso queria dizer eu não sabia até agora pouco, mas depois de conversar consigo já tenho ideia do que seja.
·        Infelizmente tudo que lhe falei é verdade, e eu preciso encontrar meus filhos, mas tem de ser com muita cautela, pois para eles me matarem nada custa, assim como já fizeram com os outros que eu já lhe falei.
Se eles estão tão cheios de dinheiro como você disse só pode ser dinheiro roubado, pois se não tinham absolutamente nada e o que roubaram meu e da mãe do Sandro foi tão pouco, como arrumariam dinheiro sem trabalhar?
·        Vou tomar cuidado não só com Roger, mas também com Miriam e com Carlos.
·        É melhor você não discutir com ele, pois corre muito perigo se ele já a ameaçou.
·        Nesse caso vou fingir que estou numa boa com ele até a senhora falar com essa pessoa influente e resolver a situação deles, daí eu caio fora.
Peço transferência para outro estado e fico longe desse pessoal.
·        Bem pensado.
·        Alguém mais sabe de toda essa história?
·        Ninguém. Jamais falei que tive filhos desde que sai do interior de Minas e mesmo lá os únicos que me conheciam e sabiam da existência dos meninos eram meus pais e minha vizinha, que foram mortos exatamente por eles. Você é a primeira e talvez a única pessoa que ficará sabendo de toda minha história.
·        A única não. Não vai contar tudo para o escritor?
·        Tem razão. Ele também saberá, mas após ele tomar conhecimento da existência deles e conseguir-lhes a herança, todas as discórdias e crimes acabarão. Será o final feliz para mim e para os meus meninos.
·        Quando a senhora fará o contato com o homem que falou?
·        Ainda vou ter de procura-lo, mas assim que encontra-lo vou marcar o mais rápido possível nossa conversa, para eu contar-lhe tudo o que já sabia sobre meus filhos e mais o que me falou sobre eles.
·        Então ainda não teve nenhum contato com ele?
·        Não. Ainda não, mas tenho certeza que ele me ouvirá, pois é um escritor e já escreveu dois livros sobre a família deles. Creio que ele gostará de saber quem eu sou e sobre meus filhos.
·        Mas como sabe que eles são herdeiros do tal professor rico que morreu?
·        Porque eu li em um dos livros que o Professor Zinho falecido recentemente de forma trágica em um acidente era o último dos descendentes dos Ferreira da Silva que vieram do Ceará.
·        Eu vi na TV sobre a morte desse professor, mas que escritor é esse que escreve sobre sua família?
·        Parece-me que a primeira história foi escrita pelo próprio Tião, tio de Zezinho, que me engravidou dos gêmeos.
No livro fala que os rascunhos de Tião acabaram caindo nas mãos do tal escritor que o editou.
No segundo livro que foi escrito pelo próprio escritor, apareceu o professor Zinho, filho de Tião que desaparecera quando bebê e se essas histórias forem verdadeiras esse professor, que era médico e também advogado, com certeza era primo de Zezinho, pai de meus filhos gêmeos, portanto primo em segundo grau deles, e como não tem mais nenhum Pereira da Silva vivo oriundo daquela família, meus filhos serão seus legítimos herdeiros.
·        Esse tal professor Zinho realmente existiu, pois eu vi na TV e li nos jornais sobre o acidente em que morreu. Pelo que foi dito nos noticiários ele deixou uma fortuna sem herdeiros, pois seus pais de criação, seus tios e outros parentes agregados são tão ricos quanto ele ou mais.
·        É por isso que preciso falar com o escritor e saber de toda a verdade sobre os Pereira da Silva e contar-lhe sobre meus filhos.
·        Conhece o escritor?
·        Não. Ele se identifica como Velho Gordo careca e de barbicha branca. Seus livros chamam-se A saga da família Pereira da Silva. São dois volumes. Um é “Paraizo” e o outro “Tempestade”.
·        Como sabe da riqueza que o primo de seus filhos deixou? Pelos livros?
·        Pois é. A fortuna dele é incalculável e por isso tenho certeza que o escritor sabendo sobre os meninos me ajudará, pois ele será muito bem recompensado para isso, se realmente as historias anteriores forem verídicas.
·        Mas se você não sabia nada sobre os meninos, porque iria procurar esse homem?
·        Minha intenção era contar-lhe apenas o que eu sabia e deixar por conta dele encontrá-los, pois na verdade eu nem sequer sabia que eles estavam vivos e morando aqui. Apenas desconfiava, mas agora eu tenho certeza.
Dá-me o endereço deles para eu passar ao escritor, para ele procurá-los.
·        Eu só conheço o sítio do Roger. É em Guarulhos, mas nem sei ir lá. Na única vez que estive lá, fui levada por ele, mas em nosso próximo encontro, vou procurar saber direito os endereços deles e falo para você.
·        Já conversamos muito e meus patrões devem estar intranquilos com minha demora. Vou embora, mas dê-me seu endereço e telefone para encontrarmos outras vezes.
·        Eu moro bem longe daqui dos Jardins, em um apartamento alugado na Vila Maria e não tenho telefone fixo. Meu celular quebrou e ainda não comprei outro, pois como tenho intenção de sumir daqui de São Paulo, estou deixando para comprar outro lá no Rio, ou para onde eu for quando conseguir transferência na rede do hipermercado. Não se preocupe, pois como já sei seu endereço eu a procurarei para conversarmos mais.
·        Então boa sorte menina e tome cuidado, pois seu namorado com meus filhos provavelmente formam um bando de criminosos e são muito cruéis.
·        Vou fazer o possível para aturá-lo para não correr perigo e descobrir os endereços deles para você, para depois eu sumir. Desses bandidos eu quero distancia.
Boa tarde e até outro dia, mas antes me deixe anotar o numero de seu telefone celular e o fixo da casa em que trabalha. Seu nome completo como é?
·        Eu não uso celular, mas anote o fixo. Basta pedir para falar com a Lúcia Aparecida empregada, pois minha patroa também se chama Lúcia Aparecida. Doutora Lúcia.
Despediram-se.
Quando Lúcia chegou à residência, a curiosa Dona Rute que fazia faxina na casa perguntou-lhe de repente:
·        Porque demorou tanto nas compras Lúcia?
·        Porque encontrei uma moça que conhece meus filh..
·        O quê? Seus filhos?
·        Não. Não era isso que eu ia dizer.
·        O que era então?
·        Meus... Meus filhados.
·        Não se faça de sonsa mulher. É esclarecida o suficiente para saber que seriam afilhados e não filhados. O que você ia dizer mesmo era “filhos”. Que história é essa que ninguém sabe?
·        Que história?
·        Sua e de seus filhos.
·        Não tenho, nunca tive e jamais quero ter filhos.
·        Como disse que conheceu uma moça que os conhece?
·        Não foi isso que eu disse.
·        É claro que foi, mas se quer continuar sozinha com seu segredo, tudo bem.
·        Não tenho nenhum segredo.
·        Sei. Só esse, mas tudo certo. Não precisa contar-me nada. Tranque-o a sete chaves e fica só para você, mas ouça o conselho de quem já viveu bastante e tem experiência de vida como eu.
Muitos assuntos confidenciais e quanto mais sigilosos forem, guardados por uma única pessoa pode causar-lhe sérios malefícios a saúde do corpo, tais como insônias, pesadelos, gastrites, úlceras e até problemas piores.
Devem ser comentados com pelo menos uma pessoa confidente de inteira confiança, pois essa pessoa amiga pode auxiliar quem sofre imensamente por não conseguir nenhuma solução, quando tal segredo se tratar de um grande problema. 
Não faço a mínima ideia se seu mistério é um grande problema, mas se for não precisa ser a mim, mas divida-o com alguém que você confia muito, tal como Doutora Lúcia, por exemplo, ou com um psicólogo, ou psiquiatra ou um religioso. Todos o manterão guardado e qualquer um deles poderá lhe ajudar se for o caso.
·        Está bem. Você é minha escolhida como confidente. Qualquer dia eu lhe conto tudo.
·        Sou curiosa para saber sobre a vida das pessoas.
·        Fofoqueira, não é?
·        Não. Sou curiosa. Apenas gosto de saber sobre as pessoas com as quais convivo e você é uma delas.
·        Outro dia eu conto para a senhora, mas deverá guardar sigilo eternamente.
·        Pode confiar em mim. Sou um túmulo.
·        Geralmente as mexeriqueiras usam essa expressão e sempre passam nossos segredos para frente como se fossem simples fofocas.
·        Tenha certeza que comigo é diferente. Tudo que descubro sobre as pessoas, só uso se for para ajudá-las de alguma forma e nunca para prejudicá-las.
·        Sei que a senhora é boa pessoa.
·        Pode acreditar que sim.
·        Confiarei na senhora.
Nessa noite Lúcia, não conseguiu dormir a noite toda, tamanha era sua felicidade, pois através de Carla, vislumbrou a possibilidade de encontrar seus filhos.
Finalmente iria achá-los e através do nada famoso, porém escritor dos livros sobre a família que deu origem a eles iria conseguir provar que são herdeiros legítimos do professor Zinho, recém-falecido e torná-los bilionários.
Imaginou não ser difícil localizar o escritor, pois ele também morava em São Paulo.
Pelos dois livros “A saga da família Pereira da Silva” desse escritor que ela leu recentemente, tinha certeza que tal paternidade seria fácil ser provada e tamanha inquietação impediu-a de dormir.
oooOooo
Nessa mesma noite quem não dormiu também foi um casal de namorados que conversou em uma mesa de um bar durante a noite inteira até quase à manhã seguinte.
Eram Roger e Norma que não namoraram nessa noite. Apenas conversaram sobre vários assuntos, principalmente sobre golpes que com seus cúmplices aplicavam em pessoas incautas.
A moça já há alguns anos fazia parte da quadrilha. Era ela quem apresentava homens ricos para se tornarem vítimas de outras mulheres do bando, que casavam ou amasiavam com eles, levando-os a falência, depois ao desaparecimento ou a morte.
·        Pois é querido. Você foi esperto quando fez aquela cena fingindo que estava brigando comigo no hipermercado quando tinha visto aquela mulher. Ela veio rapidinho consolar-me e contar que o conhecia dizendo que você não vale nada. Como se eu não soubesse o traste ruim que você é.
·        Somos iguais.
·        Nem tanto. Estou apenas aprendendo com você.
·        Conversou com ela dizendo tudo o que lhe pedi? Contou saber sobre mim e os filhos dela? Deu-lhe corda suficiente para ela se enforcar?
·        Fiz tudo certo e até gravei nossa conversa.
·        Como gravou?
·        Você não sabe? No meu cargo como gerente de departamento do hipermercado tenho um gravador, exatamente para registrar qualquer problema que possa acontecer lá.
·        Está com você?
·        É claro. Trouxe-o comigo para você ouvir nossa conversa.
Após ouvir toda a gravação, Roger falou para a namorada.
·        Norma. Você se saiu melhor do que eu pensava. Descobriu onde a mulher mora, seu telefone e não deu nenhuma informação de como ela encontrar você e nenhum de nós. Você foi ótima, isto é, você sempre é ótima. Em tudo.
A propósito quando se mudou para Vila Maria e como arrumou o nome Carla?
·        Na conversa para dizer que morava longe, falei que era em Vila Maria por ser muito longe dos jardins e o nome Carla veio a calhar e eu jamais esquecerei, pois é o nome de minha melhor amiga dos tempos de ginásio que sempre lembrarei por ter sido ela, que sendo lésbica iniciou-me nos prazeres do sexo.
Também por ser o nome de minha avó paterna, além de ser o mesmo da famosa atriz e cineasta brasileira que vive aparecendo na mídia.
·        Então ela conhece um escritor que sabe de um parente de Miriam e de Carlos, que morreu muito rico e sem ninguém para deixar sua herança?
·        Conhecer ela não conhece, mas sabe da existência dele e vai procurá-lo, pois ele mora aqui em São Paulo.
Pelo que ela disse esse bilionário era primo em primeiro grau do pai dos filhos gêmeos dela, portanto é primo de Miriam e Carlos, que antes se chamavam Sergio e Álvaro.
·        Mas e a troca de sexo de Serginho e seu documento com nome de Miriam não vai atrapalhar?
·        Não muda nada, pois o importante é o DNA. Se fizerem exames, vão descobrir que ambos têm a mesma formação genética do defunto, portanto ficará provado seu parentesco.
Nos livros o escritor explica muito bem o que o tal Zezinho fazia com as adolescentes que conhecia e o que aprontou com a Lúcia, abandonando-a grávida.
·        A Lúcia contou-lhe tudo isso? Será verdade?
·        Sim, deve ser. Eu soube como ela descobriu tudo. Foi lendo dois livros que contam a história da origem deles. Comprei tais livros e antes de encontrar-me com você eu os li e para a nossa sorte o tal Dr. Zinho que morreu cheio da grana não deixou nenhum parente vivo a não ser nossos amigos, pois todos seus outros parentes de sangue estão mortos.
·        Vou comprar esses livros e levar para ler e dar aos irmãos para lerem também e depois decidirmos o que fazer.
·        Procure nas livrarias que vai encontrar. Chama-se a Saga dos Pereira da Silva. O primeiro volume chama-se “Paraizo” e o segundo “Tempestade”. Neles vocês vão saber de tudo e depois vocês decidem o que devemos fazer.
·        Vou comprá-los, assim que o shopping abrir e os levarei para o sítio à tarde.
·        Agora vamos dormir um pouco, pois está amanhecendo e hoje irei trabalhar de quatorze as vinte e duas horas.
Foram para o apartamento onde residiam e lá Norma entregou seus exemplares dos livros para Roger levar também.
Acordaram por volta de onze horas e ficou combinado que Norma para não ser procurada pela Lúcia com a polícia, ou com advogados, que ela deveria pedir demissão do emprego nesse mesmo dia com dispensa imediata e voltar ao apartamento, pois eles mudariam de lá e iriam ambos para o sítio, abandonando o apartamento imediatamente.
·        Pedir demissão eu concordo, mas mudar-me não será necessário. Se Lúcia for procurar-me no hiper não encontrará ninguém com o nome Carla.
·        Entretanto ao descrevê-la vão saber que se trata de você e no seu registro de emprego encontrarão seu endereço, sua esperta que virou ingênua.
Ela fez o que Roger solicitou enquanto ele rapidamente contratou um caminhão de mudanças para naquele mesmo dia levar os móveis para seu sítio, fechando o apartamento que era de sua propriedade com o nome antigo.
Mantinha consigo tais documentos como sendo Sandro, pois tudo que lhe pertencia estava em tal nome.
Imediatamente solicitou a um corretor de imóveis passando-lhe procuração para vender o apartamento por um preço bastante inferior ao de mercado para ser rapidamente negociado para que ninguém descobrisse o paradeiro de Norma, o dele e o dos irmãos.
Nesse mesmo dia à tarde, já instalados no sítio, eles conversaram com Miriam e Carlos, pois nesse sábado Miriam já estava com seu marido Tadeu para passarem o final de semana para conseguirem o dinheiro que seria emprestado à Tadeu para ele quitar seus débitos com os amigos, bancos e financeiras.
Roger falou rapidamente aos irmãos sobre a novidade de como Norma descobriu a mãe deles e principalmente sobre como poderiam herdar uma fortuna, mas decidiram que só voltariam a esse assunto na segunda feira, pois nesse final de semana deveriam dedicar-se ao Tadeu que fora trazido para ser enganado por eles.
·        Vamos conversar com Tadeu.
·        Tudo bem Miriam. Então o leve à piscina que nós estaremos lá com outros quatro amigos para ouvi-los, sobre seus infortúnios.
·        Até já. Vou contar chorando todas as minhas tristezas e de meu marido.
Assim combinado, Miriam encontrou-se com Tadeu e avisou-o que antes mesmo de começar o churrasco que Roger mandara preparar para quatorze horas, iriam conversar com eles para conseguirem o dinheiro para ele saldar suas dívidas.
Tudo sucedeu como sempre acontecia.
O marido falido e a esposa carinhosa contavam aos amigos suas desventuras e suas dívidas e os caridosos amigos de Miriam entregaram ao Tadeu, dentro de uma caixa de sapatos uma considerável importância em dinheiro, após ele assinar vários cheques e notas promissórias para serem descontados mensalmente após seis meses.
Embebedaram-se e comeram carne a tarde toda e à noite fizeram uma mesa de jogo de baralho, onde Tadeu perdeu todo o dinheiro que havia recebido como empréstimo e os caridosos amigos devolveram-lhe a metade para que ele em seu desespero, não se matasse ali mesmo na presença deles, tamanha era sua desilusão.
Para eles sumirem com o corpo não seria problema, como já fizeram muitas vezes, com outros maridos falidos que às vezes suicidavam ou simplesmente eram eliminados por eles no próprio sítio.
O problema foi que Miriam ao envolver-se com Tadeu imaginava-o sozinho e descobrira tarde demais que ele tinha duas irmãs e elas a conheceram e sabiam que o casal sempre frequentava um sitio de amigos.
Talvez ele próprio tenha falado a elas sobre sua localização e se ele desaparecesse repentinamente tais irmãs recorreriam à polícia que poderia descobrir o esconderijo e isso tornaria um grande problema, por isso deixaram-no levar metade do dinheiro que fora emprestado e depois perdido no jogo, entretanto a dívida continuaria sendo o dobro do que levou e ele continuaria vivo, porém tomando medicamentos em pequenas doses com substâncias nocivas à saúde devidamente preparados por uma farmacêutica pertencente à quadrilha, além de remédios desnecessários, indicados pelos médicos amigos do casal e ministrados pela bondosa esposa, para que sua saúde fosse aos poucos debilitando culminando com a morte prematura e sem vestígios.
Miriam conseguiu convencer Tadeu que ele deveria voltar ainda nesse inicio de manhã para a casa deles em São Paulo, pois ela continuaria com o irmão no sítio do amigo, só retornando para sua residência na terça ou quarta, como sempre fazia.
Tadeu que aceitava e acatava todas as decisões de sua deusa, obediente partiu depois de ter recebido dos cúmplices de sua esposa queridíssima a metade do dinheiro anterior cujo montante já fora dele próprio, roubado por ela aos poucos, forçando-o em endividar-se por muito tempo nas mãos dos golpistas, imaginando-se ajudado por eles.
Sem a presença de Tadeu, Miriam pode com seu irmão Carlos, com Roger e Norma voltarem ao assunto iniciado no dia anterior.
Após lerem os livros acharam que Norma deveria procurar Lúcia e contasse-lhe exatamente tudo sobre eles, para ela falar ao escritor.
Deveria contar a verdadeira história deles após terem fugido do interior de Minas até os dias atuais, para que o tal escritor escrevesse um livro sobre eles, pois seria o próximo livro completando a trilogia de A saga dos Pereira da Silva.
Seus egos exibicionistas assim exigiam, principalmente por saber que Norma havia mentido sobre a verdadeira localização da chácara, portanto eles continuariam ocultos.
O sítio ficava entre Mongaguá e Itanhaém no litoral, completamente diferente e bem distante do que foi dito por Norma, à Lúcia quando se identificou como Carla. Ela falara que o sítio ficava em Guarulhos, do outro lado da capital paulista.
Deixariam o professor escrever sobre suas vidas e quando tal história fosse tornada pública, possivelmente chamando a atenção da polícia sobre eles, eles com a ajuda do tal Velho Gordo já teriam colocado as mãos nos bens e dinheiro deixados pelo primo morto e nem estariam mais no Brasil.
Alguns dias depois Norma, identificando-se como Carla, telefonou para Lúcia marcando encontro para contar-lhe o que descobria sobre os meninos.
Lúcia compareceu no dia marcado que foi em Guarulhos e para isso solicitou dispensa à sua patroa por um dia inteiro de trabalho.
Dona Rute faxineira foi chamada para suprir sua falta ao trabalho nesse dia.
No encontro Lúcia ficou sabendo exatamente tudo que seus filhos aprontaram no passado e como agem nos dias atuais, sem perceber que de longe foi fotografada várias vezes.
·        Estou impressionada com o que me contou Carla. Nem acredito como soube sobre tudo isso deles em tão pouco tempo.
·        Acontece que dei dinheiro à uma antiga empregada do sítio e através dela soube como eles agiam quando roubavam caminhões e como fazem vários homens ricos irem a falência e a morte, roubando-lhes o dinheiro.
·        Mas se descobrirem que você sabe tudo sobre eles?
·        Vão querer matar-me, por isso, vou mudar hoje mesmo para longe e sumir para sempre de perto deles.
·        Mas e os endereços deles? Você conseguiu para mim?
·        Não. Isso nem a alcaguete que eu corrompi soube dizer.
·        Você sabe pelo menos o local do sítio?
·        Só sei que fica aqui em Guarulhos, mas não tem nome e nem sei se conseguirei levá-la até lá, pois o caminho é muito complicado.
