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orlando ciuffi filho






Assassinato na Mansão da Ilha do Frade

  ASSASSINATO NA MANSÃO DA ILHA DO FRADE
Um homem e uma mulher se viram exatamente ao mesmo tempo em um local que era praticamente impossível de isso acontecer.
Ambos pararam e permaneceram sem nenhuma atitude por longos minutos apenas se olhando, talvez não acreditando no que viam até que finalmente o homem gesticulou feliz para ela, que também acenou sua mão retribuindo o cumprimento tão contente quanto ele.
Em seguida eles deixaram suas calçadas que eram opostas e se encaminharam para o meio da rua abarrotada de gente que andava apressada entre os camelôs que aos berros anunciavam seus produtos em seus megafones estridentes, assim como também faziam em altíssimos decibéis os autofalantes das portas das lojas, cujos locutores pareciam que queriam destruir os tímpanos das pessoas deixando-as surdas, ao invés de anunciar-lhes algum produto.
Ao se encontrarem começaram conversar com o homem aos gritos tentando se fazer ouvir:
·        Que coincidência incrível nos encontrarmos justamente aqui.
·        Vermo-nos na Rua Vinte e Cinco de Março em véspera de Natal é realmente uma façanha impossível de acontecer a não ser como foi. Totalmente ao acaso e creio que para acontecer isso novamente levará dezenas de anos.
·        Nesse exato momento deve ter mais de cem mil pessoas nesse infernal vai e vem de gente se chocando a todo instante e nós nos enxergarmos nesse amontoado de gente misturada a carrinhos de cachorro quente, de churrasquinhos, de sorvetes, de mate gelado, de churros e principalmente de trombadinhas drogados é sinal que ainda estamos bem da visão, apesar de velhos como somos.
Desculpe-me falar assim. Eu de fato sou velho, mas a senhora é apenas cinquentona. Não é?
·        Não sou cinquentona não. Tenho mais de sessenta assim como o senhor.
·        Não parece. Está bem conservada.
·        Obrigada.
·        Talvez tenha sido a mais incrível das coincidências ou foi pela necessidade que tenho de falar com a senhora que fez com que a natureza conspirasse a meu favor atraindo-nos, mesmo estando em lados opostos dessa rua entupida de gente apressada com suas enormes sacolas de compras, além de todas essas barracas de camelôs entre nós.
·        Se fossemos dois gigantes com mais de dois metros de altura cada um seria até possível nos vermos sobre os transeuntes, mas não é esse o caso, pois eu sou baixinha e o senhor é só de altura mediana. Foi mesmo uma tremenda coincidência ou conspiração dos deuses mesmo.
·        Fazia tempo que não nos víamos. Como vai Dona Rute?
·        Eu vou bem. E o senhor detetive Miranda?
·        Agora estou bem melhor, pois já há alguns dias decidi que a procuraria, mas nem será mais preciso ir procurá-la em sua casa onde geralmente nunca é encontrada, pois o que tenho a conversar com a senhora poderá ser aqui mesmo e agora se a senhora tiver um tempinho disponível.
·        Se for realmente uma conversa amistosa, diferente daquela de quando nos conhecemos estou as suas ordens senhor policial, caso contrário manda-me uma intimação para ir à delegacia depor.
·        É uma conversa amigável e muito pessoal e já lhe pedi várias vezes para não chamar-me de senhor policial.
·        Desculpe-me pelo equivoco. Estou as suas ordens detetive Miranda.
·        Sua filha e seus netos estão bons?
·        Sim. Todos estão maravilhosos.
Se de fato quer conversar amistosamente comigo porque não ligou para meu celular que poderíamos já ter conversado por telefone ou se fosse o caso, marcado um encontro pessoal.
·        É o que venho fazendo regularmente há muitos dias, mas ele nunca atende. Parece-me que nem existe mais o seu número.
·        Tem razão. Aquele aparelho antigo caiu em um vaso sanitário e estragou. Foi falha minha não ter lhe informado meu novo número.
·        Eu sabia do sumiço de seu celular, pois Grozzi me contou toda a história, mas pensei que ainda mantivesse o número em outro aparelho.
·        Tive necessidade de desaparecer não só com o aparelho, mas também com seu chip e seu número. O número agora é outro. Faz favor de anotá-lo.
·        Pode falar. Qual é?
Após gritar o novo número ao detetive e ele anotá-lo em seu próprio aparelho Dona Rute voltou a falar sempre aos berros para ser ouvida.
·        O senhor precisa falar comigo sobre o que?
·        Não se afobe, pois de fato não estou procurando-a para inquiri-la como suspeita de nenhum crime como aconteceu quando a conheci transformando-a na primeira suspeita.
·        Foi uma grande injustiça que vocês policiais cometeram comigo.
·        Infelizmente era a única pessoa que tinha a chave da mansão onde sua patroa apareceu degolada.
·        Ainda bem que desta vez não está pretendendo incriminar-me de nada. Afinal o que o senhor quer comigo?
·        Depois de tudo esclarecido pensei que tivéssemos ficado amigos. A senhora não gosta de mim? Ainda tem ressentimento sobre aquilo?
·        Claro que gosto do senhor. Sempre gostei independente de ter-me interrogado por eu ter sido naquele caso, a principal suspeita. Percebi que me interrogava já imaginando minha inocência que inclusive ficou provada pelo senhor mesmo.
·        Então podemos conversar sem nenhuma mágoa?
·        Absolutamente nenhuma, muito pelo contrário. Como já lhe disse gosto muito do senhor desde aquela época e o respeito como excelente detetive que é.
·        Ainda bem.
·        Afinal o que o senhor quer de mim?
·        Propor-lhe um emprego.
·        Seria um prazer enorme poder servi-lo, mas não tenho nenhum dia vago.
·        Não será como diarista.
·        É um trabalho mensal? Onde?
·        Comigo mesmo.
·        Para ser sua empregada domestica? Sinto muito, mas não aceito. Como diarista ganho muito mais e quando tenho necessidade de resolver algum problema pessoal posso dar-me ao luxo apenas de avisar as patroas com antecedência e faltar em algumas faxinas. Quando acontece isso elas chamam alguém de alguma agência para substituir-me e depois retomo meu trabalho tão logo eu esteja novamente disponível.
·        Hoje a senhora está livre não é?
·        Sim É véspera de Natal e vim comprar alguns presentes para meus parentes.
·        Podemos ir até ali naquela lanchonete fazer um lanche enquanto conversamos, pois esse terrível barulho está me fazendo ficar surdo além de ter de gritar para a senhora me ouvir.
·        Está bem. Vamos lá, pois o mesmo está acontecendo comigo. Estou quase surda pela barulheira e quase muda de tanto gritar para o senhor me ouvir.
Chegaram rapidamente ao local que era perto sem se falarem e enquanto tomavam seus leites pingados com café, comendo pão na chapa com manteiga, ovo e mortadela Dona Rute aguardou por vários minutos o que o detetive Miranda tinha a lhe dizer e como ele não reiniciou a conversa interrompida Dona Rute perguntou-lhe:
·        Diga-me detetive ainda não se aposentou?
·        Da polícia sim, mas estou com um escritório particular em um prédio na Rua Pinheiros perto da Av. Faria Lima.
·        Sei onde é seu esconderijo. É em um lugar nobre. Ali está cheio de prédios novos e bonitos.
·        Pois é. Finalmente consegui comprar um escritório excelente, mas quando comecei, foi na Barão de Limeira. Era em um prédio velho, caindo aos pedaços onde antigamente se faziam filmes pornográficos e atualmente são vários cubículos imundos alugados como escritórios, mas a maioria está ocupada por vagabundos e prostitutas, que fazem desses escritórios suas moradas e seus trabalhos sujos.
·        Então literalmente o senhor acabou saindo direto da boca do lixo para a boca do luxo?
·        Com certeza.
·        Então está com um escritório de detetive particular?
Quer dizer que agora vive seguindo, vigiando, fotografando e filmando homens e mulheres que traem seus cônjuges?
Os eternos trejeitos do detetive entraram em ação antes de ele dizer qualquer coisa e após coçar a cabeça e depois o queixo, com os olhos totalmente fechados, ele perguntou em voz alta para si mesmo:
·        Como ela sabe? Será que foi o Grozzi quem lhe falou?
Dona Rute sabia que as perguntas não foram para ela, mas respondeu como se fosse, e isso fez o detetive sair do transe e continuar a conversa.
·        Ninguém me falou nada.
·        Então como sabe dos meus afazeres?
·        É fácil deduzir o que fazem os detetives particulares. Geralmente é só isso mesmo, ou então não fazem nada a não ser distribuir seus folders, como qualquer cigana que diz descobrir o passado e o futuro lendo as mãos das pessoas ingênuas iludindo-as e tirando-lhes seu dinheiro.
·        Está querendo dizer que vivo enganando os outros?
·        Não entendeu minha comparação. As quiromantes realmente iludem os incautos e os detetives particulares nem tanto, mas ambos vivem espalhando panfletos para todo mundo e foi referindo-me a isso que os comparei.
·        Já faz mais de cinco anos que trabalho assim.
·        Coisa feia. Ir atrás das pessoas filmando-as de longe só para separá-las de seus clientes quando as pegam abraçando e beijando seus amantes.
·        Concordo que é realmente ridículo, mas logo ao aposentar-me tive de fazer isso. Infelizmente consegui desfazer muitos casamentos e transformar muitas crianças em filhos apenas de mãe sem marido ou vice versa.
·        E agora precisa de mim para que? Lavar sua casa ou sua consciência que deve estar imunda?
·        Não. Não é para limpar nada. Eu a quero trabalhando comigo como investigadora.
·        Destruindo matrimônios e deixando filhos praticamente órfãos?  Não. Muito obrigada, mas não aceito tal oferta por dinheiro nenhum.
Não reconheço mais aquele detetive sério e austero fazendo o que faz e muito menos querendo o mesmo de mim. Deveria tê-lo deixado morrer na mão daquele delegado doido, pois assim não estaria agora fazendo essas maluquices.
·        Devagar Dona Rute. Está precipitada e me entendendo errado porque ainda não falei tudo o que tenho a lhe dizer.
Quando aposentei montei meu escritório particular de detetive, pois era a única opção de começar ser conhecido fora da polícia. Não faço mais, conforme a senhora disse, essas maluquices. Mudei de atividade há mais de um ano. Atualmente eu trabalho para empresas desvendando crimes de espionagem industrial, que está muito maior que antigamente graças a internet e aos hackers espiões.
·        Agora estou novamente começando conversar com o detetive Miranda que um dia conheci. Trabalhando com coisas realmente sérias e de difíceis soluções, nas quais tem necessidade de usar inteligência e competência e não apenas uma filmadora de longo alcance, usando-a escondido atrás de postes, árvores e quebras de esquina. Ou trabalhava com sua filmadora de dentro de um carro?
·        Continuo não dirigindo e também continuo não tendo carro?
·        A pé não é difícil seguir as pessoas?
·        Quando era necessário eu usava taxi, mas eu já lhe disse que não estou mais fazendo isso.
·        Eu sei. Apenas comentava o que acho sobre o trabalho sujo que fazia.
·        Pois é. Meu novo trabalho ainda está praticamente no início, mas tenho certeza que logo colherei grandes frutos, pois plantei folders em todas as médias e grandes empresas do Brasil inteiro.
Só não estou preocupando-me ainda com as pequenas e as microempresas, mas no futuro também elas serão procuradas por mim para eu ofertar meus trabalhos, pois nelas também se criam vários projetos novos que geralmente transformam-se em grandes invenções.
·        O senhor deveria procurar por elas não no futuro e sim agora antes de elas transformarem-se nos monstros que são hoje como é o caso do Facebook inventado por Mark Zuckerberg e da Apple criada por Steve Jobs, entre outras, tão grandes quanto as citadas que alguns anos antes, ao começarem eram apenas microempresas.
·        Sou obrigado aceitar o que a senhora sugere, pois sempre tem razão. Concordo plenamente e assim farei de agora em diante.
·        Voltando ao nosso assunto. Quer que eu vá trabalhar com o senhor por quê?
·        Porque a senhora é ótima investigadora. A melhor que conheço, mesmo entre o pessoal da polícia.
·        Pensa assim apenas por eu ter descoberto o filme que mostrou aquele delegado assassino tentando estuprar minha ex-patroa?
Ou está se sentindo em dívida comigo por tal filme tê-lo impedido de assassiná-lo também?
·        Não é nada disso. A senhora sabe muito bem que sou muito amigo de seu ex-marido, o detetive Grozzi e ele tem me contado todas suas façanhas, de antes e de depois daquela vez que me salvou.
·        Quais besteiras ele lhe falou de mim?
·        Besteira nenhuma, mas sim grandes feitos.
Entre tantos, como descobriu recentemente um bando de assassinos em um sítio em Mongaguá onde prendeu todo mundo. Era uma bem organizada quadrilha de mais de vinte pessoas, que ninguém nem suspeitava que existisse.
·        Quem prendeu os bandidos foi ele com vários outros policiais. Eu não prendi ninguém. Estou totalmente fora de tudo isso.
·        Sei disso. Foi a polícia quem efetuou a prisão deles, entretanto toda a descoberta, a investigação e as provas dos vários assassinatos inimagináveis foi obra única e exclusivamente da senhora, sem auxílio de ninguém.
·        Que fofoqueiro ele é. Eu não sabia dessa outra péssima característica dele. Pensei que só fosse um mulherengo sem vergonha.
·        Fique sossegada Dona Rute que não se trata de mexericos dele e sim de sua honestidade para com os amigos e principalmente com o Secretário de Segurança Pública que desde aquele caso em que a senhora salvou-me a vida, que algumas pessoas do alto escalão da polícia sabem sobre suas atividades clandestinas de auxílio a lei. Todos a admiram e a respeitam demais por isso. Nenhuma dessas pessoas jamais a colocará em risco com os criminosos. Sabemos de suas ações e não nos recusaremos nunca em solicitar-lhe ajuda quando necessário e jamais seu nome será divulgado como sendo a investigadora do caso.
·        Não estou gostando nada disso. Mas diga-me uma coisa. Vai usar o dinheiro de sua aposentadoria para pagar-me caso eu aceite?
·        É claro que não. Estou com uma razoável poupança vinda dos ricaços traídos para os quais trabalhei ganhando muito bem para destruir seus casamentos.
Também tenho vários contratos já firmados com muitos empresários para descobrir crimes de espionagem industrial em suas fábricas.
Em apenas um em Vitória no Espirito Santo que desvendei a falcatrua ganhei uma pequena fortuna como recompensa, além de uma grande clientela lá mesmo, portanto além de ter comprado um ótimo escritório a vista, do qual já lhe falei ainda me sobrou o suficiente para pagar-lhe muito bem sem passar nenhuma dificuldade. Fique tranquila quanto a isso.
Tenho certeza que poderei fazer-lhe um salário bem maior e mais digno do que o que ganha mensalmente em faxinas desgastantes e cansativas.
·        Já recebi uma proposta praticamente igual essa, também dentro de uma lanchonete em Santos e foi feita por uma criminosa chamada Norma e não aceitei.
·        Está me comparando a uma assassina?
·        Estou só brincando com o senhor, porque minha resposta é a mesma que dei a ela. Não aceito.
·        Não vou insistir, mas fique com meu cartão para telefonar e procurar-me se mudar de ideia e caso o perca pergunte ao detetive Grozzi que ele lhe informará onde encontrar-me.
Ele visita-me com frequência em meu escritório para trocarmos informações sobre casos em que ele esteja investigando.
·        Se por algum motivo eu venha precisar falar com o senhor eu tenho seu número de celular.
O que acabei de ouvir? O senhor continua trabalhando em investigações sobre crimes de mortes misteriosas e incompreensíveis auxiliando a polícia?
·        Sim.
·        Que bom ouvir isso. Então continua trabalhando nessa área também?
·        Alguns delegados e o próprio Secretário de Segurança Pública de vez em quando pedem minha assessoria e é claro que nunca nego, pois adoro descobrir assassinos considerados inteligentes e pegá-los.
·        Agora finalmente estou falando com o verdadeiro detetive Miranda. Quando atua nesses casos cobra dos órgãos públicos por seu trabalho ou faz apenas por amor a profissão?
·        Quando necessário recebo apenas para as passagens de avião, ônibus, táxis e estadias em hotéis baratos. Muitas vezes dão-me uma quantia tão irrisória para permanecer-me em outra cidade por uma semana inteira que o valor recebido mal dá para a estadia de um bom hotel para apenas um pernoite. Tenho de pagar de meu bolso para hospedar-me melhor.
·        Está trabalhando em algum caso de homicídio atualmente?
·        Está quase certo que vou começar uma investigação sobre o caso do assassinato de um casal de sessentões que a mídia está chamando de o Latrocínio dos idosos da Ilha do Frade.
·        Já vi sobre isso várias vezes na TV e tenho acompanhado também os noticiários escritos, mas aconteceu em Vitória no Espírito Santo. Está indo lá para esse caso?
·        Eu estava lá quando aconteceu o crime.
·        Então já sei quem foi o mandante.
·        Quem foi?
·        O senhor é claro. Pode começar confessar.
·        Deixe de gozação comigo.
·        Não foi assim que certa vez falou para mim querendo minha confissão? Depois fez o mesmo para seu delegado que quase o matou?
·        Foi. Mas naquele caso ambas as acusações foram embasadas em muitas evidências, infelizmente sem nenhuma prova convincente.
A senhora realmente não tinha nenhuma culpa e se ainda não lhe pedi desculpas suficientes, peço-as agora, mas com relação ao delegado eu estava completamente certo em acusá-lo e se não fosse pela senhora eu talvez nem estivesse mais aqui.
·        Sempre ensino a meus netos, que suspeitar de alguém não é o suficiente para incriminá-lo.
Suspeitar é permitido a qualquer um, mas acusar está muito distante de uma simples suposição.
Tem de haver a prova concreta antes de culpar alguém para não termos que passar pelo vexame de um processo por calúnia, quando irresponsavelmente fazemos isso.
Já se desculpou comigo pelo erro lamentável que cometeu e já o perdoei há muito tempo por isso vamos mudar de assunto porque estou vendo que ficou corado e envergonhado. Está tudo acabado e não se fala mais nisso.
·        Desculpem-me mais uma vez e obrigado pelo conselho sensato. Jamais repetirei essa falha deplorável acusando alguém que ainda é apenas um simples suspeito.
·        Espero que faça isso com mais ninguém e principalmente comigo.
A propósito, já tem alguma ideia de como resolver o caso de Vitória?
·        Imagino uma possibilidade bem interessante, mas ainda é muito cedo e incerto tocar no assunto delicado que estou imaginando, até para não acusar ninguém ainda sem nenhuma prova. Tenho apenas suspeitos por enquanto e usando de seu recente conselho vou continuar apenas suspeitando e não acusando, portanto eles vão continuar em completo sigilo.
·        Pelo que tenho ouvido falar e lido ainda estou com algumas dúvidas, mas já me sinto no caminho provável que é também extremamente muito delicado.
·        Estaremos pensando na mesma coisa?
·        Provavelmente sim e se estivermos certo está fácil desvendar tal crime.
·        Fácil? Por quê?
·        Não foi nenhum latrocínio. Está muito claro ter sido um crime encomendado.
·        Porque diz isso Dona Rute?
·        Por que os assaltantes que roubaram as joias e o dinheiro do casal de idosos, matando-os teriam de aparecer envenenados dentro de suas celas? Estão falando sobre isso desde hoje bem cedo em todas as emissoras de televisão e rádios do país inteiro. Nada mencionam que eles foram mortos por vingança de algum parente ou amigo dos idosos, por nenhum detento, pelos policiais e descartam a possibilidade de suicídio. Fala-se que tais envenenamentos estão sem nenhuma explicação.
·        Também já vi, ouvi e li os noticiários de hoje cedo e estou crendo, como a senhora, ser queima de arquivo.
·        Exatamente isso. Portanto o verdadeiro mandante do crime dos idosos está solto.
·        Por acaso a senhora não queria dizer “os verdadeiros mandantes”?
·        O senhor não acabou de falar que ia manter sigilo de seus suspeitos? Praticamente já me disse quem são eles. Só não mencionou seus nomes por talvez ainda nem saber.
·        Com a senhora eu posso falar abertamente o que penso, pois é uma das pessoas mais sérias e corretas que eu já conheci em toda minha vida.
·        Obrigada por pensar isso de mim. Embora eu me esforce para ser muito decente, não creio que mereça toda essa deferência.
·        Voltando ao assunto a senhora não acha que foram os quatro?
·        É o que mais parece ser, mas quem planejou e mandou matar os idosos pode ter sido apenas um, ou dois.
·        Ou três ou os quatro. Porque não? Não se consegue encontrar nenhum dos quatro filhos dos idosos.
·        Com certeza eles aparecerão um dia para reclamar a herança e talvez por isso que digo que ficará fácil, se realmente tiverem sido eles.
·        Concordo com a senhora. É só esperá-los aparecer e a gente aperta-os e eles confessam.
·        Vai apertá-los usando quais argumentos? Por acaso seria isso: “Vocês estão presos porque eu, o detetive Miranda, melhor detetive do mundo afirmo que mandaram matar seus pais. Estão detidos e podem confessar que foram vocês”.
·        A senhora sabe muito bem que eu não faço nada disso. Foi apenas aquele miserável do Dr. Ataíde quem falou isso de mim.
·        Estou novamente brincando com o senhor, mas sinceramente creio ser crime encomendado e por enquanto os principais suspeitos de mandar matar um casal simpático, querido de todos, cheio de dinheiro e propriedades, são os próprios filhos.
·        Provavelmente não tiveram paciência de espera-los morrer naturalmente, pois além de não serem tão velhos eram bem saudáveis e possivelmente ainda viveriam muitos anos.
·        Mas nada disso está confirmado. Não se precipite detetive, pois eles são apenas suspeitos.
·        Concordo com a senhora, entretanto estou seguindo essa linha de raciocínio. Não se encontra nenhum deles no Brasil. Moram há muito tempo no exterior e ninguém sabe onde. Sequer apareceram para o enterro dos pais.
·        Talvez eles nem saibam que os pais foram mortos.
·        Não creio nisso. Para mim eles são os responsáveis pelas mortes.
·        Não descobriram nada como os criminosos foram envenenados dentro da prisão?
·        Absolutamente nada. Hoje pela manhã o delegado de lá deixou um recado com minha secretária, que já me disse que ele precisa de mim para ajudá-lo resolver esse assunto, por isso que disse que estou no caso, mas oficialmente ainda não estou, pois ainda não telefonei para ele.
·        Os assassinos não teriam sido envenenados antes de serem presos?
·        Como assim?
·        Antes mesmo de assaltarem a casa já teriam sido envenenados para morrer depois, sendo presos ou não. Morrendo jamais falariam quem os mandou matar os idosos.
·        Mas se foram envenenados como a senhora prevê, eles não estariam sofrendo as dores ou os efeitos do envenenamento antes de praticar o crime?
Com certeza não teriam invadido a mansão para matar e roubar e sim procurado um hospital para se tratarem é o mais razoável.
·        Pode-se pensar assim, mas dependendo do veneno usado eles não sentiriam nenhum mal estar imediato e fariam a encomenda conforme fizeram para morrer depois.
·        Estou entendendo o que me fala, mas existe algum veneno que não começa agir imediatamente ao ser ingerido?
·        Existem pelo menos dois que eu conheço. Eles podem ter comido algo antes de invadir a mansão, contaminado com a Warfarina, por exemplo, que é um anticoagulante químico que prejudica a capacidade do sangueem coagular, comumente usado para matar ratos que morrem de embolias internas e isso não se dá imediatamente ao ingeri-lo.
Demoram-se alguns dias para as hemorragias manifestarem-se dando início a morte.
O outro é o polônio, um elemento químico que se torna letal ao ser ingerido ou inalado, já que as partículas radioativas entram em contato direto com os tecidos internos do corpo.
Basta um micrograma de polônio 210 para matar uma pessoa de 80 kg. O 750 cGy ou o 800 cGy é morte certa. A radiaçãoacaba com a mucosa do sistema gastrointestinal, causando graves diarreias, sangramentos, perda de fluídos e um grande distúrbio eletrolítico.
Nesses casos, a pessoa sobrevive por alguns dias mesmo sendo detectado oenvenenamento, pois não há tratamento e, no entanto ao ingeri-lo ou inalá-lo não sentem absolutamente nada nos primeiros dias, mantendo seus afazeres normalmente.
Alexander Litvinenko antigo espião russo foi assassinado pelos próprios russos quando estava asilado na Inglaterra, contaminado por Polônio-210. Inicialmente nada sofreu até começar a sentir-se doente e mesmo tendo sido hospitalizado em primeiro de novembro de doismil e seis e mesmo já diagnosticado como tendo ingerido polônio faleceu três semanas depois, pois simplesmente nada foi possível fazer para impedir sua morte por mais que os médicos ingleses tentassem.
Antes de morrer emitiu uma declaração imputando seu envenenamento à ordem do presidente russo, Vladimir Putin e embora a senhora Marina Litvinenko viúva do espião tenha escrito um livro denunciando o crime, ninguém mais fala no assunto que com certeza acabará no esquecimento com o passar do tempo. 
·        Lembro-me que li sobre esse caso, mas não cheguei a esse pensamento que a senhora chegou.
·        Pois é. Pode ser possível ter acontecido da mesma forma e provavelmente até com o mesmo produto químico.
·        Aprendi muito sobre venenos com a senhora.
Obrigado pela dica, pois já me orientou imensamente e vou dirigir minhas investigações pensando nisso.
Geralmente as mortes por envenenamento que costumo tomar conhecimento no dia a dia são causadas pela ingestão de estricnina ou de soda cáustica.
·        Nesses casos são os suicidas que usam para já começarem morrer ao ingeri-las.
Geralmente bebem tais substâncias nocivas com refrigerante ou cerveja a noite sozinhos em casa, para não serem socorridos e ao amanhecer serão encontrados mortos, quando simplesmente não se enforcam, dão um tiro no ouvido ou se atiram de uma altura grande para arrebentarem-se no chão.
 O detetive começou com seus tiques nervosos e novamente com os olhos fechados falou para si mesmo em voz alta:
·        Veneno que não faz efeito imediato e depois de alguns dias simplesmente mata quem o ingere. Esse é um fato novo para minha linha de raciocínio.
Dona Rute com pressa para encerrar a conversa, pois ainda precisava visitar lojas para comprar os mimos para seus parentes, novamente não aguardou o detetive voltar a realidade sozinho e despediu-se dele acordando-o, ao falar:
·        Detetive Miranda. Então se já lhe prestei uma informação interessante vou me despedir, pois tenho pressa em voltar, pois nossa longa conversa consumiu-me muito tempo, embora tenha sido imensamente prazerosa.
·        Até um novo encontro Dona Rute e que não seja ao acaso. Procure-me para trabalharmos juntos.
·        Vou pensar, mas não creio que isso acontecerá oficialmente. Pode ser que como nosso encontro, talvez venhamos a desvendar algum crime, trabalhando juntos, mas simplesmente ao acaso.
·        Aguardo sua decisão, mas pense com carinho a respeito.
·        Até breve.
·        Até.
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Dias antes desse encontro, mais precisamente no dia quinze de dezembro um homem residente na Ilha do Frade em Vitória, havia telefonado à polícia informando que deveria ter ladrões na casa ao lado, pois já passava de meia noite e o casal de idosos que lá vivia sempre apagava todas as lâmpadas antes das vinte e duas horas, entretanto lhe parecia que acontecia uma festa, pois a casa estava toda iluminada, apesar do horário tardio.
Antes do atendente da polícia iniciar suas perguntas de praxe, o informante disse que não se via ninguém através das janelas, por estarem todas com as cortinas fechadas e foi tal fato que o induziu em crer que não estivesse realmente acontecendo nenhuma comemoração.
Depois dessa informação o policial ainda perguntou-lhe se mesmo com as janelas fechadas dava ou não para ver pessoas andando dentro da casa e a resposta foi taxativa dizendo que independente da luminosidade da casa toda, não se via nenhum vulto transitando em nenhum lugar, pois de sua casa que era bem próxima daria para ver perfeitamente se houvesse movimentação de gente.
A polícia de Vitória encaminhou-se à mansão situada na ilha do Frade naquela capital, onde só residem pessoas de altíssimo poder aquisitivo, e em lá chegando rapidamente, encontrou e cercou dois ladrões que tentavam fugir pelos fundos da mansão, com o fruto do assalto e sem necessidade de trocas de tiros efetuou a prisão em fragrante delito.
Enquanto alguns policiais algemaram e colocaram os prisioneiros dentro da viatura, os demais adentraram a casa que havia sido arrombada pelos fundos e encontraram o casal de idosos assassinado a golpes de faca e pauladas sobre a própria cama.
Tanto o punhal que assassinara a senhora quanto o taco de beisebol que fora usado para matar o idoso foram deixados no quarto ao lado da cama completamente ensanguentada.
A casa inteira havia sido revirada. Todas as gavetas foram revistadas pelos bandidos que espalharam roupas pelo quarto do casal, nos quartos de hóspedes e demais dependências deixando claro que tinham vistoriado toda a residência. 
O cofre fora encontrado em um pequeno corredor atrás de um quadro de um famoso pintor, pois sempre é assim que as pessoas os escondem e como é do conhecimento de todos, os bandidos também sabiam, portanto arrombaram-no e saquearam tudo que encontraram nele.
Haviam levado os pertences dos idosos que eram dinheiro em grande quantidade e joias muito valiosas.
Todo o roubo fora recuperado dentro da mochila de um dos assaltantes e ambos devidamente presos na chefatura de polícia.
Como se tratava de um casal de pessoas muito queridas na ilha de Vitória, os noticiários sobre suas mortes foram tristes e o fato foi incessantemente comentado pela população revoltada que não falava em outra coisa que não fosse vingança urgente, mesmo que fosse pelas próprias mãos.
Para a proteção dos meliantes que passaram a ser odiados por uma cidade inteira, o cuidadoso delegado e seus policiais os prenderam separados dos demais detentos e totalmente isolados de qualquer aproximação que por ventura pudesse acontecer por pessoa de dentro do presídio ou mesmo de fora dele.
Só tinham acesso a eles dois carcereiros da mais alta confiança do delegado.
Os prisioneiros recebiam a alimentação que era feita no próprio presídio, e lhes eram entregues apenas pelos dois policiais, através de uma pequena janela da solitária onde estavam escondidos, dos rebelados moradores da cidade em busca de vingança.
oooOooo
O assalto a mansão tinha ocorrido em meados de dezembro na época em que o detetive Miranda, estava hospedado no Hotel Ilha do Boi, em visita a uma grande empresa de Vitória para a qual prestava serviços.
Foi assim que ele ficou sabendo da tragédia desde seu início, cuja mídia local e a nacional denominou de latrocínio do casal de idosos da Ilha do Frade.
Muitas impressões digitais foram encontradas nas armas do crime, e nos móveis e com exceção das dos idosos todas as outras foram deixadas pelos  prisioneiros, que, entretanto não foram identificados por não portarem documentos e nem por ter sido encontrado em nenhum lugar do país os registros de identificação deles.
Pela minuciosa investigação feita descobriu-se que eles haviam chegado pelo mar, em um pequeno barco, deixando-o amarrado na parte da praia que dava acesso aos fundos da mansão. Arrombaram a casa por ali, entraram e fizeram o que pretendiam. Com certeza a intenção deles era voltar pelo mesmo lugar e empreender a fuga da mesma forma que tinham chegado, mas fora justamente nesse momento que foram presos.
Foi descoberto pela polícia um pequeno bote inflável movido a remos em que eles rapidamente poderiam alcançar pelo mar outra praia próxima, para abandonarem-no, talvez na curva da Jurema onde se infiltrariam entre as pessoas comuns e depois fugiriam para onde quisessem cheios de dinheiro e joias que venderiam aos receptadores do Rio de Janeiro, de São Paulo, ou de qualquer outro lugar onde possivelmente já conhecessem. 
Se não fosse o telefonema do vizinho e a rapidez da ação do delegado e seus policiais prendendo-os muito provavelmente teriam alcançado êxito na façanha.
Mesmo sendo o detetive Miranda muito conhecido por toda a polícia do Brasil, não foi convidado a participar diretamente das investigações, pois o delegado cujo inquérito lhe coubera analisar, via bem nítidas as provas do crime, mas mesmo assim ele consultou o detetive sobre alguma outra possibilidade de ser diferente do que ele percebia.
O detetive Miranda disse que precisaria pensar sobre o assunto para ver alguma outra possibilidade e a conversa deles naquele dia do crime ficou apenas nisso.
Passados vários dias da prisão dos criminosos o delegado que fazia plantão noturno solicitou a seus auxiliares que os trouxessem a sua sala para iniciar o interrogatório em virtude da grande quantidade de moradores da cidade ter desistido de postar-se ao redor da prisão, pela proximidade do Natal, portanto os bandidos poderiam ser interrogados com tranquilidade, sem nenhum risco naquele dia vinte e quatro de dezembro ainda pela madrugada antes do dia clarear. 
Até então nem ele ou qualquer outro policial havia conversado com eles, pois no total isolamento em que foram mantidos para suas próprias seguranças, não havia possibilidade de nenhum interrogatório.
Para a surpresa de todos, eles estavam mortos, sobre excrementos humanos, vômitos e sangue que lhes saíram pelos vários orifícios do corpo.
Um médico perito que fora vê-los, de imediato disse tratar-se de envenenamento cujas mortes ocorreram durante a madrugada, com pequena diferença de tempo um do outro.
Os restos de alimentação encontrados foram devidamente analisados e neles não continham nenhum tipo de veneno. A comida estava descartada de ter sido a condutora da toxina.
Os potes com água também foram isentados de conter qualquer substância nociva, por isso a situação ficou bastante complicada para o delegado que passou a ter também a incumbência de descobrir como e por quem os prisioneiros foram mortos.
Naquela manhã que começava clarear ainda existia a dúvida se foram assassinados ou se suicidaram.
Na necropsia dos corpos não viram nenhuma marca de picada de agulhas por onde o veneno pudesse ter sido introduzido no sangue através de alguma veia, além de não ter sido encontrada nenhuma seringa que por ventura eles teriam usado, portanto suicídio também estava descartado após imensa busca por qualquer elemento tóxico em poder deles ou na cela solitária onde estiveram completamente isolados por vários dias.
Em outros exames mais apurados, efetuados na mesma madrugada em um laboratório de análises clínicas, fora da prisão ficou claro e definido aos legistas que as mortes foram realmente por envenenamento.
O laboratório para onde foram enviadas partes do estômago, do aparelho digestivo, o vômito, as fezes e o sangue dos criminosos demoraria vários dias para detectar qual foi o veneno introduzido em seus corpos, pois pelo que tudo indicava só poderia ter sido junto a alimentação, mas o impasse era grande em função de todos os alimentos entregues na prisão serem de boa qualidade e em seus restos não haviam encontrado vestígio de nenhuma substância que não fosse saudável.
Desta vez o delegado encarregado do caso não teve dúvidas em telefonar ao Hotel Ilha do Boi e solicitar ajuda ao detetive Miranda, mas infelizmente não o encontrou porque ele já havia retornado a São Paulo há vários dias, por isso telefonou ao seu escritório ainda no início da manhã, véspera do Natal, por volta de oito horas.
O detetive Miranda não foi encontrando em seu escritório, porem o delegado deixou recado com sua secretária, solicitando retorno urgente, mas já passava de dezesseis horas e ele não havia entrado em contato com a delegacia de Vitória o que o deixava a cada minuto que passava mais preocupado. 
Nesse dia após o detetive terminar a conversa e despedir-se de Dona Rute, foi para sua casa assistir mais noticiários sobre o caso dos prisioneiros envenenados em Vitória e como toda a informação da tarde foi exatamente a mesma da de manhã, efetuou a esperada ligação ao delegado capixaba no final da tarde que antecedia o Natal.
·        Doutor. É o Miranda de São Paulo falando. O senhor está bem?
·        De saúde sim, entretanto estou em uma enrascada enorme.
·        Estou sabendo pelos noticiários de hoje.
·        Péssimo presente de Natal que o senhor ganhou.
·        Pois é. Os criminosos dos idosos apareceram mortos por envenenamento. Todos os restos de comida e bebida foram analisados no decorrer do dia e nada do que lhes foi fornecido continha veneno.
Os carcereiros que os atenderam todos os dias são de inteira confiança e após incessantes questionamentos por mim e pelos detetives daqui, além de usarmos detector de mentiras eles estão totalmente isentos de culpa.
·        Quem mais o senhor inqueriu?
·        Se estiver pensando no vizinho que telefonou para nós, saiba que interrogamos todos da casa da mesma maneira que aos carcereiros e estou plenamente convencido que ninguém de lá, além de não terem motivo algum para mandar matar os idosos, também comprovaram estar completamente inocentes. Fizemos o mesmo com os alguns vizinhos de frente e com outros aos lados e sinceramente não vejo como suspeitar de ninguém em absolutamente nada.
·        Quando sairá o laudo da necropsia dos corpos?
·        A necropsia já foi feita e constatou a morte por envenenamento, mas ainda vão demorar uns dez dias, para descobrirem qual foi o veneno usado.
·        Depois disso o senhor me telefona informando-me se eles morreram por radiação do polônio ou se ingeriram um veneno chamado Warfarina. Pode ter certeza que foi um desses dois.
·        Como sabe?
·        Porque uma pessoa muito amiga me alertou sobre eles. Disse-me que ao serem ingeridos ou inalados nada fazem nos primeiros dias, mas depois simplesmente matam, portanto confirmando isso poderemos concluir que eles já haviam sido envenenados antes de cometerem o crime, portanto iremos saber que eles foram enviados para matar e depois morrer para não confessar nada.
·        Que venenos são esses?
·        A Warfarina é usada para matar ratos e o polônio é extraído do uranio e é radioativo e eles não apresentam nenhum sintoma nos primeiros dias após o uso. Só que dias depois as pessoas que o inalaram ou ingeriram simplesmente morrem.
·        Então precisamos pesquisar em qual local extraem urânio.
·        Vários países que tenham usinas nucleares para confeccionar bombas fazem isso. Também extraem urânio para fins pacíficos como nas usinas atômicas para fabricação de energia. No Brasil tem cinco estados onde se extraem uranio natural, assim como em vários países do mundo, entretanto o polônio por ser pouco encontrado na natureza, os cientistas o fabrica em laboratórios especiais, portanto pode ter vindo de qualquer lugar do mundo, se comprovar o envenenamento por radiação dele.
·        O detetive não acredita que foi roubo seguido de morte e depois mortos por vingança?
·        Agora tenho forte suspeita que foi crime encomendado.
·        Quem poderia ter sido?
·        Ainda é cedo para acusar alguém, mas diga-me se algum dos filhos apareceu para o funeral dos pais?
·        Vários parentes dos idosos, como o irmão, duas irmãs, cunhados e vários sobrinhos estavam presentes, mas ninguém sabe dizer onde andam os filhos, pois não tem contato com nenhum deles há mais de três anos. A única coisa que sabem é que a cinco anos todos viajaram juntos para Londres e mantiveram comunicação só nos dois primeiros anos e depois simplesmente desapareceram e embora seus pais, seus tios e primos tentassem encontrá-los até viajando para Londres a sua procura jamais alguém ouviu falar deles. A maioria dos familiares os tem até como mortos, pois todos pararam de se comunicar com o restante da família ao mesmo tempo.
·        Todos esses parentes foram interrogados?
·        Todos. Não só os que moram aqui, mas também os que vieram de fora. Não há nadaque me faça imaginar que algum deles tenha a menor cumplicidade.
·        Os bandidos foram enterrados?
·        Não. Estão no necrotério e lá ficarão por um bom tempo. Vou conservar seus corpos congelados até conseguir alguém que os identifique.
·        Faz bem. Não deu para descobrir suas origens pelo rosto, pelo físico ou por alguma tatuagem?
·        Podem ser originários daqui mesmo do Brasil ou de algum país da América do Sul, pois não tem particularidade nenhuma como sendo asiáticos, americanos da América Central ou do Norte, nem do Canadá. Também não são nada parecidos com africanos, australianos ou europeus.
·        Então não se sabe nem a nacionalidade deles?
·        Não. Podem ser brasileiros mesmo, ou argentinos, uruguaios, chilenos ou de algum outro país da América do Sul, que tem mais ou menos as mesmas características nossas.
·        Eles nunca falaram nada desde que os prendeu e agora é que não falarão mais, mas excetuando-se as regiões que o senhor eliminou podem ter vindo de vários lugares.
·        Certamente. O mais provável é que sejam de algum país da América do Sul. O pouco que eles falaram fora em castelhano, mas pode muito bem serem brasileiros mesmo, tentando disfarçar.
·        Porque o senhor nunca os interrogou?
·        Eu queria resguardar-lhes a vida, pois quase todos os moradores da cidade viviam em vigília ao presídio e eu não podia de forma alguma deixá-los a mercê de nenhuma vingança, por isso os mantive trancados em uma solitária, para preservar-lhes a vida.
·        Compreendo.
·        Compreende o que detetive? Falou de tal forma que me faz imaginar que desconfia que eu tenha alguma culpa. Está pensando que eu sou igual aquele delegado assassino daí de São Paulo que por pouco o matou?
·        Nunca me passou pela cabeça nada parecido.
Pode ficar tranquilo, delegado que não penso nada de errado sobre o senhor e seu trabalho.
Só estou perguntando-lhe sobre o que tem feito para saber se eu teria alguma ideia para sugerir-lhe, mas no momento nada me ocorre, pois realmente tudo que deveria ser feito o senhor já fez e tenho certeza que muito bem feito.
·        Quando o detetive volta para Vitória?
·        Logo após o Natal. Dia vinte e sete já tenho bilhete no voo que sai daqui as dez, direto para Vitória.
·        Quando chegar me procure para trocarmos opiniões para solucionarmos esse episódio que está me deixando maluco.
·        Com certeza não só o senhor, mas toda a população de Vitória.
·        Aliás, de toda a Grande Vitória.
Para ser sincero de todo o Espirito Santo e até longe de nossas fronteiras por tratar-se de um empresário muito importante para o Brasil inteiro. Todo mundo quer ver esse caso resolvido, pois infelizmente tivemos aqui alguns assassinatos de pessoas conhecidas, respeitáveis e muito conceituadas que não ficaram bem esclarecidos deixando a população insatisfeita, mesmo sendo casos que aconteceram há muitos anos, em gestões anteriores.
·        Vou fazer o possível para auxiliá-lo ao menos na solução desse episódio.
·        Espero que sim. Então bom Natal para o senhor e até o final do ano.
·        Boas festas para o senhor também.
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No dia seguinte o celular do detetive Miranda tocou e ele ao atendê-lo reconheceu a voz de Dona Rute, quando ela lhe deu bom dia e bom Natal.
·        Olá Dona Rute. Ganhou muitos presentes no Natal?
·        Vários. Estou muito contente com todos eles. O senhor ganhou algum presente?
·        Estou ganhando agora. Seu telefonema está sendo além de meu único presente, o melhor que eu sequer imaginava ganhar.
·        Deixe de ser besta homem. Não sou nenhuma menininha para o senhor cortejar. Depois de velho deu para ser galanteador?
·        Não se trata disso, até porque não sou como o seu ex-marido que não consegue ver um rabo de saia que logo fica eufórico.
·        Estou sendo sincero em dizer que estou extremamente feliz com seu telefonema por que ele veio muito a calhar.
·        Por quê?
·        Quero saber da senhora se está sabendo alguma novidade do crime de Vitória que eu ainda não saiba e se tem alguma ideia de como o solucionar?
·        Estou vendo e lendo tudo e é por isso que estou telefonando.
·        Tem alguma sugestão?
·        Tenho. Como eu conheço Vitória, sei que a Ilha do Frade por mar tem ligação com várias outras ilhas entre as quais a ilha do Boi que é praticamente colada a ela. Nessa ilha tem um hotel. Quando estive lá há muitos anos soube da existência dele e que era um hotel escola do SENAC, mas parece que foi vendido para particulares, mas não tenho certeza.
·        Pois eu tenho. Não foi vendido, mas foi todo reformado e está muito bonito e atualmente chama-se Hotel SENAC Ilha do Boi e é nele que fiquei hospedado quando estive lá no dia do assassinato do casal da Ilha do Frade.
O atendimento e a comida do hotel são excelentes, mas que ligação a senhora vê entre o hotel e a mansão?
·        Quando o senhor volta para Vitória?
·        Acabei de fazer-lhe uma pergunta e ao invés de responder-me fez uma pergunta? Está bem. Não vamos prolongar o papo com besteiras gastando créditos de meu celular.
·        Eu volto para Vitória no dia vinte e sete próximo e inclusive já combinei com o delegado de lá que vou ajudá-lo na investigação do envenenamento dos assassinos do casal e consequentemente sobre o próprio assassinato dos idosos. Agora por favor, diga-me qual a relação que a senhora vê entre o hotel e a mansão?
·        Tenho certeza que se o senhor se instalar novamente no mesmo hotel poderá compreender como tudo aconteceu.
Basta perguntar aos atendentes sobre os hóspedes que estiveram lá nos dias que antecederam o crime, que acabará descobrindo.
·        O que, por exemplo? Que os criminosos estiveram hospedados no hotel?
·        Eles tenho certeza que não. Mas quem os envenenou pode muito bem ter estado lá. Eu nunca estive hospedada neste hotel, mas sei que pelo mar pode-se sair dele e ir até a ilha do Frade rapidamente com um simples bote inflável.
·        Compreendo o que está pensando e lhe digo que sei que pelos fundos do hotel têm pequenas praias que evidentemente pode-se perfeitamente sair delas margeando-as e chegar á várias outras praias ou ilhas ou até navegar mar adentro.
O mandante deve ter ficado no hotel antes da noite do crime, ter encontrado com os assassinos em uma dessas praias para indicar-lhes qual a mansão a ser invadida e aproveitou para dar-lhes algum alimento previamente envenenado. Durante o dia os criminosos teriam inflado um pequeno barco na praia da curva da Jurema e como quaisquer turistas fingiram estar apenas passeando pelo mar, mas iam encontrar-se com ele aos fundos do hotel.  Lá souberam qual a mansão a atacar, receberam e comeram algum alimento contaminado com veneno e foram fazer o serviço e acabaram presos e só morreram vários dias depois. Adivinhei o que está imaginando?
·        Perfeitamente. É nisso que estou pensando e se o senhor aprofundar-se nas investigações por esse ângulo pode se dar bem.
Como o senhor já está pensado nisso vamos desligar, pois é isso que eu também estou imaginando.
Bom dia, boa sorte e outra vez bom Natal e uma excelente passagem de ano.
·        Vou ligar imediatamente para o delegado de lá para ele tentar descobrir se aconteceu assim.
·        Aconselho-o a não fazer isso.
·        Acha que o delegado de lá tem alguma cumplicidade?
·        Absolutamente nenhuma, mas sei que o senhor é muito mais eficiente que qualquer delegado ou investigador do mundo e por isso entendo que deva fazer pessoalmente tal averiguação.
·        Agradeço pelo elogio, mas eu conheço alguém muito melhor que eu.
·        Se por algum descuido estiver pensando em mim, também agradeço embora eu não mereça tal elogio.
·        Não é nenhum descuido e nem uma simples amabilidade. É a mais pura verdade.
·        Boa noite senhor policial.
·        Boa noite Dona Rute? Ainda é de manhã e quantas vezes preciso lhe pedir para parar de chamar-me de senhor policial. Que essa seja definitivamente a última vez que lhe peço isso.
·        Estava pensando que o dia já tinha acabado e também havia me esquecido que se aposentou. Minha memória está péssima. Cada vez pior.
·        A senhora é a maior gozadora que já conheci em minha vida. Com a inteligência e a grande memória que tem, só vive se passando por senil e esclerosada.
·        Por isso continuo entre os vivos para ajudar os amigos.
·        Um abraço a sua filha e aos netos.
·        Darei.
·        Também ao seu amigo detetive Grozzi.
·        Também darei.
·        Obrigado pela ajuda e até a vista.
·        Até outro dia e resolva esse caso que tenho certeza que logo conseguirá.
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O voo do dia vinte e sete de dezembro direto de São Paulo a Vitória chegou as onze horas e trinta e cinco minutos levando o detetive Miranda que foi direto do aeroporto Eurico de Aguiar Salles para o hotel Ilha do Boi.
Após instalar-se em um apartamento ele telefonou ao delegado de Vitória que foi ao seu encontro.
Almoçaram a apetitosa feijoada que lá é servida com um amigo em comum que apareceu de última hora e após a refeição o detetive falou aos amigos que nessa tarde iria descansar em seu apartamento, mas deixou claro ao delegado que faria algumas pesquisas e que ele se tranquilizasse, pois nos quatro dias em que permaneceria em Vitória dois deles ele iria dedicar a empresa que viera visitar conforme contrato e nos outros dois pesquisaria sobre os envenenamentos dos prisioneiros.
Que provavelmente lhe forneceria subsídios interessantes, mas que para isso o delegado antes de sair deveria avisar ao gerente que ele estaria trabalhando para a delegacia da cidade e que iria precisar de algumas informações sobre os hóspedes, que embora fossem sigilosas seriam de grande ajuda para desvendar o crime que todos queriam ver o fim.
Informou-o que seus diálogos seriam só com os funcionários do hotel, sem conversar, investigar ou incomodar absolutamente nenhum hóspede.
Nada do que falariam a ele seria divulgado e não desprestigiaria nem os funcionários inqueridos e muito menos o bom nome do hotel.
Ainda antes de o detetive retirar-se para seu apartamento, o delegado solicitou tal pedido ao gerente, e mesmo ele sendo uma pessoa bem relacionada com o gerente do hotel não conseguiu a imediata autorização, pois ele dependeria de autorização de seu superior.
Iria imediatamente consultar a alta direção do SENAC e fazer todo o possível para conseguir a permissão com possibilidade de sucesso, em consideração não só ao delegado como ao próprio detetive que já tinha seu nome firmado como grande investigador que era por ter solucionado vários casos policiais difíceis e principalmente pelo fato de ter descoberto uma espionagem industrial em uma empresa da Grande Vitória.
O feliz empresário da indústria que o detetive desvendou o roubo de suas pesquisas confidenciais era o amigo comum que almoçou com eles e entre os quatro homens que ficaram conversando e tentando uma solução para a solicitação do detetive Miranda foi ele quem telefonou ao diretor geral do SENAC, seu grande e antigo amigo.
Por ser a pessoa de maior prestígio e com seu poder de persuasão foi ele quem convenceu a cúpula do Orgão Público conseguindo o categórico sim do principal administrador do hotel em prestar apoio ao detetive.
Despediram-se com os visitantes saindo para seus respectivos afazeres e o delegado Miranda finalmente foi descansar.
Essa foi a desculpa que ele havia inventado para começar seu trabalho sem comunicar nada aos demais.
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Os quartos standard ficam no terceiro e quarto andar e tem o inconveniente de dar para a rua do hotel com vista para o estacionamento, mas por um preço um pouco mais alto o detetive Miranda havia solicitado um quarto de luxo que tem ampla visão da maravilhosa e linda cidade.
Por uma das janelas de seu ótimo quarto munido apenas de binóculos fez suas verificações. Viu não só a baía de Vitória, como vários outros locais.
As praias aos fundos do hotel, a praia da curva da Jurema, o Shopping Vitória, a Praça do Papa e principalmente a Ilha do Frade e suas suntuosas mansões, inclusive a que foi arrombada e assaltada.
Ele havia hospedado em um desses quartos mais caro, mas para sua sorte o rico empresário havia deixado acertado com à gerência que todas as despesas dele correriam por sua conta, portanto o detetive Miranda ficara isento desses altos gastos.
O detetive sentiu que a intuição de Dona Rute praticamente lhe fez ter convicção que o mandante dos assassinos dos idosos que ao mesmo tempo morreram envenenados esteve se não nesse apartamento, em um dos outros com as mesmas vistas.
Cocou a cabeça, depois o queixo e fechou seus olhos para enxergar somente com o cérebro, conforme sempre fazia quando precisava enxergar alguma coisa que se apresentava difícil aos olhos do rosto e viu com o inconsciente como aconteceu quando da visita do mandante do crime e foi assim que ele enxergou:
Durante alguns dias o bandido fotografava e filmava a mansão e depois descia para os fundos do hotel onde ficam suas praias abertas para o mar por onde os assassinos chegavam em um bote. Com as fotos e filmes ele mostrava-lhes onde, como e quando eles deviriam agir.
Três ou quatro dias antes do dia combinado para o crime, o advogado novamente desceu com uma maleta onde levou alimentos contaminados para dar a seus comparsas que nesse dia ele propositadamente os deixara esperando por muito tempo dentro do bote no mar aguardando-o descer às praias do hotel para receberem as informações finais.
Ao encontrá-los, evidentemente com fome eles comeriam toda a comida servida e previamente contaminada e veriam mais fotos e filmes desse dia e atacariam e procederiam conforme haviam combinado que era assassinar os velhos e para a polícia entender que fora um assalto deveriam roubar tudo que encontrassem de valor após revistar todos os possíveis lugares dentro da casa, para isso ficar bastante evidente. O crime deveria ser entendido como um latrocínio.
Não precisariam prestar contas a ninguém, pois o fruto do roubo seria deles além do pagamento milionário que nesse dia lhes foi entregue.
O detetive após sair de seu transe em que percebeu como acontecera aqueles fatos iniciais, desceu após identificar e fotografar a mansão e foi até os fundos do hotel em suas praias e de uma delas conseguiu distinguir perfeitamente a mencionada mansão, que também tinha uma praia nos fundos com ancoradouro e nele estava estacionado um maravilhoso iate de propriedade dos idosos.
Seu trabalho agora era descobrir qual hóspede esteve no hotel no mês de dezembro e que ocupara um daqueles quartos com visão ampla da Ilha do Frade.
Nessa mesma noite procurou pelo gerente que foi o primeiro a ser inquerido que colocou-lhe a disposição o arquivo de registro de hóspedes daquele período e junto com o delegado que foi chamado fizeram uma completa leitura do mesmo descobrindo que todos os quartos haviam sido ocupados em sua maioria por famílias inteiras, com apenas três exceções, em que o usuário fora apenas uma pessoa desacompanhada.
Mais ou menos a metade dos quartos tinham famílias que ainda permaneciam hospedadas desde o início de dezembro a espera do réveillon.
Os outros quartos haviam sido alugados no início de dezembro e foram usados várias vezes por viajantes de outros estados, conhecidos do hotel que os usavam e pela rápida permanência deles novamente eram alugados, até serem locados à outros hóspedes que se instalaram nos dias posteriores ao crime dos idosos.
Alguns quartos de luxo haviam sido liberados e estavam vagos, porém reservados para as festas de final do ano e alguns deles estavam simplesmente vazios e não foram ocupados em nenhum dia do mês. 
O detetive teria para investigar além das três exceções, apenas por terem sido usados por pessoa desacompanhada todos os demais, pois mesmo sendo famílias inteiras ou viajantes e empresários de outros estados, conhecidos do hotel, não via nisso motivo suficiente para serem inocentados, portanto a quantidade de suspeitos seria mais de duzentas pessoas.
Como era seu hábito quis manter em segredo suas investigações, mas acabou tendo de falar ao delegado e ao gerente do hotel sobre sua suspeita e pelo gerente foi informado que apenas o quarto em que ele se instalara e os vizinhos da esquerda e da direita eram os únicos que teriam condições de ver a mansão assaltada na Ilha do Frade, portando agora teria muito menos pessoas para se preocupar em descobrir suas identidades e seus passos enquanto estiveram no hotel.
O gerente informou que o quarto a sua esquerda estava em reforma e não recebeu nenhum hóspede, a não ser recentemente após o crime já ter acontecido, portanto só restaram dois quartos para serem pesquisados.
Começaram pelo da direita e verificaram que desde três de dezembro até vinte e três de dezembro fora usado por um casal em núpcias, por isso já tinham Carlos Antônio dos Reis Santos e seu cônjuge Marlene Aparecida D’ávida dos Reis Santos, ambos da cidade de Alfredo Chaves, interior do estado para serem investigados.
Referente ao quarto em que o detetive estava fora alugado em quinze de novembro por um casal de idosos que permaneceu até dois de dezembro. Esse casal era de São Paulo e o detetive decidiu por enquanto não se preocupar com eles pessoalmente, por isso telefonou para seu amigo detetive Grozzi para colher informações do casal de idosos. Passou-lhe os nomes e continuou com o gerente e o delegado verificando os registros.
Viram que nos dias três e quatro de dezembro o quarto permaneceu sem hóspede, quando recebeu um argentino de nome Agustín Alvarez Aguirre, advogado vindo de Buenos Aires e com retorno a mesma origem. Ele ocupou o quarto do dia cinco de dezembro até doze do mesmo mês. Dia treze o quarto não foi usado, pois de quatorze de dezembro até quatorze de janeiro ele já estava reservado e pago antecipadamente para uma jovem de origem europeia, vinda de Moscou com destino a Avellaneda, na Argentina. Seu nome era Olga Aleksandra Svetlana, entretanto ela se hospedou até vinte e cinco de dezembro, deixando o hotel no próprio dia de Natal pela manhã, não se preocupando em fazer novo acerto referente ao pagamento a maior que fora efetuado antecipado. 
Depois de sua saída o quarto foi higienizado e alugado ao detetive Miranda dois dias depois.
Um dos guarda vidas da piscina descreveu para a polícia de Vitória, sobre a russa com detalhes bem pormenorizados, pois a achava linda e encabulado e envergonhado confessou que ficava sempre olhando para ela na piscina do hotel, por isso a viu muito bem para guardar todas as características descritas, incluindo a informação de que ela já esteve hospedada no hotel por alguns dias dois meses antes. Foi checado e confirmado que no inicio de outubro realmente ela esteve hospedada nesse mesmo quarto durante uma semana.
Era alta, corpo perfeito assim como o rosto. Devido a grande exposição aos raios solares, estava com a pele queimada aparentando ser morena, entretanto era uma exuberante loira de cabelos compridos e olhos azuis.
O profissional papiloscopista técnico na arte de fazer retrato falado fez seu trabalho assim como fez o do argentino, descrito por uma das camareiras, por sinal bem bonita e sempre muito requisitada pelos hóspedes, para servi-los em seus pedidos.
Ela não se envergonhou em dar-lhes os detalhes do homem, assim como confessou não ter tido nenhum caso com o despudorado argentino, mas em se tratando de ambos muito provavelmente houve.
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Como a cidade Alfredo Chaves estava bem próxima a Vitória o detetive Miranda e o delegado deram preferência em ir até lá, nessa mesma tarde, mais para desencargo de consciência, pois suas suspeitas estavam levando-os ao advogado argentino e a moça russa.
No interior do estado, ao conversarem com o delegado da cidade souberam da idoneidade do casal e não se deram ao trabalho de conversar com eles.
Apenas os viram em seus respectivos passeios pela cidade sempre aos beijos e abraços, pois ainda estavam curtindo o recente casamento.
Na viagem que fizeram de volta ainda na mesma noite o detetive recebeu por celular a resposta do detetive Grozzi, inocentando o casal de idosos de São Paulo, pois se tratava de empresários bem sucedidos e moradores de um bairro nobre daquela capital e sem nenhum vínculo com ninguém que não fosse da alta sociedade paulistana.
Haviam feito a viagem à Vitória, pois era no Brasil a única capital em que jamais haviam visitado e aproveitaram a comemoração de suas bodas de ouro para fazerem essa viagem, que conforme constaram em seu Facebook foi uma viajem maravilhosa em todos os sentidos.
Restava apenas o argentino e a russa e nessa noite, sozinho em seu quarto o detetive Miranda, após pensar muito, decidiu telefonar a Dona Rute para contar como estava andando suas investigações.
·        Olá Dona Rute. É o Miranda falando.
·        Eu sei, pois conheço muito bem sua voz, meu policial preferido.
·        Já lhe pedi para não chamar-me mais de policial.
·        Está bem. Meu detetive predileto. Quais as novidades?
·        Seguindo seu conselho referente ao envenenamento dos criminosos dentro da prisão, realmente constatamos que existe um mandante e deve ter sido um advogado argentino ou uma moça russa, ou ambos.
·        Conte-me o que descobriu sobre eles.
Após o detetive informar as datas de hospedagem e saídas do hotel de Vitória, Dona Rute falou-lhe:
·        Está muito claro como aconteceu.
·        Claro? Como a senhora vê as coisas tão facilmente assim?
·        Preste atenção. Em algum lugar, provavelmente em Buenos Aires o advogado foi contratado pela russa para conseguir os criminosos lá mesmo para assassinarem o casal, ao mesmo tempo em que ele deveria envenená-los antes do fato acontecer e se mandar de volta para sua cidade de origem.
Depois de ele fazer sua obrigação que deve ter sido entre os dias cinco a doze de dezembro e ir embora, ela apareceu e ocupou o mesmo quarto já reservado antecipadamente, para ver o que acontecia na mansão, pois o crime aconteceria quando ela já estivesse hospedada no hotel. Tenho certeza que ela já havia hospedado no hotel anteriormente para saber em qual quarto deveria hospedar o advogado para filmar a mansão para depois mostrar aos assassinos e para ela hospedar-se depois para ver tudo acontecer e certificar-se de que o plano tenha dado certo.
·        Desculpe ter-me esquecido de informa-la sobre isso. Realmente a russa já havia estado no hotel no mês de outubro.
·        Então confere com meus pensamentos, portanto deve ter sido assim conforme falo.
·        Mas porque ela teria voltado novamente para o hotel após a saída do argentino se ele já havia feito sua obrigação?
·        Para verificar se tudo daria certo, conforme o plano premeditado.
·        Então porque ela não ficou somente dias quatorze e quinze quando aconteceu o crime? Ela ficou até o dia de Natal.
·        Por que acha que ela, mesmo tendo reserva para ficar até janeiro, desapareceu exatamente no dia de Natal?
·        Foi no dia seguinte ao anunciarem que os assassinos foram encontrados envenenados.
·        Justamente por ela saber que eles estavam bem mortos e nada mais poder falar ela não tinha mais necessidade de permanecer na Ilha do Boi e foi para a Argentina. Sabe onde fica a cidade de Avellaneda?
·        Na Argentina é claro.
·        Acontece que Argentina é um país relativamente grande, entretanto Avellaneda fica ao lado da capital, formando o que chamamos de grande Buenos Aires. Ela deve ter ido lá para dar fim no advogado para calá-lo também e depois desaparecer.
·        Como a senhora sabe isso?
·        Intuição. Intuição meu caro detetive.
·        Diga-me uma coisa Dona Rute. Se a russa veio para o Brasil apenas para acompanhar as notícias do crime dos idosos e a morte dos criminosos, seria muito mais inteligente da parte dela ficar hospedada em outro hotel da cidade, ou mesmo de outra cidade qualquer do Brasil que saberia de tudo pelos noticiários. Não teria a mínima necessidade de ficar exatamente onde ficou. Porque ela fez isso?
·        Curiosidade feminina. Isso é coisa nossa. Nós mulheres somos assim mesmo e realmente esse foi o grande erro dela, pois se estivesse em qualquer outro lugar apenas acompanhando os noticiários jamais saberíamos de sua existência, mas felizmente para nós e infelizmente para os criminosos, eles sempre cometem besteiras que nos ajudam muito. Nesse caso específico pode ter sido a enorme curiosidade feminina que a fez cometer esse tremendo erro que nos auxiliará encontrá-la.
·        A senhora acha mesmo que ela deu fim no advogado?
·        Tenho certeza, assim como acredito que ela também pagará com a vida sua grande estupidez, pelos verdadeiros mandantes que devem estar em algum lugar do mundo esperando tudo acabar e cair no esquecimento para exigir a herança deixada.
·        Agora a senhora concorda comigo que todos os filhos são coniventes?
·        Não disse isso, mas podem ter sido os quatro que estão envolvidos sim, pois apenas um ou dois não iriam correr o risco de serem pegos. Ficariam o resto de suas vidas na penitenciária, além de perder suas partes na herança, para os outros que evidentemente seriam inocentes. Pode também não ser nada disso e sim outra coisa totalmente diferente.
·        O que, por exemplo?
·        Outro mandante.
·        Quem a senhora imagina?
·        Por enquanto ninguém. Ainda falta o senhor encontra-los e conseguir provas que de fato foram eles os mandantes dos crimes, ou descobrir se são inocentes. Agora é com o senhor.
·        A primeira coisa que vou fazer é ir para Buenos Aires.
·        Só vai descobrir que o advogado morreu de alguma maneira mais ou menos normal, como um acidente, por exemplo, e depois descobrir que a russa esteve realmente por lá também, talvez com algum outro nome e que já sumiu.  O mais importante é descobrir para onde ela foi, pois ela é a única que pode levá-lo até o mandante de todos os assassinatos se a encontrar ainda com vida.
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O delegado de Vitória esperou pelos dois dias que o detetive Miranda trabalhou para a empresa industrial na qual tinha contrato a cumprir e viajou com ele no dia trinta de dezembro para Buenos Aires, chegando no mesmo dia. Foi logo procurar por um delegado de lá, seu conhecido.
Não demoraram muito em ficar sabendo que o advogado Agustín Alvarez Aguirre, era muito conhecido como advogado de porta de cadeia como falamos aqui no Brasil e que sofrera um acidente automobilístico por falta de freios numa descida íngreme e morreu nesse acidente, no dia vinte e seis de dezembro às treze horas da tarde.
Continuando ouvindo as explicações do delegado argentino, ficaram sabendo que o advogado usava um carro que fora alugado naquela manhã em uma locadora local pela Srta. Karina Katiusha Petruska, de origem polonesa que nunca foi vista a não ser pelo funcionário que lhe fez a locação.
A investigação da causa do acidente constatou que o freio falhou por vazamento de óleo nos burrinhos de freios nas rodas do veículo e o carro despencou-se de uma alta ribanceira apenas com o advogado dentro, morrendo esmagado entre os escombros do veículo.
Concordaram com o delegado argentino que a locadora não fora culpada pelo acidente, pois todos seus veículos eram novos, adquiridos recentemente de uma montadora de lá mesmo, que também garantiu que todos seus carros só saem para serem entregues aos compradores após inúmeros testes, principalmente os que garantam total segurança.
