Jose Verissimo






VERBO, POETAS E RETICÊNCIAS

Sonhou naquele dia pela última vez, como sonham os deuses
Beijou sua amada, como se beijam os amantes
Serviu-se da seiva gelada, como se servem os astros
Peregrinou pelas ruas, como peregrinam os apaixonados
Sangrou no sabor da língua, como sangram as veias abertas
 
 
Serpenteou o corpo, como serpenteia a simetria da dor
Conheceu a sabedoria do poeta, como quem conhece sua própria estrada
Sentiu-se triste, como quem se sente adivinhando a tristeza
Talhou a cicatriz na testa, como quem talha obra de arte
Suspirou no segredo do morto, como quem suspira na ânsia da morte
 
Saboreou o sagrado, como quem saboreia a sacra dos santos e dos altares
Pastorou a ovelha, como quem pastora almas e vagabundos
Apaixonou-se pelo sacramento, como quem se apaixona pelo sinal da cruz
Suplicou o sacrifício dos mortais, como quem suplica o tiro fatal
Tropeçou no descompasso dos passos, como quem tropeça no ventre da mãe amada
 
Resgatou o rebento, como quem resgata soldados ilhados e feridos
Lapidou a palavra, como quem lapida o sentimento do poeta
Calou-se diante do real, como quem se cala no olhar da vidente
Madrugou no colo da mulata, como quem madruga nu na nudez dos corpos
Mirou o miserável, como quem mira a mística da nódoa na hora do medo
 
Marcou o tempo, como quem marca arco-íris no ar
Rejeitou o filho, como quem rejeita o redentor
Refrescou-se no pingo, como quem se refresca no corpo morto e frio
Perpetuou o criador, como quem perpetua o Pai-Nosso
Pacificou a polícia, como quem pacifica os povos
 
No verbo dos deuses rezou com fé, como rezam os santos
No porto das dores chorou a última lágrima, como choram os filhos
E o poeta dos altares, mostrou o caminho, como fazem os anjos
Que na reticência dos miseráveis, dormem os deuses, poetas e amores

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