·        Então como foi até lá?
·        De um telefone público chamei Roger em seu celular e ele veio buscar-me e por mais que eu prestasse atenção acho que não conseguirei voltar lá sozinha.
·        Eu pago pelo aluguel de um taxi e você tenta encontrar. O que você acha?
·        É até boa ideia. Podemos tentar, mas tenho de estar no aeroporto de Congonhas no início da noite. Viajo hoje mesmo para Recife.
Já há alguns dias pedi demissão do hiper para dar o fora e depois que subornei a empregada do sítio para lhe fazer esse favor não posso perder esse voo por nada. Corro muito perigo se não sumir urgente.
·        Antes da hora do avião partir eu lhe deixarei em Congonhas.
·        Então vamos procurar o sítio.
Infelizmente para Lúcia que gastou um valor alto com o taxi teve de voltar com Carla já no final de tarde sem descobrir o mencionado sítio.
Na despedida Lúcia solicitou à Carla:
·        Dê-me o número do celular de Sandro, ou Roger, que na verdade é a mesma pessoa.
·        É o último auxílio que posso lhe prestar. Anote o número, mas nunca fale como conseguiu.
·        Agradecendo pela ajuda, a sofrida, porém ingênua Lúcia despediu-se dela ainda dentro do carro, pois permaneceu nele para voltar para sua casa.
Assim que chegou ela ligou ao número do celular de Roger e inesperadamente atendeu uma pessoa que nunca ouvira falar de Roger, de Carla, dos irmãos com os nomes verdadeiros e os falsos e nunca conheceu nenhum sítio em Guarulhos e nem em lugar nenhum.
Ainda teve de ouvir alguns desaforos da pessoa que atendeu.
·        Sou uma senhora idosa e moro com meu velho e se está a fim de trote tente outro número porque esse que ligou é meu há mais de quinze anos.
Se for alguma bandida idiota tentando extorquir-me dinheiro ou crédito para celulares e for falar que raptou meu marido, meu filho ou minha filha pode desistir, pois nunca tive nenhum filho e meu velho já está em casa roncando na cama a meu lado. Se tornar a ligar para meu celular vou dar o seu número que ficou registrado à polícia para rastreá-lo e lhe pegar, sua vagabunda desocupada. Passe bem.
Desligou em seguida.
Lúcia imaginou ter anotado o número errado, ou Carla é quem o dera com algum numero invertido.
Inutilmente gastou grande parte da noite modificando a sequencia dos números, fazendo várias combinações com eles e simplesmente nada encontrou, nos incontáveis telefonemas dados.
Jamais suspeitou que a jovem tão amiga dera-lhe de propósito um número inventado na hora.
Nos dias subsequentes Lúcia tentou também sem nenhum sucesso descobrir o endereço do escritor através da editora que publicou seus livros.
Nada conseguiu, pois tal Velho Gordo careca e de barbicha branca não permitia que a editora fornecesse seu endereço a ninguém.
Ela tentou pela lista telefônica com o verdadeiro nome do escritor, mas também não existia e desanimada foi vendo passar os dias sem nada conseguir, sem sequer imaginar que era constantemente vigiada por bandidos que seus filhos colocaram para seguir-lhe os passos.
Em uma tarde Dona Rute lhe cobrou:
·        Não vai contar-me sobre seu segredo? Estou tremendamente curiosa desde quando tive de vir trabalhar em seu lugar, por ter tirado folga o dia inteiro. Imagino que tenha ido procura-los naquele dia. Estou certa?
·        Acertou dizendo que fui procurá-los, mas não os encontrei.
Seu trabalho aqui na casa termina dezoito horas não é? Eu saio com você e vamos até o shopping aqui perto e lá eu conto toda minha história, pois sinto que agora só você poderá ajudar-me.
·        Adoro saber sobre a vida alheia, mas eu prefiro conversar com você aqui dentro da casa mesmo.
·        Mas nossa conversa tomará muito tempo.
·        Vamos fazer o seguinte: Moro longe e como hoje eu tenho de ir rápido, eu venho amanhã cedo e trago minha filha para fazer seu serviço, enquanto a gente conversa tranquilamente no jardim nos fundos da casa.
·        Não podemos conversar na rua? Tem algum perigo?
·        Não vejo nenhum perigo, mas eu já percebi alguns homens e mulheres estranhas rondando por aqui próximo a casa. É claro que não estou querendo amedrontá-la, mas como não sei exatamente a história que vai contar-me, acho melhor não nos expormos.
·        Acha que estou correndo algum perigo?
·        Não acho nada. Não sei coisa alguma sobre você, suas amizades ou inimizades. Estarei sendo errada e injusta se falar que sinto algum perigo, mas eu sempre fui muito precavida e estou sempre prestando atenção nas pessoas que circulam por onde eu ando e procuro nunca dar chance ao azar.
De alguns dias para cá tenho visto pessoas diferentes nas imediações e é só isso. Podem ser novos moradores ou empregados da vizinhança e com o passar dos dias ficaremos sabendo quem são.
·        Então está combinado para amanhã, aqui dentro de casa mesmo. Até amanhã.
·        Até.
No dia seguinte a diarista chegou com sua filha e após Lúcia orientar a moça sobre o serviço a ser feito foi para o quintal conversar com Dona Rute.
Lúcia contou-lhe tudo sobre sua vida, seus tormentos e toda a conversa com a funcionária do hipermercado que a auxiliou até recentemente na procura do endereço deles e que depois foi embora para Pernambuco, após deixar-lhe o número do celular do namorado, que infelizmente fora dado errado e contou-lhe inclusive a vergonha que passou com a atendente do número.
Disse-lhe também que precisaria encontrar o escritor que escrevera dois livros sobre a família de um professor e que através da leitura deles descobriu que o pai de seus filhos era primo em primeiro grau do falecido que aparentemente não deixara nenhum parente consanguíneo vivo.
O escritor poderia provar que seus filhos eram herdeiros legítimos do tal professor que deixou uma enorme fortuna sem herdeiros.
·        E você quer encontrar-se com o tal escritor?
·        Exatamente. E não consigo de forma alguma localizá-lo.
·        Empresta-me os livros para eu ler e depois de amanhã quando eu voltar aqui eu lhe direi se encontrei alguma forma de localizá-lo. Tenho impressão que conseguirei descobrir quem é, pois até já estou imaginando que o conheço, mas preciso primeiro ler tais livros para ter certeza se é quem estou pensando e se tais histórias são realmente verídicas.
·        Você acha que o conhece? Como assim?
·        Calma. Só depois de ler os livros poderei dizer com certeza.
·        Terei paciência.
·        Então agora vamos fazer o almoço, para depois eu ir embora com minha filha e você assumir o serviço da casa.
·        Não vai trabalhar aqui até a noitinha como sempre?
·        Não. Hoje não vim para trabalhar. Só vim para conversar com você.
oooOooo
Após ir embora, Dona Rute passou o restante do dia em sua própria casa lendo os livros, cuja leitura já fora iniciada dentro dos ônibus e metrôs em que viajou.
Ria imensamente enquanto lia os livros dentro do metrô, para a indignação dos viajantes de tal coletivo que por ventura tenham lido tais romances cheios de tristezas e desgraças.
No dia de seu trabalho como diarista na casa de Dra. Lúcia, conversou rapidamente com Lúcia:
·        Amiga. As histórias dos livros são reais e seus filhos são de fato herdeiros do professor Zinho. Tenho certeza disso.
·        Como você descobriu?
·        Tais livros foram escritos e grande parte dos acontecimentos foram praticamente a meu lado, pois eu moro na Vila Maria, exatamente na vila conhecida como Paraíso de São Sebastião, que fora o reduto de Tião e sua quadrilha e depois reformada e modernizada pelo seu filho Tiãozinho ou professor Zinho.
Eu o conheci, assim como conheço pessoalmente o escritor Velho Gordo, pois frequentamos o mesmo bar e já marquei com ele para recebê-la sábado à noite para conversarem a noite toda se precisar.
·        Que maravilha.
·        Como irei até ele?
·        Você se encontrará comigo que é mais fácil e eu a levo até o bar em que ele se entope de cerveja.
·        Qual seu endereço?
·        É fácil encontrar-me. Basta pegar o metrô a tarde até a estação Sé. Lá você troca de trem que vai até Santana e desce. Procure o ônibus Vila Paraíso de São Sebastião e vá até o ponto final que eu estarei esperando-a as dezoito horas. Eu a levo até bar que é bem perto.
·        Muito obrigada pelo que está fazendo por mim.
·        Não há de que? Não lhe disse que gosto de saber sobre a vida alheia apenas para ajudar?
·        Concordo que me fará o maior favor que já me foi feito até hoje. Então sábado eu a procuro.
·        A propósito. Quando for sair para encontrar-se comigo, disfarça-se e saia pelo portão dos fundos e vá até a estação mais próxima do metrô pela rua de trás, pois já procurei saber sobre tais pessoas que estão sempre na frente da casa e de fato não são moradores novos e nem empregados nas casas próximas.
São totalmente estranhos e não faz nenhum sentido estarem sempre perambulando sem motivos em frente a casa.
Não sei bem o que querem com você, mas alguma coisa eles desejam.
Já percebi que quando eu saio ninguém me segue assim como não seguem Dra. Lúcia, nem o Doutor e nem os meninos.
Sinto dizer que quando você vai às compras, na padaria, na farmácia ou no supermercado sempre alguém lhe segue tanto na ida quanto na volta. De dentro de casa e escondida já vi isso acontecer várias vezes.
·        Acha que estão vigiando-me?
·        Agora posso dizer com certeza que estão sim.
·        Mas por quê?
·        Não faço a mínima ideia, mas a tal Carla para quem você contou sua vida deve estar com algum plano.
·        Ela só fez foi ajudar-me e depois fugir.
·        Será? Era uma funcionária até importante no hipermercado e sem mais nem menos pediu demissão de um ótimo emprego e depois sumiu após conversar com você.
Não acha estranho alguém abandonar tudo o que conquistou, talvez em anos, apenas para ajudar uma pessoa totalmente desconhecida como você é para ela?
·        Acontece que eu assustei-a informando que ela estava namorando um péssimo elemento que até é assassino.
·        Realmente por isso ela pode ter ficado amedrontada e desapareceu, mas pode ser também que ela sabe tudo sobre eles e sumiu para não ser pega como cúmplice, se você contar a polícia e indica-la como elo entre eles.
Eu, na verdade, penso que ela pertence a quadrilha e esteja escondida aqui em São Paulo mesmo e colocou gente para vigiá-la por conta própria, a mando do Roger, ou de seus filhos.
·        Não deve ser isso, pois ela não tem nada com a quadrilha e como prova disso forneceu-me o número do celular do namorado antes de partir.
·        Um número que pertence há muitos anos a uma senhora idosa?
·        Pode ter-se enganado quando me deu o número.
·        Eu acho muito esquisito alguém se enganar com o número do telefone do próprio namorado. Você não acha?
·        Isso é mesmo estranho.
·        Então se cuide.
·        Certo. Sábado sairei disfarçada e pelos fundos.
Chegado o dia da conversa com o escritor, Lúcia saiu escondida e foi até o local combinado, chegando pontualmente no horário, mas entristeceu-se porque não encontrou a amiga.  
Dona Rute só apareceu depois de certificar-se que Lúcia de fato não fora seguida por ninguém e a levou ao bar onde o Velho Gordo já a esperava.
Apresentou-os e voltou para sua casa deixando-os conversando.
Nesse dia o Velho Gordo, ouviu o relato de Lúcia durante apenas duas horas, exigindo-lhe uma completa narração dos fatos, entretanto sem detalhes, para ser rápido, pois tinha aparecido um compromisso inadiável entre ele e sua família às vinte e uma horas, e ele poderia ouvi-la apenas até no máximo até vinte horas e trinta minutos.
Seria só no dia seguinte que o Velho Gordo iria ouvi-la durante a noite toda, se fosse necessário, para ela contar-lhe exatamente tudo a respeito dos filhos, pois ficara muito interessado em auxiliá-la e também em escrever a história completa dos meninos bandidos, pois era sobre narrativas reais, misteriosas e trágicas que ele se dedicava. Conforme ele próprio disse-lhe essa história seria bastante interessante.
Ela regressou para sua residência feliz por saber que o escritor prontificou-se em auxiliá-la em seus propósitos.
Passou grande parte da noite escrevendo os pontos mais importantes que deveria contar ao Velho Gordo, pois o que tinha falado rapidamente no primeiro encontro foram realmente muitas informações, mas sem uma sequencia lógica.
Falou coisas importantes misturando fatos atuais com outros antigos, dando uma ideia ampla sobre a narração, entretanto sem um roteiro definido.
Iria bem preparada para contar sua história desde que tinha treze anos e conheceu Zezinho ficando grávida e sendo espancada e escorraçada por ele quando ele soube do fato, até no dia em que se despediu de Carla que muito a auxiliou contando-lhe tudo sobre os meninos e até tentando com ela encontrar o sítio em que eles se escondem.
No dia seguinte iria ao encontro que seria novamente às dezoito horas e ela chegou ao bar Anarquia Total sozinha, pois do ponto final do ônibus até o bar ela aprendeu ir e lá soube que o Velho Gordo já estivera e que foi levado por um sobrinho que o socorreu após um grande pileque.
Chegou a ver o bêbado cujo apelido é Cano dizendo que o velho havia sido raptado, mas foi orientada pelos frequentadores do bar que o bêbado estava falando besteiras.
Foi aconselhada por alguns a ir para sua casa e voltar outro dia, pois nesse dia não era certo de o Velho Gordo voltar, principalmente ouvindo o bêbado que gritava a plenos pulmões, próximo a eles que o velho havia sido raptado. Alguns chegaram a crer no bêbado.
O dono do bar não acreditava no sequestro e achava que ele voltava, mas reinava a dúvida.
Ela perguntou ao dono do bar:
·        Senhor. Qual é seu nome?
·        Pode chamar-me de baiano como todo mundo.
·        Você conhece Dona Rute que me trouxe aqui, ontem?
·        Sim. Ela frequenta meu bar.
·        Será que ela vem hoje?
·        Claro. Durante a semana vem muito pouco, mas sábado e domingo é sempre certo.
·        Ontem ela só veio aqui trazer-me para me apresentar ao Velho Gordo e depois foi embora.
·        Provavelmente ela não queria incomodá-la enquanto conversava com nosso amigo.
Depois apareceu com seus amigos por volta das vinte e uma horas e a senhora já tinha saído, assim como o Velho Gordo que também foi embora em seguida.
Dona Rute sempre chega entre oito e meia e nove horas.
·        Se for certo que ela vem então vou aguardá-la.
·        Pode ser que mais tarde o Velho Gordo volte também.
·        Mais outro motivo para eu esperar um pouco.
·        Toma alguma coisa? Uma caipirinha ou uma gelada?
·        Não costumo beber.
·        Então algum refrigerante enquanto espera?
·        O que é que está sendo feito na cozinha com esse cheiro maravilhoso? Já que o senhor é o baiano, deve ser comida baiana.
·        É claro. São nossas especialidades. Tudo que fazemos tem excelente odor e sabor, mas eu acredito que seja o do acarajé que mais se destaca. Tem temperos maravilhosos que aprendi com sua amiga Dona Rute quando ela trabalhou comigo durante um mês mais ou menos.
·        Ela trabalhou aqui?
·        Por pouco tempo. Nunca para em um lugar nenhum por muito tempo. Ela gosta de trabalhar apenas como diarista, pois além de ganhar mais está sempre em novos ambientes a cada dia que passa.  
·        Dona Rute é daqui de São Paulo mesmo e você não disse que o tal acarajé é comida baiana?
·        Pois é mesmo, mas Dona Rute fez uma combinação com os temperos da Bahia com outros daqui e do sul e deu no que deu. Ficaram misteriosamente muito mais saborosos.
Minhas moquecas de peixe são uma combinação da baiana com a capixaba e todos os paulistas adoram.
·        E o tal Acarajé? Que comida é essa?
·        Especialidade da casa. Nem na Bahia se faz acarajé melhor que o meu, cujo tempero foi modificado por Dona Rute. Trata-se de um bolinho feito de feijão e frito em azeite de dendê, acompanhado de muitos camarões secos ou fritos, vatapá e temperos além da pimenta mineira que sempre é mais bem curtida, por conseguinte a mais ardida.
·        Então eu quero experimentar.
·        Pode deixar que já está quase pronto. Trarei para a senhora. E a bebida?
·        Guaraná Antarctica pequeno.
·        Já lhe sirvo.
Logo o baiano trouxe o guaraná, informando que o acarajé demoraria mais uns quinze minutos.
Enquanto Lúcia esperava pela iguaria ficou vendo e ouvindo as músicas em DVD que o bar oferecia a seus fregueses, além dos jogos de futebol.
Finalmente chegou o acarajé no prato, para ser comido com garfo e faca conforme costume do local e Lúcia já tinha tomado todo seu refrigerante e ainda faltavam quase duas horas para a amiga aparecer, por isso decidiu pedir uma garrafa de cerveja, o que era coisa muitíssimo rara de ela fazer, mas valeria a pena beber uma geladinha. Não só pelo calor causado pelo clima, mas principalmente pela quentura que a pimenta da comida lhe causou.
Antes de vinte e uma horas, chegou Dona Rute e encontrou-se com Lúcia tontinha com apenas dois copos da bebida que ela conseguiu ingerir. A metade do líquido repousava quente dentro da garrafa abandonada num canto da mesa.
·        O que faz aqui sozinha?
·        Soube que a família do Velho Gordo viajou por dois meses e ele ficando sozinho em casa encheu a cara o dia todo e chegou aqui antes de mim totalmente bêbado.
·        E você não falou nada com ele?
·        Ele tinha acabado de ser levado embriagado por um sobrinho quando eu cheguei.
·        Que pena. Coisa estranha, pois sei que o Velho Gordo bebe muito, mas nunca chegou a embriagar-se a ponto de ser carregado.
·        Está vendo aquele cara gritando lá na rua de baixo?
·        Sim. É o Cano. Aquele sim. Além de meio maluco vive bêbado o dia todo, enchendo o saco de todo mundo.
·        Pois é. O baiano disse isso mesmo.
·        E por que me perguntou sobre ele?
·        Porque quando cheguei ele gritava que o Velho Gordo tinha sido sequestrado.
·        É claro que isso é bobagem da cabeça dele, pois ninguém ousaria raptá-lo na presença de todos seus amigos sem que eles nada fizessem.
·        Mas o doido, de longe continua gritando faz mais de duas horas.
·        Esqueça o Cano. Vamos falar de nós. Resolveu ficar por aqui? Esse bar é ótimo. Não sabia que bebia cerveja?
·        E não bebo mesmo. Apenas com a metade dela já estou meio tonta. Abandonei-a e voltei ao guaraná enquanto esperava a senhora chegar, pois soube sempre vem aqui aos sábados e domingos. Queria contar-lhe que infelizmente só falei com o escritor ontem, mas já vou voltar para casa, pois ainda é cedo e encontrarei muita condução.
·        Não quer ficar conosco? Poderá dormir em minha casa se quiser espera-lo mais um pouco, ou se quiser se divertir aqui.
·        Agradeço mas vou para a minha, mas antes quero pedir-lhe um grande favor.
·        Qual?
·        Como o Anarquia Total é bem perto de sua casa, por favor, passe de vez em quando aqui para marcar novamente com o Velho Gordo.
·        Farei isso. Fique tranquila.
·        Então boa noite e bom divertimento.
·        Obrigada. Para você, boa noite e bom descanso.
oooOooo
Foram dois longos meses que se passaram e o Velho Gordo jamais apareceu no bar, o que deixou apreensivo não só seus amigos, mas também Dona Rute e Lúcia e mesmo com esse seu prolongado sumiço ninguém admitia a possibilidade de ele ter sido realmente raptado, até que em certa noite foi notificado pelas emissoras de televisão que ele fora encontrado morto, com sua cabeça despedaçada por uma mascara de ferro no litoral santista.
A notícia foi muito divulgada por terem encontrado próximo a ele pedaços de ossos e carne aparentemente humanos misturados a pedaços de metal, plástico duro e muito sangue deixando nítida impressão que houvera uma explosão com alguma outra pessoa totalmente dilacerada e sem cabeça.
Os noticiários diziam que a tal máscara pesada que destruiu o crâneo do Velho Gordo, matando-o teria sido a cabeça de tal criatura dizimada, ao mesmo tempo em que informavam que ela não era uma cabeça humana, pois ela era de aço ou outro material qualquer parecido com plástico duro.
O fato passou a ser informado como obra do Lúcifer ou de alguém do inferno e isso rendeu noticiários em todos os jornais e na televisão a noite toda.
O Velho Gordo foi anunciado como sendo escritor e só assim saiu do ostracismo e finalmente seus livros saíram das prateleiras das livrarias há muito encalhados.