Por eles serem muito rigorosos e fabricarem seus veículos até com mais segurança que nossas montadoras o caso foi arquivado como sendo fatalidade, pois nem se podia cogitar de defeito de fabricação.
O único mecânico não policial contratado pelos parentes do morto atestou que o carro fora propositadamente danificado nos freios, mas os cinco outros que eram policiais e que também fizeram a mesma perícia não concordaram e o caso ficou mesmo como sendo um acaso do destino e foi encerrado como acidente por eles que talvez tenham até ficado satisfeitos com a morte daquele advogado escroque e mau caráter.
O fato mais estranho de tudo isso fora que o veículo havia sido alugado por uma moça polonesa totalmente estranha em Buenos Aires e o carro apareceu acidentado com uma pessoa possivelmente desconhecida dela, que por sinal não foi mais encontrada no hotel onde se hospedara apenas um dia e nem adquiriu nenhum bilhete de voo para fora do país com esse nome polonês.
Rapidamente fizeram a pesquisa com o nome russo em que ela havia hospedado em Vitória, pois os delegados e o detetive imaginavam que era a mesma pessoa e também não encontraram nenhum bilhete vendido para Olga Aleksandra Svetlana para ela sair de lá.
O detetive Miranda foi até a cidade de Avellaneda que ficava bem próximo, pois pertence a grande Buenos Aires e perguntando e exibindo o retrato falado que havia trazido de Vitória com o rosto da russa, em todos os hotéis próximos a cidade descobriu onde Olga Aleksandra se hospedara com passaporte polonês como sendo Karina Katiusha Petruska, simplesmente com o mesmo rosto sem ter tido tempo ou interesse em modificar sua aparência.
Ela ficara hospedada apenas do dia vinte e cinco de dezembro à tarde até o dia seguinte à tarde quando partiu do hotel e simplesmente desapareceu. 
Em seu registro de entrada constava como proveniente do Brasil e seu retorno seria para a cidade Polonesa de Cracóvia.
Inquerido pelos delegados brasileiro e argentino, o gerente do hotel disse ter verificado o passaporte da hóspede e que realmente era autêntico da Polônia e constava vistos de entradas e saídas em seu país e em vários outros, inclusive no Brasil.
Confessou que se deu por satisfeito apenas pela visão desses carimbos sem verificar as datas se eram recentes ou não, mas que provavelmente eram, pois o passaporte era novo.
Os policiais ficaram com a certeza que tal passaporte era tão falso quanto o outro usado em Vitória, identificando-a como sendo russa, assim como seus carimbos e vistos também.
Tudo foi feito por algum falsificador que consegue documentos perfeitos, portanto o hotel Dante Boutique Hotel próximo de Avellaneda também foi excluído de qualquer deslize de conduta e o delegado de Vitória viajou com o detetive Miranda novamente para o Brasil após voltarem a Buenos Aires e confirmarem com o funcionário que havia alugado o carro à uma polonesa, que o rosto era exatamente o mesmo do retrato falado que havia sido feito no Brasil como sendo da russa.
A aeronave que viajariam de volta para Vitória sairia as quatro horas da madrugada e no caminho para o aeroporto Internacional Ministro Pistarini, mais comumente conhecido por Aeroporto Internacional de Ezeiza, em Buenos Aires o delegado falou com o detetive:
·        Detetive Miranda, se quem esteve no Brasil e na Argentina foi uma única pessoa com dois nomes e dois passaportes como conseguira em ambos, os vistos de entrada e saída do Brasil? Não acredito de forma nenhuma que ela tenha subornado o consulado para isso.
·        Esqueceu-se que todos os documentos são falsos e que os falsificadores fazem tudo da forma que o cliente paga e exige. Essa é a única explicação.
·        Tem razão. Mais uma vez não usei minha inteligência antes de fazer uma pergunta.
Durante o voo, o detetive Miranda coçou a cabeça, depois o queixo, com os olhos fechados por vários minutos, enquanto o delegado olhava assustado e preocupado e sem nada poder fazer, aguardou seu retorno ao mundo dos normais.
Após umas tremidas como se estivesse espantando algum espírito de seu corpo o detetive falou:
·        Doutor eu já tenho uma correta sequência de como aconteceram os fatos em seu início.
·        Como o detetive acha que iniciou?
·        A mulher, de russa, ou de polonesa não tem nada além da aparência, pois na verdade ela é espanhola ou mexicana. Ela é namorada, esposa ou amante de um dos filhos dos idosos.
·        Porque diz que a nacionalidade dela é latina?
·        Porque tanto em Vitória, como no hotel em Avellaneda e na locadora de veículos em Buenos Aires que foram os únicos locais onde ela foi vista, todos a imaginando queimada de sol confirmaram sua pele ser morena, e que ela falou o tempo todo em espanhol.
·        Como soube?
·        Porque perguntei às pessoas que a atenderam nesses três locais.
·        Tudo bem, mas isso não é motivo para não ser russa ou polonesa, apenas por saber espanhol.
·        Perguntei à essas mesmas pessoas e disseram-me que em momento algum ela falou absolutamente nada em russo ou em polonês ou polaco como queira. Falou em espanhol fluente sem nenhum sotaque.
É impossível para um brasileiro, por exemplo, que saiba muito bem a língua inglesa em viagem a Londres ou a Nova Iorque se expressar exclusivamente em inglês o tempo todo. É perfeitamente normal e natural que em algum momento use algumas palavras em nossa língua por desconhecer o termo exato naquele idioma ou simplesmente por força do hábito. Isso é válido para toda pessoa de qualquer lugar do mundo quando em viagem para outro país com outro idioma diferente do dela.
·        Então está ficando cada vez mais difícil sua localização.
·        Talvez nem tanto. Quando chegarmos a Vitória faça-me o favor de telefonar para o delegado de Buenos Aires e procure saber dele se conseguiram recuperar o passaporte do advogado Agustín Alvarez Aguirre e se ele movimentou muito dinheiro no decorrer do ano.
·        O que interessaria seu passaporte?
·        Se não foi destruído no acidente, poderemos saber para onde ele viajou para fora da Argentina durante esse ano, pois creio que além de ela ir vê-lo lá, pode muito bem ele também ter ido encontrá-la em sua cidade de origem.
·        Por que acha que eles se conheciam?
·        O simples fato de ter sido ela a alugar o carro em que ele morreu é óbvio que ela transferiu o veículo, já danificado, para ele e para isso é claro que se conheciam, a menos que ele tenha roubado o carro dela ao acaso, mas ele era inescrupuloso, safado, escroque e etc., mas não era ladrão de carros, portanto essa hipótese está descartada fazendo-me crer que eles realmente se conheciam.
Pela manhã ela alugou o carro, danificando-o e entregou-o ao namorado para ele fazer alguma viagem sozinho, onde teria de passar por lugares perigosos exatamente para ele morrer “em um acidente automobilístico”.
·        Está certo. Fiz nova pergunta idiota, mas como julga que ela tenha conseguido justamente um advogado para arrumar os assassinos dos idosos e matá-los envenenados?
·        Porque o delegado de Buenos Aires me falou que tal advogado era realmente um porta de cadeia além de metido a conquistador e cafetão de mulheres de cabarés por isso não recusaria jamais uma linda jovem loira de olhos azuis, ou sem o disfarce usado, uma morena de olhos escuros com muito dinheiro para gastar com ele.
Portanto ter acontecido como penso enquadra muito bem no perfil de quem procurou um bandido que não fosse um conhecido matador profissional como era o caso do advogado e também confirma com o perfil dele que por ganância ousa fazer qualquer coisa por dinheiro, mesmo que seja matar pela primeira vez, desde que o dinheiro envolvido fosse realmente muito.
Ao chegarem em Vitória, já pela manhã do dia trinta e um de dezembro o delegado fez a ligação para Buenos Aires do próprio aeroporto e ficou sabendo que a maleta de trabalho do advogado fora encontrada intacta com vários documentos incluindo seu passaporte.
Atendendo a solicitação de seu colega de profissão brasileiro, o argentino verificou todos os vistos de viagens internacionais e descobriu que de fevereiro até novembro desse ano que findava o advogado visitou sete vezes a cidade de Zaragoza, na Espanha e que realmente comprou uma mansão na parte nobre de Buenos Aires, além de uma enorme fazenda de gado no interior.
Já dentro do táxi que os levava para a delegacia de Vitória, o detetive falou:
·        Concorda agora comigo que ela é espanhola?
·        Não tenho como duvidar de sua competência para deduções.
·        No começo do ano, ou no ano anterior ela visitara Buenos Aires com a incumbência de conhecer um homem profissionalmente bem posicionado, mas sem escrúpulos e começar um namoro com ele, para no decorrer do prolongado romance convencê-lo em contratar os criminosos para assassinar os idosos e ao mesmo tempo dar um sumiço neles, sem saber, é claro, que ele próprio também seria eliminado logo a seguir.
O advogado, além de aceitar o namoro com uma jovem sedutora e bonita e com muito dinheiro que com certeza recebeu, é claro que concordou com a incumbência proposta por ela que foi devidamente instruída pelo verdadeiro mandante que tudo indica serem os filhos do casal.
Em qualquer época após convencê-lo em praticar os crimes ela viajou para Vitória, para identificar a mansão, que deve ter sido mostrada a ela por fotografia impressa, ou por satélite, pelo namorado, marido ou amante oficial, confirmando o que o salva vidas da piscina do hotel SENAC informou já tê-la visto hospedada no hotel e que foi confirmado pelos arquivos.
·        Por que acha que foi assim?
·        Porque o delegado de Buenos Aires me falou que tal advogado, além de mau caráter era realmente um grande namorador, portanto ter acontecido como penso enquadra muito bem em sua maneira de viver e agir.
·        Continue com seu raciocínio detetive.
·        Minha dúvida é se ela realmente viajou para Cracóvia na Polônia conforme sua informação no registro no Hotel de Avellaneda, ou se voltou para Zaragoza na Espanha onde o argentino fora diversas vezes visitá-la.
·        Detetive, como o senhor disse que ela jamais falou no idioma polaco, muito provavelmente ela não iria para lá, por desconhecer a língua. Deve ter voltado mesmo é para a Espanha.
·        Faz sentido o senhor pensar assim, entretanto seu namorado, marido ou amante, que imaginamos ser um filho dos idosos, pode muito bem estar na Polônia e saber falar espanhol, pois é uma língua bem parecida com a nossa, e ele provavelmente já soubesse tal idioma mesmo antes de sair daqui e conversar com ela em espanhol, mesmo estando na Polônia ou em qualquer outro país, portanto minha dúvida continua existindo, embora tenha tentado me auxiliar.
·        Como sei de suas descobertas sempre são consideradas malucas, para desvendar crimes misteriosos, usando praticamente pouquíssima informação, tentando pensar como o senhor, vejo grande possibilidade de ser a Polônia o país onde a encontrará.
·        Por quê?
·        Porque a criminosa deixou registrado no hotel da Argentina que seu destino era Cracóvia na Polônia, e o veneno que assassinou os criminosos dos idosos conforme o senhor mesmo me disse pode ter sido o elemento químico radioativo polônio, cujo nome lhe foi dado por sua descobridora Marie Curie em homenagem a seu país de nascença.
·        E o que o senhor vê entre uma coisa e outra?
·        Nada. Simplesmente nada.
·        Obrigado pela tentativa em auxiliar-me delegado, mas eu também não vejo nada nessa sua conclusão. Absolutamente nada.
·        Desculpe-me. Pensei que pensando qualquer coisa sem nexo era sua forma de desvendar crimes considerados perfeitos, por isso fiz essa comparação de Polônia com polônio.
·        Nunca penso em coisas sem sentido nenhum. Apenas penso nas situações óbvias que infelizmente ninguém vê por só pensarem em resolver os casos misteriosos através de soluções mais enigmáticas ainda e quando eu apresento meus argumentos simples, porém corretos, parecem sem significado às pessoas que já estão com as cabeças cheias de recursos misteriosos, que realmente são sem sentido.
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Antes de procurarem descanso em suas moradias passaram na delegacia e encontraram várias pessoas esperando por eles. Eram os parentes dos idosos assassinados.
Não se sabe exatamente se eles queriam vingar as mortes dos parentes ou se pretendiam descobrir que os desaparecidos filhos do casal também já estavam mortos para se tornarem os herdeiros, mas qualquer que tenha sido a causa, o fato é que decidiram contratar o detetive Miranda para desvendar toda a tragédia e localizar os filhos do casal assassinado em algum lugar do mundo.
Através do porta voz de toda família, Dr. Aldo deAlbuquerque Lins, irmão mais novo do falecido Dr. Sócrates ofereceram-lhe um valor bastante generoso e não só por isso, mas também pelo amor a profissão ele decidiu aceitar a causa.
Conversou com os interessados na presença do delegado e falou-lhes:
·        Não vou viajar para a Espanha, pois conclui que a única suspeita que é a jovem que estivera em Vitória hospedada até o dia de Natal e que depois viajou para a Argentina para assassinar o advogado que havia contratado os assassinos dos idosos, não estará lá.
·        Porque pensa assim detetive?
Essa foi a pergunta feita por uma senhora que fazia parte da comitiva dos contratantes.
·        Porque as informações colhidas no passaporte do advogado viajando demais para lá para encontra-la é claro que era do conhecimento dela e ela sabia que seria uma pista muito grande, por isso não se preocupou em fazer desaparecer o passaporte dele, exatamente para tornar uma pista falsa.
Sua informação no hotel argentino de que seu retorno seria para Cracóvia, também foi proposital e falsa para mandar-nos procurá-la na Polônia, portanto ambas as pistas são motivos para nos fazer perder o contato com ela que não deixou nenhuma pista para onde realmente foi.
Ela deveria procurar por seu amante, marido ou namorado para prestar-lhe contas de que tudo correra bem e pelas minhas conclusões não será na Polônia e nem na Espanha que ela encontrará pelo menos um dos irmãos, que todos julgamos como sendo os mandantes da morte dos idosos.
Todos ficaram pensativos por alguns minutos e Dr. Aldo disse ao detetive para ele proceder da forma que melhor lhe parecesse, pois teria carta branca para agir.
Novamente todos ficaram sem falar nada e enquanto permaneceram calados na sala de reuniões o delegado e todos os demais ficaram boquiabertos assistindo os esquisitos trejeitos do detetive, enquanto ele pensava a sua maneira sui generis.
Nessa concentração bizarra ele lembrou-se que Dona Rute descobriu os criminosos no caso que ficou conhecido como Amor Assassino, justamente procurando-os do lado oposto de onde uma das criminosas dizia ser o esconderijo deles e decidiu agir da mesma forma que ela.
Naquele caso uma das bandidas morava em São Paulo e enquanto se passava por inocente indicou o esconderijo da quadrilha como sendo em Guarulhos e Dona Rute foi procurar tal refúgio mais ou menos a mesma distância de São Paulo a Guarulhos, porém ao lado contrário.
Sua intuição foi de que a pessoa que ela já imaginava pertencer ao grupo de bandidos informou propositadamente tal local para despistar o lugar verdadeiro, por isso ela foi para o lado oposto que era a cidade de Santos onde acabou descobrindo tudo.
Em seu caso o detetive Miranda também tinha duas cidades como referência.
Quis imitar Dona Rute e procurou proceder da mesma forma, mas não usou a intuição que é mais próprio das mulheres e sim a razão e para isso colocou um mapa plano da Europa sobre a mesa que usavam e traçou uma linha reta entre as duas cidades.
Uma era Cracóvia na Polônia indicada pela própria criminosa como sendo seu retorno da Argentina e a outra fora indicada pelas várias viagens do advogado e era Zaragoza na Espanha, possivelmente onde ela ou sua família residia.
Mediu sua distância em linha reta com uma régua marcando a cidade que estava exatamente entre as duas e encontrou Lugano na Suíça.
Pesquisou tudo que foi possível e descobriu que é uma cidade com bem menos de cem mil habitantes, porém com um dos maiores aeroportos da Suíça. Viu que Lugano fica no extremo sul, do país praticamente dentro de território italiano de onde herdou entre várias coisas a própria língua italiana que é o idioma oficial da localidade onde em menor escala também se fala o alemão, o francês e o romanche.
É um local turístico e por isso, abriga muitas residências suntuosas de pessoas com muito dinheiro e fazem muitas festas já tradicionais na cidade.
Explicou seu plano ao delegado de Vitória e aos familiares do casal assassinado, e todos confiaram em tal atitude, depois do delegado informar à família contratante que o detetive Miranda sempre descobria crimes misteriosos com costumes e atos aparentemente sem lógica alguma, mas que nunca falhava, exatamente por usar não só do bom senso como muita lógica inequívoca nunca vista por outas pessoas que geralmente complicavam mais seus raciocínios.
Despediram-se e ele viajou para São Paulo sem sequer ter dormido nada nas últimas vinte e quatro horas.
Meio aborrecido comprou sua passagem em um voo econômico, que partiria de São Paulo para Lugano só no dia seguinte as quatorze horas, por isso resolveu conversar com Dona Rute e telefonou-lhe marcando um encontro pessoal, para essa mesma noite no bar do baiano que era perto da casa dela.
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Enquanto o detetive comia acarajé bem apimentado e bebia cerveja estupidamente gelada e de tempos em tempos uma cachaça intercalando com a cerveja, Dona Rute comia seu acarajé apenas levemente picante com guaraná e conversavam.
O detetive Miranda contou-lhe os últimos acontecimentos e suas decisões e ela calada apenas ouvia, até que finalmente disse:
·        Então detetive? Está quase descobrindo os crimes de Vitória e de Buenos Aires ou acha que está complicado?
·        Está só no começo, mas acho que terei grandes dificuldades para chegar ao final, se é que conseguirei sem a sua ajuda.
·        Tenha confiança em sua grandiosa performance.
·        Penso que nesses anos que passei procurando maridos e esposas que se traiam, perdi muito de meu tino como investigador criminal.
·        Por que diz isso?
·        Amanhã viajo para Lugano, única e exclusivamente por copiar uma de suas atitudes que deu certo. Nem mesmo estou conseguindo imaginar como seguir os rastros dos criminosos por conta própria.
·        Deixe o baixo astral para quem é depressivo e gosta de sofrer, detetive. O senhor sempre foi muito realista, além de otimista e confiante.
·        Estou mesmo meio para baixo.
·        Então tempere seu acarajé com muita mais pimenta e embebeda-se bastante a noite toda, que lhe farei companhia, bebendo guaraná.
·        Para que servirá isso?
·        Para amanhã ter uma enorme ressaca e perder seu voo.
·        É isso que deseja para mim?
·        Eu não. É o senhor quem já está fazendo isso por conta própria.
·        Realmente estou agindo como uma criança totalmente desorientada. Completamente sem rumo.
·        Pois saiba que além de não ser nada garoto, raciocinou como procurar a mexicana ou espanhola, exatamente como eu também pensaria.
·        Concorda com meu plano?
·        Aprovo-o completamente. Acho que esse é o caminho. Eu agiria do mesmo jeito.
·        Então está mais que provado que eu estou copiando-a.
·        Deixa de ser besta detetive. Só agora estou lhe falando que eu faria isso que o senhor já decidiu sozinho, portanto se tem alguém copiando alguém, sou eu quem o copio. 
·        Tal imaginação que aparenta ser minha não é a cópia de uma deliberação certa vez já definida pela senhora?
·        Nada disso. Foi a dedução mais lógica que encontrou e bastante diferente de quando eu descobri o sítio de Mongaguá. Naquela ocasião eu tinha Guarulhos indicada como sendo o local do esconderijo e São Paulo era apenas onde eu estava por isso imaginei o esconderijo sendo ao lado oposto de onde eu estava e o senhor está tendo duas cidades indicadas pelos criminosos para ir e decidiu procurar pela loira entre ambas, e não ao lado oposto de nenhuma delas, portanto foi uma imaginação completamente diferente da minha e bastante sábia ao meu entender.
·        Já estou sentindo-me melhor e vou parar de beber cerveja e pinga.
·        Concordo plenamente.
·        Posso tomar de seu guaraná?
·        Fique a vontade. Essa garrafa de dois litros é muito para mim.
Terminada a conversa e a refeição despediram-se e cada qual foi para suas residências.
O detetive Miranda decidiu ir descansar e dormiu uma noite tranquila, pois Dona Rute deixou-o muito confiante e no outro dia voou para Lugano Airport na Suíça em um voo direto de Guarulhos pela TAM Airlines e hospedou-se no Holiday Inn Lugano Centre.
Apresentou-se a polícia federal suíça falando em italiano, pois ele falava tal idioma, pois descendia de família italiana e contou-lhe toda a história acontecida no Brasil e na Argentina e os informou que estava a procura da russa Olga Aleksandra Svetlana que também usa o nome de Karina Katiusha Petruska de origem polonesa.
As autoridades suíças não entenderam absolutamente nada do porquê de o detetive ter ido procurá-la exatamente lá e não na Rússia ou na Polônia, mas mesmo assim se dispuseram em auxiliá-lo.
Ele recebeu completo e total apoio dessas autoridades na ajuda pretendida.
Detetive Miranda entregou-lhes para suas investigações o retrato falado dela, feito em Vitória, assim como o do argentino cujo nome verdadeiro era Agustín Alvarez Aguirre.
Ficou vários dias a espera de informações deles e acabou por saber que jamais nenhuma das pessoas procuradas esteve na Suíça. Não foram localizados como hóspedes de nenhum hotel e nem tiveram visto de entrada naquele país.
Como Lugano geograficamente fica muito próximo a fronteira da Itália, o detetive Miranda foi até Roma e fez as mesmas pesquisas com a polícia de lá e também em território italiano nenhuma daquelas pessoas desembarcou em seus aeroportos e nem hospedaram em seus hotéis.
Totalmente desconcertado e pensando em não conseguir nada o detetive Miranda decidiu procurá-la na Rússia e não perdeu muito tempo em Moscou para encontrar um interprete que falasse português e russo, mas o tempo gasto pela polícia investigativa de lá foi bastante demorado e resultou exatamente na mesma consequência que nos outros países.
Todas essas viagens pela Europa foram feitas rápidas de trem, mas o tempo nas investigações foram lentos, portanto deveria voltar a Lugano, por que seu voo de volta ao Brasil estava por dois dias e não havia mais nenhuma possibilidade de ele continuar na Europa, pois tal loira jamais existiu.
Eram simplesmente nomes falsos assim como seus documentos.
Já de volta a Lugano foi despedir-se do delegado federal suíço pela grande dedicação dispensada a ele e também por terem se tornado amigos ficou sabendo que uma prostituta morena foi encontrada assassinada com um tiro certeiro no coração, em seu flat onde recebia seus clientes da própria cidade ou turistas, que visitavam a cidade devido suas inúmeras festas que aconteciam no decorrer do ano. 
Ficou sabendo também que não foi encontrado o assassino da mulher.
Eram raros os homens importantes de Lugano que não haviam passado pelo menos uma noite com ela, mas como se tratava de gente da alta sociedade, como em todos os lugares do mundo a polícia de lá também não se importou muito em desvendar a morte de uma estrangeira principalmente como ela que levava uma vida promíscua.
Da mesma maneira que a polícia argentina já havia feito na morte do advogado, avaliado com o mesmo adjetivo dela, também a polícia suíça encerrou o processo como crime, porém com o assassino desconhecido e não encontrado, por possivelmente ter sido algum estrangeiro que já tenha deixado o país.
Esse crime tinha acontecido enquanto o detetive viajava para a Rússia, mas essa informação estava sendo passada a ele pelo delegado suíço, pois ele achou que o rosto da morta era bem semelhante ao do retrato falado que ele lhe exibira vários dias antes.
Conforme os documentos da morta seu nome era Ana Margarita Aguilara de origem espanhola e o traslado do corpo já havia sido feito para seu país, mais exatamente para sua cidade natal que era Zaragoza.
Nas fotos que o detetive Miranda viu na federal suíça, realmente os traços faciais da espanhola, cujo corpo havia sido enviado para sua cidade de origem eram realmente iguais ao da loira russa ou polonesa.
As semelhanças eram na boca, no nariz, nas faces, no queixo, afinal em todo o formato do rosto e no corpo todo. A espanhola tinha a pele morena conforme a característica de seu povo e a outra tinha também a mesma cor de pele, mas acreditavam no Brasil que ela era branca como a maioria das russas, mas que estava queimada pelo sol por frequentar nossas praias e nossas piscinas. O mesmo imaginaram com a polaca na Argentina.
A idade da morena conforme documento verdadeiro confirmava que ela era uma jovem de vinte e sete anos, por conseguinte da mesma idade que a loira aparentava ter.
Ambas eram altas e lindas tanto de rosto quanto de corpo e extremamente sensuais ao vestir-se e ao portar-se, conforme fora informado não só pelos atendentes do hotel em Vitória sobre a russa, como também pelo locador de carros na Argentina sobre a polonesa e pelos conhecidos da espanhola em Lugano.
As divergências eram a cor do cabelo e dos olhos, pois a espanhola tinha os cabelos curtos e pretos assim como seus olhos.
A outra usava os cabelos compridos loiros, além de olhos azuis, entretanto poderia perfeitamente ter sido o artifício usado no Brasil e na Argentina para se mostrar diferente de como ela realmente era.
O papiloscopista suíço trabalhou com foto shop o retrato falado que também havia sido feito pelo computador em Vitória e deixou a loira exatamente igual a espanhola sem necessidade de nenhum retoque ou mudança em nada de seu rosto. 
Apenas mudou a cor dos olhos para preto e escureceu os cabelos também para pretos deixando-os mais curtos.
Descobriram com esse trabalho que tanto Olga Aleksandra Svetlana de origem russa, quanto a polonesa Karina Katiusha Petruskae Ana Margarita Aguirre espanhola nascida em Zaragoza eram exatamente a mesma pessoa. 
O detetive Miranda, como os policiais suíços passou a ter essa certeza e foi assim que finalmente encontrou a mulher procurada, porém assassinada sem ninguém saber por quem.
Pensou como e onde iria descobrir seu assassino desconhecido e não tendo nenhuma ideia, simplesmente teve um de seus costumeiros ataques de pitiatismo na presença dos suíços, que pensaram que ele estava tendo um acesso epilético. 
Depois de executar suas coçadas na cabeça e no queixo com os olhos fechados por mais que pensasse não conseguia enxergar porque ela não desaparecera com o passaporte do argentino que mostrava que ele visitara várias vezes Zaragoza, por isso imaginou ter sido outra lamentável falha da mulher, mas não imaginava como poderia descobrir o verdadeiro mandante, já que provavelmente ele próprio dera fim nela.
Desistiu de conseguir alguma explicação e ao abrir os olhos ficou sabendo pela polícia federal suíça que ela vivia em Lugano a mais de dez anos se prostituindo desde que chegou, geralmente com pessoas de poder aquisitivo alto, mas que em todos esses anos sempre retornava a sua cidade de origem em viagens rápidas.
Ela ia apenas por uns dois ou três dias para visitar os familiares, portanto o detetive Miranda entendeu que seus encontros com o namorado argentino acontecia nessas rápidas viagens em que ela o encontrava realmente como ela era. Morena de cabelos curtos e pretos e olhos também pretos, por isso não havia motivo real de ela desaparecer com o passaporte do argentino que mostrava que ele visitou várias vezes Zaragoza, pois se fossem usar isso como pista iriam procurar com ele uma russa ou polaca loira e jamais iriam encontrar, pois lá ele se encontrava com uma espanhola morena, que só agora o detetive passou a saber ser a mesma pessoa que a russa e a polonesa.
Mudou o destino de sua viagem, de São Paulo para Zaragoza e foi de avião dois dias depois para lá, após telefonar aos seus contratantes no Brasil dizendo-lhes sobre o que descobriu, para onde ia e que iria demorar mais alguns dias para seu retorno ao país, mas que muito provavelmente teria informações importantes para levar-lhes quando de sua volta.
Infelizmente não era verdade, pois todas as pessoas envolvidas no assassinato do casal estavam mortas e ele não poderia fazer mais nada, a não ser que encontrasse algo na Espanha que o pusesse novamente em algum caminho a seguir.
Não pensava em absolutamente nada que pudesse encontrar, a não ser uma confidência que ela teria feito a alguma amiga ou parenta sobre seu namorado brasileiro que estava por trás de tudo conforme tudo indicava.
Chegando a Zaragoza, procurou a polícia federal do país, se apresentou e disse qual era sua missão.
O enterro já tinha acontecido à vários dias e a família não permitiu a exumação, até porque a causa da morte fora bem clara e inclusive constatada na necropsia na própria Suíça, além de não haver absolutamente nada para se ver na ossada com carnes putrefatas como já deveria estar.
O pedido de exumação fora feito pelo detetive aos policiais, com o único intuito de conhecer e se aproximar dos familiares dela.  
Em conversa com o detetive e a família de Ana Margarita eles não se negaram afirmar que sabiam da profissão da moça que era permitida na Suíça, porém censurável na Espanha.
Sua intenção era saber exatamente isso, antes de poder contar-lhes sobre seus crimes no Brasil e na Argentina.
Uma tia, contou-lhe que o pai abandonara a mãe de Ana quando ela era muito pequena, e sua mãe tornou-se prostituta na Espanha e por isso havia sido ela a criar a menina. 
Foi ela entre os poucos parentes a que mais se abriu com o detetive, dizendo-lhe saber das atividades da moça, mas que nunca ficou sabendo com quem ela mantinha casos amorosos em Lugano e que jamais soube se ela teve algum namorado ou amante brasileiro. Marido com certeza ela não teve, pois nunca foi casada.
Entre um assunto e outro tal senhora sempre ingeria sua tequila voltava ao mesmo tema até que ela já bêbada decidiu mostrou-lhe um álbum com fotos da menina desde criancinha até os dias atuais.
O detetive Miranda não tinha o menor interesse em ver as fotos antigas da família, mas mesmo a contra gosto ficou olhando e ouvindo a tia falar da moça, o quanto era inteligente e bonita desde criancinha. 
De repente começaram aparecer fotos bem mais recentes e o detetive passou a interessar-se em ver tais fotos em que Ana estava em cinco delas acompanhada do advogado argentino em locais e épocas diferentes.
Viu-os no estádio do Barcelona assistindo tal time disputando um título. Em outra eles estavam assistindo uma tourada em Madri. Noutra jantavam em um restaurante romântico em Sevilha. Na quarta foto eles estão passeando em um jardim zoológico em Málaga e na quinta e última eles foram fotografados em frente uma limusine fazendo pose antes de embarcar nela em uma praça em Zaragoza.
Até então o detetive Miranda tinha apenas comprovado que a espanhola que se fez passar por loira era pelo menos a assassina do advogado argentino, pois de fato eles se encontraram várias vezes em Zaragoza e outros locais da Espanha.
Nessas fotos ele não viu nada de anormal entre dois namorados apaixonados, mas mesmo assim solicitou permissão para reproduzi-las em uma máquina de escâner para leva-las consigo e obteve tal permissão da senhora que nessa altura estava totalmente embriagada.
Levou os retratos para o Brasil e em São Paulo, examinou-os aumentando seu tamanho e só viu um amontoado de pessoas ao redor do casal já morto e nada que pudesse determinar-lhe alguma pista.
Procurou vários amigos policiais incluindo o detetive Grozzi, mostrando-lhes as fotos e eles também nada viram além do casal de namorados que contrataram os bandidos para matar o casal de idosos.
Tinham certeza que eles participaram da morte dos contratados, mas pelas fotografias nada viram além deles já mortos e enterrados, portanto não tinham absolutamente nenhum vestígio para descobrirem quem estava por trás de tudo, se é que tivesse alguém, embora todos tinham como certo que eram os filhos dos idosos multimilionários.
O detetive Grozzi pediu ao detetive Miranda para mostrarem os retratos a Dona Rute, que com seus olhos de lince poderia ver alguma coisa que pudesse orientá-los em alguma pista.
Ambos foram procurar Dona Rute no bar do baiano, pois era em um sábado e ela sempre estava lá após vinte e uma horas tomando seu guaraná e comendo moqueca de peixe ou acarajé.
A intenção deles era convidá-la em ir ao escritório do detetive Miranda ver as fotos ampliadas, mas nem sequer precisaram falar sobre isso, pois Dona Rute aos ver as fotos em tamanho normal, já lhes perguntou:
·        Vocês dois não viram nada nessas fotos?
·        Claro que vimos. A espanhola e o argentino juntos.
·        E o mandante?
·        No meio dessa multidão de gente que aparecem nas fotos? Onde ele poderia estar?
·        Em todas as fotos ele está aparecendo até bem nítido.
·        Quem é que a senhora está vendo?
·        Olhem bem nessa foto do jogo do Barcelona. Três arquibancadas atrás deles tem um homem de frente com falhas no cabelo que lhe faz duas enormes entradas, com bigode fino e pontudo fumando cachimbo.
·        Estou vendo e daí? Tem milhares de caras, além dele, aos lados, assim como na frente e atrás deles assistindo o jogo.
·        Porque a senhora aponta esse bigodudo?
·        Ele está novamente próximo a eles na foto do zoológico, que foi tirada em outra ocasião.
·        Não o vejo em lugar nenhum.
Responderam os dois homens ao mesmo tempo.
·        Ele está ao lado esquerdo do argentino praticamente de costas, mas seu rosto está de perfil olhando-os como se estivesse vigiando-os.
·        Não percebo semelhança nenhuma entre esse cara que está nessa foto com o outro do futebol.
·        Nem eu. Disse o detetive Grozzi concordando com o detetive Miranda.
·        Vejam bem onde estou apontando com meu dedo. O perfil desse rosto dá para ver pelo menos uma entrada da calvície de sua testa, parte do bigode fino e pontudo e também o cachimbo que ele usa é exatamente o mesmo do outro.
·        A senhora tem razão. A semelhança é grande. Qual a terceira foto em que ele aparece?
·        Vejam meus queridos detetives. No retrato dentro do restaurante em uma mesa bem longe deles, à esquerda na fotografia ele está novamente de frente assentado sozinho como se estivesse comendo, mas a mesa está sem nenhuma comida. Ele está lá só vigiando o casal. Está muito pequeno, mas se aumentarem o tamanho da foto vão perceber que é a mesma pessoa, pois está de frente.
·        A senhora é ótima Dona Rute.
·        Infelizmente a foto da tourada foi tirada muito de longe, mas mesmo assim dá para vê-lo quase ao lado do argentino e novamente está de frente. 
·        Se ampliarem bastante vão vê-lo em todas as fotos, sempre próximo ao casal.
Na foto da limusine, dá para vê-lo no outro lado da rua. Praticamente só sua testa que está aparecendo, mas é a mesma cabeça com as falhas de cabelos.
·        Vou ampliar bastante essas fotos e farei isso ainda hoje em meu escritório. Vou já para lá. Vem comigo detetive Grozzi, ou vai ficar fazendo companhia para Dona Rute?
·        Ela quem decide se prefere que eu fique com ela ou se vou com você.
·        Vá com ele Grozzi, e telefone-me se concordam comigo que em todas as fotos aparece sempre o mesmo homem bem próximo ao casal.
·        Boa noite Dona Rute.
·        Boa noite para vocês também.
·        Eu telefono-lhe informando se encontramos o mesmo homem em todas as fotos conforme a senhora vê.
Eles ampliaram a foto do restaurante e conseguiram ver que o homem que estava em uma mesa longe, era realmente parecido com o outro das outras fotografias.
Os dois detetives, ampliaram a foto da tourada, milímetro por milímetro e acabaram por conseguir localizar o mesmo homem já visto em três outras fotos.
O retrato fora tirado dos dois namorados, pegando muita gente, mas o homem estava sempre fotografado em todas as fotos, inclusive na da limusine onde se via apenas a testa, tais falhas no cabelo deixava relativamente claro tratar-se do mesmo indivíduo.
Considerando a visão privilegiada de Dona Rute era bem possível que tivessem encontrado o mandante de tais crimes. Restava saber quem era aquele fulano.
O detetive Grozzi telefonou para Dona Rute, concordando que ela tinha razão e que era sempre o mesmo homem em todas as fotos e ela simplesmente respondeu-lhe:
·        Ponha o detetive Miranda na linha.
·        Pois não, Dona Rute. É o Miranda falando.
·        Eu sei. Já lhe disse que conheço sua voz.
·        O que quer falar comigo?
·        Pedir-lhe para pegar os mandantes dos vários crimes.
·        Como eu farei isso?
·        É muito simples. Leve as fotos para os parentes do casal em Vitória e confirma com eles se o cara que aparece nas fotos é um dos filhos do casal assassinado. Eles vão reconhecer se for, pois afinal de contas eles não se veem a apenas três ou quatro anos, portanto quando se é adulto esse pequeno espaço de tempo não dá para mudar praticamente nada na fisionomia das pessoas.
·        Se eles confirmarem que realmente é um dos filhos do casal assassinado como vou convencer o delegado de Vitória de prender os quatro, até porque ninguém sabe onde estão.
·        Infelizmente terá de voltar a Lugano, pois é bem provável que o amante de espanhola deve tê-la visitado algumas vezes lá onde ela fazia programas sexuais. Pode encontrar alguém que o tenha visto com ela e isso já é uma excelente prova de que ele a conhecia.
·        Mas mesmo que aconteça isso como achá-los?
·        Basta esperá-los vir reclamar a herança e prendê-los.
·        Farei isso. Boa noite e mais uma vez muito obrigado pela ajuda. Quer voltar a falar com o Grozzi?
·        Dê-lhe boa noite por mim.
oooOooo
Novamente o detetive Miranda voou para Vitória e com o delegado e os familiares do casal assassinado estiveram em reunião, onde o detetive contou-lhe tudo que fez e o que descobriu e ao mostrar-lhes as fotos ampliadas, não só os parentes do casal como o próprio delegado reconheceu e concordou que aquela pessoa que aparece em todas as fotos é de fato um dos filhos do casal. É o caçula de todos e chama-se Jardel.
Nas fotos do jogo de futebol, na do zoológico, do restaurante e da praça de touradas reconheceram com certeza o Jardel, como sendo o homem sempre próximo ao casal. Apenas o retrato em que aparecia só a testa e os cabelos com as duas entradas, pois todo o restante do corpo estava encoberto pela limusine que não estava muito determinante, mas era bastante provável ser ele também, portanto ficou confirmado que pelo menos esse filho sempre aparecia ao lado dos namorados assassinos, porém esse fato confirmava apenas sua presença perto deles, mas nada o incriminava de ser o mandante, ou um dos mandantes.
Os outros irmãos que não apareceram em nenhuma foto eram o Sílvio, o Dante e o Sócrates Jr.
O detetive Miranda soube que Jardel, mesmo antes de mudar-se para Londres, já tinha as entradas provenientes da calvície precoce e talvez para compensar essa falha capilar já usava o bigode bem grande e pontiagudo conforme aparecia nas fotos apresentadas e que já fumava cachimbo desde os tempos que morava em Vitória.
O delegado disse ser quase inquestionável a participação de Jardel, mas poderia ser uma incrível coincidência ele aparecer tantas vezes perto da prostituta com o namorado argentino, mas isso não seria motivo suficiente para incriminá-lo como mandante do assassinato de seus pais até porque ele jamais fora fotografado conversando, ou mesmo ao lado do casal. Apenas aparecia perto deles em vários lugares e datas diferentes, mas não era nenhum prova real de sua participação em nada, portanto poderia realmente ser uma quase impossível coincidência que por obra do destino fez isso acontecer. Aparentemente eles nem se conheciam, e por isso precisavam de muito mais provas para incriminá-lo e foi neste momento que o detetive Miranda informou-os que fariam nova viagem a Lugano para tentar descobrir se era uma incrível coincidência mesmo ou se ele era o namorado, ou o amante da prostituta, que comprovadamente matara o advogado danificando-lhe o carro, embora a polícia da Argentina tenha considerado tal fato como um simples acidente.
Os brasileiros sabiam que não fora um desastre e sim um crime, mas nada poderiam fazer, a não ser acatar o que delegado de lá determinou.
Na época vieram legistas e policiais de Buenos Aires até Vitória e reconheceram os criminosos como sendo bandidos muito conhecidos lá como homicidas profissionais, inclusive levando seus corpos para serem cremados e suas cinzas serem devidamente lacradas em um recipiente feito de chumbo e cerâmica e enterrado em uma profunda cova feita de concreto bem grosso e forte para evitar mais radiações letais, pois o veneno que os matou foi realmente o polônio 210.
A polícia argentina simplesmente não se preocupou em querer desvendar a assassinato do advogado que além de péssima pessoa já tivera contato com tais assassinos envenenados, por tê-los defendido em um de seus crimes na própria corte argentina onde os defendeu de forma brilhante, conseguindo suas solturas como inocentes. O delegado entendeu que ele era realmente o principal suspeito de ter contratado os matadores do casal de idosos e também de tê-los envenenado, portanto cremos que o ele próprio julgou-o e o resultado de sua sentença foi realmente sua pena de morte, sem mais detalhes.
oooOooo
Nova viagem a Lugano foi feita pelo detetive Miranda que desta vez levou um cartão de crédito internacional, ofertado pelos seus contratantes, para usá-lo a seu critério, para qualquer despesa extra, como subornos, gorjetas, viagens, propinas e etc. que por ventura fosse precisar para descobrir tudo que fosse necessário para finalmente conseguir provas de que foram os filhos do casal, os mandantes de seus assassinatos.
Sabedor que o delegado federal da Suíça não o ajudaria em nada, por total falta de interesse em complicar algum magnata de seu país que poderia ser o assassino de uma prostituta que inclusive não era de lá, ele não o procurou, assim como não recorreu a nenhuma autoridade daquele país.
Decidiu que iria trabalhar sozinho e com certa facilidade, pois ele sabia muito bem comunicar-se em italiano que era a língua predominante no lugar.
Já dentro do hotel Holiday Inn Lugano Centre onde já tinha se instalado anteriormente, decidiu exatamente na hora de preencher sua ficha de hóspede pensar um pouco mais.
Encostado no balcão de atendimento começou coçando a cabeça, depois o queixo e fechou fortemente os olhos para o espanto de todos que o viram assim, que boquiabertos educadamente ficaram aguardando.
Depois de aproximadamente uns três minutos voltou a si e sem nada falar com ninguém saiu apressado do hotel, indo diretamente procurar hospedar-se no apart hotel onde a esponhola assassinada morava em um flat.
Descobriu que tal edifício tinha vago exatamente o flat onde a moça morava quando foi assassinada. Era exatamente isso que ele queria. Portanto alugou-o por um mês pagando adiantado.
Sua esperança era que alguma amiga ou mesmo um cliente a procurasse lá, embora ele soubesse que o assassino jamais voltaria.
Poderia através de outras pessoas que a conheceu colher informações que poderia possibilitá-lo em encontrar o Jardel.
Ficou literalmente preso ao apartamento durante oito dias, sem sair sequer para almoçar e ninguém, além das camareiras tocou a campainha procurando a antiga moradora, por isso ele decidiu que não seria assim que descobriria nada, por isso mudou de tática.
Resolveu subornar uma atendente de quarto e através de uma delas, soube que Ana Margarita tinha uma amiga íntima que dançava e morava em uma boate, pois sorrateiramente ouvira isso em uma conversa entre elas.
A informante não sabia o nome da moça, nem da boate, mas imaginava ser perto, pois as visitas da amiga sempre foram muito frequentes.
Por tê-la visto muitas vezes soube descrevê-la muito bem, com todos os detalhes de sua fisionomia.
Disse que ela também deveria ser espanhola, pois elas só conversavam nessa língua.
A única pista a ser seguida era essa e foram seis noites consecutivas que o detetive visitou várias boates até conseguir localizá-la, mas para evitar que a moça lhe escapasse ou negasse qualquer informação, decidiu contratá-la por um alto preço, para um programa sexual.
Chamou-a para perto de si e quando ficaram frente a frente o detetive ficou encantado com sua beleza, mas ao mesmo tempo imaginando-a outra pessoa que não conseguia se lembrar.
Felizmente para ele, não lhe aconteceu de ter seu costumeiro cacoete e conversaram normalmente em italiano.
Ela apresentou-se e ele fez o mesmo, entretanto com nome e profissão falsos e ofereceu-lhe uma importância bastante alta por seu trabalho de garota de programa e pediu-lhe para que ela fosse procurá-lo no flat onde estava hospedado, depois que ela terminasse seu show de strip tease.
Ao fornecer-lhe o endereço, ela recusou visitá-lo naquele local, dizendo-lhe:
·        Meu amigo Luiz. Nesse local não posso atendê-lo. Vamos marcar em meu flat que fica aqui ao lado da boate. Pode ser?
·        Qual é o problema em ir até o meu Agostina?
·        Naquele flat eu não volto, mas se nosso encontro for confirmado em meu apartamento é só me aguardar terminar o show e em casa eu lhe conto porque eu não vou lá.
·        Quanto tempo demorará para sair da boate?
·        Não mais de uma hora, pois já estão chamando-me para o camarim, pois logo será meu show.
·        Tudo bem. Eu a espero.
·        Então um beijão, meu coroa simpático e gostosão.
·        Aguardo-a no bar.
·        Acaba de contratar e não vai ver-me na arena dançando nua?
Detetive Miranda percebeu sua mancada, pois a esperaria não para investigá-la conforme pretendia, pois o acordo era para transarem, por isso seria o mais lógico vê-la fazendo strep tease e para isso deveria ficar bem próximo ao tablado e não no bar que era distante, mas ao ser chamado a atenção por ela, imediatamente e com competência e sedução corrigiu-se dizendo-lhe:
·        Não quero ver seu show, pois quero um exclusivo muito mais sensual, quando estivermos a sós.
·        Que romântico. Então até logo mais e não beba muito.
·        Fique tranquila que beberei só um Kirsch enquanto você se apresenta.
·        Granbetijomíoamor.
·        Outro maior ainda para você, querida.
O detetive ao chegar ao bar lembrou-se de Dona Rute e ao invés de pedir a tradicional bebida alcoólica da região, solicitou um guaraná brasileiro e ficou fazendo hora com ele, pois não poderia se embriagar, pois tinha de estar lúcido, para exercer o ato sexual que seria inevitável e principalmente porque deveria estar muito sóbrio para conduzir a conversa de maneira sábia para que a espanhola lhe contasse tudo que sabia a respeito de Ana Margarita e seu namorado ou amante brasileiro.
Essa uma hora de espera pareceu-lhe uma eternidade, principalmente por que não pensava em nada para conversar com a moça aguardada. Se fosse falar sobre o crime iria assustá-la e espantá-la de sua presença.
Sua única chance de voltar a ter alguma orientação para elucidar o caso que investigava era através de Agostina e de forma alguma ele poderia assustá-la.
Apenas e tão somente iria fazer uma primeira pergunta e aguardar o que ela falaria, imaginando que ela contasse tudo o que precisava saber, sem perguntas diretas e investigativas.
Teria de ser gentil e educado ao perguntar-lhe coisas aparentemente sem importância, mas que a levaria a contar o que ele realmente precisava saber.
Finalmente ela chegou após seu número e o chamou para saírem, caso ele não tivesse se arrependido.
Não houve mudança nos planos dele e por isso ela exigiu ainda dentro da própria boate o dinheiro prometido para que o mesmo fosse guardado lá mesmo, para não cair em alguma estratégia que era muito comum ser aplicada por homens desonestos, que ofereciam enormes quantidades de dinheiro e depois de satisfeitos não só não pagavam como até lhes batiam por suas justas e exigentes cobranças.
Sem nada conversar o detetive aceitou o combinado e foram sem sequer uma palavra, ou um afago, como se fossem duas pessoas totalmente estranhas para o apart hotel onde Agostina morava e fazia seus programas.
Ela não achou nada estranho a falta de pegada do homem, pois isso até já era uma prática comum.
Em qualquer cidade pequena como Lugano, esse fato era corriqueiro, pois muitos cidadãos tidos como bons maridos evitavam se mostrarem abraçados ou conversando com prostitutas enquanto estivessem nas ruas.
Entraram em silêncio e já instalados no apartamento, o detetive ficou quase que hipnotizado ao ver um quadro cuja pintura era ela de corpo inteiro em tamanho natural pendurada na parede, vestida muito sobriamente e com semblante de mais nova alguns anos.
Quanto mais ele olhava para a pintura, mais certeza ele tinha de conhecer aquela mulher, entretanto sem saber exatamente de onde.
Sem falar nada, apenas olhava demoradamente ao quadro e depois à moça que o aguardava assentada a seu lado na cama acariciando-lhe as mãos, até que finalmente ele falou:
·        Porque não quis visitar-me em minha hospedagem?
·        Simplesmente porque aquele apartamento pertenceu a minha única amiga íntima que foi assassinada lá dentro.
·        Aconteceu isso?
·        Infelizmente sim. Mataram Ana Margarita com um tiro no coração.
·        Quando foi isso?
·        Dia doze de janeiro, portanto há um mês.
·        Por isso foge daquele flat?
·        Sim. Eu jurei para mim mesma que jamais voltaria aquele lugar onde a visitava com muita frequência, enquanto seu assassino não fosse devidamente punido pela justiça.
Começou a chorar após tais recordações e o detetive percebendo que naquele momento ela precisava era de apoio, consolou-a com afagos carinhosos próprios para o momento, no alto de sua cabeça e em suas faces.
Enxugou-lhe as lágrimas com as costas de sua mão e continuou acariciando-a por longo tempo, em completo silêncio e também muito angustiado e comovido, sem saber exatamente por que se sentia assim na presença dela.
Quando a moça acalmou-se um pouco ele voltou a perguntar-lhe:
·        Era sua parenta?
·        Não. Mas aqui em Lugano era como se fosse minha própria irmã.
·        Ela não era suíça?
·        Não. Espanhola como eu. Viemos do mesmo lugar, embora lá eu não a conhecesse. Só fiz amizade com ela aqui em Lugano. A propósito Luiz você é de onde?
·        Do Brasil.
·        O que faz lá?
·        Sou aposentado e antes fui torneiro mecânico.
·        É o famoso Lula?
·        Quem me dera. Ele foi nosso presidente da república e eu um simples torneiro mecânico aposentado e não tenho, nunca tive e nem pretendo ter nenhum cargo político e tenho todos os dedos da mão. Pode conferir.
·        Como veio parar aqui?
·        Sou viúvo, mas quando casei passei minhas núpcias na Itália e vim até Lugano para voltar ao Brasil pelo aeroporto daqui. Achei a cidade muito bonita e quis voltar para conhecê-la.
·        Está viúvo recente?
·        Não. Faz muitos anos que estou sozinho.
·        Deixe comigo, que logo que acabar minha tristeza serei uma excelente mulher para lhe agradar.
·        Não se preocupe com isso.
·        Os brasileiros são muito fogosos e exigentes por isso até peço desculpas por minha falta de trabalho, mas logo passa.
·        Se ainda não lhe disse, digo agora. Não precisa se preocupar com sexo, pois poderemos ficar apenas conversando o tempo todo que meu pagamento permitir-me ficar com você.
·        Falando sobre o que?
·        Por exemplo. Você disse que os brasileiros são muito fogosos e exigentes. Tem sido procurada por muitos de meus conterrâneos.
·        Não se importa de eu falar de outros homens estando com você?
·        Absolutamente. Serei apenas mais um caso em sua vida, portanto não sentirei ciúmes nenhum em ouvi-la falar de outros. Aliás, até gostaria mesmo de saber sobre os tais brasileiros amantíssimos com os quais fica.
·        Não tenho nenhum homem fixo, nem brasileiro e nem de lugar nenhum. Isso gera muitos problemas. Algumas vezes por ciúme e outras por cafetinagem que é muito pior.
·        Mas costuma ficar com brasileiros?
·        É muito raro encontrá-los por aqui, mas já transei com três irmãos do namorado de Ana Margarita.
·        Com os três ao mesmo tempo?
·        Não. Nunca faço orgias. Sempre fico com um homem só.
·        Entendi. É que você disse ter ficado com três irmãos.
·        Em épocas diferentes, mas isso aconteceu há mais de dois anos, depois simplesmente eles nunca mais voltaram aqui e nunca mais os vi. 
·        Posso saber seus nomes?
·        Não, pois nem sei quem é e mesmo que confiasse muito em você, não delataria nenhum cliente para ninguém.
·        Tudo bem. Não vou insistir. Fale apenas o que quiser dizer.
·        Os nomes geralmente são falsos e mesmo que eu os falasse não iriam representar nada. Tenho certeza que o seu não é Luiz.
·        Acertou. Chamo-me Caio. Caio Miranda.
·        Prefiro continuar chamando-o de Luiz mesmo.
·        Já está melhor ou continua sofrendo pela perda de sua amiga?
·        Jamais deixarei de sofrer quando lembrar-me de Ana Margarita.
·        Esse era o nome dela?
·        Sim.
·        Verdadeiro?
·        Sim. Assim como o meu. Sempre usamos nossos próprios nomes, pois podemos ser indicadas por alguém que gostou da gente e sempre só temos um nome para não sermos confundidas, portanto sempre usamos nosso nome verdadeiro.
·        Entendo.
Essa sua amiga também ficou com esses brasileiros?
·        Não. Ela era amante de apenas um deles. Melhor dizendo de outro irmão deles.
·        O quarto irmão? Você o conheceu?
·        Sim. Era o bigodudo que vivia fedendo a cachimbo. Ele sempre vinha procurar por Ana, antes de seu assassinato.
·        De onde esses irmãos eram do Brasil?
·        Já falei muito mais que devia. Vamos mudar de assunto. Quer que eu comece meu strep tease?
·        É claro. Se já sentir-se despreocupada estou ansioso para vê-la nua e depois amá-la com toda minha ânsia de brasileiro fogoso.
·        Primeiro vou tomar um bom banho. Já voltarei.
Após seu banho, Agostina retornou e encontrou o detetive Miranda dormindo e para não incomodá-lo, simplesmente deitou-se a seu lado sem tocar nele e também dormiu até o dia clarear.
Só dias depois que ela soube que o detetive não estava dormindo e sim fingindo dormir, pois ele tinha descoberto o que o impressionava vendo-a e decidiu que não teria relações íntimas com ela.
O detetive acordou alguns minutos depois dela e se dispôs a ir embora, pois estiveram desde as duas horas da manhã até as sete, portanto sentiu que seu tempo tinha se esgotado, mas ela ao perceber sua atitude o impediu, dizendo:
·        Lula. Não é só por sua grande simpatia, mas principalmente pelo valor que me pagou que você tem o direito de ficar comigo o dia inteiro. Se quiser, é claro.
·        Ah é?
·        É lógico. Simplesmente ofereceu-me sem sequer perguntar quanto eu cobro por programa, e o que ofertou-me foi o suficiente para oito programas, o que lhe dá o direito de ficar comigo dezesseis horas consecutivas, ou seja das duas da manhã quando contratou-me até as dezoito horas de hoje.
·        Velho como sou não terei toda essa disposição. Se preferir poderemos usar nosso tempo para passearmos pelos parques, praças e shoppings da cidade? Pode ser assim? Conversaremos, almoçaremos e divertiremos juntos?
·        Com certeza meu dia inteiro será dedicado a você. Só preciso estar de volta à boate ás vinte e duas horas, antes de iniciarem os shows.
·        Nesse apart hotel tem alguma loja de roupas masculinas, para eu comprar algumas para não ter de ir até onde estou hospedado para me trocar?
·        No piso tem várias lojas onde encontrará o que precisar.
·        Então vou até lá comprar algumas roupas e volto para lavar-me e trocar para sairmos e fazermos belos passeios.
·        Estarei pronta esperando-o.
Depois de o detetive adquirir suas vestimentas ao estilo italiano, retornou ao flat da garota e ainda perguntou-lhe antes de se assear:
·        Qual sua idade. Sem mentir.
·        Tenho trinta anos.
·        Exatamente a idade que teria minha filha, se ela e sua mãe não tivessem morrido no parto.
·        Que tristeza. Perdeu as duas ao mesmo tempo?
·        Sim. Minha esposa era espanhola como você e é por isso que aprendi falar espanhol. Casei-me com ela quando ela tinha apenas vinte anos e morreu quando estava com vinte e seis.
·        Você disse que aprendeu espanhol com sua esposa, mas fala muito bem o italiano.
·        Foi em casa que aprendi, pois meus pais eram italianos.
·        Então fala três línguas diferentes?
·        Diferentes até certo ponto, pois tanto o idioma português como o italiano e o espanhol são muito parecidos.
·        Realmente.
·        Posso considera-la como sendo a filha que nunca tive?
·        Arrumei um pai?
·        Não me respondeu se posso tratá-la como filha?
·        É claro paizinho. De agora em diante faremos sexo incestuoso?
·        Não. Não tenho muita necessidade de sexo e já me dou por satisfeito apenas com sua presença. Gostaria de aproveitar esse dia para passearmos realmente como pai e filha.
·        Combinado. Vamos aos nossos passeios assim que o senhor se aprontar.
·        Também não precisa levar tão a sério nosso parentesco, chamando-me de “senhor”. Pode chamar-me com meu verdadeiro nome que é Caio, ou Miranda que é meu sobrenome ou Luiz como já disse ter preferido.
·        Continuarei chamando-o de Luiz, ou melhor, vou colocar-lhe o apelido de Lula e tratá-lo assim.
·        Como queira minha adorada Tina, pois esse será nome que adotarei para você.
·        Minha amiga assassinada, também me chamava de Tina de vez em quando.
Saíram em visita a vários lugares realmente maravilhosos que a moça o levou em seu próprio carro e ainda antes do almoço, graças ao excelente tratamento carinhoso dispensado por ele à garota, ela já se sentia verdadeiramente sua filha, ou próximo a isso, portanto após almoçarem e voltarem ao flat para descansarem um pouco o detetive resolveu tentar investir em sua verdadeira necessidade, voltando ao assunto de seus amantes brasileiros.
·        Seus amigos brasileiros moram onde no Brasil?
·        Eles não moram no Brasil. Vieram de lá e atualmente moram no Reino Unido.
·        Na Inglaterra?
·        Não. Moram na Irlanda do Norte.
·        Todos eles?
·        Sim. Disseram que moravam todos juntos, por serem solteiros. Não sei se é verdade ou não, mas falaram isso.
·        O namorado de sua amiga também mora com eles?
·        Ela sempre me disse que João Paulo mora com os irmãos na Irlanda do Norte.
·        O nome dele é João Paulo?
·        Falei sem pensar, mas já que falei não vou negar. Esse era o nome que ele dizia chamar-se à Ana Margarita e que ela sempre me disse.
·        Eles vieram de São Paulo para a Irlanda do Norte?
·        Não. Vieram de outro lugar no interior do Brasil, para Londres, mas depois de algum tempo foram para lá.
·        Tem certeza do que fala?
·        Tudo isso foi contado por eles, portanto pode ser verdade, da mesma maneira que tudo pode ter sido inventado.
·        As vezes não. Nem sempre nós homens mentimos. Meu nome, minha origem, minha grande perda tornando-me viúvo não são mentiras.
·        Deu para entender que sua profissão e sua aposentadoria não é verdade.
·        Se quiser pensar assim não posso fazer nada.
·        Está bem. Acredito que seja aposentado como torneiro mecânico e que está aqui a passeio.
·        Ótimo. Aonde iremos depois de descansarmos um pouco.
·        Vou levá-lo para esquiar. Gosta?
·        Não tenho nenhuma habilidade com os esquis, mas poderei ficar vendo-a divertir-se na neve.
·        Então vamos mudar de programa porque eu também não sou esquiadora.
·        Qual será o novo passeio?
·        Visitaremos o zoológico, o planetário e outros lugares próprios para sua filhinha levá-lo.
Deixe comigo que diversões eu conseguirei para nós nos curtirmos.
Foi no zoológico que Agostina tornou a ficar triste e voltou a falar sobre a amiga assassinada.
·        Sinto muita falta dela.
·        Dela quem? De sua mãe?
·        Não. Desde pequenina fui criada em um orfanato até quatorze anos e depois nas ruas mesmo. Sinto falta é de Ana Margarita.
·        A sim. Tinha me esquecido dela. Ela era sua prima, não?
·        Não Lula. Está senil? Ela era minha grande amiga. Desde que ela apareceu por aqui nos tornamos íntimas, mas mais ou menos de dois anos para cá ela ficou muito esquisita comigo.
·        Como esquisita?
·        Ela me tratava apenas como uma colega de serviço qualquer e não como uma amiga que éramos desde que nos conhecemos.
·        E isso lhe aborrecia?
·        É claro. Sempre que eu a procurava ela falava que estava com viagem marcada para o mesmo dia ou para o outro e não me contava mais nada. Muitas vezes eu ficava sabendo ainda na entrada do apart que ela não estava porque tinha viajado sem que ela me falasse antes e coisas assim, que sempre ela confidenciava a mim. Nunca mais fiquei sabendo nada sobre ela.
·        Nada sobre o que?
·        Sobre suas novas amizades, seus novos homens e nem sobre os antigos e muito menos ainda sobre suas viagens constantes.
·        Nunca soube para onde ela viajava?
·        Absolutamente nada.
·        Então ela começou deixá-la fora de suas intimidades?
·        Sim.
·        Tinha a impressão que ela estava com algum projeto e que eu não podia saber nada sobre ele.
·        Porque acha isso?
·        Vamos deixar essa conversa de lado e vamos aos nossos passeios. Uma coisa é certa, pois eu  gastaria todo o dinheiro que tenho guardado além de vender meus pertences para pagar quem descobrir quem foi o hijo da ramera que matou minha amiga.
·        Então vamos ao nosso passeio e deixa o filho da puta para a polícia descobrir.
·        Não vão levantar uma palha para isso. Aqui temos nossa profissão reconhecida e considerada normal como qualquer outra, entretanto só as leis nos amparam, pois as pessoas nos odeiam.
·        Os homens não.
·        Só quando nos usam, pois fora disso nos odeiam tanto quanto suas mulheres consideradas honestas e decentes.
·        Acho que em todos os lugares do mundo acontece a mesma coisa.
·        Você acredita que a polícia daqui estava inquieta e doida para prender-me alegando ter sido eu a assassina de Ana?
·        Que motivo alegaram?
·        Só porque sou estrangeira, garota de programa e sempre frequentava a casa dela.
·        Eles são assim? Racistas e preconceituosos?
·        Demais.
·        Como aconteceu isso?
·        O tiro que a matou, foi ouvido por várias pessoas que só se deram ao trabalho de telefonar avisando a polícia e todos disseram ser antes de meia noite, inclusive constatado pela perícia que ela morreu as vinte e três horas e cinquenta e dois minutos.
·        Ninguém saiu de seus apartamentos para ver o assassino abandonando o local, após o tiro?
·        Se alguém saiu e viu, não falou nada.
·        Mas porque você ficou como suspeita.
·        Já disse. Foi por preconceito dos policiais.
·        Como se safou.
·        No dia que aconteceu o crime, mais de quatrocentas pessoas estavam na boate e testemunharam que eu estava lá fazendo meu trabalho que iniciou vinte e três horas e durou até zero hora e trinta minutos, portanto quando ela foi morta eu jamais poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo e por isso pararam de perseguir-me e simplesmente abandonaram o caso encerrando-o como crime sem solução.
·        Talvez tenha sido algum magnata daqui mesmo.
·        Pode ter sido e não vale a pena para a polícia prender um ricaço que assassinou uma mulher que além de estrangeira também era prostituta.
·        Ela não tinha o Jardel como seu amante fixo?
·        Quem é Jardel?
·        O brasileiro amante dela.
·        O nome dele é João Paulo e não esse nome que falou.
·        É o apelido que agora estou dando para ele.
·        Bem esquisito esse apelido que você arrumou. Jardel não tem nada a ver com João Paulo.
·        Ambos começam com a letra jota.
·        Então porque simplesmente não o chama de Jota?
·        Já que disse o nome dele porque não me diz de seus irmãos.
·        Desculpe-me paizinho, mas esse papo já está irritando-me. Vamos mudar de assunto?
·        Como queira.
Foi uma tarde maravilhosa para ambos que se tornaram de fato muito amigos, tal qual um pai carinhoso e uma filha também afetuosa.
O sentimento que tomou conta deles era verdadeiro. Não era nenhum artifício que o detetive usava para descobrir os filhos do casal assassinado e tampouco a garota de programa estava fingindo gostar tanto dele para surrupiar-lhe o dinheiro.
O detetive Miranda encheu-a de presentes e ela chorou quando ele deixou-a próximo das vinte e duas horas na porta da boate, voltando para seu apartamento, simplesmente dizendo até qualquer outro dia.
oooOooo
Em sua cama o detetive Miranda refletiu muito sobre tudo que ficou sabendo, mas precisaria saber muito mais coisas, por isso e por saudade de Agostina na noite seguinte procurou-a na boate.
Ela ficou felicíssima quando o viu e foi até ele perguntando:
·        Lula. Está aqui por que veio procurar nova companhia? Uma garota bem mais jovem, por exemplo? Eu posso apresentá-lo à várias se for isso.
·        Não. Vim aqui por sua causa mesmo. Quero contratá-la novamente inclusive como da primeira vez, abrindo mão de sua dança erótica e de sexo.
Gostaria apenas de ficar com você toda a madrugada e o dia seguinte novamente só passeando e conversando, pois de fato me afeiçoei a você como a uma filha.
·        Que maravilha. Estou feliz que pensa assim, pois meu sentimento com o senhor é completamente diferente que com os outros homens. É uma emoção nunca sentida que creio que seja o verdadeiro amor que uma filha sente por seu pai.
·        E com os outros o que sente?
·        Além de nojo, simplesmente mais nada.
·        Então pegue o dinheiro de seu pagamento, que vou para o bar esperá-la sair.
·        Vou aceitar apenas uma parte do dinheiro que é o que terei de pagar a boate para sair à noite toda, e o restante que seria para mim não aceitarei.
·        Deve aceitar sim, pois é exatamente com o que recebe aqui que lhe permite pagar suas contas. Enfim manter sua vida, portanto não aceito que me devolva nada. Não me fará falta e, entretanto para você servirá para muitas coisas.
·        Obrigada Lula. O senhor é maravilhoso.
·        Já é a terceira vez nessa conversa que me chama de senhor, portanto pode parar com isso.
·        Tudo bem. Mas também não o chamarei de meu homem.
·        Continue chamando-me de Lula que é como você gosta.
·        Como agora é ainda muito cedo para eu poder sair pode esperar-me em minha casa. Dou-lhe as chaves e você fica lá, se preferir é claro. Se achar melhor ficar aqui fique a vontade no bar, que após meu show nós sairemos juntos.
·        Vou esperá-la e desta vez vou assistir seu strep tease pertinho do palco para aplaudi-la.
Acabado o show, Agostina veio ao encontro do detetive Miranda e disse-lhe ter ficado envergonhada quando ficou nua em sua frente.
·        Nossos sentimentos são de fato sinceros e decentes, mas não sou seu pai.
·        Eu sei, mas fiquei acanhada ao vê-lo me olhando.
·        Pois eu fiquei orgulhoso de você dançar tão bem o strepe tease. É a melhor de todas, por isso que é tão aplaudida.
·        Obrigada pelo elogio.
Novamente foram para o flat da moça, porém desta vez de mãos dadas, balançando-as como um pai conduz uma filha.
Conversaram muitas coisas rotineiras da moça, assistiram filmes na televisão até que o sono veio e decidiram dormir, para no outro dia novamente se divertirem na cidade, enquanto o detetive aos poucos ficar sabendo sobre Ana Margarita.
Embora Agostina quisesse dormir no sofá, para ceder sua cama para o detetive e ele também querer o mesmo, acabaram por entrar em acordo e dormiram juntos na mesma cama, inclusive abraçados sem que a libido de nenhum deles se fez presente. De fato era um amor paternal que tomou conta deles.
No outro dia pela manhã, Agostina levou o detetive até a porta de seu apart hotel e aguardou-o na entrada, pois não quis de forma alguma subir até o apartamento onde morrera a amiga.
Quando o detetive veio ao seu encontro no saguão do prédio encontrou-a chorando e perguntou-lhe:
·        Ainda sofre muito pela perda da amiga?
·        Ana foi a única amiga que tive em toda minha vida e eu gastaria todo meu dinheiro e até me endividaria pagando alguém para punir a pessoa que a matou.
·        Encontrará outras amigas.
·        Como ela jamais.
·        Não me disse que ultimamente ela estava esquisita e nem era mais confidente consigo?
·        Sim. Mas isso não fez com que eu perdesse a esperança de reconquistar novamente sua grande amizade.
·        Chegaram a ficar inimigas?
·        Não. Apenas ela se afastou de mim, não indo visitar-me e muitas vezes quando eu a procurava, sempre ela tinha algo a fazer e muitas vezes nem recebia-me dentro de seu apartamento.
·        Tem ideia do por quê?
·        Absolutamente nenhuma, mas com certeza ela tinha planos que não me incluía.
·        Não seriam planos para alguma coisa errada e ela por gostar de você não quis envolvê-la.
·        Pode até ser, mas não acredito nisso, pois qualquer coisa mais ousada que ela pretendesse, confidenciava comigo e até pedia-me conselhos como se eu fosse sua irmã mais velha.
·        Talvez nesses planos que acabaram custando-lhe a vida ela deixou-a totalmente fora para você não correr o mesmo perigo.
·        Que risco ela poderia ter? Ela era apenas uma garota de programa em um país onde isso é permitido.
·        Talvez alguma coisa pesada. Você não me disse que ela viajou muito no ano que passou?
·        Sim. Viajou bastante, mas sempre era para a Espanha para ver sua família.
·        Como sabe?
·        Porque em todos esses anos que ela está aqui ela os visitava.
·        Com a mesma assiduidade que no ano passado?
·        Realmente não. Anteriormente não ia mais do que duas ou três vezes por ano e no ano passado ela fez mais de quinze viagens. Talvez umas vinte ou até mais.
·        Como sabe que era sempre para ver a família?
·        Não sei. Apenas imagino, pois foi justamente nesse último ano que ela sempre me evitava e nada dizia.
·        Não seria tráfico de drogas?
·        Nunca usamos nenhuma droga além da bebida.
·        Mas ela poderia estar trazendo para algum traficante que resolveu silenciá-la.
·        Não creio, mas até pode ser possível, pois no último ano nunca soube que ela tenha feito programas com nenhum multimilionário e, no entanto trocou seu Monteverdi velho por um carrão alemão zero, além de ter adquirido muitas joias valiosas.
Caso não saiba Monteverdi era um carro fabricado aqui mesmo e já pararam sua fabricação desde 1992 e o dela nem era desse ano. Era mais velho ainda e conseguiu adquirir um Landaulet cujo valor é de um milhão e quatrocentos mil dólares, simplesmente o segundo carro mais caro do mundo.
·        Fale-me dos namorados dela.
·        Esse assunto já está me aniquilando. Desculpe-me Lula, mas não quero mais falar sobre Ana Margarita, pois me faz sofrer muito.
·        Okey. Não a importunarei mais com minha curiosidade mórbida.
·        Obrigada. Vamos nos divertir agora, mas diga-me de verdade por que está tão interessado nela se nem a conheceu?
·        Apenas curiosidade, para tentar entender como alguém deixaria de ser amiga de uma mulher tão maravilhosa como você.
·        Lula. Você nunca perde o cavalheirismo, não é?
·        Quais os programas para hoje?
·        Serão surpresas.
Divertiram-se o dia todo até no horário costumeiro em que detetive Miranda a levou de volta para a boate e despediu-se dela para retornar a seu apartamento, alegando que novamente a procuraria, quando ela lhe perguntou:
·        Porque você não me procura em meu apart após as sete da manhã? Nesse horário já estarei totalmente liberada da boate e você não precisa gastar seu dinheiro nem comigo e nem com a boate.
·        Não aceito, pois eu indo apanhá-la eu impeço-a de fazer programas com outros homens.
·        Está com ciúmes?
·        Não se trata disso, pois nem sou seu amante.
·        Por isso mesmo que nem teria direito a sentir ciúme, ou julga ser meu pai mesmo?
·        Claro que não é nem uma coisa nem outra.
·        Então qual o problema eu sair com outros homens, aliás, já fazem três dias que não faço programa com ninguém.
·         Está sentindo falta?
·        Claro que não. Sexo para mim não representa nenhum prazer e sim trabalho. Infelizmente essa é minha profissão.
·        Concordo, mas quando eu vir buscá-la na próxima vez terei algumas propostas a lhe fazer.
·        Fiquei curiosa. Do que se trata?
·        Nada ruim para você. Pode confiar em mim.
·        Eu confio.
oooOooo
Passaram-se três noites consecutivas sem o detetive aparecer na boate, pois após telefonar para Vitória e ficar sabendo que um advogado de Londres havia procurado a família dos idosos falecidos, com procurações dos filhos, para tomar posse da herança que por direito lhes caberia se preocupou e sua decisão fora de encontrar os rapazes o mais rápido possível.
Soube que toda documentação era autêntica, registrada corretamente e traduzida por tradutor juramentado e por isso todos os trâmites seriam apenas com a presença do advogado contratado pelos filhos, pois para tal fim deram-lhe plenos e irrestritos poderes para resolver tudo sem suas presenças físicas.
Ao saber do endereço do advogado em Londres foi imediatamente para lá e constatou tratar-se de um escritório idôneo e nenhum funcionário, mesmo tentando suborná-los, não soube absolutamente nada sobre as atividades e residências dos irmãos, pois tal escritório só trabalhava com coisas sérias, honestas e sigilosas, portanto voltou para Lugano já idealizando a única forma de chegar aos irmãos bandidos que ele tinha certeza que eram os mandantes dos assassinatos.
Embora não gostasse nada de seu até então único plano, exercitava seu cérebro ao máximo, mas não via alternativa nessas mais de cinquenta horas seguidas que passou trancado em seu apartamento, sequer se alimentando, telefonando ou atendendo ligações, que foram várias.
Nova noite, nova ida a boate, nova contratação para a Agostina ir com ele para o flat dela e nova felicidade da garota pelo convite ter finalmente acontecido, mesmo demorando todos esses dias, sem nenhum contato.
 Lá chegando o detetive disse-lhe que tinha uma conversa muito importante com ela e para isso, primeiro faria algumas perguntas, ao que ela concordou e ele começou:
·        Você gostaria de ir comigo para o Brasil?
·        Prostituir-me lá?
·        Não. Lá você poderá trabalhar em outra atividade.
·        Nunca soube fazer nada além de satisfazer aos homens que me pagam para isso.
·        Nunca é tarde para se mudar de vida.
·        Preste atenção Lula. Desde bebê vivi mal e parcamente em um orfanato próprio para crianças desamparadas e lá mesmo, os atendentes homens e as mulheres lésbicas já me ensinaram essa única profissão desde que eu tinha menos de dez anos.
Quando completei quatorze anos fui posta na rua e a única coisa que sabia fazer era transar e aqui fora foi muito fácil conseguir fazer o que já fazia de graça para ganhar algum dinheiro e comida.
Fui evoluindo nessa atividade e embora já esteja com trinta anos ainda sou muito requisitada e tenho boas economias para quando eu parar.
·        Sua vida sempre foi assim?
·        Infelizmente sim. Desde criança. Nunca tive orientação de pais, pois eles sumiram, assim como tinha feito a irmã gêmea de minha mãe anos antes, simplesmente deixando-me ainda bebê com poucos dias de nascida com minha avó.
·        Porque então foi parar em um orfanato se estava com sua avó?
·        Porque ela era paupérrima e não tinha a mínima condição de cuidar de mim e a única condição que ela encontrou para que eu pudesse receber pelo menos alimentos e remédios, além dos péssimos ensinamentos foi colocar-me lá. Fiquei com ela apenas dois dias que foi o tempo que ela precisou para conseguir autorização para internar-me.
·        Como sabe sobre isso?
·        Ela raramente visitava-me, mas contou-me sobre tudo isso quando eu tinha nove anos de idade e depois nunca mais voltou.
·        Porque não foi procurá-la quando completou quatorze anos e teve de sair do orfanato?
·         Eu fui e no endereço que me forneceram os vizinhos confirmaram que uma idosa que morava na casa abandonada havia falecido há cinco anos e a casa ruiu e ninguém quis consertá-la. Restava apenas uma parede em pé e o restante totalmente destroçado, portanto ali eu não poderia morar, embora por direito fosse minha casa, mas simplesmente não existia mais nada além de ruinas.
Tentei convencer o pessoal da vizinhança em deixar-me ficar com alguém, mas acho que sabiam que eu não saberia fazer nada decente, provavelmente por já terem conhecimento da única coisa que se aprende nos orfanatos públicos todos me rejeitaram.
Apenas um rapaz que estava sozinho em sua casa deixou-me entrar e em troca do pouco de sua comida que repartiu comigo exigiu-me muitas coisas que eu já sabia fazer de longa data, portanto foi simples para mim, e assim consegui pelo menos um pouco de comida. Combinamos que todos os dias naquele horário eu voltaria para me alimentar em troca de sexo. Ele arrumou-me um cobertor sujo e roto e indicou-me uma calçada ali perto cuja casa estava sem moradores, portanto ninguém iria reclamar de eu ficar na calçada dela.
Tenho certeza que sua intenção não fora por piedade comigo. Ele facilitou-me para eu ficar ali perto para ele ter com quem transar todos os dias. Fazer sexo já era minha rotina no orfanato, porém conseguir comida fora de lá era difícil, a não ser que eu aceitasse a proposta do rapaz, por isso concordei.
Procurei-o durante vários dias, até que decidi sair daquela região pobre para procurar pessoas em um bairro de grã-finos, pois imaginei que lá poderia pelo menos conseguir melhor alimentação.
No último dia que fiquei com ele, contei-lhe minha intenção e devolvi-lhe o cobertor. Ele aceitou talvez porque era o dele próprio, pois era tão pobre quanto todas as famílias que moravam naquele lugar sujo e miserável.
·        Então foi assim que tudo começou?
·        Sim. Não demorou muito e eu já conseguia além da comida, dinheiro e às vezes alguns presentes que eu jogava fora, pois morava nas ruas eu não tinha onde guardá-los e nem para quem dá-los.
·        Tudo isso aconteceu em sua cidade na Espanha?
·        Sim. Em Zaragoza.
·        Como veio parar aqui?
·        Eu já tinha mais de quinze anos, quando um homem me viu e por achar-me bonita de rosto e de corpo convidou-me para eu vir morar em sua boate aqui em Lugano. Vim com ele, mas fiquei apenas seis meses na pocilga que ele chamava de boate, apenas o tempo suficiente para pagar minhas despesas com a viagem que ele gastou comigo.
Nosso trato foi que durante os seis primeiros meses todo o dinheiro que eu cobrava dos clientes ia para ele, que só me dava a comida necessária para viver, a documentação e os exames médicos rotineiros exigidos para o exercício da profissão.
Cumpri o combinado até o final, portanto não fiquei devendo-lhe uma única moeda.
Passado esse meio ano aproveitando a grande clientela que consegui lá confiei em mim e apresentei-me onde estou até hoje, fazendo sucesso dançando e transando com pessoas ricas que me pagam muito bem. Hoje meu preço é superior a de todas as meninas de lá e ninguém questiona sobre isso.
·        No Brasil, tenho certeza que conseguirei emprego decente para você e será comigo mesmo.
·        Não é aposentado? Qual seria esse emprego? Cuidar de você em sua velhice?
·        Também.
·        Desculpe-me Lula. Não sei qual é o valor de sua aposentadoria lá, mas considerando ambas as profissões em toda a Europa, uma prostituta de alto luxo, como é meu caso ganha muito mais que um torneiro mecânico aposentado, ou mesmo em atividade, a menos que você seja o verdadeiro Lula.
O detetive novamente mostrou-lhe as mãos e mandou-a conferir se tinha todos os dez dedos inteiros.
Isso foi motivo de boas gargalhadas de ambos e ele voltou a falar:
·        Logo chegaremos ao ponto de propor-lhe o emprego que lhe aguarda no Brasil. Precisa responder-me mais algumas perguntas.
·        Pergunte o que quiser que se eu puder responder-lhe não me negarei em fazer, pois atualmente gosto e confio em você.
·        Ouvi você falar pelo menos duas vezes que gastaria todas suas economias para descobrir o assassino de sua amiga. Falou isso por impulso, ou realmente teria coragem de fazer isso mesmo para vingá-la.
·        Para conseguir colocar seu assassino na cadeia serei capaz de fazer muitas outras coisas que for necessário, além de gastar todo meu dinheiro.
·        Então preste bastante atenção no que tenho a lhe dizer.
·        Fale que estou atenta.
·        Eu lhe menti, quando disse minha profissão.
·        Eu sabia. Todos os homens são mentirosos mesmo.
·        E por acaso as mulheres não são?
·        Concordo. Somos iguais.
·        Realmente sou aposentado, mas continuo exercendo minhas atividades.
·        Como torneiro mecânico?
·        Não.
·        O que faz para ganhar a vida?
·        Sou aposentado na polícia de São Paulo, como investigador criminal. Depois montei um escritório de detetive particular identificando traições conjugais durante dois anos. Após isso mudei de atividade e transformei meu escritório para desvendar crimes de espionagens industriais e tenho recebido bons lucros nessa nova atividade.
·        E está em férias aqui em Lugano?
·        Não. Em todo o tempo após aposentado na polícia eu ainda presto serviços de auxilio a lei, ajudando os delegados e promotores colocar na cadeia, assassinos misteriosos.
·        Então está aqui investigando algum crime acontecido no Brasil e por algum motivo está me usando, seu ordinário?
·        Calma Tina. Fui contratado por um alto valor e vim aqui para isso mesmo, mas foi atrás de Ana Margarita Aguilara, pois ela namorou, seduziu e contratou um advogado mau caráter na Argentina para ele por sua vez arrumar dois homicidas para assassinar um casal de idosos muito ricos de Vitória e que são justamente os pais desses quatro irmãos. 
Depois ela provocou um acidente em um carro alugado e matou o argentino e simplesmente sumiu, aparecendo assassinada aqui dias depois, portanto estou completamente certo de que tudo foi armado pelos filhos e são eles que quero encontrar. Só lhe procurei porque soube que era íntima amiga de Ana e poderia saber através de você sobre ela e o envolvimento que ela tinha com os irmãos.
·        Porque diz que foi ela?
·        Veja esses retratos falados que eu trouxe hoje com a finalidade de mostrar-lhe.
Foi um golpe para Agostina ver sua amiga disfarçada de loira, tanto no Brasil quanto na Argentina e calada com o rosto banhado em lágrimas ouviu toda a história do detetive, que depois exibiu as fotos dela com o namorado argentino em vários lugares da Espanha, assim como o Jardel aparecendo em todas elas, aparentemente vigiando-a. Quando ela o reconheceu foi com um grito que ela disse:
·        Esse aqui atrás deles no estádio de futebol é o João Paulo. No zoológico embora esteja apenas de perfil dá para reconhecer que é ele também. Em Madri, ele também está próximo deles dentro da arena. Nessa outra foto é novamente ele no restaurante e a testa e parte da cabeça do careca atrás da limusine dá para imaginar ser ele também.
·        Dá para perceber que é ele, só pela testa?
·        Além dessa semelhança, veja que também se percebe um pouco a frente do carro, sua mão e nela tem o inseparável cachimbo.
·        Deixe-me ver. Ninguém nunca tinha visto isso antes de você.
·        Não está nada nítido, pois a imagem está muito pequena, mas dá para perceber isso, embora esteja difícil.
·        Deixe-me ver novamente esse retrato. Você tem razão. Parece mesmo uma mão conduzindo um cachimbo.
·        Conseguiu perceber isso?
·        Só agora que você mostrou-me. Ele se identificava como João?
·        Sim. Agora que estou sabendo de tudo isso que acabou de me dizer sei que só pode ter sido o João Paulo que a matou para calá-la.
·        O verdadeiro nome dele é Jardel Campos de Albuquerque Lins, outros dois irmãos chamam-se Silvio e Dante, completando o nome com a inclusão de “Campos de Albuquerque Lins”. O mais velho é o Sócrates deAlbuquerque Lins Filho.
·        Os assassinos vagabundos identificavam-se como os quatro Joãos. Eles se intitulavam como sendo João Antônio, João Paulo, João José e João Pedro.
·        Tudo falso.
·        Como eu poderia ajudar você descobri-los? Se precisar de dinheiro eu lhe dou tudo que tenho.
·        Tive uma ideia que deve funcionar, mas como eu a acho horrível já a desconsiderei e estou pensando em outra coisa para podermos encontrá-los.
·        O que quiser que eu faça eu farei para pegar pelo menos o João Paulo, que com certeza foi quem matou minha amiga.
·        Falei tudo isso, mas o mais importante que quero conversar com você ainda nada disse.
·        Tem mais coisas?
·        Sim. Ouça com cuidado, pois o que falarei pode confundi-la. Sei que pode ser uma grande coincidência e que nada é real.
·        O que me falará meu paizinho Lula?
·        É exatamente sobre isso.
·        O que? Não vai me dizer que é meu pai verdadeiro que resolveu aparecer trinta anos depois.
·        Não. Não sou seu pai e isso é a mais pura das verdades. A única vez que estive na Espanha foi ao inicio do mês antes de vir para cá.
·        Então o que é?
·        Quando eu a vi pela primeira vez, você me fez lembrar muito de minha falecida esposa. Depois quando vi seu quadro no apartamento, com menos idade, então a semelhança entre você e minha inesquecível Manuela quando morreu no parto é impressionante.
Nesse momento, Agostina assustou-se e fez menção de falar alguma coisa, mas calou-se e continuou ouvindo o detetive.
·        A partir daí viajando em minha imaginação comecei considerar e amá-la, não como minha esposa reaparecida jovem, mas como minha filha morta há trinta anos, pois essa é também a sua idade.
·        Agora me ouça com bastante atenção. Essa surpresa é maravilhosa e pode ser sim algo muito real entre nós, porque na única conversa que tive com minha avó quando estava no internato, foi que minha mãe quando decidiu sumir no mundo deveria ter-me dado para sua irmã gêmea, mas que não fora possível fazer isso porque ninguém sabia por onde ela andava. Sua esposa deve ter sido minha tia Manuela que desapareceu bem antes de eu nascer.
Ela deve ter ido para o Brasil e lá o conheceu e vocês se casaram.
·        Não é possível. Isso está sendo a revelação mais encantadora que jamais imaginei.
Realmente Manuela dizia que não tinha nenhum parente no Brasil. Que tinha apenas uma irmã gêmea e a mãe, mas que tinha perdido o contato com elas, pois talvez elas tivessem mudado para outro lugar.
·        Ela lhe disse de onde era?
·        Zaragoza era sua cidade de nascimento que constava nos próprios documentos.
·        Estranhíssima situação, mas sinceramente não acho que seja nenhuma coincidência. É praticamente certo que você seja meu tio por ter casado com minha tia.
·        Logo que a vi senti uma forte emoção que não sabia por que e só fui pensar nesse sonho quando vi a pintura em sua casa.
·        Por isso que fingiu estar dormindo e não quis ver-me fazendo strip tease para você não se relacionar comigo?
·        Percebeu que eu não dormia?
·        Sim, mas respeitei seu desejo. Imaginei que como teríamos muitas horas você me procuraria depois e deitei-me a seu lado e ambos dormimos.
·        Eu nunca iria fazer sexo com minha filha. É claro que era fantasia minha, mas sentia-a realmente como filha e só agora que estou sabendo que é minha sobrinha.
·        Eu também desde que o conheci há apenas alguns dias já sentia um enorme fascínio por você. Não era uma atração física, mas um amor verdadeiro. Real mesmo, como de parentesco.
Eu acreditava que por eu ter encontrado um homem atencioso e carinhoso e por estar muito carente pela perda de minha única e verdadeira amiga apeguei-me a você.
Na verdade eu estava encontrando meu tio que nunca soube da existência.
·        Sei que meu amor por você é o mesmo.
·        Tudo isso me parece um sonho maravilhoso.
·        Para mim também, por isso que quando lhe disse em leva-la comigo para o Brasil, era e continua sendo meu grande desejo principalmente agora que sei que você é minha sobrinha.
·        O que eu faria lá?
·        Vai trabalhar em meu escritório, como minha secretária, mas primeiro temos de descobrir onde andam os irmãos assassinos para prendê-los e eu tive uma ideia que já descartei, mas estou pensando em outra.
·        Eu tenho uma grande ideia de como fazer isso.
·        Fez algum curso de detetive particular?
·        Não.
·        Mas estudou alguma profissão, não é?
·        Não. Sempre estudei e muito, mas sozinha. Por conta própria para instruir-me o máximo possível. Leio muito durante o dia, pois nem sempre tenho programas diurnos, porque os evito e nesses dias que não tenho absolutamente nada a fazer dedico-me a leitura.
·        Eu tinha impressão que estudou algum curso curricular.
·        Jamais. Tudo que aprendi foi com a escola da vida mesmo, mas ouça o plano que tenho certeza que dará certo.
·        Primeiro diga-me uma coisa. Que tipo de leitura aprecia?
·        Todos os livros que me caem à mão leio e gosto. Tanto os didáticos para minha aprendizagem como os romances para minha distração.
·        Nenhuma preferência?
·        Sobre crimes misteriosos, principalmente os de Agatha Christie quando a história é com a Miss Marple, embora eu adore ver as descobertas miraculosas de Poirot. Esses são os que mais prefiro.
·        Ótimo. Acho que vai deixar o cargo de secretária antes mesmo de começar.
·        Como assim?
·        Preciso de uma investigadora e depois de ouvir como planeja descobrir o Jardel vou saber se realmente você poderá ser minha substituta no futuro.
·        Então me conte seu plano que depois contarei o meu.
·        O meu não faz muito sentido e nem é correto eu falar-lhe, pois é um projeto sujo e desleal, portanto gostaria de saber de você o que tem em mente para encontrarmos Jardel.
·        Tudo bem. Vou contar o que idealizei enquanto ouvia sua história.
Como eu tenho bastante dinheiro, nós poderemos mudar para Belfast que é a capital da Irlanda do Norte e eu disfarçada de loira, me apresento com nome e origem italiana na melhor boate de lá, para fazer strep e também programas.
Como sei que os irmãos Jota sempre preferiram lugares chiques não será difícil encontrar o tal Jardel e seduzi-lo para ele sempre contratar-me para programas e aos poucos poderei ir tirando dele muitas informações importantes.
·        É muito arriscado, pois você já teve caso com ele e ele lhe reconhecerá.
·        Nunca tive nenhum caso com ele. Ele era fixo de Ana Margarita e não meu. Estive foi com os irmãos dele, e mesmo assim foi apenas uma vez com cada um e já fazem mais de dois anos e eu estando disfarçada serei outra mulher.
·        Na hora de ir para a cama com um deles ele poderá descobrir seu disfarce.
·        Para começar não aceitarei nenhum deles que já estiveram comigo, pois não somos escravas e podemos recusar quem quer que seja, mesmo que o valor ofertado seja alto que não haverá problema algum.
Só ficarei com o assassino de minha amiga, para conseguir fazê-lo confessar.
·        Mesmo que nunca tenha ficado com Jardel ele poderá reconhecê-la.
·        Jamais, pois ele nunca me viu.
Sempre que eu procurava por Ana em seu apartamento e ela estava com ele, só abria um pouco a porta e dispensava-me avisando que estava com seu nomorado.
·        Então como o reconheceu na foto?
·        Por que muitas vezes eu o vi com ela na rua, mas nunca conversávamos quando ao acaso os encontrava. Eu e ela nem sequer nos cumprimentávamos e ela disse-me que nunca falou de mim para ele e jamais mostrou fotos minhas ou me mostrou a ele, nesses encontros ao acaso.
·        Se ela era tão sua amiga, como nunca se referiu a você ou mostrou-a quando estava com ele.
·        Desculpe-me a falta de modéstia, mas talvez por eu ser mais bonita e experiente, acho que ela tinha medo de o perder para mim.
·        Então como ficou sabendo que os outros três irmãos com os quais ficou eram irmãos dele?
·        Na boate há mais de dois anos conheci um homem, que no outro dia me apresentou um seu irmão e a mesma coisa aconteceu com o terceiro, que disse-me que no outro dia trariam o quarto e último dos irmãos para me conhecer.
Naquela época praticamente todos os dias eu via Ana e no decorrer do dia seguinte comentei com ela que havia conhecido três irmãos brasileiros e que os achei muito parecidos com o namorado dela e ela confirmou-me que realmente eram irmãos que estavam com ele nessa viagem. Contou-me que eles eram quatro e que moravam na Irlanda do Norte e como seu amante ficaria uma semana em Lugano trouxe-os para conhecer a cidade.
Prometi-lhe que nessa noite em que ele estaria me procurando não me encontraria, porque ainda durante a tarde iria avisar meu patrão que me ausentaria por uma semana a partir daquele dia, portanto eles terminariam suas estadas e voltariam para a Irlanda, antes de eu retornar ao trabalho e com isso nós não nos encontraríamos.
Depois disso nunca mais vi nenhum dos três que me conheceram, mas o namorado de Ana ainda vi algumas vezes, quando ele vinha visitá-la, sempre da maneira que já lhe falei, por isso tenho certeza que ele jamais me viu.
·        Então realmente nunca esteve frente a frente com ele.
·        Jamais. De qualquer forma meu disfarce será permanente, pois colocarei lentes de contato azuis, farei mega-hair loiro nos cabelos, pois não farei uso de perucas e óculos escuros que são os disfarces mais idiotas que eu já ouvi falar.
Meu disfarce que não será descoberto a não ser por cabeleireiros ou por oftalmologistas e mesmo assim não será tão fácil.
·        E a cor da pele? Não irá denunciá-la de não ser loira?
·        É claro que não. Minha amiga Ana que era até mais morena que eu não passou no Brasil e na Argentina por loira queimada de praia? O mesmo pode-se pensar de mim. Uma italiana loira queimada de praia.
·        Você é simplesmente sensacional, minha sobrinha Tina, mas como o fará dizer que foi ele quem matou sua amiga.
·        Isso talvez demorará um pouco. Embora eu o odeie me tornarei amante dele até ganhar sua confiança e aos poucos conseguirei que ele mostre suas fotos com outras mulheres, pois não só Ana falou-me como também vi que seus irmãos adoravam filmar ou fotografar-se com as garotas que conquistavam. Aliás, acho que nunca conquistaram ninguém, pois deve ser difícil para eles. Além de nem serem bonitos são prepotentes, machistas, grosseiros e exibicionistas.
Exatamente os maiores defeitos que vemos nos homens. Eles apenas contratam, pagam e filmam para se exibirem aos amigos mentindo serem conquistadores de mulheres bonitas.
Soube pela Ana que ele também tem todos os defeitos dos outros e por isso conseguirei surrupiar-lhe algumas fotos ou filmes dele com ela ou talvez até o faça confessar que a tenha matado e que tenha contratado bandidos para matar seus pais para arrotar na cara de todo mundo a riqueza que herdará.
Esse é meu plano para pegá-lo. Gostou?
·        Era exatamente isso que eu pensava, mas coloca-la em risco que é perigoso era um dos motivos para eu não querer e o outro que continuo não querendo exigir-lhe tal atitude que acho que seria muita indecência de minha parte solicitar isso de você.
·        Então como a ideia foi minha não tem com que se preocupar. Faremos isso por minha conta e risco. Você só viajará comigo para salvar-me de algum perigo real e o resto ficará por minha conta. Vou vender minhas joias e meu carro e juntar com meu dinheiro no banco trocando por TravelersCheques para leva-los.
·        Deixe-me pensar em outro meio de chegarmos a ele.
·        Esse é o melhor e completamente sem risco.
·        Mas terá de ter relações com ele.
·        Mas essa é minha profissão e é claro que cobrarei muito caro pelos programas com aquele figlio di puttana.
·        Agora você o xingou em italiano.
·        Ele é isso mesmo em todos os idiomas.
·        Então vamos dormir para descansarmos e acordar cedo para providenciarmos nossa viagem para Belfast, mas não vai vender nada e nem trocar seu dinheiro por cheques de viagem.
·        Não é justo você gastar sozinho, meu tio.
·        Não serei eu, pois tenho um cartão, cujo valor é ilimitado para efetuar qualquer despesa que precisar, por conta de meus contratantes.
·        Nossa. Então os parentes dos idosos estão pagando tudo que você gasta?
·        Exatamente. São todos muito ricos e inclusive a herança que está em jogo é a do mais bem sucedido da família toda. É uma fortuna incalculável.
·        Eu sabia que os irmãos tinham dinheiro, mas nunca imaginei o quanto era.
·        Eles talvez não tenham muito mais, pois soube no Brasil que quando eles decidiram mudar-se para Londres, o pai deu-lhes uma grande importância em dinheiro suficiente para viverem muito bem o resto de suas vidas, se aplicassem corretamente ou constituíssem alguma empresa, mas eles esbanjavam e consumiam o dinheiro de forma irresponsável com tanta rapidez que no máximo em dois ou três anos nada mais teriam.
Em uma das visitas dos pais no primeiro ano que eles estavam na Inglaterra, viram que eles gastavam como se fossem bilionários e que nunca fizeram o dinheiro render nem em aplicações financeiras e nem constituindo nenhuma empresa que tinha sido a orientação dada.
Nessa época o pai os aconselhou terem cautela por que tal importância que estava sendo destruída com tanta rapidez iria acabar logo.
Eles responderam ao pai que quando estivesse para acabar, eles o avisaria para ele depositar mais, porque era daquela maneira que eles gostavam de viver e não mudariam seus estilos de vida. 
Esse era o desejo deles, mas os pais foram francos e disseram que não lhes dariam mais nada, pois senão eles destruiriam a fortuna da família e que só receberiam todos os bens deles depois que eles morressem, como herança e mesmo assim porque que a lei lhes garantia esse direito.
Não só os pais como também muitos outros parentes visitaram-nos com as mesmas exigências e todos telefonavam-lhes, conversavam por Skype e enviavam e-mails, cobrando responsabilidade deles e ao cabo de pouco mais de um ano eles simplesmente perderam qualquer contato.
Soube sobre isso pelos diversos parentes que creem que os rapazes se aborreceram com os conselhos e desapareceram definitivamente, imaginando que o dinheiro seria eterno, mesmo esbanjando loucamente como faziam.
Todos acreditam que há uns dois anos eles perceberam que estavam falidos e talvez a partir de então decidiram matar os idosos, para herdar toda a fortuna e armaram toda essa trama, da qual sairiam inocentes e herdariam uma fortuna incalculável.
·        Então só teremos de comprar os bilhetes para irmos até lá.
·        Eu farei isso logo pela manhã para ver se consigo um voo o mais rápido possível e você procura seu empregador e solicita sua demissão também pela manhã enquanto providenciarei as passagens, possivelmente para hoje a noite mesmo.
·        Então bom fim de madrugada titio, pois logo cedo iremos a luta.
·        A propósito disso, quando estivermos em Belfast faremos um exame de DNA para comprovar e oficializar nosso parentesco.
·        É claro que não encontraremos nenhum grau de consanguinidade entre nós tio. Não temos o mesmo sangue e muito menos a mesma genética. Se eu de fato for sobrinha de alguém seria de sua esposa que já deve ter virado cinza há muitos anos.
·        Realmente. Falei besteira, mas não importa a comprovação científica. Tudo que falamos é nossa verdade e você agora é minha sobrinha e minha futura funcionária em investigações de empresas e também nas criminais. Bom descanso.
·        Para o senhor também.
·        Esqueça o “senhor”.
·        Okey tio Lula. Vamos dormir e até amanhã cedo.
Novamente dormiram juntos e abraçados, sem nenhum desejo carnal por parte de nenhum deles.
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Logo amanheceu e o detetive Miranda foi a uma agencia de viagem e conseguiu as passagens para o voo que sairia as vinte e uma horas e voltou para o flat de sua sobrinha, do qual já possuía a chave e enquanto aguardava-a voltar do que ela fora fazer em seu laptop fez uma completa pesquisa sobre a cidade para a qual iriam naquela noite.
Reservou um amplo apartamento duplo em um excelente hotel no centro de Belfast para eles se hospedarem.
Agostina só chegou por volta de dezesseis horas, já liberada do serviço, e devidamente remodelada para efetuarem a viagem, com destino a Irlanda do Norte.
·        Como ficou linda?
·        Gostou tio?
·        Está uma loira de cabelos compridos e de olhos azuis simplesmente maravilhosa. Só a reconheci por que abriu a porta e entrou. Se a visse na rua iria flertar com você imaginando-a outra mulher.
·        Então como sou de verdade acha-me feia, indigna de ser paquerada pelo senhor?
·        É claro que não. Você é maravilhosa de qualquer maneira, mas é minha sobrinha.
·        Mas está todo entusiasmado olhando-me mudada. Não vá dizer-me que está sentindo atração física por mim como estou, pois eu recusarei qualquer ato incestuoso entre nós.
·        Não se trata disso. Estou é tentando ver se dá para perceber que essa linda italiana loira é minha adorada sobrinha espanhola e morena.
·        Dá para perceber alguma semelhança, ou realmente vê outra pessoa?
·        Está completamente diferente e irreconhecível. Já escolheu qual o nome que você usará?
·        Será Tina mesmo, pois Tina é um nome italiano.
·        Abreviatura de qual nome?
·        De nenhum. Na Itália muitas mulheres chama-se simplesmente Tina e como já estamos acostumados com esse meu apelido é melhor continuar com ele para não fazermos confusão em nenhum momento inoportuno.
·        Concordo com você Tina. De agora em diante você passará a ser Tina, a italiana.
·        Só depois que estivermos em Belfast, pois por enquanto continuo sendo Agostina e com muita honra espanhola.
·        Espero que tudo dê realmente certo conforme imagina. Não quero vê-la sofrer nenhum abuso ou sofrimento.
·        Tio. Confia em mim?
·        Confio.
·        Então vamos à luta.
·        Já reservei uma suíte para nós ficarmos, no hotel Ten Square.  
·        Enquanto estava no cabeleireiro fiquei pensando sobre nós e acho que será melhor não sermos visto juntos.
·        Por quê?
·        Porque se eu chegar lá acompanhada, pode dar a impressão de eu ser casada ou de estar levando algum mezzano e são fortes motivos para eu ter dificuldade em arrumar emprego.
·        O que significa mezzano?
·        Acho que no Brasil vocês falam o mesmo que em Portugal que é proxeneta ou cafetão.
·        Então?
·        É melhor eu reservar um apartamento para mim em outro hotel e você inclusive terá total liberdade de seguir-me e me vigiar para que nada me aconteça sem levantar nenhuma suspeita.
·        Concordo. Faça você mesma sua reserva que até poderá ser no mesmo hotel.
·        Acho que devemos nos hospedar em hotéis próximos um do outro, mas não no mesmo.
·        Tudo bem. Procure rápido um que seja no centro de Belfast, faça sua reserva que está quase na hora de irmos para o aeroporto.
·         Lá nos falaremos só por celular e nos encontraremos pessoalmente quando necessário em locais bem longe de nossos hotéis.
·        Está combinado. Foi até melhor eu não ter conseguido passagens para ficarmos juntos na aeronave, portanto até na viagem estaremos separados, como se fossemos estranhos.
·        Melhor ainda.
·        Fique com esse dinheiro que troquei em uma casa de câmbio para suas despesas.
·        Não será preciso, tenho dinheiro e se precisar mais uso meu cartão. É aceito em qualquer parte do planeta.
·        Esqueceu-se que quem pagará as contas não seremos nós.
·        Aquele cartão sem limites que você tem realmente está sendo pago pelo seu contratante mesmo? Não tem nenhuma mentira nessa história?
·        Claro que é verdade. Se dependesse de mim eu jamais teria gasto tanto dinheiro como tenho feito. Está tudo sendo pago e continuará sendo pela família dos ricaços.
·        Sendo assim então eu aceito.
·        Fique com setenta por cento das quatro mil libras que troquei com você e eu fico com o restante.
·        Ao contrário é o mais certo, porque lá eu vou ganhar dinheiro e você só vai gastar.
·        Então dividiremos meio a meio.
·        Dois mil para cada um. Combinado.
Tudo acertado foram em táxis individuais e ocuparam seus respectivos assentos na aeronave e seguiram viagem completamente separados, embora dentro do avião conversassem em seus celulares o tempo todo do voo, pois assunto não lhes faltavam. Eles simplesmente se adoravam.
Chegaram a Belfast em pouco mais de três horas, portanto pouco depois de zero hora e separados encaminharam-se para seus hotéis que eram realmente muito próximos.
Ela havia reservado sua hospedagem no Premier Inn Belfast City Centre Alfred Street.
Conversaram em seus tablets durante a noite toda pelo Skype até que o sono abateu-os e eles se despediram e foram dormir, mas o detetive deixou seu aparelho cair quebrando e danificando-o.
Como ele não tinha absolutamente nada a fazer no outro dia iria mandar consertá-lo, ou comprar outro.
Agostina ao contrário dele tinha muita coisa a resolver, que era se apresentar às boates e conseguir emprego.
Iniciou sua procura na melhor e mais famosa de todas. Ela procurou o mais importante Public Place, que como todos os demais funcionavam com happy hour no final da tarde e após meia noite apresentam suas lindas jovens dançando strep tease inclusive permitindo exercerem suas profissões de garotas de programa em flats no próprio local para essa finalidade.
Realmente foi fácil para Tina conseguir logo nessa primeira visita sua contratação. Sua exuberante beleza, sua experiência na apresentação de strep tease e sedução aos homens, fizeram seus testes serem decisivos.
Como é normal, o patrão antes mesmo de dar-lhe emprego seria seu primeiro cliente sexual, sem nada pagar pelo ato, pois isso fazia parte dos testes, mas por sorte dela não teve de se sujeitar a isso, pois o dono dessa importante casa noturna não era chegado a mulheres. Ele era pederasta passivo e a isentou dessa parte do teste que percebeu por intuição própria desses homens afeminados que ela seria excelente em tudo pelas apresentações excepcionais que ela mostrou. 
Por volta de treze horas da tarde, ela ligou à seu tio tentando o Skype no tablet dele e nada conseguiu. Ligou para o celular e combinaram de se encontrarem no zoológico.
Quando o detetive já estava em frente a jaula do único urso panda que tinha no local telefonou à Tina que estava chegando ao zoológico. Ela foi até ele para conversarem com certa tranquilidade entre os vários casais que lá passeavam com seus filhos e as inúmeras professoras que acompanhavam seus alunos nos tradicionais passeios educativos.
Esse local foi escolhido pelo detetive, pois geralmente jardins zoológicos, ou botânicos, parques temáticos para crianças, teatros com peças infantis, são locais onde se veem apenas as crianças e seus acompanhantes, que obviamente seriam seus pais, suas babás, ou professores, que sempre atentos em cuidar dos pequenos não os notariam e eles poderiam conversar sigilosamente e em segurança.
Combinaram para os futuros e necessários novos encontros serem sempre em algum desses lugares ou em templos ou igrejas em horários que não tem culto, pois além de abertas à visitação pública estão sempre vazios ou no máximo poderiam encontrar apenas algum fiel pagando promessa, ou um casal de amantes marcando seus encontros extraconjugais, mas nunca ninguém que se preocupassem com eles.
Ao se encontrarem apenas sendo vistos pelo urso, Tina muito alegre falou:
·        Tio. Já consegui emprego.
·        Por acaso foi no primeiro lugar que procurou?
·        Sim. No mais famoso clube privé para homens que tem aqui.
·        Eu sabia que isso seria fácil para você.
·        Não foi tão fácil assim. Tive até que interpretar e cantar para satisfazer o patrão.
·        Você também interpreta e canta?
·        Mais ou menos.
·        Está sendo modesta, pois se foi no mais importante clube da cidade, deve fazer isso tão bem como dançar.
·        Para prender aquele bandido, fiz as melhores apresentações de minha vida para conseguir esse emprego.
·        Confio em sua grande performance em tudo que faz. Quando começa trabalhar?
·        Hoje mesmo. Devo estar lá às vinte horas, para ensaiar com outras meninas e se tudo correr bem como espero, começo a apresentar no palco já a partir de amanhã e não precisarei mais ir as vinte horas e sim vinte e duas.
·        Até que horas você fica trabalhando na casa.
·        Exatamente igual em Lugano mesmo, das vinte e duas até às seis da manhã.
·        Mas você não fará programas diurnos como fazia lá com clientes especiais, não é?
·        É claro que farei.
·        Mas no hotel em que hospedou não vão aceitar garotas de programa hospedadas levando homens para seus quartos.
·        Quando eu encontrar o motherfucker terei que encontrar-me com ele fora da boate e por isso que reservei só uma semana no hotel, pois vou procurar um apart hotel para eu alugar um flat, para poder encontrar-me com ele durante o dia inteiro para fazê-lo contar-me o que precisamos saber.
·        Você é bem esperta mesmo, minha sobrinha. Já pensou em tudo que é necessário.
·        Obrigada. A proposito tio, você sabe comunicar-se aqui na Irlanda?
·        É claro. A língua que é mais falada aqui é a inglesa e eu igual a praticamente todas as pessoas do mundo inteiro também falo inglês.
·        Pensei que não soubesse, pois quando me referi ao filho da puta, falei em inglês e você não disse nada.
·        Eu percebi, mas nada comentei porque você já me disse que ele é isso mesmo em todas as línguas.
·        Então ainda faltam várias.
·        Quantos idiomas você fala?
·        Eu que moro aqui na Europa desde que nasci há mais de trinta anos, e a quase quinze convivendo com pessoas de todos os países, que são pequenos e muito próximos um do outro arranho pelo menos umas sete ou oito línguas.
·        Tudo isso?
·        Falo muito bem o espanhol, o italiano e o inglês, mas sei razoavelmente bem o francês, o português e o alemão. Consigo entender e me fazer entender, entretanto com menos eficiência no idioma romeno, no húngaro e no esloveno e um pouco de russo.
Para simplificar tudo ele é hurensohn em Alemão, fils de putes em Francês, nemernicii em Romeno, kurvafi em Húngaro, kurbin sin emEsloveno e em russo eu não sei.
·        Está bastante animada hoje. Parece que essa viagem está lhe fazendo bem.
·        É claro que está. Agora que descobri um parente maravilhoso que é você e que me disse quem foi o assassino de minha melhor amiga e está ajudando-me encontrar e pegá-lo para ele pagar pelo que fez só posso estar feliz.
·        Tem uma coisa muito importante para lhe falar.
·        O que é?
·        Não vá de maneira nenhuma querer fazer vingança com as próprias mãos, pois além de sofrer seríssimas consequências, me impedirá de provar que são todos os quatro irmãos quem provocaram a morte de seus pais, pois isso só poderá ser comprovado pelo kurvafi vivo e preso.
·        Fala húngaro também?
·        Só essa palavra que aprendi agora com você.
·        Fique sossegado tio. Não sou nenhuma maluca para pensar em matar alguém. Principalmente eu sendo o que sou assassinar uma pessoa considerada de bem. Com certeza pegarei pena de morte e não quero isso para mim. Quero é para ele.
·        No Brasil não tem pena de morte, portanto esse criminoso e seus irmãos não serão penalizados assim como você está pensando.
·        Mas com certeza suas leis os deserdarão da fortuna dos pais, além de puni-los com muitos anos de detenção.
·        É exatamente isso que acontecerá com eles.
·        Então está ótimo para mim.
·        Vamos nos separar, pois já faz muito tempo que estamos olhando para esse urso que acho que ele já se apaixonou por um de nós.
·        Okey. Um beijão e até o próximo encontro que creio que deverá ser logo.
O detetive esperou alguns minutos para Tina desaparecer e também saiu do zoológico direto para seu hotel.
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Lá ele telefonou para seu contratante, Dr Aldo deAlbuquerque Linsem Vitória, informando-o que já sabia o país em que moravam os filhos do Dr. Sócrates, mas que ainda demoraria algum tempo para encontra-los e depois conseguir provas concretas para incriminá-los e que para isso estava gastando muito dinheiro e que infelizmente para a família Albuquerque Lins ele ainda deveria continuar usando o dinheiro deles por talvez mais uns dois meses.
Contou-lhe com pouquíssimos detalhes o que estava fazendo, mas que tinha certeza que conseguiria resolver tudo, com a ajuda de uma pessoa contratada por ele em no máximo mais dois meses e que era para conseguirem atrasar o inventário que o advogado inglês estava pleiteando, pois ele tinha certeza da culpa dos irmãos e muito em breve iria provar.
Como resposta soube que eles estavam usando de suas influencias para retardar o processo e que o advogado inglês já tinha voltado para seu país, sabendo que os documentos não sairiam no Brasil com menos de seis meses e só tinha passado um.
Soube também que toda a família continuava acreditando nos resultados satisfatórios que ele iria conseguir e não só desejavam boa sorte, como o informou que as despesas que ele estava achando exageradas não significavam quase nada para eles.
Que estavam até aquém das previsões e que ele poderia continuar usando o dinheiro que precisasse.
Despediram e o detetive ligou rapidamente para Tina contando que eles ainda tinham uns cinco meses para encontrar os criminosos e que suas despesas estavam sendo consideradas normais e sem problema algum para os ricaços de Vitória.
Despediram-se sem muita conversa, pois a moça já estava para sair para seu primeiro dia de trabalho.
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Durante toda a noite o detetive ficou acordado imaginando o que Tina estava fazendo na boate, mas acabou dormindo e só acordou por volta de doze horas do dia seguinte.
Como não queria ligar para ela, pois ela deveria estar descansando por que trabalhara até seis da manhã, ele decidiu telefonar para Dona Rute no Brasil, cujo horário deveria ser mais ou menos dez horas, portanto já a encontraria acordada e trabalhando em alguma casa.
Primeiro pediu-lhe desculpas por não ter falado com ela depois de ter viajado para Lugano e perguntou-lhe se ela tinha tempo para ouvi-lo contar tudo que tinha feito nesse quase um mês de viagem.
·        Pode falar detetive. Terei tempo suficiente para ouvi-lo por horas, pois não estou trabalhando. Caí de uma escada e estou acamada me recuperando da queda.
·        Feriu-se muito?
·        Não. Foi só um pé que quebrou, mas logo estarei em forma.
·        Espero que se recupere logo.
·        Já estou quase boa. Daqui a cinco dias já vou tirar o gesso e estará tudo resolvido.
·        Estava trabalhando em alguma casa quando caiu?
·        Não. Estava bisbilhotando sobre um muro tentando ver como invadiram uma casa em que raptaram e depois mataram uma criança.
·        Que coisa horrível. Uma criança?
·        Mas enquanto eu estava no hospital sendo consertada, pensei muito e consegui descobrir como foi e quem foi e já falei para o Grozzi que já prendeu a mulher.
·        Foi uma mulher quem fez isso?
·        Foi. E o senhor a conhece.
·        Como assim? Quem é ela?
·        Ela era a amante de um cara casado, cuja esposa o contratou para descobrir tal traição e o senhor levou-lhe todas as provas filmadas.
A esposa não se divorciou do marido e o perdoou com a condição de ele nunca mais procurar a amante e ele cumpriu o acordo, terminando o relacionamento extraconjugal. A ex-amante em represália raptou e matou o filho do casal e agora está presa, mas graças ao senhor o menino está morto.
·        Está me culpando Dona Rute?
·        É claro, se não fosse pelo senhor ambas as mulheres continuariam felizes a seu modo dividindo o mesmo homem, e um menino de apenas cinco anos estaria vivo.
·        Eu estava telefonando para a senhora para contar-lhe boas noticias e a senhora está me destruindo.
·        Sou assim mesmo. Sou franca e falo o que acho que devo falar quando sinto vontade, doa a quem doer.
·        Vou desligar. Outro dia lhe telefono.
·        Não faça isso, pois quero mesmo falar com o senhor sobre outras coisas.
·        O que a senhora quer falar comigo?
·        Saber sobre o caso que está demorando, mas que está resolvendo sobre os idosos de Vitória.
·        É uma longa conversa que demorará horas, para contar tudo como está.
·        Se o senhor tiver bastante dinheiro para pagar a conta do telefone terei todas as horas necessárias para ouvir tudo. A propósito fala de onde?
·        Estou na Irlanda do Norte.
·        Faça o seguinte. Desligue seu celular e fale comigo pelo Skype que será gratuito.
·        Cheguei recentemente aqui no hotel e já consegui quebrar meu tablet e ainda nem o consertei e nem comprei outro. Estou usando o celular comum mesmo e tenho dinheiro para pagar a conta.
·        A despesa será sua, portanto pode começar sua odisseia que ouvirei até para passar o tempo.
·        Se possível ajude-me com algumas dicas.
O detetive Miranda contou tudo que aconteceu com ele e para isso conversou até o final do dia com Dona Rute, que lhe disse:
·        Senhor policial. Conforme me falou seu contato com a moça sua sobrinha é praticamente em todos os momentos por isso acho que ela está desesperada ligando para o senhor e não consegue falar, pois está ocupado comigo. É melhor desligarmos que tenho certeza que ela já ligou uns trilhões de vezes procurando-o.
·        É mesmo. Falando com a senhora acabei esquecendo-me dela. Vou desligar para falar com ela, mas antes me diga se acha que está certo o que pretendemos fazer, ou se tem alguma outra maneira?
·        Continue o que está fazendo e descubra os irmãos que acabará sabendo a verdade.
·        Tem outra verdade diferente da que imagino?
·        Talvez.
·        Então o que a senhora acha?
·        Por enquanto não acho nada. Só saberei depois que o senhor encontrar os irmãos e falar com eles.
·        Então agora vou desligar. Boa noite.
·        Boa tarde e desta vez estou certa, pois aqui no Brasil ainda são dezessete horas e quinze minutos.
oooOooo
Tina atendeu ao celular antes mesmo de terminar o primeiro toque muito nervosa e chorando.
·        Tio. O que aconteceu com você que já liguei uns trilhões de vezes no Skype e outros trilhões no celular comum e você não atendeu nenhum dos dois. Pensei que tivesse desistido de tudo e me abandonado sozinha aqui.
·        Primeiro desculpe-me. Agora para de chorar que tudo está bem. Meu tablet está quebrado e eu estava usando o celular para falar no Brasil.
·        O dia inteiro?
·        Sim. Primeiro conversei com Dr. Aldo e depois com Dona Rute.
·        Quem é Dona Rute?
·        Uma pessoa maravilhosa e excelente investigadora que você conhecerá quando for para lá comigo.
·        Ela trabalha para o senhor?
·        Não. Ela trabalha sozinha.
·        Ela tem seu próprio escritório?
·        Também não.
·        Então trabalha na polícia?
·        Nada disso. Ela é apenas uma senhora idosa que faz faxina nas casas dos outros, mas tem um faro excepcional para descobrir criminosos.
·        Tipo Miss Marple?
·        Acho que bem melhor, mas fala-me de você. Como foi sua noite ontem?
·        Quase normal.
·        Porque quase normal. Algo deu errado.
·        Ao contrário. Eu vi o Jota entre o público que frequenta a casa.
·        Seus irmãos também?
·        Não. Somente ele.
·        Que maravilha. Teve algum contato com ele?
·        Absolutamente nenhum, pois apenas flertei com ele de longe para deixa-lo entusiasmado. Só irei apresentar-me no palco a partir dessa noite e espero que ele volte, para eu me insinuar, bem mais para ele, enquanto danço para começarmos nosso romance.
·        Não fale assim.
·        Porque tio. É exatamente para isso que viemos para cá não foi?
·        Infelizmente foi. Irei visitar a casa privé para vê-la dançar.
·        Tudo bem. Aplauda-me ou vaie se quiser, mas nem pensa em chegar perto de mim e muito menos em conversar comigo.
·        Está certo. Só irei essa noite para ver o kurvafi de perto, mas nunca mais aparecerei para não atrapalhá-la.
·        Já estive durante o dia procurando um flat e já estou alugando um que é próximo da boate.
Amanhã devo ir lá pagar três meses antecipados, o seguro exigido e assinar a papelada. Quando estiver tudo resolvido, me mudo para lá, talvez depois de amanhã. Vou lhe dizer o endereço. Anote com você.
·        Pode falar.
O detetive copiou em uma folha de papel o endereço recebido e prometeu-lhe que no outro dia compraria outro computador de mão.
Despediram-se, pois Tina iria se preparar para novamente ir mais cedo para o clube para ensaiar um pouco mais com as outras bailarinas, pois em um dos shows seriam várias a dançar juntas e ela teria de estar na mesma harmonia com as demais.
Vinte e três horas e quarenta e oito minutos foi quando o detetive chegou na porta do clube, e não viu nenhuma movimentação de gente e perguntou ao porteiro:
·        Não é aqui a entrada para o clube privé?
·        Exatamente aqui.
·        Mas não vejo ninguém chegar.
·        Já está lotado. Acho que todos os sócios estão aqui para ver a estreia da internacionalmente famosa italiana Tina.
·        Quanto tenho de pagar para assistir o show?
·        Absolutamente nada. É Só mostrar-me a carteirinha de sócio e seja rápido, pois os shows já vão começar.
·        Não sou sócio.
·        Então não posso permitir seu ingresso de jeito nenhum. Só entra associado e em dia com suas manutenções mensais.
O detetive usou toda sua lábia e ofereceu suborno e não conseguiu de forma alguma entrar para ver os espetáculos das mulheres.
O porteiro insistia em dizer-lhe que era fácil ele associar-se. Bastava apenas comprar um título de sócio por cinco mil libras esterlinas e manter em dia a manutenção que era somente mil libras por mês e frequentaria a vontade o clube privé, só que para isso teria de procurar o escritório no outro dia, pois só funcionava de nove até às dezenove horas.
O tempo passava e o detetive esgotou todo seu repertório de argumentos e tentativas de propina, até duas horas da manhã. 
Já estava despedindo para retornar ao seu hotel, quando viu sair pela porta onde ele estava, exatamente Tina acompanhada de Jardel.
Imediatamente ficou de costas para não ser visto por eles e antes de perguntar ao porteiro o que pretendia, ambos tiveram de afastar-se da porta para não serem pisoteados pela multidão que veio atrás do casal.
Depois de longos minutos de tumulto o detetive perguntou:
·        Essa moça que saiu primeiro trabalha aqui?
·        Não viu o cartaz anunciando sua estreia hoje?
·        Nem havia reparado. Agora estou vendo o anúncio de vocês.
A propaganda era enorme e tinha uma foto de corpo inteiro com ela com um minúsculo biquíni dançando no postepole dance strip tease sexy e sedução e era apresentada assim:
Estreia hoje para a alegria e felicidade dos homens da Irlanda do Norte, Tina a italiana internacionalmente famosa. A mais linda sedutora e explosiva garota de todos os tempos.
O detetive Miranda viu que a propaganda mesmo que mentirosa quando bem dirigida funciona bem.
Com certeza não foram enviados folders aleatórios às pessoas ou simplesmente colocado no Facebook.
Devem ter enviado e-mails diretos aos sócios do clube mostrando o corpo escultural de Tina e uma grande mentira ao lado.
Ele sabia que essa Tina italiana nunca existiu, pois fora criada há apenas alguns dias por ele e por Agostina e já era apresentada como Tina a italiana internacionalmente famosa.
Imediatamente já começou bolar seus próximos folders com sua foto ao lado dela com os dizeres: “Tina e Miranda os detetives mais talentosos e internacionalmente famosos”.
Retomou a conversa com o leão de chácara do clube:
·        Então ela já se apresentou?
·        Com certeza sim. Os shows são apenas de zero hora até uma da manhã. No máximo até uma e meia quando o espetáculo é muito bom, como deve ter sido hoje, com essa striper gostosa. Agora já são duas e como o encerramento do show foi com essa italiana deliciosa é claro que agora só tem gente bebendo e os homens escolhendo as mulheres com as quais vão ficar. A danada não perdeu tempo e já faturou um ricaço para sair com ela.
·        Então eles estão saindo para um programa?
·        Acredito que não, pois geralmente as mulheres daqui usam flats cujas entradas são lá dentro mesmo.
·        Como ela saiu com um cara?
·        Com certeza foram ao cassino.
·        E o monte de gente que saiu atrás.
·        É provável que também foram para lá.
·        Entendo.
·        A propósito. Se o senhor quiser se divertir, lá a entrada é permitida para todo mundo. Basta apenas pagar o ingresso que não é caro. São apenas quinhentas libras, mas recebe o mesmo valor em fichas para serem usadas nos jogos.
·        Onde fica esse cassino?
·        Pertence ao clube e a entrada é só virar a esquina e andar mais ou menos dez metros que a encontrará.
·        Então terminarei minha noite lá. Bom fim de madrugada para o senhor e até amanhã à noite, pois ao acordar virei me associar ao clube.
·        Boa diversão.
·        Obrigado.
O detetive Miranda gastou a metade do dinheiro que tinha reservado para suas despesas comprando as fichas do cassino e entrou.
A outra metade empregou para alugar uma mesa para si e ficou degustando o couvert que foi servido imediatamente.
De onde estava, ficou escondido de ambos, mas vendo Tina acompanhada de Jardel. Nada podia ouvir, pois ficou estrategicamente bem distante deles só olhando-os, além de que seu dinheiro só era suficiente para adquirir uma mesa longe das máquinas ou mesas de jogos.
Viu que com muita frequência eles levantavam e iam apostar enormes quantidades de fichas, sempre recolhidas pelo "croupier", pois nunca ganhavam.
O detetive resolveu apostar suas fichas em outras mesas de jogos e bem antes das cinco da manhã decidiu trocar por dinheiro o que lhe restou e descobriu que estaria voltando para o hotel com um valor que seria no máximo o suficiente para pagar o taxi em seu retorno.
Nada ouviu da conversa de Tina com Jardel, mas ao levantar-se para sair viu de longe que ela enviou-lhe um beijo, evidentemente sem que seu acompanhante de costas para ele presenciasse.
Ele não cometeu a imprudência de retribuir, pois alguma pessoa poderia vê-lo e seriam descobertos como sendo conhecidos.
Saiu carrancudo para não se delatar e funcionou, pois o beijo da bailarina passou a ser entendido como sendo para todos os homens, que evidentemente se imaginaram os escolhidos e foram muitos os que corresponderam tal carinho enviando seus ósculos a ela.
oooOooo
O detetive Miranda ficou o tempo que restava para amanhecer imaginando o que Tina e Jardel teriam conversado e ao clarear o dia ao invés de ele se levantar ele dormiu.
Por volta de dez horas com seu celular chamando ele ergueu-se cambaleante de sono e assentou-se na cama após apanhar o aparelho.
Meio adormecido atendeu de mau humor, mas ao ouvir a voz tão querida da sobrinha em um salto pôs-se de pé para ouvi-la.
Ela pediu-lhe que se encontrassem às quatorze horas no mesmo local onde já haviam ido, pois tinha um assunto urgente e muito sério para contar-lhe, pois estava muito assustada e amedrontada.
O detetive nervoso com o que ouvira, disse-lhe:
·        Desça já para o saguão de seu hotel e fique ao lado do maior número de pessoas possível que irei imediatamente para aí.
·        Não tio. Não é nada tão ameaçador, neste momento.
Vamos marcar nosso encontro conforme falei que não é possível de me acontecer nada de imediato. Fique tranquilo que saberá direito sobre tudo assim que nos vermos.
Ele aconselhou que seria melhor não voltarem ao zoológico e combinaram o encontro dentro de uma igreja católica que era perto para ambos e que tal encontro até poderia ser imediato. Em poucos minutos ambos iriam a pé até a igreja.
Ela concordou com o local, mas não com o horário, pois antes teria de resolver alguns problemas sem nenhum risco e ficou definido que o encontro seria as doze horas.
Com o livre acesso que os templos deixam aos seus fieis eles entraram separados, entretanto assentaram-se um ao lado do outro em um dos bancos em horário em que a igreja estava totalmente vazia e conversaram, iniciando com Tina falando:
·        Tio. Você não assistiu meu show?
·        Não pude entrar de forma nenhuma, pois para frequentar o clube tenho de associar-me e o preço é simplesmente absurdo.
·        Só pode ser frequentado por sócios?
·        Sim.
·        Então aquele bandido é sócio?
·        Se estava lá dentro é claro que ainda é, enquanto seu dinheiro for suficiente para se manter. Seus irmãos também estavam lá?
Depois falamos sobre eles. Diga-me logo o que a assusta?
·        Vamos continuar a conversa que logo chegarei ao ponto para você entender tudo.
Nenhum dos irmãos do Jardel estava no clube.
·        Possivelmente eles não têm mais dinheiro para manterem-se sócios desse clube tão chique e caro.
·        Se Jardel ainda tem dinheiro logo não terá mais, pois já comecei ajudando-o a gastá-lo muito rapidamente.
·        Vi que jogaram e perderam muito, mas conte-me logo o que a está assustando para fazermos alguma coisa.
·        Vou contar-lhe tudo como foi e você saberá o que deveremos fazer, se bem que já tomei algumas providencias que creio estarem certas. Preste atenção como foi minha noite e depois você me ajudará decidir o próximo passo. Quando eu estava me apresentando flertei muito com ele.
É praxe as stripers jogarem beijos e peças de roupas quando são tiradas do corpo, para o público, mas eu fazia isso só em direção a ele para incentivá-lo em me procurar depois do show e não deu outra. Terminado meu show, vesti-me com uma capa e fui para meu camarim me lavar e colocar novas roupas e ao sair ele estava na porta com um enorme buque de rosas vermelhas para entregar-me. Ele se apresentou e eu recebi as flores, agradeci e guardei dentro do camarim.
·        Como ele disse chamar-se?
·        Jarbas mesmo, portanto não mentiu.
·        Estranho, mas tudo bem. Continue a história.
·        Ele esperou-me na porta e convidou-me para um programa, entretanto eu disse que como era meu primeiro dia naquela casa eu gostaria primeiro de conhecer seu casino e ele prontamente me levou para lá.
Saímos naquela hora que eu o vi na porta tentando entrar.
Eu já sabia que a cada hora de programa a casa cobra trezentas esterlinas para o uso de seus apartamentos, entretanto se sairmos à rua o valor cobrado é o mesmo valor por hora, mas deve ser pago até às seis horas da manhã, que é a hora que deixo o trabalho, portanto só nessa manobra ele já desembolsou mil e duzentas libras.
No casino foram outras mil libras que o fiz pagar para entrarmos e mais mil para uma mesa próxima às máquinas de jogos.
Para simplificar a história eu o fiz consumir no cassino as quatro mil libras que ainda tinha no bolso, mas ele queria de qualquer maneira que voltássemos para um apartamento do clube pelo menos às cinco horas da manhã porque como ele já havia pago até as seis ainda teríamos uma hora para usar o apartamento de lá.
Eu recusei alegando que estava muito cansada e que não queria ir. Que poderíamos ficar conversando lá no cassino mesmo, já que ele não tinha mais dinheiro pra jogar. Ele tentou arrastar-me puxando-me pelo braço de maneira brusca.
·        Como se saiu dessa.
·        Foi muito fácil. Simplesmente lhe falei que meus honorários seriam quinhentas libras e como todo mundo que frequenta clubes privés sabe que esse dinheiro sempre é pago adiantado e como ele não tinha absolutamente mais nenhuma libra, era impossível contratar-me.
Ofereceu-me cheque e eu recusei. Prometeu que no dia seguinte voltaria e me pagaria e da mesma forma rejeitei, inclusive chamando-lhe a atenção por estar segurando muito grosseiramente em meu braço. Tentou beijar-me, mas nem isso eu deixei por que não temos obrigação com homem nenhum que ainda não tenha pago. Ele acabou resmungando e bebendo o restante do uísque que ainda restava em nossa mesa, dos dois litros que consumimos.
Praticamente só ele é claro, pois eu sempre bebo muito pouco. Geralmente o copo cheio de gelo com club soda e um pingo de uísque.
·        Foi por fazê-lo gastar tanto dinheiro e no fim recusá-lo que acha que pode ficar ficado perigoso para você?
·        Sim. Ele me ameaçou seriamente. Houve um aviso que ele me fez que deixou claro que foi ele quem matou minha amiga Ana Margarita.
·        O que foi que ele lhe disse?
·        Vou continuar a história até chegar lá. Ele acabou concordando que como não havia jeito de nós fazermos nenhum programa, pediu-me que fossemos a sua casa que ele me pagaria em dinheiro, pois lá ele tinha muito mais. Foi nesse momento que perguntei seu endereço.