Nessa noite no Anarquia Total, Cano brigava com os amigos por não terem dado importância ao que ele dissera e que agora era tarde demais para salvá-lo.
Ninguém ousou brigar com Cano, pois imaginavam tal rapto como tendo sido perpetuado de fato na frente de todos eles, culminando com sua morte.
oooOooo
Pela manhã do dia seguinte o telefone tocou e Lúcia ao atender ouviu:
·        Quero falar com a empregada Lúcia Aparecida.
·        É ela quem fala. Estou reconhecendo sua voz. É Carla?
·        Sim e preciso falar urgente com você. Tem de encontrar-se comigo agora. Nesse instante.
·        Porque tanta pressa?
·        Tenho coisas muito importantes a lhe dizer e tem de ser imediatamente.
·        Onde está?
·        Depois da esquina de cima, esperando-a no meio da praça em um carro preto estacionado. Estarei do lado de fora dele. Você me verá quando estiver chegando.
·        Vou me trocar. Pode aguardar-me um pouco?
·        Não. É urgentíssimo.  Venha como está que não tem problema. Venha assim que desligarmos.
·        Tudo bem. Vou imediatamente.
Doutora Lúcia acordou naquele momento e o tempo que elas tiveram foi apenas para um rápido cumprimento e Lúcia ainda falou-lhe:
·        Vou até a esquina rápido e ao voltar converso com a senhora.
Próximo ao automóvel, Lúcia viu Carla e um homem com ela do lado de fora com a porta traseira aberta e ao chegar ela ouviu de Carla apenas, “entre logo” e foi empurrada para dentro do veículo onde já tinha uma moça assentada no outro canto.
O homem que ela não viu o rosto, pois permaneceu o tempo todo de costas, assentou-se rapidamente a seu lado, fechando a porta.
Carla abriu a porta da frente do veículo entrando rápido e o carro partiu em alta velocidade e só após isso que Lúcia percebeu que quem dirigia era Sandro.
Olhou para seu lado esquerdo e viu uma mulher que parecia seu filho Sergio. Virou-se para o lado oposto e descobriu que o homem que entrara atrás dela era Álvaro seu outro filho.
Foi o suficiente para desfalecer e rapidamente ser colocada no chão do veículo por seus filhos, algemada nas mãos e nos pés.
No dia seguinte Dona Rute apareceu ao trabalho e soube por Dra. Lúcia que a empregada desaparecera desde a manhã ao dia anterior, sem deixar nada escrito e sequer ter levado roupas.
Contou-lhe que ao acordar viu-a desligando o telefone e saindo apressada e que chegaram a trocar cumprimentos e poucas palavras quando a empregada simplesmente lhe disse: Vou até a esquina e volto logo.
·        A Senhora não percebeu nada em sua expressão facial?
·        Sinceramente não. Parecia que estava apenas com pressa.
·        Ou assustada?
·        Não sei. Talvez.
·        Nada disse além de volto já?
·        Vou repetir exatamente as palavras dela que foram: “Vou até a esquina rápido e ao voltar converso com a senhora”.
·        Somente isso?
·        Porque está me perguntando tantas coisas? Sabe o que poderá ter ocorrido?
·        Infelizmente creio que sim.
·        Meu Deus. Conte-me o que pode ter acontecido.
·        Acho que já deve estar morta a essa hora.
·        Está louca. Porque fala isso?
·        Vamos assentar que eu lhe explico por que e depois a senhora vai telefonar à polícia avisando sobre o desaparecimento dela.
Dona Rute contou a Dra. Lúcia, por alto, que sabia que a empregada tinha dois filhos, que eram assassinos e que havia conhecido uma moça que a levaria até eles.
Doutora Lúcia ouviu incrédula, sem fazer nenhum comentário, até que finalmente falou:
·        Mas porque a senhora acha que a mataram?
·        Tudo fazia parte do plano dos filhos homicidas.
Estavam esperando que ela contasse a um escritor sobre eles para que ele escrevesse um livro sobre suas vidas e principalmente para ajudá-los a provar que eram legítimos herdeiros de um professor muito rico que morreu há pouco tempo.
Como esse escritor apareceu morto anteontem eles evidentemente desistiram da ideia de terem sua vida transformada em romance assim como perderam a esperança de tentarem receber a herança, e por esse motivo não só não precisariam mais da mãe, como também ela passaria a ser perigosa para eles, já que ela tinha muitas informações sobre seus comportamentos criminosos.
Eles próprios haviam mandado uma moça chamada Carla, cumplice deles, contar-lhe todos seus crimes.
Foi assim que Lúcia ficou sabendo que eles estavam vivos, morando em algum local de São Paulo e praticando crimes.
Eles devem ter imaginado que assim como a mãe contou a tal funcionária do hipermercado sobre toda a trajetória criminosa deles desde crianças, poderia contar para mais outras pessoas e a quadrilha passaria a correr risco de ser descoberta pela polícia.
·        Ela falou também para a senhora, portanto não é só a Carla que corre perigo? A senhora também.
·        Nenhuma de nós corremos perigo algum. Carla por que pertence a quadrilha, pois foi exatamente ela quem falou tudo à Lúcia e tenho certeza que foi ela quem a atraiu para fora de casa para apanharem-na.
·        E por que você não está com medo? Por acaso também pertence à quadrilha?
·        É claro que não. Sou uma simples faxineira, mas muito cuidadosa e jamais deixei que nos vissem conversando, portanto eles além de não me conhecerem, nem imaginam que eu saiba sobre eles. Tudo o que eu e Lúcia conversávamos era somente em casa e aqui dentro nunca teve nenhum espião.
·        Acha que ela era vigiada?
·        Permanentemente. Sempre tinha gente estranha próxima à porta, e eu sempre percebi que somente ela era seguida quando saia. Ninguém foi atrás da senhora, do doutor, dos meninos e nem de mim quando saíamos. Somente ela era seguida.
·        E porque você não a avisou do perigo que corria?
·        Ela era somente vigiada para eles saberem quando ela contaria a história deles para o escritor transformar em livro e publicar e não corria nenhum perigo, mas a morte do escritor mudou tudo.
·        Então porque acha que a mataram?
·        Como eu já disse. Aconteceu após a morte do Velho gordo. Sem ele todos os planos anteriores acabaram e por isso eles decidiram eliminá-la.
·        Porque ela nunca falou nada comigo?
·        Ela não falou para mais ninguém, além de para Carla e para mim.
·        Porque só para vocês?
·        Porque com Carla ela imaginava estar fazendo uma boa ação com uma moça que chorava após brigar com o namorado que ela reconheceu como sendo Sandro, assassino e amigo de seus filhos. Esse tal Sandro atualmente tem documentos como sendo Roger, conforme ela soube.
·        E para você, por que ela contou tudo?
·        Por que eu sou muito curiosa e em um descuido dela, forcei-a a contar-me.
Quando ela soube que eu conhecia o escritor que ela procurou sem êxito, ficou até muito feliz por ter-me falado tudo.
·        O que é esse tudo?
·        Algum dia lhe conto com todos os detalhes.
·        Você é realmente muito bisbilhoteira.
·        Sou sim. Esse é um defeito em praticamente todas as pessoas, mas para mim é o contrário. É minha maior qualidade, pois às vezes descubro crimes que até a própria polícia não consegue.
·        Sabe alguma coisa sobre mim, meus filhos e meu marido?
·        Sei sim. Muita coisa.
·        O que?
·        Nada comprometedor. Pode tranquilizar-se.
·        Primeiro vamos procurar a polícia e prestar queixa do desaparecimento de Lúcia e depois você me conta o que sabe sobre minha família que não deveria saber.
·        A senhora deve fazer isso imediatamente, mas nada do pouco que lhe falei deverá ser informado aos policiais, por enquanto. Sou ex-esposa de um detetive e vou falar primeiro com ele sobre esse caso e ele me orientará sobre o que devemos falar ou fazer.
Fale apenas que a empregada desapareceu desde ontem cedo após ter recebido um telefonema.
Depois quando eu falar o que sei e para que a senhora e sua família fique totalmente fora disso, diga que eu só lhe contei após o desaparecimento dela.
·        Mas isso é realmente verdade.
·        Por isso que estou lhe pedindo assim. Somente a verdade, e deixe seus filhos e seu marido sem saber absolutamente nada que é até melhor.
·        Por que não veio ontem cedo avisá-la da morte do escritor e da possibilidade de ela também ser morta?
·        Os noticiários noturnos de quando ocorreu o óbito dele foram após vinte e três horas e eu já estava dormindo. Saí ontem cedo para trabalhar em outra casa onde presto serviços e como não ligo televisão nem rádio na casa dos patrões só soube da tragédia a noite quando já estava de em minha casa, por isso iria alertá-la hoje, mas foi tarde demais. Eles agiram quase que imediatamente, mas farei tudo para descobrir essa quadrilha e fazê-los pagar não só por esse crime, mas por todos os demais praticados.
·        Então vamos combinar o seguinte: Enquanto eu telefono à polícia você vai procurar seu ex e contar-lhe o que me contou para que ele ajude-nos a encontrar Lúcia.
·        Então só fale que eu já estive em sua casa e ao saber do desaparecimento dela disse-lhe apenas que sabia algumas coisas e que saí imediatamente para procurar o investigador Grozzi para receber orientações de como proceder e que depois eu falo com os policiais que irão investigar o caso.
·        Combinado.
·        Então mãos à obra.
·        Mas não se esqueça de que quero saber direitinho o que sabe sobre minha família.
·        Tudo que sei sobre vocês, vocês também sabem, portanto não se preocupe com isso até porque já disse a senhora que não tem nada que os comprometa. Apenas alguns pequenos deslizes sem importância.
·        Meus? Ou dos outros?
·        Esqueça Doutora Lúcia. Temos coisas muito mais importantes para resolver agora.
A polícia foi avisada do desaparecimento de Lúcia e começou a investigações sobre tal sumiço, sem nenhum êxito na casa da Doutora Lúcia.
Ela apenas informou o que de fato aconteceu na manhã do dia anterior, ou seja, que se cumprimentaram e que a empregada disse que iria até a esquina e voltaria logo.
Viram-na pelas câmaras de filmagens das residências que ela caminhou rapidamente pela calçada em direção a tal esquina.
Na larga avenida a movimentação de carros era grande, mas nenhum deles parou próximo a ela.
Chegando a esquina ela atravessou a rua em direção a uma praça, entretanto nessa praça não tinha nenhuma câmara para registrar o movimento dos transeuntes, portanto ela não foi mais filmada.
Na avenida que atravessava a praça só tinham câmaras no alto dos postes que captavam imagens dos carros em movimento.
O carro que a aguardava estava parado em um lugar estrategicamente colocado para não ser filmado em momento algum quando ela nele embarcou.
Após ele entrar no transito passou a ser apenas mais um entre os demais, evidentemente com ela após raptada ter sido colocada no chão do veículo com facilidade, pois havia desmaiado e por isso ninguém a viu dentro de nenhum veículo e as câmaras não captaram sua presença em nenhum carro.
Geralmente a grande maioria deles têm películas escuras que são coladas aos vidros, próprias para ninguém enxergar quem está dentro, portanto seu rapto não foi visto nem filmado.
A polícia até que trabalhou bastante, pois ampliaram as placas dos carros filmados, no horário do possível desaparecimento de Lúcia e através delas, convocou todos os proprietários para serem interrogados.
Essa tarefa demorou alguns dias, portanto nem todos os proprietários foram ouvidos, entretanto o dono de uma determinada placa filmada foi à delegacia com seu carro Mercedes Bens vermelho prestar esclarecimentos.
Informou que ele jamais passara em tal avenida e que a placa filmada lhe pertencia, porém com certeza clonada, pois o filme a mostrava em um Corolla preto que ele jamais viu.
Os policiais ficaram sabendo que foi o Corolla preto, com vidros com películas bem escuras onde viram apenas silhuetas de quatro pessoas dentro, com a mesma placa da Mercedes, o carro usado para sequestrarem a empregada Lúcia, que não apareceu nos primeiros quinze dias de investigações.
Após Dona Rute contar o que sabia sobre a vida de Lúcia, a polícia também investigou junto ao hipermercado a respeito de Carla e conforme descrição da moça, sua função de gerente de departamento e sua demissão apressada, descobriram tratar-se de Norma Suellen Arruda, cujo endereço fornecido era bem próximo.
Os moradores do apartamento residiam há pouco tempo e forneceram o endereço da imobiliária onde recentemente compraram o imóvel, por sinal por um preço irrecusável, portanto fora adquirido ao primeiro anúncio de ofertas.
O proprietário da imobiliária foi questionado sobre quem era o antigo proprietário e respondeu que jamais o viu, pois o corretor que fez a transação assinou toda a documentação com procuração.
Nessa visita descobriram apenas que o apartamento pertencia a Sandro de Assis e seu endereço era o próprio apartamento e que o mesmo recebeu o pagamento da venda e simplesmente não disse para onde ia.
A polícia conversando com o corretor que efetuou o negócio obteve a confirmação que ele vira uma mulher com o antigo dono do apartamento em que ambos moravam juntos. Reconheceu Norma quando viu a foto apresentada pela polícia, que fora fornecida pelo hipermercado.
Com isso a polícia tinha a foto dela e um agente fez o retrato falado de Sandro, conforme descrição do corretor que se lembrava razoavelmente bem de seu rosto quando ele o procurou para colocar o apartamento a venda e lhe passar a procuração para tal fato. Depois o viu mais uma única vez quando lhe repassou o dinheiro correspondente a transação imobiliária, dentro de uma maleta fechada.
Informou que ele sequer conferiu o dinheiro desaparecendo rapidamente, sem sequer agradecer.
O Corolla jamais foi encontrado, provavelmente desmontado em algum desmanche, assim como Sandro e Norma, que atualmente talvez portassem documentos como sendo respectivamente Roger e Carla. 
Lúcia a desaparecida também não fora encontrada e nunca manteve nenhum contato com sua patroa.
Provavelmente estaria morta e seus restos mortais muito bem escondidos e o tempo foi passando sem que a polícia conseguisse descobrir absolutamente nada sobre o caso.
A outra única referência que lhes fora fornecida por Dona Rute era a estância possivelmente em Guarulhos onde eles frequentavam, mas nos cartórios de registro de imóveis de lá nada descobriram como propriedade de nenhum dos nomes conhecidos, incluindo os irmãos com seus nomes verdadeiros e os falsos.
Vasculharam toda a zona rural e encontraram alguns sítios de lazer, entretanto seus proprietários eram pessoas de bom caráter e conhecidas, portanto tal investigação estava fadada a ser encerrada e a empregada Lúcia ser apenas mais uma na lista dos desaparecidos.
A inquieta Dona Rute, vendo que não estava evoluindo nada as investigações policiais, decidiu trabalhar por conta própria contando com a ajuda de seu ex-marido que não fazia parte nas investigações do caso, por pertencer a outra delegacia policial.
Ela com sua assombrosa genialidade resolveu transformar a foto de Norma mudando-lhe completamente a aparência.
Conseguiu com um policial que seu ex colocou a sua disposição e através de Photoshop modificar aquela linda loira de cabelos compridos, olhos azuis e óculos de graus em outras mulheres completamente diferentes.
Transformou-a em uma morena de olhos pretos e cabelos curtos e também pretos.
Em ruiva de cabelos também curtos e olhos castanhos.
Até em careca ela a transformou e sempre com olhos de outra cor aos seus verdadeiros.
Modificou suas sobrancelhas e também lhe engrossou os lábios e afinou seu nariz.
Os cortes e mudanças de cores do cabelo e sobrancelhas eram coisas bastante simples. Bastava apenas uma cabeleireira. A cor dos olhos facilmente seria mudada, trocando-se os óculos, por lentes de contato.
O implante de Botox nos lábios e a modificação do nariz, também seriam conseguidos com simples cirurgias plásticas.
Com tais fotos modificadas ela passou a ter várias mulheres diferentes que poderiam ser encontradas e ser na realidade a Norma que ela precisava achar.
Por pura intuição decidiu procurar tal pessoa no lado oposto da capital paulista ao qual ela dizia ser a chácara de Roger, seu namorado.
Dona Rute mudou-se para o litoral santista e lá se pôs a trabalhar como faxineira e durante os dois primeiros meses nada descobriu.
Uma cópia do retrato falado do moreno claro de nome Sandro feito pelo policial também fazia parte de seus pertences e foi exatamente um homem loiro que ela viu em uma rua de Santos, parecido com o mencionado retrato falado.
Era muito semelhante com exceção apenas da cor dos cabelos que teria sido alterada.
Seguiu-o e entrou na mesma lanchonete que ele e viu-o dirigir-se a mesa onde uma morena de cabelos curtos e pretos, com olhos também pretos o esperava.
Reconheceu imediatamente a antiga loira Norma, com o mesmo nariz e sem Botox nos lábios. Ela não tinha se dado ao trabalho dessas plásticas.
Apenas modificou o corte e a cor dos cabelos, das sobrancelhas e usava lentes de contato corretivas de cor preta, abandonando os óculos que fazia uso e que lhe deixava serem vistos seus antigos olhos azuis.
Dona Rute não seria reconhecida por eles. Disso ela tinha certeza, pois conhecia muito bem todos os capangas que seguiram Lúcia na antiga residência e eles sim poderiam tê-la visto em algum momento, mas nenhum dos dois a sua frente vigiou a casa onde Lúcia trabalhava, portanto estava segura e por isso sentou-se em uma mesa bem próxima a eles, que entretidos e conversando baixo sequer a viram.
Ela não conseguiu ouvir nada da conversa, mas seguiu-os ao saírem e viu o carro em que foram embora, gravando o número da placa além de fotografar o próprio carro com seu celular. Era um Chevrolet Vectra novo.
O veículo tinha placas de Santos, portanto ela finalmente sorriu satisfeita por saber que sua intuição não tinha falhado. Ela os encontrou onde imaginou ser o lugar certo. Exatamente do lado oposto onde toda a investigação foi concentrada.
Como não tinha carro e nem teve sorte em embarcar-se em nenhum taxi para segui-los ficou pensativa imaginando qual seria seu próximo passo para descobrir onde a quadrilha se escondia e avisar a polícia para reabrir o caso do desaparecimento de Lúcia.
Havia percebido que o casal era conhecido na rotisserie pelo tratamento que receberam do proprietário e dos funcionários, por isso julgou ser lá o único local onde deveria vigiar para um possível novo encontro.
Como ela tinha de trabalhar em faxinas para viver não teria como vigiar o estabelecimento, porém decidiu procurar emprego na própria lanchonete e foi facilmente contratada pelo fato de ser excelente cozinheira e quituteira.
Facilitou ao máximo sua admissão, pois abriu mão de carteira assinada, contrato de trabalho e etc. Fato que agradou ao proprietário.
Estava resolvido seu problema. Tinha salário para pagar pelo dormitório barato onde morava e também para se manter, além de tempo suficiente para com seu jeitinho de nada querendo ir disfarçadamente colhendo informações sobre o casal sem demonstrar interesse real como aconteceria se fosse fazer perguntas diretas aos empregados, pois entre eles, ou todos eles poderiam pertencer a quadrilha.
Nada aconteceu em seus dois primeiros dias de trabalho, mas no terceiro, eis que aparece o Roger com outra mulher e um homem.
Ela viu a enorme semelhança entre o homem e a mulher e nesse dia perguntou a um dos colegas que atendia as mesas, quando este foi levar-lhe o pedido a ser feito.
·        Esse pedido é para aquela mesa?
·        Qual mesa se refere Dona Rute?
·        Aquela que tem um casal e outro homem.
·        Sim. O pedido é para eles.
·        O casal que está sentado um ao lado do outro são casados?
·        É claro que não. São irmãos. É a Miriam e o Carlos. Só não são gêmeos univitelinos, pois não são do mesmo sexo. Um é homem e a outra é mulher, mas são gêmeos.
·        Agora que estou percebendo que são parecidíssimos, mas hoje em dia as pessoas fazem de tudo. Pode ser que um deles tenha feito operação de mudança de sexo.
·        Sei lá. Sei que Miriam é casada com um cara chamado Tadeu e mora em São Paulo e vem muito no sítio do Roger. Seu irmão mora no sítio mesmo, com sua esposa, portanto se algum tenha feito mudança de sexo, vivem bem com sua atual sexualidade.
·        Roger? Quem é Roger?
·        É o outro que está com eles. É o dono do sitio.
·        Entendi. Parecem ser pessoas muito simpáticas.
·        De fato são boa gente e cheios de dinheiro também.
·        São frequentadores daqui da lanchonete?
·        Há muito tempo. Sempre lancham aqui além de comprarem muita coisa para as festas no sítio.
A senhora irá conhecer além deles muitos outros casais amigos deles que frequentam o sítio nas festas que fazem lá. Hoje devem ter vindo fazer encomendas para alguma farra para o próximo final de semana, pois estou vendo que Sandro chamou o patrão à sua mesa para conversar. Deve ser para falar sobre isso.    
·        Por que disse que eu vou conhecer todo o pessoal?
·        Porque somos nós que eles sempre contratam para servi-los, pois as encomendas de doces, bolos, comidas e salgadinhos são feitas aqui. Apenas as carnes para os churrascos não são, por que eles compram direto dos frigoríficos e guardam lá mesmo em sua própria câmara frigorífica.
Sempre é um de nós quem prepara o churrasco deles. Geralmente era a Mara, a cozinheira anterior à senhora quem temperava as carnes e fazia os churrascos.
·        Então entrei no lugar dessa tal Mara?
·        Sim. Ela desapareceu da noite para o dia e todo mundo acha que ela foi embora de volta para sua terra. Para a Bahia.
·        Todo mundo acha? Ninguém tem certeza disso?
·        Ninguém ficou sabendo ao certo.
·        Então não tenho escolha? Terei de trabalhar também aos sábados e domingos?
·        Geralmente revezamos. Alguns vão e outros descansam, mas geralmente todos querem ir sempre, pois pagam muito bem por nossos trabalhos extras.
·        Eu prefiro descansar em meus domingos.
·        Alguma proibição religiosa?
·        Não. Apenas por hábito mesmo.
·        Se nunca quiser ir, nós até agradecemos, pois sempre alguns de nós temos de ficar, por que o patrão nunca permite que vão todos.
·        Prefiro ficar descansando.
·        Ótimo para a senhora que quer descansar e para nós que ganharemos mais dinheirinho indo no seu lugar.
Dona Rute satisfez-se com a conversa e nem sequer olhou para os clientes que ela tanto procurava, pois sabia que agora iria descobrir muita coisa, através dos fofoqueiros empregados da casa de lanches e retirou-se para seu trabalho na cozinha.
Seu companheiro de trabalho voltou a falar com ela já na cozinha, sobre os clientes, depois que o patrão afastou-se ao passar uma determinação a Dona Rute.
·        Dona Rute.
·        Que foi Cristiano? Precisa que eu faça alguma coisa para você?
·        Não. Apenas queria dizer-lhe que simpatizei com a senhora e como é nova aqui, preciso dar-lhe alguns conselhos.
·        Sobre o que?
·        Sobre as festas no sítio de Roger e Norma.
·        Que sítio?
·        Aquele que já conversamos no salão.
·        A sim. Tinha até me esquecido daquela conversa.
·        Pois é. Sempre o patrão nos dá o direito de escolha de trabalhar lá, mas é normal ele exigir que alguém que não foi na festa anterior deva ir na próxima para poder dar descanso a quem já foi, e se a senhora sempre recusar-se em ir correrá o risco até de ser demitida.
·        Entendo. Todos os patrões geralmente são assim. Fique tranquilo que não criarei caso.
·        A senhora vai até gostar de lá. Tem muita gente e muita música durante o sábado todo até a madrugada, mas depois acho que eles dormem o domingo inteiro e a gente também descansa bastante. No domingo nos permitem fazermos churrasco para nós, além de deixarem usarmos a piscina e o campo de futebol o dia todo e a noite eles nos trazem de volta para Santos.
·        Então esse sitio não é aqui em Santos?
·        Não. É entre Itanhaém e Mongaguá.
Praticamente isolado no meio do mato, mas é lindo.
·        Muita gente frequenta as festas?
·        Naquela hora já tinha lhe falado isso. Sempre tem muitos convidados.
·        Desculpe-me, sou muito esquecida.
·        Quem é que mora lá mesmo?
·        Daqueles três que estiveram aqui só o dono que é o Roger e o amigo dele que é o Carlos. A Miriam irmã gêmea de Carlos mora em São Paulo, mas no sítio moram muitas outras pessoas.
Esqueceu tudo isso que conversamos?
·        Não me lembrava mais. Minha memória é muito ruim e eu esqueço muitas coisas mesmo após ouvi-las.
·        Será que está começando sofrer do mal de Alzheimer?
·        Sei lá. Espero que não.
·        A senhora deve ler bastante e fazer muitos exercícios mentais para o cérebro estar sempre em atividade para evitar tal doença.
·        Obrigada pela dica, mas já faço isso. Acho que é a memória mesmo que está fraca pela idade que tenho, ou por que sou desatenta mesmo às coisas que não me interessam.
·        Voltando ao assunto, o Sr. Carlos mora com sua namorada que é a Dona Vera. O Sr. Roger com a Dona Norma. Dr. Claudio com sua esposa Dra. Silvia. Ele é médico e tem um centro médico em Mongaguá e ela é farmacêutica e tem sua farmácia de manipulação de remédios perto do hospital do marido.
O Sr. João Alfredo mora com sua esposa Dona Cidinha e ambos são enfermeiros e trabalham no hospital do Dr. Claudio.
São esses casais que moram no sítio, mas além deles tem vários empregados que são permanentes cujos nomes nem vou falar por serem uns dez e eu mesmo nem sei o nome de todos eles.
·        Sei. Agora me dá licença, preciso começar fazer os salgados que o patrão me pediu para sábado pela manhã. Disse-me para fazer dois mil e quinhentos, de vários tipos e sabores.
·        Tenho certeza que pelo menos dois milheiros é para a festa do Sr. Roger.
·        Não sei. Ele não falou nada. Apenas mandou-me fazer e caprichar ao máximo.
·        Melhores do que a senhora já faz é impossível.
·        Obrigada.
Dona Rute ficou acordada até muito tarde, nessa noite, preocupada em ter de ir ao sítio e correr o risco de ser reconhecida por algum dos empregados que provavelmente a teria visto quando vigiavam Lúcia.
Não poderia recusar-se sempre em ir trabalhar nas festas, por que inevitavelmente teria de ir lá para cumprir a rotina da casa e principalmente para descobrir onde era o esconderijo da quadrilha.
Não tinha necessidade de desvendar como eles aplicavam o golpe nos maridos falidos, pois já sabia, mas precisava descobrir como matavam as pessoas e desapareciam com seus corpos sem que nunca aparecessem.
Refletiu muito e chegou à conclusão que deveria encarar tal desafio para poder encontrar o que queria, mesmo correndo o risco de ser descoberta.
Recordou-se que como a preocupação dos bandidos era vigiar Lúcia, ela poderia ter passado despercebida, ou sido vista muito vagamente e por já fazer alguns meses poderiam nem se lembrar mais dela.
Se eles a interrogasse ela poderia explicar que trabalhava de faxineira em várias casas em São Paulo e que agora estava em Santos como empregada na casa de lanches, pois casa para fazer faxina na baixada eram poucas.
Forneceria vários endereços na capital para eles colherem informações sobre ela e é claro que não diria jamais que trabalhou na casa de Doutora Lúcia, de onde a empregada Lúcia desaparecera.
Imaginou safar-se com essa explicação, entretanto sabendo da crueldade deles, concebeu também que poderia simplesmente ser morta só por ser reconhecida sem sequer chegar a ser inquerida.
Cansada acabou dormindo até o dia seguinte e foi trabalhar, ainda arquitetando seu plano de como fazer para aparecer no sítio e passar despercebida.
Não tendo certeza se o proprietário da lanchonete e os demais empregados também faziam parte da quadrilha, primeiro decidiu investigar o patrão.
Para isso precisava conversar com ele e logo ao chegar procurou-o como se o encontrasse ao acaso e para iniciar a conversa aparentemente sem grande interesse perguntou-lhe, já iniciando suas investigações:
·        O senhor contratou-me para aumentar o quadro de funcionários?
·        Não. Foi no lugar de Mara, que desapareceu.
·        Sei. Ela pediu demissão?
·        Não. Simplesmente desapareceu mesmo e nunca mais ninguém a viu.
·        Santo Deus! O que teria acontecido com ela?
·        Há pouco menos de um mês quando meu pessoal estava trabalhando em serviço extra em um sítio de um cliente importante ela também foi como era costume fazer.
Trouxeram-na de volta no domingo a noite como sempre fazem e simplesmente ela nunca mais apareceu por aqui.
·        Nossa. Que coisa estranha?  
·        Eu prestei queixa e a polícia investigou e interrogou o casal que a trouxe deixando-a próximo a sua casa, mas nada descobriram.
Ninguém ficou sabendo de nada e muito menos compreenderam seu sumiço. Ela deve ter-se aborrecido de morar aqui ou sei lá qual foi seu motivo e voltou para a Bahia que é de onde veio.
O mais estranho é que parece que ela nem entrou em sua casa, pois todos os seus pertences estavam lá quando a polícia arrombou a porta, para certificar-se se ela não teria morrido dentro de casa sozinha.
·        Talvez ela nem tenha chegado até sua casa.
·        Que chegou é certeza, pois houve informações à polícia, de três testemunhas que confirmaram tê-la visto chegar e que o carro que a trouxe deixou-a são e salva em sua residência afastando-se do local quando ela estava abrindo a porta.
·        O senhor procurou saber com seus parentes se de fato ela voltou para a Bahia?
·        Aqui ela morava sozinha e na Bahia nem sei onde moram seus parentes, se é que tem. Só sei que ela nasceu em Salvador, pois constava de seus documentos.
A propósito a senhora é de onde?
·        Sou de São Paulo e tenho uma casa na vila Paraiso de São Sebastião, na Vila Maria.
·        Sei onde é, mas porque está querendo saber sobre sua admissão?
·        Apenas por curiosidade mesmo.
·        Então volte aos seus afazeres, pois até o final de semana tem muitos quitutes a serem feitos.
·        Pode ter certeza que trabalharei depressa, mas com esmero.
·        Realmente é muito caprichosa e tem a mão certa para os temperos. Nossos salgados melhoraram muito depois que a senhora começou trabalhar conosco.
·        Obrigada. Faço o possível para ficarem bem feitos.
·        Minha clientela antiga está tão satisfeita atualmente que até tem trazido novos fregueses.
·        Se isso é um elogio à meus temperos fico agradecida.
·        É claro que esse é o motivo.
Encerrada a conversa ela encaminhou-se para a cozinha onde foi logo indagada por uma das ajudantes.
·        O Cris falou-nos que a senhora não gosta de fazer hora extra aos sábados e domingos. É verdade?
·        Sim. Eu não sou nova como vocês e preciso de descanso semanal. Coisas de idosos. Sabe como é.
·        É só falar com o patrão que ficará isenta de ir atender nas festas que ele serve na chácara do Sr. Roger.
·        Mas, parece-me ter ouvido do Cristiano que ele exige revezamento do pessoal e quem recusar é até demitido.
·        Isso é verdade, mas acho que no seu caso ele não irá fazer isso, pois já comentou conosco que a senhora é muito melhor cozinheira e quituteira que a Mara, portanto não vai querer ficar sem o seu trabalho.
Disse que depois que começou cozinhar aqui tem aumentado bastante a freguesia.
Dona Rute percebendo que todos os trabalhadores da lanchonete gostavam muito de falar sobre a vida alheia, aparentando serem todos livres de culpa nos crimes da quadrilha do sítio, não teve dúvidas que poderia fazer-lhes perguntas sem rodeios, pois eles responderiam claramente, por isso fez a essa ajudante de cozinha um verdadeiro interrogatório:
·        Foi no lugar da Mara que eu entrei, não foi?
·        Sim. Foi isso mesmo. O patrão ia promover uma de nós e contratar outra ajudante, mas a senhora apareceu e provou que é muito melhor que todas nós, por isso nenhuma foi promovida e a senhora substituiu Mara.
·        Porque ela saiu?
·        Ela não saiu. Ela desapareceu.
·        Como assim?
·        Na volta de uma festa no sitio do senhor Roger ela foi trazida até sua casa no domingo à noite e simplesmente ninguém nunca mais a viu.
·        Como sabe disso?
·        Porque eu estava lá e também fui trazida por um casal que me deixou na porta de minha casa. O Dr. Claudio trouxe Mara, mas Dona Zilda, uma das amigas deles que estava na festa prestou depoimentos à polícia, dizendo que quando passou perto de onde Mara morava viu-a desembarcando do carro do médico e dirigindo-se a sua porta para abri-la.
·        Todos os carros saíram juntos, como em um comboio?
·        Não. Vieram em horários diferentes uns dos outros.
·        Você viu quando o carro que trouxe Mara saiu de lá ou já tinha vindo antes?
·        Vim depois. Dei até um adeusinho para ela, quando eles passaram por mim.
·        Então você veio antes dela.
·        Não. Dr. Claudio veio primeiro.
·        Disse que deu um adeus quando eles passaram por você? Não foi na estrada que eles ultrapassaram o carro em que você vinha?
·        Não. Eu ainda estava no sítio esperando para ser trazida por outro casal.
·        Entendi. Quem trouxe Mara veio antes de você.
·        Dr. Claudio saiu do sítio primeiro que todos os outros.  
·        Pouco antes, ou muito antes?
·        Coisa de meia hora ou mais.
·        Então partiu bem antes que os demais?
·        Sim.
·        E mesmo assim a tal Dona não sei o que o alcançou aqui em Santos?
·        Sim. Foi o que Dona Zilda declarou.
·        Mas se Dr. Claudio mora no sítio, porque Mara não embarcou em outro carro que voltaria para cá ou que ia para São Paulo?
·        Não somos nós quem escolhemos com quem voltar. São eles que nos dizem quem nos trará.
·        Tudo bem. Estou apenas achando que deveria ter outros carros que voltariam sem a necessidade de vir um especialmente para trazê-la.
·        No interrogatório o delegado também questionou isso, entretanto o médico disse que tinha mesmo de vir para cá com a esposa por causa de um compromisso pela manhã e preferiam dormir aqui.
·        Eles têm casa aqui em Santos?
·        Sei lá. A senhora está parecendo o delegado. Cheia de perguntas.
·        Sou curiosa mesmo. Se isso lhe aborrece podemos parar já com nossa conversa.
·        Não. Eu até que gosto de falar mesmo.
·        Então continue falando o que as testemunhas contaram ao delegado.
·        Elas disseram que viram quando o médico afastou-se com seu carro deixando Mara na porta de sua casa.
·        Quem deu essa declaração foi Dona Zilda e seu marido?
·        Não. Foi só Dona Zilda e duas empregadas do sítio, pois Dr. João Bosco, marido dela estava dormindo no banco de trás do carro de tão bêbado que se encontrava.
·        Estava bêbado no domingo a noite?
·        Sim.
·        Mas eles não fazem a festa no sábado durante o dia todo até a madrugada, e no domingo descansam?
·        Eles geralmente ficam o domingo todo dentro da casa do senhor Roger e não saem, mas talvez fiquem lá dentro comendo e bebendo depois que acordam.
·        Só isso que sabe sobre o desaparecimento dela?
·        Depois disso, não só eu como ninguém mais viu ou soube nada sobre ela.
·        Eles sempre trazem os funcionários para cá quando vocês estão lá?
·        Depois de todas as festas. Já é combinado nos trazerem no domingo.
·        Você viu Mara no sábado e no domingo?
·        Em ambos os dias esteve conosco e eu a vi muitas vezes.  Ela quem mais trabalhou, pois além de ter feito o churrasco deles no sábado, no domingo ficou temperando muitos quilos de carne para o nosso e dos empregados de lá.
No sábado ela trabalhou desde quando acordou até à noite, pois foi ela quem temperou e assou as carnes, com apenas um dos meninos auxiliando-a e no domingo fez a churrascada auxiliada por mais dois, portanto foi menos cansativo para ela.
À tarde enquanto nós mulheres nadávamos e os homens jogavam bola ela dormiu nas cadeiras da piscina até à hora em que o casal a trouxe.  
·        Ela esteve o tempo todo em no seu normal ou mostrou alguma preocupação?
·        Durante o churrasco de domingo ela pareceu-me meio cansada. Tinha trabalhado três semanas seguidas sem descanso.
·        Ela lhe pareceu cansada em ambos os dias?
·        Não. Só no domingo.
·        Cansada ou aborrecida?
·        Sei lá. Estava um pouco diferente, mas nada que chegasse a chamar atenção de ninguém.
·        Porque você achou-a diferente?
·        Porque eu a conhecia muito bem. Senti que ela estava um pouco fora de seu normal. Apenas isso.
·        O que significa ela estar fora de seu normal?
·        Como toda baiana ela sempre foi muito brincalhona, e naquele domingo logo ao iniciar nossa churrascada não a vi dar uma só risada.
·        E sobre o sumiço dela, quem lhe falou?
·        Foi o patrão. Ele reuniu-nos e contou ter dado queixa à polícia e todos nós fomos interrogados na época.
Foram até o sítio e lá souberam qual foi o casal que a trouxe e também o interrogaram, mas não descobriram nada de anormal na chácara e nem no carro do Dr. Claudio. Coisas como objetos dela ou até mesmo sangue para saber se houve algum acidente com ela.
Fizeram uma enorme verificação no carro e descobriram impressões digitais dela, o que ficou comprovado que ela realmente viajou naquele carro, mas não encontraram nenhum vestígio de que ela tenha sofrido qualquer mau trato dentro do veículo e que todo mundo estava limpo na história.
·        Quais foram mesmo as testemunhas que a viram chegar?
·        Já lhe disse, mas vou repetir. Tudo que a gente fala com a senhora logo depois já esqueceu.
·        Coisas da idade. Idosos são assim mesmo. Geralmente temos a memória ruim.
·        Quem deu o depoimento à policia de Santos, foi Sra. Zilda que voltava para São Paulo, com seu marido e duas empregadas do sítio.
Ela alegou ter passado em frente à casa da Mara, exatamente na hora em que ela estava abrindo sua bolsa para apanhar a chave e abrir a porta para entrar.
Ela informou que viu Dr. Claudio saindo com seu carro, com sua esposa dentro para continuarem viagem até o centro de Santos, e que até se despediram dela que passava naquele momento com um abano de mãos. 
Também acho que já lhe falei o que o delegado perguntou-lhe por que se ela ia passar na porta da casa de Mara, por que não a trouxe em seu carro ao invés de ter tido necessidade de outro se deslocar da chácara apenas para trazê-la?
Ela declarou que seu carro estava totalmente lotado, pois seu marido que se embriagara estava estirado no banco de trás com algumas malas, e no da frente estava até apertado com ela e as duas moças do sitio que foram para São Paulo, portanto não caberia mais ninguém.
As duas empregadas do sítio, em separado confirmaram tal depoimento exatamente conforme Dona Zilda havia falado.
·        E o marido dela falou algo diferente dela?
·        Ele disse nada ter presenciado, por estar dormindo durante toda a viagem.
Foi ela que desapareceu mesmo por que quis, depois de entregue pelo médico.
·        O médico mora no sítio e trabalha em seu hospital em Mongaguá não é?
·        Sim.
·        Então ele seria o menos indicado para trazer Mara. Veio até Santos apenas para trazê-la e voltar?
·        Soube que essa pergunta foi feita pelo delegado a ele, até agressivamente.
·        E então?
·        Já estou cansada de repetir o que já falei, portanto vou repetir só mais isso e encerrar nossa conversa.
·        Podemos parar de conversar sem necessidade de você repetir mais nada. Desculpe-me se a estou importunando tanto. Sou muito curiosa.
·        Já está no fim dessa história por isso vou terminar. Dr. Claudio e Sra. Silvia tinham algo particular a fazer em Santos na segunda pela manhã e para não saírem muito cedo do sítio, viajaram no domingo à noite e dormiram em um hotel.
·        Foi isso que disseram ao delegado?
·        Exatamente e inclusive provaram, pois foi verificado no hotel indicado suas permanências lá naquela noite e a presença deles em uma joalheria logo pela manhã onde compraram uma joia.
·        A conversa está boa, além de eu estar incomodando-a demais, por isso desculpe-me pela bisbilhotice e agora vou trabalhar duro para dar conta desses dois mil e quinhentos salgados que tenho de fazer entre hoje e amanhã.
·        Estou incumbida de lhe ajudar. Não só eu como também a Creuza. Bom serviço para nós.
·        Então vamos colocar logo nossas mãos na massa.
oooOooo
Nova noite em que Dona Rute ficou até tarde refletindo.
Achou estranho muita coisa que ouviu sobre o desaparecimento da antiga cozinheira.
Sua falta de alegria durante o domingo só pode ter sido por ter descoberto alguma coisa na chácara que não poderia ser vista e sem dúvida esse foi o motivo que decretou seu assassinato.
Dona Rute passou a ter certeza que ela havia sido morta e despareceram com seu corpo como fizeram com Lúcia e muitos outros maridos falidos.
Recordou que ela havia sido levada pelo médico que morava no sítio e trabalhava perto dele, por isso perguntava-se qual seria o verdadeiro motivo de ter sido exatamente ele a levar a cozinheira até Santos?
Será por que tinha mais prática em matar pessoas ou realmente tinha algo a fazer em Santos na manhã seguinte?