·        Ele deu?
·        Não, pois endereço não existe. Disse-me que morava em uma chácara no distrito de Lisburn cuja distancia de Belfast era apenas de dez milhas, portanto bem próximo e que rapidamente chegaríamos lá, bastando entrar na primeira estrada de cascalho, após a placa indicatória da divisa entre Belfast e Lisburn. Que era a segunda fazenda existente na estrada, portanto como ir até lá ele explicou exatamente.
·        Imagino que não tenha ido com ele não é?
·        Continuei fazendo-me de difícil, para deixá-lo bem seduzido e tentar descobrir mais coisas. Com já era quase seis da manhã eu disse que voltássemos para o clube para eu despedir-me e ir para o hotel, pois meu trabalho já chegara ao fim nessa noite.
·        O que ele fez para você pensar que foi ele que de fato matou sua amiga?
·        Tenha paciência tio. Espere um momentinho só que chegaremos a isso.
Voltamos ao clube, onde dei por encerrado meu expediente avisando um chefão de lá e quis despedir-me de Jardel logo ao sairmos à rua enquanto eu chamava um taxi. Ele insistiu que iria comigo e quando o taxi chegou eu embarquei e ele também. Pedi ao motorista que me levasse para o Premier Inn Belfast City Centre Alfred Street. Ouvi que ele resmungou, mas não falou nada e nem pediu para sair do taxi e continuamos até pararmos na porta do hotel. Nesse momento eu novamente despedi-me dele e entrei solicitando na portaria minhas chaves e como ele percebeu que eu estava realmente hospedada lá mesmo e que ele não poderia acompanhar-me em meu apartamento imaginei que ele em seguida iria embora.
·        E a tal ameaça?
·        Quando desci para o café da manhã, por volta de nove horas entregaram-me um envelope na portaria que está aqui comigo para você ler.
O detetive leu com sua sobrinha o que estava escrito em voz alta e era o seguinte:
Sua italiana de merda. Preste bastante atenção no que estou dizendo. Você é a segunda prostituta que não fez o que eu determinei. Vê se de hoje em diante obedeça minhas regras senão terá o mesmo destino de uma vagabunda espanhola que fez tudo errado o que eu a mandei fazer.
Seu dono.
·        Isso é muito grave e você está em sério perigo, portanto agora sou eu quem lhe dou uma ordem para não ser desobedecida. Dê baixa no hotel, pagando esses dias que se hospedou lá. Ligue para o apart hotel desistindo do aluguel do flat e faça imediatamente suas malas e vá para São Paulo no Brasil procurar por Dona Rute cujo telefone e endereço vou lhe fornecer agora que ela lhe protegerá.
Vou telefonar para ela que já sabe tudo sobre você e esse caso todo e contar-lhe só esse final. Naquele dia que falei o dia inteiro em meu celular com ela contei-lhe tudo sobre o caso e sobre você.
Você tem certeza que ele não ficou próximo do hotel e seguiu-a?
·        Tenho absoluta certeza. Andando a pé do hotel até aqui eu viria em menos de dez minutos e, no entanto demorei duas horas de taxi, pois assim que combinamos nos encontrar eu solicitei um carro e fui até o clube avisar que não iria mais trabalhar lá porque estava voltando urgente para a Itália e também já desmanchei o compromisso com o apart hotel, assim como já dispensei o hotel. Minhas malas já estão guardadas em um armário na estação revoviária, pois vou sair daqui assim que terminarmos nossa conversa.
Minha ideia inicial era de voltar para Lugano.
·        Faça conforme estou lhe falando, mesmo que depois procure outro lugar, porque no momento tem de ir embora da Europa e em São Paulo é onde estará mais segura.
·        E você o que vai fazer?
·        Vou descobri-los na vila onde moram, mas só essa carta já diz tudo. Basta apenas eu leva-la para Vitória e algum policial papiloscopista a comparar com a escrita dele em provas escolares onde frequentou que pelo menos a morte de Ana Margarita ele praticamente já confessou por escrito.
·        Vou obedecê-lo e vou de trem até a próxima estação, e lá tirarei minhas lentes de contato azuis e em um salão de beleza desfaço meu mega hair e depois vou para São Paulo, exatamente com minha aparência de sempre.
·        Tem certeza absoluta que não foi seguida, mesmo fazendo um grande percurso de taxi?
·        Quando o porteiro entregou-me o envelope eu lhe fiz uma série de perguntas que me deu a certeza de que ele foi para sua casa para só voltar a noite no clube.
·        O estranho é seus irmãos já estarem sem dinheiro e ele só nessa noitada deve ter gasto mais de cinco mil esterlinas e disse que voltará hoje, portanto ele ainda tem dinheiro.
·        Foi o que ele disse.
·        É realmente curioso justamente ele que sempre foi o mais esbanjador ainda ter grana.
·        Será que ele é ele mesmo, titio?
Nesse momento o detetive Miranda, fechou seus olhos e começou após seus trejeitos costumeiros, falar consigo mesmo em uma linguagem estranha e totalmente ininteligível, deixando sua sobrinha quase que em pânico, pois ela jamais havia assistido seus chiliques.
Ela estava telefonando para um hospital a procura de um médico, quando ele já em sua perfeita normalidade lhe falou:
·        Tenho pensado nisso seriamente.
·        O que lhe aconteceu?
·        Isso é normal quando estou pensando. Não se preocupe que está tudo bem comigo.
·        Assustou-me.
·        O que você conversou na portaria sobre a carta recebida?
·        Perguntei de onde apareceu o envelope e o atendente me disse que foi o mesmo homem que veio até a porta do hotel comigo depois de seis da manhã, pois era ele que já estava na portaria e viu tudo. Disse-me que depois que eu subi no elevador ele veio até ele e solicitou um envelope com papel escreveu essa ameaça que ao mesmo tempo é a confissão do crime que ele próprio praticou e depois pediu para que o porteiro chamasse um taxi para ele.
O rapaz da portaria como viu que ele estava meio embriagado, ou mesmo por hábito deles de sair e abrir a porta dos taxis para os hospedes, foi com ele até o carro e ouviu quando ele pediu que o motorista o levasse até o clube, pois deixara seu carro lá e iria apanhá-lo e ir para sua casa, portanto isso aconteceu de fato.
·        Como sabe?
·        O motorista faz ponto na porta do hotel, por isso pedi ao atendente para perguntar-lhe se o homem tinha feito tal viagem mesmo e ele confirmou, inclusive dizendo que viu o embriagado apanhar seu carro e dirigir-se em direção de Lisburn, portanto estava bem claro que ele foi para casa e deve estar dormindo bêbado até agora.
·        Tudo bem. Agora vá e fique sempre próxima de onde tem muita gente, pois é mais difícil alguém tentar alguma besteira quando se tem muitas testemunhas. Tome muito cuidado, pois ele pode ter achado que você tentará fugir dele e pode já estar a sua procura.
·        Não creio nisso. O sucesso que fiz ontem foi tanto, que eu penso que ele imagina que eu nunca iria desistir desse lugar e a noite ele voltará para me procurar.  Sei que ele vai pensar que me ameaçando eu cederei aos seus caprichos para não deixar tão bom emprego. Alias, é assim que os proxenetas começam assustando as mulheres, que acabam por aceita-los por não ter como desaparecer e recomeçar em outro lugar, principalmente quando já estão bem sucedidas onde estão.
·        Mudei completamente de ideia. Vá para a ferroviária onde já estão suas malas e compra duas passagens para qualquer lugar para daqui uma hora que vou pagar minhas estadias no hotel fazer minhas malas e a encontro em quarenta minutos, pois vou com você para o Brasil.
·        Não tem problema tio. Saberei ir sozinha.
·        É melhor eu voltar com você para protegê-la. Tenho porte de arma, permissão para usá-la, conduzo-a comigo e sei atirar se for necessário. Depois virei de novo para cá, inclusive com a certeza de que o bilhete escrito à você é realmente letra de Jardel, pois se confirmar ter sido realmente ele quem escreveu já será uma grande prova de que ele assassinou sua amiga, que por sua vez já tinha assassinado o advogado argentino que contratara os homicidas que mataram os dois idosos. Tudo isso ele terá de explicar e acabará tendo de confessar que foi um plano dele e dos irmãos e terão de responder por todas as acusações e tenho certeza que não se safarão.
·        Eu posso levar o bilhete para sua amiga Dona Rosa.
·        Não será em São Paulo que o bilhete deverá ser entregue. Será em Vitória no Espirito Santo para o delegado de lá e para o Dr. Aldo que é o atual encarregado das empresas e das finanças do Dr. Sócrates. Aliás, é a ele que eu devo prestar contas de tudo que fiz, que estou fazendo e o que farei, pois o contrato foi assinado entre mim e ele em nome dos demais.
·        Se vamos juntos, então não irei para São Paulo?
·        Você ficará lá, pois geralmente os voos daqui da Europa fazem escala no aeroporto de Guarulhos que é muito próximo a São Paulo, onde você fica e eu continuo até Vitória.
·        Entendo que na volta você deva sair de Vitória e passar por São Paulo antes de viajar de volta para a Europa. Estou certa?
·        Sim. Será isso mesmo que farei.
·        Então vou com você até Vitória e na volta fico em São Paulo com a Sra. Rute, aguardando seu regresso com mais coisas que terá de descobrir.
O detetive nada respondeu e foi até seu hotel pagar suas diárias e dispensar seu apartamento.
Agostina foi até a estação de trem e descobriu que nesse dia todos os trens que partiriam dali, só iriam para um único lado.
Passariam e parariam na estação existente na vila Lisburn, onde os irmãos moravam e por esse motivo, quando o detetive chegou procurando-a ela o avisou que não poderiam sair de lá de trem e explicou o motivo.
Decidiram sair de Belfast por avião e foram de taxi para o Belfast International Airporte descobriram que só teria voo para Londres no inicio da noite.
Como ainda ia demorar muito tempo para o voo, o detetive deixou Agostina em um cabeleireiro no aeroporto avisando-a que iria retornar ao centro de Belfast e que voltaria em pouco mais de uma hora. Solicitou um taxi e foi a um caixa eletrônico existente no hotel onde havia estado hospedado e sacou bastante dinheiro retornando ao aeroporto no mesmo taxi que o esperou.
Ele já havia decidido antes de regressar ao hotel que deveria deixar a sobrinha com Dona Rute e não deveria falar a ninguém sobre seus atuais planos e por esse motivo sem telefonar paranenhuma pessoa, ficou lendo um livro, enquanto Agostina desmanchava seu mega hair no salão de beleza e pintava-o na cor que realmente era, pois viajaria com seu legítimo passaporte para Londres conforme orientação dele.
Voaram para Londres e de lá para o Brasil foi mais conveniente irem de maneira irregular e por isso foram até Paris de trem.  Depois voaram para Dakar no Senegal, pois em ambos os lugares Agostina que falava bem a língua francesa não teria dificuldade em se comunicar com as pessoas.
De Dakar foram de avião até o Aeroporto Guararapes-Gilberto Freyre em Recife para em um voo domestico irem para São Paulo.
Enquanto aguardavam o voo que demoraria a sair de Recife o detetive Miranda telefonou a Dona Rute pedindo-lhe que os aguardassem no bar do baiano, pois antes de ele ir para Vitória achou muito importante falar com ela sobre suas atuais e enormes dúvidas e solicitar que escondesse sua sobrinha, para que ninguém soubesse da existência dela.
Ao chegarem foram de taxi direto de Guarulhos a Vila Maria e encontraram Dona Rute nessa mesma noite no local combinado.
·        Até que enfim estou em minha terra. Como vai Dona Rute?
·        Estou bem e o senhor?
·        Também muito bem.
·        E você menina bonita, como vai?
·        Muito bem. Obrigada.
·        Você é linda. Nem parece que é sobrinha desse velho feio.
·        Titio Lula não é feio, mas de fato eu não me pareço nada com ele, pois eu sou sobrinha de sua falecida esposa e não dele.
·        Que história é essa de Lula, detetive?
·        É uma brincadeira entre nós. A propósito Tina deve começar chamar-me de Caio ou de Miranda, pois aqui no Brasil ninguém vai entender e aceitar esse apelido que arrumou para mim.
·        Fique tranquilo que de agora em diante chamá-lo-ei de detetive Miranda como todos os demais, além de informa-los que o apelido Tina também acabou. Meu nome daqui para frente virou novamente Agostina.
·        Seu português é o de Portugal e não o brasileiro não é Agostina?
·        Pode ficar sossegada Dona Rute que se realmente eu ficar por aqui conforme titio deseja, com pouco tempo meu sotaque lusitano deverá acabar e falarei como vocês.
·        Acredito que sim, mas você não é espanhola?
Antes de Agostina responder o detetive é quem falou.
·        Ela é espanhola, mas fala vários idiomas Dona Rute.
·        Que bom.
·        Dona Rute, como já foram feitas as apresentações, vou lhe contar nossos últimos dias e saber da senhora o que acha sobre o que está acontecendo.
Após o detetive Miranda contar sobre todos os acontecimentos na Irlanda do Norte, inclusive mostrando-lhe a carta ameaçadora recebida por Agostina, Dona Rute falou-lhe:
·        Chegou a hora de eu entrar nesse caso para lhe ajudar resolvê-lo definitivamente.
·        Não está achando muitos acontecimentos estranhos, pois tudo está levando direto á apenas um dos filhos do casal assassinado e não a todos eles.
·        Há muito tempo eu já pensava nisso. Desde quando vi as fotos da outra moça com o advogado argentino, sempre vigiados por somente um deles. Comecei imaginar que tudo foi planejado para levar a policia a incriminá-lo, e de alguma forma complicar todos os demais para o verdadeiro mandante ficar ileso e receber a herança dos idosos no lugar dos filhos?
·        É exatamente isso que também estou pensando.
·        Então só pode ser um dos parentes. Mas qual deles faria isso sozinho correndo todos os riscos para depois dividir a fortuna com os outros, ou o senhor acha que todos estão em conluio?
·        Eis a questão, mas sei que o Dr. Aldo fica sendo o dono da empresa holding da qual ele é sócio e os demais dividirão com ele só o patrimônio pessoal do falecido Dr. Sócrates, caso os filhos sejam impossibilitados de herdar por serem incriminados da morte dos pais, ou se eles também já não existirem mais, portanto minhas suspeitas são que seja ele quem está por trás de tudo tentando incrimina-los e se não conseguir logo, de alguma forma acabará matando todos eles de maneira que não apareça como sendo o mandante, como já fez nas outras mortes.
·        Precisamos urgentemente conversar com os filhos dos idosos.
·        Como a senhora viajaria para a Irlanda sem falar nenhuma língua estrangeira, ou fala alguma?
·        Um pouco o inglês, como quase todo mundo, mas esqueceu-se que eles são brasileiros, portanto nos entenderemos muito bem.
·        Concordo.
·        O detetive informou alguém que está no Brasil?
·        Absolutamente ninguém.
·        Então todos julgam e acreditam que ainda esteja na Irlanda do Norte?
·        Sim.
·        Façamos o seguinte. Nós viajaremos para lá e eu dou um jeito de trabalhar como faxineira na casa deles e descobrirei se eles são realmente inocentes conforme eu penso. Depois vamos descobrir as provas contra os culpados.
Agostina entrou na conversa dizendo:
·        Eu vi duas vezes o tal Jardel bem próximo a mim e inclusive passei uma noite inteira com ele, culminando com a ameaça que ele me fez praticamente confessando ter matado Ana Margarita, portanto ele é realmente o culpado.
·        Você já o conhecia antes de o ver em Belfast?
·        Já o havia visto muitas vezes, com Ana em Lugano.
·        Mas o viu perfeitamente bem?
·        Nunca tão próxima.
·        Conversou com ele nessa época?
·        Não. Nunca.
·        Esteve alguma vez frente a frente com ele quando ele namorava sua amiga?
·        Nunca o vi muito de perto. Sempre de longe.
·        Chegou a ouviu sua voz alguma vez em Lugano?
·        De fato nada disso jamais aconteceu.
·        Então não pode ter certeza de que o individuo com quem esteve era de fato o Jardel ou outra pessoa que se fez passar por ele.
Atente para vários detalhes que me fazem imaginar que tudo não passou de uma armadilha para que os legítimos herdeiros fossem considerados culpados.
Ana Margarita, sua amiga assassinada que foi uma das cúmplices eu considero-a mais como uma vítima do que propriamente conivente.
Ela, assim como o argentino e os próprios criminosos do casal apenas fizeram a parte que deveriam fazer e foram sendo eliminados um após o outro.
Acompanhe meu raciocínio que vai entender, como o detetive Miranda já percebeu e por isso não foi para Vitória e nem contou para ninguém sobre suas últimas descobertas, simplesmente porque ele já sabe que está correndo sério perigo de ser assassinado.
Detetive Miranda interrompeu Dona Rute falando para Agostina:
·        Quando eu estava esperando-a sair do cabeleireiro no aeroporto da Irlanda do Norte imaginei e descobri muitas coisas, por isso usei o cartão internacional que me fora entregue pela família dos idosos, sacando uma grande importância de esterlinas. Para ser exato foram trinta mil libras. Toda nossa viagem foi paga em dinheiro e nunca mais usei o cartão de crédito exatamente para ninguém nos seguir caso as várias passagens fossem pagas com o cartão, portanto a família em questão ainda me julga estar na Irlanda do Norte. Esse cartão realmente me fornece muito dinheiro, mas também é uma forma de me vigiarem seguindo meus passos.
Embora eu lhes tenha falado por alto que tinha contratado alguém para me auxiliar nas investigações eu jamais a descrevi e nem falei seu nome, portanto ninguém sabe nada sobre você, pois sequer falei o sexo da pessoa contratada por mim. Eles devem estar imaginando ser apenas um intérprete.
O falso Jardel com certeza me conhece, através de fotos, mas pessoalmente só deve ter-me visto na Irlanda do Norte, onde você não existiu como Agostina.
Lá ele conheceu apenas Tina a italiana, sem nenhuma ligação comigo e se estava querendo-a era para outras coisas e não para mata-la, ou para força-la a entregar-me, porque a julgava realmente uma bailarina italiana que ele desejou conquistar para outras coisas sem nenhuma ligação com os crimes.
Depois disso pode ter suspeitado algo, ou até mesmo tido certeza que trabalhava comigo, pois sabia que estivemos em Belfast na mesma época e que desaparecemos sem aviso prévio.
Se chegaram a essa conclusão imaginam que quem eu contratei para auxiliar-me é uma loira italiana de olhos azuis e pele bronzeada e não uma espanhola de cabelos curtos e pretos e também olhos pretos.
Como só ficamos juntos a partir de nossa fuga e nessas viagens nós não estávamos sendo vigiados nem pessoalmente e nem através de despesas que indicassem onde estávamos, por isso você estará salva aqui em São Paulo.
Tenho certeza que eles imaginam-me com meu ou minha auxiliar ainda andando pela Europa caçando o Jardel, portanto estamos livres por algum tempo. Tempo suficiente para eu e Dona Rute descobrirmos e provarmos quem é o verdadeiro culpado, que agora acho que não são os irmãos e até já imagino quem seja.
·        Mas tio. Muitas vezes nós nos encontramos em Lugano e isso não poderá nos comprometer?
·        Só souberam que eu estava lá fazendo minhas investigações, mas nunca falei a eles que frequentava uma casa prive para homens e que saía sempre com uma moça. Em Lugano não tinha ninguém me seguindo para tê-la visto comigo em nossos passeios, pois o falso Jardel mora e trabalha em algum lugar no Reino Unido e de lá pouco sai.
Só depois que informei em Vitória que iria viajar para a Irlanda do Norte por ter descoberto que lá era onde os herdeiros moravam é que falei muito por alto que tinha contratado alguém para me auxiliar, mas podem ter entendido que seria uma interprete totalmente inocente e não uma ativa investigadora.
·        Estando aqui com vocês estou tranquila.
·        Pode continuar com seus raciocínios Dona Rute que creio que serão exatamente como os meus.
·        Também acho que pensamos iguais. Pois bem, como eu estava lhe falando Agostina, sua amiga foi contratada por alguém da família dos Albuquerque Lins para arrumar o namorado argentino que por sua vez conseguiria os assaltantes e tudo o que aconteceu já era previsto pelo verdadeiro mandante sem que ela, é claro, soubesse que também seria eliminada. Ela fez exatamente tudo conforme lhe foi mandado fazer. Não foi descuido dela não desaparecer com o passaporte do argentino, pois pretendiam que a investigação começasse por Zaragoza, que seria o mais lógico, pois sua amiga era de lá e seria lá que as fotos seriam exibidas mostrando o Jardel vigiando a assassina.
O detetive fez seus rodeios, mas acabou indo para lá conseguindo as fotos do argentino com sua amiga que era o esperado por eles que mostravam o falso Jardel a vigia-la de longe, exatamente para incriminá-lo, sem que ela jamais visse tal homem, pois certamente ela reconheceria não ser o próprio amante. Repare nas fotos que ele sempre ficava atrás dela exatamente para ela nunca o ver.
·        Mas quem tirou tais fotografias?
·        Todos os locais onde ela foi fotografada eram locais públicos de muita atividade e nesses lugares não faltam fotógrafos para retratarem as pessoas. O verdadeiro bandido contratava os fotógrafos para fazer as fotos dela com o argentino com ele disfarçado de Jardel sempre aparecendo por perto. Depois essas fotos eram vendidas à ela que inocentemente comprava, sem sequer imaginar que elas iriam mostrar sempre o Jardel ao longe, justamente para quando ela fosse descoberta, tais fotos aumentadas iria mostrá-lo, para ele ser incriminado.
A presença de Jardel em seu espetáculo não era ele e sim um homem disfarçado parecendo-se com ele, pois como os outros irmãos ele também deve estar sem dinheiro para frequentar tais ambientes tão caros como era em Belfast. Essa carta de ameaça que você recebeu com a letra totalmente irregular foi escrita por ele incriminando o Jardel como sendo o assassino de Ana Margarita para que você a entregasse a polícia para ele ser caçado pelo crime e para isso até deu-lhe o endereço onde ele mora com os irmãos.
·        Dona Rute a letra está atrapalhada porque ele estava bêbado e isso não é um complicador.
·        Pelo contrário. As letras disformes justificam que a bebida fez Jardel escrever trêmulo e  a principal intensão do bandido era para você entrega-la aos tiras. Embora só faltasse ele colocar o remetente como sendo Jardel deixou bem claro para você delatá-lo e fornecer seu endereço para que ele fosse preso ou morto pela polícia inglesa.
Porque acha que ele deixou-se ser fotografo várias vezes com você no cassino e entregou os retratos para você? Você não me disse que ele fez isso?
·        Sim. São as fotografias que mostrei ao tio e a senhora e é parecidíssimo com o Jardel que eu via com Ana Margarita.
·        Porque acha também que ele disse onde morava? Você acredita mesmo que ele pensava que você fosse até sua casa, ou queria apenas passar-lhe o endereço de Jardel?
·        Realmente isso é uma coisa que nenhuma moça de programa faria, a menos que já conhecesse suficientemente o homem e confiasse nele, e mesmo assim se já tivesse recebido e guardado o pagamento dentro da boate.
·        Compreende agora a intensão dele?
·        Concordo que a senhora tem razão. Jamais nenhuma menina viajaria dez milhas com um bêbado estranho, ingenuamente acreditando que ele lhe pagaria algum dinheiro em sua própria casa. Mas diga-me uma coisa? Se eu concordasse em ir com ele como ele se sairia?
·        Levaria você é claro.
·        Mas chegando lá a casa não era dele e sim dos irmãos. Como ele iria resolver isso?
·        Muito me admira sua infantilidade. Ele já teria resolvido o que pretendia durante a viagem. É claro que no meio do caminho ele a estupraria e a abandonaria no meio da estrada, se não fizesse coisa pior que é o mais provável, pois seria mais um crime imputado ao Jardel.
·        Tem razão. Seria realmente morta e mais um crime contabilizado ao Jardel.
·        Seria para ele, uma maravilha, pois quando seu corpo fosse encontrado teriam as fotos suas com o assassino e milhares de testemunhas que a viram com um cara com o mesmo semblante de Jardel. Faria a polícia caçá-lo e a polícia inglesa mata mesmo se tiver certeza da culpa do criminoso.
·        Só não entendo porque os irmãos seriam punidos por todos os crimes. Eles iriam negar e possivelmente até poderiam ter álibis que comprovassem suas inocências e mesmo com Jardel fora da herança, essa seria de seus irmãos e não do verdadeiro criminoso.
·        Concordo com você, que Jardel não teria como provar inocência nenhuma. Só não sei ainda como os outros seriam incriminados e é por isso que pretendo viajar para lá com o detetive Miranda para conversar com eles e saber exatamente qual é o motivo de eles estarem desaparecidos e impedidos de aparecerem.
·        Dona Rute. Tenho quase certeza que o individuo que simulou ser o Jardel realmente não era ele.
·        O que só agora a fez pensar assim?
·        Por um detalhe importante que só nesse instante está fazendo sentido em minhas suspeitas. Reparei que suas falhas de cabelo me pareceram falsas.
·        Como assim?
·        Quando fui com ele ao cassino, eu já o tinha visto na noite anterior e suas entradas realmente estavam lisinhas, iguais um verdadeiro careca, entretanto na noite seguinte, principalmente na manhã do dia seguinte quando ele estava dentro do taxi comigo acompanhando-me até o hotel, percebi que sua calvície não estava tão careca como antes. Sabe como fica o rosto de um homem logo que faz a barba?
·        Fica bem raspada e com a pele bem lisa.
·        Entretanto dois dias depois, se não raspar novamente como fica?
·        Com os cabelos crescendo é claro.
·        Pois é. Tenho certeza que suas entradas estavam com os cabelos crescendo.
·        Então o cara não tem entradas e corta-as quando quer se disfarçar de Jardel. Que me diz do bigode?
·        O bigode era verdadeiro. Dele mesmo. É fácil perceber quando são postiços e o dele não era, mas deixar crescer os bigodes é fácil. Bastam alguns dias. O Difícil é depilar cabelos ou raspá-los e eles não voltarem a crescer.
·        Com certeza tal pessoa é bem parecida com ele e pode muito bem ser um de seus primos.
·        Ou outro irmão, passando-se por ele.
·        Porque diz isso detetive?
·        Não sei Dona Rute, mas tudo é possível, embora eu mesmo já tenha elegido o mandante como sendo algum dos parentes do casal assassinado, excluindo totalmente seus filhos.
·        Não sei se já pensou que a tia da Ana Margarita, também não tenha sido contratada para ser tão gentil com o senhor entregando-lhe as fotos.
·        Pensa nisso?  
·        Penso sim. Depois disso não me espanto de ela já ter sofrido algum acidente e também já estar morta?
·        A senhora é muito trágica Dona Rute.
·        Minha estimada sobrinha, ela não é. Dona Rute realmente enxerga longe e é assim que descobre muitos crimes.
·         Eu tenho como descobrir isso, bastando telefonar para Zaragoza e saber se ela está viva ou não.
·        Com quem falará lá Agostina?
·        Com um delegado amigo que conheço muito e que muito me considera.
·        Então ligue para ele.
Feita a ligação pela Agostina ao amigo delegado, soube que realmente ela sofreu um acidente caindo sem ninguém ver ou saber como, sobre os trilhos quando um trem do metrô de Zaragoza estava aproximando, destruindo-a completamente. Só foi identificada pelos parentes pelo desaparecimento dela e pelos documentos recuperados, pois sua bolsa ficara ilesa.
·        Querido Alcântara, quando aconteceu isso?
·        Foi no dia 12 de fevereiro.
·        Não foi assassinato?
·        Não. Ninguém viu como ela caiu por isso não se pode dizer que foi empurrada, portanto só pode ter sido acidente mesmo. Foi de madrugada e como seus parentes informaram que ela sempre gostava de beber umas tequilas, deve ter caído mesmo e foi assim que foi considerado.
·        Obrigada.
·        E você menina, onde está? Soube que saiu de Lugano e foi para as ilhas britânicas? 
·        Agora estou em Londres. Estou tentando minha vida aqui. Por enquanto estou desempregada, mas assim que conseguir um lugar para trabalhar eu lhe aviso, se antes eu não conquistar alguém da família real.
·        Far-lhe-ei uma visita, ou no palácio de Buckinghamcasada com um dos herdeiros do reino ou então em Camberwell, Harllesden ou Willesden Green onde estão as boates mais importantes dai. Vou aguardar seu próximo telefonema.
·        Um beijo.
·        Para você também, minha linda.
Agostina desligou o telefone e continuaram a conversa entre eles.
·        Menina esperta. Se não fosse por ela teríamos de viajar até Zaragoza para saber o que ela descobriu em apenas cinco minutos.
·        Por isso Dona Rute que quero que ela trabalhe comigo como investigadora.
·        Então não me quer mais?
·        Quero as duas se eu tiver essa sorte.
·        Vou trabalhar com o senhor nesse caso que está me intrigando demais, mas apenas como colaboradora.
·        Já está ótimo, mas eu lhe pagarei pelos trabalhos.
·        Só as passagens que forem necessárias.
·        O que a senhora pensa em fazer? Ir comigo para Irlanda do Norte?
·        Pensando bem ninguém deve voltar para lá por enquanto. Lá o senhor estará sendo vigiado.  Acho melhor eu aproximar-me da família de Vitória para ter certeza de quem realmente é o mandante, já que o senhor está pensando, como eu, ser alguém de lá e não mais os filhos do casal assassinado.
·        O que acha melhor fazermos?
·        O senhor deve viajar para as Ilhas Gregas, pois no Reino Unido deve estar sendo procurado pelo bandido que com certeza já o conhece por fotografia. Ou vá conhecer a Austrália com sua sobrinha, que eu vou para Vitória.
·        O que eu faria nesses lugares?
·        Absolutamente nada, enquanto eu não lhe telefonar dizendo o que descobri em Vitória.
·         Então ficarei aqui em São Paulo mesmo.
Deve desaparecer daqui para continuar gastando o dinheiro que recebe da família, justificando de vez em quando por telefone que está procurando rastros dos irmãos “assassinos” em vários outros lugares onde encontrou possíveis pistas.
·        A única e última pista que tenho é na Irlanda do Norte.
·        Diga-lhes que não encontrou nada na Irlanda e não se refere ao tal sítio perto de Befast, pois o senhor não ficou sabendo absolutamente nada de lá. Quem soube foi Tina e não deve mencionar nada sobre o bilhete recebido por ela, para afastar qualquer suspeita de que ela e o senhor têm alguma coisa em comum.
·        Então vamos para as Ilhas Gregas, Agostina?
·        Estou pensando em outra coisa.
·        Vocês devem ir e enquanto descansam e passeiam por lá, eu assumo a causa e os informo o que deverão fazer depois. Podem viajar amanhã mesmo.
·        Amanhã não posso, pois preciso ficar em São Paulo, pelo menos uns dois ou três dias, para passar as informações de meus clientes aos meus funcionários que são apenas a secretária e dois detetives para eles darem prosseguimento ao meu trabalho junto aos clientes, pois não posso simplesmente abandoná-los, mais tempo.
·        Isso me ajudou decidir o que quero fazer.
·        O que pretende fazer, Agostina?
·        Você me leva ao seu escritório, apresenta-me ao pessoal e eu assumo uma posição lá e fico aprendendo o serviço enquanto viaja, para despistar o pessoal da família Albuquerque Lins.
·        Gostei de saber dessa sua atitude menina, e acho que deva fazer isso mesmo enquanto o detetive viaja sozinho.
·        Também concordo com Dona Rute, pois você ficando aqui em São Paulo estará totalmente a salvo, pois nenhum deles a conhece e quanto a mim é claro que estarei sendo rastreado pelo cartão e vigiado pessoalmente quando estiver próximo ao bandido que está na Europa, pois agora creio que são apenas dois os mandantes. Talvez um pai ou uma mãe que mora em Vitória e um parente na Europa, talvez um filho, ou outro parente qualquer.
·        Então estamos combinados detetive. O senhor viaja para longe sempre comprando suas passagens com dinheiro e só use o cartão de crédito de vez em quando justamente para desorienta-los e a Agostina fica em seu escritório e poderá morar lá mesmo ou em minha casa enquanto vou para Vitória.
Detetive não se esqueça de guardar muito bem em seu cofre o bilhete que Agostina recebeu e não comente sobre ele com ninguém. Desta forma quem quer que seja a pessoa que se faz passar por Jardel não vai suspeitar que Tina tenha alguma ligação com o senhor e vai acabar esquecendo dela, imaginando que ela simplesmente destruiu o bilhete, voltou para a Itália com medo dele e ponto final.
Primeiro quero que me passe os nomes de todos os membros mais importantes da família.
·        Anote com a senhora:
Os assassinados foram o Sr. Sócrates de Albuquerque Lins e sua esposa Solange Souto Campos de Albuquerque Lins.
Seus filhos são Jardel, Silvio e Dante Campos deAlbuquerque Lins e o mais velho Sócrates de Albuquerque Lins Filho.
As irmãs de Dr. Sócrates são Neusa e Creuza Albuquerque Lins. A Neuza é solteira sem filhos e Creuza é viúva e tem duas filhas casadas. Uma delas com um casal de filhos e a outra com três filhos ainda pequenos, cujos nomes não sei.
·        Elas são casadas com algum parente delas?
·        Não. São pessoas estranhas a família e totalmente diferentes deles em fisionomia e tamanho e idade.
·        Continue falando da família.
·        O irmão caçula e sócio de Dr.Sócrates é Dr Aldo de Albuquerque Lins casado com Carmélia Silva de Albuquerque Lins e eles tem apenas a filha chamada Silvia que é casada e com o Engenheiro Rodrigo de Sena e tem dois filhos também crianças cujos nomes nem me interessei em saber.
·        Todos moram nas imediações?
·        Desses que já falei, apenas Silvia, filha de Dr. Aldo mora no Rio de Janeiro e fora esses tem outros parentes já bem velhos como seus tios Pedro...
·        Esses não interessam. Bastam os que são da geração do Dr. Sócrates consequentemente seus irmãos e descendentes.
·        Então já sabe sobre todos eles.
·        Então exceto a filha de Dr. Aldo todos moram em Vitória?
·        Exatamente na Ilha do Frade.
Todos moravam na casa dos pais de Dr. Sócrates enquanto eles eram vivos e na medida em que iam casando os pais iam construindo-lhes casas em terrenos próximos para eles irem se mudando.
Com a morte dos anfitriões a mansão principal acabou de comum acordo transformando-se na residência de Dr. Sócrates e família, por ser uma casa bem grande e ele era o que tinha a maior família.
oooOooo
Tudo esclarecido, no dia seguinte procederam ao combinado.
Agostinha foi apresentada aos funcionários do escritório do detetive para assumir o trabalho da secretária enquanto a outra mais experiente exerceria algumas visitas a clientes com informações conseguidas pelos dois detetives que também incluíram em seus roteiros os clientes do detetive Miranda que viajaria dois dias depois para a Grécia.
Dona Rute foi para Vitória a procura de trabalho na Ilha do Frade.
Ela apresentou-se com suas excelentes referencias que tinha de famílias importantes de São Paulo e de outros locais, na mansão vizinha a dos idosos assassinados para tentar emprego nessa residência e ficar próxima da mansão assaltada.
Esse seria seu ponto de partida embora não fosse exatamente isso que ela queria, mas deveria ser seu primeiro passo para chegar até a mansão dos idosos assassinados, e tudo correu conforme planejado.
Tal família que foi exatamente a que viu o assalto chamando a polícia indicou-lhe o Dr. Aldo que não morava muito longe lhe dizendo que provavelmente ele conseguiria colocação para ela na mansão que estava sem moradores, apenas com empregados sem muita experiência para cuidar da casa. Indicou-lhe a casa de Dr. Aldo e para lá ela foi.
Dona Silvana que era uma senhora que já exercia a atividade de governanta na mansão de Dr. Aldo foi quem a atendeu. Muito simpática como Dona Rute a empatia entre elas foi imediata e Dona Silvana que era empregada na casa dos pais dele desde que Sr. Sócrates era adolescente, assim como suas irmãs mais novas e o senhor Aldo ainda uma criança havia conquistado tal cargo que atualmente exercia na residência de Dr. Aldo por trabalhar com a família há quase cinquenta anos.
Era ela quem acumulava os trabalhos de cuidar da casa de Dr. Aldo e da outra e ela convenceria Dona Carmélia em dar-lhe o emprego, pois sabendo de sua longa experiência em casas suntuosas seria interessante para o casal coloca-la como governanta para tomar conta dos demais empregados que não tinham ninguém à orientá-los devidamente.
Foi assim que Dona Rute conseguiu conhecer Dona Carmélia e Dr. Aldo e ser contratada por eles para zelar da residência e chefiar a equipe que lá já trabalhava, morando na própria casa e não nas edículas para empregados.
Foi levada e apresentada aos demais empregados como sendo a nova governanta da mansão a quem deveram respeitar como aos patrões.
Dona Rute e Dona Silvana se visitavam em seus trabalhos constantemente para um bate papo informal sempre relacionado aos trabalhos, pois idosas como eram não se davam aos prazeres dos outros de passearem fora e ambas ficavam todas as noites em longas conversas sobre alimentação saudável, boas maneiras e coisas assim, próprias de suas atividades.
Às vezes na casa de uma, outras na casa da outra, e foi assim que em apenas três dias, com seu jeito especial de investigar as pessoas Dona Rute foi conseguindo ouvir o que já sabia pelo detetive e pelos noticiários da época sobre os crimes acontecidos na residência e sobre seus familiares.
Soube que Dr. Aldo e esposa tinham apenas uma filha casada que morava no Rio de Janeiro com o marido e dois filhos pequenos.
O irmão mais velho dele era o Dr. Sócrates já morto e eles tinham duas irmãs.
Uma era solteirona convicta, sem filhos e a outra que enviuvara-se à alguns anos era mãe de duas filhas casadas e moradoras na mesma ilha do Frade. Confirmando o que ela já sabia os filhos de Dr. Sócrates eram solteiros sem filhos e moravam no exterior e a irmã viúva e o Dr. Aldo eram avôs de meninos ainda pequenos, provenientes de casamentos de suas respectivas filhas, portanto nenhum deles tinha filhos ou netos que pudessem estar na Europa passando-se por Jardel, portanto o enigma continuava.
Sra. Silvana contou a Dona Rute, que assustada e fingindo nada saber tudo que aconteceu com o Dr. Sócrates e sua esposa Dona Solange. Ela  alegava categoricamente que tudo indicava que foram os próprios filhos quem haviam planejado os assassinatos na mansão e os outros fora dela.
·        Que coisa horrível estou sabendo agora pela senhora. Os próprios filhos articularam um plano contratando bandidos para matarem os pais violentamente? A senhora acredita nisso? Mesmo sabendo que eles seriam os herdeiros legítimos dos pais?
·        Infelizmente, mesmo eu gostando deles não tenho como duvidar, assim como nenhum dos outros empregados e todos os familiares.
Eles já contrataram um advogado da Inglaterra para receber por eles a herança de tudo que os pais possuíam, pois nada prova de que eles tinham movido uma palha para os crimes. Estão desaparecidos e esbanjadores de dinheiro como  são delapidaram todo o dinheiro que o pai lhes deu em farras e possivelmente com drogas e infelizmente parece que provocaram a morte deles justamente para herdarem sua incalculável fortuna.
·        O que acha o delegado daqui?
·        Que são eles e inclusive indicou ao Dr. Aldo que contratou um famoso detetive de São Paulo, chamado Caio Miranda, para descobri-los e provar a culpa deles.
·        Contrataram um detetive de São Paulo?
·        É muito famoso lá por ter solucionado vários crimes quando trabalhava na polícia. Hoje é aposentado, mas continua exercendo a profissão e parece-me que até já descobriu que os rapazes moram na Irlanda do Norte e está sendo pago para descobri-los e conseguir provar a culpabilidade deles, para serem julgados e condenados aqui no Brasil, que evidentemente serão deserdados sumariamente além de pegarem muitos anos de reclusão.
·        Que coisas horríveis estou sabendo. Tal detetive Caio Miranda é realmente competente? Eu moro em São Paulo desde que nasci e jamais ouvi falar sobre ele.
·         Talvez a senhora se preocupe mais com afazeres domésticos e não tem tempo para saber sobre os feitos dos policiais e seus detetives.
·        Deve ser isso mesmo, pois apenas cuido das casas que trabalho e sobra pouco tempo para dedicar-me a minha filha e meus netos, portanto não sei de nada disso que aconteceu por aqui que a senhora acabou de dizer-me e nem dos crimes de lá mesmo.
Como sempre Dona Rute muito esperta idealizou para as novas conversas outro tipo de assunto, pois por aí nada iria ficar sabendo o que pretendia e trêmula, nervosa e atemorizada falou:
·        Esse assunto não está muito interessante e acho que já estamos na hora de dormir. Vamos nos despedir e amanhã a noite poderemos conversar, entretanto sobre outras coisas, pois estou até muito assustada, pensando que estou morando em uma casa onde houve recentemente crimes tão violentos.
·        Pode ficar despreocupada, pois nada mais deverá acontecer, pois os criminosos todos já morreram. Amanhã eu lhe conto mais sobre o caso.
·        Se pudermos falar sobre outros assuntos agradeço, pois creio que será mais interessante e de mais utilidade conversarmos só futilidades ou fofocas. Sobre crimes não gosto de falar, pois me assombram e provocam-me insônia.
·        Então não falarei mais sobre isso que lhe aborrece e boa noite que já vou para minha casa.
·        Boa noite e quando formos batermos mais papo, gostaria que fosse sempre aqui, pois tenho de estar no controle dos outros funcionários que chegarão logo mais e lá onde a senhora trabalha eles terão mais respeito, pois estão na casa com os próprios patrões presentes e serão mais disciplinados.
·        Está bem. Toda noite as vinte e uma horas estarei aqui e conversaremos sobre animosidades até as vinte e três e depois vou embora sem nenhuma preocupação, pois ao dirigir-me para minha casa estarei completamente segura por ser conhecida até pelos gatos e cachorros da vizinhança, ao contrário da senhora que é novata e estranha.
·        Agradeço a gentileza de só nos encontrarmos aqui e durma bem.
Foram duas noites de encontros sem se tocar no assunto do crime da mansão, pois a perspicácia de Dona Rute impediu qualquer assunto relacionado com ele, pois independente da amizade instantânea não poderia ser contundente em suas investigações porque imaginava que Dona Silvana poderia estar falando sobre tal assunto, talvez instruída pelos patrões para saber se Dona Rute era alguma intrusa que estava querendo saber demais.
Na quarta noite que se encontraram foi Dona Rute quem lhe disse:
·        Dona Silvana sabe quem esteve aqui hoje e até elogiou-me pelo meu trabalho?
·        Creio que deve ter sido Sra. Carmélia Souto.
·        Foi justamente ela e o Dr. Aldo.
·        Eles são realmente muito simpáticos e vivem em eterno amor assim, desde que casaram?
·        Agora depois de velhos vivem em paz, pois quando eram jovens muitas coisas aconteceram.
·        Mexericos de patrões eu gosto. Não é por nada não, mas fofocas sempre são interessantes saber.
·        Pois é, minha amiga. O Dr. Aldo quando jovem era um garanhão. Já estava casado com Dona Carmélia e saía com outras.
·        Isso para mim não é nenhuma novidade. Todos os homens são safados mesmo até depois de velhos.
·        Mas no caso dele teve um babado forte.
·        Não me diga que engravidou alguma amante?
·        Exatamente isso. Ele foi amante justamente da irmã caçula da Sra. Solange.
·        Quem é senhora Solange mesmo?
·        A esposa do Dr. Sócrates que foi assassinada com o ele a mando dos próprios filhos.
·        Agora me lembro dessa trágica história. Imagino que ela tenha feito um aborto para não ficar complicado, pois ter um filho de um cunhado, traindo a própria irmã é coisa brava.
·        Que aborto que nada minha amiga. Ela era casada com um inglês e moravam aqui no Brasil porque ele trabalhava nas indústrias com o Dr. Sócrates e viajava muito a serviço.
·        E o que aconteceu?
·        Como Dr. Aldo era sócio do Dr. Sócrates, confidenciou-lhe o acontecido e resolveram montar um escritório das empresas em Londres transferindo para lá, com um salário bem melhor, o inglês com a esposa em início de gestação, para eles tomarem conta do escritório. Para ela ter o filho por lá como sendo do marido para ninguém saber de mais nada.
Lá a criança nasceu e foi registrada como filho do John Wendy Lindsaye da brasileira Celia Souto Campos Lindsay, embora ela tivesse certeza que quem a engravidou tinha sido o Dr. Aldo.
Ninguém explicou ou comentou nada, mas creio que o inglês desconfiou da gravides da esposa e se suicidou pouco tempo depois de estar lá, mas ela foi levando sua vida em Londres e criando o menino que nasceu inglês e recebeu o nome de John Wendy LindsayJúnior, que hoje já é adulto com uns trinta anos de idade e parece que muito bem conceituado em Londres. Ele é um policial do alto escalão de lá e responsável por um presídio inglês privatizado.
·        Que história interessante? Como a senhora soube sobre isso.
·        Porque na época o Dr. Aldo ia muito a Londres no tal escritório.
·        Com certeza para seus trabalhos.
·        Nem tanto. Acho que ele queria mesmo era ver a amante que era linda e até assistir o nascimento do nenê.
·        O fato de ele ir muito para lá não dá direito a senhora pensar que ele era amante da moça e muito menos ter-lhe engravidado.
·        Tentei lhe esconder como fiquei sabendo, mas como não está acreditando em mim vou contar-lhe como descobri tudo.
Por várias vezes eu os vi aos beijos dentro de casa, pois pensavam que por a família não estar presente não seriam vistos por ninguém. Geralmente era depois de todos os empregados já terem saído, mas como naquela época eu morava dentro da casa flagrei-os várias vezes, pois eles não sabiam que eu sempre calada e não fazendo barulho estava sempre por perto. Bastava a família toda estar na piscina ou nas praias aos fundos da casa, quando estava em noite quente para eles irem direto para dentro se encontrarem.
·        Ainda assim é muito sério a senhora falar que ele a engravidou, por alguns beijos e abraços.
·        Não eram só beijos e abraços. Isso acontecia antes de eles entrarem em um quarto de hóspedes que usavam para seu romance escondido.
·        Mas a gravides pode ter sido do marido.
·        Acontece que ouvi uma conversa deles.
·        Atrás da porta?
·        Sim. Fiz isso mesmo e ouvi quando ela falou ao Dr. Aldo que tinha feito um teste de gravides e que havia dado positivo e que não se relacionava com o marido há muito tempo devido sua atual longa viagem e que o filho era dele, pois ela não tinha nenhum outro amante.
·        Então agora está explicado.
·        Agora concorda comigo?
·        Plenamente. Esse rapaz deve ser muito parecido com os filhos de Dr. Sócrates, pois são primos.
·        Não sei. Ele nunca apareceu por aqui e nunca mandou fotos, pois na época Dona Carmélia, desconfiou das inúmeras viagens do Dr. Aldo para a Inglaterra e confidenciou suas suspeitas a Dona Solange, dizendo que desconfiava que seu marido fosse amante da irmã dela.
Dona Solange pediu ao Dr. Sócrates que mandasse outro funcionário para os trabalhos da empresa de lá, impedindo que Dr. Aldo fosse tão assiduamente e ele para não aumentar mais a dúvida da esposa proibiu a amante já viúva de voltar ao Brasil e jamais trazer o rapaz para cá. Mantinha-a lá com o filho pagando uma enorme pensão.
·        Então ninguém conhece o rapaz?
·        Creio que apenas o Dr. Aldo, pois mesmo a contragosto da esposa, muito assiduamente, ele sempre viajou para lá como sendo a serviço. Com o passar do tempo Dona Carmélia deixou de achar ruim com essas viagens porque a Célia arrumou outro casamento por lá e parece que está feliz e cheia de filhos ingleses.
·        Como sabe tudo isso?
·        Porque quando comecei trabalhar para Dona Carmélia ela acabou contando-me, inclusive que o marido tinha um filho bastardo na Inglaterra, mas pediu-me segredo extremo, pois ninguém da família sabia desse filho de seu marido.
·        Então porque está contando para mim?
·        Porque ela só me contou o que eu já sabia, recentemente após a morte de Dona Solange, portanto se alguma coisa viesse e ser sabido ela não sofreria por esse desgosto.
·        Conte-me alguma fofoca de São Paulo Dona Rute, pois a que eu sabia daqui já acabou e não sei mais nada.
Foi apenas um caso rápido que Dona Rute inventou para satisfazer a amiga e essa lhe disse:
·        Dona Rute chegou minha hora de ir dormir e amanhã conversamos mais.
·        Certo. Amanhã fofocaremos mais. Eu tenho muitos mexericos de famílias importantes de São Paulo para lhe contar.
·        Amanhã virei um pouco mais cedo para termos mais tempo para fofocarmos mais. Infelizmente eu só tenho esse caso para contar, pois trabalho só para essa família praticamente minha vida toda e só sei isso, mas a senhora como trabalhou em várias casas deve saber muita coisa.
·        E como. Amanhã lhe contarei muitas bagunças que presenciei.
·        Então até amanhã.
·        Não vejo a hora de chegar amanhã.
·        Gosta de fofocas não?
·        Quem não gosta.
oooOooo
No dia seguinte Dona Rute telefonou a amiga avisando-a para não vir a sua casa, pois iria conversar com sua filha que estava com problema de doença da sogra e demoraria no Skype com ela durante o horário de suas conversas, pois só nesse horário que a encontraria em casa.
Telefonou para o detetive Miranda, que estava nas Ilhas Gregas e disse-lhe que no dia seguinte lhe telefonaria novamente, pois tinha muitas coisas importantes a lhe contar.
Telefonou rapidamente para seu ex-marido o detetive Grozzi pedindo-lhe que não arrumasse nenhum compromisso para a noite do dia seguinte porque precisaria conversar pessoalmente e por muito tempo com ele e tornou a ligar para Sra. Silvana para ela informar sua patroa que infelizmente teria de deixar seu trabalho, pois deveria voltar para São Paulo, pois era caso de doença em família e ela precisaria retornar para lá no dia seguinte a tarde.
Sra. Carmélia procurou-a pessoalmente no dia seguinte pela manhã e disse-lhe:
·        Estou gostando muito de seu trabalho. É pena, mas o que se há de fazer quando somos solicitados pelos familiares. Ontem, Silvana falou-me que nem iriam conversar, pois a senhora ligou avisando que iria conversar com sua filha, sobre assunto de doença em família.
·        Pois é, a sogra dela está muito doente e ela pediu-me para voltar para eu tomar conta de meus netos enquanto ela cuidava da velha enferma.
·        Que horas sairá hoje?
·        No voo das quinze horas.
·        Então logo mais volto para pagar pelos dias trabalhados.
·        Obrigada e quando estiver tudo em ordem por lá, voltarei se a senhora for me aceitar novamente. Tive muito prazer e gostei muito de trabalhar aqui.
·        Nós também gostamos muito da senhora e com toda certeza gostaríamos de tê-la trabalhando com nossa família.
·        Eu telefonarei sabendo se devo voltar ou não após solucionar o problema de lá.
·        Provavelmente será novamente aceita por nós.
·        Obrigada e até a próxima.
·        Quando acertarmos suas contas me despedirei.
oooOooo
Foi assim que Dona Rute saiu daquela casa e viajou para São Paulo, tento plena certeza saber quem era o mandante dos assassinatos, entretanto precisava de algumas pesquisas a serem feitas em Lisburn pelo detetive Miranda e outras na Inglaterra pelo detetive Grozzi.
Tornou a falar com o detetive Miranda, que estava nas Ilhas Gregas e solicitou seu retorno para São Paulo, pois tinha descoberto muitas coisas e eles precisariam conversar sobre tudo que ela descobrira.
·        O que quer falar-me?
·        Quando chegar aqui vai saber quais são os mandantes.
·        Como soube?
·        Depois contarei.
·        Dê-me uma dica.
·        Antes de voltar, primeiro faça outra coisa muito importante.
·        O que é?
·        Vá até Besfast e de trem viaje e desça no distrito de Lisburn, procure o tal sítio que já sabe como ir e veja se está habitado e por quem?
·        Para que isso? Vou encontrar os filhos do casal assassinado.
·        Tenho certeza que não, mas primeiro precisamos dessa confirmação, e não será necessário telefonar-me contando o que achou, pois quando nos encontrarmos aqui o senhor me fala.
Desligou o celular e foi para o bar do baiano de taxi direto de Guarulhos sem sequer passar em sua casa. Antes de entrar no taxi telefonou ao detetive Grozzi para ir lá, sem nenhuma viatura da polícia e sem nenhum companheiro fardado. Apenas ele.
Quando chegou já encontrou o ex-marido que havia chegado pouco antes e solicitado os acarajés com pouca pimenta e muito guaraná que ela tanto apreciava.
Sem sequer cumprimentar-se ela já foi falando:
·        Grozzi tenho uma missão urgente e importante para você fazer. Pode ajudar-me?
·        Sempre que precisar.
·        Estou sabendo que o governo do Rio Grande do Sul tentará buscar na Europa o modelo para a construção e gestão dos novos presídios.
Uma comitiva formada por integrantes do alto escalão do governo do Estado inicia uma viagem de nove dias ao Reino Unido e à Espanha, com o objetivo de conhecer experiências de Parcerias Público-Privadas (PPPs) desses países para servir de base e aperfeiçoar o projeto que deve ser construído na Região Metropolitana de Porto Alegre.
O novo complexo penitenciário gaúcho deverá comportar milhares de presos.
A pessoal que irá a Europa se reunirá com agências governamentais e organizações privadas que administram prisões. O grupo que viajará será composto por pelo menos quatro secretários estaduais, além dos titulares da Superintendência dos Serviços Penitenciários e o comandante-geral da Brigada Militar.
A comitiva contará ainda com representantes do Ministério Público, do Tribunal de Justiça e da Assembleia Legislativa. 
Haverá reuniões em Londres com representantes do governo inglês e órgão que auxilia no processo de privatização e iniciativas de financiamento de serviços públicos.
·        Espere um momento Dona Rute, pois tenho algo a falar sobre isso.
·        Deixe-me terminar o que quero informar e depois você fala o que quiser.
·        Tudo bem, sua matraca. 
·        Tal comitiva fará visita ao presídio Altcourse em Liverpool, ao presídio Lowdham Grange em Notthingham, e ao presídio de Bronzefield em Ashford, todos na Inglaterra, além de outros na Espanha, e eu quero que você dê um jeito de estar nessa comitiva para descobrir algumas coisas que preciso.
Como conseguirá não sei, mas é de extrema importância que você esteja lá.
Agora fale o que quer dizer.
·        O que tenho a informar-lhe é que o Governo de São Paulo estará levando alguns membros importantes de penitenciárias junto dos gaúchos.
·        Ótimo. Então consiga estar entre eles.
·        Como?
·        Não é amicíssimo do Secretario da Segurança Pública de São Paulo?
·        Sim, mas nesse caso só conseguiria alguma coisa no âmbito da Prefeitura e não do Estado.
·        Pois meu amigo, o prefeito é carne e unha com o Governador, portanto através dele poderá conseguir estar entre os membros que irão.
·        Que história eu diria ao Secretário para ele conseguir isso para mim?
·        Diga-lhe que é para desvendar o crime da Ilha do Frade de Vitória, e que é indo lá que você conseguirá desvendá-lo.
·        Ainda continua complicado, pois não estou trabalhando nesse caso e a viagem acontecerá daqui apenas cinco dias. Não terei tempo para conseguir nada.
·        Então fale aos seus amigos que é um pedido meu, já que diz que eu estou sempre em alta com todos eles. Se isso for realmente verdade creio que conseguirá.
·        Assim será feito e ainda hoje lhe telefonarei dizendo o que consegui.
·        O que conseguir só poderá ter uma resposta e a resposta é que irá. Consiga isso que depois marcaremos um encontro pessoal para lhe dizer o que deverá fazer lá.
Logo na manhã seguinte Dona Rute recebeu um e-mail do detetive Grozzi, informando-a que conseguiu incluir-se como um dos integrantes da comitiva e ela solicitou sua presença pessoal para conversarem a noite toda se preciso fosse para coloca-lo a par de tudo que estava acontecendo e o que ela descobrira e o que ele deveria fazer.
Nessa noite de sábado, sempre no bar do baiano ela contou tudo sobre o caso e principalmente o que acabara de descobrir na Ilha do Frade em Vitória.
Solicitou-lhe que procurasse saber qual era a penitenciária particular em que John Wendy Lindsay Jr. era o mandatário. Não tinha fotos dele para entregar-lhe, mas fez a exigência de ele descobrir onde estavam presos, possivelmente sem comunicação os quatro irmãos Campos de Albuquerque Lins, cujos retratos mais ou menos de cinco anos antes lhe foi fornecido e despediram-se pela manhã, pois o assunto consumiu a noite toda, embora ela o convidou para dormir em sua casa, ele cônscio de seu trabalho despediu-se pois só teria tempo para um rápido banho e assumir seu plantão logo cedo.
Não demorou dois dias para Dona Rute se encontrar com detetive Miranda e o detetive Grozzi que participaria da conversa e com eles conversou longamente solicitando ao detetive Miranda tudo que ele tinha descoberto no distrito de Lisburn.
Ele lhe explicou:
·        Lá a casa estava com aspecto de abandonada, pois estava muito suja e até com uma vidraça quebrada pela qual olhei e vi vários móveis.
·        Dentro da casa estava com ares de não usada?
·        Era usada de vez em quando, pois quando a invadi vi sinais de uso esporádico.
·        O senhor entrou na casa?
·        É claro. Tinha de verificar tudo e veja o que encontrei.
Exibiu-lhe os documentos e passaportes dos quatro filhos de Dr. Sócrates que foram encontrados em um cofre que facilmente desvendou o segredo.
·        Ótimo trabalho. Tais documentos serão de muita valia para o próximo passo.
·        Como?
·        Entregue-os ao Grozzi que os levará para Inglaterra.
·        O que ele fará lá?
·        Aguarde mais um pouco que saberá de tudo.
·        O que soube sobre os irmãos com os vizinhos.
·        Que eles realmente moravam ali até mais ou menos dois anos antes, mas depois desapareceram como por encanto deixando todos os pertences dentro da casa. Que apenas um deles de vez em quando aparecia e ficava algumas horas e depois partia novamente.
·        Era o Jardel com certeza.
·        Sim conforme me informaram era ele quem aparecia lá.
·        Os vizinhos os conheciam pelos nomes?
·        Não. Apenas referiram-se ao que aparecia como sendo o calvo de bigodes compridos, portanto só poderia ser ele.
·        Melhor dizendo, o falso Jardel.
·        Correto. Como nada descobri, além disso, qual o motivo de eu ter voltado urgente para cá?
·        Porque eu descobri toda a trama.
·        Como?
·        Prestem atenção como tudo aconteceu.
O detetive Miranda e o detetive Grozzi atentos ouviu toda a história.
·        O filho bastardo desde o começo recebia o grande amor e dedicação de Dr. Aldo, pois o visitava com frequência e sua mãe Celia não podia impedir, pois os maus tratos a ela, uma simples viúva dependente economicamente daquele homem a tudo sujeitava.
Assim o jovem John Wendy Lindsay Jr., foi crescendo e tão logo a mãe casou de novo, ele induzido pelo pai abandonou-a ainda adolescente sempre sustentado pelo pai e ao completar maioridade entrou para o exercito inglês.
Ele progrediu fez carreira e com o muito dinheiro que Dr. Aldo lhe enviava acabou por ser um dos donos de uma penitenciária privatizada na Inglaterra. Ele mandava e tudo que ele fazia era ordem em sua penitenciária particular.
A ideia do pai, provavelmente já de muito tempo era matar o irmão para ficar sendo o único dono das empresas em que era sócio e com a enorme aparência do filho adulto com o primo Jardel, arquitetara todo o plano.
Primeiro John tinha de dar sumiço nos irmãos, sem mata-los para todas as suspeitas do assassinato de Dr. Sócrates recaírem sobre eles. John totalmente desconhecido de toda a família passaria perfeitamente por Jardel devido a sua grande semelhança, pois era filho de uma irmã da mãe de Jardel e de um irmão do pai de Jardel, portanto suas aparências eram praticamente idênticas.
O bigode que o outro usava era simples para ele deixa-lo crescer e cortá-lo a semelhança e as calvícies eram feitas quando necessárias por depilação e assim ficariam iguais.
Nessa época Ana Margarita já não recebia os recursos oferecidos pelo namorado Jardel que se encontrava falido.
John sumiu com os irmãos e com apenas um ou dois soldados de sua confiança, prendeu-os alegando alguma falcatrua, na penitenciária em que ele era dono, com poucas explicações aos jovens que o desconheciam.
Não demorou muito a transferir esses policiais, para outros locais ou sumir com eles e manteve os irmãos presos e incomunicáveis em algum lugar do presídio onde somente ele tivesse acesso.
 Foi o próprio John quem visitou Ana Margarita, arrotando sua excelente posição social e seu dinheiro tornando-se seu amante e ganhando-lhe a confiança explicou todo o plano articulado por ele e seu pai que resultaria em uma fortuna muitíssimo grande em que ela teria grande parte depois de tudo concluído.
Com certeza deu-lhe muito dinheiro para sua participação e ela concordou sabendo tudo que deveria fazer e fez, sem saber que também iria morrer depois.
Foi a partir dessa época que ela se afastou de Agostina, embora o John sempre se apresentasse disfarçado de Jardel para nunca ser visto em Lugano como ele próprio.
Concordando com o plano Ana Margarita contratou o Argentino e o matou após ele ter dado fim nos criminosos dos idosos.
Ele mesmo procurou pela mãe adotiva de Ana, dando-lhe muito dinheiro para ela exibir as fotos de Ana Margarita a quem quisesse ver para mostra-la com o Argentino nas quais bem examinadas mostrariam o Jardel ao fundo, para incriminá-lo.
John foi ao flat onde Ana morava e simplesmente deu-lhe um tiro certeiro no coração disfarçado de Jardel, pois se alguém o visse não teria como negar-lhe o crime.
·        Como a senhora explica o pedido dos filhos para apossarem-se da herança através de uma empresa idônea de Londres?
·        Sempre o John disfarçado de Jardel agia em nome dele. É claro que de posse de seus documentos, obrigou-os a assinarem e ele próprio com procuração dos demais, procurou a empresa advocatícia substabelecendo a procuração ao advogado para receber e é claro que ele sabia falsificar não só a assinatura de Jardel como sua própria letra, pois deve ter tido muito tempo para aprender isso. O advogado de posse dos papeis da herança prestaria contas a ele que receberia tudo, para só então ele dar fim nos irmãos, matando-os, pois ninguém sabia do paradeiro deles e continuariam não sabendo.
·        Então provavelmente ainda eles estão vivos até hoje?
·        Sim Grozzi. Pode haver alguma necessidade deles terem de assinar alguma papelada e devem estar vivos jogados em algum canto de uma penitenciária na Inglaterra e é por isso que preciso de você lá para descobri-los.
·        O que me cabe fazer agora Dona Rute?
·        Por enquanto nada detetive Miranda. Sua participação trazendo os documentos deles já foi de extrema valia. Volte a cuidar de sua empresa até que Grozzi traga os resultados obtidos.
·        Você Grozzi deve ir com a missão brasileira a Inglaterra e descobrir qual é a penitenciária que é propriedade e administrada por JohnWendy Lindsay Jr. e vasculha-la inteira até descobrir os irmãos.
·        Depois disso detetive Miranda deve ir a Vitória devolver o cartão de crédito ao Dr. Aldo e deixar o caso definitivamente, pois logo o delegado de lá deverá prendê-lo, após o Grozzi descobrir os irmãos inocentes e fazer um dossiê informando sobre a participação de Dr. Aldo e de seu filho inglês com todas as provas e detalhes convincentes.
·        Viajarei para lá só depois do Grozzi realmente descobrir os irmãos trancafiados.
·        Concordo.
Na Inglaterra a comitiva brasileira nem precisou procurar saber a quem pertencia cada penitenciária, pois os documentos recebidos dos órgãos de lá dava tudo detalhado, e a pedido dos representantes paulistas aos gaúchos deram preferência a fazer a primeira visita logo na prisão de propriedade e administrada pelo CoronelJohn Wendy Lindsay Jr. Os ingleses sem a presença do administrador que imaginava que a dele seria a última a ser visitada não se deu ao trabalho de sumir com os irmãos trancafiados.
Foram exibidas todas as excelentes dependências de recuperação aos presidiários, pouquíssimas celas gradeadas que só serviam para o repouso dos detentos bem alimentados e bem vestidos, as oficinas profissionalizantes, os restaurantes suntuosos, as partes recreativas com as melhores aparelhagens possíveis para a prática de esportes e lazer, a ampla biblioteca e as maravilhosas salas de ensino que tinham até nível superior e para a surpresa deles próprios quando abriram uma solitária a prova de som que deveria estar vazia encontraram trancafiados e acorrentados quatro sujos e desnutridos homens sem que ninguém soubesse de quem se tratava.
Não constavam na relação dos presidiários e imediatamente o Coronel John foi detido pelos oficiais ingleses para justificar aquela absurdo e o Consul Brasileiro que também participava da visita foi informado pelo detetive Grossi quem eram eles e entregou-lhe seus documentos explicando como tudo tinha acontecido. Eles imediatamente foram soltos e asilados na Embaixada Brasileira.
Contaram tudo que passaram, sem saber por que foram presos em uma madrugada enquanto dormiam tranquilamente e coube ao coronel John confessar todos seus delitos, inclusive como deu fim em seu próprio policial que com ele esteve participando dessa prisão.
Por ordem do governo inglês nada foi noticiado nem para o país e muito menos para o resto do mundo, porém foi assinada a confissão com todos os detalhes dos hediondos crimes praticados por ele e que fora arquitetado por ele e seu pai Dr. Aldo de Albuquerque Lins da cidade de Vitória, estado do Espirito Santo no Brasil.
Os irmãos foram trazidos pelo detetive Grozzi em segredo para o Brasil com uma tradução juramentada da confissão do criminoso, e após tomar ciência de tudo, o delegado de Vitória foi buASSASSINATO NA MANSÃO DA ILHA DO FRADE
Um homem e uma mulher se viram exatamente ao mesmo tempo em um local que era praticamente impossível de isso acontecer.
Ambos pararam e permaneceram sem nenhuma atitude por longos minutos apenas se olhando, talvez não acreditando no que viam até que finalmente o homem gesticulou feliz para ela, que também acenou sua mão retribuindo o cumprimento tão contente quanto ele.
Em seguida eles deixaram suas calçadas que eram opostas e se encaminharam para o meio da rua abarrotada de gente que andava apressada entre os camelôs que aos berros anunciavam seus produtos em seus megafones estridentes, assim como também faziam em altíssimos decibéis os autofalantes das portas das lojas, cujos locutores pareciam que queriam destruir os tímpanos das pessoas deixando-as surdas, ao invés de anunciar-lhes algum produto.
Ao se encontrarem começaram conversar com o homem aos gritos tentando se fazer ouvir:
·        Que coincidência incrível nos encontrarmos justamente aqui.
·        Vermo-nos na Rua Vinte e Cinco de Março em véspera de Natal é realmente uma façanha impossível de acontecer a não ser como foi. Totalmente ao acaso e creio que para acontecer isso novamente levará dezenas de anos.
·        Nesse exato momento deve ter mais de cem mil pessoas nesse infernal vai e vem de gente se chocando a todo instante e nós nos enxergarmos nesse amontoado de gente misturada a carrinhos de cachorro quente, de churrasquinhos, de sorvetes, de mate gelado, de churros e principalmente de trombadinhas drogados é sinal que ainda estamos bem da visão, apesar de velhos como somos.
Desculpe-me falar assim. Eu de fato sou velho, mas a senhora é apenas cinquentona. Não é?
·        Não sou cinquentona não. Tenho mais de sessenta assim como o senhor.
·        Não parece. Está bem conservada.
·        Obrigada.
·        Talvez tenha sido a mais incrível das coincidências ou foi pela necessidade que tenho de falar com a senhora que fez com que a natureza conspirasse a meu favor atraindo-nos, mesmo estando em lados opostos dessa rua entupida de gente apressada com suas enormes sacolas de compras, além de todas essas barracas de camelôs entre nós.
·        Se fossemos dois gigantes com mais de dois metros de altura cada um seria até possível nos vermos sobre os transeuntes, mas não é esse o caso, pois eu sou baixinha e o senhor é só de altura mediana. Foi mesmo uma tremenda coincidência ou conspiração dos deuses mesmo.
·        Fazia tempo que não nos víamos. Como vai Dona Rute?
·        Eu vou bem. E o senhor detetive Miranda?
·        Agora estou bem melhor, pois já há alguns dias decidi que a procuraria, mas nem será mais preciso ir procurá-la em sua casa onde geralmente nunca é encontrada, pois o que tenho a conversar com a senhora poderá ser aqui mesmo e agora se a senhora tiver um tempinho disponível.
·        Se for realmente uma conversa amistosa, diferente daquela de quando nos conhecemos estou as suas ordens senhor policial, caso contrário manda-me uma intimação para ir à delegacia depor.
·        É uma conversa amigável e muito pessoal e já lhe pedi várias vezes para não chamar-me de senhor policial.
·        Desculpe-me pelo equivoco. Estou as suas ordens detetive Miranda.
·        Sua filha e seus netos estão bons?
·        Sim. Todos estão maravilhosos.
Se de fato quer conversar amistosamente comigo porque não ligou para meu celular que poderíamos já ter conversado por telefone ou se fosse o caso, marcado um encontro pessoal.
·        É o que venho fazendo regularmente há muitos dias, mas ele nunca atende. Parece-me que nem existe mais o seu número.
·        Tem razão. Aquele aparelho antigo caiu em um vaso sanitário e estragou. Foi falha minha não ter lhe informado meu novo número.
·        Eu sabia do sumiço de seu celular, pois Grozzi me contou toda a história, mas pensei que ainda mantivesse o número em outro aparelho.
·        Tive necessidade de desaparecer não só com o aparelho, mas também com seu chip e seu número. O número agora é outro. Faz favor de anotá-lo.
·        Pode falar. Qual é?
Após gritar o novo número ao detetive e ele anotá-lo em seu próprio aparelho Dona Rute voltou a falar sempre aos berros para ser ouvida.
·        O senhor precisa falar comigo sobre o que?
·        Não se afobe, pois de fato não estou procurando-a para inquiri-la como suspeita de nenhum crime como aconteceu quando a conheci transformando-a na primeira suspeita.
·        Foi uma grande injustiça que vocês policiais cometeram comigo.
·        Infelizmente era a única pessoa que tinha a chave da mansão onde sua patroa apareceu degolada.
·        Ainda bem que desta vez não está pretendendo incriminar-me de nada. Afinal o que o senhor quer comigo?
·        Depois de tudo esclarecido pensei que tivéssemos ficado amigos. A senhora não gosta de mim? Ainda tem ressentimento sobre aquilo?
·        Claro que gosto do senhor. Sempre gostei independente de ter-me interrogado por eu ter sido naquele caso, a principal suspeita. Percebi que me interrogava já imaginando minha inocência que inclusive ficou provada pelo senhor mesmo.
·        Então podemos conversar sem nenhuma mágoa?
·        Absolutamente nenhuma, muito pelo contrário. Como já lhe disse gosto muito do senhor desde aquela época e o respeito como excelente detetive que é.
·        Ainda bem.
·        Afinal o que o senhor quer de mim?
·        Propor-lhe um emprego.
·        Seria um prazer enorme poder servi-lo, mas não tenho nenhum dia vago.
·        Não será como diarista.
·        É um trabalho mensal? Onde?
·        Comigo mesmo.
·        Para ser sua empregada domestica? Sinto muito, mas não aceito. Como diarista ganho muito mais e quando tenho necessidade de resolver algum problema pessoal posso dar-me ao luxo apenas de avisar as patroas com antecedência e faltar em algumas faxinas. Quando acontece isso elas chamam alguém de alguma agência para substituir-me e depois retomo meu trabalho tão logo eu esteja novamente disponível.
·        Hoje a senhora está livre não é?
·        Sim É véspera de Natal e vim comprar alguns presentes para meus parentes.
·        Podemos ir até ali naquela lanchonete fazer um lanche enquanto conversamos, pois esse terrível barulho está me fazendo ficar surdo além de ter de gritar para a senhora me ouvir.
·        Está bem. Vamos lá, pois o mesmo está acontecendo comigo. Estou quase surda pela barulheira e quase muda de tanto gritar para o senhor me ouvir.
Chegaram rapidamente ao local que era perto sem se falarem e enquanto tomavam seus leites pingados com café, comendo pão na chapa com manteiga, ovo e mortadela Dona Rute aguardou por vários minutos o que o detetive Miranda tinha a lhe dizer e como ele não reiniciou a conversa interrompida Dona Rute perguntou-lhe:
·        Diga-me detetive ainda não se aposentou?
·        Da polícia sim, mas estou com um escritório particular em um prédio na Rua Pinheiros perto da Av. Faria Lima.
·        Sei onde é seu esconderijo. É em um lugar nobre. Ali está cheio de prédios novos e bonitos.
·        Pois é. Finalmente consegui comprar um escritório excelente, mas quando comecei, foi na Barão de Limeira. Era em um prédio velho, caindo aos pedaços onde antigamente se faziam filmes pornográficos e atualmente são vários cubículos imundos alugados como escritórios, mas a maioria está ocupada por vagabundos e prostitutas, que fazem desses escritórios suas moradas e seus trabalhos sujos.
·        Então literalmente o senhor acabou saindo direto da boca do lixo para a boca do luxo?
·        Com certeza.
·        Então está com um escritório de detetive particular?
Quer dizer que agora vive seguindo, vigiando, fotografando e filmando homens e mulheres que traem seus cônjuges?
Os eternos trejeitos do detetive entraram em ação antes de ele dizer qualquer coisa e após coçar a cabeça e depois o queixo, com os olhos totalmente fechados, ele perguntou em voz alta para si mesmo:
·        Como ela sabe? Será que foi o Grozzi quem lhe falou?
Dona Rute sabia que as perguntas não foram para ela, mas respondeu como se fosse, e isso fez o detetive sair do transe e continuar a conversa.
·        Ninguém me falou nada.
·        Então como sabe dos meus afazeres?
·        É fácil deduzir o que fazem os detetives particulares. Geralmente é só isso mesmo, ou então não fazem nada a não ser distribuir seus folders, como qualquer cigana que diz descobrir o passado e o futuro lendo as mãos das pessoas ingênuas iludindo-as e tirando-lhes seu dinheiro.
·        Está querendo dizer que vivo enganando os outros?
·        Não entendeu minha comparação. As quiromantes realmente iludem os incautos e os detetives particulares nem tanto, mas ambos vivem espalhando panfletos para todo mundo e foi referindo-me a isso que os comparei.
·        Já faz mais de cinco anos que trabalho assim.
·        Coisa feia. Ir atrás das pessoas filmando-as de longe só para separá-las de seus clientes quando as pegam abraçando e beijando seus amantes.
·        Concordo que é realmente ridículo, mas logo ao aposentar-me tive de fazer isso. Infelizmente consegui desfazer muitos casamentos e transformar muitas crianças em filhos apenas de mãe sem marido ou vice versa.
·        E agora precisa de mim para que? Lavar sua casa ou sua consciência que deve estar imunda?
·        Não. Não é para limpar nada. Eu a quero trabalhando comigo como investigadora.
·        Destruindo matrimônios e deixando filhos praticamente órfãos?  Não. Muito obrigada, mas não aceito tal oferta por dinheiro nenhum.
Não reconheço mais aquele detetive sério e austero fazendo o que faz e muito menos querendo o mesmo de mim. Deveria tê-lo deixado morrer na mão daquele delegado doido, pois assim não estaria agora fazendo essas maluquices.
·        Devagar Dona Rute. Está precipitada e me entendendo errado porque ainda não falei tudo o que tenho a lhe dizer.
Quando aposentei montei meu escritório particular de detetive, pois era a única opção de começar ser conhecido fora da polícia. Não faço mais, conforme a senhora disse, essas maluquices. Mudei de atividade há mais de um ano. Atualmente eu trabalho para empresas desvendando crimes de espionagem industrial, que está muito maior que antigamente graças a internet e aos hackers espiões.
·        Agora estou novamente começando conversar com o detetive Miranda que um dia conheci. Trabalhando com coisas realmente sérias e de difíceis soluções, nas quais tem necessidade de usar inteligência e competência e não apenas uma filmadora de longo alcance, usando-a escondido atrás de postes, árvores e quebras de esquina. Ou trabalhava com sua filmadora de dentro de um carro?
·        Continuo não dirigindo e também continuo não tendo carro?
·        A pé não é difícil seguir as pessoas?
·        Quando era necessário eu usava taxi, mas eu já lhe disse que não estou mais fazendo isso.
·        Eu sei. Apenas comentava o que acho sobre o trabalho sujo que fazia.
·        Pois é. Meu novo trabalho ainda está praticamente no início, mas tenho certeza que logo colherei grandes frutos, pois plantei folders em todas as médias e grandes empresas do Brasil inteiro.
Só não estou preocupando-me ainda com as pequenas e as microempresas, mas no futuro também elas serão procuradas por mim para eu ofertar meus trabalhos, pois nelas também se criam vários projetos novos que geralmente transformam-se em grandes invenções.
·        O senhor deveria procurar por elas não no futuro e sim agora antes de elas transformarem-se nos monstros que são hoje como é o caso do Facebook inventado por Mark Zuckerberg e da Apple criada por Steve Jobs, entre outras, tão grandes quanto as citadas que alguns anos antes, ao começarem eram apenas microempresas.
·        Sou obrigado aceitar o que a senhora sugere, pois sempre tem razão. Concordo plenamente e assim farei de agora em diante.
·        Voltando ao nosso assunto. Quer que eu vá trabalhar com o senhor por quê?
·        Porque a senhora é ótima investigadora. A melhor que conheço, mesmo entre o pessoal da polícia.
·        Pensa assim apenas por eu ter descoberto o filme que mostrou aquele delegado assassino tentando estuprar minha ex-patroa?
Ou está se sentindo em dívida comigo por tal filme tê-lo impedido de assassiná-lo também?
·        Não é nada disso. A senhora sabe muito bem que sou muito amigo de seu ex-marido, o detetive Grozzi e ele tem me contado todas suas façanhas, de antes e de depois daquela vez que me salvou.
·        Quais besteiras ele lhe falou de mim?
·        Besteira nenhuma, mas sim grandes feitos.
Entre tantos, como descobriu recentemente um bando de assassinos em um sítio em Mongaguá onde prendeu todo mundo. Era uma bem organizada quadrilha de mais de vinte pessoas, que ninguém nem suspeitava que existisse.
·        Quem prendeu os bandidos foi ele com vários outros policiais. Eu não prendi ninguém. Estou totalmente fora de tudo isso.
·        Sei disso. Foi a polícia quem efetuou a prisão deles, entretanto toda a descoberta, a investigação e as provas dos vários assassinatos inimagináveis foi obra única e exclusivamente da senhora, sem auxílio de ninguém.
·        Que fofoqueiro ele é. Eu não sabia dessa outra péssima característica dele. Pensei que só fosse um mulherengo sem vergonha.
·        Fique sossegada Dona Rute que não se trata de mexericos dele e sim de sua honestidade para com os amigos e principalmente com o Secretário de Segurança Pública que desde aquele caso em que a senhora salvou-me a vida, que algumas pessoas do alto escalão da polícia sabem sobre suas atividades clandestinas de auxílio a lei. Todos a admiram e a respeitam demais por isso. Nenhuma dessas pessoas jamais a colocará em risco com os criminosos. Sabemos de suas ações e não nos recusaremos nunca em solicitar-lhe ajuda quando necessário e jamais seu nome será divulgado como sendo a investigadora do caso.
·        Não estou gostando nada disso. Mas diga-me uma coisa. Vai usar o dinheiro de sua aposentadoria para pagar-me caso eu aceite?
·        É claro que não. Estou com uma razoável poupança vinda dos ricaços traídos para os quais trabalhei ganhando muito bem para destruir seus casamentos.
Também tenho vários contratos já firmados com muitos empresários para descobrir crimes de espionagem industrial em suas fábricas.
Em apenas um em Vitória no Espirito Santo que desvendei a falcatrua ganhei uma pequena fortuna como recompensa, além de uma grande clientela lá mesmo, portanto além de ter comprado um ótimo escritório a vista, do qual já lhe falei ainda me sobrou o suficiente para pagar-lhe muito bem sem passar nenhuma dificuldade. Fique tranquila quanto a isso.
Tenho certeza que poderei fazer-lhe um salário bem maior e mais digno do que o que ganha mensalmente em faxinas desgastantes e cansativas.
·        Já recebi uma proposta praticamente igual essa, também dentro de uma lanchonete em Santos e foi feita por uma criminosa chamada Norma e não aceitei.
·        Está me comparando a uma assassina?
·        Estou só brincando com o senhor, porque minha resposta é a mesma que dei a ela. Não aceito.
·        Não vou insistir, mas fique com meu cartão para telefonar e procurar-me se mudar de ideia e caso o perca pergunte ao detetive Grozzi que ele lhe informará onde encontrar-me.
Ele visita-me com frequência em meu escritório para trocarmos informações sobre casos em que ele esteja investigando.
·        Se por algum motivo eu venha precisar falar com o senhor eu tenho seu número de celular.
O que acabei de ouvir? O senhor continua trabalhando em investigações sobre crimes de mortes misteriosas e incompreensíveis auxiliando a polícia?
·        Sim.
·        Que bom ouvir isso. Então continua trabalhando nessa área também?
·        Alguns delegados e o próprio Secretário de Segurança Pública de vez em quando pedem minha assessoria e é claro que nunca nego, pois adoro descobrir assassinos considerados inteligentes e pegá-los.
·        Agora finalmente estou falando com o verdadeiro detetive Miranda. Quando atua nesses casos cobra dos órgãos públicos por seu trabalho ou faz apenas por amor a profissão?
·        Quando necessário recebo apenas para as passagens de avião, ônibus, táxis e estadias em hotéis baratos. Muitas vezes dão-me uma quantia tão irrisória para permanecer-me em outra cidade por uma semana inteira que o valor recebido mal dá para a estadia de um bom hotel para apenas um pernoite. Tenho de pagar de meu bolso para hospedar-me melhor.
·        Está trabalhando em algum caso de homicídio atualmente?
·        Está quase certo que vou começar uma investigação sobre o caso do assassinato de um casal de sessentões que a mídia está chamando de o Latrocínio dos idosos da Ilha do Frade.
·        Já vi sobre isso várias vezes na TV e tenho acompanhado também os noticiários escritos, mas aconteceu em Vitória no Espírito Santo. Está indo lá para esse caso?
·        Eu estava lá quando aconteceu o crime.
·        Então já sei quem foi o mandante.
·        Quem foi?
·        O senhor é claro. Pode começar confessar.
·        Deixe de gozação comigo.
·        Não foi assim que certa vez falou para mim querendo minha confissão? Depois fez o mesmo para seu delegado que quase o matou?
·        Foi. Mas naquele caso ambas as acusações foram embasadas em muitas evidências, infelizmente sem nenhuma prova convincente.
A senhora realmente não tinha nenhuma culpa e se ainda não lhe pedi desculpas suficientes, peço-as agora, mas com relação ao delegado eu estava completamente certo em acusá-lo e se não fosse pela senhora eu talvez nem estivesse mais aqui.
·        Sempre ensino a meus netos, que suspeitar de alguém não é o suficiente para incriminá-lo.
Suspeitar é permitido a qualquer um, mas acusar está muito distante de uma simples suposição.
Tem de haver a prova concreta antes de culpar alguém para não termos que passar pelo vexame de um processo por calúnia, quando irresponsavelmente fazemos isso.
Já se desculpou comigo pelo erro lamentável que cometeu e já o perdoei há muito tempo por isso vamos mudar de assunto porque estou vendo que ficou corado e envergonhado. Está tudo acabado e não se fala mais nisso.
·        Desculpem-me mais uma vez e obrigado pelo conselho sensato. Jamais repetirei essa falha deplorável acusando alguém que ainda é apenas um simples suspeito.
·        Espero que faça isso com mais ninguém e principalmente comigo.
A propósito, já tem alguma ideia de como resolver o caso de Vitória?
·        Imagino uma possibilidade bem interessante, mas ainda é muito cedo e incerto tocar no assunto delicado que estou imaginando, até para não acusar ninguém ainda sem nenhuma prova. Tenho apenas suspeitos por enquanto e usando de seu recente conselho vou continuar apenas suspeitando e não acusando, portanto eles vão continuar em completo sigilo.
·        Pelo que tenho ouvido falar e lido ainda estou com algumas dúvidas, mas já me sinto no caminho provável que é também extremamente muito delicado.
·        Estaremos pensando na mesma coisa?
·        Provavelmente sim e se estivermos certo está fácil desvendar tal crime.
·        Fácil? Por quê?
·        Não foi nenhum latrocínio. Está muito claro ter sido um crime encomendado.
·        Porque diz isso Dona Rute?
·        Por que os assaltantes que roubaram as joias e o dinheiro do casal de idosos, matando-os teriam de aparecer envenenados dentro de suas celas? Estão falando sobre isso desde hoje bem cedo em todas as emissoras de televisão e rádios do país inteiro. Nada mencionam que eles foram mortos por vingança de algum parente ou amigo dos idosos, por nenhum detento, pelos policiais e descartam a possibilidade de suicídio. Fala-se que tais envenenamentos estão sem nenhuma explicação.
·        Também já vi, ouvi e li os noticiários de hoje cedo e estou crendo, como a senhora, ser queima de arquivo.
·        Exatamente isso. Portanto o verdadeiro mandante do crime dos idosos está solto.
·        Por acaso a senhora não queria dizer “os verdadeiros mandantes”?
·        O senhor não acabou de falar que ia manter sigilo de seus suspeitos? Praticamente já me disse quem são eles. Só não mencionou seus nomes por talvez ainda nem saber.
·        Com a senhora eu posso falar abertamente o que penso, pois é uma das pessoas mais sérias e corretas que eu já conheci em toda minha vida.
·        Obrigada por pensar isso de mim. Embora eu me esforce para ser muito decente, não creio que mereça toda essa deferência.
·        Voltando ao assunto a senhora não acha que foram os quatro?
·        É o que mais parece ser, mas quem planejou e mandou matar os idosos pode ter sido apenas um, ou dois.
·        Ou três ou os quatro. Porque não? Não se consegue encontrar nenhum dos quatro filhos dos idosos.
·        Com certeza eles aparecerão um dia para reclamar a herança e talvez por isso que digo que ficará fácil, se realmente tiverem sido eles.
·        Concordo com a senhora. É só esperá-los aparecer e a gente aperta-os e eles confessam.
·        Vai apertá-los usando quais argumentos? Por acaso seria isso: “Vocês estão presos porque eu, o detetive Miranda, melhor detetive do mundo afirmo que mandaram matar seus pais. Estão detidos e podem confessar que foram vocês”.
·        A senhora sabe muito bem que eu não faço nada disso. Foi apenas aquele miserável do Dr. Ataíde quem falou isso de mim.
·        Estou novamente brincando com o senhor, mas sinceramente creio ser crime encomendado e por enquanto os principais suspeitos de mandar matar um casal simpático, querido de todos, cheio de dinheiro e propriedades, são os próprios filhos.
·        Provavelmente não tiveram paciência de espera-los morrer naturalmente, pois além de não serem tão velhos eram bem saudáveis e possivelmente ainda viveriam muitos anos.
·        Mas nada disso está confirmado. Não se precipite detetive, pois eles são apenas suspeitos.
·        Concordo com a senhora, entretanto estou seguindo essa linha de raciocínio. Não se encontra nenhum deles no Brasil. Moram há muito tempo no exterior e ninguém sabe onde. Sequer apareceram para o enterro dos pais.
·        Talvez eles nem saibam que os pais foram mortos.
·        Não creio nisso. Para mim eles são os responsáveis pelas mortes.
·        Não descobriram nada como os criminosos foram envenenados dentro da prisão?
·        Absolutamente nada. Hoje pela manhã o delegado de lá deixou um recado com minha secretária, que já me disse que ele precisa de mim para ajudá-lo resolver esse assunto, por isso que disse que estou no caso, mas oficialmente ainda não estou, pois ainda não telefonei para ele.
·        Os assassinos não teriam sido envenenados antes de serem presos?
·        Como assim?
·        Antes mesmo de assaltarem a casa já teriam sido envenenados para morrer depois, sendo presos ou não. Morrendo jamais falariam quem os mandou matar os idosos.
·        Mas se foram envenenados como a senhora prevê, eles não estariam sofrendo as dores ou os efeitos do envenenamento antes de praticar o crime?
Com certeza não teriam invadido a mansão para matar e roubar e sim procurado um hospital para se tratarem é o mais razoável.
·        Pode-se pensar assim, mas dependendo do veneno usado eles não sentiriam nenhum mal estar imediato e fariam a encomenda conforme fizeram para morrer depois.
·        Estou entendendo o que me fala, mas existe algum veneno que não começa agir imediatamente ao ser ingerido?
·        Existem pelo menos dois que eu conheço. Eles podem ter comido algo antes de invadir a mansão, contaminado com a Warfarina, por exemplo, que é um anticoagulante químico que prejudica a capacidade do sangueem coagular, comumente usado para matar ratos que morrem de embolias internas e isso não se dá imediatamente ao ingeri-lo.
Demoram-se alguns dias para as hemorragias manifestarem-se dando início a morte.
O outro é o polônio, um elemento químico que se torna letal ao ser ingerido ou inalado, já que as partículas radioativas entram em contato direto com os tecidos internos do corpo.
Basta um micrograma de polônio 210 para matar uma pessoa de 80 kg. O 750 cGy ou o 800 cGy é morte certa. A radiaçãoacaba com a mucosa do sistema gastrointestinal, causando graves diarreias, sangramentos, perda de fluídos e um grande distúrbio eletrolítico.
Nesses casos, a pessoa sobrevive por alguns dias mesmo sendo detectado oenvenenamento, pois não há tratamento e, no entanto ao ingeri-lo ou inalá-lo não sentem absolutamente nada nos primeiros dias, mantendo seus afazeres normalmente.
Alexander Litvinenko antigo espião russo foi assassinado pelos próprios russos quando estava asilado na Inglaterra, contaminado por Polônio-210. Inicialmente nada sofreu até começar a sentir-se doente e mesmo tendo sido hospitalizado em primeiro de novembro de doismil e seis e mesmo já diagnosticado como tendo ingerido polônio faleceu três semanas depois, pois simplesmente nada foi possível fazer para impedir sua morte por mais que os médicos ingleses tentassem.
Antes de morrer emitiu uma declaração imputando seu envenenamento à ordem do presidente russo, Vladimir Putin e embora a senhora Marina Litvinenko viúva do espião tenha escrito um livro denunciando o crime, ninguém mais fala no assunto que com certeza acabará no esquecimento com o passar do tempo. 
·        Lembro-me que li sobre esse caso, mas não cheguei a esse pensamento que a senhora chegou.
·        Pois é. Pode ser possível ter acontecido da mesma forma e provavelmente até com o mesmo produto químico.
·        Aprendi muito sobre venenos com a senhora.
Obrigado pela dica, pois já me orientou imensamente e vou dirigir minhas investigações pensando nisso.
Geralmente as mortes por envenenamento que costumo tomar conhecimento no dia a dia são causadas pela ingestão de estricnina ou de soda cáustica.
·        Nesses casos são os suicidas que usam para já começarem morrer ao ingeri-las.
Geralmente bebem tais substâncias nocivas com refrigerante ou cerveja a noite sozinhos em casa, para não serem socorridos e ao amanhecer serão encontrados mortos, quando simplesmente não se enforcam, dão um tiro no ouvido ou se atiram de uma altura grande para arrebentarem-se no chão.
 O detetive começou com seus tiques nervosos e novamente com os olhos fechados falou para si mesmo em voz alta:
·        Veneno que não faz efeito imediato e depois de alguns dias simplesmente mata quem o ingere. Esse é um fato novo para minha linha de raciocínio.
Dona Rute com pressa para encerrar a conversa, pois ainda precisava visitar lojas para comprar os mimos para seus parentes, novamente não aguardou o detetive voltar a realidade sozinho e despediu-se dele acordando-o, ao falar:
·        Detetive Miranda. Então se já lhe prestei uma informação interessante vou me despedir, pois tenho pressa em voltar, pois nossa longa conversa consumiu-me muito tempo, embora tenha sido imensamente prazerosa.
·        Até um novo encontro Dona Rute e que não seja ao acaso. Procure-me para trabalharmos juntos.
·        Vou pensar, mas não creio que isso acontecerá oficialmente. Pode ser que como nosso encontro, talvez venhamos a desvendar algum crime, trabalhando juntos, mas simplesmente ao acaso.
·        Aguardo sua decisão, mas pense com carinho a respeito.
·        Até breve.
·        Até.
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Dias antes desse encontro, mais precisamente no dia quinze de dezembro um homem residente na Ilha do Frade em Vitória, havia telefonado à polícia informando que deveria ter ladrões na casa ao lado, pois já passava de meia noite e o casal de idosos que lá vivia sempre apagava todas as lâmpadas antes das vinte e duas horas, entretanto lhe parecia que acontecia uma festa, pois a casa estava toda iluminada, apesar do horário tardio.
Antes do atendente da polícia iniciar suas perguntas de praxe, o informante disse que não se via ninguém através das janelas, por estarem todas com as cortinas fechadas e foi tal fato que o induziu em crer que não estivesse realmente acontecendo nenhuma comemoração.
Depois dessa informação o policial ainda perguntou-lhe se mesmo com as janelas fechadas dava ou não para ver pessoas andando dentro da casa e a resposta foi taxativa dizendo que independente da luminosidade da casa toda, não se via nenhum vulto transitando em nenhum lugar, pois de sua casa que era bem próxima daria para ver perfeitamente se houvesse movimentação de gente.
A polícia de Vitória encaminhou-se à mansão situada na ilha do Frade naquela capital, onde só residem pessoas de altíssimo poder aquisitivo, e em lá chegando rapidamente, encontrou e cercou dois ladrões que tentavam fugir pelos fundos da mansão, com o fruto do assalto e sem necessidade de trocas de tiros efetuou a prisão em fragrante delito.
Enquanto alguns policiais algemaram e colocaram os prisioneiros dentro da viatura, os demais adentraram a casa que havia sido arrombada pelos fundos e encontraram o casal de idosos assassinado a golpes de faca e pauladas sobre a própria cama.
Tanto o punhal que assassinara a senhora quanto o taco de beisebol que fora usado para matar o idoso foram deixados no quarto ao lado da cama completamente ensanguentada.
A casa inteira havia sido revirada. Todas as gavetas foram revistadas pelos bandidos que espalharam roupas pelo quarto do casal, nos quartos de hóspedes e demais dependências deixando claro que tinham vistoriado toda a residência. 
O cofre fora encontrado em um pequeno corredor atrás de um quadro de um famoso pintor, pois sempre é assim que as pessoas os escondem e como é do conhecimento de todos, os bandidos também sabiam, portanto arrombaram-no e saquearam tudo que encontraram nele.
Haviam levado os pertences dos idosos que eram dinheiro em grande quantidade e joias muito valiosas.
Todo o roubo fora recuperado dentro da mochila de um dos assaltantes e ambos devidamente presos na chefatura de polícia.
Como se tratava de um casal de pessoas muito queridas na ilha de Vitória, os noticiários sobre suas mortes foram tristes e o fato foi incessantemente comentado pela população revoltada que não falava em outra coisa que não fosse vingança urgente, mesmo que fosse pelas próprias mãos.
Para a proteção dos meliantes que passaram a ser odiados por uma cidade inteira, o cuidadoso delegado e seus policiais os prenderam separados dos demais detentos e totalmente isolados de qualquer aproximação que por ventura pudesse acontecer por pessoa de dentro do presídio ou mesmo de fora dele.
Só tinham acesso a eles dois carcereiros da mais alta confiança do delegado.
Os prisioneiros recebiam a alimentação que era feita no próprio presídio, e lhes eram entregues apenas pelos dois policiais, através de uma pequena janela da solitária onde estavam escondidos, dos rebelados moradores da cidade em busca de vingança.
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O assalto a mansão tinha ocorrido em meados de dezembro na época em que o detetive Miranda, estava hospedado no Hotel Ilha do Boi, em visita a uma grande empresa de Vitória para a qual prestava serviços.
Foi assim que ele ficou sabendo da tragédia desde seu início, cuja mídia local e a nacional denominou de latrocínio do casal de idosos da Ilha do Frade.
Muitas impressões digitais foram encontradas nas armas do crime, e nos móveis e com exceção das dos idosos todas as outras foram deixadas pelos  prisioneiros, que, entretanto não foram identificados por não portarem documentos e nem por ter sido encontrado em nenhum lugar do país os registros de identificação deles.
Pela minuciosa investigação feita descobriu-se que eles haviam chegado pelo mar, em um pequeno barco, deixando-o amarrado na parte da praia que dava acesso aos fundos da mansão. Arrombaram a casa por ali, entraram e fizeram o que pretendiam. Com certeza a intenção deles era voltar pelo mesmo lugar e empreender a fuga da mesma forma que tinham chegado, mas fora justamente nesse momento que foram presos.
Foi descoberto pela polícia um pequeno bote inflável movido a remos em que eles rapidamente poderiam alcançar pelo mar outra praia próxima, para abandonarem-no, talvez na curva da Jurema onde se infiltrariam entre as pessoas comuns e depois fugiriam para onde quisessem cheios de dinheiro e joias que venderiam aos receptadores do Rio de Janeiro, de São Paulo, ou de qualquer outro lugar onde possivelmente já conhecessem. 
Se não fosse o telefonema do vizinho e a rapidez da ação do delegado e seus policiais prendendo-os muito provavelmente teriam alcançado êxito na façanha.
Mesmo sendo o detetive Miranda muito conhecido por toda a polícia do Brasil, não foi convidado a participar diretamente das investigações, pois o delegado cujo inquérito lhe coubera analisar, via bem nítidas as provas do crime, mas mesmo assim ele consultou o detetive sobre alguma outra possibilidade de ser diferente do que ele percebia.
O detetive Miranda disse que precisaria pensar sobre o assunto para ver alguma outra possibilidade e a conversa deles naquele dia do crime ficou apenas nisso.
Passados vários dias da prisão dos criminosos o delegado que fazia plantão noturno solicitou a seus auxiliares que os trouxessem a sua sala para iniciar o interrogatório em virtude da grande quantidade de moradores da cidade ter desistido de postar-se ao redor da prisão, pela proximidade do Natal, portanto os bandidos poderiam ser interrogados com tranquilidade, sem nenhum risco naquele dia vinte e quatro de dezembro ainda pela madrugada antes do dia clarear. 
Até então nem ele ou qualquer outro policial havia conversado com eles, pois no total isolamento em que foram mantidos para suas próprias seguranças, não havia possibilidade de nenhum interrogatório.
Para a surpresa de todos, eles estavam mortos, sobre excrementos humanos, vômitos e sangue que lhes saíram pelos vários orifícios do corpo.
Um médico perito que fora vê-los, de imediato disse tratar-se de envenenamento cujas mortes ocorreram durante a madrugada, com pequena diferença de tempo um do outro.
Os restos de alimentação encontrados foram devidamente analisados e neles não continham nenhum tipo de veneno. A comida estava descartada de ter sido a condutora da toxina.
Os potes com água também foram isentados de conter qualquer substância nociva, por isso a situação ficou bastante complicada para o delegado que passou a ter também a incumbência de descobrir como e por quem os prisioneiros foram mortos.
Naquela manhã que começava clarear ainda existia a dúvida se foram assassinados ou se suicidaram.
Na necropsia dos corpos não viram nenhuma marca de picada de agulhas por onde o veneno pudesse ter sido introduzido no sangue através de alguma veia, além de não ter sido encontrada nenhuma seringa que por ventura eles teriam usado, portanto suicídio também estava descartado após imensa busca por qualquer elemento tóxico em poder deles ou na cela solitária onde estiveram completamente isolados por vários dias.
Em outros exames mais apurados, efetuados na mesma madrugada em um laboratório de análises clínicas, fora da prisão ficou claro e definido aos legistas que as mortes foram realmente por envenenamento.
O laboratório para onde foram enviadas partes do estômago, do aparelho digestivo, o vômito, as fezes e o sangue dos criminosos demoraria vários dias para detectar qual foi o veneno introduzido em seus corpos, pois pelo que tudo indicava só poderia ter sido junto a alimentação, mas o impasse era grande em função de todos os alimentos entregues na prisão serem de boa qualidade e em seus restos não haviam encontrado vestígio de nenhuma substância que não fosse saudável.
Desta vez o delegado encarregado do caso não teve dúvidas em telefonar ao Hotel Ilha do Boi e solicitar ajuda ao detetive Miranda, mas infelizmente não o encontrou porque ele já havia retornado a São Paulo há vários dias, por isso telefonou ao seu escritório ainda no início da manhã, véspera do Natal, por volta de oito horas.
O detetive Miranda não foi encontrando em seu escritório, porem o delegado deixou recado com sua secretária, solicitando retorno urgente, mas já passava de dezesseis horas e ele não havia entrado em contato com a delegacia de Vitória o que o deixava a cada minuto que passava mais preocupado. 
Nesse dia após o detetive terminar a conversa e despedir-se de Dona Rute, foi para sua casa assistir mais noticiários sobre o caso dos prisioneiros envenenados em Vitória e como toda a informação da tarde foi exatamente a mesma da de manhã, efetuou a esperada ligação ao delegado capixaba no final da tarde que antecedia o Natal.
·        Doutor. É o Miranda de São Paulo falando. O senhor está bem?
·        De saúde sim, entretanto estou em uma enrascada enorme.
·        Estou sabendo pelos noticiários de hoje.
·        Péssimo presente de Natal que o senhor ganhou.
·        Pois é. Os criminosos dos idosos apareceram mortos por envenenamento. Todos os restos de comida e bebida foram analisados no decorrer do dia e nada do que lhes foi fornecido continha veneno.
Os carcereiros que os atenderam todos os dias são de inteira confiança e após incessantes questionamentos por mim e pelos detetives daqui, além de usarmos detector de mentiras eles estão totalmente isentos de culpa.
·        Quem mais o senhor inqueriu?
·        Se estiver pensando no vizinho que telefonou para nós, saiba que interrogamos todos da casa da mesma maneira que aos carcereiros e estou plenamente convencido que ninguém de lá, além de não terem motivo algum para mandar matar os idosos, também comprovaram estar completamente inocentes. Fizemos o mesmo com os alguns vizinhos de frente e com outros aos lados e sinceramente não vejo como suspeitar de ninguém em absolutamente nada.
·        Quando sairá o laudo da necropsia dos corpos?
·        A necropsia já foi feita e constatou a morte por envenenamento, mas ainda vão demorar uns dez dias, para descobrirem qual foi o veneno usado.
·        Depois disso o senhor me telefona informando-me se eles morreram por radiação do polônio ou se ingeriram um veneno chamado Warfarina. Pode ter certeza que foi um desses dois.
·        Como sabe?
·        Porque uma pessoa muito amiga me alertou sobre eles. Disse-me que ao serem ingeridos ou inalados nada fazem nos primeiros dias, mas depois simplesmente matam, portanto confirmando isso poderemos concluir que eles já haviam sido envenenados antes de cometerem o crime, portanto iremos saber que eles foram enviados para matar e depois morrer para não confessar nada.
·        Que venenos são esses?
·        A Warfarina é usada para matar ratos e o polônio é extraído do uranio e é radioativo e eles não apresentam nenhum sintoma nos primeiros dias após o uso. Só que dias depois as pessoas que o inalaram ou ingeriram simplesmente morrem.
·        Então precisamos pesquisar em qual local extraem urânio.
·        Vários países que tenham usinas nucleares para confeccionar bombas fazem isso. Também extraem urânio para fins pacíficos como nas usinas atômicas para fabricação de energia. No Brasil tem cinco estados onde se extraem uranio natural, assim como em vários países do mundo, entretanto o polônio por ser pouco encontrado na natureza, os cientistas o fabrica em laboratórios especiais, portanto pode ter vindo de qualquer lugar do mundo, se comprovar o envenenamento por radiação dele.
·        O detetive não acredita que foi roubo seguido de morte e depois mortos por vingança?
·        Agora tenho forte suspeita que foi crime encomendado.
·        Quem poderia ter sido?
·        Ainda é cedo para acusar alguém, mas diga-me se algum dos filhos apareceu para o funeral dos pais?
·        Vários parentes dos idosos, como o irmão, duas irmãs, cunhados e vários sobrinhos estavam presentes, mas ninguém sabe dizer onde andam os filhos, pois não tem contato com nenhum deles há mais de três anos. A única coisa que sabem é que a cinco anos todos viajaram juntos para Londres e mantiveram comunicação só nos dois primeiros anos e depois simplesmente desapareceram e embora seus pais, seus tios e primos tentassem encontrá-los até viajando para Londres a sua procura jamais alguém ouviu falar deles. A maioria dos familiares os tem até como mortos, pois todos pararam de se comunicar com o restante da família ao mesmo tempo.
·        Todos esses parentes foram interrogados?
·        Todos. Não só os que moram aqui, mas também os que vieram de fora. Não há nadaque me faça imaginar que algum deles tenha a menor cumplicidade.
·        Os bandidos foram enterrados?
·        Não. Estão no necrotério e lá ficarão por um bom tempo. Vou conservar seus corpos congelados até conseguir alguém que os identifique.
·        Faz bem. Não deu para descobrir suas origens pelo rosto, pelo físico ou por alguma tatuagem?
·        Podem ser originários daqui mesmo do Brasil ou de algum país da América do Sul, pois não tem particularidade nenhuma como sendo asiáticos, americanos da América Central ou do Norte, nem do Canadá. Também não são nada parecidos com africanos, australianos ou europeus.
·        Então não se sabe nem a nacionalidade deles?
·        Não. Podem ser brasileiros mesmo, ou argentinos, uruguaios, chilenos ou de algum outro país da América do Sul, que tem mais ou menos as mesmas características nossas.
·        Eles nunca falaram nada desde que os prendeu e agora é que não falarão mais, mas excetuando-se as regiões que o senhor eliminou podem ter vindo de vários lugares.
·        Certamente. O mais provável é que sejam de algum país da América do Sul. O pouco que eles falaram fora em castelhano, mas pode muito bem serem brasileiros mesmo, tentando disfarçar.
·        Porque o senhor nunca os interrogou?
·        Eu queria resguardar-lhes a vida, pois quase todos os moradores da cidade viviam em vigília ao presídio e eu não podia de forma alguma deixá-los a mercê de nenhuma vingança, por isso os mantive trancados em uma solitária, para preservar-lhes a vida.
·        Compreendo.
·        Compreende o que detetive? Falou de tal forma que me faz imaginar que desconfia que eu tenha alguma culpa. Está pensando que eu sou igual aquele delegado assassino daí de São Paulo que por pouco o matou?
·        Nunca me passou pela cabeça nada parecido.
Pode ficar tranquilo, delegado que não penso nada de errado sobre o senhor e seu trabalho.
Só estou perguntando-lhe sobre o que tem feito para saber se eu teria alguma ideia para sugerir-lhe, mas no momento nada me ocorre, pois realmente tudo que deveria ser feito o senhor já fez e tenho certeza que muito bem feito.
·        Quando o detetive volta para Vitória?
·        Logo após o Natal. Dia vinte e sete já tenho bilhete no voo que sai daqui as dez, direto para Vitória.
·        Quando chegar me procure para trocarmos opiniões para solucionarmos esse episódio que está me deixando maluco.
·        Com certeza não só o senhor, mas toda a população de Vitória.
·        Aliás, de toda a Grande Vitória.
Para ser sincero de todo o Espirito Santo e até longe de nossas fronteiras por tratar-se de um empresário muito importante para o Brasil inteiro. Todo mundo quer ver esse caso resolvido, pois infelizmente tivemos aqui alguns assassinatos de pessoas conhecidas, respeitáveis e muito conceituadas que não ficaram bem esclarecidos deixando a população insatisfeita, mesmo sendo casos que aconteceram há muitos anos, em gestões anteriores.
·        Vou fazer o possível para auxiliá-lo ao menos na solução desse episódio.
·        Espero que sim. Então bom Natal para o senhor e até o final do ano.
·        Boas festas para o senhor também.
oooOooo
No dia seguinte o celular do detetive Miranda tocou e ele ao atendê-lo reconheceu a voz de Dona Rute, quando ela lhe deu bom dia e bom Natal.
·        Olá Dona Rute. Ganhou muitos presentes no Natal?
·        Vários. Estou muito contente com todos eles. O senhor ganhou algum presente?
·        Estou ganhando agora. Seu telefonema está sendo além de meu único presente, o melhor que eu sequer imaginava ganhar.
·        Deixe de ser besta homem. Não sou nenhuma menininha para o senhor cortejar. Depois de velho deu para ser galanteador?
·        Não se trata disso, até porque não sou como o seu ex-marido que não consegue ver um rabo de saia que logo fica eufórico.
·        Estou sendo sincero em dizer que estou extremamente feliz com seu telefonema por que ele veio muito a calhar.
·        Por quê?
·        Quero saber da senhora se está sabendo alguma novidade do crime de Vitória que eu ainda não saiba e se tem alguma ideia de como o solucionar?
·        Estou vendo e lendo tudo e é por isso que estou telefonando.
·        Tem alguma sugestão?
·        Tenho. Como eu conheço Vitória, sei que a Ilha do Frade por mar tem ligação com várias outras ilhas entre as quais a ilha do Boi que é praticamente colada a ela. Nessa ilha tem um hotel. Quando estive lá há muitos anos soube da existência dele e que era um hotel escola do SENAC, mas parece que foi vendido para particulares, mas não tenho certeza.
·        Pois eu tenho. Não foi vendido, mas foi todo reformado e está muito bonito e atualmente chama-se Hotel SENAC Ilha do Boi e é nele que fiquei hospedado quando estive lá no dia do assassinato do casal da Ilha do Frade.
O atendimento e a comida do hotel são excelentes, mas que ligação a senhora vê entre o hotel e a mansão?
·        Quando o senhor volta para Vitória?
·        Acabei de fazer-lhe uma pergunta e ao invés de responder-me fez uma pergunta? Está bem. Não vamos prolongar o papo com besteiras gastando créditos de meu celular.
·        Eu volto para Vitória no dia vinte e sete próximo e inclusive já combinei com o delegado de lá que vou ajudá-lo na investigação do envenenamento dos assassinos do casal e consequentemente sobre o próprio assassinato dos idosos. Agora por favor, diga-me qual a relação que a senhora vê entre o hotel e a mansão?
·        Tenho certeza que se o senhor se instalar novamente no mesmo hotel poderá compreender como tudo aconteceu.
Basta perguntar aos atendentes sobre os hóspedes que estiveram lá nos dias que antecederam o crime, que acabará descobrindo.
·        O que, por exemplo? Que os criminosos estiveram hospedados no hotel?
·        Eles tenho certeza que não. Mas quem os envenenou pode muito bem ter estado lá. Eu nunca estive hospedada neste hotel, mas sei que pelo mar pode-se sair dele e ir até a ilha do Frade rapidamente com um simples bote inflável.
·        Compreendo o que está pensando e lhe digo que sei que pelos fundos do hotel têm pequenas praias que evidentemente pode-se perfeitamente sair delas margeando-as e chegar á várias outras praias ou ilhas ou até navegar mar adentro.
O mandante deve ter ficado no hotel antes da noite do crime, ter encontrado com os assassinos em uma dessas praias para indicar-lhes qual a mansão a ser invadida e aproveitou para dar-lhes algum alimento previamente envenenado. Durante o dia os criminosos teriam inflado um pequeno barco na praia da curva da Jurema e como quaisquer turistas fingiram estar apenas passeando pelo mar, mas iam encontrar-se com ele aos fundos do hotel.  Lá souberam qual a mansão a atacar, receberam e comeram algum alimento contaminado com veneno e foram fazer o serviço e acabaram presos e só morreram vários dias depois. Adivinhei o que está imaginando?
·        Perfeitamente. É nisso que estou pensando e se o senhor aprofundar-se nas investigações por esse ângulo pode se dar bem.
Como o senhor já está pensado nisso vamos desligar, pois é isso que eu também estou imaginando.
Bom dia, boa sorte e outra vez bom Natal e uma excelente passagem de ano.
·        Vou ligar imediatamente para o delegado de lá para ele tentar descobrir se aconteceu assim.
·        Aconselho-o a não fazer isso.
·        Acha que o delegado de lá tem alguma cumplicidade?
·        Absolutamente nenhuma, mas sei que o senhor é muito mais eficiente que qualquer delegado ou investigador do mundo e por isso entendo que deva fazer pessoalmente tal averiguação.
·        Agradeço pelo elogio, mas eu conheço alguém muito melhor que eu.
·        Se por algum descuido estiver pensando em mim, também agradeço embora eu não mereça tal elogio.
·        Não é nenhum descuido e nem uma simples amabilidade. É a mais pura verdade.
·        Boa noite senhor policial.
·        Boa noite Dona Rute? Ainda é de manhã e quantas vezes preciso lhe pedir para parar de chamar-me de senhor policial. Que essa seja definitivamente a última vez que lhe peço isso.
·        Estava pensando que o dia já tinha acabado e também havia me esquecido que se aposentou. Minha memória está péssima. Cada vez pior.
·        A senhora é a maior gozadora que já conheci em minha vida. Com a inteligência e a grande memória que tem, só vive se passando por senil e esclerosada.
·        Por isso continuo entre os vivos para ajudar os amigos.
·        Um abraço a sua filha e aos netos.
·        Darei.
·        Também ao seu amigo detetive Grozzi.
·        Também darei.
·        Obrigado pela ajuda e até a vista.
·        Até outro dia e resolva esse caso que tenho certeza que logo conseguirá.
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O voo do dia vinte e sete de dezembro direto de São Paulo a Vitória chegou as onze horas e trinta e cinco minutos levando o detetive Miranda que foi direto do aeroporto Eurico de Aguiar Salles para o hotel Ilha do Boi.
Após instalar-se em um apartamento ele telefonou ao delegado de Vitória que foi ao seu encontro.
Almoçaram a apetitosa feijoada que lá é servida com um amigo em comum que apareceu de última hora e após a refeição o detetive falou aos amigos que nessa tarde iria descansar em seu apartamento, mas deixou claro ao delegado que faria algumas pesquisas e que ele se tranquilizasse, pois nos quatro dias em que permaneceria em Vitória dois deles ele iria dedicar a empresa que viera visitar conforme contrato e nos outros dois pesquisaria sobre os envenenamentos dos prisioneiros.
Que provavelmente lhe forneceria subsídios interessantes, mas que para isso o delegado antes de sair deveria avisar ao gerente que ele estaria trabalhando para a delegacia da cidade e que iria precisar de algumas informações sobre os hóspedes, que embora fossem sigilosas seriam de grande ajuda para desvendar o crime que todos queriam ver o fim.
Informou-o que seus diálogos seriam só com os funcionários do hotel, sem conversar, investigar ou incomodar absolutamente nenhum hóspede.
Nada do que falariam a ele seria divulgado e não desprestigiaria nem os funcionários inqueridos e muito menos o bom nome do hotel.
Ainda antes de o detetive retirar-se para seu apartamento, o delegado solicitou tal pedido ao gerente, e mesmo ele sendo uma pessoa bem relacionada com o gerente do hotel não conseguiu a imediata autorização, pois ele dependeria de autorização de seu superior.
Iria imediatamente consultar a alta direção do SENAC e fazer todo o possível para conseguir a permissão com possibilidade de sucesso, em consideração não só ao delegado como ao próprio detetive que já tinha seu nome firmado como grande investigador que era por ter solucionado vários casos policiais difíceis e principalmente pelo fato de ter descoberto uma espionagem industrial em uma empresa da Grande Vitória.
O feliz empresário da indústria que o detetive desvendou o roubo de suas pesquisas confidenciais era o amigo comum que almoçou com eles e entre os quatro homens que ficaram conversando e tentando uma solução para a solicitação do detetive Miranda foi ele quem telefonou ao diretor geral do SENAC, seu grande e antigo amigo.
Por ser a pessoa de maior prestígio e com seu poder de persuasão foi ele quem convenceu a cúpula do Orgão Público conseguindo o categórico sim do principal administrador do hotel em prestar apoio ao detetive.
Despediram-se com os visitantes saindo para seus respectivos afazeres e o delegado Miranda finalmente foi descansar.
Essa foi a desculpa que ele havia inventado para começar seu trabalho sem comunicar nada aos demais.
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Os quartos standard ficam no terceiro e quarto andar e tem o inconveniente de dar para a rua do hotel com vista para o estacionamento, mas por um preço um pouco mais alto o detetive Miranda havia solicitado um quarto de luxo que tem ampla visão da maravilhosa e linda cidade.
Por uma das janelas de seu ótimo quarto munido apenas de binóculos fez suas verificações. Viu não só a baía de Vitória, como vários outros locais.
As praias aos fundos do hotel, a praia da curva da Jurema, o Shopping Vitória, a Praça do Papa e principalmente a Ilha do Frade e suas suntuosas mansões, inclusive a que foi arrombada e assaltada.
Ele havia hospedado em um desses quartos mais caro, mas para sua sorte o rico empresário havia deixado acertado com à gerência que todas as despesas dele correriam por sua conta, portanto o detetive Miranda ficara isento desses altos gastos.
O detetive sentiu que a intuição de Dona Rute praticamente lhe fez ter convicção que o mandante dos assassinos dos idosos que ao mesmo tempo morreram envenenados esteve se não nesse apartamento, em um dos outros com as mesmas vistas.
Cocou a cabeça, depois o queixo e fechou seus olhos para enxergar somente com o cérebro, conforme sempre fazia quando precisava enxergar alguma coisa que se apresentava difícil aos olhos do rosto e viu com o inconsciente como aconteceu quando da visita do mandante do crime e foi assim que ele enxergou:
Durante alguns dias o bandido fotografava e filmava a mansão e depois descia para os fundos do hotel onde ficam suas praias abertas para o mar por onde os assassinos chegavam em um bote. Com as fotos e filmes ele mostrava-lhes onde, como e quando eles deviriam agir.
Três ou quatro dias antes do dia combinado para o crime, o advogado novamente desceu com uma maleta onde levou alimentos contaminados para dar a seus comparsas que nesse dia ele propositadamente os deixara esperando por muito tempo dentro do bote no mar aguardando-o descer às praias do hotel para receberem as informações finais.
Ao encontrá-los, evidentemente com fome eles comeriam toda a comida servida e previamente contaminada e veriam mais fotos e filmes desse dia e atacariam e procederiam conforme haviam combinado que era assassinar os velhos e para a polícia entender que fora um assalto deveriam roubar tudo que encontrassem de valor após revistar todos os possíveis lugares dentro da casa, para isso ficar bastante evidente. O crime deveria ser entendido como um latrocínio.
Não precisariam prestar contas a ninguém, pois o fruto do roubo seria deles além do pagamento milionário que nesse dia lhes foi entregue.
O detetive após sair de seu transe em que percebeu como acontecera aqueles fatos iniciais, desceu após identificar e fotografar a mansão e foi até os fundos do hotel em suas praias e de uma delas conseguiu distinguir perfeitamente a mencionada mansão, que também tinha uma praia nos fundos com ancoradouro e nele estava estacionado um maravilhoso iate de propriedade dos idosos.
Seu trabalho agora era descobrir qual hóspede esteve no hotel no mês de dezembro e que ocupara um daqueles quartos com visão ampla da Ilha do Frade.
Nessa mesma noite procurou pelo gerente que foi o primeiro a ser inquerido que colocou-lhe a disposição o arquivo de registro de hóspedes daquele período e junto com o delegado que foi chamado fizeram uma completa leitura do mesmo descobrindo que todos os quartos haviam sido ocupados em sua maioria por famílias inteiras, com apenas três exceções, em que o usuário fora apenas uma pessoa desacompanhada.
Mais ou menos a metade dos quartos tinham famílias que ainda permaneciam hospedadas desde o início de dezembro a espera do réveillon.
Os outros quartos haviam sido alugados no início de dezembro e foram usados várias vezes por viajantes de outros estados, conhecidos do hotel que os usavam e pela rápida permanência deles novamente eram alugados, até serem locados à outros hóspedes que se instalaram nos dias posteriores ao crime dos idosos.
Alguns quartos de luxo haviam sido liberados e estavam vagos, porém reservados para as festas de final do ano e alguns deles estavam simplesmente vazios e não foram ocupados em nenhum dia do mês. 
O detetive teria para investigar além das três exceções, apenas por terem sido usados por pessoa desacompanhada todos os demais, pois mesmo sendo famílias inteiras ou viajantes e empresários de outros estados, conhecidos do hotel, não via nisso motivo suficiente para serem inocentados, portanto a quantidade de suspeitos seria mais de duzentas pessoas.
Como era seu hábito quis manter em segredo suas investigações, mas acabou tendo de falar ao delegado e ao gerente do hotel sobre sua suspeita e pelo gerente foi informado que apenas o quarto em que ele se instalara e os vizinhos da esquerda e da direita eram os únicos que teriam condições de ver a mansão assaltada na Ilha do Frade, portando agora teria muito menos pessoas para se preocupar em descobrir suas identidades e seus passos enquanto estiveram no hotel.
O gerente informou que o quarto a sua esquerda estava em reforma e não recebeu nenhum hóspede, a não ser recentemente após o crime já ter acontecido, portanto só restaram dois quartos para serem pesquisados.
Começaram pelo da direita e verificaram que desde três de dezembro até vinte e três de dezembro fora usado por um casal em núpcias, por isso já tinham Carlos Antônio dos Reis Santos e seu cônjuge Marlene Aparecida D’ávida dos Reis Santos, ambos da cidade de Alfredo Chaves, interior do estado para serem investigados.
Referente ao quarto em que o detetive estava fora alugado em quinze de novembro por um casal de idosos que permaneceu até dois de dezembro. Esse casal era de São Paulo e o detetive decidiu por enquanto não se preocupar com eles pessoalmente, por isso telefonou para seu amigo detetive Grozzi para colher informações do casal de idosos. Passou-lhe os nomes e continuou com o gerente e o delegado verificando os registros.
Viram que nos dias três e quatro de dezembro o quarto permaneceu sem hóspede, quando recebeu um argentino de nome Agustín Alvarez Aguirre, advogado vindo de Buenos Aires e com retorno a mesma origem. Ele ocupou o quarto do dia cinco de dezembro até doze do mesmo mês. Dia treze o quarto não foi usado, pois de quatorze de dezembro até quatorze de janeiro ele já estava reservado e pago antecipadamente para uma jovem de origem europeia, vinda de Moscou com destino a Avellaneda, na Argentina. Seu nome era Olga Aleksandra Svetlana, entretanto ela se hospedou até vinte e cinco de dezembro, deixando o hotel no próprio dia de Natal pela manhã, não se preocupando em fazer novo acerto referente ao pagamento a maior que fora efetuado antecipado. 
Depois de sua saída o quarto foi higienizado e alugado ao detetive Miranda dois dias depois.
Um dos guarda vidas da piscina descreveu para a polícia de Vitória, sobre a russa com detalhes bem pormenorizados, pois a achava linda e encabulado e envergonhado confessou que ficava sempre olhando para ela na piscina do hotel, por isso a viu muito bem para guardar todas as características descritas, incluindo a informação de que ela já esteve hospedada no hotel por alguns dias dois meses antes. Foi checado e confirmado que no inicio de outubro realmente ela esteve hospedada nesse mesmo quarto durante uma semana.
Era alta, corpo perfeito assim como o rosto. Devido a grande exposição aos raios solares, estava com a pele queimada aparentando ser morena, entretanto era uma exuberante loira de cabelos compridos e olhos azuis.
O profissional papiloscopista técnico na arte de fazer retrato falado fez seu trabalho assim como fez o do argentino, descrito por uma das camareiras, por sinal bem bonita e sempre muito requisitada pelos hóspedes, para servi-los em seus pedidos.
Ela não se envergonhou em dar-lhes os detalhes do homem, assim como confessou não ter tido nenhum caso com o despudorado argentino, mas em se tratando de ambos muito provavelmente houve.
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Como a cidade Alfredo Chaves estava bem próxima a Vitória o detetive Miranda e o delegado deram preferência em ir até lá, nessa mesma tarde, mais para desencargo de consciência, pois suas suspeitas estavam levando-os ao advogado argentino e a moça russa.
No interior do estado, ao conversarem com o delegado da cidade souberam da idoneidade do casal e não se deram ao trabalho de conversar com eles.
Apenas os viram em seus respectivos passeios pela cidade sempre aos beijos e abraços, pois ainda estavam curtindo o recente casamento.
Na viagem que fizeram de volta ainda na mesma noite o detetive recebeu por celular a resposta do detetive Grozzi, inocentando o casal de idosos de São Paulo, pois se tratava de empresários bem sucedidos e moradores de um bairro nobre daquela capital e sem nenhum vínculo com ninguém que não fosse da alta sociedade paulistana.
Haviam feito a viagem à Vitória, pois era no Brasil a única capital em que jamais haviam visitado e aproveitaram a comemoração de suas bodas de ouro para fazerem essa viagem, que conforme constaram em seu Facebook foi uma viajem maravilhosa em todos os sentidos.
Restava apenas o argentino e a russa e nessa noite, sozinho em seu quarto o detetive Miranda, após pensar muito, decidiu telefonar a Dona Rute para contar como estava andando suas investigações.
·        Olá Dona Rute. É o Miranda falando.
·        Eu sei, pois conheço muito bem sua voz, meu policial preferido.
·        Já lhe pedi para não chamar-me mais de policial.
·        Está bem. Meu detetive predileto. Quais as novidades?
·        Seguindo seu conselho referente ao envenenamento dos criminosos dentro da prisão, realmente constatamos que existe um mandante e deve ter sido um advogado argentino ou uma moça russa, ou ambos.
·        Conte-me o que descobriu sobre eles.
Após o detetive informar as datas de hospedagem e saídas do hotel de Vitória, Dona Rute falou-lhe:
·        Está muito claro como aconteceu.
·        Claro? Como a senhora vê as coisas tão facilmente assim?
·        Preste atenção. Em algum lugar, provavelmente em Buenos Aires o advogado foi contratado pela russa para conseguir os criminosos lá mesmo para assassinarem o casal, ao mesmo tempo em que ele deveria envenená-los antes do fato acontecer e se mandar de volta para sua cidade de origem.
Depois de ele fazer sua obrigação que deve ter sido entre os dias cinco a doze de dezembro e ir embora, ela apareceu e ocupou o mesmo quarto já reservado antecipadamente, para ver o que acontecia na mansão, pois o crime aconteceria quando ela já estivesse hospedada no hotel. Tenho certeza que ela já havia hospedado no hotel anteriormente para saber em qual quarto deveria hospedar o advogado para filmar a mansão para depois mostrar aos assassinos e para ela hospedar-se depois para ver tudo acontecer e certificar-se de que o plano tenha dado certo.
·        Desculpe ter-me esquecido de informa-la sobre isso. Realmente a russa já havia estado no hotel no mês de outubro.
·        Então confere com meus pensamentos, portanto deve ter sido assim conforme falo.
·        Mas porque ela teria voltado novamente para o hotel após a saída do argentino se ele já havia feito sua obrigação?
·        Para verificar se tudo daria certo, conforme o plano premeditado.
·        Então porque ela não ficou somente dias quatorze e quinze quando aconteceu o crime? Ela ficou até o dia de Natal.
·        Por que acha que ela, mesmo tendo reserva para ficar até janeiro, desapareceu exatamente no dia de Natal?
·        Foi no dia seguinte ao anunciarem que os assassinos foram encontrados envenenados.
·        Justamente por ela saber que eles estavam bem mortos e nada mais poder falar ela não tinha mais necessidade de permanecer na Ilha do Boi e foi para a Argentina. Sabe onde fica a cidade de Avellaneda?
·        Na Argentina é claro.
·        Acontece que Argentina é um país relativamente grande, entretanto Avellaneda fica ao lado da capital, formando o que chamamos de grande Buenos Aires. Ela deve ter ido lá para dar fim no advogado para calá-lo também e depois desaparecer.
·        Como a senhora sabe isso?
·        Intuição. Intuição meu caro detetive.
·        Diga-me uma coisa Dona Rute. Se a russa veio para o Brasil apenas para acompanhar as notícias do crime dos idosos e a morte dos criminosos, seria muito mais inteligente da parte dela ficar hospedada em outro hotel da cidade, ou mesmo de outra cidade qualquer do Brasil que saberia de tudo pelos noticiários. Não teria a mínima necessidade de ficar exatamente onde ficou. Porque ela fez isso?
·        Curiosidade feminina. Isso é coisa nossa. Nós mulheres somos assim mesmo e realmente esse foi o grande erro dela, pois se estivesse em qualquer outro lugar apenas acompanhando os noticiários jamais saberíamos de sua existência, mas felizmente para nós e infelizmente para os criminosos, eles sempre cometem besteiras que nos ajudam muito. Nesse caso específico pode ter sido a enorme curiosidade feminina que a fez cometer esse tremendo erro que nos auxiliará encontrá-la.
·        A senhora acha mesmo que ela deu fim no advogado?
·        Tenho certeza, assim como acredito que ela também pagará com a vida sua grande estupidez, pelos verdadeiros mandantes que devem estar em algum lugar do mundo esperando tudo acabar e cair no esquecimento para exigir a herança deixada.
·        Agora a senhora concorda comigo que todos os filhos são coniventes?
·        Não disse isso, mas podem ter sido os quatro que estão envolvidos sim, pois apenas um ou dois não iriam correr o risco de serem pegos. Ficariam o resto de suas vidas na penitenciária, além de perder suas partes na herança, para os outros que evidentemente seriam inocentes. Pode também não ser nada disso e sim outra coisa totalmente diferente.
·        O que, por exemplo?
·        Outro mandante.
·        Quem a senhora imagina?
·        Por enquanto ninguém. Ainda falta o senhor encontra-los e conseguir provas que de fato foram eles os mandantes dos crimes, ou descobrir se são inocentes. Agora é com o senhor.
·        A primeira coisa que vou fazer é ir para Buenos Aires.
·        Só vai descobrir que o advogado morreu de alguma maneira mais ou menos normal, como um acidente, por exemplo, e depois descobrir que a russa esteve realmente por lá também, talvez com algum outro nome e que já sumiu.  O mais importante é descobrir para onde ela foi, pois ela é a única que pode levá-lo até o mandante de todos os assassinatos se a encontrar ainda com vida.
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O delegado de Vitória esperou pelos dois dias que o detetive Miranda trabalhou para a empresa industrial na qual tinha contrato a cumprir e viajou com ele no dia trinta de dezembro para Buenos Aires, chegando no mesmo dia. Foi logo procurar por um delegado de lá, seu conhecido.
Não demoraram muito em ficar sabendo que o advogado Agustín Alvarez Aguirre, era muito conhecido como advogado de porta de cadeia como falamos aqui no Brasil e que sofrera um acidente automobilístico por falta de freios numa descida íngreme e morreu nesse acidente, no dia vinte e seis de dezembro às treze horas da tarde.
Continuando ouvindo as explicações do delegado argentino, ficaram sabendo que o advogado usava um carro que fora alugado naquela manhã em uma locadora local pela Srta. Karina Katiusha Petruska, de origem polonesa que nunca foi vista a não ser pelo funcionário que lhe fez a locação.
A investigação da causa do acidente constatou que o freio falhou por vazamento de óleo nos burrinhos de freios nas rodas do veículo e o carro despencou-se de uma alta ribanceira apenas com o advogado dentro, morrendo esmagado entre os escombros do veículo.
Concordaram com o delegado argentino que a locadora não fora culpada pelo acidente, pois todos seus veículos eram novos, adquiridos recentemente de uma montadora de lá mesmo, que também garantiu que todos seus carros só saem para serem entregues aos compradores após inúmeros testes, principalmente os que garantam total segurança.