Conforme registro em um hotel, ficou determinado que ele dormiu com sua esposa a noite toda até na segunda pela manhã, quando saíram por ter de resolver algumas coisas de caráter pessoal.
O que seriam essas coisas? Ninguém soube, mas o fato de terem ficado hospedados naquele domingo à noite até o dia seguinte e comprado uma joia numa joalheria pela manhã, satisfez ao delegado, pois o registro no hotel e apresentação da nota fiscal da compra foram confirmados nos locais indicados.
Concluiu que a compra da joia foi o suficiente para o delegado aceitar como necessária e justificada sua viagem. Tal ingenuidade do policial deixou-a insatisfeita.
Os assuntos particulares em Santos era somente comprar uma joia? Isso poderia ser feito a qualquer hora do dia e não unicamente pela manhã obrigando-os a dormirem em um hotel, só para estarem cedo na loja.
O delegado não sabia, mas Dona Rute sim. As testemunhas que afirmaram ter visto o médico deixar Mara em sua casa foram gente do sítio, consequentemente pertencente à mesma quadrilha. Dona Zilda era uma das esposas amantíssimas que aos poucos matava seu marido João Bosco e as outras duas mulheres eram empregadas do sítio.
Sua mente prodigiosa já lhe dizia como tudo aconteceu.
O médico tinha saído bem antes dos demais levando Mara, portanto Dona Zilda quando passou perto da casa de Mara, não o teria visto deixando-a, pois inevitavelmente passaria muito tempo depois de ele tê-la entregue.
Consequentemente foi falso testemunho ter dito que viu Mara encaminhando-se para a porta de sua residência e de ter visto o médico afastando-se do local, até se cumprimentado.
Era impossível acontecer tal fato a menos que o médico tivesse demorado muito na viagem, ou que Dona Zilda tivesse corrido demasiado para chegarem praticamente juntos em uma viagem tão curta.
Ela levava duas empegadas do sítio suas cumplices e seu marido dormindo e ninguém da lanchonete.
A única pessoa decente entre os quatro, nada viu, nada testemunhou e nada declarou, por estar dormindo no banco traseiro do carro.
Pelo que Dona Rute já sabia sobre o bando, Dona Zilda era uma das maravilhosas esposas, com seu marido vítima dos golpes da quadrilha e como estava bêbado ou drogado foi levado dormindo, portanto nada presenciou conforme sua correta postura ao ser interrogado.
As outras duas passageiras do veículo cujos depoimentos, mesmo tendo sido feito em separado, foram iguais ao da condutora do veículo, pois estavam combinadas para dizerem exatamente as mesmas coisas.
Sua conclusão é que por Mara ter visto alguma coisa, que ela ainda iria descobrir, deveria ser assassinada e como esse crime seria executado pelo médico ele partiu com a cozinheira viva antes dos demais para que todos os vissem. Posteriormente com alguma desculpa qualquer voltou com ela para o sítio, onde já não havia mais nenhum convidado e nenhum empregado da lanchonete, matando-a fora do carro e escondendo seu cadáver no próprio sítio.
A seguir voltou com sua esposa para seu veiculo e fez a viagem até Santos apenas para dormir no hotel e comprar uma joia no outro dia para servir-lhe de álibi.
Os testemunhos já previamente combinados foram depoimentos de pessoas importantes, como era o caso do médico, de sua esposa Dra. Silvia, da senhora Zilda, casada com um alto funcionário de uma grande empresa em São Paulo e de duas empregadas do sítio. Todos sem nenhuma pendência com a polícia ou com a justiça, portanto totalmente confiáveis e o delegado que nada sabia sobre essa quadrilha, não tinha por que duvidar deles e simplesmente arquivou o processo e Mara foi para a lista de pessoas desaparecidas.
Dona Rute teria de ir ao sítio descobrir toda a verdade.
Ainda precisava descobrir como ir lá e não ser reconhecida, por isso recusou-se em ir nesse final de semana, enquanto arquitetava um plano para poder chegar lá sem correr riscos só na próxima festa.  
Entendeu definitivamente que Sr. João, proprietário da lanchonete não fazia parte da quadrilha, pois senão não colocaria a polícia para investigar o sumiço da empregada, pondo em perigo os criminosos que certamente seria o pessoal de Roger.
Ele simplesmente poderia inventar qualquer desculpa para os funcionários dizendo que ela tinha saído do serviço, voltado para a Bahia e ponto final.
Não falaria nada a eles sobre seu desaparecimento e muito menos à polícia e ninguém reclamaria de nada, pois pelo que se sabia ela nunca falou ter família nem em Santos nem no nordeste do país.
Dona Rute concluiu que pelo fato dos demais funcionários falarem tão abertamente com ela, uma praticamente estranha entre eles, isentou-os também de qualquer cumplicidade com o pessoal do sítio.  
Nessa noite ainda pensava como fazer para passar despercebida na chácara quando subitamente veio-lhe a mente o óbvio, que apesar de ser a forma mais simples de se resolver as coisas, infelizmente sempre é mais difícil de perceber.
Faria nesse final de semana que teria folga o que concluíra, pois já havia combinado com o patrão que não iria ao sítio fazer serviço extra, mas que na próxima festa ela compareceria sem nenhuma dúvida.
No sábado procurou um salão de beleza e cortou seus cabelos bem mais curtos que o costume, tingiu-os de outra cor, retirou suas sobrancelhas fazendo outras com outro formato com maquilagem definitiva, fixa como tatuagem. Pintou as unhas com cores da moda e realmente ficou bem diferente de como era.
Deixou de ser uma senhora morena e gorda e transformou-se em uma senhora ruiva com aparência de menos idade, principalmente por apertar sua barriga com uma cinta.
Ela lembrou que Norma fizera o mesmo e ela a reconheceu de imediato, entretanto ela sabia muito bem como era seu rosto anterior de tanto verificar suas fotos ampliadas pelo amigo que a transformou empregando Photoshop.
Em relação à si própria sua mudança radical não seria percebida por pessoas que se a viram fora já há alguns meses e sem nenhum interesse em guardar suas feições, pois eles vigiavam somente Lúcia, que com certeza até já conheciam, pois ela fora fotografada anteriormente exatamente para ser facilmente reconhecida e vigiada.
Foi trabalhar na segunda feira, com batom nos lábios e com o rosto pintado, além de sombras sob os olhos.
Nem o patrão e seus colegas a reconheceram de imediato, pois, além da transformação facial, a liga na cintura escondeu sua barriguinha proeminente.
Transformou-se de fato em outra pessoa e assim trabalhou bastante modificada até para a alegria do patrão que a viu bem atraente, o que originalmente ela não era.
Na terça feira foi chamada por um atendente que a avisou que uma senhora estava chamando-a na mesa onde lanchava, e ela sabendo de quem se tratava, titubeante foi saber o que Norma queria.
Talvez alguma reclamação, pensou.
·        A senhora é a nova cozinheira e quituteira daqui?
·        Sim senhora.
·        Os petiscos que foram enviados para meu sítio nesse final de semana foram feitos pela senhora?
·        Creio que sim. Fiz dois mil salgadinhos entre quinta e sexta feira passada, além do habitual, mas não soube qual fora o destino eles.
·        Realmente estavam maravilhosos assim como os que estou lanchando agora.
·        Agradeço o elogio. Vim receosa com medo de ser alguma reclamação.
·        Reclamação, jamais receberá com esse seu tempero delicioso. Pode ficar calma que nada tenho contra a senhora.
·        Obrigada mais uma vez.
·        Qual o seu nome?
·        Rute. E qual é o da senhora?
·        Sou Norma e esse é meu marido Roger e tenho uma proposta a lhe fazer.
·        Qual proposta, senhora?
·        Eu lhe pago o dobro que ganha aqui e dou-lhe casa para morar se for cozinhar para mim no meu sítio.
·        É uma proposta bastante tentadora, mas...
·        Sabe dirigir carro?
·        Sim. Sou um pouco barbeira, mas sei.
·        Então minha proposta será mais tentadora ainda se eu lhe der um carro para ir aonde quiser em seus dois dias semanais de folga, que serão todos os sábados e domingos. É um Fiat palio quase novo e será seu de papel passado.
·        Minhas folgas serão justamente nos dias em que a senhora faz festas e mais precisa de trabalhadores?
·        Sim. Nesses dias o pessoal daqui da lanchonete são contratadas para nos servir e a senhora poderá ausentar-se desde sexta feira a noite para ir visitar sua família e só regressar na segunda pela manhã.
·        Entendi. Posso dar-lhe a resposta depois?
·        Não precisa ser agora. Amanhã à tarde voltarei para saber o que decidiu. Está bem assim?
·        Perfeitamente. Amanhã darei minha resposta definitiva.
·        A senhora é ruiva de nascença, Dona Rute?
·        Não. Para ser sincera nem me lembro mais qual era a cor original de meus cabelos, pois assim como não fico muito tempo no mesmo serviço, tenho a mania de modificar meus cabelos constantemente. Na próxima ida à cabeleireira tenho intenção de pintá-los de azul.
·        Azul?
·        Sim. Creio que ficarei linda de cabelos azuis.
·        Talvez.
·        Então até amanhã.
·        Até.
Outra noite que Dona Rute não dormiu direito pensando nos prós e nos contras em ir morar no sítio.
Financeiramente os prós eram enormes, mas rapidamente chegou a conclusão que os contras eram muito maiores, mesmo porque sua ida para Santos, não necessariamente fora para ganhar dinheiro, e sim para descobrir os assassinos de sua amiga Lúcia e de muitas outras pessoas.
Se aceitasse o emprego iria morar exatamente dentro de uma jaula cheia de animais ferozes por todos os lados, pois considerava aquela gente como verdadeiras feras assassinas.
Não teria como investigar absolutamente nada e ninguém, pois todos lá eram cúmplices e nada falariam e ela correria sério perigo de ser assassinada e ter seu corpo destruído como os demais que nunca apareceram.
Sua filha e netos sequer saberiam onde ela estava, mas isso seria resolvido bastando um simples telefonema dizendo onde iria morar e forneceria o endereço da lanchonete para os levarem ao sitio caso fosse preciso.
O detetive Grozzi, seu ex-marido também poderia ser informado, mas só iriam procurá-la depois de desaparecida e isso era tudo o que ela não queria.
Simplesmente morrer e desaparecer para os outros procurarem-na e até nem a encontrarem e sem nenhuma prova para incriminar a quadrilha que só ela sabia da existência.
Definitivamente ela não poderia aceitar a proposta tentadora, porém terrivelmente muito mais ameaçadora.
No dia seguinte conforme combinado respondeu a Norma que sua decisão era de não aceitar.
·        Por quê? Então eu lhe ofereço o triplo do que ganha. O que acha?
·        Senhora...
·        Norma.
·        Sim. Desculpe-me por ter esquecido seu nome.
·        São coisas da idade. Os mais velhos sempre tem esse pequeno defeito do esquecimento.
·        Exatamente. Não fujo a regra. Sou horrorosamente esquecida e minha memória vive falhando sempre.
Senhora Norma. Voltando ao assunto eu não gosto de ter vínculo com nenhum emprego.
Ao mesmo tempo em que estou aqui, de repente decido ir para o Rio de Janeiro ou Maceió e simplesmente vou.
Há alguns meses eu morava em São Paulo onde tenho filha e netos além de um ex-marido muito amigo. Posso a qualquer momento resolver voltar, portanto não gosto de assumir obrigação com ninguém.
·        Mas aqui não está compromissada com seu patrão?
·        Não. Eu própria não quis assinar contrato de trabalho e nem registrar carteira.
·        Faremos o mesmo. Você sai na hora que quiser.
·        É muito mais complicado.
·        Por quê?
·        Porque o Sr. João, aqui na cidade, poderá contratar outra funcionária assim que eu decidir sair e a senhora morando em um sítio afastado não terá a mesma condição e ficará muito difícil para eu abandoná-la.
·        Não se preocupe com meus problemas. Neles penso e resolvo eu.
·        Sempre me preocupo com um compromisso assumido, se assumir.
Pense bem. A senhora propôs-me dar um carro e como fica se eu trabalhar um mês e resolver sair?
·        Se for o caso devolva-me o carro. Simples não?
·        E minha consciência? Como fica? Posso ficar tentada a não fazer o que pretendo de uma hora para outra para continuar possuidora do carro.
·        Se esse é o problema não lhe ofereço o veículo e está resolvido.
·        Mesmo sem ele e sem assinar contrato não deixa de ser um excelente emprego e como já sou velha sentir tal estresse por perder o que praticamente já tinha pode ser-me prejudicial a saúde e inclusive fatal. Acho que a senhora deveria entender e aceitar minha recusa.
·        Tudo bem. Já que não quer mesmo então aceito, mas pelo menos fique aqui na lanchonete por um tempo grande, pois assim poderei saborear sua comida não só aqui como em minhas festas e continuar insistindo em levá-la para o sítio até conseguir.
·        Fique tranquila que enquanto eu estiver nessa rotisserie a senhora se alimentará muito com minha comida.
A propósito disso, posso assegurá-la que quando eu for com os outros funcionários servi-la em seu sítio, pois já soube que normalmente não fazem nenhum serviço durante todo o dia de domingo, eu posso nesse dia ocioso temperar e preparar muita coisa gostosa, congelando-a para ficar lá e a senhora saborear durante a semana seguinte.
·        Então está combinado assim.
·        Muito obrigada pela oferta quase irrecusável que infelizmente estou recusando.
·        João é mesmo um homem de sorte. Conseguir uma cozinheira como à senhora.
·        Na verdade eu trabalho sempre como faxineira, exatamente para trabalhar apenas nos dias que quero, mas como aqui tem poucas famílias que contratam esse tipo de diarista foi o motivo que aceitei o emprego mensal do Sr. João.
·        A senhora tem uma ótima mão no preparo dos alimentos. Deveria trabalhar só como cozinheira e não como faxineira.
·        Obrigada pelo elogio, mas faço de tudo um pouco. Posso retirar-me?
·        À vontade.
·        Então até sua próxima festa.
·        Antes disso ainda nos veremos, pois costumo alimentar-me aqui quando venho à Santos.
·        De qualquer maneira em sua próxima festa estarei em seu sítio.
·        Então até breve.
·        Passe bem senhora... Norma e senhor...Roque?
·        Roger. Esse é meu nome senhora.
·        Passe bem senhor Roger e desculpe-me por ter confundido seu nome e saibam que os achei muito simpáticos e atenciosos, além de bonitos é claro.
·        Obrigado Dona Rute. O mesmo achamos da senhora.
oooOooo
Ao contrário do que acontece às pessoas idosas, a memória, a inteligência e o raciocínio de Dona Rute eram excelentes, mas fazia-se de desentendida e esquecida propositadamente, para conseguir iludir as pessoas com as quais conversava tirando-lhes informações importantes que ela gravava muito bem em seu intelecto privilegiado.
No final dessa semana, com Dona Rute já totalmente aceita com seu novo visual pelos colegas de trabalho e pelos clientes, viajou para São Paulo, pois além de não ter havido festa no sítio já fazia vários dias que ela não visitava sua família.
Estava encomendada com Sr. João para o próximo final de semana outra grande festa na qual ela não faltaria.
Dona Rute não foi reconhecida por quase ninguém em seu bairro e até assustou sua filha quando apareceu dentro de casa conforme se apresentava atualmente.
A primeira coisa que fez foi descalçar-se das sandálias de salto e colocar seus chinelinhos confortáveis.
Tirou a cinta que lhe apertava a barriga e felizes suas banhas saltaram para o lugar de origem. Depois ela lavou e esfregou seu rosto para desaparecer com a maquiagem.
Procurou um salão de beleza na vila e modificou a cor dos cabelos para castanho, pois a cor vermelha que a mostrava ruiva estava muito chamativa.
As sobrancelhas haviam sido feitas em definitivo, propositadamente em marrom claro para combinar com várias cores de cabelo.
Foi o que pode fazer para voltar a ser mais ou menos a mesma Dona Rute de antes.
Telefonou ao detetive Grozzi e o convidou para jantar.
Após jantarem contou-lhe tudo que descobriu e foi alertada em procurar a delegacia que havia arquivado o processo do desaparecimento de Lúcia.
Ela disse que não faria isso, pois sabia de muita sujeira que acontece naquele sítio e que os crimes teriam sido vários, além dos golpes milionários que aplicam lá e precisava descobrir tudo, antes de denunciá-los, com provas irrefutáveis.
Pediu que o detetive pesquisasse onde moram Miriam Benetti Croce Brandit e seu marido Tadeu, assim como vasculhasse com mais intensidade sobre todos os demais que já eram conhecidos.
·        Tadeu do que?
·        Não sei o nome completo. Apenas Tadeu.
·        Sabendo apenas esse nome não será possível fazer nada, e a tal Miriam embora você tenha me fornecido o nome completo não deve ter nada em seu nome por se tratar de um nome falso, portanto sem registro oficial. Vou tentar localizar alguma coisa com seu nome anterior. Como é o nome completo dela quando era homem?
·        Só sei que era Sergio, mas como a mãe chamava-se Lúcia Aparecida da Silva e era mãe solteira, ele deve ser Sergio da Silva.
·        Muito vago. Pode ser Sergio qualquer outro nome e depois da Silva. Pode até ter outro nome antes de Sergio. Vou verificar o que posso encontrar.
Como Sergio da Silva deve ter um montão, mas se encontrar alguma coisa ligo para seu celular assim que descobrir algo.
·        Não faça isso. Jamais ligue para meu celular, pois posso estar em local em que não possamos conversar. Deixe que eu telefono para você, dia sim e dia não, sempre que eu estiver sozinha e todas as vezes será de orelhão a cobrar e vou identificar-me simplesmente como “Sou eu outra vez”, para nunca ser identificada.
·        Quem é o detetive? Eu ou você? É mais ardilosa e esperta que eu.
·        Agradeço o elogio e o aceito.
Deu para sua filha e para o detetive seu endereço do albergue onde mora em Santos e da casa de lanches onde trabalha e despediu-se da filha, dos netos e de seu ex-marido, seu atual grande amigo e confidente e foi dormir.
No domingo pela manhã preparou um delicioso almoço para seus parentes e voltou à tarde para Santos com sua maquiagem, suas sandálias de saltos altos e sua cinta apertada para parecer magra.
Segunda feira foi trabalhar normalmente e após ser elogiada pela nova cor dos cabelos, seu patrão avisou-a que deveria ir fazendo e congelando petiscos para serem servidos na festa do sitio do senhor Roger no próximo final de semana.
Também lhe foi perguntado se não haveria realmente nenhum inconveniente em ela ir servi-los junto aos outros funcionários e sua resposta foi a plena concordância.
A semana passou tranquila, pois Dona Rute já havia arquitetado seu plano para entrar no sitio, sem ser muito questionada pelos seguranças do local, que geralmente eram bastante rudes ao interrogarem os funcionários da casa de lanches quando não eram conhecidos por estar indo pela primeira vez. Isso ela já sabia através dos colegas.
Telefonou a cobrar ao detetive Grozzi e soube que sua filha e netos estavam bem e que ele nada encontrou em nome de Miriam Benetti Croce Brandit.
Ele disse que descobriu uma quantidade enorme de Sergio da Silva e muitos tinham como filiação, Lúcia Aparecida da Silva, casadas com maridos que também tinham o nome da Silva.
Alguns foram encontrados como sendo filhos de mães solteiras chamadas Lúcia Aparecida da Silva, mas apenas três correspondiam a idade aproximada do Sergio que atualmente atende por Miriam.
Dois foram descartados de imediato por serem afros descendentes, portanto não seria o Serginho procurado e o último era um professor na USP, muito bem conceituado e realmente homem e casado, consequentemente também descartado.
Nada foi encontrado na capital paulista em nome de possíveis Sergio/Miriam.
Nas mesmas pesquisas também nada descobriu em nome de Álvaro da Silva, filho de mãe solteira chamada Lúcia Aparecida da Silva e tampouco em nome de Carlos Benetti Croce Brandit, seu atual nome.
Roger Stern Silvense não apareceu em nenhuma pesquisa, pois era um nome falso e sem registro em lugar nenhum. Seu anterior nome Sandro de Assis, como os demais já tinha sido procurado pela policia anteriormente e só descobriram aquele apartamento em que morava com sua namorada Norma, antes de fugir e nada mais. Nenhuma ficha na polícia.
Em nome de Norma Suellen Arruda não foi encontrado nenhum bem adquirido e nem problemas com a polícia e com a justiça.
Explicou a Dona Rute, que possivelmente eles teriam algum outro nome falso, apenas para efetuar seus negócios, cujos nomes não eram do conhecimento de ninguém e por serem falsos não estariam registrados em nenhum órgão identificador.