Por eles serem muito rigorosos e fabricarem seus veículos até com mais segurança que nossas montadoras o caso foi arquivado como sendo fatalidade, pois nem se podia cogitar de defeito de fabricação.
O único mecânico não policial contratado pelos parentes do morto atestou que o carro fora propositadamente danificado nos freios, mas os cinco outros que eram policiais e que também fizeram a mesma perícia não concordaram e o caso ficou mesmo como sendo um acaso do destino e foi encerrado como acidente por eles que talvez tenham até ficado satisfeitos com a morte daquele advogado escroque e mau caráter.
O fato mais estranho de tudo isso fora que o veículo havia sido alugado por uma moça polonesa totalmente estranha em Buenos Aires e o carro apareceu acidentado com uma pessoa possivelmente desconhecida dela, que por sinal não foi mais encontrada no hotel onde se hospedara apenas um dia e nem adquiriu nenhum bilhete de voo para fora do país com esse nome polonês.
Rapidamente fizeram a pesquisa com o nome russo em que ela havia hospedado em Vitória, pois os delegados e o detetive imaginavam que era a mesma pessoa e também não encontraram nenhum bilhete vendido para Olga Aleksandra Svetlana para ela sair de lá.
O detetive Miranda foi até a cidade de Avellaneda que ficava bem próximo, pois pertence a grande Buenos Aires e perguntando e exibindo o retrato falado que havia trazido de Vitória com o rosto da russa, em todos os hotéis próximos a cidade descobriu onde Olga Aleksandra se hospedara com passaporte polonês como sendo Karina Katiusha Petruska, simplesmente com o mesmo rosto sem ter tido tempo ou interesse em modificar sua aparência.
Ela ficara hospedada apenas do dia vinte e cinco de dezembro à tarde até o dia seguinte à tarde quando partiu do hotel e simplesmente desapareceu. 
Em seu registro de entrada constava como proveniente do Brasil e seu retorno seria para a cidade Polonesa de Cracóvia.
Inquerido pelos delegados brasileiro e argentino, o gerente do hotel disse ter verificado o passaporte da hóspede e que realmente era autêntico da Polônia e constava vistos de entradas e saídas em seu país e em vários outros, inclusive no Brasil.
Confessou que se deu por satisfeito apenas pela visão desses carimbos sem verificar as datas se eram recentes ou não, mas que provavelmente eram, pois o passaporte era novo.
Os policiais ficaram com a certeza que tal passaporte era tão falso quanto o outro usado em Vitória, identificando-a como sendo russa, assim como seus carimbos e vistos também.
Tudo foi feito por algum falsificador que consegue documentos perfeitos, portanto o hotel Dante Boutique Hotel próximo de Avellaneda também foi excluído de qualquer deslize de conduta e o delegado de Vitória viajou com o detetive Miranda novamente para o Brasil após voltarem a Buenos Aires e confirmarem com o funcionário que havia alugado o carro à uma polonesa, que o rosto era exatamente o mesmo do retrato falado que havia sido feito no Brasil como sendo da russa.
A aeronave que viajariam de volta para Vitória sairia as quatro horas da madrugada e no caminho para o aeroporto Internacional Ministro Pistarini, mais comumente conhecido por Aeroporto Internacional de Ezeiza, em Buenos Aires o delegado falou com o detetive:
·        Detetive Miranda, se quem esteve no Brasil e na Argentina foi uma única pessoa com dois nomes e dois passaportes como conseguira em ambos, os vistos de entrada e saída do Brasil? Não acredito de forma nenhuma que ela tenha subornado o consulado para isso.
·        Esqueceu-se que todos os documentos são falsos e que os falsificadores fazem tudo da forma que o cliente paga e exige. Essa é a única explicação.
·        Tem razão. Mais uma vez não usei minha inteligência antes de fazer uma pergunta.
Durante o voo, o detetive Miranda coçou a cabeça, depois o queixo, com os olhos fechados por vários minutos, enquanto o delegado olhava assustado e preocupado e sem nada poder fazer, aguardou seu retorno ao mundo dos normais.
Após umas tremidas como se estivesse espantando algum espírito de seu corpo o detetive falou:
·        Doutor eu já tenho uma correta sequência de como aconteceram os fatos em seu início.
·        Como o detetive acha que iniciou?
·        A mulher, de russa, ou de polonesa não tem nada além da aparência, pois na verdade ela é espanhola ou mexicana. Ela é namorada, esposa ou amante de um dos filhos dos idosos.
·        Porque diz que a nacionalidade dela é latina?
·        Porque tanto em Vitória, como no hotel em Avellaneda e na locadora de veículos em Buenos Aires que foram os únicos locais onde ela foi vista, todos a imaginando queimada de sol confirmaram sua pele ser morena, e que ela falou o tempo todo em espanhol.
·        Como soube?
·        Porque perguntei às pessoas que a atenderam nesses três locais.
·        Tudo bem, mas isso não é motivo para não ser russa ou polonesa, apenas por saber espanhol.
·        Perguntei à essas mesmas pessoas e disseram-me que em momento algum ela falou absolutamente nada em russo ou em polonês ou polaco como queira. Falou em espanhol fluente sem nenhum sotaque.
É impossível para um brasileiro, por exemplo, que saiba muito bem a língua inglesa em viagem a Londres ou a Nova Iorque se expressar exclusivamente em inglês o tempo todo. É perfeitamente normal e natural que em algum momento use algumas palavras em nossa língua por desconhecer o termo exato naquele idioma ou simplesmente por força do hábito. Isso é válido para toda pessoa de qualquer lugar do mundo quando em viagem para outro país com outro idioma diferente do dela.
·        Então está ficando cada vez mais difícil sua localização.
·        Talvez nem tanto. Quando chegarmos a Vitória faça-me o favor de telefonar para o delegado de Buenos Aires e procure saber dele se conseguiram recuperar o passaporte do advogado Agustín Alvarez Aguirre e se ele movimentou muito dinheiro no decorrer do ano.
·        O que interessaria seu passaporte?
·        Se não foi destruído no acidente, poderemos saber para onde ele viajou para fora da Argentina durante esse ano, pois creio que além de ela ir vê-lo lá, pode muito bem ele também ter ido encontrá-la em sua cidade de origem.
·        Por que acha que eles se conheciam?
·        O simples fato de ter sido ela a alugar o carro em que ele morreu é óbvio que ela transferiu o veículo, já danificado, para ele e para isso é claro que se conheciam, a menos que ele tenha roubado o carro dela ao acaso, mas ele era inescrupuloso, safado, escroque e etc., mas não era ladrão de carros, portanto essa hipótese está descartada fazendo-me crer que eles realmente se conheciam.
Pela manhã ela alugou o carro, danificando-o e entregou-o ao namorado para ele fazer alguma viagem sozinho, onde teria de passar por lugares perigosos exatamente para ele morrer “em um acidente automobilístico”.
·        Está certo. Fiz nova pergunta idiota, mas como julga que ela tenha conseguido justamente um advogado para arrumar os assassinos dos idosos e matá-los envenenados?
·        Porque o delegado de Buenos Aires me falou que tal advogado era realmente um porta de cadeia além de metido a conquistador e cafetão de mulheres de cabarés por isso não recusaria jamais uma linda jovem loira de olhos azuis, ou sem o disfarce usado, uma morena de olhos escuros com muito dinheiro para gastar com ele.
Portanto ter acontecido como penso enquadra muito bem no perfil de quem procurou um bandido que não fosse um conhecido matador profissional como era o caso do advogado e também confirma com o perfil dele que por ganância ousa fazer qualquer coisa por dinheiro, mesmo que seja matar pela primeira vez, desde que o dinheiro envolvido fosse realmente muito.
Ao chegarem em Vitória, já pela manhã do dia trinta e um de dezembro o delegado fez a ligação para Buenos Aires do próprio aeroporto e ficou sabendo que a maleta de trabalho do advogado fora encontrada intacta com vários documentos incluindo seu passaporte.
Atendendo a solicitação de seu colega de profissão brasileiro, o argentino verificou todos os vistos de viagens internacionais e descobriu que de fevereiro até novembro desse ano que findava o advogado visitou sete vezes a cidade de Zaragoza, na Espanha e que realmente comprou uma mansão na parte nobre de Buenos Aires, além de uma enorme fazenda de gado no interior.
Já dentro do táxi que os levava para a delegacia de Vitória, o detetive falou:
·        Concorda agora comigo que ela é espanhola?
·        Não tenho como duvidar de sua competência para deduções.
·        No começo do ano, ou no ano anterior ela visitara Buenos Aires com a incumbência de conhecer um homem profissionalmente bem posicionado, mas sem escrúpulos e começar um namoro com ele, para no decorrer do prolongado romance convencê-lo em contratar os criminosos para assassinar os idosos e ao mesmo tempo dar um sumiço neles, sem saber, é claro, que ele próprio também seria eliminado logo a seguir.
O advogado, além de aceitar o namoro com uma jovem sedutora e bonita e com muito dinheiro que com certeza recebeu, é claro que concordou com a incumbência proposta por ela que foi devidamente instruída pelo verdadeiro mandante que tudo indica serem os filhos do casal.
Em qualquer época após convencê-lo em praticar os crimes ela viajou para Vitória, para identificar a mansão, que deve ter sido mostrada a ela por fotografia impressa, ou por satélite, pelo namorado, marido ou amante oficial, confirmando o que o salva vidas da piscina do hotel SENAC informou já tê-la visto hospedada no hotel e que foi confirmado pelos arquivos.
·        Por que acha que foi assim?
·        Porque o delegado de Buenos Aires me falou que tal advogado, além de mau caráter era realmente um grande namorador, portanto ter acontecido como penso enquadra muito bem em sua maneira de viver e agir.
·        Continue com seu raciocínio detetive.
·        Minha dúvida é se ela realmente viajou para Cracóvia na Polônia conforme sua informação no registro no Hotel de Avellaneda, ou se voltou para Zaragoza na Espanha onde o argentino fora diversas vezes visitá-la.
·        Detetive, como o senhor disse que ela jamais falou no idioma polaco, muito provavelmente ela não iria para lá, por desconhecer a língua. Deve ter voltado mesmo é para a Espanha.
·        Faz sentido o senhor pensar assim, entretanto seu namorado, marido ou amante, que imaginamos ser um filho dos idosos, pode muito bem estar na Polônia e saber falar espanhol, pois é uma língua bem parecida com a nossa, e ele provavelmente já soubesse tal idioma mesmo antes de sair daqui e conversar com ela em espanhol, mesmo estando na Polônia ou em qualquer outro país, portanto minha dúvida continua existindo, embora tenha tentado me auxiliar.
·        Como sei de suas descobertas sempre são consideradas malucas, para desvendar crimes misteriosos, usando praticamente pouquíssima informação, tentando pensar como o senhor, vejo grande possibilidade de ser a Polônia o país onde a encontrará.
·        Por quê?
·        Porque a criminosa deixou registrado no hotel da Argentina que seu destino era Cracóvia na Polônia, e o veneno que assassinou os criminosos dos idosos conforme o senhor mesmo me disse pode ter sido o elemento químico radioativo polônio, cujo nome lhe foi dado por sua descobridora Marie Curie em homenagem a seu país de nascença.
·        E o que o senhor vê entre uma coisa e outra?
·        Nada. Simplesmente nada.
·        Obrigado pela tentativa em auxiliar-me delegado, mas eu também não vejo nada nessa sua conclusão. Absolutamente nada.
·        Desculpe-me. Pensei que pensando qualquer coisa sem nexo era sua forma de desvendar crimes considerados perfeitos, por isso fiz essa comparação de Polônia com polônio.
·        Nunca penso em coisas sem sentido nenhum. Apenas penso nas situações óbvias que infelizmente ninguém vê por só pensarem em resolver os casos misteriosos através de soluções mais enigmáticas ainda e quando eu apresento meus argumentos simples, porém corretos, parecem sem significado às pessoas que já estão com as cabeças cheias de recursos misteriosos, que realmente são sem sentido.
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Antes de procurarem descanso em suas moradias passaram na delegacia e encontraram várias pessoas esperando por eles. Eram os parentes dos idosos assassinados.
Não se sabe exatamente se eles queriam vingar as mortes dos parentes ou se pretendiam descobrir que os desaparecidos filhos do casal também já estavam mortos para se tornarem os herdeiros, mas qualquer que tenha sido a causa, o fato é que decidiram contratar o detetive Miranda para desvendar toda a tragédia e localizar os filhos do casal assassinado em algum lugar do mundo.
Através do porta voz de toda família, Dr. Aldo deAlbuquerque Lins, irmão mais novo do falecido Dr. Sócrates ofereceram-lhe um valor bastante generoso e não só por isso, mas também pelo amor a profissão ele decidiu aceitar a causa.
Conversou com os interessados na presença do delegado e falou-lhes:
·        Não vou viajar para a Espanha, pois conclui que a única suspeita que é a jovem que estivera em Vitória hospedada até o dia de Natal e que depois viajou para a Argentina para assassinar o advogado que havia contratado os assassinos dos idosos, não estará lá.
·        Porque pensa assim detetive?
Essa foi a pergunta feita por uma senhora que fazia parte da comitiva dos contratantes.
·        Porque as informações colhidas no passaporte do advogado viajando demais para lá para encontra-la é claro que era do conhecimento dela e ela sabia que seria uma pista muito grande, por isso não se preocupou em fazer desaparecer o passaporte dele, exatamente para tornar uma pista falsa.
Sua informação no hotel argentino de que seu retorno seria para Cracóvia, também foi proposital e falsa para mandar-nos procurá-la na Polônia, portanto ambas as pistas são motivos para nos fazer perder o contato com ela que não deixou nenhuma pista para onde realmente foi.
Ela deveria procurar por seu amante, marido ou namorado para prestar-lhe contas de que tudo correra bem e pelas minhas conclusões não será na Polônia e nem na Espanha que ela encontrará pelo menos um dos irmãos, que todos julgamos como sendo os mandantes da morte dos idosos.
Todos ficaram pensativos por alguns minutos e Dr. Aldo disse ao detetive para ele proceder da forma que melhor lhe parecesse, pois teria carta branca para agir.
Novamente todos ficaram sem falar nada e enquanto permaneceram calados na sala de reuniões o delegado e todos os demais ficaram boquiabertos assistindo os esquisitos trejeitos do detetive, enquanto ele pensava a sua maneira sui generis.
Nessa concentração bizarra ele lembrou-se que Dona Rute descobriu os criminosos no caso que ficou conhecido como Amor Assassino, justamente procurando-os do lado oposto de onde uma das criminosas dizia ser o esconderijo deles e decidiu agir da mesma forma que ela.
Naquele caso uma das bandidas morava em São Paulo e enquanto se passava por inocente indicou o esconderijo da quadrilha como sendo em Guarulhos e Dona Rute foi procurar tal refúgio mais ou menos a mesma distância de São Paulo a Guarulhos, porém ao lado contrário.
Sua intuição foi de que a pessoa que ela já imaginava pertencer ao grupo de bandidos informou propositadamente tal local para despistar o lugar verdadeiro, por isso ela foi para o lado oposto que era a cidade de Santos onde acabou descobrindo tudo.
Em seu caso o detetive Miranda também tinha duas cidades como referência.
Quis imitar Dona Rute e procurou proceder da mesma forma, mas não usou a intuição que é mais próprio das mulheres e sim a razão e para isso colocou um mapa plano da Europa sobre a mesa que usavam e traçou uma linha reta entre as duas cidades.
Uma era Cracóvia na Polônia indicada pela própria criminosa como sendo seu retorno da Argentina e a outra fora indicada pelas várias viagens do advogado e era Zaragoza na Espanha, possivelmente onde ela ou sua família residia.
Mediu sua distância em linha reta com uma régua marcando a cidade que estava exatamente entre as duas e encontrou Lugano na Suíça.
Pesquisou tudo que foi possível e descobriu que é uma cidade com bem menos de cem mil habitantes, porém com um dos maiores aeroportos da Suíça. Viu que Lugano fica no extremo sul, do país praticamente dentro de território italiano de onde herdou entre várias coisas a própria língua italiana que é o idioma oficial da localidade onde em menor escala também se fala o alemão, o francês e o romanche.
É um local turístico e por isso, abriga muitas residências suntuosas de pessoas com muito dinheiro e fazem muitas festas já tradicionais na cidade.
Explicou seu plano ao delegado de Vitória e aos familiares do casal assassinado, e todos confiaram em tal atitude, depois do delegado informar à família contratante que o detetive Miranda sempre descobria crimes misteriosos com costumes e atos aparentemente sem lógica alguma, mas que nunca falhava, exatamente por usar não só do bom senso como muita lógica inequívoca nunca vista por outas pessoas que geralmente complicavam mais seus raciocínios.
Despediram-se e ele viajou para São Paulo sem sequer ter dormido nada nas últimas vinte e quatro horas.
Meio aborrecido comprou sua passagem em um voo econômico, que partiria de São Paulo para Lugano só no dia seguinte as quatorze horas, por isso resolveu conversar com Dona Rute e telefonou-lhe marcando um encontro pessoal, para essa mesma noite no bar do baiano que era perto da casa dela.
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Enquanto o detetive comia acarajé bem apimentado e bebia cerveja estupidamente gelada e de tempos em tempos uma cachaça intercalando com a cerveja, Dona Rute comia seu acarajé apenas levemente picante com guaraná e conversavam.
O detetive Miranda contou-lhe os últimos acontecimentos e suas decisões e ela calada apenas ouvia, até que finalmente disse:
·        Então detetive? Está quase descobrindo os crimes de Vitória e de Buenos Aires ou acha que está complicado?
·        Está só no começo, mas acho que terei grandes dificuldades para chegar ao final, se é que conseguirei sem a sua ajuda.
·        Tenha confiança em sua grandiosa performance.
·        Penso que nesses anos que passei procurando maridos e esposas que se traiam, perdi muito de meu tino como investigador criminal.
·        Por que diz isso?
·        Amanhã viajo para Lugano, única e exclusivamente por copiar uma de suas atitudes que deu certo. Nem mesmo estou conseguindo imaginar como seguir os rastros dos criminosos por conta própria.
·        Deixe o baixo astral para quem é depressivo e gosta de sofrer, detetive. O senhor sempre foi muito realista, além de otimista e confiante.
·        Estou mesmo meio para baixo.
·        Então tempere seu acarajé com muita mais pimenta e embebeda-se bastante a noite toda, que lhe farei companhia, bebendo guaraná.
·        Para que servirá isso?
·        Para amanhã ter uma enorme ressaca e perder seu voo.
·        É isso que deseja para mim?
·        Eu não. É o senhor quem já está fazendo isso por conta própria.
·        Realmente estou agindo como uma criança totalmente desorientada. Completamente sem rumo.
·        Pois saiba que além de não ser nada garoto, raciocinou como procurar a mexicana ou espanhola, exatamente como eu também pensaria.
·        Concorda com meu plano?
·        Aprovo-o completamente. Acho que esse é o caminho. Eu agiria do mesmo jeito.
·        Então está mais que provado que eu estou copiando-a.
·        Deixa de ser besta detetive. Só agora estou lhe falando que eu faria isso que o senhor já decidiu sozinho, portanto se tem alguém copiando alguém, sou eu quem o copio. 
·        Tal imaginação que aparenta ser minha não é a cópia de uma deliberação certa vez já definida pela senhora?
·        Nada disso. Foi a dedução mais lógica que encontrou e bastante diferente de quando eu descobri o sítio de Mongaguá. Naquela ocasião eu tinha Guarulhos indicada como sendo o local do esconderijo e São Paulo era apenas onde eu estava por isso imaginei o esconderijo sendo ao lado oposto de onde eu estava e o senhor está tendo duas cidades indicadas pelos criminosos para ir e decidiu procurar pela loira entre ambas, e não ao lado oposto de nenhuma delas, portanto foi uma imaginação completamente diferente da minha e bastante sábia ao meu entender.
·        Já estou sentindo-me melhor e vou parar de beber cerveja e pinga.
·        Concordo plenamente.
·        Posso tomar de seu guaraná?
·        Fique a vontade. Essa garrafa de dois litros é muito para mim.
Terminada a conversa e a refeição despediram-se e cada qual foi para suas residências.
O detetive Miranda decidiu ir descansar e dormiu uma noite tranquila, pois Dona Rute deixou-o muito confiante e no outro dia voou para Lugano Airport na Suíça em um voo direto de Guarulhos pela TAM Airlines e hospedou-se no Holiday Inn Lugano Centre.
Apresentou-se a polícia federal suíça falando em italiano, pois ele falava tal idioma, pois descendia de família italiana e contou-lhe toda a história acontecida no Brasil e na Argentina e os informou que estava a procura da russa Olga Aleksandra Svetlana que também usa o nome de Karina Katiusha Petruska de origem polonesa.
As autoridades suíças não entenderam absolutamente nada do porquê de o detetive ter ido procurá-la exatamente lá e não na Rússia ou na Polônia, mas mesmo assim se dispuseram em auxiliá-lo.
Ele recebeu completo e total apoio dessas autoridades na ajuda pretendida.
Detetive Miranda entregou-lhes para suas investigações o retrato falado dela, feito em Vitória, assim como o do argentino cujo nome verdadeiro era Agustín Alvarez Aguirre.
Ficou vários dias a espera de informações deles e acabou por saber que jamais nenhuma das pessoas procuradas esteve na Suíça. Não foram localizados como hóspedes de nenhum hotel e nem tiveram visto de entrada naquele país.
Como Lugano geograficamente fica muito próximo a fronteira da Itália, o detetive Miranda foi até Roma e fez as mesmas pesquisas com a polícia de lá e também em território italiano nenhuma daquelas pessoas desembarcou em seus aeroportos e nem hospedaram em seus hotéis.
Totalmente desconcertado e pensando em não conseguir nada o detetive Miranda decidiu procurá-la na Rússia e não perdeu muito tempo em Moscou para encontrar um interprete que falasse português e russo, mas o tempo gasto pela polícia investigativa de lá foi bastante demorado e resultou exatamente na mesma consequência que nos outros países.
Todas essas viagens pela Europa foram feitas rápidas de trem, mas o tempo nas investigações foram lentos, portanto deveria voltar a Lugano, por que seu voo de volta ao Brasil estava por dois dias e não havia mais nenhuma possibilidade de ele continuar na Europa, pois tal loira jamais existiu.
Eram simplesmente nomes falsos assim como seus documentos.
Já de volta a Lugano foi despedir-se do delegado federal suíço pela grande dedicação dispensada a ele e também por terem se tornado amigos ficou sabendo que uma prostituta morena foi encontrada assassinada com um tiro certeiro no coração, em seu flat onde recebia seus clientes da própria cidade ou turistas, que visitavam a cidade devido suas inúmeras festas que aconteciam no decorrer do ano. 
Ficou sabendo também que não foi encontrado o assassino da mulher.
Eram raros os homens importantes de Lugano que não haviam passado pelo menos uma noite com ela, mas como se tratava de gente da alta sociedade, como em todos os lugares do mundo a polícia de lá também não se importou muito em desvendar a morte de uma estrangeira principalmente como ela que levava uma vida promíscua.
Da mesma maneira que a polícia argentina já havia feito na morte do advogado, avaliado com o mesmo adjetivo dela, também a polícia suíça encerrou o processo como crime, porém com o assassino desconhecido e não encontrado, por possivelmente ter sido algum estrangeiro que já tenha deixado o país.
Esse crime tinha acontecido enquanto o detetive viajava para a Rússia, mas essa informação estava sendo passada a ele pelo delegado suíço, pois ele achou que o rosto da morta era bem semelhante ao do retrato falado que ele lhe exibira vários dias antes.
Conforme os documentos da morta seu nome era Ana Margarita Aguilara de origem espanhola e o traslado do corpo já havia sido feito para seu país, mais exatamente para sua cidade natal que era Zaragoza.
Nas fotos que o detetive Miranda viu na federal suíça, realmente os traços faciais da espanhola, cujo corpo havia sido enviado para sua cidade de origem eram realmente iguais ao da loira russa ou polonesa.
As semelhanças eram na boca, no nariz, nas faces, no queixo, afinal em todo o formato do rosto e no corpo todo. A espanhola tinha a pele morena conforme a característica de seu povo e a outra tinha também a mesma cor de pele, mas acreditavam no Brasil que ela era branca como a maioria das russas, mas que estava queimada pelo sol por frequentar nossas praias e nossas piscinas. O mesmo imaginaram com a polaca na Argentina.
A idade da morena conforme documento verdadeiro confirmava que ela era uma jovem de vinte e sete anos, por conseguinte da mesma idade que a loira aparentava ter.
Ambas eram altas e lindas tanto de rosto quanto de corpo e extremamente sensuais ao vestir-se e ao portar-se, conforme fora informado não só pelos atendentes do hotel em Vitória sobre a russa, como também pelo locador de carros na Argentina sobre a polonesa e pelos conhecidos da espanhola em Lugano.
As divergências eram a cor do cabelo e dos olhos, pois a espanhola tinha os cabelos curtos e pretos assim como seus olhos.
A outra usava os cabelos compridos loiros, além de olhos azuis, entretanto poderia perfeitamente ter sido o artifício usado no Brasil e na Argentina para se mostrar diferente de como ela realmente era.
O papiloscopista suíço trabalhou com foto shop o retrato falado que também havia sido feito pelo computador em Vitória e deixou a loira exatamente igual a espanhola sem necessidade de nenhum retoque ou mudança em nada de seu rosto. 
Apenas mudou a cor dos olhos para preto e escureceu os cabelos também para pretos deixando-os mais curtos.
Descobriram com esse trabalho que tanto Olga Aleksandra Svetlana de origem russa, quanto a polonesa Karina Katiusha Petruskae Ana Margarita Aguirre espanhola nascida em Zaragoza eram exatamente a mesma pessoa. 
O detetive Miranda, como os policiais suíços passou a ter essa certeza e foi assim que finalmente encontrou a mulher procurada, porém assassinada sem ninguém saber por quem.
Pensou como e onde iria descobrir seu assassino desconhecido e não tendo nenhuma ideia, simplesmente teve um de seus costumeiros ataques de pitiatismo na presença dos suíços, que pensaram que ele estava tendo um acesso epilético. 
Depois de executar suas coçadas na cabeça e no queixo com os olhos fechados por mais que pensasse não conseguia enxergar porque ela não desaparecera com o passaporte do argentino que mostrava que ele visitara várias vezes Zaragoza, por isso imaginou ter sido outra lamentável falha da mulher, mas não imaginava como poderia descobrir o verdadeiro mandante, já que provavelmente ele próprio dera fim nela.
Desistiu de conseguir alguma explicação e ao abrir os olhos ficou sabendo pela polícia federal suíça que ela vivia em Lugano a mais de dez anos se prostituindo desde que chegou, geralmente com pessoas de poder aquisitivo alto, mas que em todos esses anos sempre retornava a sua cidade de origem em viagens rápidas.
Ela ia apenas por uns dois ou três dias para visitar os familiares, portanto o detetive Miranda entendeu que seus encontros com o namorado argentino acontecia nessas rápidas viagens em que ela o encontrava realmente como ela era. Morena de cabelos curtos e pretos e olhos também pretos, por isso não havia motivo real de ela desaparecer com o passaporte do argentino que mostrava que ele visitou várias vezes Zaragoza, pois se fossem usar isso como pista iriam procurar com ele uma russa ou polaca loira e jamais iriam encontrar, pois lá ele se encontrava com uma espanhola morena, que só agora o detetive passou a saber ser a mesma pessoa que a russa e a polonesa.
Mudou o destino de sua viagem, de São Paulo para Zaragoza e foi de avião dois dias depois para lá, após telefonar aos seus contratantes no Brasil dizendo-lhes sobre o que descobriu, para onde ia e que iria demorar mais alguns dias para seu retorno ao país, mas que muito provavelmente teria informações importantes para levar-lhes quando de sua volta.
Infelizmente não era verdade, pois todas as pessoas envolvidas no assassinato do casal estavam mortas e ele não poderia fazer mais nada, a não ser que encontrasse algo na Espanha que o pusesse novamente em algum caminho a seguir.
Não pensava em absolutamente nada que pudesse encontrar, a não ser uma confidência que ela teria feito a alguma amiga ou parenta sobre seu namorado brasileiro que estava por trás de tudo conforme tudo indicava.
Chegando a Zaragoza, procurou a polícia federal do país, se apresentou e disse qual era sua missão.
O enterro já tinha acontecido à vários dias e a família não permitiu a exumação, até porque a causa da morte fora bem clara e inclusive constatada na necropsia na própria Suíça, além de não haver absolutamente nada para se ver na ossada com carnes putrefatas como já deveria estar.
O pedido de exumação fora feito pelo detetive aos policiais, com o único intuito de conhecer e se aproximar dos familiares dela.  
Em conversa com o detetive e a família de Ana Margarita eles não se negaram afirmar que sabiam da profissão da moça que era permitida na Suíça, porém censurável na Espanha.
Sua intenção era saber exatamente isso, antes de poder contar-lhes sobre seus crimes no Brasil e na Argentina.
Uma tia, contou-lhe que o pai abandonara a mãe de Ana quando ela era muito pequena, e sua mãe tornou-se prostituta na Espanha e por isso havia sido ela a criar a menina. 
Foi ela entre os poucos parentes a que mais se abriu com o detetive, dizendo-lhe saber das atividades da moça, mas que nunca ficou sabendo com quem ela mantinha casos amorosos em Lugano e que jamais soube se ela teve algum namorado ou amante brasileiro. Marido com certeza ela não teve, pois nunca foi casada.
Entre um assunto e outro tal senhora sempre ingeria sua tequila voltava ao mesmo tema até que ela já bêbada decidiu mostrou-lhe um álbum com fotos da menina desde criancinha até os dias atuais.
O detetive Miranda não tinha o menor interesse em ver as fotos antigas da família, mas mesmo a contra gosto ficou olhando e ouvindo a tia falar da moça, o quanto era inteligente e bonita desde criancinha. 
De repente começaram aparecer fotos bem mais recentes e o detetive passou a interessar-se em ver tais fotos em que Ana estava em cinco delas acompanhada do advogado argentino em locais e épocas diferentes.
Viu-os no estádio do Barcelona assistindo tal time disputando um título. Em outra eles estavam assistindo uma tourada em Madri. Noutra jantavam em um restaurante romântico em Sevilha. Na quarta foto eles estão passeando em um jardim zoológico em Málaga e na quinta e última eles foram fotografados em frente uma limusine fazendo pose antes de embarcar nela em uma praça em Zaragoza.
Até então o detetive Miranda tinha apenas comprovado que a espanhola que se fez passar por loira era pelo menos a assassina do advogado argentino, pois de fato eles se encontraram várias vezes em Zaragoza e outros locais da Espanha.
Nessas fotos ele não viu nada de anormal entre dois namorados apaixonados, mas mesmo assim solicitou permissão para reproduzi-las em uma máquina de escâner para leva-las consigo e obteve tal permissão da senhora que nessa altura estava totalmente embriagada.
Levou os retratos para o Brasil e em São Paulo, examinou-os aumentando seu tamanho e só viu um amontoado de pessoas ao redor do casal já morto e nada que pudesse determinar-lhe alguma pista.
Procurou vários amigos policiais incluindo o detetive Grozzi, mostrando-lhes as fotos e eles também nada viram além do casal de namorados que contrataram os bandidos para matar o casal de idosos.
Tinham certeza que eles participaram da morte dos contratados, mas pelas fotografias nada viram além deles já mortos e enterrados, portanto não tinham absolutamente nenhum vestígio para descobrirem quem estava por trás de tudo, se é que tivesse alguém, embora todos tinham como certo que eram os filhos dos idosos multimilionários.
O detetive Grozzi pediu ao detetive Miranda para mostrarem os retratos a Dona Rute, que com seus olhos de lince poderia ver alguma coisa que pudesse orientá-los em alguma pista.
Ambos foram procurar Dona Rute no bar do baiano, pois era em um sábado e ela sempre estava lá após vinte e uma horas tomando seu guaraná e comendo moqueca de peixe ou acarajé.
A intenção deles era convidá-la em ir ao escritório do detetive Miranda ver as fotos ampliadas, mas nem sequer precisaram falar sobre isso, pois Dona Rute aos ver as fotos em tamanho normal, já lhes perguntou:
·        Vocês dois não viram nada nessas fotos?
·        Claro que vimos. A espanhola e o argentino juntos.
·        E o mandante?
·        No meio dessa multidão de gente que aparecem nas fotos? Onde ele poderia estar?
·        Em todas as fotos ele está aparecendo até bem nítido.
·        Quem é que a senhora está vendo?
·        Olhem bem nessa foto do jogo do Barcelona. Três arquibancadas atrás deles tem um homem de frente com falhas no cabelo que lhe faz duas enormes entradas, com bigode fino e pontudo fumando cachimbo.
·        Estou vendo e daí? Tem milhares de caras, além dele, aos lados, assim como na frente e atrás deles assistindo o jogo.
·        Porque a senhora aponta esse bigodudo?
·        Ele está novamente próximo a eles na foto do zoológico, que foi tirada em outra ocasião.
·        Não o vejo em lugar nenhum.
Responderam os dois homens ao mesmo tempo.
·        Ele está ao lado esquerdo do argentino praticamente de costas, mas seu rosto está de perfil olhando-os como se estivesse vigiando-os.
·        Não percebo semelhança nenhuma entre esse cara que está nessa foto com o outro do futebol.
·        Nem eu. Disse o detetive Grozzi concordando com o detetive Miranda.
·        Vejam bem onde estou apontando com meu dedo. O perfil desse rosto dá para ver pelo menos uma entrada da calvície de sua testa, parte do bigode fino e pontudo e também o cachimbo que ele usa é exatamente o mesmo do outro.
·        A senhora tem razão. A semelhança é grande. Qual a terceira foto em que ele aparece?
·        Vejam meus queridos detetives. No retrato dentro do restaurante em uma mesa bem longe deles, à esquerda na fotografia ele está novamente de frente assentado sozinho como se estivesse comendo, mas a mesa está sem nenhuma comida. Ele está lá só vigiando o casal. Está muito pequeno, mas se aumentarem o tamanho da foto vão perceber que é a mesma pessoa, pois está de frente.
·        A senhora é ótima Dona Rute.
·        Infelizmente a foto da tourada foi tirada muito de longe, mas mesmo assim dá para vê-lo quase ao lado do argentino e novamente está de frente. 
·        Se ampliarem bastante vão vê-lo em todas as fotos, sempre próximo ao casal.
Na foto da limusine, dá para vê-lo no outro lado da rua. Praticamente só sua testa que está aparecendo, mas é a mesma cabeça com as falhas de cabelos.
·        Vou ampliar bastante essas fotos e farei isso ainda hoje em meu escritório. Vou já para lá. Vem comigo detetive Grozzi, ou vai ficar fazendo companhia para Dona Rute?
·        Ela quem decide se prefere que eu fique com ela ou se vou com você.
·        Vá com ele Grozzi, e telefone-me se concordam comigo que em todas as fotos aparece sempre o mesmo homem bem próximo ao casal.
·        Boa noite Dona Rute.
·        Boa noite para vocês também.
·        Eu telefono-lhe informando se encontramos o mesmo homem em todas as fotos conforme a senhora vê.
Eles ampliaram a foto do restaurante e conseguiram ver que o homem que estava em uma mesa longe, era realmente parecido com o outro das outras fotografias.
Os dois detetives, ampliaram a foto da tourada, milímetro por milímetro e acabaram por conseguir localizar o mesmo homem já visto em três outras fotos.
O retrato fora tirado dos dois namorados, pegando muita gente, mas o homem estava sempre fotografado em todas as fotos, inclusive na da limusine onde se via apenas a testa, tais falhas no cabelo deixava relativamente claro tratar-se do mesmo indivíduo.
Considerando a visão privilegiada de Dona Rute era bem possível que tivessem encontrado o mandante de tais crimes. Restava saber quem era aquele fulano.
O detetive Grozzi telefonou para Dona Rute, concordando que ela tinha razão e que era sempre o mesmo homem em todas as fotos e ela simplesmente respondeu-lhe:
·        Ponha o detetive Miranda na linha.
·        Pois não, Dona Rute. É o Miranda falando.
·        Eu sei. Já lhe disse que conheço sua voz.
·        O que quer falar comigo?
·        Pedir-lhe para pegar os mandantes dos vários crimes.
·        Como eu farei isso?
·        É muito simples. Leve as fotos para os parentes do casal em Vitória e confirma com eles se o cara que aparece nas fotos é um dos filhos do casal assassinado. Eles vão reconhecer se for, pois afinal de contas eles não se veem a apenas três ou quatro anos, portanto quando se é adulto esse pequeno espaço de tempo não dá para mudar praticamente nada na fisionomia das pessoas.
·        Se eles confirmarem que realmente é um dos filhos do casal assassinado como vou convencer o delegado de Vitória de prender os quatro, até porque ninguém sabe onde estão.
·        Infelizmente terá de voltar a Lugano, pois é bem provável que o amante de espanhola deve tê-la visitado algumas vezes lá onde ela fazia programas sexuais. Pode encontrar alguém que o tenha visto com ela e isso já é uma excelente prova de que ele a conhecia.
·        Mas mesmo que aconteça isso como achá-los?
·        Basta esperá-los vir reclamar a herança e prendê-los.
·        Farei isso. Boa noite e mais uma vez muito obrigado pela ajuda. Quer voltar a falar com o Grozzi?
·        Dê-lhe boa noite por mim.
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Novamente o detetive Miranda voou para Vitória e com o delegado e os familiares do casal assassinado estiveram em reunião, onde o detetive contou-lhe tudo que fez e o que descobriu e ao mostrar-lhes as fotos ampliadas, não só os parentes do casal como o próprio delegado reconheceu e concordou que aquela pessoa que aparece em todas as fotos é de fato um dos filhos do casal. É o caçula de todos e chama-se Jardel.
Nas fotos do jogo de futebol, na do zoológico, do restaurante e da praça de touradas reconheceram com certeza o Jardel, como sendo o homem sempre próximo ao casal. Apenas o retrato em que aparecia só a testa e os cabelos com as duas entradas, pois todo o restante do corpo estava encoberto pela limusine que não estava muito determinante, mas era bastante provável ser ele também, portanto ficou confirmado que pelo menos esse filho sempre aparecia ao lado dos namorados assassinos, porém esse fato confirmava apenas sua presença perto deles, mas nada o incriminava de ser o mandante, ou um dos mandantes.
Os outros irmãos que não apareceram em nenhuma foto eram o Sílvio, o Dante e o Sócrates Jr.
O detetive Miranda soube que Jardel, mesmo antes de mudar-se para Londres, já tinha as entradas provenientes da calvície precoce e talvez para compensar essa falha capilar já usava o bigode bem grande e pontiagudo conforme aparecia nas fotos apresentadas e que já fumava cachimbo desde os tempos que morava em Vitória.
O delegado disse ser quase inquestionável a participação de Jardel, mas poderia ser uma incrível coincidência ele aparecer tantas vezes perto da prostituta com o namorado argentino, mas isso não seria motivo suficiente para incriminá-lo como mandante do assassinato de seus pais até porque ele jamais fora fotografado conversando, ou mesmo ao lado do casal. Apenas aparecia perto deles em vários lugares e datas diferentes, mas não era nenhum prova real de sua participação em nada, portanto poderia realmente ser uma quase impossível coincidência que por obra do destino fez isso acontecer. Aparentemente eles nem se conheciam, e por isso precisavam de muito mais provas para incriminá-lo e foi neste momento que o detetive Miranda informou-os que fariam nova viagem a Lugano para tentar descobrir se era uma incrível coincidência mesmo ou se ele era o namorado, ou o amante da prostituta, que comprovadamente matara o advogado danificando-lhe o carro, embora a polícia da Argentina tenha considerado tal fato como um simples acidente.
Os brasileiros sabiam que não fora um desastre e sim um crime, mas nada poderiam fazer, a não ser acatar o que delegado de lá determinou.
Na época vieram legistas e policiais de Buenos Aires até Vitória e reconheceram os criminosos como sendo bandidos muito conhecidos lá como homicidas profissionais, inclusive levando seus corpos para serem cremados e suas cinzas serem devidamente lacradas em um recipiente feito de chumbo e cerâmica e enterrado em uma profunda cova feita de concreto bem grosso e forte para evitar mais radiações letais, pois o veneno que os matou foi realmente o polônio 210.
A polícia argentina simplesmente não se preocupou em querer desvendar a assassinato do advogado que além de péssima pessoa já tivera contato com tais assassinos envenenados, por tê-los defendido em um de seus crimes na própria corte argentina onde os defendeu de forma brilhante, conseguindo suas solturas como inocentes. O delegado entendeu que ele era realmente o principal suspeito de ter contratado os matadores do casal de idosos e também de tê-los envenenado, portanto cremos que o ele próprio julgou-o e o resultado de sua sentença foi realmente sua pena de morte, sem mais detalhes.
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Nova viagem a Lugano foi feita pelo detetive Miranda que desta vez levou um cartão de crédito internacional, ofertado pelos seus contratantes, para usá-lo a seu critério, para qualquer despesa extra, como subornos, gorjetas, viagens, propinas e etc. que por ventura fosse precisar para descobrir tudo que fosse necessário para finalmente conseguir provas de que foram os filhos do casal, os mandantes de seus assassinatos.
Sabedor que o delegado federal da Suíça não o ajudaria em nada, por total falta de interesse em complicar algum magnata de seu país que poderia ser o assassino de uma prostituta que inclusive não era de lá, ele não o procurou, assim como não recorreu a nenhuma autoridade daquele país.
Decidiu que iria trabalhar sozinho e com certa facilidade, pois ele sabia muito bem comunicar-se em italiano que era a língua predominante no lugar.
Já dentro do hotel Holiday Inn Lugano Centre onde já tinha se instalado anteriormente, decidiu exatamente na hora de preencher sua ficha de hóspede pensar um pouco mais.
Encostado no balcão de atendimento começou coçando a cabeça, depois o queixo e fechou fortemente os olhos para o espanto de todos que o viram assim, que boquiabertos educadamente ficaram aguardando.
Depois de aproximadamente uns três minutos voltou a si e sem nada falar com ninguém saiu apressado do hotel, indo diretamente procurar hospedar-se no apart hotel onde a esponhola assassinada morava em um flat.
Descobriu que tal edifício tinha vago exatamente o flat onde a moça morava quando foi assassinada. Era exatamente isso que ele queria. Portanto alugou-o por um mês pagando adiantado.
Sua esperança era que alguma amiga ou mesmo um cliente a procurasse lá, embora ele soubesse que o assassino jamais voltaria.
Poderia através de outras pessoas que a conheceu colher informações que poderia possibilitá-lo em encontrar o Jardel.
Ficou literalmente preso ao apartamento durante oito dias, sem sair sequer para almoçar e ninguém, além das camareiras tocou a campainha procurando a antiga moradora, por isso ele decidiu que não seria assim que descobriria nada, por isso mudou de tática.
Resolveu subornar uma atendente de quarto e através de uma delas, soube que Ana Margarita tinha uma amiga íntima que dançava e morava em uma boate, pois sorrateiramente ouvira isso em uma conversa entre elas.
A informante não sabia o nome da moça, nem da boate, mas imaginava ser perto, pois as visitas da amiga sempre foram muito frequentes.
Por tê-la visto muitas vezes soube descrevê-la muito bem, com todos os detalhes de sua fisionomia.
Disse que ela também deveria ser espanhola, pois elas só conversavam nessa língua.
A única pista a ser seguida era essa e foram seis noites consecutivas que o detetive visitou várias boates até conseguir localizá-la, mas para evitar que a moça lhe escapasse ou negasse qualquer informação, decidiu contratá-la por um alto preço, para um programa sexual.
Chamou-a para perto de si e quando ficaram frente a frente o detetive ficou encantado com sua beleza, mas ao mesmo tempo imaginando-a outra pessoa que não conseguia se lembrar.
Felizmente para ele, não lhe aconteceu de ter seu costumeiro cacoete e conversaram normalmente em italiano.
Ela apresentou-se e ele fez o mesmo, entretanto com nome e profissão falsos e ofereceu-lhe uma importância bastante alta por seu trabalho de garota de programa e pediu-lhe para que ela fosse procurá-lo no flat onde estava hospedado, depois que ela terminasse seu show de strip tease.
Ao fornecer-lhe o endereço, ela recusou visitá-lo naquele local, dizendo-lhe:
·        Meu amigo Luiz. Nesse local não posso atendê-lo. Vamos marcar em meu flat que fica aqui ao lado da boate. Pode ser?
·        Qual é o problema em ir até o meu Agostina?
·        Naquele flat eu não volto, mas se nosso encontro for confirmado em meu apartamento é só me aguardar terminar o show e em casa eu lhe conto porque eu não vou lá.
·        Quanto tempo demorará para sair da boate?
·        Não mais de uma hora, pois já estão chamando-me para o camarim, pois logo será meu show.
·        Tudo bem. Eu a espero.
·        Então um beijão, meu coroa simpático e gostosão.
·        Aguardo-a no bar.
·        Acaba de contratar e não vai ver-me na arena dançando nua?
Detetive Miranda percebeu sua mancada, pois a esperaria não para investigá-la conforme pretendia, pois o acordo era para transarem, por isso seria o mais lógico vê-la fazendo strep tease e para isso deveria ficar bem próximo ao tablado e não no bar que era distante, mas ao ser chamado a atenção por ela, imediatamente e com competência e sedução corrigiu-se dizendo-lhe:
·        Não quero ver seu show, pois quero um exclusivo muito mais sensual, quando estivermos a sós.
·        Que romântico. Então até logo mais e não beba muito.
·        Fique tranquila que beberei só um Kirsch enquanto você se apresenta.
·        Granbetijomíoamor.
·        Outro maior ainda para você, querida.
O detetive ao chegar ao bar lembrou-se de Dona Rute e ao invés de pedir a tradicional bebida alcoólica da região, solicitou um guaraná brasileiro e ficou fazendo hora com ele, pois não poderia se embriagar, pois tinha de estar lúcido, para exercer o ato sexual que seria inevitável e principalmente porque deveria estar muito sóbrio para conduzir a conversa de maneira sábia para que a espanhola lhe contasse tudo que sabia a respeito de Ana Margarita e seu namorado ou amante brasileiro.
Essa uma hora de espera pareceu-lhe uma eternidade, principalmente por que não pensava em nada para conversar com a moça aguardada. Se fosse falar sobre o crime iria assustá-la e espantá-la de sua presença.
Sua única chance de voltar a ter alguma orientação para elucidar o caso que investigava era através de Agostina e de forma alguma ele poderia assustá-la.
Apenas e tão somente iria fazer uma primeira pergunta e aguardar o que ela falaria, imaginando que ela contasse tudo o que precisava saber, sem perguntas diretas e investigativas.
Teria de ser gentil e educado ao perguntar-lhe coisas aparentemente sem importância, mas que a levaria a contar o que ele realmente precisava saber.
Finalmente ela chegou após seu número e o chamou para saírem, caso ele não tivesse se arrependido.
Não houve mudança nos planos dele e por isso ela exigiu ainda dentro da própria boate o dinheiro prometido para que o mesmo fosse guardado lá mesmo, para não cair em alguma estratégia que era muito comum ser aplicada por homens desonestos, que ofereciam enormes quantidades de dinheiro e depois de satisfeitos não só não pagavam como até lhes batiam por suas justas e exigentes cobranças.
Sem nada conversar o detetive aceitou o combinado e foram sem sequer uma palavra, ou um afago, como se fossem duas pessoas totalmente estranhas para o apart hotel onde Agostina morava e fazia seus programas.
Ela não achou nada estranho a falta de pegada do homem, pois isso até já era uma prática comum.
Em qualquer cidade pequena como Lugano, esse fato era corriqueiro, pois muitos cidadãos tidos como bons maridos evitavam se mostrarem abraçados ou conversando com prostitutas enquanto estivessem nas ruas.
Entraram em silêncio e já instalados no apartamento, o detetive ficou quase que hipnotizado ao ver um quadro cuja pintura era ela de corpo inteiro em tamanho natural pendurada na parede, vestida muito sobriamente e com semblante de mais nova alguns anos.
Quanto mais ele olhava para a pintura, mais certeza ele tinha de conhecer aquela mulher, entretanto sem saber exatamente de onde.
Sem falar nada, apenas olhava demoradamente ao quadro e depois à moça que o aguardava assentada a seu lado na cama acariciando-lhe as mãos, até que finalmente ele falou:
·        Porque não quis visitar-me em minha hospedagem?
·        Simplesmente porque aquele apartamento pertenceu a minha única amiga íntima que foi assassinada lá dentro.
·        Aconteceu isso?
·        Infelizmente sim. Mataram Ana Margarita com um tiro no coração.
·        Quando foi isso?
·        Dia doze de janeiro, portanto há um mês.
·        Por isso foge daquele flat?
·        Sim. Eu jurei para mim mesma que jamais voltaria aquele lugar onde a visitava com muita frequência, enquanto seu assassino não fosse devidamente punido pela justiça.
Começou a chorar após tais recordações e o detetive percebendo que naquele momento ela precisava era de apoio, consolou-a com afagos carinhosos próprios para o momento, no alto de sua cabeça e em suas faces.
Enxugou-lhe as lágrimas com as costas de sua mão e continuou acariciando-a por longo tempo, em completo silêncio e também muito angustiado e comovido, sem saber exatamente por que se sentia assim na presença dela.
Quando a moça acalmou-se um pouco ele voltou a perguntar-lhe:
·        Era sua parenta?
·        Não. Mas aqui em Lugano era como se fosse minha própria irmã.
·        Ela não era suíça?
·        Não. Espanhola como eu. Viemos do mesmo lugar, embora lá eu não a conhecesse. Só fiz amizade com ela aqui em Lugano. A propósito Luiz você é de onde?
·        Do Brasil.
·        O que faz lá?
·        Sou aposentado e antes fui torneiro mecânico.
·        É o famoso Lula?
·        Quem me dera. Ele foi nosso presidente da república e eu um simples torneiro mecânico aposentado e não tenho, nunca tive e nem pretendo ter nenhum cargo político e tenho todos os dedos da mão. Pode conferir.
·        Como veio parar aqui?
·        Sou viúvo, mas quando casei passei minhas núpcias na Itália e vim até Lugano para voltar ao Brasil pelo aeroporto daqui. Achei a cidade muito bonita e quis voltar para conhecê-la.
·        Está viúvo recente?
·        Não. Faz muitos anos que estou sozinho.
·        Deixe comigo, que logo que acabar minha tristeza serei uma excelente mulher para lhe agradar.
·        Não se preocupe com isso.
·        Os brasileiros são muito fogosos e exigentes por isso até peço desculpas por minha falta de trabalho, mas logo passa.
·        Se ainda não lhe disse, digo agora. Não precisa se preocupar com sexo, pois poderemos ficar apenas conversando o tempo todo que meu pagamento permitir-me ficar com você.
·        Falando sobre o que?
·        Por exemplo. Você disse que os brasileiros são muito fogosos e exigentes. Tem sido procurada por muitos de meus conterrâneos.
·        Não se importa de eu falar de outros homens estando com você?
·        Absolutamente. Serei apenas mais um caso em sua vida, portanto não sentirei ciúmes nenhum em ouvi-la falar de outros. Aliás, até gostaria mesmo de saber sobre os tais brasileiros amantíssimos com os quais fica.
·        Não tenho nenhum homem fixo, nem brasileiro e nem de lugar nenhum. Isso gera muitos problemas. Algumas vezes por ciúme e outras por cafetinagem que é muito pior.
·        Mas costuma ficar com brasileiros?
·        É muito raro encontrá-los por aqui, mas já transei com três irmãos do namorado de Ana Margarita.
·        Com os três ao mesmo tempo?
·        Não. Nunca faço orgias. Sempre fico com um homem só.
·        Entendi. É que você disse ter ficado com três irmãos.
·        Em épocas diferentes, mas isso aconteceu há mais de dois anos, depois simplesmente eles nunca mais voltaram aqui e nunca mais os vi. 
·        Posso saber seus nomes?
·        Não, pois nem sei quem é e mesmo que confiasse muito em você, não delataria nenhum cliente para ninguém.
·        Tudo bem. Não vou insistir. Fale apenas o que quiser dizer.
·        Os nomes geralmente são falsos e mesmo que eu os falasse não iriam representar nada. Tenho certeza que o seu não é Luiz.
·        Acertou. Chamo-me Caio. Caio Miranda.
·        Prefiro continuar chamando-o de Luiz mesmo.
·        Já está melhor ou continua sofrendo pela perda de sua amiga?
·        Jamais deixarei de sofrer quando lembrar-me de Ana Margarita.
·        Esse era o nome dela?
·        Sim.
·        Verdadeiro?
·        Sim. Assim como o meu. Sempre usamos nossos próprios nomes, pois podemos ser indicadas por alguém que gostou da gente e sempre só temos um nome para não sermos confundidas, portanto sempre usamos nosso nome verdadeiro.
·        Entendo.
Essa sua amiga também ficou com esses brasileiros?
·        Não. Ela era amante de apenas um deles. Melhor dizendo de outro irmão deles.
·        O quarto irmão? Você o conheceu?
·        Sim. Era o bigodudo que vivia fedendo a cachimbo. Ele sempre vinha procurar por Ana, antes de seu assassinato.
·        De onde esses irmãos eram do Brasil?
·        Já falei muito mais que devia. Vamos mudar de assunto. Quer que eu comece meu strep tease?
·        É claro. Se já sentir-se despreocupada estou ansioso para vê-la nua e depois amá-la com toda minha ânsia de brasileiro fogoso.
·        Primeiro vou tomar um bom banho. Já voltarei.
Após seu banho, Agostina retornou e encontrou o detetive Miranda dormindo e para não incomodá-lo, simplesmente deitou-se a seu lado sem tocar nele e também dormiu até o dia clarear.
Só dias depois que ela soube que o detetive não estava dormindo e sim fingindo dormir, pois ele tinha descoberto o que o impressionava vendo-a e decidiu que não teria relações íntimas com ela.
O detetive acordou alguns minutos depois dela e se dispôs a ir embora, pois estiveram desde as duas horas da manhã até as sete, portanto sentiu que seu tempo tinha se esgotado, mas ela ao perceber sua atitude o impediu, dizendo:
·        Lula. Não é só por sua grande simpatia, mas principalmente pelo valor que me pagou que você tem o direito de ficar comigo o dia inteiro. Se quiser, é claro.
·        Ah é?
·        É lógico. Simplesmente ofereceu-me sem sequer perguntar quanto eu cobro por programa, e o que ofertou-me foi o suficiente para oito programas, o que lhe dá o direito de ficar comigo dezesseis horas consecutivas, ou seja das duas da manhã quando contratou-me até as dezoito horas de hoje.
·        Velho como sou não terei toda essa disposição. Se preferir poderemos usar nosso tempo para passearmos pelos parques, praças e shoppings da cidade? Pode ser assim? Conversaremos, almoçaremos e divertiremos juntos?
·        Com certeza meu dia inteiro será dedicado a você. Só preciso estar de volta à boate ás vinte e duas horas, antes de iniciarem os shows.
·        Nesse apart hotel tem alguma loja de roupas masculinas, para eu comprar algumas para não ter de ir até onde estou hospedado para me trocar?
·        No piso tem várias lojas onde encontrará o que precisar.
·        Então vou até lá comprar algumas roupas e volto para lavar-me e trocar para sairmos e fazermos belos passeios.
·        Estarei pronta esperando-o.
Depois de o detetive adquirir suas vestimentas ao estilo italiano, retornou ao flat da garota e ainda perguntou-lhe antes de se assear:
·        Qual sua idade. Sem mentir.
·        Tenho trinta anos.
·        Exatamente a idade que teria minha filha, se ela e sua mãe não tivessem morrido no parto.
·        Que tristeza. Perdeu as duas ao mesmo tempo?
·        Sim. Minha esposa era espanhola como você e é por isso que aprendi falar espanhol. Casei-me com ela quando ela tinha apenas vinte anos e morreu quando estava com vinte e seis.
·        Você disse que aprendeu espanhol com sua esposa, mas fala muito bem o italiano.
·        Foi em casa que aprendi, pois meus pais eram italianos.
·        Então fala três línguas diferentes?
·        Diferentes até certo ponto, pois tanto o idioma português como o italiano e o espanhol são muito parecidos.
·        Realmente.
·        Posso considera-la como sendo a filha que nunca tive?
·        Arrumei um pai?
·        Não me respondeu se posso tratá-la como filha?
·        É claro paizinho. De agora em diante faremos sexo incestuoso?
·        Não. Não tenho muita necessidade de sexo e já me dou por satisfeito apenas com sua presença. Gostaria de aproveitar esse dia para passearmos realmente como pai e filha.
·        Combinado. Vamos aos nossos passeios assim que o senhor se aprontar.
·        Também não precisa levar tão a sério nosso parentesco, chamando-me de “senhor”. Pode chamar-me com meu verdadeiro nome que é Caio, ou Miranda que é meu sobrenome ou Luiz como já disse ter preferido.
·        Continuarei chamando-o de Luiz, ou melhor, vou colocar-lhe o apelido de Lula e tratá-lo assim.
·        Como queira minha adorada Tina, pois esse será nome que adotarei para você.
·        Minha amiga assassinada, também me chamava de Tina de vez em quando.
Saíram em visita a vários lugares realmente maravilhosos que a moça o levou em seu próprio carro e ainda antes do almoço, graças ao excelente tratamento carinhoso dispensado por ele à garota, ela já se sentia verdadeiramente sua filha, ou próximo a isso, portanto após almoçarem e voltarem ao flat para descansarem um pouco o detetive resolveu tentar investir em sua verdadeira necessidade, voltando ao assunto de seus amantes brasileiros.
·        Seus amigos brasileiros moram onde no Brasil?
·        Eles não moram no Brasil. Vieram de lá e atualmente moram no Reino Unido.
·        Na Inglaterra?
·        Não. Moram na Irlanda do Norte.
·        Todos eles?
·        Sim. Disseram que moravam todos juntos, por serem solteiros. Não sei se é verdade ou não, mas falaram isso.
·        O namorado de sua amiga também mora com eles?
·        Ela sempre me disse que João Paulo mora com os irmãos na Irlanda do Norte.
·        O nome dele é João Paulo?
·        Falei sem pensar, mas já que falei não vou negar. Esse era o nome que ele dizia chamar-se à Ana Margarita e que ela sempre me disse.
·        Eles vieram de São Paulo para a Irlanda do Norte?
·        Não. Vieram de outro lugar no interior do Brasil, para Londres, mas depois de algum tempo foram para lá.
·        Tem certeza do que fala?
·        Tudo isso foi contado por eles, portanto pode ser verdade, da mesma maneira que tudo pode ter sido inventado.
·        As vezes não. Nem sempre nós homens mentimos. Meu nome, minha origem, minha grande perda tornando-me viúvo não são mentiras.
·        Deu para entender que sua profissão e sua aposentadoria não é verdade.
·        Se quiser pensar assim não posso fazer nada.
·        Está bem. Acredito que seja aposentado como torneiro mecânico e que está aqui a passeio.
·        Ótimo. Aonde iremos depois de descansarmos um pouco.
·        Vou levá-lo para esquiar. Gosta?
·        Não tenho nenhuma habilidade com os esquis, mas poderei ficar vendo-a divertir-se na neve.
·        Então vamos mudar de programa porque eu também não sou esquiadora.
·        Qual será o novo passeio?
·        Visitaremos o zoológico, o planetário e outros lugares próprios para sua filhinha levá-lo.
Deixe comigo que diversões eu conseguirei para nós nos curtirmos.
Foi no zoológico que Agostina tornou a ficar triste e voltou a falar sobre a amiga assassinada.
·        Sinto muita falta dela.
·        Dela quem? De sua mãe?
·        Não. Desde pequenina fui criada em um orfanato até quatorze anos e depois nas ruas mesmo. Sinto falta é de Ana Margarita.
·        A sim. Tinha me esquecido dela. Ela era sua prima, não?
·        Não Lula. Está senil? Ela era minha grande amiga. Desde que ela apareceu por aqui nos tornamos íntimas, mas mais ou menos de dois anos para cá ela ficou muito esquisita comigo.
·        Como esquisita?
·        Ela me tratava apenas como uma colega de serviço qualquer e não como uma amiga que éramos desde que nos conhecemos.
·        E isso lhe aborrecia?
·        É claro. Sempre que eu a procurava ela falava que estava com viagem marcada para o mesmo dia ou para o outro e não me contava mais nada. Muitas vezes eu ficava sabendo ainda na entrada do apart que ela não estava porque tinha viajado sem que ela me falasse antes e coisas assim, que sempre ela confidenciava a mim. Nunca mais fiquei sabendo nada sobre ela.
·        Nada sobre o que?
·        Sobre suas novas amizades, seus novos homens e nem sobre os antigos e muito menos ainda sobre suas viagens constantes.
·        Nunca soube para onde ela viajava?
·        Absolutamente nada.
·        Então ela começou deixá-la fora de suas intimidades?
·        Sim.
·        Tinha a impressão que ela estava com algum projeto e que eu não podia saber nada sobre ele.
·        Porque acha isso?
·        Vamos deixar essa conversa de lado e vamos aos nossos passeios. Uma coisa é certa, pois eu  gastaria todo o dinheiro que tenho guardado além de vender meus pertences para pagar quem descobrir quem foi o hijo da ramera que matou minha amiga.
·        Então vamos ao nosso passeio e deixa o filho da puta para a polícia descobrir.
·        Não vão levantar uma palha para isso. Aqui temos nossa profissão reconhecida e considerada normal como qualquer outra, entretanto só as leis nos amparam, pois as pessoas nos odeiam.
·        Os homens não.
·        Só quando nos usam, pois fora disso nos odeiam tanto quanto suas mulheres consideradas honestas e decentes.
·        Acho que em todos os lugares do mundo acontece a mesma coisa.
·        Você acredita que a polícia daqui estava inquieta e doida para prender-me alegando ter sido eu a assassina de Ana?
·        Que motivo alegaram?
·        Só porque sou estrangeira, garota de programa e sempre frequentava a casa dela.
·        Eles são assim? Racistas e preconceituosos?
·        Demais.
·        Como aconteceu isso?
·        O tiro que a matou, foi ouvido por várias pessoas que só se deram ao trabalho de telefonar avisando a polícia e todos disseram ser antes de meia noite, inclusive constatado pela perícia que ela morreu as vinte e três horas e cinquenta e dois minutos.
·        Ninguém saiu de seus apartamentos para ver o assassino abandonando o local, após o tiro?
·        Se alguém saiu e viu, não falou nada.
·        Mas porque você ficou como suspeita.
·        Já disse. Foi por preconceito dos policiais.
·        Como se safou.
·        No dia que aconteceu o crime, mais de quatrocentas pessoas estavam na boate e testemunharam que eu estava lá fazendo meu trabalho que iniciou vinte e três horas e durou até zero hora e trinta minutos, portanto quando ela foi morta eu jamais poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo e por isso pararam de perseguir-me e simplesmente abandonaram o caso encerrando-o como crime sem solução.
·        Talvez tenha sido algum magnata daqui mesmo.
·        Pode ter sido e não vale a pena para a polícia prender um ricaço que assassinou uma mulher que além de estrangeira também era prostituta.
·        Ela não tinha o Jardel como seu amante fixo?
·        Quem é Jardel?
·        O brasileiro amante dela.
·        O nome dele é João Paulo e não esse nome que falou.
·        É o apelido que agora estou dando para ele.
·        Bem esquisito esse apelido que você arrumou. Jardel não tem nada a ver com João Paulo.
·        Ambos começam com a letra jota.
·        Então porque simplesmente não o chama de Jota?
·        Já que disse o nome dele porque não me diz de seus irmãos.
·        Desculpe-me paizinho, mas esse papo já está irritando-me. Vamos mudar de assunto?
·        Como queira.
Foi uma tarde maravilhosa para ambos que se tornaram de fato muito amigos, tal qual um pai carinhoso e uma filha também afetuosa.
O sentimento que tomou conta deles era verdadeiro. Não era nenhum artifício que o detetive usava para descobrir os filhos do casal assassinado e tampouco a garota de programa estava fingindo gostar tanto dele para surrupiar-lhe o dinheiro.
O detetive Miranda encheu-a de presentes e ela chorou quando ele deixou-a próximo das vinte e duas horas na porta da boate, voltando para seu apartamento, simplesmente dizendo até qualquer outro dia.
oooOooo
Em sua cama o detetive Miranda refletiu muito sobre tudo que ficou sabendo, mas precisaria saber muito mais coisas, por isso e por saudade de Agostina na noite seguinte procurou-a na boate.
Ela ficou felicíssima quando o viu e foi até ele perguntando:
·        Lula. Está aqui por que veio procurar nova companhia? Uma garota bem mais jovem, por exemplo? Eu posso apresentá-lo à várias se for isso.
·        Não. Vim aqui por sua causa mesmo. Quero contratá-la novamente inclusive como da primeira vez, abrindo mão de sua dança erótica e de sexo.
Gostaria apenas de ficar com você toda a madrugada e o dia seguinte novamente só passeando e conversando, pois de fato me afeiçoei a você como a uma filha.
·        Que maravilha. Estou feliz que pensa assim, pois meu sentimento com o senhor é completamente diferente que com os outros homens. É uma emoção nunca sentida que creio que seja o verdadeiro amor que uma filha sente por seu pai.
·        E com os outros o que sente?
·        Além de nojo, simplesmente mais nada.
·        Então pegue o dinheiro de seu pagamento, que vou para o bar esperá-la sair.
·        Vou aceitar apenas uma parte do dinheiro que é o que terei de pagar a boate para sair à noite toda, e o restante que seria para mim não aceitarei.
·        Deve aceitar sim, pois é exatamente com o que recebe aqui que lhe permite pagar suas contas. Enfim manter sua vida, portanto não aceito que me devolva nada. Não me fará falta e, entretanto para você servirá para muitas coisas.
·        Obrigada Lula. O senhor é maravilhoso.
·        Já é a terceira vez nessa conversa que me chama de senhor, portanto pode parar com isso.
·        Tudo bem. Mas também não o chamarei de meu homem.
·        Continue chamando-me de Lula que é como você gosta.
·        Como agora é ainda muito cedo para eu poder sair pode esperar-me em minha casa. Dou-lhe as chaves e você fica lá, se preferir é claro. Se achar melhor ficar aqui fique a vontade no bar, que após meu show nós sairemos juntos.
·        Vou esperá-la e desta vez vou assistir seu strep tease pertinho do palco para aplaudi-la.
Acabado o show, Agostina veio ao encontro do detetive Miranda e disse-lhe ter ficado envergonhada quando ficou nua em sua frente.
·        Nossos sentimentos são de fato sinceros e decentes, mas não sou seu pai.
·        Eu sei, mas fiquei acanhada ao vê-lo me olhando.
·        Pois eu fiquei orgulhoso de você dançar tão bem o strepe tease. É a melhor de todas, por isso que é tão aplaudida.
·        Obrigada pelo elogio.
Novamente foram para o flat da moça, porém desta vez de mãos dadas, balançando-as como um pai conduz uma filha.
Conversaram muitas coisas rotineiras da moça, assistiram filmes na televisão até que o sono veio e decidiram dormir, para no outro dia novamente se divertirem na cidade, enquanto o detetive aos poucos ficar sabendo sobre Ana Margarita.
Embora Agostina quisesse dormir no sofá, para ceder sua cama para o detetive e ele também querer o mesmo, acabaram por entrar em acordo e dormiram juntos na mesma cama, inclusive abraçados sem que a libido de nenhum deles se fez presente. De fato era um amor paternal que tomou conta deles.
No outro dia pela manhã, Agostina levou o detetive até a porta de seu apart hotel e aguardou-o na entrada, pois não quis de forma alguma subir até o apartamento onde morrera a amiga.
Quando o detetive veio ao seu encontro no saguão do prédio encontrou-a chorando e perguntou-lhe:
·        Ainda sofre muito pela perda da amiga?
·        Ana foi a única amiga que tive em toda minha vida e eu gastaria todo meu dinheiro e até me endividaria pagando alguém para punir a pessoa que a matou.
·        Encontrará outras amigas.
·        Como ela jamais.
·        Não me disse que ultimamente ela estava esquisita e nem era mais confidente consigo?
·        Sim. Mas isso não fez com que eu perdesse a esperança de reconquistar novamente sua grande amizade.
·        Chegaram a ficar inimigas?
·        Não. Apenas ela se afastou de mim, não indo visitar-me e muitas vezes quando eu a procurava, sempre ela tinha algo a fazer e muitas vezes nem recebia-me dentro de seu apartamento.
·        Tem ideia do por quê?
·        Absolutamente nenhuma, mas com certeza ela tinha planos que não me incluía.
·        Não seriam planos para alguma coisa errada e ela por gostar de você não quis envolvê-la.
·        Pode até ser, mas não acredito nisso, pois qualquer coisa mais ousada que ela pretendesse, confidenciava comigo e até pedia-me conselhos como se eu fosse sua irmã mais velha.
·        Talvez nesses planos que acabaram custando-lhe a vida ela deixou-a totalmente fora para você não correr o mesmo perigo.
·        Que risco ela poderia ter? Ela era apenas uma garota de programa em um país onde isso é permitido.
·        Talvez alguma coisa pesada. Você não me disse que ela viajou muito no ano que passou?
·        Sim. Viajou bastante, mas sempre era para a Espanha para ver sua família.
·        Como sabe?
·        Porque em todos esses anos que ela está aqui ela os visitava.
·        Com a mesma assiduidade que no ano passado?
·        Realmente não. Anteriormente não ia mais do que duas ou três vezes por ano e no ano passado ela fez mais de quinze viagens. Talvez umas vinte ou até mais.
·        Como sabe que era sempre para ver a família?
·        Não sei. Apenas imagino, pois foi justamente nesse último ano que ela sempre me evitava e nada dizia.
·        Não seria tráfico de drogas?
·        Nunca usamos nenhuma droga além da bebida.
·        Mas ela poderia estar trazendo para algum traficante que resolveu silenciá-la.
·        Não creio, mas até pode ser possível, pois no último ano nunca soube que ela tenha feito programas com nenhum multimilionário e, no entanto trocou seu Monteverdi velho por um carrão alemão zero, além de ter adquirido muitas joias valiosas.
Caso não saiba Monteverdi era um carro fabricado aqui mesmo e já pararam sua fabricação desde 1992 e o dela nem era desse ano. Era mais velho ainda e conseguiu adquirir um Landaulet cujo valor é de um milhão e quatrocentos mil dólares, simplesmente o segundo carro mais caro do mundo.
·        Fale-me dos namorados dela.
·        Esse assunto já está me aniquilando. Desculpe-me Lula, mas não quero mais falar sobre Ana Margarita, pois me faz sofrer muito.
·        Okey. Não a importunarei mais com minha curiosidade mórbida.
·        Obrigada. Vamos nos divertir agora, mas diga-me de verdade por que está tão interessado nela se nem a conheceu?
·        Apenas curiosidade, para tentar entender como alguém deixaria de ser amiga de uma mulher tão maravilhosa como você.
·        Lula. Você nunca perde o cavalheirismo, não é?
·        Quais os programas para hoje?
·        Serão surpresas.
Divertiram-se o dia todo até no horário costumeiro em que detetive Miranda a levou de volta para a boate e despediu-se dela para retornar a seu apartamento, alegando que novamente a procuraria, quando ela lhe perguntou:
·        Porque você não me procura em meu apart após as sete da manhã? Nesse horário já estarei totalmente liberada da boate e você não precisa gastar seu dinheiro nem comigo e nem com a boate.
·        Não aceito, pois eu indo apanhá-la eu impeço-a de fazer programas com outros homens.
·        Está com ciúmes?
·        Não se trata disso, pois nem sou seu amante.
·        Por isso mesmo que nem teria direito a sentir ciúme, ou julga ser meu pai mesmo?
·        Claro que não é nem uma coisa nem outra.
·        Então qual o problema eu sair com outros homens, aliás, já fazem três dias que não faço programa com ninguém.
·         Está sentindo falta?
·        Claro que não. Sexo para mim não representa nenhum prazer e sim trabalho. Infelizmente essa é minha profissão.
·        Concordo, mas quando eu vir buscá-la na próxima vez terei algumas propostas a lhe fazer.
·        Fiquei curiosa. Do que se trata?
·        Nada ruim para você. Pode confiar em mim.
·        Eu confio.
oooOooo
Passaram-se três noites consecutivas sem o detetive aparecer na boate, pois após telefonar para Vitória e ficar sabendo que um advogado de Londres havia procurado a família dos idosos falecidos, com procurações dos filhos, para tomar posse da herança que por direito lhes caberia se preocupou e sua decisão fora de encontrar os rapazes o mais rápido possível.
Soube que toda documentação era autêntica, registrada corretamente e traduzida por tradutor juramentado e por isso todos os trâmites seriam apenas com a presença do advogado contratado pelos filhos, pois para tal fim deram-lhe plenos e irrestritos poderes para resolver tudo sem suas presenças físicas.
Ao saber do endereço do advogado em Londres foi imediatamente para lá e constatou tratar-se de um escritório idôneo e nenhum funcionário, mesmo tentando suborná-los, não soube absolutamente nada sobre as atividades e residências dos irmãos, pois tal escritório só trabalhava com coisas sérias, honestas e sigilosas, portanto voltou para Lugano já idealizando a única forma de chegar aos irmãos bandidos que ele tinha certeza que eram os mandantes dos assassinatos.
Embora não gostasse nada de seu até então único plano, exercitava seu cérebro ao máximo, mas não via alternativa nessas mais de cinquenta horas seguidas que passou trancado em seu apartamento, sequer se alimentando, telefonando ou atendendo ligações, que foram várias.
Nova noite, nova ida a boate, nova contratação para a Agostina ir com ele para o flat dela e nova felicidade da garota pelo convite ter finalmente acontecido, mesmo demorando todos esses dias, sem nenhum contato.
 Lá chegando o detetive disse-lhe que tinha uma conversa muito importante com ela e para isso, primeiro faria algumas perguntas, ao que ela concordou e ele começou:
·        Você gostaria de ir comigo para o Brasil?
·        Prostituir-me lá?
·        Não. Lá você poderá trabalhar em outra atividade.
·        Nunca soube fazer nada além de satisfazer aos homens que me pagam para isso.
·        Nunca é tarde para se mudar de vida.
·        Preste atenção Lula. Desde bebê vivi mal e parcamente em um orfanato próprio para crianças desamparadas e lá mesmo, os atendentes homens e as mulheres lésbicas já me ensinaram essa única profissão desde que eu tinha menos de dez anos.
Quando completei quatorze anos fui posta na rua e a única coisa que sabia fazer era transar e aqui fora foi muito fácil conseguir fazer o que já fazia de graça para ganhar algum dinheiro e comida.
Fui evoluindo nessa atividade e embora já esteja com trinta anos ainda sou muito requisitada e tenho boas economias para quando eu parar.
·        Sua vida sempre foi assim?
·        Infelizmente sim. Desde criança. Nunca tive orientação de pais, pois eles sumiram, assim como tinha feito a irmã gêmea de minha mãe anos antes, simplesmente deixando-me ainda bebê com poucos dias de nascida com minha avó.
·        Porque então foi parar em um orfanato se estava com sua avó?
·        Porque ela era paupérrima e não tinha a mínima condição de cuidar de mim e a única condição que ela encontrou para que eu pudesse receber pelo menos alimentos e remédios, além dos péssimos ensinamentos foi colocar-me lá. Fiquei com ela apenas dois dias que foi o tempo que ela precisou para conseguir autorização para internar-me.
·        Como sabe sobre isso?
·        Ela raramente visitava-me, mas contou-me sobre tudo isso quando eu tinha nove anos de idade e depois nunca mais voltou.
·        Porque não foi procurá-la quando completou quatorze anos e teve de sair do orfanato?
·         Eu fui e no endereço que me forneceram os vizinhos confirmaram que uma idosa que morava na casa abandonada havia falecido há cinco anos e a casa ruiu e ninguém quis consertá-la. Restava apenas uma parede em pé e o restante totalmente destroçado, portanto ali eu não poderia morar, embora por direito fosse minha casa, mas simplesmente não existia mais nada além de ruinas.
Tentei convencer o pessoal da vizinhança em deixar-me ficar com alguém, mas acho que sabiam que eu não saberia fazer nada decente, provavelmente por já terem conhecimento da única coisa que se aprende nos orfanatos públicos todos me rejeitaram.
Apenas um rapaz que estava sozinho em sua casa deixou-me entrar e em troca do pouco de sua comida que repartiu comigo exigiu-me muitas coisas que eu já sabia fazer de longa data, portanto foi simples para mim, e assim consegui pelo menos um pouco de comida. Combinamos que todos os dias naquele horário eu voltaria para me alimentar em troca de sexo. Ele arrumou-me um cobertor sujo e roto e indicou-me uma calçada ali perto cuja casa estava sem moradores, portanto ninguém iria reclamar de eu ficar na calçada dela.
Tenho certeza que sua intenção não fora por piedade comigo. Ele facilitou-me para eu ficar ali perto para ele ter com quem transar todos os dias. Fazer sexo já era minha rotina no orfanato, porém conseguir comida fora de lá era difícil, a não ser que eu aceitasse a proposta do rapaz, por isso concordei.
Procurei-o durante vários dias, até que decidi sair daquela região pobre para procurar pessoas em um bairro de grã-finos, pois imaginei que lá poderia pelo menos conseguir melhor alimentação.
No último dia que fiquei com ele, contei-lhe minha intenção e devolvi-lhe o cobertor. Ele aceitou talvez porque era o dele próprio, pois era tão pobre quanto todas as famílias que moravam naquele lugar sujo e miserável.
·        Então foi assim que tudo começou?
·        Sim. Não demorou muito e eu já conseguia além da comida, dinheiro e às vezes alguns presentes que eu jogava fora, pois morava nas ruas eu não tinha onde guardá-los e nem para quem dá-los.
·        Tudo isso aconteceu em sua cidade na Espanha?
·        Sim. Em Zaragoza.
·        Como veio parar aqui?
·        Eu já tinha mais de quinze anos, quando um homem me viu e por achar-me bonita de rosto e de corpo convidou-me para eu vir morar em sua boate aqui em Lugano. Vim com ele, mas fiquei apenas seis meses na pocilga que ele chamava de boate, apenas o tempo suficiente para pagar minhas despesas com a viagem que ele gastou comigo.
Nosso trato foi que durante os seis primeiros meses todo o dinheiro que eu cobrava dos clientes ia para ele, que só me dava a comida necessária para viver, a documentação e os exames médicos rotineiros exigidos para o exercício da profissão.
Cumpri o combinado até o final, portanto não fiquei devendo-lhe uma única moeda.
Passado esse meio ano aproveitando a grande clientela que consegui lá confiei em mim e apresentei-me onde estou até hoje, fazendo sucesso dançando e transando com pessoas ricas que me pagam muito bem. Hoje meu preço é superior a de todas as meninas de lá e ninguém questiona sobre isso.
·        No Brasil, tenho certeza que conseguirei emprego decente para você e será comigo mesmo.
·        Não é aposentado? Qual seria esse emprego? Cuidar de você em sua velhice?
·        Também.
·        Desculpe-me Lula. Não sei qual é o valor de sua aposentadoria lá, mas considerando ambas as profissões em toda a Europa, uma prostituta de alto luxo, como é meu caso ganha muito mais que um torneiro mecânico aposentado, ou mesmo em atividade, a menos que você seja o verdadeiro Lula.
O detetive novamente mostrou-lhe as mãos e mandou-a conferir se tinha todos os dez dedos inteiros.
Isso foi motivo de boas gargalhadas de ambos e ele voltou a falar:
·        Logo chegaremos ao ponto de propor-lhe o emprego que lhe aguarda no Brasil. Precisa responder-me mais algumas perguntas.
·        Pergunte o que quiser que se eu puder responder-lhe não me negarei em fazer, pois atualmente gosto e confio em você.
·        Ouvi você falar pelo menos duas vezes que gastaria todas suas economias para descobrir o assassino de sua amiga. Falou isso por impulso, ou realmente teria coragem de fazer isso mesmo para vingá-la.
·        Para conseguir colocar seu assassino na cadeia serei capaz de fazer muitas outras coisas que for necessário, além de gastar todo meu dinheiro.
·        Então preste bastante atenção no que tenho a lhe dizer.
·        Fale que estou atenta.
·        Eu lhe menti, quando disse minha profissão.
·        Eu sabia. Todos os homens são mentirosos mesmo.
·        E por acaso as mulheres não são?
·        Concordo. Somos iguais.
·        Realmente sou aposentado, mas continuo exercendo minhas atividades.
·        Como torneiro mecânico?
·        Não.
·        O que faz para ganhar a vida?
·        Sou aposentado na polícia de São Paulo, como investigador criminal. Depois montei um escritório de detetive particular identificando traições conjugais durante dois anos. Após isso mudei de atividade e transformei meu escritório para desvendar crimes de espionagens industriais e tenho recebido bons lucros nessa nova atividade.
·        E está em férias aqui em Lugano?
·        Não. Em todo o tempo após aposentado na polícia eu ainda presto serviços de auxilio a lei, ajudando os delegados e promotores colocar na cadeia, assassinos misteriosos.
·        Então está aqui investigando algum crime acontecido no Brasil e por algum motivo está me usando, seu ordinário?
·        Calma Tina. Fui contratado por um alto valor e vim aqui para isso mesmo, mas foi atrás de Ana Margarita Aguilara, pois ela namorou, seduziu e contratou um advogado mau caráter na Argentina para ele por sua vez arrumar dois homicidas para assassinar um casal de idosos muito ricos de Vitória e que são justamente os pais desses quatro irmãos. 
Depois ela provocou um acidente em um carro alugado e matou o argentino e simplesmente sumiu, aparecendo assassinada aqui dias depois, portanto estou completamente certo de que tudo foi armado pelos filhos e são eles que quero encontrar. Só lhe procurei porque soube que era íntima amiga de Ana e poderia saber através de você sobre ela e o envolvimento que ela tinha com os irmãos.
·        Porque diz que foi ela?
·        Veja esses retratos falados que eu trouxe hoje com a finalidade de mostrar-lhe.
Foi um golpe para Agostina ver sua amiga disfarçada de loira, tanto no Brasil quanto na Argentina e calada com o rosto banhado em lágrimas ouviu toda a história do detetive, que depois exibiu as fotos dela com o namorado argentino em vários lugares da Espanha, assim como o Jardel aparecendo em todas elas, aparentemente vigiando-a. Quando ela o reconheceu foi com um grito que ela disse:
·        Esse aqui atrás deles no estádio de futebol é o João Paulo. No zoológico embora esteja apenas de perfil dá para reconhecer que é ele também. Em Madri, ele também está próximo deles dentro da arena. Nessa outra foto é novamente ele no restaurante e a testa e parte da cabeça do careca atrás da limusine dá para imaginar ser ele também.
·        Dá para perceber que é ele, só pela testa?
·        Além dessa semelhança, veja que também se percebe um pouco a frente do carro, sua mão e nela tem o inseparável cachimbo.
·        Deixe-me ver. Ninguém nunca tinha visto isso antes de você.
·        Não está nada nítido, pois a imagem está muito pequena, mas dá para perceber isso, embora esteja difícil.
·        Deixe-me ver novamente esse retrato. Você tem razão. Parece mesmo uma mão conduzindo um cachimbo.
·        Conseguiu perceber isso?
·        Só agora que você mostrou-me. Ele se identificava como João?
·        Sim. Agora que estou sabendo de tudo isso que acabou de me dizer sei que só pode ter sido o João Paulo que a matou para calá-la.
·        O verdadeiro nome dele é Jardel Campos de Albuquerque Lins, outros dois irmãos chamam-se Silvio e Dante, completando o nome com a inclusão de “Campos de Albuquerque Lins”. O mais velho é o Sócrates deAlbuquerque Lins Filho.
·        Os assassinos vagabundos identificavam-se como os quatro Joãos. Eles se intitulavam como sendo João Antônio, João Paulo, João José e João Pedro.
·        Tudo falso.
·        Como eu poderia ajudar você descobri-los? Se precisar de dinheiro eu lhe dou tudo que tenho.
·        Tive uma ideia que deve funcionar, mas como eu a acho horrível já a desconsiderei e estou pensando em outra coisa para podermos encontrá-los.
·        O que quiser que eu faça eu farei para pegar pelo menos o João Paulo, que com certeza foi quem matou minha amiga.
·        Falei tudo isso, mas o mais importante que quero conversar com você ainda nada disse.
·        Tem mais coisas?
·        Sim. Ouça com cuidado, pois o que falarei pode confundi-la. Sei que pode ser uma grande coincidência e que nada é real.
·        O que me falará meu paizinho Lula?
·        É exatamente sobre isso.
·        O que? Não vai me dizer que é meu pai verdadeiro que resolveu aparecer trinta anos depois.
·        Não. Não sou seu pai e isso é a mais pura das verdades. A única vez que estive na Espanha foi ao inicio do mês antes de vir para cá.
·        Então o que é?
·        Quando eu a vi pela primeira vez, você me fez lembrar muito de minha falecida esposa. Depois quando vi seu quadro no apartamento, com menos idade, então a semelhança entre você e minha inesquecível Manuela quando morreu no parto é impressionante.
Nesse momento, Agostina assustou-se e fez menção de falar alguma coisa, mas calou-se e continuou ouvindo o detetive.
·        A partir daí viajando em minha imaginação comecei considerar e amá-la, não como minha esposa reaparecida jovem, mas como minha filha morta há trinta anos, pois essa é também a sua idade.
·        Agora me ouça com bastante atenção. Essa surpresa é maravilhosa e pode ser sim algo muito real entre nós, porque na única conversa que tive com minha avó quando estava no internato, foi que minha mãe quando decidiu sumir no mundo deveria ter-me dado para sua irmã gêmea, mas que não fora possível fazer isso porque ninguém sabia por onde ela andava. Sua esposa deve ter sido minha tia Manuela que desapareceu bem antes de eu nascer.
Ela deve ter ido para o Brasil e lá o conheceu e vocês se casaram.
·        Não é possível. Isso está sendo a revelação mais encantadora que jamais imaginei.
Realmente Manuela dizia que não tinha nenhum parente no Brasil. Que tinha apenas uma irmã gêmea e a mãe, mas que tinha perdido o contato com elas, pois talvez elas tivessem mudado para outro lugar.
·        Ela lhe disse de onde era?
·        Zaragoza era sua cidade de nascimento que constava nos próprios documentos.
·        Estranhíssima situação, mas sinceramente não acho que seja nenhuma coincidência. É praticamente certo que você seja meu tio por ter casado com minha tia.
·        Logo que a vi senti uma forte emoção que não sabia por que e só fui pensar nesse sonho quando vi a pintura em sua casa.
·        Por isso que fingiu estar dormindo e não quis ver-me fazendo strip tease para você não se relacionar comigo?
·        Percebeu que eu não dormia?
·        Sim, mas respeitei seu desejo. Imaginei que como teríamos muitas horas você me procuraria depois e deitei-me a seu lado e ambos dormimos.
·        Eu nunca iria fazer sexo com minha filha. É claro que era fantasia minha, mas sentia-a realmente como filha e só agora que estou sabendo que é minha sobrinha.
·        Eu também desde que o conheci há apenas alguns dias já sentia um enorme fascínio por você. Não era uma atração física, mas um amor verdadeiro. Real mesmo, como de parentesco.
Eu acreditava que por eu ter encontrado um homem atencioso e carinhoso e por estar muito carente pela perda de minha única e verdadeira amiga apeguei-me a você.
Na verdade eu estava encontrando meu tio que nunca soube da existência.
·        Sei que meu amor por você é o mesmo.
·        Tudo isso me parece um sonho maravilhoso.
·        Para mim também, por isso que quando lhe disse em leva-la comigo para o Brasil, era e continua sendo meu grande desejo principalmente agora que sei que você é minha sobrinha.
·        O que eu faria lá?
·        Vai trabalhar em meu escritório, como minha secretária, mas primeiro temos de descobrir onde andam os irmãos assassinos para prendê-los e eu tive uma ideia que já descartei, mas estou pensando em outra.
·        Eu tenho uma grande ideia de como fazer isso.
·        Fez algum curso de detetive particular?
·        Não.
·        Mas estudou alguma profissão, não é?
·        Não. Sempre estudei e muito, mas sozinha. Por conta própria para instruir-me o máximo possível. Leio muito durante o dia, pois nem sempre tenho programas diurnos, porque os evito e nesses dias que não tenho absolutamente nada a fazer dedico-me a leitura.
·        Eu tinha impressão que estudou algum curso curricular.
·        Jamais. Tudo que aprendi foi com a escola da vida mesmo, mas ouça o plano que tenho certeza que dará certo.
·        Primeiro diga-me uma coisa. Que tipo de leitura aprecia?
·        Todos os livros que me caem à mão leio e gosto. Tanto os didáticos para minha aprendizagem como os romances para minha distração.
·        Nenhuma preferência?
·        Sobre crimes misteriosos, principalmente os de Agatha Christie quando a história é com a Miss Marple, embora eu adore ver as descobertas miraculosas de Poirot. Esses são os que mais prefiro.
·        Ótimo. Acho que vai deixar o cargo de secretária antes mesmo de começar.
·        Como assim?
·        Preciso de uma investigadora e depois de ouvir como planeja descobrir o Jardel vou saber se realmente você poderá ser minha substituta no futuro.
·        Então me conte seu plano que depois contarei o meu.
·        O meu não faz muito sentido e nem é correto eu falar-lhe, pois é um projeto sujo e desleal, portanto gostaria de saber de você o que tem em mente para encontrarmos Jardel.
·        Tudo bem. Vou contar o que idealizei enquanto ouvia sua história.
Como eu tenho bastante dinheiro, nós poderemos mudar para Belfast que é a capital da Irlanda do Norte e eu disfarçada de loira, me apresento com nome e origem italiana na melhor boate de lá, para fazer strep e também programas.
Como sei que os irmãos Jota sempre preferiram lugares chiques não será difícil encontrar o tal Jardel e seduzi-lo para ele sempre contratar-me para programas e aos poucos poderei ir tirando dele muitas informações importantes.
·        É muito arriscado, pois você já teve caso com ele e ele lhe reconhecerá.
·        Nunca tive nenhum caso com ele. Ele era fixo de Ana Margarita e não meu. Estive foi com os irmãos dele, e mesmo assim foi apenas uma vez com cada um e já fazem mais de dois anos e eu estando disfarçada serei outra mulher.
·        Na hora de ir para a cama com um deles ele poderá descobrir seu disfarce.
·        Para começar não aceitarei nenhum deles que já estiveram comigo, pois não somos escravas e podemos recusar quem quer que seja, mesmo que o valor ofertado seja alto que não haverá problema algum.
Só ficarei com o assassino de minha amiga, para conseguir fazê-lo confessar.
·        Mesmo que nunca tenha ficado com Jardel ele poderá reconhecê-la.
·        Jamais, pois ele nunca me viu.
Sempre que eu procurava por Ana em seu apartamento e ela estava com ele, só abria um pouco a porta e dispensava-me avisando que estava com seu nomorado.
·        Então como o reconheceu na foto?
·        Por que muitas vezes eu o vi com ela na rua, mas nunca conversávamos quando ao acaso os encontrava. Eu e ela nem sequer nos cumprimentávamos e ela disse-me que nunca falou de mim para ele e jamais mostrou fotos minhas ou me mostrou a ele, nesses encontros ao acaso.
·        Se ela era tão sua amiga, como nunca se referiu a você ou mostrou-a quando estava com ele.
·        Desculpe-me a falta de modéstia, mas talvez por eu ser mais bonita e experiente, acho que ela tinha medo de o perder para mim.
·        Então como ficou sabendo que os outros três irmãos com os quais ficou eram irmãos dele?
·        Na boate há mais de dois anos conheci um homem, que no outro dia me apresentou um seu irmão e a mesma coisa aconteceu com o terceiro, que disse-me que no outro dia trariam o quarto e último dos irmãos para me conhecer.
Naquela época praticamente todos os dias eu via Ana e no decorrer do dia seguinte comentei com ela que havia conhecido três irmãos brasileiros e que os achei muito parecidos com o namorado dela e ela confirmou-me que realmente eram irmãos que estavam com ele nessa viagem. Contou-me que eles eram quatro e que moravam na Irlanda do Norte e como seu amante ficaria uma semana em Lugano trouxe-os para conhecer a cidade.
Prometi-lhe que nessa noite em que ele estaria me procurando não me encontraria, porque ainda durante a tarde iria avisar meu patrão que me ausentaria por uma semana a partir daquele dia, portanto eles terminariam suas estadas e voltariam para a Irlanda, antes de eu retornar ao trabalho e com isso nós não nos encontraríamos.
Depois disso nunca mais vi nenhum dos três que me conheceram, mas o namorado de Ana ainda vi algumas vezes, quando ele vinha visitá-la, sempre da maneira que já lhe falei, por isso tenho certeza que ele jamais me viu.
·        Então realmente nunca esteve frente a frente com ele.
·        Jamais. De qualquer forma meu disfarce será permanente, pois colocarei lentes de contato azuis, farei mega-hair loiro nos cabelos, pois não farei uso de perucas e óculos escuros que são os disfarces mais idiotas que eu já ouvi falar.
Meu disfarce que não será descoberto a não ser por cabeleireiros ou por oftalmologistas e mesmo assim não será tão fácil.
·        E a cor da pele? Não irá denunciá-la de não ser loira?
·        É claro que não. Minha amiga Ana que era até mais morena que eu não passou no Brasil e na Argentina por loira queimada de praia? O mesmo pode-se pensar de mim. Uma italiana loira queimada de praia.
·        Você é simplesmente sensacional, minha sobrinha Tina, mas como o fará dizer que foi ele quem matou sua amiga.
·        Isso talvez demorará um pouco. Embora eu o odeie me tornarei amante dele até ganhar sua confiança e aos poucos conseguirei que ele mostre suas fotos com outras mulheres, pois não só Ana falou-me como também vi que seus irmãos adoravam filmar ou fotografar-se com as garotas que conquistavam. Aliás, acho que nunca conquistaram ninguém, pois deve ser difícil para eles. Além de nem serem bonitos são prepotentes, machistas, grosseiros e exibicionistas.
Exatamente os maiores defeitos que vemos nos homens. Eles apenas contratam, pagam e filmam para se exibirem aos amigos mentindo serem conquistadores de mulheres bonitas.
Soube pela Ana que ele também tem todos os defeitos dos outros e por isso conseguirei surrupiar-lhe algumas fotos ou filmes dele com ela ou talvez até o faça confessar que a tenha matado e que tenha contratado bandidos para matar seus pais para arrotar na cara de todo mundo a riqueza que herdará.
Esse é meu plano para pegá-lo. Gostou?
·        Era exatamente isso que eu pensava, mas coloca-la em risco que é perigoso era um dos motivos para eu não querer e o outro que continuo não querendo exigir-lhe tal atitude que acho que seria muita indecência de minha parte solicitar isso de você.
·        Então como a ideia foi minha não tem com que se preocupar. Faremos isso por minha conta e risco. Você só viajará comigo para salvar-me de algum perigo real e o resto ficará por minha conta. Vou vender minhas joias e meu carro e juntar com meu dinheiro no banco trocando por TravelersCheques para leva-los.
·        Deixe-me pensar em outro meio de chegarmos a ele.
·        Esse é o melhor e completamente sem risco.
·        Mas terá de ter relações com ele.
·        Mas essa é minha profissão e é claro que cobrarei muito caro pelos programas com aquele figlio di puttana.
·        Agora você o xingou em italiano.
·        Ele é isso mesmo em todos os idiomas.
·        Então vamos dormir para descansarmos e acordar cedo para providenciarmos nossa viagem para Belfast, mas não vai vender nada e nem trocar seu dinheiro por cheques de viagem.
·        Não é justo você gastar sozinho, meu tio.
·        Não serei eu, pois tenho um cartão, cujo valor é ilimitado para efetuar qualquer despesa que precisar, por conta de meus contratantes.
·        Nossa. Então os parentes dos idosos estão pagando tudo que você gasta?
·        Exatamente. São todos muito ricos e inclusive a herança que está em jogo é a do mais bem sucedido da família toda. É uma fortuna incalculável.
·        Eu sabia que os irmãos tinham dinheiro, mas nunca imaginei o quanto era.
·        Eles talvez não tenham muito mais, pois soube no Brasil que quando eles decidiram mudar-se para Londres, o pai deu-lhes uma grande importância em dinheiro suficiente para viverem muito bem o resto de suas vidas, se aplicassem corretamente ou constituíssem alguma empresa, mas eles esbanjavam e consumiam o dinheiro de forma irresponsável com tanta rapidez que no máximo em dois ou três anos nada mais teriam.
Em uma das visitas dos pais no primeiro ano que eles estavam na Inglaterra, viram que eles gastavam como se fossem bilionários e que nunca fizeram o dinheiro render nem em aplicações financeiras e nem constituindo nenhuma empresa que tinha sido a orientação dada.
Nessa época o pai os aconselhou terem cautela por que tal importância que estava sendo destruída com tanta rapidez iria acabar logo.
Eles responderam ao pai que quando estivesse para acabar, eles o avisaria para ele depositar mais, porque era daquela maneira que eles gostavam de viver e não mudariam seus estilos de vida. 
Esse era o desejo deles, mas os pais foram francos e disseram que não lhes dariam mais nada, pois senão eles destruiriam a fortuna da família e que só receberiam todos os bens deles depois que eles morressem, como herança e mesmo assim porque que a lei lhes garantia esse direito.
Não só os pais como também muitos outros parentes visitaram-nos com as mesmas exigências e todos telefonavam-lhes, conversavam por Skype e enviavam e-mails, cobrando responsabilidade deles e ao cabo de pouco mais de um ano eles simplesmente perderam qualquer contato.
Soube sobre isso pelos diversos parentes que creem que os rapazes se aborreceram com os conselhos e desapareceram definitivamente, imaginando que o dinheiro seria eterno, mesmo esbanjando loucamente como faziam.
Todos acreditam que há uns dois anos eles perceberam que estavam falidos e talvez a partir de então decidiram matar os idosos, para herdar toda a fortuna e armaram toda essa trama, da qual sairiam inocentes e herdariam uma fortuna incalculável.
·        Então só teremos de comprar os bilhetes para irmos até lá.
·        Eu farei isso logo pela manhã para ver se consigo um voo o mais rápido possível e você procura seu empregador e solicita sua demissão também pela manhã enquanto providenciarei as passagens, possivelmente para hoje a noite mesmo.
·        Então bom fim de madrugada titio, pois logo cedo iremos a luta.
·        A propósito disso, quando estivermos em Belfast faremos um exame de DNA para comprovar e oficializar nosso parentesco.
·        É claro que não encontraremos nenhum grau de consanguinidade entre nós tio. Não temos o mesmo sangue e muito menos a mesma genética. Se eu de fato for sobrinha de alguém seria de sua esposa que já deve ter virado cinza há muitos anos.
·        Realmente. Falei besteira, mas não importa a comprovação científica. Tudo que falamos é nossa verdade e você agora é minha sobrinha e minha futura funcionária em investigações de empresas e também nas criminais. Bom descanso.
·        Para o senhor também.
·        Esqueça o “senhor”.
·        Okey tio Lula. Vamos dormir e até amanhã cedo.
Novamente dormiram juntos e abraçados, sem nenhum desejo carnal por parte de nenhum deles.
oooOooo
Logo amanheceu e o detetive Miranda foi a uma agencia de viagem e conseguiu as passagens para o voo que sairia as vinte e uma horas e voltou para o flat de sua sobrinha, do qual já possuía a chave e enquanto aguardava-a voltar do que ela fora fazer em seu laptop fez uma completa pesquisa sobre a cidade para a qual iriam naquela noite.
Reservou um amplo apartamento duplo em um excelente hotel no centro de Belfast para eles se hospedarem.
Agostina só chegou por volta de dezesseis horas, já liberada do serviço, e devidamente remodelada para efetuarem a viagem, com destino a Irlanda do Norte.
·        Como ficou linda?
·        Gostou tio?
·        Está uma loira de cabelos compridos e de olhos azuis simplesmente maravilhosa. Só a reconheci por que abriu a porta e entrou. Se a visse na rua iria flertar com você imaginando-a outra mulher.
·        Então como sou de verdade acha-me feia, indigna de ser paquerada pelo senhor?
·        É claro que não. Você é maravilhosa de qualquer maneira, mas é minha sobrinha.
·        Mas está todo entusiasmado olhando-me mudada. Não vá dizer-me que está sentindo atração física por mim como estou, pois eu recusarei qualquer ato incestuoso entre nós.
·        Não se trata disso. Estou é tentando ver se dá para perceber que essa linda italiana loira é minha adorada sobrinha espanhola e morena.
·        Dá para perceber alguma semelhança, ou realmente vê outra pessoa?
·        Está completamente diferente e irreconhecível. Já escolheu qual o nome que você usará?
·        Será Tina mesmo, pois Tina é um nome italiano.
·        Abreviatura de qual nome?
·        De nenhum. Na Itália muitas mulheres chama-se simplesmente Tina e como já estamos acostumados com esse meu apelido é melhor continuar com ele para não fazermos confusão em nenhum momento inoportuno.
·        Concordo com você Tina. De agora em diante você passará a ser Tina, a italiana.
·        Só depois que estivermos em Belfast, pois por enquanto continuo sendo Agostina e com muita honra espanhola.
·        Espero que tudo dê realmente certo conforme imagina. Não quero vê-la sofrer nenhum abuso ou sofrimento.
·        Tio. Confia em mim?
·        Confio.
·        Então vamos à luta.
·        Já reservei uma suíte para nós ficarmos, no hotel Ten Square.  
·        Enquanto estava no cabeleireiro fiquei pensando sobre nós e acho que será melhor não sermos visto juntos.
·        Por quê?
·        Porque se eu chegar lá acompanhada, pode dar a impressão de eu ser casada ou de estar levando algum mezzano e são fortes motivos para eu ter dificuldade em arrumar emprego.
·        O que significa mezzano?
·        Acho que no Brasil vocês falam o mesmo que em Portugal que é proxeneta ou cafetão.
·        Então?
·        É melhor eu reservar um apartamento para mim em outro hotel e você inclusive terá total liberdade de seguir-me e me vigiar para que nada me aconteça sem levantar nenhuma suspeita.
·        Concordo. Faça você mesma sua reserva que até poderá ser no mesmo hotel.
·        Acho que devemos nos hospedar em hotéis próximos um do outro, mas não no mesmo.
·        Tudo bem. Procure rápido um que seja no centro de Belfast, faça sua reserva que está quase na hora de irmos para o aeroporto.
·         Lá nos falaremos só por celular e nos encontraremos pessoalmente quando necessário em locais bem longe de nossos hotéis.
·        Está combinado. Foi até melhor eu não ter conseguido passagens para ficarmos juntos na aeronave, portanto até na viagem estaremos separados, como se fossemos estranhos.
·        Melhor ainda.
·        Fique com esse dinheiro que troquei em uma casa de câmbio para suas despesas.
·        Não será preciso, tenho dinheiro e se precisar mais uso meu cartão. É aceito em qualquer parte do planeta.
·        Esqueceu-se que quem pagará as contas não seremos nós.
·        Aquele cartão sem limites que você tem realmente está sendo pago pelo seu contratante mesmo? Não tem nenhuma mentira nessa história?
·        Claro que é verdade. Se dependesse de mim eu jamais teria gasto tanto dinheiro como tenho feito. Está tudo sendo pago e continuará sendo pela família dos ricaços.
·        Sendo assim então eu aceito.
·        Fique com setenta por cento das quatro mil libras que troquei com você e eu fico com o restante.
·        Ao contrário é o mais certo, porque lá eu vou ganhar dinheiro e você só vai gastar.
·        Então dividiremos meio a meio.
·        Dois mil para cada um. Combinado.
Tudo acertado foram em táxis individuais e ocuparam seus respectivos assentos na aeronave e seguiram viagem completamente separados, embora dentro do avião conversassem em seus celulares o tempo todo do voo, pois assunto não lhes faltavam. Eles simplesmente se adoravam.
Chegaram a Belfast em pouco mais de três horas, portanto pouco depois de zero hora e separados encaminharam-se para seus hotéis que eram realmente muito próximos.
Ela havia reservado sua hospedagem no Premier Inn Belfast City Centre Alfred Street.
Conversaram em seus tablets durante a noite toda pelo Skype até que o sono abateu-os e eles se despediram e foram dormir, mas o detetive deixou seu aparelho cair quebrando e danificando-o.
Como ele não tinha absolutamente nada a fazer no outro dia iria mandar consertá-lo, ou comprar outro.
Agostina ao contrário dele tinha muita coisa a resolver, que era se apresentar às boates e conseguir emprego.
Iniciou sua procura na melhor e mais famosa de todas. Ela procurou o mais importante Public Place, que como todos os demais funcionavam com happy hour no final da tarde e após meia noite apresentam suas lindas jovens dançando strep tease inclusive permitindo exercerem suas profissões de garotas de programa em flats no próprio local para essa finalidade.
Realmente foi fácil para Tina conseguir logo nessa primeira visita sua contratação. Sua exuberante beleza, sua experiência na apresentação de strep tease e sedução aos homens, fizeram seus testes serem decisivos.
Como é normal, o patrão antes mesmo de dar-lhe emprego seria seu primeiro cliente sexual, sem nada pagar pelo ato, pois isso fazia parte dos testes, mas por sorte dela não teve de se sujeitar a isso, pois o dono dessa importante casa noturna não era chegado a mulheres. Ele era pederasta passivo e a isentou dessa parte do teste que percebeu por intuição própria desses homens afeminados que ela seria excelente em tudo pelas apresentações excepcionais que ela mostrou. 
Por volta de treze horas da tarde, ela ligou à seu tio tentando o Skype no tablet dele e nada conseguiu. Ligou para o celular e combinaram de se encontrarem no zoológico.
Quando o detetive já estava em frente a jaula do único urso panda que tinha no local telefonou à Tina que estava chegando ao zoológico. Ela foi até ele para conversarem com certa tranquilidade entre os vários casais que lá passeavam com seus filhos e as inúmeras professoras que acompanhavam seus alunos nos tradicionais passeios educativos.
Esse local foi escolhido pelo detetive, pois geralmente jardins zoológicos, ou botânicos, parques temáticos para crianças, teatros com peças infantis, são locais onde se veem apenas as crianças e seus acompanhantes, que obviamente seriam seus pais, suas babás, ou professores, que sempre atentos em cuidar dos pequenos não os notariam e eles poderiam conversar sigilosamente e em segurança.
Combinaram para os futuros e necessários novos encontros serem sempre em algum desses lugares ou em templos ou igrejas em horários que não tem culto, pois além de abertas à visitação pública estão sempre vazios ou no máximo poderiam encontrar apenas algum fiel pagando promessa, ou um casal de amantes marcando seus encontros extraconjugais, mas nunca ninguém que se preocupassem com eles.
Ao se encontrarem apenas sendo vistos pelo urso, Tina muito alegre falou:
·        Tio. Já consegui emprego.
·        Por acaso foi no primeiro lugar que procurou?
·        Sim. No mais famoso clube privé para homens que tem aqui.
·        Eu sabia que isso seria fácil para você.
·        Não foi tão fácil assim. Tive até que interpretar e cantar para satisfazer o patrão.
·        Você também interpreta e canta?
·        Mais ou menos.
·        Está sendo modesta, pois se foi no mais importante clube da cidade, deve fazer isso tão bem como dançar.
·        Para prender aquele bandido, fiz as melhores apresentações de minha vida para conseguir esse emprego.
·        Confio em sua grande performance em tudo que faz. Quando começa trabalhar?
·        Hoje mesmo. Devo estar lá às vinte horas, para ensaiar com outras meninas e se tudo correr bem como espero, começo a apresentar no palco já a partir de amanhã e não precisarei mais ir as vinte horas e sim vinte e duas.
·        Até que horas você fica trabalhando na casa.
·        Exatamente igual em Lugano mesmo, das vinte e duas até às seis da manhã.
·        Mas você não fará programas diurnos como fazia lá com clientes especiais, não é?
·        É claro que farei.
·        Mas no hotel em que hospedou não vão aceitar garotas de programa hospedadas levando homens para seus quartos.
·        Quando eu encontrar o motherfucker terei que encontrar-me com ele fora da boate e por isso que reservei só uma semana no hotel, pois vou procurar um apart hotel para eu alugar um flat, para poder encontrar-me com ele durante o dia inteiro para fazê-lo contar-me o que precisamos saber.
·        Você é bem esperta mesmo, minha sobrinha. Já pensou em tudo que é necessário.
·        Obrigada. A proposito tio, você sabe comunicar-se aqui na Irlanda?
·        É claro. A língua que é mais falada aqui é a inglesa e eu igual a praticamente todas as pessoas do mundo inteiro também falo inglês.
·        Pensei que não soubesse, pois quando me referi ao filho da puta, falei em inglês e você não disse nada.
·        Eu percebi, mas nada comentei porque você já me disse que ele é isso mesmo em todas as línguas.
·        Então ainda faltam várias.
·        Quantos idiomas você fala?
·        Eu que moro aqui na Europa desde que nasci há mais de trinta anos, e a quase quinze convivendo com pessoas de todos os países, que são pequenos e muito próximos um do outro arranho pelo menos umas sete ou oito línguas.
·        Tudo isso?
·        Falo muito bem o espanhol, o italiano e o inglês, mas sei razoavelmente bem o francês, o português e o alemão. Consigo entender e me fazer entender, entretanto com menos eficiência no idioma romeno, no húngaro e no esloveno e um pouco de russo.
Para simplificar tudo ele é hurensohn em Alemão, fils de putes em Francês, nemernicii em Romeno, kurvafi em Húngaro, kurbin sin emEsloveno e em russo eu não sei.
·        Está bastante animada hoje. Parece que essa viagem está lhe fazendo bem.
·        É claro que está. Agora que descobri um parente maravilhoso que é você e que me disse quem foi o assassino de minha melhor amiga e está ajudando-me encontrar e pegá-lo para ele pagar pelo que fez só posso estar feliz.
·        Tem uma coisa muito importante para lhe falar.
·        O que é?
·        Não vá de maneira nenhuma querer fazer vingança com as próprias mãos, pois além de sofrer seríssimas consequências, me impedirá de provar que são todos os quatro irmãos quem provocaram a morte de seus pais, pois isso só poderá ser comprovado pelo kurvafi vivo e preso.
·        Fala húngaro também?
·        Só essa palavra que aprendi agora com você.
·        Fique sossegado tio. Não sou nenhuma maluca para pensar em matar alguém. Principalmente eu sendo o que sou assassinar uma pessoa considerada de bem. Com certeza pegarei pena de morte e não quero isso para mim. Quero é para ele.
·        No Brasil não tem pena de morte, portanto esse criminoso e seus irmãos não serão penalizados assim como você está pensando.
·        Mas com certeza suas leis os deserdarão da fortuna dos pais, além de puni-los com muitos anos de detenção.
·        É exatamente isso que acontecerá com eles.
·        Então está ótimo para mim.
·        Vamos nos separar, pois já faz muito tempo que estamos olhando para esse urso que acho que ele já se apaixonou por um de nós.
·        Okey. Um beijão e até o próximo encontro que creio que deverá ser logo.
O detetive esperou alguns minutos para Tina desaparecer e também saiu do zoológico direto para seu hotel.
oooOooo
Lá ele telefonou para seu contratante, Dr Aldo deAlbuquerque Linsem Vitória, informando-o que já sabia o país em que moravam os filhos do Dr. Sócrates, mas que ainda demoraria algum tempo para encontra-los e depois conseguir provas concretas para incriminá-los e que para isso estava gastando muito dinheiro e que infelizmente para a família Albuquerque Lins ele ainda deveria continuar usando o dinheiro deles por talvez mais uns dois meses.
Contou-lhe com pouquíssimos detalhes o que estava fazendo, mas que tinha certeza que conseguiria resolver tudo, com a ajuda de uma pessoa contratada por ele em no máximo mais dois meses e que era para conseguirem atrasar o inventário que o advogado inglês estava pleiteando, pois ele tinha certeza da culpa dos irmãos e muito em breve iria provar.
Como resposta soube que eles estavam usando de suas influencias para retardar o processo e que o advogado inglês já tinha voltado para seu país, sabendo que os documentos não sairiam no Brasil com menos de seis meses e só tinha passado um.
Soube também que toda a família continuava acreditando nos resultados satisfatórios que ele iria conseguir e não só desejavam boa sorte, como o informou que as despesas que ele estava achando exageradas não significavam quase nada para eles.
Que estavam até aquém das previsões e que ele poderia continuar usando o dinheiro que precisasse.
Despediram e o detetive ligou rapidamente para Tina contando que eles ainda tinham uns cinco meses para encontrar os criminosos e que suas despesas estavam sendo consideradas normais e sem problema algum para os ricaços de Vitória.
Despediram-se sem muita conversa, pois a moça já estava para sair para seu primeiro dia de trabalho.
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Durante toda a noite o detetive ficou acordado imaginando o que Tina estava fazendo na boate, mas acabou dormindo e só acordou por volta de doze horas do dia seguinte.
Como não queria ligar para ela, pois ela deveria estar descansando por que trabalhara até seis da manhã, ele decidiu telefonar para Dona Rute no Brasil, cujo horário deveria ser mais ou menos dez horas, portanto já a encontraria acordada e trabalhando em alguma casa.
Primeiro pediu-lhe desculpas por não ter falado com ela depois de ter viajado para Lugano e perguntou-lhe se ela tinha tempo para ouvi-lo contar tudo que tinha feito nesse quase um mês de viagem.
·        Pode falar detetive. Terei tempo suficiente para ouvi-lo por horas, pois não estou trabalhando. Caí de uma escada e estou acamada me recuperando da queda.
·        Feriu-se muito?
·        Não. Foi só um pé que quebrou, mas logo estarei em forma.
·        Espero que se recupere logo.
·        Já estou quase boa. Daqui a cinco dias já vou tirar o gesso e estará tudo resolvido.
·        Estava trabalhando em alguma casa quando caiu?
·        Não. Estava bisbilhotando sobre um muro tentando ver como invadiram uma casa em que raptaram e depois mataram uma criança.
·        Que coisa horrível. Uma criança?
·        Mas enquanto eu estava no hospital sendo consertada, pensei muito e consegui descobrir como foi e quem foi e já falei para o Grozzi que já prendeu a mulher.
·        Foi uma mulher quem fez isso?
·        Foi. E o senhor a conhece.
·        Como assim? Quem é ela?
·        Ela era a amante de um cara casado, cuja esposa o contratou para descobrir tal traição e o senhor levou-lhe todas as provas filmadas.
A esposa não se divorciou do marido e o perdoou com a condição de ele nunca mais procurar a amante e ele cumpriu o acordo, terminando o relacionamento extraconjugal. A ex-amante em represália raptou e matou o filho do casal e agora está presa, mas graças ao senhor o menino está morto.
·        Está me culpando Dona Rute?
·        É claro, se não fosse pelo senhor ambas as mulheres continuariam felizes a seu modo dividindo o mesmo homem, e um menino de apenas cinco anos estaria vivo.
·        Eu estava telefonando para a senhora para contar-lhe boas noticias e a senhora está me destruindo.
·        Sou assim mesmo. Sou franca e falo o que acho que devo falar quando sinto vontade, doa a quem doer.
·        Vou desligar. Outro dia lhe telefono.
·        Não faça isso, pois quero mesmo falar com o senhor sobre outras coisas.
·        O que a senhora quer falar comigo?
·        Saber sobre o caso que está demorando, mas que está resolvendo sobre os idosos de Vitória.
·        É uma longa conversa que demorará horas, para contar tudo como está.
·        Se o senhor tiver bastante dinheiro para pagar a conta do telefone terei todas as horas necessárias para ouvir tudo. A propósito fala de onde?
·        Estou na Irlanda do Norte.
·        Faça o seguinte. Desligue seu celular e fale comigo pelo Skype que será gratuito.
·        Cheguei recentemente aqui no hotel e já consegui quebrar meu tablet e ainda nem o consertei e nem comprei outro. Estou usando o celular comum mesmo e tenho dinheiro para pagar a conta.
·        A despesa será sua, portanto pode começar sua odisseia que ouvirei até para passar o tempo.
·        Se possível ajude-me com algumas dicas.
O detetive Miranda contou tudo que aconteceu com ele e para isso conversou até o final do dia com Dona Rute, que lhe disse:
·        Senhor policial. Conforme me falou seu contato com a moça sua sobrinha é praticamente em todos os momentos por isso acho que ela está desesperada ligando para o senhor e não consegue falar, pois está ocupado comigo. É melhor desligarmos que tenho certeza que ela já ligou uns trilhões de vezes procurando-o.
·        É mesmo. Falando com a senhora acabei esquecendo-me dela. Vou desligar para falar com ela, mas antes me diga se acha que está certo o que pretendemos fazer, ou se tem alguma outra maneira?
·        Continue o que está fazendo e descubra os irmãos que acabará sabendo a verdade.
·        Tem outra verdade diferente da que imagino?
·        Talvez.
·        Então o que a senhora acha?
·        Por enquanto não acho nada. Só saberei depois que o senhor encontrar os irmãos e falar com eles.
·        Então agora vou desligar. Boa noite.
·        Boa tarde e desta vez estou certa, pois aqui no Brasil ainda são dezessete horas e quinze minutos.
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Tina atendeu ao celular antes mesmo de terminar o primeiro toque muito nervosa e chorando.
·        Tio. O que aconteceu com você que já liguei uns trilhões de vezes no Skype e outros trilhões no celular comum e você não atendeu nenhum dos dois. Pensei que tivesse desistido de tudo e me abandonado sozinha aqui.
·        Primeiro desculpe-me. Agora para de chorar que tudo está bem. Meu tablet está quebrado e eu estava usando o celular para falar no Brasil.
·        O dia inteiro?
·        Sim. Primeiro conversei com Dr. Aldo e depois com Dona Rute.
·        Quem é Dona Rute?
·        Uma pessoa maravilhosa e excelente investigadora que você conhecerá quando for para lá comigo.
·        Ela trabalha para o senhor?
·        Não. Ela trabalha sozinha.
·        Ela tem seu próprio escritório?
·        Também não.
·        Então trabalha na polícia?
·        Nada disso. Ela é apenas uma senhora idosa que faz faxina nas casas dos outros, mas tem um faro excepcional para descobrir criminosos.
·        Tipo Miss Marple?
·        Acho que bem melhor, mas fala-me de você. Como foi sua noite ontem?
·        Quase normal.
·        Porque quase normal. Algo deu errado.
·        Ao contrário. Eu vi o Jota entre o público que frequenta a casa.
·        Seus irmãos também?
·        Não. Somente ele.
·        Que maravilha. Teve algum contato com ele?
·        Absolutamente nenhum, pois apenas flertei com ele de longe para deixa-lo entusiasmado. Só irei apresentar-me no palco a partir dessa noite e espero que ele volte, para eu me insinuar, bem mais para ele, enquanto danço para começarmos nosso romance.
·        Não fale assim.
·        Porque tio. É exatamente para isso que viemos para cá não foi?
·        Infelizmente foi. Irei visitar a casa privé para vê-la dançar.
·        Tudo bem. Aplauda-me ou vaie se quiser, mas nem pensa em chegar perto de mim e muito menos em conversar comigo.
·        Está certo. Só irei essa noite para ver o kurvafi de perto, mas nunca mais aparecerei para não atrapalhá-la.
·        Já estive durante o dia procurando um flat e já estou alugando um que é próximo da boate.
Amanhã devo ir lá pagar três meses antecipados, o seguro exigido e assinar a papelada. Quando estiver tudo resolvido, me mudo para lá, talvez depois de amanhã. Vou lhe dizer o endereço. Anote com você.
·        Pode falar.
O detetive copiou em uma folha de papel o endereço recebido e prometeu-lhe que no outro dia compraria outro computador de mão.
Despediram-se, pois Tina iria se preparar para novamente ir mais cedo para o clube para ensaiar um pouco mais com as outras bailarinas, pois em um dos shows seriam várias a dançar juntas e ela teria de estar na mesma harmonia com as demais.
Vinte e três horas e quarenta e oito minutos foi quando o detetive chegou na porta do clube, e não viu nenhuma movimentação de gente e perguntou ao porteiro:
·        Não é aqui a entrada para o clube privé?
·        Exatamente aqui.
·        Mas não vejo ninguém chegar.
·        Já está lotado. Acho que todos os sócios estão aqui para ver a estreia da internacionalmente famosa italiana Tina.
·        Quanto tenho de pagar para assistir o show?
·        Absolutamente nada. É Só mostrar-me a carteirinha de sócio e seja rápido, pois os shows já vão começar.
·        Não sou sócio.
·        Então não posso permitir seu ingresso de jeito nenhum. Só entra associado e em dia com suas manutenções mensais.
O detetive usou toda sua lábia e ofereceu suborno e não conseguiu de forma alguma entrar para ver os espetáculos das mulheres.
O porteiro insistia em dizer-lhe que era fácil ele associar-se. Bastava apenas comprar um título de sócio por cinco mil libras esterlinas e manter em dia a manutenção que era somente mil libras por mês e frequentaria a vontade o clube privé, só que para isso teria de procurar o escritório no outro dia, pois só funcionava de nove até às dezenove horas.
O tempo passava e o detetive esgotou todo seu repertório de argumentos e tentativas de propina, até duas horas da manhã. 
Já estava despedindo para retornar ao seu hotel, quando viu sair pela porta onde ele estava, exatamente Tina acompanhada de Jardel.
Imediatamente ficou de costas para não ser visto por eles e antes de perguntar ao porteiro o que pretendia, ambos tiveram de afastar-se da porta para não serem pisoteados pela multidão que veio atrás do casal.
Depois de longos minutos de tumulto o detetive perguntou:
·        Essa moça que saiu primeiro trabalha aqui?
·        Não viu o cartaz anunciando sua estreia hoje?
·        Nem havia reparado. Agora estou vendo o anúncio de vocês.
A propaganda era enorme e tinha uma foto de corpo inteiro com ela com um minúsculo biquíni dançando no postepole dance strip tease sexy e sedução e era apresentada assim:
Estreia hoje para a alegria e felicidade dos homens da Irlanda do Norte, Tina a italiana internacionalmente famosa. A mais linda sedutora e explosiva garota de todos os tempos.
O detetive Miranda viu que a propaganda mesmo que mentirosa quando bem dirigida funciona bem.
Com certeza não foram enviados folders aleatórios às pessoas ou simplesmente colocado no Facebook.
Devem ter enviado e-mails diretos aos sócios do clube mostrando o corpo escultural de Tina e uma grande mentira ao lado.
Ele sabia que essa Tina italiana nunca existiu, pois fora criada há apenas alguns dias por ele e por Agostina e já era apresentada como Tina a italiana internacionalmente famosa.
Imediatamente já começou bolar seus próximos folders com sua foto ao lado dela com os dizeres: “Tina e Miranda os detetives mais talentosos e internacionalmente famosos”.
Retomou a conversa com o leão de chácara do clube:
·        Então ela já se apresentou?
·        Com certeza sim. Os shows são apenas de zero hora até uma da manhã. No máximo até uma e meia quando o espetáculo é muito bom, como deve ter sido hoje, com essa striper gostosa. Agora já são duas e como o encerramento do show foi com essa italiana deliciosa é claro que agora só tem gente bebendo e os homens escolhendo as mulheres com as quais vão ficar. A danada não perdeu tempo e já faturou um ricaço para sair com ela.
·        Então eles estão saindo para um programa?
·        Acredito que não, pois geralmente as mulheres daqui usam flats cujas entradas são lá dentro mesmo.
·        Como ela saiu com um cara?
·        Com certeza foram ao cassino.
·        E o monte de gente que saiu atrás.
·        É provável que também foram para lá.
·        Entendo.
·        A propósito. Se o senhor quiser se divertir, lá a entrada é permitida para todo mundo. Basta apenas pagar o ingresso que não é caro. São apenas quinhentas libras, mas recebe o mesmo valor em fichas para serem usadas nos jogos.
·        Onde fica esse cassino?
·        Pertence ao clube e a entrada é só virar a esquina e andar mais ou menos dez metros que a encontrará.
·        Então terminarei minha noite lá. Bom fim de madrugada para o senhor e até amanhã à noite, pois ao acordar virei me associar ao clube.
·        Boa diversão.
·        Obrigado.
O detetive Miranda gastou a metade do dinheiro que tinha reservado para suas despesas comprando as fichas do cassino e entrou.
A outra metade empregou para alugar uma mesa para si e ficou degustando o couvert que foi servido imediatamente.
De onde estava, ficou escondido de ambos, mas vendo Tina acompanhada de Jardel. Nada podia ouvir, pois ficou estrategicamente bem distante deles só olhando-os, além de que seu dinheiro só era suficiente para adquirir uma mesa longe das máquinas ou mesas de jogos.
Viu que com muita frequência eles levantavam e iam apostar enormes quantidades de fichas, sempre recolhidas pelo "croupier", pois nunca ganhavam.
O detetive resolveu apostar suas fichas em outras mesas de jogos e bem antes das cinco da manhã decidiu trocar por dinheiro o que lhe restou e descobriu que estaria voltando para o hotel com um valor que seria no máximo o suficiente para pagar o taxi em seu retorno.
Nada ouviu da conversa de Tina com Jardel, mas ao levantar-se para sair viu de longe que ela enviou-lhe um beijo, evidentemente sem que seu acompanhante de costas para ele presenciasse.
Ele não cometeu a imprudência de retribuir, pois alguma pessoa poderia vê-lo e seriam descobertos como sendo conhecidos.
Saiu carrancudo para não se delatar e funcionou, pois o beijo da bailarina passou a ser entendido como sendo para todos os homens, que evidentemente se imaginaram os escolhidos e foram muitos os que corresponderam tal carinho enviando seus ósculos a ela.
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O detetive Miranda ficou o tempo que restava para amanhecer imaginando o que Tina e Jardel teriam conversado e ao clarear o dia ao invés de ele se levantar ele dormiu.
Por volta de dez horas com seu celular chamando ele ergueu-se cambaleante de sono e assentou-se na cama após apanhar o aparelho.
Meio adormecido atendeu de mau humor, mas ao ouvir a voz tão querida da sobrinha em um salto pôs-se de pé para ouvi-la.
Ela pediu-lhe que se encontrassem às quatorze horas no mesmo local onde já haviam ido, pois tinha um assunto urgente e muito sério para contar-lhe, pois estava muito assustada e amedrontada.
O detetive nervoso com o que ouvira, disse-lhe:
·        Desça já para o saguão de seu hotel e fique ao lado do maior número de pessoas possível que irei imediatamente para aí.
·        Não tio. Não é nada tão ameaçador, neste momento.
Vamos marcar nosso encontro conforme falei que não é possível de me acontecer nada de imediato. Fique tranquilo que saberá direito sobre tudo assim que nos vermos.
Ele aconselhou que seria melhor não voltarem ao zoológico e combinaram o encontro dentro de uma igreja católica que era perto para ambos e que tal encontro até poderia ser imediato. Em poucos minutos ambos iriam a pé até a igreja.
Ela concordou com o local, mas não com o horário, pois antes teria de resolver alguns problemas sem nenhum risco e ficou definido que o encontro seria as doze horas.
Com o livre acesso que os templos deixam aos seus fieis eles entraram separados, entretanto assentaram-se um ao lado do outro em um dos bancos em horário em que a igreja estava totalmente vazia e conversaram, iniciando com Tina falando:
·        Tio. Você não assistiu meu show?
·        Não pude entrar de forma nenhuma, pois para frequentar o clube tenho de associar-me e o preço é simplesmente absurdo.
·        Só pode ser frequentado por sócios?
·        Sim.
·        Então aquele bandido é sócio?
·        Se estava lá dentro é claro que ainda é, enquanto seu dinheiro for suficiente para se manter. Seus irmãos também estavam lá?
Depois falamos sobre eles. Diga-me logo o que a assusta?
·        Vamos continuar a conversa que logo chegarei ao ponto para você entender tudo.
Nenhum dos irmãos do Jardel estava no clube.
·        Possivelmente eles não têm mais dinheiro para manterem-se sócios desse clube tão chique e caro.
·        Se Jardel ainda tem dinheiro logo não terá mais, pois já comecei ajudando-o a gastá-lo muito rapidamente.
·        Vi que jogaram e perderam muito, mas conte-me logo o que a está assustando para fazermos alguma coisa.
·        Vou contar-lhe tudo como foi e você saberá o que deveremos fazer, se bem que já tomei algumas providencias que creio estarem certas. Preste atenção como foi minha noite e depois você me ajudará decidir o próximo passo. Quando eu estava me apresentando flertei muito com ele.
É praxe as stripers jogarem beijos e peças de roupas quando são tiradas do corpo, para o público, mas eu fazia isso só em direção a ele para incentivá-lo em me procurar depois do show e não deu outra. Terminado meu show, vesti-me com uma capa e fui para meu camarim me lavar e colocar novas roupas e ao sair ele estava na porta com um enorme buque de rosas vermelhas para entregar-me. Ele se apresentou e eu recebi as flores, agradeci e guardei dentro do camarim.
·        Como ele disse chamar-se?
·        Jarbas mesmo, portanto não mentiu.
·        Estranho, mas tudo bem. Continue a história.
·        Ele esperou-me na porta e convidou-me para um programa, entretanto eu disse que como era meu primeiro dia naquela casa eu gostaria primeiro de conhecer seu casino e ele prontamente me levou para lá.
Saímos naquela hora que eu o vi na porta tentando entrar.
Eu já sabia que a cada hora de programa a casa cobra trezentas esterlinas para o uso de seus apartamentos, entretanto se sairmos à rua o valor cobrado é o mesmo valor por hora, mas deve ser pago até às seis horas da manhã, que é a hora que deixo o trabalho, portanto só nessa manobra ele já desembolsou mil e duzentas libras.
No casino foram outras mil libras que o fiz pagar para entrarmos e mais mil para uma mesa próxima às máquinas de jogos.
Para simplificar a história eu o fiz consumir no cassino as quatro mil libras que ainda tinha no bolso, mas ele queria de qualquer maneira que voltássemos para um apartamento do clube pelo menos às cinco horas da manhã porque como ele já havia pago até as seis ainda teríamos uma hora para usar o apartamento de lá.
Eu recusei alegando que estava muito cansada e que não queria ir. Que poderíamos ficar conversando lá no cassino mesmo, já que ele não tinha mais dinheiro pra jogar. Ele tentou arrastar-me puxando-me pelo braço de maneira brusca.
·        Como se saiu dessa.
·        Foi muito fácil. Simplesmente lhe falei que meus honorários seriam quinhentas libras e como todo mundo que frequenta clubes privés sabe que esse dinheiro sempre é pago adiantado e como ele não tinha absolutamente mais nenhuma libra, era impossível contratar-me.
Ofereceu-me cheque e eu recusei. Prometeu que no dia seguinte voltaria e me pagaria e da mesma forma rejeitei, inclusive chamando-lhe a atenção por estar segurando muito grosseiramente em meu braço. Tentou beijar-me, mas nem isso eu deixei por que não temos obrigação com homem nenhum que ainda não tenha pago. Ele acabou resmungando e bebendo o restante do uísque que ainda restava em nossa mesa, dos dois litros que consumimos.
Praticamente só ele é claro, pois eu sempre bebo muito pouco. Geralmente o copo cheio de gelo com club soda e um pingo de uísque.
·        Foi por fazê-lo gastar tanto dinheiro e no fim recusá-lo que acha que pode ficar ficado perigoso para você?
·        Sim. Ele me ameaçou seriamente. Houve um aviso que ele me fez que deixou claro que foi ele quem matou minha amiga Ana Margarita.
·        O que foi que ele lhe disse?
·        Vou continuar a história até chegar lá. Ele acabou concordando que como não havia jeito de nós fazermos nenhum programa, pediu-me que fossemos a sua casa que ele me pagaria em dinheiro, pois lá ele tinha muito mais. Foi nesse momento que perguntei seu endereço.
·        Ele deu?