A preocupação do detetive com Dona Rute era grande por isso ele se prontificou em descer a serra para estar com ela em Santos, mas foi proibido de aparecer por lá sob nenhum pretexto, pois com certeza estragaria todo o plano dela em descobrir onde se esconde a quadrilha de assassinos.
Nessa mesma terça feira, Norma apareceu no final da tarde na rotisserie com Roger, Carlos e sua mulher Vera.
Dona Rute foi até sua mesa informa-la que no final dessa semana iria com seus colegas ao sítio dela, mas que entre os alimentos, ela iria levar-lhe algo que fará especialmente para seu almoço.
Que gostaria de prepará-los na cozinha da casa e não na da piscina junto com os demais alimentos contratados, que geralmente eram os petiscos, além das carnes para o costumeiro churrasco, cujos temperos e odores poderiam modificar os de seus pratos exclusivos com temperos amenos  e não fortes como os das carnes e nem impregnar-se com a gordura das frituras.
·        Vou dar ordens para meus trabalhadores mandarem a Van que a senhora irá, para eu recebê-la pessoalmente em minha residência.
·        Obrigada senhora Norma. Ficarei feliz em presenteá-la com algumas lagostas e um faisão preparados a minha moda.
·        E eu mais ainda, pois tais comidas estão entre os pratos que mais aprecio.
Paleta de Javali ao Molho de Ervas e Centolla em Folhas de Endívia a senhora sabe preparar?
·        Com certeza e ficarão ótimos quando a carne do javali e o molusco Centolla forem preparados com vinagre balsâmico envelhecido por pelo menos setenta e cinco anos em Modena na Itália, com açafrão iraniano, azeite extra virgem grego e salgado com flor de sal defumado da França.
·        Nossa. Quanto conhecimento culinário internacional o senhora sabe?
·        Aprendi usar esses caríssimos ingredientes na casa de um francês bilionário em que trabalhei há muito tempo, pois a família gostava da gastronomia internacional chique.
·        Depois você me dá uma lista completa com os temperos importantes que conhece e pode deixar que os importarei para a senhora preparar minhas carnes aos domingos.
·        Farei com todo prazer e carinho.
·        Ia esquecendo de dizer-lhe que estou achando-a muito melhor com essa cor de cabelos, pois sinceramente não achei que tinha ficado bom quando estava ruiva e creio que ficaria mais extravagante ainda se os pintasse de azuis como havia dito.
·        Foi o pessoal de minha casa quem me convenceu de pintá-los de castanho nesse final de semana que estive lá. Eu iria pintá-los de azuis ou de verdes, mas minha filha, meus netos e meu ex-companheiro exigiram-me voltar às origens e disserem que essa era a cor certa de quando eu tinha bem menos idade e para não aborrecê-los os satisfiz e o pior é que prometi-lhes que irei mantê-los sempre castanhos.
Acho que não vou cumprir a promessa e vou deixa-los sem pintura para voltarem a cor natural, que não serão mais castanhos, pois já ficaram brancos com a idade.
·        Tenho certeza que ficará bonita se estiverem totalmente brancos, mas mesmo mesclados com castanhos ficará muito bom.
A conversa entre elas foi apenas isso, pois era exatamente tudo que Dona Rute pretendia.
Quando fosse ao sítio ser atendida diretamente por Norma, pois a patroa ficando amiga dela, ela estaria livre de perguntas impertinentes de seus capangas.
Havia consultado tais temperos na internet, em seu notebook escondido na hospedaria onde ficava e não era do conhecimento de ninguém que ela tivesse e soubesse usar computadores. Esse predicado só era sabido pelo detetive Grozzi.
Alguma coisa sobre ela, sua filha sabia um pouco, entretanto ela desconhecia suas atividades como investigadora cuja atividade era apenas por intuição e desejo para satisfazer seu ego, pois adorava Miss Marple e se sentia a própria.
Chegado o dia de ela estar no sítio aconteceu como previsto, pois logo que as duas Vans da rotisserie chegaram um dos guardas do portão de entrada foi perguntando em qual das vans estava Dona Rute e ao saber disse ao motorista para ir direto a casa central, entretanto todos os vigilantes olharam para todos os passageiros e o que parecia ser o chefe perguntou, encarando Dona Rute:
·        É a senhora a Dona Rute?
·        Sim. Sou eu.
·        Prazer em conhecê-la. É sua primeira vez que vem aqui não?
·        Nunca estive antes.
·        Estou vendo que todos são conhecidos menos a senhora. É amiga dos patrões não é?
·        Sim. Somos amigos. Principalmente de Dona Norma e do senhor Roger.
·        Desçam todos e você motorista vá em frente e deixe Dona Rute na casa da patroa e volte logo trazendo os alimentos para cá.
Quem conversou com Dona Rute era um dos homens que ela viu várias vezes rondando a casa da Dra. Lúcia e ela teve certeza durante a conversa que ele não a reconheceu, assim como os outros três que olharam dentro do veículo, examinando todas as pessoas.
Dona Rute estava sentada na frente do carro ao lado do motorista e pouco antes de entrarem havia mexido no retrovisor para ela ter condições de olhar por ele enquanto seguiam e viu que as reações dos bandidos foram normais e ela não teve dúvidas de que nenhum deles a reconheceu.
Daqueles quatro homens ela estava livre. Faltavam apenas duas mulheres para estar frente a frente para saber se não correria nenhum perigo de ser reconhecida e provavelmente assassinada.
O veículo deixou Dona Rute com um enorme baú onde levava suas comidas e voltou imediatamente com as demais encomendas.
Foi recebida na entrada da casa principal pela própria Norma e outra mulher que lhe foi apresentada como sendo Miriam. Ela já tinha visto com o irmão Carlos uma única vez, mas jamais haviam sido apresentadas.
Dentro da casa estavam a sua frente os casais Norma e Roger, Carlos e Vera, Miriam e Tadeu.
Exatamente todos os membros principais da quadrilha de criminosos com exceção de Tadeu, que era apenas um dos maridos vítimas.
Dona Rute estava carregando o almoço que ela deveria terminar o preparo na própria casa e por esse motivo Norma chamou sua cozinheira e a ajudante, para apresentá-las e colocá-las a disposição dela no preparo de seu almoço.
Eram justamente as duas mulheres que ela viu vigiando Lúcia, além dos quatro homens.
Tinha finalmente chegado o momento crucial.
Quando uma das mulheres encarou-a ela estremeceu, pois teve certeza ser reconhecida por ela que lhe disse:
·        Eu a conheço.
·        Deve tratar-se de algum engano seu, menina, pois eu tenho certeza de nunca tê-la visto antes.
Nesse momento Dona Rute viu-se desmascarada e sentiu seu final trágico, entretanto sua única opção era continuar o restante da conversa entre elas mantendo a calma que sempre lhe foi peculiar.
·        A senhora não mora na vila Paraiso de São Sebastião?
·        Sim. Moro lá há muitos anos.
·        Pois é de lá que a conheço, pois também morei lá quando era pré-adolescente e como cresci e me transformei em adulta a senhora não está me reconhecendo.
·        Então é isso.
·        A senhora não mudou nada de quando eu a via lá.
·        Estou bem mais velha, mas atualmente fiz uns retoques nos cabelos e na maquilagem e estou realmente parecendo mais nova. Talvez só um pouco mais velha de como eu era quando você me via lá na vila.
·        Tem mais de vinte anos que saí de lá.
·        Então faz bastante tempo que não nos vemos não?
·        Sim. Mais de duas décadas.
·        Que família você pertence?
·        Pena Souza. Meu pai era Airton Pena Souza e minha mãe Gracinha Mendes Souza, mas quando ela ficou viúva sumiu deixando eu e meus irmãos abandonados lá. Acabamos rodando por várias cidades até virmos para o litoral. Meus dois irmãos também trabalham aqui. Eles são segurança. A senhora deve ter passado por eles ao chegar.
·        Se são segurança, com certeza sim.
·        Então acho que nenhum deles se lembrou da senhora, pois um é mais novo que eu e naquela época era apenas um garotinho. O outro, o Gilfredo é bem mais velho e é o chefe de todos, mas acho que talvez nem a tenha conhecido quando morávamos na Vila. Ele já era adulto naquele época e tinha muitos afazeres lá.
·        Entendo. Vamos para a cozinha iniciarmos o almoço para a família?
·        A senhora lembra-se de meus pais?
·        Infelizmente não me recordo nada nem de um nem de outro e também de você que possivelmente mudou bastante de quando era pré-adolescente e mais ainda seu irmão caçula.
O mais velho deve ter sido o segurança que conversou comigo ao chegarmos, mas também dele não me lembro de absolutamente nada.
Quem entrou na conversa, foi Norma que disse que tal almoço seria servido apenas para ela, Roger, Carlos, Vera, Miriam e Tadeu.
Solicitou a sua ajudante de cozinha, que gelasse champanhe e cubos de gelo de água de côco para serem usados no uísque durante o almoço.
Informou que os demais convidados não participariam do almoço e permaneceriam na piscina com o tradicional churrasco, salgadinhos, cachaça, vinho e chope, entretanto falou para Dona Rute:
·        Venha comigo até o escritório que primeiro quero ter uma conversinha com a senhora.
·        Sim senhora.
Subiram uma escadaria de granito e foram até o rico e sofisticado escritório de Norma que lhe perguntou repentinamente:
·        Qual era sua atividade na vila há vinte anos?
·        Dona de casa.
·        Como assim?
·        Eu cuidava de minha filha, na época adolescente e de meu marido.
·        E seu marido o que fazia?
·        Trabalhava.
·        Para quem e fazia o que?
·        A senhora sabe o que era aquela vila antes de ser reconstruída?
·        Sim. Sei perfeitamente. Era um reduto de bandidos violentos que trabalhavam para um tal Tião que era o Manda-Chuva do lugar.
·        Pois é.
·        Pois é o que?
·        Meu marido, como os demais homens era ladrão e criminoso.
·        E a senhora não era?
·        Não. Quando eu o conheci não sabia de suas atividades desonestas.
·        Quando soube?
·        Quando minha filha estava com doze anos.
·        Como assim?
·        Ele disse-me que deveríamos mudar do Ipiranga para uma determinada vila na Vila Maria, mas não disse por que.
·        Então a senhora simplesmente o acompanhou não foi?
·        Exatamente. Eu nada sabia, o amava e precisava dele para cuidar da menina, pois naquela época eu não tinha nenhuma profissão e nem precisava, pois ele nos supria em todas nossas necessidades.
·        Roubando e matando?
·        Eu não sabia de nada.
·        Como ficou sabendo sobre as atividades ilícitas dele?
·        Já morávamos na vila onde via mais homens que mulheres e logo nos primeiros meses eu comecei desconfiar de todos, pois eram mal encarados e atrevidos.
·        Mas mora lá até hoje.
·        Não. Não foi o tempo todo que morei lá.
·        O que tem a contar?
·        Naquela época eu apertei-o e ele confessou que era um ladrão e já matara muitas vezes por dinheiro e como estava sendo perseguido no Ipiranga onde morávamos não tinha alternativa em se refugiar na tal vila onde a polícia não entrava, pois a quantidade de ladrões comandados por um tal Tião era tão grande que assustava qualquer delegado.
·        Se a senhora não compartilhava com ele de seus feitos por que continuou com ele?
·        No mesmo instante que soube, o que eu mais queria era sumir de lá com minha filha, mas não tinha como sobreviver, por isso fui praticamente forçada a continuar com ele, entretanto mesmo desagradando-o fui trabalhar em um restaurante para aprender a profissão de cozinheira para poder desaparecer de lá.
·        Trabalhou em algum restaurante lá mesmo?
·        Sim. Minha intenção era aprender uma atividade qualquer e sumir de perto dele e daquela vila para sempre, levando minha menina para educá-la de maneira honesta.
·        Foi assim que aprendeu cozinhar?
·        Não. Poucos dias depois meu marido disse que ia entregar nossa menina para uma noite de amor com o Tião. Que isso daria status a ele, além de muito dinheiro e presentes à ela.
·        Eu soube que tudo isso era normal lá. Então aconteceu com sua filha? Ela foi uma das donzelas do Tião?
·        Não aconteceu nada disso, pois eu dei-lhe uma panelada na cabeça, desmaiando-o e sumi com minha filha para o Paraná.
·        Tinha dinheiro para isso?
·        Não. Foi a única vez que roubei. Tirei todo o dinheiro que ele tinha no bolso e também tive que me prostituir duas vezes na estrada até conseguir chegar em Maringá.
·        Tudo isso aconteceu com a senhora?
·         Sim. Infelizmente sim. Mas meus únicos deslizes em toda minha vida foram aquele ataque ao meu marido, aquele único roubo e duas únicas vezes que usei meu corpo por dinheiro e absolutamente mais nada de errado fiz durante toda minha vida.
Em Maringá trabalhando como doméstica eu aprendi cozinhar, lavar, passar, etc., pois eram as únicas coisas que uma mulher sem estudos poderia fazer, mas valeu a pena, pois criei corretamente minha filha até ela se casar decentemente com um bom homem.
·        E como foi parar novamente na Vila Maria?
·        Muitos anos depois, soube de uma guerra entre os traficantes de drogas que moravam numa parte da vila contra os bandidos de Tião. Os traficantes praticamente acabaram com todos os ladrões e assassinos, inclusive meu marido.
·        Daí a senhora voltou para sua casa na vila?
·        Não. Tal guerra entre as quadrilhas foi durante a maior tempestade que São Paulo jamais viu. Tudo ficou destruído naquela vila.
Passaram-se uns tempos e apareceu o professor Zinho, que conforme fiquei sabendo era um médico muito rico e que era o filho roubado nenê do tal Tião. Ele reconstruiu a vila, doando terrenos e ajudando as pessoas de bem construírem suas casas para lá morarem.
Nessa ocasião, como eu me sentia demais na pequena casa de minha filha, com seu marido e os três filhos, decidi procurar novamente a vila que já tinha o nome de vila Paraiso de São Sebastião, conseguido pelo professor em homenagem ao pai.
Lá realmente tinha se transformado em um lugar decente e consegui construir minha casa e vivo lá até hoje, salvo quando dou umas fugidinhas para mudar de ares, como é o caso atual.
·        Parece-me que ouvi você dizer que sua filha e seus netos moram com você. Entendi errado?
·        Não. Eu construí minha casa na vila e morava só, mas infelizmente ela ficou viúva faz uns cinco anos e eu a levei para morar comigo.
·        E o seu ex-companheiro também mora lá?
·        Não. Ele mora na Vila Maria mesmo, onde trabalha, mas é em outro local até longe de lá.
·        Por que ele é seu ex?
·        Porque ele é muito mulherengo e eu me separei dele por isso. Vivi amasiada com Alexandre mais ou menos uns seis meses apenas, mas continuamos nos vendo como amigos que somos atualmente.
·        O nome dele é Alexandre?
·        Sim.
Dona Norma falou apenas o primeiro nome do detetive, pois ninguém o conhece por Alexandre nem na corporação onde só é chamado por detetive Grozzi e tão pouco pela mídia ou pelos diversos bandidos que ele prendeu e continuou falando:
·        Ele me ajuda e muito sem nenhum compromisso com carinho para comigo, com minha filha e meus netos. Se algum dia ele parar de ser mulherengo eu até volto a me deitar com ele, pois gosto muito dele.
·        Pare de chorar e vá para a cozinha fazer meu delicioso almoço.
·        Desculpe-me se a aborreci com minha história.
·        Muito pelo contrário. Fiquei emocionada e imensamente satisfeita em saber que estou lidando com uma pessoa decente e honesta. É com pessoas assim que gosto de conviver.
·        Então com licença. Vou para a cozinha.
·        Sucesso nos pratos prometidos.
·        Pode ter certeza que adorará.
Toda a história contada era verdade, portanto o choro pelas amargas lembranças também, por isso Dona Rute foi para a cozinha enxugando as lágrimas verdadeiras.
Enquanto foi se lavar na toalete, ficou pensando em toda a conversa com Norma e concluiu que ela não ficara nada satisfeita com sua história embora tivesse dito o que disse.
Dona Rute entendeu que Norma sabedora que todos os antigos moradores daquele local na Vila Maria eram pessoas desonestas queria saber quais eram suas atividades ilícitas para induzi-la em unir-se a ela e seu bando.
Entretanto nada mudou em suas relações, nem para melhor nem para pior, portanto estava tudo correndo bem, principalmente por Dona Rute saber que todas as seis pessoas que poderiam reconhecê-la até aquele momento não conseguiram descobri-la como amiga da Lúcia, raptada e assassinada por eles.
Após duas horas de trabalho ela sentiu-se totalmente segura, pois em momento algum correu o risco de ser reconhecida pelas mulheres que estavam com ela trabalhando e conversando.
Se elas que estavam em contato direto, além de serem mais observadoras não tinham reconhecido nela nenhum traço da faxineira que trabalhava na casa de Doutora Lúcia, com certeza os homens muito menos observadores iriam reconhecer.
Sabia que nessa hora, sua filha, seus netos e principalmente seu ex-companheiro estariam muito preocupados e sabendo dos rompantes do detetive Grozzi, resolveu telefonar de seu celular para ele, antes que ele fizesse o mesmo e acabasse prejudicando-a.
Telefonou na presença das empregadas e falou:
·        Alô meu amigo. Sou eu Rute. Tudo bem com você? Minha filha e meus netos estão todos bem?
Ouviu sua resposta e tornou a falar:
·        Estou trabalhando em um sítio maravilhoso aqui na baixada santista desde oito horas da manhã. Está tudo bem comigo e vou permanecer aqui até amanhã a noite quando me levarão de volta para Santos.
Assim que eu chegar ao albergue volto a telefonar para contar-lhe sobre as maravilhas que passarei aqui.
O local é cinematográfico. Simplesmente lindo e todas as pessoas são ótimas e estão me tratando maravilhosamente.
Tudo é muito bem cuidado e mesmo eu sendo velha não corro perigo de nenhum tipo de acidente, pois não há mar, represas e nem abismos por perto para eu cair, pois sei que se preocupa demais com minhas repentinas tonturas. Fique sossegado e tranquilize minha filha e os meninos, pois tudo está correndo bem e continuará assim.
Ouviu mais alguma coisa rápida ao telefone e despediu, avisando-o novamente para ele não lhe telefonar, pois no dia seguinte à noite ela voltaria a ligar para ele e desligou o aparelho.
Foi direto para o banheiro e propositadamente jogou o celular no vaso sanitário e deixou-o mergulhado na água alguns minutos e depois foi a cozinha, com ele totalmente estragado nas mãos informando o acidente às ajudantes.
Estava livre de roubarem-no e descobrirem o número do telefone de seu amigo detetive, ao mesmo tempo em que não mais corria o risco de ele telefonar-lhe preocupado.
Terminado seu trabalho na preparação do almoço às seis pessoas que participariam dele, ela foi até a piscina auxiliar no churrasco dos convidados e lá permaneceu auxiliando o pessoal da lanchonete que já tinha se incumbido dessa tarefa.
Ficou ajudando na entrega do churrasco e das bebidas, ao mesmo tempo em que pensava impaciente como desvendar o sumiço dos corpos das pessoas assassinadas e veio-lhe a ideia de ver a câmara frigorifica.
Imaginou que lá seria um ótimo lugar para se guardar um defunto a exemplo dos necrotérios e chamou um dos vigilantes para leva-la até lá para apanhar mais carne, por que pretendia temperá-las de maneira diferente de como os churrasqueiros brasileiros haviam temperado as que estavam sendo assadas.
A notícia da maravilhosa refeição que fora servida dentro da casa séde havia se espalhado, por isso tal vigilante decidiu que deveria experimentar o tempero de Dona Rute e levou-a até a câmara frigorífica, mas não a deixou entrar nem na antecâmara.
Ela permaneceu do lado de fora enquanto ele apanhava um traseiro de boi e um porco pequeno inteiro.
Entretanto ele não havia percebido que a curiosa Dona Rute havia olhado muito bem quando ele abriu às portas que davam acesso a câmara frigorífica quando entrou.
Antes de ele fechar a porta atrás de si por dentro da antecâmara ela havia visto duas portas distintas, uma ao lado da outra, o que lhe fez entender que o compartimento principal formava uma câmara frigorífica dupla, melhor dizendo, repartida.
Por que seria repartida? Concluiu que um lado seria para o congelamento das carnes bovinas e suínas e a outra para guardar defuntos.
Seria assim que os corpos sumiam? Perguntava-se insistentemente enquanto olhava o vigilante desossando as carnes já do lado de fora, em um local apropriado para isso. Terminado sua tarefa ele levou as carnes ainda congeladas para a cozinha da piscina, acompanhado por Dona Rute, ainda pensativa.
Nada de diferente de qualquer festa aconteceu nesse final de semana. Tanto no sábado com os donos da casa e seus convidados, como no domingo apenas com os empregados do sitio e os da lanchonete.
Muitas fotos foram batidas, filmes de toda a movimentação da festa foram feitos tanto pelos proprietários, como pelos convidados e até pelos empregados da lanchonete, portanto como os demais, dona Rute, com sua máquina fotográfica também havia fotografado em ambos os dias várias pessoas devidamente escolhidas por ela.
Na noite de domingo ela foi levada a Santos por Tadeu, pois sua esposa Miriam iria ficar no sítio com seu irmão e seus amigos, como acontecia costumeiramente.
Logo ao se prepararem para partir do sítio ela já lhe perguntou:
·        Sr. Tadeu. Sua esposa não vem junto?
·        Não. Minha querida esposa adorada, que é minha deusa, sempre fica uns dois dias com seu irmão para só então voltar para casa.
Pode assentar-se na frente comigo que vamos só nos dois.
Dona Rute ficou satisfeita por esse acontecimento, pois pela história contada a ela por Lúcia, esse homem era apenas uma das vítimas da quadrilha, portanto poderia perguntar-lhe certas coisas sem se preocupar, por isso subiu a serra conversando amistosa e tranquilamente com ele.
Com o carro em movimento para a alegria de Dona Rute que poderia colher informações do homem sem nenhum perigo iniciou sua conversa.
·        O senhor e sua esposa sempre vêm às festas?
·        Geralmente sim. Mas de vez em quando existem festas apenas para os moradores do sítio e as amigas de Norma e de Roger.
·        Como só as amigas?
·        Apenas as amigas do casal da casa e não é uma festa de final de semana. Elas só veem para um almoço no domingo.
·        Então os maridos não vêem?
·        Só participam desse almoço, Miriam minha esposa, Zilda Siqueira que é casada com João Bosco Dantas Netto, Alice Miranda esposa de Aldo Correa, Ângela Aparecida Pires casada com Robson de Almeida, Rosa Alcina Pignatari esposa de Clóvis Carvalho, Neusa Creste casada com Rodrigo Silvério e Maria Auxiliadora Souza esposa de Rui Santos.
·        Julga que em meu cérebro tem um gravador?
·        Por que disse isso?
·        Porque me enumerou seis nomes de mulheres e seis de homens como se fosse para eu aprender todos esses doze nomes. Acho que isso deve ser impossível para qualquer ser humano.
·        De fato tem toda razão, mas não tive a intenção de fazê-la saber todos os nomes, mas espere um pouco que eu tenho uma foto de todos eles em minha maleta.
·        Para que?
·        Para a senhora ficar com ela. Eu tenho em meu celular e no computador. Depois eu revelo outra para mim.
·        Não tenho a menor necessidade de ficar com tal foto.
·        É melhor para a senhora ficar conhecendo e sabendo o nome de todos eles, pois assim terá mais facilidade quando tiver de conversar com eles, nas festas. Todos os funcionários da lanchonete começaram conhecendo-os assim.
·        Então se quer dar-me eu aceito.
·        Vou parar no acostamento para apanhá-la para a senhora.  
Assim fez. Parou o carro e entregou uma foto de bom tamanho com todos os casais abraços além dos anfitriões Roger e Norma, Carlos e Vera, Dr. Claudio e Dra. Silvia, do casal de enfermeiros João Alfredo e Cidinha, além de Thomaz Burkhard e Ângelo Antônio Cardoso Pena ao lado um do outro.
Todos tinham seus nomes escritos abaixo de cada um e por isso Dona Rute perguntou-lhe em tom de brincadeira, após algum tempo em que ficou vendo a foto com o carro já em movimento novamente subindo a serra.
·        Bonito casal forma o Sr. Thomaz e Sr. Ângelo Antônio. É um casal de gays?
Depois da gargalhada de Tadeu, ele explicou-lhe que ambos eram viúvos e por isso não tinham mulheres, mas não formavam nenhum casal. Entretanto eram amigos de todos eles e frequentavam as festas sem companheiras, pois eram muito galinhas e nenhum deles tinham namoradas fixas. Só arrumavam mulheres para suas necessidades e logo as descartavam para conseguir outras.
Eram muito ricos e podiam dar-se a esse prazer de sempre ter mulheres diferentes. O alemão era dono de uma construtora e o Ângelo do laboratório Angelmultlabor.
·        Vou decorar seus nomes e visualizar bastante seus rostos para tratá-los corretamente nas próximas festas em que estarei presente.
·        Faça isso.
·        Continuando o que o senhor falava antes, por que em alguns domingos tem almoço apenas para as mulheres?
·        Sei lá. Minha deusa diz que é só um almoço entre elas e os donos da casa para tratar de assuntos exclusivos deles.
·        Sempre tem esses almoços?
·        Não muito. Um ou dois por ano.
·        Sempre quando o senhor vem ao sitio nas festas, leva algum de nós de volta para Santos?
·        Certamente.
·        Conheceu a antiga cozinheira da lanchonete?
·        A Mara?
·        Sim. Ela mesma.
·        É claro que conheci.
Ela desapareceu depois de uma festa, após ser entregue em sua casa. Ninguém entendeu nada.
·        Quando o senhor a levou imaginou que ela iria desaparecer depois de deixá-la?
·        Não fui eu quem a trouxe. Foi o Dr. Claudio.
·        Dr. Cláudio é aquele careca cuja esposa é linda?
·        Ele mesmo. Não sei o que a Silvia viu nele? Além de careca é feio como a peste.
Riram alguns momentos e Dona Rute se deu por muito satisfeita pela imensidão de informações recebidas, pois só lhe interessaria ter certeza quem era o médico, entretanto além da foto de toda a quadrilha com seus respectivos nomes completos, soube também que de vez em quando havia uma reunião só entre os criminosos. Concluiu que nesse dia decidiam qual marido deveria morrer.  
A partir de então ela tentou mudar o rumo da conversa, mas Tadeu forneceu-lhe inocentemente e sem que ela nada perguntasse vários outros dados interessantes sobre o pessoal do sítio.
Contou-lhe, escondendo sua própria situação financeira, que muitas esposas levam seus maridos falidos às festas, para os caridosos Roger, Carlos, Dr. Claudio, João Alfredo, Thomaz e Ângelo que são muito ricos e bondosos emprestarem dinheiro a eles, com carência de seis meses para começarem pagar-lhes.
Contou-lhe mais que na roda de jogo de baralhos, muitos deles até perdem o dinheiro emprestado, tendo de assinar novos cheques ou promissórias, dobrando o valor da dívida e levando apenas o mesmo dinheiro, simplesmente por caridade dos amigos, pois jogavam e perdiam.
Nesse momento da conversa Dona Rute voltou a tentar descobrir mais coisas, perguntando-lhe:
·        O senhor já me falou, mas esqueci. O que fazem mesmo o senhor Thomaz e o senhor Ângelo?
·        O Thomaz é um engenheiro e tem uma empresa de construção civil e é aquele ruivo alto. Acho que ele é descendente de alemão, pois seu sobrenome é Burkhard.
·        Como se escreve isso?
·        B-U-R-K-H-A-R-D. Está escrito na foto.
O Ângelo eu não sei se é médico, farmacêutico ou cientista e é um dos diretores do Angelmultilabor Laboratórios. É aquele moreno magrelo e alto com barba bem comprida e grisalha que também está na foto, formando o tal casal gay que a senhora perguntou.
Ela sabia de todas essas informações, mas preocupava em portar-se como sendo desatenta e esquecida, exatamente para todas as pessoas.
Bandidos, inocentes, policiais, patroas e qualquer pessoa que ela viesse a conhecer sempre pensavam a mesma coisa dela evitando alguma discórdia entre eles a seu respeito. Ela só era vista como boa cozinheira, educada, fofoqueira, distraída e tola e jamais como especuladora, inteligente e esperta. Escondia-se sob essa camuflagem.
Na conversa com Tadeu, Dona Rute finalmente conseguiu falar sobre ela própria e culinária exótica até chegarem em Santos e por volta de vinte e duas horas desceu do carro na porta do albergue, agradecendo pela carona, despedindo-se de Tadeu que continuou sua viagem para São Paulo.
Passava das vinte e quatro horas, quando ela saiu a rua e telefonou de um telefone público longe de seu albergue ao detetive Grozzi que a atendeu com voz de quem estava dormindo. Ela disse-lhe a seguir:
·        Pode parar de fingir que está dormindo, pois sei que é mentira.
·        Estava dormindo mesmo.
·        Com quem e em qual espelunca, seu depravado?
·        Não me trate assim, pois não somos mais casados.
·        Ainda bem que fiquei livre de um traste como você.
·        Já está em Santos?
·        Sim. Deixaram-me aqui faz mais de duas horas, mas eu esperei passar bastante tempo para falar tranquila com você. Estou ligando para pedir-lhe que colha informações sobre vários nomes que vou lhe passar.
·        Fale logo e deixa de ser briguenta.
·        Estou brincando com você seu ordinário. Vou mandar para você, pela internet, uma foto que vou escanear e enviar com os nomes completos de todos os criminosos daqui do sítio que são:
Dr. Claudio é médico e tem um hospital em Mongaguá. Sua esposa Silvia é farmacêutica e tem uma farmácia de manipulação, próximo ao hospital.
O casal João Alfredo e Cidinha são enfermeiros no hospital de Dr. Claudio.
Thomaz Burkhard é empresário do ramo de construções.
Ângelo Antônio é o principal acionista do Angelmultlabor Laboratórios.
Entretanto tem os empregados que quero que anote os nomes, pois não estão na foto, mas sei seus nomes para você descobrir tudo o que for possível sobre todos eles.
Anote aí, ou não tem papel e caneta nessa pocilga onde está?
·        Já apanhei papel e caneta. Pode falar.
·        Airton Pena Souza já falecido há muitos anos e antigo morador e bandido na vila Paraiso de São Sebastião e sua esposa Gracinha Mendes Souza. Talvez seja apenas Graça Mendes Souza, ou Maria da Graça, ou qualquer coisa assim.
Gilfredo Souza, ou Gilfredo Mendes Souza, filho do casal acima e também antigo morador na vila quando era comandado pelo velho Tião e não pelo professor Tiãozinho.
·        Pode deixar que amanhã mesmo vou descobrir tudo sobre eles. Na terça quando me telefonar eu lhe passarei tudo que descobri.
·        Mande-me por email assim que obtiver informações, pois verei em meu note book, possivelmente antes de lhe telefonar, se realmente amanhã descobrir alguma coisa.
·        A propósito. No sábado telefonou-me de seu celular e inclusive se identificou, portanto é perigoso continuar com ele. De um jeito de danificá-lo.
·        Já fiz isso. Alguns segundos depois de falar com você ele caiu na privada e ficou inutilizado para sempre. Já foi para o lixo há muito tempo, devidamente quebrado em pequenos pedaços já sem seu chip que antecipadamente havia sido devidamente destruído e levado junto com minhas fezes do vaso sanitário direto para o esgoto.
·        Continua esperta.
·        Obrigada.
·        Agradeceu por eu alertá-la em dar sumiço no celular ou por chamá-la de esperta.
·        Por continuar achando-me esperta, é claro.
·        Boa noite.
·        Boa noite e dê um beijo na prostituta que deve estar dormindo com você.
·        Com muito gosto. Aliás, até agradeço por ter-me acordado, pois senão eu não poderia fazer isso.
·        Vá pro diabo.
·        Sua filha e seus netos estão bem.
Essa última frase não foi ouvida, pois Dona Rute irada já tinha desligado o telefone.
A velhinha bisbilhoteira trabalhou na segunda feira, bastante pensativa tentando desvendar o mistério do sumiço definitivo de várias pessoas. Ela tinha convicção que Lúcia e a Mara foram mortas e seus corpos desapareceram.
Pela história que Lúcia havia lhe contado sobre seus filhos, vários maridos das esposas carinhosas também morreram ou desapareceram.
O primeiro marido de Miriam morreu cheio de doenças em um hospital de São Paulo, entretanto os dois seguintes que ninguém sabe onde andam, e que constam como desaparecidos devem ter sido outros assassinados cujos corpos sumiram, mas nada ainda surgia em sua mente de como aconteciam esses desaparecimentos de corpos, mas com certeza qualquer um dos amigos do Roger saberia explicar. Dr. Claudio principalmente, pois ela o imaginava como sendo o principal assassino.
Na noite de segunda feira, em seu quarto ligou seu notebook que ninguém sabia da existência e leu o email passado pelo ex-marido.
Ele tinha conseguido várias informações que para as pessoas apenas inteligentes não seriam tão importantes, entretanto para o cérebro privilegiado de Dona Rute, ficou muito claro como tudo acontecia.
Na mensagem eletrônica, o detetive Grozzi informou que o médico tem realmente um hospital em Mongaguá e o casal de enfermeiros prestam serviços nele e todos sem nenhum problema com a polícia, com a justiça e nem com o conselho de medicina, ou de enfermagem. Estão limpos.
A farmacêutica Silvia, realmente tem apenas uma farmácia de manipulação próxima ao hospital do marido e nada consta contra ela no conselho de farmácia e nem na polícia.
Thomaz proprietário de uma pequena empresa de construção civil, de origem alemã e sem nenhum crime, ou falcatrua cometida por ele, entretanto descobriu que ele construiu entre várias obras, todas as construções do sítio de Roger e também o hospital do Dr. Claudio, assim como o laboratório de Dra. Silvia e o laboratório de Dr. Ângelo.
Com Dr. Ângelo e com o Angelmultlabor, também nada existia que os desabonasse.  
Tal laboratório não figura entre os grandes, mas nunca houve nenhuma reclamação contra seus produtos.
Airton Pena Souza, o bandido já falecido era um falsificador nos tempos que morava na vila. Sua esposa e o filho mais velho também o ajudavam nessa tarefa, portanto também falsificavam documentos.
A tal Gracinha Mendes Souza, era o verdadeiro nome da esposa de Airton, mas já há muitos anos tinha ido para a Europa, com documentos falsificados por ela e seu filho Gilfredo que já era exímio falsificador desde aquele tempo.
Na Itália para onde ela foi sozinha, montou uma casa de prostituição, mas já se encontra morta.
O filho falsificador que ficou para cuidar dos menores Soraya e Darlan nada foi encontrado que o desabonasse, desde que deixaram a vila destruída, onde moravam com os pais.
O detetive encontrou apenas as informações que Soraya já se prostituía desde pequena e que Darlan quando ainda criança nada fazia a não ser pequenos roubos na própria vila.
Nunca tiveram passagens pela polícia e nem eram procurados por nenhum crime, porem não encontrou o endereço deles.
Ficou tudo bem claro na percepção de Dona Rute.
Precisava somente fazer três últimas descobertas para tudo se encaixar, e na festa seguinte em que ela foi ao sítio, levou várias caças raras pra prepará-las no domingo, conforme prometera à Norma.
Acabado seus afazeres, solicitou a cozinheira do sítio que a ajudara, que tais preparados fossem para um freezer ou congelador, mas se possível, não nesses caseiros, pois precisariam ser congelados com rapidez.
Informou-lhe que o ideal seria congelá-los na câmara frigorífica, entretanto separados das carnes de bovinos e suínos, para não impregnar o cheiro forte dessas carnes em suas caças, já limpas e temperadas.
Como o acesso a câmara era restrito apenas aos funcionários do sítio, com ordens do Sr. Roger ou de Norma, Soraya foi avisar a patroa que estava na sala com alguns convidados e amigos tomando champanhe.
Levou com ela Dona Rute que solicitou:
·        Dona Norma. Seria possível alguém levar as comidas já temperadas para a câmara frigorífica, pois devem ser congeladas rapidamente.
·        Não servem os congeladores da cozinha?
·        Como única opção até servem, entretanto com o congelamento lento deles, os alimentos perderão vários odores além de modificar o sabor quando forem cozidos ou assados. A senhora quem sabe. Congelo-os dentro da cozinha mesmo ou a senhora mandará coloca-los na câmara frigorífica?
·        Espere um momento.
Soraya chame seu irmão aqui.
·        Sim senhora.
Quando Gilfredo chegou, Norma conversou com ele em vós baixa e longe das cozinheiras e depois voltou a falar com Dona Rute:
·        Pode ficar junto com as carnes de boi, ou terão de ficar separado?
Quem respondeu foi Soraya, pois já tinha sido informada por Dona Rute sobre tal inconveniente.
·        Dona Norma. As carnes cruas de boi e de porco tem cheiro muito forte e impregnarão nas carnes temperadas seu cheiro por isso devem ficar separadas.
·        Ela está certa, Dona Rute?
·        Absolutamente certa.
Norma voltou a conversar baixo com o chefe dos vigilantes distante de Dona Rute, mas como ela aprendera fazer leitura dos movimentos labiais das pessoas conseguiu perceber que Norma havia falado ao empregado: “Verifique tudo direito para não cometermos o mesmo erro outra vez”.
Voltou a falar e desta vez em vós alta às cozinheiras que estavam distantes.
·        Aguardem a volta dele que ele lhes dirá se poderão congelar lá ou não. Esperem na cozinha que Gilfredo as procurará, com a resposta. Se for impossível de colocar na câmara podem congelar no congelador caseiro mesmo.
·        Dona Norma. Basta que Soraya ou seu irmão coloque os pratos o mais distante possível um do outro.
·        Se os compartimentos estiverem limpos e bem asseados Dona Rute, prefiro que a senhora vá com eles para congelar conforme a senhora já sabe. Será melhor.
·        No congelamento rápido da câmara frigorífica serão necessárias só três horas e já farão as caças ficarem bem duras, portanto podem ser tiradas de lá e serem colocadas em um freezer comum que não haverá mais problema nenhum.
·        Obrigada.
Elas despediram e voltaram para a cozinha, aguardando o retorno do Gilfredo, que chegou vários minutos depois, chamando-as para irem ao frigorífico levar as caças já embaladas para serem congeladas.
Dona Rute viu que a aproximação dele não fora pela porta dos fundos da cozinha, que seria mais rápido. Ele veio pela sala, por isso entendeu que ele entrara pela porta principal da casa e assim ela teve certeza que antes de ele as chamar tinha conversado antes com Norma.  
Ela concluiu que ele teria informado que a parte repartida do frigorífico estava disponível, portanto limpa e sem nenhum vestígio de que fora usado recentemente para congelar nenhum defunto.
Dona Rute já imaginava isso e era a primeira das três coisas que precisava descobrir.
Foram guardar as caças preparadas, entrando exatamente na porta que Dona Rute já tinha conhecimento existir após a antecâmara e foi assim que ela deparou com a parte congelada totalmente vazia, muito limpa e bem asseada.
Nesse local não existiam ganchos para pendurar carnes e sim gavetas. Essas gavetas não pareciam nem um pouco com as gavetas mortuárias dos necrotérios, mas eram grandes o suficiente para caber um corpo como nas tradicionais gavetas para defuntos.
Todas as seis gavetas estavam vazias e ela colocou caprichosamente e bem separados apenas três pratos em cada uma, portanto abriu-as todas e nada verificou de comprometedor. 
Dona Rute acabara de descobrir o necrotério particular do sítio, e pela leitura labial que havia conseguido ler quando Norma falou ao capanga, passou a ter certeza que Mara de alguma forma teria visto aquela parte da câmara congelando um ou mais mortos, ou suja de sangue humano e por isso foi assassinada.
Com certeza ela própria ficou lá alguns dias antes de ter seu corpo cimentado em alguma construção, jogado em alto mar com peso para não flutuar depois, ou cremado, o que era a segunda parte que ela deveria descobrir.
Dona Rute propositadamente demorou bastante tempo guardando suas caças, para que o frio excessivo do frigorífico lhe fizesse contrair um forte resfriado.
Embora ela fosse idosa tinha excelente saúde, portanto não houve dano algum e seus espirros e tosses eram provocados por ela propositadamente para todos imaginarem que uma forte gripe tinha se instalado nela, o que provocou sua internação no hospital de Dr. Claudio, para repouso e recuperação.
Essa era sua verdadeira intenção, mas recusou-se em ir para o hospital, alegando que apenas alguns comprimidos ante gripais ou um leite quente com conhaque e limão antes de dormir fariam o efeito necessário.
Sua recusa em ir para o hospital, assim como havia tido a mesma atitude em ir até a câmara frigorífica não eram verdadeiros, pois o oposto é que era seu desejo, mas deveria ser sugerido sempre pela patroa criminosa e não por ela, para isentar-se completamente de qualquer suspeita.  
Como sempre ela manejava muito bem as pessoas ao seu desejo, por isso foi Norma quem exigiu que ela fosse internada e medicada no hospital, mesmo ela recusando-se em ir.
Nesse domingo à tarde o médico a levou e deixou-a sob os cuidados de alguns enfermeiros e retornou ao sítio.
No hospital, logo que Dona Rute deu entrada já foi fazendo amizade com os atendentes e graças a sua simpatia ficou mais tempo conversando com as pessoas que propriamente internada.