·        Não, pois endereço não existe. Disse-me que morava em uma chácara no distrito de Lisburn cuja distancia de Belfast era apenas de dez milhas, portanto bem próximo e que rapidamente chegaríamos lá, bastando entrar na primeira estrada de cascalho, após a placa indicatória da divisa entre Belfast e Lisburn. Que era a segunda fazenda existente na estrada, portanto como ir até lá ele explicou exatamente.
·        Imagino que não tenha ido com ele não é?
·        Continuei fazendo-me de difícil, para deixá-lo bem seduzido e tentar descobrir mais coisas. Com já era quase seis da manhã eu disse que voltássemos para o clube para eu despedir-me e ir para o hotel, pois meu trabalho já chegara ao fim nessa noite.
·        O que ele fez para você pensar que foi ele que de fato matou sua amiga?
·        Tenha paciência tio. Espere um momentinho só que chegaremos a isso.
Voltamos ao clube, onde dei por encerrado meu expediente avisando um chefão de lá e quis despedir-me de Jardel logo ao sairmos à rua enquanto eu chamava um taxi. Ele insistiu que iria comigo e quando o taxi chegou eu embarquei e ele também. Pedi ao motorista que me levasse para o Premier Inn Belfast City Centre Alfred Street. Ouvi que ele resmungou, mas não falou nada e nem pediu para sair do taxi e continuamos até pararmos na porta do hotel. Nesse momento eu novamente despedi-me dele e entrei solicitando na portaria minhas chaves e como ele percebeu que eu estava realmente hospedada lá mesmo e que ele não poderia acompanhar-me em meu apartamento imaginei que ele em seguida iria embora.
·        E a tal ameaça?
·        Quando desci para o café da manhã, por volta de nove horas entregaram-me um envelope na portaria que está aqui comigo para você ler.
O detetive leu com sua sobrinha o que estava escrito em voz alta e era o seguinte:
Sua italiana de merda. Preste bastante atenção no que estou dizendo. Você é a segunda prostituta que não fez o que eu determinei. Vê se de hoje em diante obedeça minhas regras senão terá o mesmo destino de uma vagabunda espanhola que fez tudo errado o que eu a mandei fazer.
Seu dono.
·        Isso é muito grave e você está em sério perigo, portanto agora sou eu quem lhe dou uma ordem para não ser desobedecida. Dê baixa no hotel, pagando esses dias que se hospedou lá. Ligue para o apart hotel desistindo do aluguel do flat e faça imediatamente suas malas e vá para São Paulo no Brasil procurar por Dona Rute cujo telefone e endereço vou lhe fornecer agora que ela lhe protegerá.
Vou telefonar para ela que já sabe tudo sobre você e esse caso todo e contar-lhe só esse final. Naquele dia que falei o dia inteiro em meu celular com ela contei-lhe tudo sobre o caso e sobre você.
Você tem certeza que ele não ficou próximo do hotel e seguiu-a?
·        Tenho absoluta certeza. Andando a pé do hotel até aqui eu viria em menos de dez minutos e, no entanto demorei duas horas de taxi, pois assim que combinamos nos encontrar eu solicitei um carro e fui até o clube avisar que não iria mais trabalhar lá porque estava voltando urgente para a Itália e também já desmanchei o compromisso com o apart hotel, assim como já dispensei o hotel. Minhas malas já estão guardadas em um armário na estação revoviária, pois vou sair daqui assim que terminarmos nossa conversa.
Minha ideia inicial era de voltar para Lugano.
·        Faça conforme estou lhe falando, mesmo que depois procure outro lugar, porque no momento tem de ir embora da Europa e em São Paulo é onde estará mais segura.
·        E você o que vai fazer?
·        Vou descobri-los na vila onde moram, mas só essa carta já diz tudo. Basta apenas eu leva-la para Vitória e algum policial papiloscopista a comparar com a escrita dele em provas escolares onde frequentou que pelo menos a morte de Ana Margarita ele praticamente já confessou por escrito.
·        Vou obedecê-lo e vou de trem até a próxima estação, e lá tirarei minhas lentes de contato azuis e em um salão de beleza desfaço meu mega hair e depois vou para São Paulo, exatamente com minha aparência de sempre.
·        Tem certeza absoluta que não foi seguida, mesmo fazendo um grande percurso de taxi?
·        Quando o porteiro entregou-me o envelope eu lhe fiz uma série de perguntas que me deu a certeza de que ele foi para sua casa para só voltar a noite no clube.
·        O estranho é seus irmãos já estarem sem dinheiro e ele só nessa noitada deve ter gasto mais de cinco mil esterlinas e disse que voltará hoje, portanto ele ainda tem dinheiro.
·        Foi o que ele disse.
·        É realmente curioso justamente ele que sempre foi o mais esbanjador ainda ter grana.
·        Será que ele é ele mesmo, titio?
Nesse momento o detetive Miranda, fechou seus olhos e começou após seus trejeitos costumeiros, falar consigo mesmo em uma linguagem estranha e totalmente ininteligível, deixando sua sobrinha quase que em pânico, pois ela jamais havia assistido seus chiliques.
Ela estava telefonando para um hospital a procura de um médico, quando ele já em sua perfeita normalidade lhe falou:
·        Tenho pensado nisso seriamente.
·        O que lhe aconteceu?
·        Isso é normal quando estou pensando. Não se preocupe que está tudo bem comigo.
·        Assustou-me.
·        O que você conversou na portaria sobre a carta recebida?
·        Perguntei de onde apareceu o envelope e o atendente me disse que foi o mesmo homem que veio até a porta do hotel comigo depois de seis da manhã, pois era ele que já estava na portaria e viu tudo. Disse-me que depois que eu subi no elevador ele veio até ele e solicitou um envelope com papel escreveu essa ameaça que ao mesmo tempo é a confissão do crime que ele próprio praticou e depois pediu para que o porteiro chamasse um taxi para ele.
O rapaz da portaria como viu que ele estava meio embriagado, ou mesmo por hábito deles de sair e abrir a porta dos taxis para os hospedes, foi com ele até o carro e ouviu quando ele pediu que o motorista o levasse até o clube, pois deixara seu carro lá e iria apanhá-lo e ir para sua casa, portanto isso aconteceu de fato.
·        Como sabe?
·        O motorista faz ponto na porta do hotel, por isso pedi ao atendente para perguntar-lhe se o homem tinha feito tal viagem mesmo e ele confirmou, inclusive dizendo que viu o embriagado apanhar seu carro e dirigir-se em direção de Lisburn, portanto estava bem claro que ele foi para casa e deve estar dormindo bêbado até agora.
·        Tudo bem. Agora vá e fique sempre próxima de onde tem muita gente, pois é mais difícil alguém tentar alguma besteira quando se tem muitas testemunhas. Tome muito cuidado, pois ele pode ter achado que você tentará fugir dele e pode já estar a sua procura.
·        Não creio nisso. O sucesso que fiz ontem foi tanto, que eu penso que ele imagina que eu nunca iria desistir desse lugar e a noite ele voltará para me procurar.  Sei que ele vai pensar que me ameaçando eu cederei aos seus caprichos para não deixar tão bom emprego. Alias, é assim que os proxenetas começam assustando as mulheres, que acabam por aceita-los por não ter como desaparecer e recomeçar em outro lugar, principalmente quando já estão bem sucedidas onde estão.
·        Mudei completamente de ideia. Vá para a ferroviária onde já estão suas malas e compra duas passagens para qualquer lugar para daqui uma hora que vou pagar minhas estadias no hotel fazer minhas malas e a encontro em quarenta minutos, pois vou com você para o Brasil.
·        Não tem problema tio. Saberei ir sozinha.
·        É melhor eu voltar com você para protegê-la. Tenho porte de arma, permissão para usá-la, conduzo-a comigo e sei atirar se for necessário. Depois virei de novo para cá, inclusive com a certeza de que o bilhete escrito à você é realmente letra de Jardel, pois se confirmar ter sido realmente ele quem escreveu já será uma grande prova de que ele assassinou sua amiga, que por sua vez já tinha assassinado o advogado argentino que contratara os homicidas que mataram os dois idosos. Tudo isso ele terá de explicar e acabará tendo de confessar que foi um plano dele e dos irmãos e terão de responder por todas as acusações e tenho certeza que não se safarão.
·        Eu posso levar o bilhete para sua amiga Dona Rosa.
·        Não será em São Paulo que o bilhete deverá ser entregue. Será em Vitória no Espirito Santo para o delegado de lá e para o Dr. Aldo que é o atual encarregado das empresas e das finanças do Dr. Sócrates. Aliás, é a ele que eu devo prestar contas de tudo que fiz, que estou fazendo e o que farei, pois o contrato foi assinado entre mim e ele em nome dos demais.
·        Se vamos juntos, então não irei para São Paulo?
·        Você ficará lá, pois geralmente os voos daqui da Europa fazem escala no aeroporto de Guarulhos que é muito próximo a São Paulo, onde você fica e eu continuo até Vitória.
·        Entendo que na volta você deva sair de Vitória e passar por São Paulo antes de viajar de volta para a Europa. Estou certa?
·        Sim. Será isso mesmo que farei.
·        Então vou com você até Vitória e na volta fico em São Paulo com a Sra. Rute, aguardando seu regresso com mais coisas que terá de descobrir.
O detetive nada respondeu e foi até seu hotel pagar suas diárias e dispensar seu apartamento.
Agostina foi até a estação de trem e descobriu que nesse dia todos os trens que partiriam dali, só iriam para um único lado.
Passariam e parariam na estação existente na vila Lisburn, onde os irmãos moravam e por esse motivo, quando o detetive chegou procurando-a ela o avisou que não poderiam sair de lá de trem e explicou o motivo.
Decidiram sair de Belfast por avião e foram de taxi para o Belfast International Airporte descobriram que só teria voo para Londres no inicio da noite.
Como ainda ia demorar muito tempo para o voo, o detetive deixou Agostina em um cabeleireiro no aeroporto avisando-a que iria retornar ao centro de Belfast e que voltaria em pouco mais de uma hora. Solicitou um taxi e foi a um caixa eletrônico existente no hotel onde havia estado hospedado e sacou bastante dinheiro retornando ao aeroporto no mesmo taxi que o esperou.
Ele já havia decidido antes de regressar ao hotel que deveria deixar a sobrinha com Dona Rute e não deveria falar a ninguém sobre seus atuais planos e por esse motivo sem telefonar paranenhuma pessoa, ficou lendo um livro, enquanto Agostina desmanchava seu mega hair no salão de beleza e pintava-o na cor que realmente era, pois viajaria com seu legítimo passaporte para Londres conforme orientação dele.
Voaram para Londres e de lá para o Brasil foi mais conveniente irem de maneira irregular e por isso foram até Paris de trem.  Depois voaram para Dakar no Senegal, pois em ambos os lugares Agostina que falava bem a língua francesa não teria dificuldade em se comunicar com as pessoas.
De Dakar foram de avião até o Aeroporto Guararapes-Gilberto Freyre em Recife para em um voo domestico irem para São Paulo.
Enquanto aguardavam o voo que demoraria a sair de Recife o detetive Miranda telefonou a Dona Rute pedindo-lhe que os aguardassem no bar do baiano, pois antes de ele ir para Vitória achou muito importante falar com ela sobre suas atuais e enormes dúvidas e solicitar que escondesse sua sobrinha, para que ninguém soubesse da existência dela.
Ao chegarem foram de taxi direto de Guarulhos a Vila Maria e encontraram Dona Rute nessa mesma noite no local combinado.
·        Até que enfim estou em minha terra. Como vai Dona Rute?
·        Estou bem e o senhor?
·        Também muito bem.
·        E você menina bonita, como vai?
·        Muito bem. Obrigada.
·        Você é linda. Nem parece que é sobrinha desse velho feio.
·        Titio Lula não é feio, mas de fato eu não me pareço nada com ele, pois eu sou sobrinha de sua falecida esposa e não dele.
·        Que história é essa de Lula, detetive?
·        É uma brincadeira entre nós. A propósito Tina deve começar chamar-me de Caio ou de Miranda, pois aqui no Brasil ninguém vai entender e aceitar esse apelido que arrumou para mim.
·        Fique tranquilo que de agora em diante chamá-lo-ei de detetive Miranda como todos os demais, além de informa-los que o apelido Tina também acabou. Meu nome daqui para frente virou novamente Agostina.
·        Seu português é o de Portugal e não o brasileiro não é Agostina?
·        Pode ficar sossegada Dona Rute que se realmente eu ficar por aqui conforme titio deseja, com pouco tempo meu sotaque lusitano deverá acabar e falarei como vocês.
·        Acredito que sim, mas você não é espanhola?
Antes de Agostina responder o detetive é quem falou.
·        Ela é espanhola, mas fala vários idiomas Dona Rute.
·        Que bom.
·        Dona Rute, como já foram feitas as apresentações, vou lhe contar nossos últimos dias e saber da senhora o que acha sobre o que está acontecendo.
Após o detetive Miranda contar sobre todos os acontecimentos na Irlanda do Norte, inclusive mostrando-lhe a carta ameaçadora recebida por Agostina, Dona Rute falou-lhe:
·        Chegou a hora de eu entrar nesse caso para lhe ajudar resolvê-lo definitivamente.
·        Não está achando muitos acontecimentos estranhos, pois tudo está levando direto á apenas um dos filhos do casal assassinado e não a todos eles.
·        Há muito tempo eu já pensava nisso. Desde quando vi as fotos da outra moça com o advogado argentino, sempre vigiados por somente um deles. Comecei imaginar que tudo foi planejado para levar a policia a incriminá-lo, e de alguma forma complicar todos os demais para o verdadeiro mandante ficar ileso e receber a herança dos idosos no lugar dos filhos?
·        É exatamente isso que também estou pensando.
·        Então só pode ser um dos parentes. Mas qual deles faria isso sozinho correndo todos os riscos para depois dividir a fortuna com os outros, ou o senhor acha que todos estão em conluio?
·        Eis a questão, mas sei que o Dr. Aldo fica sendo o dono da empresa holding da qual ele é sócio e os demais dividirão com ele só o patrimônio pessoal do falecido Dr. Sócrates, caso os filhos sejam impossibilitados de herdar por serem incriminados da morte dos pais, ou se eles também já não existirem mais, portanto minhas suspeitas são que seja ele quem está por trás de tudo tentando incrimina-los e se não conseguir logo, de alguma forma acabará matando todos eles de maneira que não apareça como sendo o mandante, como já fez nas outras mortes.
·        Precisamos urgentemente conversar com os filhos dos idosos.
·        Como a senhora viajaria para a Irlanda sem falar nenhuma língua estrangeira, ou fala alguma?
·        Um pouco o inglês, como quase todo mundo, mas esqueceu-se que eles são brasileiros, portanto nos entenderemos muito bem.
·        Concordo.
·        O detetive informou alguém que está no Brasil?
·        Absolutamente ninguém.
·        Então todos julgam e acreditam que ainda esteja na Irlanda do Norte?
·        Sim.
·        Façamos o seguinte. Nós viajaremos para lá e eu dou um jeito de trabalhar como faxineira na casa deles e descobrirei se eles são realmente inocentes conforme eu penso. Depois vamos descobrir as provas contra os culpados.
Agostina entrou na conversa dizendo:
·        Eu vi duas vezes o tal Jardel bem próximo a mim e inclusive passei uma noite inteira com ele, culminando com a ameaça que ele me fez praticamente confessando ter matado Ana Margarita, portanto ele é realmente o culpado.
·        Você já o conhecia antes de o ver em Belfast?
·        Já o havia visto muitas vezes, com Ana em Lugano.
·        Mas o viu perfeitamente bem?
·        Nunca tão próxima.
·        Conversou com ele nessa época?
·        Não. Nunca.
·        Esteve alguma vez frente a frente com ele quando ele namorava sua amiga?
·        Nunca o vi muito de perto. Sempre de longe.
·        Chegou a ouviu sua voz alguma vez em Lugano?
·        De fato nada disso jamais aconteceu.
·        Então não pode ter certeza de que o individuo com quem esteve era de fato o Jardel ou outra pessoa que se fez passar por ele.
Atente para vários detalhes que me fazem imaginar que tudo não passou de uma armadilha para que os legítimos herdeiros fossem considerados culpados.
Ana Margarita, sua amiga assassinada que foi uma das cúmplices eu considero-a mais como uma vítima do que propriamente conivente.
Ela, assim como o argentino e os próprios criminosos do casal apenas fizeram a parte que deveriam fazer e foram sendo eliminados um após o outro.
Acompanhe meu raciocínio que vai entender, como o detetive Miranda já percebeu e por isso não foi para Vitória e nem contou para ninguém sobre suas últimas descobertas, simplesmente porque ele já sabe que está correndo sério perigo de ser assassinado.
Detetive Miranda interrompeu Dona Rute falando para Agostina:
·        Quando eu estava esperando-a sair do cabeleireiro no aeroporto da Irlanda do Norte imaginei e descobri muitas coisas, por isso usei o cartão internacional que me fora entregue pela família dos idosos, sacando uma grande importância de esterlinas. Para ser exato foram trinta mil libras. Toda nossa viagem foi paga em dinheiro e nunca mais usei o cartão de crédito exatamente para ninguém nos seguir caso as várias passagens fossem pagas com o cartão, portanto a família em questão ainda me julga estar na Irlanda do Norte. Esse cartão realmente me fornece muito dinheiro, mas também é uma forma de me vigiarem seguindo meus passos.
Embora eu lhes tenha falado por alto que tinha contratado alguém para me auxiliar nas investigações eu jamais a descrevi e nem falei seu nome, portanto ninguém sabe nada sobre você, pois sequer falei o sexo da pessoa contratada por mim. Eles devem estar imaginando ser apenas um intérprete.
O falso Jardel com certeza me conhece, através de fotos, mas pessoalmente só deve ter-me visto na Irlanda do Norte, onde você não existiu como Agostina.
Lá ele conheceu apenas Tina a italiana, sem nenhuma ligação comigo e se estava querendo-a era para outras coisas e não para mata-la, ou para força-la a entregar-me, porque a julgava realmente uma bailarina italiana que ele desejou conquistar para outras coisas sem nenhuma ligação com os crimes.
Depois disso pode ter suspeitado algo, ou até mesmo tido certeza que trabalhava comigo, pois sabia que estivemos em Belfast na mesma época e que desaparecemos sem aviso prévio.
Se chegaram a essa conclusão imaginam que quem eu contratei para auxiliar-me é uma loira italiana de olhos azuis e pele bronzeada e não uma espanhola de cabelos curtos e pretos e também olhos pretos.
Como só ficamos juntos a partir de nossa fuga e nessas viagens nós não estávamos sendo vigiados nem pessoalmente e nem através de despesas que indicassem onde estávamos, por isso você estará salva aqui em São Paulo.
Tenho certeza que eles imaginam-me com meu ou minha auxiliar ainda andando pela Europa caçando o Jardel, portanto estamos livres por algum tempo. Tempo suficiente para eu e Dona Rute descobrirmos e provarmos quem é o verdadeiro culpado, que agora acho que não são os irmãos e até já imagino quem seja.
·        Mas tio. Muitas vezes nós nos encontramos em Lugano e isso não poderá nos comprometer?
·        Só souberam que eu estava lá fazendo minhas investigações, mas nunca falei a eles que frequentava uma casa prive para homens e que saía sempre com uma moça. Em Lugano não tinha ninguém me seguindo para tê-la visto comigo em nossos passeios, pois o falso Jardel mora e trabalha em algum lugar no Reino Unido e de lá pouco sai.
Só depois que informei em Vitória que iria viajar para a Irlanda do Norte por ter descoberto que lá era onde os herdeiros moravam é que falei muito por alto que tinha contratado alguém para me auxiliar, mas podem ter entendido que seria uma interprete totalmente inocente e não uma ativa investigadora.
·        Estando aqui com vocês estou tranquila.
·        Pode continuar com seus raciocínios Dona Rute que creio que serão exatamente como os meus.
·        Também acho que pensamos iguais. Pois bem, como eu estava lhe falando Agostina, sua amiga foi contratada por alguém da família dos Albuquerque Lins para arrumar o namorado argentino que por sua vez conseguiria os assaltantes e tudo o que aconteceu já era previsto pelo verdadeiro mandante sem que ela, é claro, soubesse que também seria eliminada. Ela fez exatamente tudo conforme lhe foi mandado fazer. Não foi descuido dela não desaparecer com o passaporte do argentino, pois pretendiam que a investigação começasse por Zaragoza, que seria o mais lógico, pois sua amiga era de lá e seria lá que as fotos seriam exibidas mostrando o Jardel vigiando a assassina.
O detetive fez seus rodeios, mas acabou indo para lá conseguindo as fotos do argentino com sua amiga que era o esperado por eles que mostravam o falso Jardel a vigia-la de longe, exatamente para incriminá-lo, sem que ela jamais visse tal homem, pois certamente ela reconheceria não ser o próprio amante. Repare nas fotos que ele sempre ficava atrás dela exatamente para ela nunca o ver.
·        Mas quem tirou tais fotografias?
·        Todos os locais onde ela foi fotografada eram locais públicos de muita atividade e nesses lugares não faltam fotógrafos para retratarem as pessoas. O verdadeiro bandido contratava os fotógrafos para fazer as fotos dela com o argentino com ele disfarçado de Jardel sempre aparecendo por perto. Depois essas fotos eram vendidas à ela que inocentemente comprava, sem sequer imaginar que elas iriam mostrar sempre o Jardel ao longe, justamente para quando ela fosse descoberta, tais fotos aumentadas iria mostrá-lo, para ele ser incriminado.
A presença de Jardel em seu espetáculo não era ele e sim um homem disfarçado parecendo-se com ele, pois como os outros irmãos ele também deve estar sem dinheiro para frequentar tais ambientes tão caros como era em Belfast. Essa carta de ameaça que você recebeu com a letra totalmente irregular foi escrita por ele incriminando o Jardel como sendo o assassino de Ana Margarita para que você a entregasse a polícia para ele ser caçado pelo crime e para isso até deu-lhe o endereço onde ele mora com os irmãos.
·        Dona Rute a letra está atrapalhada porque ele estava bêbado e isso não é um complicador.
·        Pelo contrário. As letras disformes justificam que a bebida fez Jardel escrever trêmulo e  a principal intensão do bandido era para você entrega-la aos tiras. Embora só faltasse ele colocar o remetente como sendo Jardel deixou bem claro para você delatá-lo e fornecer seu endereço para que ele fosse preso ou morto pela polícia inglesa.
Porque acha que ele deixou-se ser fotografo várias vezes com você no cassino e entregou os retratos para você? Você não me disse que ele fez isso?
·        Sim. São as fotografias que mostrei ao tio e a senhora e é parecidíssimo com o Jardel que eu via com Ana Margarita.
·        Porque acha também que ele disse onde morava? Você acredita mesmo que ele pensava que você fosse até sua casa, ou queria apenas passar-lhe o endereço de Jardel?
·        Realmente isso é uma coisa que nenhuma moça de programa faria, a menos que já conhecesse suficientemente o homem e confiasse nele, e mesmo assim se já tivesse recebido e guardado o pagamento dentro da boate.
·        Compreende agora a intensão dele?
·        Concordo que a senhora tem razão. Jamais nenhuma menina viajaria dez milhas com um bêbado estranho, ingenuamente acreditando que ele lhe pagaria algum dinheiro em sua própria casa. Mas diga-me uma coisa? Se eu concordasse em ir com ele como ele se sairia?
·        Levaria você é claro.
·        Mas chegando lá a casa não era dele e sim dos irmãos. Como ele iria resolver isso?
·        Muito me admira sua infantilidade. Ele já teria resolvido o que pretendia durante a viagem. É claro que no meio do caminho ele a estupraria e a abandonaria no meio da estrada, se não fizesse coisa pior que é o mais provável, pois seria mais um crime imputado ao Jardel.
·        Tem razão. Seria realmente morta e mais um crime contabilizado ao Jardel.
·        Seria para ele, uma maravilha, pois quando seu corpo fosse encontrado teriam as fotos suas com o assassino e milhares de testemunhas que a viram com um cara com o mesmo semblante de Jardel. Faria a polícia caçá-lo e a polícia inglesa mata mesmo se tiver certeza da culpa do criminoso.
·        Só não entendo porque os irmãos seriam punidos por todos os crimes. Eles iriam negar e possivelmente até poderiam ter álibis que comprovassem suas inocências e mesmo com Jardel fora da herança, essa seria de seus irmãos e não do verdadeiro criminoso.
·        Concordo com você, que Jardel não teria como provar inocência nenhuma. Só não sei ainda como os outros seriam incriminados e é por isso que pretendo viajar para lá com o detetive Miranda para conversar com eles e saber exatamente qual é o motivo de eles estarem desaparecidos e impedidos de aparecerem.
·        Dona Rute. Tenho quase certeza que o individuo que simulou ser o Jardel realmente não era ele.
·        O que só agora a fez pensar assim?
·        Por um detalhe importante que só nesse instante está fazendo sentido em minhas suspeitas. Reparei que suas falhas de cabelo me pareceram falsas.
·        Como assim?
·        Quando fui com ele ao cassino, eu já o tinha visto na noite anterior e suas entradas realmente estavam lisinhas, iguais um verdadeiro careca, entretanto na noite seguinte, principalmente na manhã do dia seguinte quando ele estava dentro do taxi comigo acompanhando-me até o hotel, percebi que sua calvície não estava tão careca como antes. Sabe como fica o rosto de um homem logo que faz a barba?
·        Fica bem raspada e com a pele bem lisa.
·        Entretanto dois dias depois, se não raspar novamente como fica?
·        Com os cabelos crescendo é claro.
·        Pois é. Tenho certeza que suas entradas estavam com os cabelos crescendo.
·        Então o cara não tem entradas e corta-as quando quer se disfarçar de Jardel. Que me diz do bigode?
·        O bigode era verdadeiro. Dele mesmo. É fácil perceber quando são postiços e o dele não era, mas deixar crescer os bigodes é fácil. Bastam alguns dias. O Difícil é depilar cabelos ou raspá-los e eles não voltarem a crescer.
·        Com certeza tal pessoa é bem parecida com ele e pode muito bem ser um de seus primos.
·        Ou outro irmão, passando-se por ele.
·        Porque diz isso detetive?
·        Não sei Dona Rute, mas tudo é possível, embora eu mesmo já tenha elegido o mandante como sendo algum dos parentes do casal assassinado, excluindo totalmente seus filhos.
·        Não sei se já pensou que a tia da Ana Margarita, também não tenha sido contratada para ser tão gentil com o senhor entregando-lhe as fotos.
·        Pensa nisso?  
·        Penso sim. Depois disso não me espanto de ela já ter sofrido algum acidente e também já estar morta?
·        A senhora é muito trágica Dona Rute.
·        Minha estimada sobrinha, ela não é. Dona Rute realmente enxerga longe e é assim que descobre muitos crimes.
·         Eu tenho como descobrir isso, bastando telefonar para Zaragoza e saber se ela está viva ou não.
·        Com quem falará lá Agostina?
·        Com um delegado amigo que conheço muito e que muito me considera.
·        Então ligue para ele.
Feita a ligação pela Agostina ao amigo delegado, soube que realmente ela sofreu um acidente caindo sem ninguém ver ou saber como, sobre os trilhos quando um trem do metrô de Zaragoza estava aproximando, destruindo-a completamente. Só foi identificada pelos parentes pelo desaparecimento dela e pelos documentos recuperados, pois sua bolsa ficara ilesa.
·        Querido Alcântara, quando aconteceu isso?
·        Foi no dia 12 de fevereiro.
·        Não foi assassinato?
·        Não. Ninguém viu como ela caiu por isso não se pode dizer que foi empurrada, portanto só pode ter sido acidente mesmo. Foi de madrugada e como seus parentes informaram que ela sempre gostava de beber umas tequilas, deve ter caído mesmo e foi assim que foi considerado.
·        Obrigada.
·        E você menina, onde está? Soube que saiu de Lugano e foi para as ilhas britânicas? 
·        Agora estou em Londres. Estou tentando minha vida aqui. Por enquanto estou desempregada, mas assim que conseguir um lugar para trabalhar eu lhe aviso, se antes eu não conquistar alguém da família real.
·        Far-lhe-ei uma visita, ou no palácio de Buckinghamcasada com um dos herdeiros do reino ou então em Camberwell, Harllesden ou Willesden Green onde estão as boates mais importantes dai. Vou aguardar seu próximo telefonema.
·        Um beijo.
·        Para você também, minha linda.
Agostina desligou o telefone e continuaram a conversa entre eles.
·        Menina esperta. Se não fosse por ela teríamos de viajar até Zaragoza para saber o que ela descobriu em apenas cinco minutos.
·        Por isso Dona Rute que quero que ela trabalhe comigo como investigadora.
·        Então não me quer mais?
·        Quero as duas se eu tiver essa sorte.
·        Vou trabalhar com o senhor nesse caso que está me intrigando demais, mas apenas como colaboradora.
·        Já está ótimo, mas eu lhe pagarei pelos trabalhos.
·        Só as passagens que forem necessárias.
·        O que a senhora pensa em fazer? Ir comigo para Irlanda do Norte?
·        Pensando bem ninguém deve voltar para lá por enquanto. Lá o senhor estará sendo vigiado.  Acho melhor eu aproximar-me da família de Vitória para ter certeza de quem realmente é o mandante, já que o senhor está pensando, como eu, ser alguém de lá e não mais os filhos do casal assassinado.
·        O que acha melhor fazermos?
·        O senhor deve viajar para as Ilhas Gregas, pois no Reino Unido deve estar sendo procurado pelo bandido que com certeza já o conhece por fotografia. Ou vá conhecer a Austrália com sua sobrinha, que eu vou para Vitória.
·        O que eu faria nesses lugares?
·        Absolutamente nada, enquanto eu não lhe telefonar dizendo o que descobri em Vitória.
·         Então ficarei aqui em São Paulo mesmo.
Deve desaparecer daqui para continuar gastando o dinheiro que recebe da família, justificando de vez em quando por telefone que está procurando rastros dos irmãos “assassinos” em vários outros lugares onde encontrou possíveis pistas.
·        A única e última pista que tenho é na Irlanda do Norte.
·        Diga-lhes que não encontrou nada na Irlanda e não se refere ao tal sítio perto de Befast, pois o senhor não ficou sabendo absolutamente nada de lá. Quem soube foi Tina e não deve mencionar nada sobre o bilhete recebido por ela, para afastar qualquer suspeita de que ela e o senhor têm alguma coisa em comum.
·        Então vamos para as Ilhas Gregas, Agostina?
·        Estou pensando em outra coisa.
·        Vocês devem ir e enquanto descansam e passeiam por lá, eu assumo a causa e os informo o que deverão fazer depois. Podem viajar amanhã mesmo.
·        Amanhã não posso, pois preciso ficar em São Paulo, pelo menos uns dois ou três dias, para passar as informações de meus clientes aos meus funcionários que são apenas a secretária e dois detetives para eles darem prosseguimento ao meu trabalho junto aos clientes, pois não posso simplesmente abandoná-los, mais tempo.
·        Isso me ajudou decidir o que quero fazer.
·        O que pretende fazer, Agostina?
·        Você me leva ao seu escritório, apresenta-me ao pessoal e eu assumo uma posição lá e fico aprendendo o serviço enquanto viaja, para despistar o pessoal da família Albuquerque Lins.
·        Gostei de saber dessa sua atitude menina, e acho que deva fazer isso mesmo enquanto o detetive viaja sozinho.
·        Também concordo com Dona Rute, pois você ficando aqui em São Paulo estará totalmente a salvo, pois nenhum deles a conhece e quanto a mim é claro que estarei sendo rastreado pelo cartão e vigiado pessoalmente quando estiver próximo ao bandido que está na Europa, pois agora creio que são apenas dois os mandantes. Talvez um pai ou uma mãe que mora em Vitória e um parente na Europa, talvez um filho, ou outro parente qualquer.
·        Então estamos combinados detetive. O senhor viaja para longe sempre comprando suas passagens com dinheiro e só use o cartão de crédito de vez em quando justamente para desorienta-los e a Agostina fica em seu escritório e poderá morar lá mesmo ou em minha casa enquanto vou para Vitória.
Detetive não se esqueça de guardar muito bem em seu cofre o bilhete que Agostina recebeu e não comente sobre ele com ninguém. Desta forma quem quer que seja a pessoa que se faz passar por Jardel não vai suspeitar que Tina tenha alguma ligação com o senhor e vai acabar esquecendo dela, imaginando que ela simplesmente destruiu o bilhete, voltou para a Itália com medo dele e ponto final.
Primeiro quero que me passe os nomes de todos os membros mais importantes da família.
·        Anote com a senhora:
Os assassinados foram o Sr. Sócrates de Albuquerque Lins e sua esposa Solange Souto Campos de Albuquerque Lins.
Seus filhos são Jardel, Silvio e Dante Campos deAlbuquerque Lins e o mais velho Sócrates de Albuquerque Lins Filho.
As irmãs de Dr. Sócrates são Neusa e Creuza Albuquerque Lins. A Neuza é solteira sem filhos e Creuza é viúva e tem duas filhas casadas. Uma delas com um casal de filhos e a outra com três filhos ainda pequenos, cujos nomes não sei.
·        Elas são casadas com algum parente delas?
·        Não. São pessoas estranhas a família e totalmente diferentes deles em fisionomia e tamanho e idade.
·        Continue falando da família.
·        O irmão caçula e sócio de Dr.Sócrates é Dr Aldo de Albuquerque Lins casado com Carmélia Silva de Albuquerque Lins e eles tem apenas a filha chamada Silvia que é casada e com o Engenheiro Rodrigo de Sena e tem dois filhos também crianças cujos nomes nem me interessei em saber.
·        Todos moram nas imediações?
·        Desses que já falei, apenas Silvia, filha de Dr. Aldo mora no Rio de Janeiro e fora esses tem outros parentes já bem velhos como seus tios Pedro...
·        Esses não interessam. Bastam os que são da geração do Dr. Sócrates consequentemente seus irmãos e descendentes.
·        Então já sabe sobre todos eles.
·        Então exceto a filha de Dr. Aldo todos moram em Vitória?
·        Exatamente na Ilha do Frade.
Todos moravam na casa dos pais de Dr. Sócrates enquanto eles eram vivos e na medida em que iam casando os pais iam construindo-lhes casas em terrenos próximos para eles irem se mudando.
Com a morte dos anfitriões a mansão principal acabou de comum acordo transformando-se na residência de Dr. Sócrates e família, por ser uma casa bem grande e ele era o que tinha a maior família.
oooOooo
Tudo esclarecido, no dia seguinte procederam ao combinado.
Agostinha foi apresentada aos funcionários do escritório do detetive para assumir o trabalho da secretária enquanto a outra mais experiente exerceria algumas visitas a clientes com informações conseguidas pelos dois detetives que também incluíram em seus roteiros os clientes do detetive Miranda que viajaria dois dias depois para a Grécia.
Dona Rute foi para Vitória a procura de trabalho na Ilha do Frade.
Ela apresentou-se com suas excelentes referencias que tinha de famílias importantes de São Paulo e de outros locais, na mansão vizinha a dos idosos assassinados para tentar emprego nessa residência e ficar próxima da mansão assaltada.
Esse seria seu ponto de partida embora não fosse exatamente isso que ela queria, mas deveria ser seu primeiro passo para chegar até a mansão dos idosos assassinados, e tudo correu conforme planejado.
Tal família que foi exatamente a que viu o assalto chamando a polícia indicou-lhe o Dr. Aldo que não morava muito longe lhe dizendo que provavelmente ele conseguiria colocação para ela na mansão que estava sem moradores, apenas com empregados sem muita experiência para cuidar da casa. Indicou-lhe a casa de Dr. Aldo e para lá ela foi.
Dona Silvana que era uma senhora que já exercia a atividade de governanta na mansão de Dr. Aldo foi quem a atendeu. Muito simpática como Dona Rute a empatia entre elas foi imediata e Dona Silvana que era empregada na casa dos pais dele desde que Sr. Sócrates era adolescente, assim como suas irmãs mais novas e o senhor Aldo ainda uma criança havia conquistado tal cargo que atualmente exercia na residência de Dr. Aldo por trabalhar com a família há quase cinquenta anos.
Era ela quem acumulava os trabalhos de cuidar da casa de Dr. Aldo e da outra e ela convenceria Dona Carmélia em dar-lhe o emprego, pois sabendo de sua longa experiência em casas suntuosas seria interessante para o casal coloca-la como governanta para tomar conta dos demais empregados que não tinham ninguém à orientá-los devidamente.
Foi assim que Dona Rute conseguiu conhecer Dona Carmélia e Dr. Aldo e ser contratada por eles para zelar da residência e chefiar a equipe que lá já trabalhava, morando na própria casa e não nas edículas para empregados.
Foi levada e apresentada aos demais empregados como sendo a nova governanta da mansão a quem deveram respeitar como aos patrões.
Dona Rute e Dona Silvana se visitavam em seus trabalhos constantemente para um bate papo informal sempre relacionado aos trabalhos, pois idosas como eram não se davam aos prazeres dos outros de passearem fora e ambas ficavam todas as noites em longas conversas sobre alimentação saudável, boas maneiras e coisas assim, próprias de suas atividades.
Às vezes na casa de uma, outras na casa da outra, e foi assim que em apenas três dias, com seu jeito especial de investigar as pessoas Dona Rute foi conseguindo ouvir o que já sabia pelo detetive e pelos noticiários da época sobre os crimes acontecidos na residência e sobre seus familiares.
Soube que Dr. Aldo e esposa tinham apenas uma filha casada que morava no Rio de Janeiro com o marido e dois filhos pequenos.
O irmão mais velho dele era o Dr. Sócrates já morto e eles tinham duas irmãs.
Uma era solteirona convicta, sem filhos e a outra que enviuvara-se à alguns anos era mãe de duas filhas casadas e moradoras na mesma ilha do Frade. Confirmando o que ela já sabia os filhos de Dr. Sócrates eram solteiros sem filhos e moravam no exterior e a irmã viúva e o Dr. Aldo eram avôs de meninos ainda pequenos, provenientes de casamentos de suas respectivas filhas, portanto nenhum deles tinha filhos ou netos que pudessem estar na Europa passando-se por Jardel, portanto o enigma continuava.
Sra. Silvana contou a Dona Rute, que assustada e fingindo nada saber tudo que aconteceu com o Dr. Sócrates e sua esposa Dona Solange. Ela  alegava categoricamente que tudo indicava que foram os próprios filhos quem haviam planejado os assassinatos na mansão e os outros fora dela.
·        Que coisa horrível estou sabendo agora pela senhora. Os próprios filhos articularam um plano contratando bandidos para matarem os pais violentamente? A senhora acredita nisso? Mesmo sabendo que eles seriam os herdeiros legítimos dos pais?
·        Infelizmente, mesmo eu gostando deles não tenho como duvidar, assim como nenhum dos outros empregados e todos os familiares.
Eles já contrataram um advogado da Inglaterra para receber por eles a herança de tudo que os pais possuíam, pois nada prova de que eles tinham movido uma palha para os crimes. Estão desaparecidos e esbanjadores de dinheiro como  são delapidaram todo o dinheiro que o pai lhes deu em farras e possivelmente com drogas e infelizmente parece que provocaram a morte deles justamente para herdarem sua incalculável fortuna.
·        O que acha o delegado daqui?
·        Que são eles e inclusive indicou ao Dr. Aldo que contratou um famoso detetive de São Paulo, chamado Caio Miranda, para descobri-los e provar a culpa deles.
·        Contrataram um detetive de São Paulo?
·        É muito famoso lá por ter solucionado vários crimes quando trabalhava na polícia. Hoje é aposentado, mas continua exercendo a profissão e parece-me que até já descobriu que os rapazes moram na Irlanda do Norte e está sendo pago para descobri-los e conseguir provar a culpabilidade deles, para serem julgados e condenados aqui no Brasil, que evidentemente serão deserdados sumariamente além de pegarem muitos anos de reclusão.
·        Que coisas horríveis estou sabendo. Tal detetive Caio Miranda é realmente competente? Eu moro em São Paulo desde que nasci e jamais ouvi falar sobre ele.
·         Talvez a senhora se preocupe mais com afazeres domésticos e não tem tempo para saber sobre os feitos dos policiais e seus detetives.
·        Deve ser isso mesmo, pois apenas cuido das casas que trabalho e sobra pouco tempo para dedicar-me a minha filha e meus netos, portanto não sei de nada disso que aconteceu por aqui que a senhora acabou de dizer-me e nem dos crimes de lá mesmo.
Como sempre Dona Rute muito esperta idealizou para as novas conversas outro tipo de assunto, pois por aí nada iria ficar sabendo o que pretendia e trêmula, nervosa e atemorizada falou:
·        Esse assunto não está muito interessante e acho que já estamos na hora de dormir. Vamos nos despedir e amanhã a noite poderemos conversar, entretanto sobre outras coisas, pois estou até muito assustada, pensando que estou morando em uma casa onde houve recentemente crimes tão violentos.
·        Pode ficar despreocupada, pois nada mais deverá acontecer, pois os criminosos todos já morreram. Amanhã eu lhe conto mais sobre o caso.
·        Se pudermos falar sobre outros assuntos agradeço, pois creio que será mais interessante e de mais utilidade conversarmos só futilidades ou fofocas. Sobre crimes não gosto de falar, pois me assombram e provocam-me insônia.
·        Então não falarei mais sobre isso que lhe aborrece e boa noite que já vou para minha casa.
·        Boa noite e quando formos batermos mais papo, gostaria que fosse sempre aqui, pois tenho de estar no controle dos outros funcionários que chegarão logo mais e lá onde a senhora trabalha eles terão mais respeito, pois estão na casa com os próprios patrões presentes e serão mais disciplinados.
·        Está bem. Toda noite as vinte e uma horas estarei aqui e conversaremos sobre animosidades até as vinte e três e depois vou embora sem nenhuma preocupação, pois ao dirigir-me para minha casa estarei completamente segura por ser conhecida até pelos gatos e cachorros da vizinhança, ao contrário da senhora que é novata e estranha.
·        Agradeço a gentileza de só nos encontrarmos aqui e durma bem.
Foram duas noites de encontros sem se tocar no assunto do crime da mansão, pois a perspicácia de Dona Rute impediu qualquer assunto relacionado com ele, pois independente da amizade instantânea não poderia ser contundente em suas investigações porque imaginava que Dona Silvana poderia estar falando sobre tal assunto, talvez instruída pelos patrões para saber se Dona Rute era alguma intrusa que estava querendo saber demais.
Na quarta noite que se encontraram foi Dona Rute quem lhe disse:
·        Dona Silvana sabe quem esteve aqui hoje e até elogiou-me pelo meu trabalho?
·        Creio que deve ter sido Sra. Carmélia Souto.
·        Foi justamente ela e o Dr. Aldo.
·        Eles são realmente muito simpáticos e vivem em eterno amor assim, desde que casaram?
·        Agora depois de velhos vivem em paz, pois quando eram jovens muitas coisas aconteceram.
·        Mexericos de patrões eu gosto. Não é por nada não, mas fofocas sempre são interessantes saber.
·        Pois é, minha amiga. O Dr. Aldo quando jovem era um garanhão. Já estava casado com Dona Carmélia e saía com outras.
·        Isso para mim não é nenhuma novidade. Todos os homens são safados mesmo até depois de velhos.
·        Mas no caso dele teve um babado forte.
·        Não me diga que engravidou alguma amante?
·        Exatamente isso. Ele foi amante justamente da irmã caçula da Sra. Solange.
·        Quem é senhora Solange mesmo?
·        A esposa do Dr. Sócrates que foi assassinada com o ele a mando dos próprios filhos.
·        Agora me lembro dessa trágica história. Imagino que ela tenha feito um aborto para não ficar complicado, pois ter um filho de um cunhado, traindo a própria irmã é coisa brava.
·        Que aborto que nada minha amiga. Ela era casada com um inglês e moravam aqui no Brasil porque ele trabalhava nas indústrias com o Dr. Sócrates e viajava muito a serviço.
·        E o que aconteceu?
·        Como Dr. Aldo era sócio do Dr. Sócrates, confidenciou-lhe o acontecido e resolveram montar um escritório das empresas em Londres transferindo para lá, com um salário bem melhor, o inglês com a esposa em início de gestação, para eles tomarem conta do escritório. Para ela ter o filho por lá como sendo do marido para ninguém saber de mais nada.
Lá a criança nasceu e foi registrada como filho do John Wendy Lindsaye da brasileira Celia Souto Campos Lindsay, embora ela tivesse certeza que quem a engravidou tinha sido o Dr. Aldo.
Ninguém explicou ou comentou nada, mas creio que o inglês desconfiou da gravides da esposa e se suicidou pouco tempo depois de estar lá, mas ela foi levando sua vida em Londres e criando o menino que nasceu inglês e recebeu o nome de John Wendy LindsayJúnior, que hoje já é adulto com uns trinta anos de idade e parece que muito bem conceituado em Londres. Ele é um policial do alto escalão de lá e responsável por um presídio inglês privatizado.
·        Que história interessante? Como a senhora soube sobre isso.
·        Porque na época o Dr. Aldo ia muito a Londres no tal escritório.
·        Com certeza para seus trabalhos.
·        Nem tanto. Acho que ele queria mesmo era ver a amante que era linda e até assistir o nascimento do nenê.
·        O fato de ele ir muito para lá não dá direito a senhora pensar que ele era amante da moça e muito menos ter-lhe engravidado.
·        Tentei lhe esconder como fiquei sabendo, mas como não está acreditando em mim vou contar-lhe como descobri tudo.
Por várias vezes eu os vi aos beijos dentro de casa, pois pensavam que por a família não estar presente não seriam vistos por ninguém. Geralmente era depois de todos os empregados já terem saído, mas como naquela época eu morava dentro da casa flagrei-os várias vezes, pois eles não sabiam que eu sempre calada e não fazendo barulho estava sempre por perto. Bastava a família toda estar na piscina ou nas praias aos fundos da casa, quando estava em noite quente para eles irem direto para dentro se encontrarem.
·        Ainda assim é muito sério a senhora falar que ele a engravidou, por alguns beijos e abraços.
·        Não eram só beijos e abraços. Isso acontecia antes de eles entrarem em um quarto de hóspedes que usavam para seu romance escondido.
·        Mas a gravides pode ter sido do marido.
·        Acontece que ouvi uma conversa deles.
·        Atrás da porta?
·        Sim. Fiz isso mesmo e ouvi quando ela falou ao Dr. Aldo que tinha feito um teste de gravides e que havia dado positivo e que não se relacionava com o marido há muito tempo devido sua atual longa viagem e que o filho era dele, pois ela não tinha nenhum outro amante.
·        Então agora está explicado.
·        Agora concorda comigo?
·        Plenamente. Esse rapaz deve ser muito parecido com os filhos de Dr. Sócrates, pois são primos.
·        Não sei. Ele nunca apareceu por aqui e nunca mandou fotos, pois na época Dona Carmélia, desconfiou das inúmeras viagens do Dr. Aldo para a Inglaterra e confidenciou suas suspeitas a Dona Solange, dizendo que desconfiava que seu marido fosse amante da irmã dela.
Dona Solange pediu ao Dr. Sócrates que mandasse outro funcionário para os trabalhos da empresa de lá, impedindo que Dr. Aldo fosse tão assiduamente e ele para não aumentar mais a dúvida da esposa proibiu a amante já viúva de voltar ao Brasil e jamais trazer o rapaz para cá. Mantinha-a lá com o filho pagando uma enorme pensão.
·        Então ninguém conhece o rapaz?
·        Creio que apenas o Dr. Aldo, pois mesmo a contragosto da esposa, muito assiduamente, ele sempre viajou para lá como sendo a serviço. Com o passar do tempo Dona Carmélia deixou de achar ruim com essas viagens porque a Célia arrumou outro casamento por lá e parece que está feliz e cheia de filhos ingleses.
·        Como sabe tudo isso?
·        Porque quando comecei trabalhar para Dona Carmélia ela acabou contando-me, inclusive que o marido tinha um filho bastardo na Inglaterra, mas pediu-me segredo extremo, pois ninguém da família sabia desse filho de seu marido.
·        Então porque está contando para mim?
·        Porque ela só me contou o que eu já sabia, recentemente após a morte de Dona Solange, portanto se alguma coisa viesse e ser sabido ela não sofreria por esse desgosto.
·        Conte-me alguma fofoca de São Paulo Dona Rute, pois a que eu sabia daqui já acabou e não sei mais nada.
Foi apenas um caso rápido que Dona Rute inventou para satisfazer a amiga e essa lhe disse:
·        Dona Rute chegou minha hora de ir dormir e amanhã conversamos mais.
·        Certo. Amanhã fofocaremos mais. Eu tenho muitos mexericos de famílias importantes de São Paulo para lhe contar.
·        Amanhã virei um pouco mais cedo para termos mais tempo para fofocarmos mais. Infelizmente eu só tenho esse caso para contar, pois trabalho só para essa família praticamente minha vida toda e só sei isso, mas a senhora como trabalhou em várias casas deve saber muita coisa.
·        E como. Amanhã lhe contarei muitas bagunças que presenciei.
·        Então até amanhã.
·        Não vejo a hora de chegar amanhã.
·        Gosta de fofocas não?
·        Quem não gosta.
oooOooo
No dia seguinte Dona Rute telefonou a amiga avisando-a para não vir a sua casa, pois iria conversar com sua filha que estava com problema de doença da sogra e demoraria no Skype com ela durante o horário de suas conversas, pois só nesse horário que a encontraria em casa.
Telefonou para o detetive Miranda, que estava nas Ilhas Gregas e disse-lhe que no dia seguinte lhe telefonaria novamente, pois tinha muitas coisas importantes a lhe contar.
Telefonou rapidamente para seu ex-marido o detetive Grozzi pedindo-lhe que não arrumasse nenhum compromisso para a noite do dia seguinte porque precisaria conversar pessoalmente e por muito tempo com ele e tornou a ligar para Sra. Silvana para ela informar sua patroa que infelizmente teria de deixar seu trabalho, pois deveria voltar para São Paulo, pois era caso de doença em família e ela precisaria retornar para lá no dia seguinte a tarde.
Sra. Carmélia procurou-a pessoalmente no dia seguinte pela manhã e disse-lhe:
·        Estou gostando muito de seu trabalho. É pena, mas o que se há de fazer quando somos solicitados pelos familiares. Ontem, Silvana falou-me que nem iriam conversar, pois a senhora ligou avisando que iria conversar com sua filha, sobre assunto de doença em família.
·        Pois é, a sogra dela está muito doente e ela pediu-me para voltar para eu tomar conta de meus netos enquanto ela cuidava da velha enferma.
·        Que horas sairá hoje?
·        No voo das quinze horas.
·        Então logo mais volto para pagar pelos dias trabalhados.
·        Obrigada e quando estiver tudo em ordem por lá, voltarei se a senhora for me aceitar novamente. Tive muito prazer e gostei muito de trabalhar aqui.
·        Nós também gostamos muito da senhora e com toda certeza gostaríamos de tê-la trabalhando com nossa família.
·        Eu telefonarei sabendo se devo voltar ou não após solucionar o problema de lá.
·        Provavelmente será novamente aceita por nós.
·        Obrigada e até a próxima.
·        Quando acertarmos suas contas me despedirei.
oooOooo
Foi assim que Dona Rute saiu daquela casa e viajou para São Paulo, tento plena certeza saber quem era o mandante dos assassinatos, entretanto precisava de algumas pesquisas a serem feitas em Lisburn pelo detetive Miranda e outras na Inglaterra pelo detetive Grozzi.
Tornou a falar com o detetive Miranda, que estava nas Ilhas Gregas e solicitou seu retorno para São Paulo, pois tinha descoberto muitas coisas e eles precisariam conversar sobre tudo que ela descobrira.
·        O que quer falar-me?
·        Quando chegar aqui vai saber quais são os mandantes.
·        Como soube?
·        Depois contarei.
·        Dê-me uma dica.
·        Antes de voltar, primeiro faça outra coisa muito importante.
·        O que é?
·        Vá até Besfast e de trem viaje e desça no distrito de Lisburn, procure o tal sítio que já sabe como ir e veja se está habitado e por quem?
·        Para que isso? Vou encontrar os filhos do casal assassinado.
·        Tenho certeza que não, mas primeiro precisamos dessa confirmação, e não será necessário telefonar-me contando o que achou, pois quando nos encontrarmos aqui o senhor me fala.
Desligou o celular e foi para o bar do baiano de taxi direto de Guarulhos sem sequer passar em sua casa. Antes de entrar no taxi telefonou ao detetive Grozzi para ir lá, sem nenhuma viatura da polícia e sem nenhum companheiro fardado. Apenas ele.
Quando chegou já encontrou o ex-marido que havia chegado pouco antes e solicitado os acarajés com pouca pimenta e muito guaraná que ela tanto apreciava.
Sem sequer cumprimentar-se ela já foi falando:
·        Grozzi tenho uma missão urgente e importante para você fazer. Pode ajudar-me?
·        Sempre que precisar.
·        Estou sabendo que o governo do Rio Grande do Sul tentará buscar na Europa o modelo para a construção e gestão dos novos presídios.
Uma comitiva formada por integrantes do alto escalão do governo do Estado inicia uma viagem de nove dias ao Reino Unido e à Espanha, com o objetivo de conhecer experiências de Parcerias Público-Privadas (PPPs) desses países para servir de base e aperfeiçoar o projeto que deve ser construído na Região Metropolitana de Porto Alegre.
O novo complexo penitenciário gaúcho deverá comportar milhares de presos.
A pessoal que irá a Europa se reunirá com agências governamentais e organizações privadas que administram prisões. O grupo que viajará será composto por pelo menos quatro secretários estaduais, além dos titulares da Superintendência dos Serviços Penitenciários e o comandante-geral da Brigada Militar.
A comitiva contará ainda com representantes do Ministério Público, do Tribunal de Justiça e da Assembleia Legislativa. 
Haverá reuniões em Londres com representantes do governo inglês e órgão que auxilia no processo de privatização e iniciativas de financiamento de serviços públicos.
·        Espere um momento Dona Rute, pois tenho algo a falar sobre isso.
·        Deixe-me terminar o que quero informar e depois você fala o que quiser.
·        Tudo bem, sua matraca. 
·        Tal comitiva fará visita ao presídio Altcourse em Liverpool, ao presídio Lowdham Grange em Notthingham, e ao presídio de Bronzefield em Ashford, todos na Inglaterra, além de outros na Espanha, e eu quero que você dê um jeito de estar nessa comitiva para descobrir algumas coisas que preciso.
Como conseguirá não sei, mas é de extrema importância que você esteja lá.
Agora fale o que quer dizer.
·        O que tenho a informar-lhe é que o Governo de São Paulo estará levando alguns membros importantes de penitenciárias junto dos gaúchos.
·        Ótimo. Então consiga estar entre eles.
·        Como?
·        Não é amicíssimo do Secretario da Segurança Pública de São Paulo?
·        Sim, mas nesse caso só conseguiria alguma coisa no âmbito da Prefeitura e não do Estado.
·        Pois meu amigo, o prefeito é carne e unha com o Governador, portanto através dele poderá conseguir estar entre os membros que irão.
·        Que história eu diria ao Secretário para ele conseguir isso para mim?
·        Diga-lhe que é para desvendar o crime da Ilha do Frade de Vitória, e que é indo lá que você conseguirá desvendá-lo.
·        Ainda continua complicado, pois não estou trabalhando nesse caso e a viagem acontecerá daqui apenas cinco dias. Não terei tempo para conseguir nada.
·        Então fale aos seus amigos que é um pedido meu, já que diz que eu estou sempre em alta com todos eles. Se isso for realmente verdade creio que conseguirá.
·        Assim será feito e ainda hoje lhe telefonarei dizendo o que consegui.
·        O que conseguir só poderá ter uma resposta e a resposta é que irá. Consiga isso que depois marcaremos um encontro pessoal para lhe dizer o que deverá fazer lá.
Logo na manhã seguinte Dona Rute recebeu um e-mail do detetive Grozzi, informando-a que conseguiu incluir-se como um dos integrantes da comitiva e ela solicitou sua presença pessoal para conversarem a noite toda se preciso fosse para coloca-lo a par de tudo que estava acontecendo e o que ela descobrira e o que ele deveria fazer.
Nessa noite de sábado, sempre no bar do baiano ela contou tudo sobre o caso e principalmente o que acabara de descobrir na Ilha do Frade em Vitória.
Solicitou-lhe que procurasse saber qual era a penitenciária particular em que John Wendy Lindsay Jr. era o mandatário. Não tinha fotos dele para entregar-lhe, mas fez a exigência de ele descobrir onde estavam presos, possivelmente sem comunicação os quatro irmãos Campos de Albuquerque Lins, cujos retratos mais ou menos de cinco anos antes lhe foi fornecido e despediram-se pela manhã, pois o assunto consumiu a noite toda, embora ela o convidou para dormir em sua casa, ele cônscio de seu trabalho despediu-se pois só teria tempo para um rápido banho e assumir seu plantão logo cedo.
Não demorou dois dias para Dona Rute se encontrar com detetive Miranda e o detetive Grozzi que participaria da conversa e com eles conversou longamente solicitando ao detetive Miranda tudo que ele tinha descoberto no distrito de Lisburn.
Ele lhe explicou:
·        Lá a casa estava com aspecto de abandonada, pois estava muito suja e até com uma vidraça quebrada pela qual olhei e vi vários móveis.
·        Dentro da casa estava com ares de não usada?
·        Era usada de vez em quando, pois quando a invadi vi sinais de uso esporádico.
·        O senhor entrou na casa?
·        É claro. Tinha de verificar tudo e veja o que encontrei.
Exibiu-lhe os documentos e passaportes dos quatro filhos de Dr. Sócrates que foram encontrados em um cofre que facilmente desvendou o segredo.
·        Ótimo trabalho. Tais documentos serão de muita valia para o próximo passo.
·        Como?
·        Entregue-os ao Grozzi que os levará para Inglaterra.
·        O que ele fará lá?
·        Aguarde mais um pouco que saberá de tudo.
·        O que soube sobre os irmãos com os vizinhos.
·        Que eles realmente moravam ali até mais ou menos dois anos antes, mas depois desapareceram como por encanto deixando todos os pertences dentro da casa. Que apenas um deles de vez em quando aparecia e ficava algumas horas e depois partia novamente.
·        Era o Jardel com certeza.
·        Sim conforme me informaram era ele quem aparecia lá.
·        Os vizinhos os conheciam pelos nomes?
·        Não. Apenas referiram-se ao que aparecia como sendo o calvo de bigodes compridos, portanto só poderia ser ele.
·        Melhor dizendo, o falso Jardel.
·        Correto. Como nada descobri, além disso, qual o motivo de eu ter voltado urgente para cá?
·        Porque eu descobri toda a trama.
·        Como?
·        Prestem atenção como tudo aconteceu.
O detetive Miranda e o detetive Grozzi atentos ouviu toda a história.
·        O filho bastardo desde o começo recebia o grande amor e dedicação de Dr. Aldo, pois o visitava com frequência e sua mãe Celia não podia impedir, pois os maus tratos a ela, uma simples viúva dependente economicamente daquele homem a tudo sujeitava.
Assim o jovem John Wendy Lindsay Jr., foi crescendo e tão logo a mãe casou de novo, ele induzido pelo pai abandonou-a ainda adolescente sempre sustentado pelo pai e ao completar maioridade entrou para o exercito inglês.
Ele progrediu fez carreira e com o muito dinheiro que Dr. Aldo lhe enviava acabou por ser um dos donos de uma penitenciária privatizada na Inglaterra. Ele mandava e tudo que ele fazia era ordem em sua penitenciária particular.
A ideia do pai, provavelmente já de muito tempo era matar o irmão para ficar sendo o único dono das empresas em que era sócio e com a enorme aparência do filho adulto com o primo Jardel, arquitetara todo o plano.
Primeiro John tinha de dar sumiço nos irmãos, sem mata-los para todas as suspeitas do assassinato de Dr. Sócrates recaírem sobre eles. John totalmente desconhecido de toda a família passaria perfeitamente por Jardel devido a sua grande semelhança, pois era filho de uma irmã da mãe de Jardel e de um irmão do pai de Jardel, portanto suas aparências eram praticamente idênticas.
O bigode que o outro usava era simples para ele deixa-lo crescer e cortá-lo a semelhança e as calvícies eram feitas quando necessárias por depilação e assim ficariam iguais.
Nessa época Ana Margarita já não recebia os recursos oferecidos pelo namorado Jardel que se encontrava falido.
John sumiu com os irmãos e com apenas um ou dois soldados de sua confiança, prendeu-os alegando alguma falcatrua, na penitenciária em que ele era dono, com poucas explicações aos jovens que o desconheciam.
Não demorou muito a transferir esses policiais, para outros locais ou sumir com eles e manteve os irmãos presos e incomunicáveis em algum lugar do presídio onde somente ele tivesse acesso.
 Foi o próprio John quem visitou Ana Margarita, arrotando sua excelente posição social e seu dinheiro tornando-se seu amante e ganhando-lhe a confiança explicou todo o plano articulado por ele e seu pai que resultaria em uma fortuna muitíssimo grande em que ela teria grande parte depois de tudo concluído.
Com certeza deu-lhe muito dinheiro para sua participação e ela concordou sabendo tudo que deveria fazer e fez, sem saber que também iria morrer depois.
Foi a partir dessa época que ela se afastou de Agostina, embora o John sempre se apresentasse disfarçado de Jardel para nunca ser visto em Lugano como ele próprio.
Concordando com o plano Ana Margarita contratou o Argentino e o matou após ele ter dado fim nos criminosos dos idosos.
Ele mesmo procurou pela mãe adotiva de Ana, dando-lhe muito dinheiro para ela exibir as fotos de Ana Margarita a quem quisesse ver para mostra-la com o Argentino nas quais bem examinadas mostrariam o Jardel ao fundo, para incriminá-lo.
John foi ao flat onde Ana morava e simplesmente deu-lhe um tiro certeiro no coração disfarçado de Jardel, pois se alguém o visse não teria como negar-lhe o crime.
·        Como a senhora explica o pedido dos filhos para apossarem-se da herança através de uma empresa idônea de Londres?
·        Sempre o John disfarçado de Jardel agia em nome dele. É claro que de posse de seus documentos, obrigou-os a assinarem e ele próprio com procuração dos demais, procurou a empresa advocatícia substabelecendo a procuração ao advogado para receber e é claro que ele sabia falsificar não só a assinatura de Jardel como sua própria letra, pois deve ter tido muito tempo para aprender isso. O advogado de posse dos papeis da herança prestaria contas a ele que receberia tudo, para só então ele dar fim nos irmãos, matando-os, pois ninguém sabia do paradeiro deles e continuariam não sabendo.
·        Então provavelmente ainda eles estão vivos até hoje?
·        Sim Grozzi. Pode haver alguma necessidade deles terem de assinar alguma papelada e devem estar vivos jogados em algum canto de uma penitenciária na Inglaterra e é por isso que preciso de você lá para descobri-los.
·        O que me cabe fazer agora Dona Rute?
·        Por enquanto nada detetive Miranda. Sua participação trazendo os documentos deles já foi de extrema valia. Volte a cuidar de sua empresa até que Grozzi traga os resultados obtidos.
·        Você Grozzi deve ir com a missão brasileira a Inglaterra e descobrir qual é a penitenciária que é propriedade e administrada por JohnWendy Lindsay Jr. e vasculha-la inteira até descobrir os irmãos.
·        Depois disso detetive Miranda deve ir a Vitória devolver o cartão de crédito ao Dr. Aldo e deixar o caso definitivamente, pois logo o delegado de lá deverá prendê-lo, após o Grozzi descobrir os irmãos inocentes e fazer um dossiê informando sobre a participação de Dr. Aldo e de seu filho inglês com todas as provas e detalhes convincentes.
·        Viajarei para lá só depois do Grozzi realmente descobrir os irmãos trancafiados.
·        Concordo.
Na Inglaterra a comitiva brasileira nem precisou procurar saber a quem pertencia cada penitenciária, pois os documentos recebidos dos órgãos de lá dava tudo detalhado, e a pedido dos representantes paulistas aos gaúchos deram preferência a fazer a primeira visita logo na prisão de propriedade e administrada pelo CoronelJohn Wendy Lindsay Jr. Os ingleses sem a presença do administrador que imaginava que a dele seria a última a ser visitada não se deu ao trabalho de sumir com os irmãos trancafiados.
Foram exibidas todas as excelentes dependências de recuperação aos presidiários, pouquíssimas celas gradeadas que só serviam para o repouso dos detentos bem alimentados e bem vestidos, as oficinas profissionalizantes, os restaurantes suntuosos, as partes recreativas com as melhores aparelhagens possíveis para a prática de esportes e lazer, a ampla biblioteca e as maravilhosas salas de ensino que tinham até nível superior e para a surpresa deles próprios quando abriram uma solitária a prova de som que deveria estar vazia encontraram trancafiados e acorrentados quatro sujos e desnutridos homens sem que ninguém soubesse de quem se tratava.
Não constavam na relação dos presidiários e imediatamente o Coronel John foi detido pelos oficiais ingleses para justificar aquela absurdo e o Consul Brasileiro que também participava da visita foi informado pelo detetive Grossi quem eram eles e entregou-lhe seus documentos explicando como tudo tinha acontecido. Eles imediatamente foram soltos e asilados na Embaixada Brasileira.
Contaram tudo que passaram, sem saber por que foram presos em uma madrugada enquanto dormiam tranquilamente e coube ao coronel John confessar todos seus delitos, inclusive como deu fim em seu próprio policial que com ele esteve participando dessa prisão.
Por ordem do governo inglês nada foi noticiado nem para o país e muito menos para o resto do mundo, porém foi assinada a confissão com todos os detalhes dos hediondos crimes praticados por ele e que fora arquitetado por ele e seu pai Dr. Aldo de Albuquerque Lins da cidade de Vitória, estado do Espirito Santo no Brasil.
Os irmãos foram trazidos pelo detetive Grozzi em segredo para o Brasil com uma tradução juramentada da confissão do criminoso, e após tomar ciência de tudo, o delegado de Vitória foi buscar o Dr. Aldo algemado para sua prisão.
Acabou.scar o Dr. Aldo algemado para sua prisão.
Acabou.

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