Circulou livremente pelo hospital todo e nada viu de diferente dos demais hospitais.
Tudo estava correto, mas soube que os enfermeiros casados que moravam no sítio onde também morava o médico, atendiam em escala, porém sempre o mesmo paciente, que seus vários colegas jamais assistiram e todos eles acabaram em óbito.
No hospital ninguém suspeitava de mau atendimento dos enfermeiros, pois eram os melhores e mais experientes e por isso Dr. Claudio sempre lhes entregava os doentes terminais para que tentassem sua recuperação. Essa era a verdade conhecida naquele hospital.
Na segunda pela manhã Dr. Claudio chegou e autorizou alta à Dona Rute, devido sua melhora rápida e forneceu um atestado para três dias de descanso absoluto e exigiu isso.
 Ela viajou para Santos e de lá para São Paulo indo para sua casa, e seu patrão ficou sabendo de sua necessidade de repouso, por um simples telefonema dela.
Ela convidou seu ex-marido para estar com ela na quarta feira, pois nos dois primeiros dias de seu repouso ela teria uma coisa muito importante a descobrir e depois teria muitas informações a ele, por isso o detetive Grozzi ficou tal dia combinado, o dia inteiro em sua casa, ouvindo toda a explicação sobre as descobertas de Dona Rute.
Ela informou-o que o que ele descobrira sobre as pessoas que ela solicitou, ajudou-a a desvendar como aconteciam os crimes e como eles eram disfarçados.
·        Escute com muita atenção tudo que vou lhe dizer e avise-me quando achar que estou errada.
·        Pode dizer que estarei atento.
·        Assim que acontece com os maridos ricos. Eles são delapidados pelas esposas e acabam morrendo por várias doenças, pois os médicos assassinos incutem-lhes a ideia de terem alguma doença relativamente grave e indica medicamentos, que são fabricados, ou no laboratório de Dr. Ângelo ou na farmácia de manipulação de doutora Silvia.
·        Desculpe interrompê-la logo no início. Como alguém que nada sente aceita a ideia de um médico de que tem uma doença, apenas por ser seu amigo.
·        Você está certo. Eu que comecei sendo rápida ao falar.
Antes de o médico informar sua doença, a esposa amantíssima, já havia começado dar-lhe misturado à comida, ou à bebida substancias que provocam mal estar, tonturas ou dores, para que o marido ao reclamar sobre suas indisposições, os amigos médicos do sítio solicitam exames laboratoriais e depois ao examiná-los anunciam a doença que de fato já existe, por já ter sido implantada pela esposa.
Qualquer médico honesto ao analisar os exames feitos em laboratórios também honestos encontram as mesmas doenças e tendem a dizer a mesma coisa e indicar os mesmos remédios.
Fica a cargo de a esposa maravilhosa comprar os medicamentos indicados, porém feitos no laboratório do Dr. Ângelo ou na farmácia de manipulação da Dra. Silvia e esses remédios não são corretos e trazem mais prejuízos a saúde do marido que vai definhando cada vez mais, embora esteja sendo medicado.
·        E se eles próprios comprarem seus remédios em outro local e forem remédios bons?
·        É simples. A qualquer momento a esposa os troca sem o marido saber e ele estará sempre tomando remédios envenenados.
·        Okey. Continue onde estava quando a interrompi.
·        Quando esses maridos já estão cheios de doenças graves, tais médicos amigos pedem-lhes para procurarem especialistas específicos para a doença e assim a pessoa acaba morrendo sob a assistência de médicos honestos que já não podem fazer nada para salvá-los e acabam assinando seu atestado de óbito, sem fazerem autópsias, por saberem exatamente por que morreram.
Quando há a necessidade de eles assassinarem alguém, como foi o caso de Lúcia, mãe dos gêmeos, de Mara a cozinheira e talvez de muitas outras pessoas, eles as matam no sitio, deixando-as congeladas na câmara frigorífica. (Explicou detalhadamente como são as câmaras frigorificas do sitio).
No hospital do Dr. Claudio interna-se um dos cumplices da quadrilha completamente saudável apenas passando-se por doente terminal e só é assistido pelo Dr. Claudio e pelo casal de enfermeiros bandidos, pois o hospital tem médicos e enfermeiros realmente honestos e descobririam o engodo.
Essas pessoas ficam internadas alguns dias e acabam falecendo de mentira e são encaminhadas para o necrotério do próprio hospital. Lá elas são trocadas pelos defuntos já guardados no sitio.
·        Não entendo como seria essa troca.
·        O empregado ou empregada de Roger ao se passar por doente, é sempre assistido apenas pelo casal de enfermeiros do sitio e examinado pelo Dr. Claudio, para que nenhum outro funcionário correto do hospital veja esse doente.  Depois de alguns dias de internação o Dr. Claudio informa sua morte e os enfermeiros cumplices levam-no bem vivo ao necrotério.
Lá já estará um defunto verdadeiro que realmente foi morto no sítio e trazido escondido para o necrotério do hospital, durante a madrugada, portanto o necrotério passa a possuir um defunto verdadeiro, enquanto o outro cadáver bem vivo simplesmente sai e volta para o sítio.
·        Não é arriscado alguém ver essa troca?
·        Aí é que entra o engenheiro construtor. Foi ele quem construiu, não só os imóveis do sítio, como o próprio hospital, portanto fez uma entrada secreta no necrotério do hospital, para trazerem o cadáver sem ser visto pelos seguranças do hospital que não são bandidos como os seguranças do sítio.
Eu vi que o necrotério do hospital tem uma entrada por dentro dele, como qualquer outro hospital, entretanto tenho certeza existir alguma entrada secreta pelos fundos que não é do conhecimento de ninguém a não ser da quadrilha e é por ela que trazem o verdadeiro morto e desaparecem com o que fora levado para lá, passando-se por morto. Depois de tudo resolvido, o sitio estando lacrado por vocês, assim como o hospital, vocês policiais descobrirão a entrada secreta na funerária do hospital.
·        Estou entendendo.
·        Inicialmente eu havia pensado que o engenheiro construtor é quem dava sumiço nos corpos cimentando-os em alguma construção, mas estava errada quando pensei nisso. Na verdade eles entregam o corpo do defunto à família que faz a cremação.
·        Qual família? Se tais maridos sempre eram escolhidos por serem sós.
·        Calma que lhe explicarei como isso acontece.
Quando o empregado ou empregada do sitio passando por doente, é levado por alguma outra pessoa do próprio sitio, essa se identifica como parente. Eles apresentam documentos que são feitos pelo vigilante falsificador. O tal Gilfredo incumbe-se disso.
Depois que são dadas como mortas e trocadas por defuntos lacrados em urnas a mesma pessoa que identificara como parente recebe o corpo e encomenda o funeral em um crematório de São Paulo, que está isento de qualquer culpa, pois toda a documentação assim como o atestado de óbito são satisfatórios para se efetuar uma cremação.
Eles fazem sua parte transformando tal assassinado em um montinho de cinzas que é jogado em qualquer lugar desaparecendo para sempre.
·        Como descobriu e como provar tudo isso?
·        Descobri, pois como nas festas eles se permitem fotografar, pois adoram posar para retratos, tirei fotos de todos eles, e nesses dois dias visitei os crematórios daqui que são poucos e descobri em qual deles acontecem os funerais.
·        Como assim?
·        Um senhor que trabalha há muitos anos em um crematório, identificou a Miriam como sendo uma viúva em um funeral, inclusive mostrando-me a documentação do funeral em que ela identificou-se como Simone, recém viúva de Douglas, com toda a papelada correta.
Como os crematórios só exigem o atestado de óbito assinado por um médico legista, um representante do defunto e duas testemunhas, eles não tem nenhum outro documento para identificação.
Neusa, que é uma das mulheres amigas foi outra que ele reconheceu como viúva de um defunto cremado.
Alice também foi reconhecida como viúva.
Seus nomes eram outros é claro, assim como os de seus verdadeiros maridos cremados, portanto eles continuam para sempre como simplesmente desaparecidos, conforme elas próprias prestaram queixa do desaparecimento.
·        Descobriu alguma coisa sobre sua amiga Lúcia?
·        Sim. Alguns dias depois do desaparecimento dela, também cremaram um cadáver levado pelo então viúvo Wilson Chagas que mandara cremar sua esposa morta chamada Elaine Souza Chagas, com o atestado de óbito, e as duas testemunhas necessárias.   
Tudo certinho, entretanto o trabalhador do crematório reconheceu o tal Wilson, quando lhe apresentei as fotos de todos os homens do sítio. Ele disse-me ter certeza que uma das fotos era de Wilson, mas na verdade tal foto era de Darlan, um dos vigilantes do sítio e solteiro. Ele apresentou-se com nome falso e documentação de casado exatamente com a defunta com atestado de óbito.
Evidentemente era Lúcia quem estava no caixão, mas seu nome fora apresentado como Elaine Souza Chagas, casada com Wilson Chagas, portanto tudo estava correto e foi feito o funeral cremando o corpo de Lúcia.  Suas cinzas foram entregues ao esposo Wilson, que na verdade era Darlan.
Esse mesmo senhor cremou outra mulher cujo enterro foi logo após o desaparecimento de Mara, como sendo outra esposa encaminhada para lá pelo viúvo que também ele reconheceu nas fotos que mostrei de todos os funcionários do sítio, assim como já tinha reconhecido as viúvas Miriam, Neusa e Alice reconheceu também Darlan e Adolfo que é outro empregado de Roger.
O mais interessante de tudo isso é que todos os atestados de óbito foram assinados pelo Dr. Claudio.
Acho que está tudo esclarecido, ou você não concorda?
·        Concordo plenamente, mas como provar tudo isso?
·        Eis a parte mais difícil, pois o funcionário do crematório só confirmou a semelhança entre os viúvos e viúvas que cremaram seus entes queridos, por semelhança com as fotos que eu lhe mostrei, entretanto do funeral mesmo não existem nenhuma foto para provar tais acontecimentos.
·        Então não temos como provar nada.
·        Ainda não, por isso infelizmente terá de morrer mais um marido de uma esposa assassina que dará queixa de seu desaparecimento nos próximos dias.
·        Como acontecerá isso?
·        O Tadeu que é o atual esposo de Miriam deu-me carona no domingo passado e falou-me que de vez em quando só vão ao sítio as esposas amigas do pessoal de lá. Tenho certeza que é para definirem qual marido deve desaparecer.
Falou-me também que no próximo final de semana não terá festa nenhuma. Só o tal almoço de domingo, portanto será nesse dia que definirão quem deve ser o próximo assassinado.
No decorrer da semana seguinte, em qualquer dia o escolhido deverá ser levado pela esposa e lá eles o matam e congelam o corpo.
A esposa dará queixa à polícia do desaparecimento dele, ao mesmo tempo em que um dos empregados será levado ao hospital passando-se por doente para tudo funcionar conforme creio que vem acontecendo há anos.
·        Como nesse domingo só eu fui contratada pela Norma para ir fazer o almoço deles, pois ela faz questão de minha presença para fazer um prato que eu já tinha congelado e que ela está ansiosa por comê-lo.
Vou descobrir qual é o empregado que estará faltando e com certeza confirmar a ausência dos enfermeiros.
Volto a insistir com você. Logo a partir de segunda feira deverá procurar todas as delegacias qual das mulheres cujos nomes verdadeiros já tem quem deu queixa do desaparecimento do marido.
Depois dessas descobertas você deverá convencer o Secretário da Segurança Pública de todo o golpe e no mesmo horário da cremação que será impedida é claro, pois será a prova real de quem está morto é o desaparecido e deverá ter policiais preparados em todos os locais onde estarão os outros membros da quadrilha para que nenhum consiga fugir.
·        Como farei com que o Secretário acredite nessa história. Posso dizer que foi você quem descobriu tudo?
·        É claro que não. Eu jamais posso aparecer para não me expor.
·        Mas você descobre tudo tão corretamente, como faz Miss Jane Marple, sua musa inspiradora.
·        Acontece que ela é apenas ficção criada pelo imaginário de Agatha Christie e eu sou verdadeira e com certeza ficarei visada por todos os bandidos.
·        Como farei para convencê-lo?
·        Diga-lhe que tem informações corretas de pessoa que não pode aparecer. Sei lá? Vocês não são tão amigos? Convença-o.
·        Falarei com ele e ele acreditará em mim, como acreditou naquele outro caso que você contou-me, sobre os crimes de um delegado de polícia.
·        Agora vou voltar para Santos, pois tenho de trabalhar amanhã e meu repouso acabou hoje e já está acabando o dia e devo viajar ainda à noite. Vou fazer minha parte que incluirá saber quando será o funeral.
·        Como fará para saber isso?
·        Como todas as cremações foram no mesmo local, vou procurar o mesmo lugar e falar com Sr. Atílio que é o antigo funcionário de lá que me atendeu da outra vez, pois tenho certeza que com um bom suborno ele me avisará imediatamente da encomenda de um funeral cujo atestado de óbito fornecido tenha sido assinado pelo Dr. Claudio. Eu o avisarei urgente e você fará sua parte com os policiais.
·        Ainda acho que é melhor você sair do emprego, voltar para cá e abandonar toda essa história, pois pode acabar mal para você.
·        Isso nunca. Agora que descobri quem matou minha amiga Lúcia e muitas outras pessoas, vou até o fim para botar todo mundo na cadeia.
·        Sabia que responderia isso. Tome muito cuidado com eles.
·        Fique tranquilo que sei me cuidar.
Descubra logo qual das esposas prestará queixa do desaparecimento do marido e passe-me um email falando para eu saber. Não tente fazer nada para impedir o assassinato, pois evidentemente quando for prestada a queixa o crime já foi consumado e por ele não poderemos fazer mais nada.
·        Se eu procurar por todos eles antes e contar-lhes tudo que você descobriu não seria melhor. Evitaremos uma morte.
·        Provavelmente evitará a morte de um desses maridos, mas com certeza não evitará a minha.
·        Como assim?
·        Se for contar-lhes que eu descobri toda essa trama, com certeza muitos deles não acreditarão e contarão para suas queridas esposas. Que acha que farão comigo?
·        Tem razão. Sua morte será inevitável.
·        Então faça conforme lhe pedi.
·        Não poderá ser o Tadeu, do qual já ficou amiga. Não vai entristecer-se se for ele?
·        É claro que sim, mesmo que for outro qualquer que eu ainda nem conheço, mas o que há de se fazer a não ser esperar acontecer mais esse e terminar definitivamente com tais crimes?
·        Pode deixar que vou descobrir a denúncia de uma dessas mulheres referente ao sumiço do marido, no decorrer da semana seguinte.
Já vou embora, pois está chegando a hora de você viajar.  Boa viagem.
·        Obrigada.
No domingo seguinte Dona Rute não viu no sítio, o casal de enfermeiros e notou também a ausência de Gilfredo, mas nada falou com ninguém e portou-se normalmente para não chamar nenhuma atenção sobre ela.
No entanto tinha certeza que o segurança estava internado passando-se por doente terminal e o casal ficaria noite e dia vigiando o quarto para que nenhum outro enfermeiro chegasse perto de tal doente, completamente sadio.
Durante o almoço, em que ela ficava apenas na cozinha fazendo a comida não pode descobrir o que o pessoal combinava durante a refeição que era servida por Soraya e a outra ajudante. A única coisa que pode presenciar foi a saída e volta de Dr. Cláudio para atender urgente um doente terminal no hospital.
Sabia que tudo era uma farsa, para o restante dos funcionários do hospital sentir o clima de urgência com tal interno.
Tal refeição não foi muito demorada e por volta de quatorze horas todas as pessoas se retiraram para retornarem à suas casas e uma das senhoras levou Dona Rute de volta para Santos para deixa-la, mas ela solicitou se poderia já que era cedo ir até São Paulo, para dar uma olhadinha em sua família. Foi atendida e depois de sua chegada procurou o crematório encontrando o Sr. Atílio que lá estava.
Com sua simpatia e algum dinheiro convenceu o homem a avisar-lhe quando aconteceria uma cremação cujo atestado estivesse assinado por Dr. Claudio do hospital de Mongaguá, tão logo fosse encomendado.
Foi na quarta feira logo após o almoço que o detetive Grozzi descobriu que a senhora Zilda Siqueira dera queixa do desaparecimento do marido João Bosco Dantas Netto que desaparecera misteriosamente desde o domingo a noite quando saiu para ir a uma farmácia próxima a sua casa comprar um medicamento.
Detetive Grozzi telefonou imediatamente a Dona Rute, pois era a única maneira urgente de informa-la sobre tal descobrimento.
Nessa mesma quarta feira algum tempo depois ela recebeu outro telefonema e desta vez era do Sr. Atílio, dizendo que fora encomendado um funeral para acontecer na manhã seguinte as dez horas e que seria do Sr. Aristides Crobaltti, cuja esposa Rosangela Alencar Crobaltti levaria o atestado de óbito assinado pelo Dr. Claudio e o respectivo pagamento ainda nessa tarde.
Desta vez foi ela quem telefonou ao detetive para avisá-lo do horário da cremação para que ele resolvesse todo o estratagema que deveria acontecer, pois ela estaria totalmente alheia aos acontecimentos e ficaria trabalhando normalmente na lanchonete sem aparecer em lugar nenhum.
Na sexta feira iria pedir demissão do emprego e voltaria para São Paulo e só então conversariam sobre o assunto, pois para ela tudo já estava terminado e sua participação encerrada.
·        Fique sossegada que já está tudo conversado com o Secretário da Segurança Pública, que não é nenhum bobo e sabe que tudo foi descoberto e armado por você e acreditou na história toda que contei e fará a caçada com homens armados na porta da casa de todas as mulheres envolvidas, muitos outros próximos a entrada do sítio e também na clinica de Dr. Claudio, na farmácia da esposa dele, no laboratório e na construtora. Eu e mais cinco homens estaremos no crematório. Pode ficar certa que não escapará nenhum.
·        Não lhe pedi para não envolver-me?
·        É claro que não falei sobre você. Só disse que era de fonte segura, mas ele respondeu-me simplesmente que essa mesma fonte já havia solucionado outro crime quase perfeito, portanto confiaria cegamente, por isso tenho certeza que ele só acreditou em minha história por imaginar que tudo partiu de você.
·        Tudo bem. Ele pode saber, mas peça-lhe que quando for dar entrevistas à televisão etc. para ele dizer que foi você ou ele próprio que desvendou tudo.
·        Okey. Eu ficarei com os méritos. Agora vou ligar para ele para ele ficar ciente do horário que começaremos as prisões. Conforme combinamos após eu abrir o caixão antes de ser cremado e ver o cadáver do Sr. João Bosco dentro dele, eu aviso o Secretário que autorizará no mesmo instante todas as ações no mesmo momento.
·        Então até amanhã e boa sorte.
oooOooo
Em um crematório de São Paulo, exatamente às nove horas e quarenta minutos da manhã de quinta feira, o detetive Grozzi dirigiu-se a Senhora Rosangela Alencar Crobaltti, que estava prestes a cremar seu esposo Aristides Crobaltti, informando-a.
·        Sra. Soraya Pena Souza a senhora está presa.
Antes de ela responder qualquer coisa, quatro outros policiais entraram na sala e algemaram seu irmão Darlan e sua amiga Creuza que estavam presentes como testemunhas, evidentemente com outros nomes e outros documentos.
·        O senhor está totalmente enganado e abusando da autoridade. Abra minha bolsa que encontrará meus documentos provando que sou Rosangela Alencar Crobaltti e nunca ouvi falar esse nome que falou. Solte-nos imediatamente para que terminemos o funeral de meu marido.
·        Já abrimos o caixão e já constatamos que o defunto que está se passando por Aristides Crobaltti é na realidade o desaparecido e agora encontrado Sr. João Bosco Dantas Netto, portanto vamos para a delegacia imediatamente, onde encontrará com só com a viúva dele chamada Zilda Siqueira como com os demais assassinos Dr. Claudio, Roger, Miriam, seu outro irmão Gilfredo, o falsificador, aliás, são tantos criminosos que estão sendo presos neste exato momento que não vou perder meu tempo falando seus nomes.
Lá você mostra ao delegado os documentos que quiser para todos do sitio serem condenados por diversos crimes que já são do conhecimento do Secretário da Segurança Pública.
·        Como descobriu tudo?
·        Tenho uma bola de cristal que me mostra todos os bandidos.
·        Hoje mesmo o Secretário de Segurança Pública mandará um carro funerário vir buscar o defunto, portanto vocês aqui do crematório, mantenham esse defunto em uma gaveta mortuária congelada, pois seu corpo não pode ser cremado, nem entregue a ninguém e nem sepultado, pois ele é a prova concreta de mais de trinta crimes cometidos por uma quadrilha violenta.
·        Tudo bem detetive. Pode deixar que o guardaremos para vocês o tempo que for necessário.
·        Bom dia.
Acabou.

Tempo de carregamento:0,01