RONAN ANTONIO DE MENDONCA






A dignidade dos pobres.

Ao longo da história o cristianismo e a humanidade em geral inventaram muitas saídas ideológicas para transformar os pobres e os excluídos em “mal assimilável” e desafio contornável, porém a teologia da libertação acredita que a fé cristã só adquire substância histórica quando considera os pobres e excluídos como desafio incontornável.
Nas décadas passadas podemos perceber grandes problemas que assolavam a sociedade brasileira, a exclusão social, a desagregação familiar, a distribuição de renda e a educação. Ainda hoje estes elementos afetam diretamente nossa sociedade.
A pobreza, não é uma forma única e universal. Mas se refere a situações de carência onde os indivíduos não conseguem manter um padrão mínimo de vida condizente com as referências socialmente estabelecidas em cada contexto histórico. Sendo assim, a abordagem conceitual da pobreza absoluta requer que possamos, inicialmente, construir uma medida invariante no tempo das condições de vida dos indivíduos em uma sociedade. A noção de linha de pobreza equivale a esta medida. Em última instância, uma linha de pobreza pretende ser o parâmetro que permite a uma sociedade específica considerar como pobres todos aqueles indivíduos que se encontrem abaixo do seu valor. [1]
Há pobreza apenas na medida em que existem famílias vivendo com renda familiar per capita inferior ao nível mínimo necessário para que possam satisfazer suas necessidades mais básicas.  
O aspecto socioeconômico não é a única razão para a pobreza, é uma questão mais abrangente. A pobreza em última instância pode significar morte. Carência de teto e de alimento, impossibilidade de atender devidamente a necessidade de saúde e de educação, exploração do trabalho, desemprego permanente, desrespeito à dignidade humana e injustas limitações à liberdade pessoal nos campos da expressão, do político e do religioso, sofrimento diário.[2]
Nas últimas décadas o Brasil confirma uma grande desigualdade na distribuição de renda, e elevados níveis de pobreza. Tudo isto por causa das grandes injustiças sociais herdadas desde a nossa colonização.  Injustiça social que exclui uma maioria e favorece uma minoria.   
O grande problema da pobreza no Brasil e dos países latinos americanos é a situação de dependência econômica imposta pelos países europeus e norte-americanos e pelas corporações multinacionais. Há também a situação de violência institucionalizada contra os pobres, e que é perpetuada através de oligarquias governantes e pelos regimes militares. A dominação estrangeira e a opressão interna andam de mãos dadas.
          Quando o Brasil conquistou sua independência política de Portugal, no começo do século dezenove, ele não adquiriu independência econômica. Por isso quando a Europa e os Estados Unidos lançam seus projetos de desenvolvimento para os países pobres como o Brasil, eles estão somente interessados em tornar tais países mais dependentes deles.
Miguez Boninonão poupou palavras duras em sua avaliação: “O subdesenvolvimento da América Latina é o lado negro do desenvolvimento do Norte; o desenvolvimento do Norte é construído à custa do subdesenvolvimento do terceiro mundo. Os termos básicos para entender nossa história não são desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas sim dominação e dependência.[3]
 Para que haja um desenvolvimento no Brasil e nos demais países latino-americanos é necessária primeira uma libertação dos dominadores da economia. Países que na condição de opressores tem empobrecido e oprimido o povo dos países subdesenvolvidos, isto é produto do capitalismo internacional, e esse estado só pode ser mudado com o corte desse cordão umbilical que tem feito do nosso povo escravos de um sistema que favorece uma minoria.
Precisamos de libertação. Na letra do hino nacional brasileiro é declarado que “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante. Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte, em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte. [4]
Falar de libertação em termos de salvação em Cristo, nos faz escutar um clamor dos pobres. O papa João Paulo II diz em uma carta publicada em abril de 1986 que “Os pobres deste país, que tem em vocês os seus pastores, são os primeiros a sentir a urgente necessidade desse evangelho da libertação radical e integral. Ocultá-lo seria frustrá-los e desiludi-los”.[5]
 O Brasil não é um país pobre, mais um país que tem muitos pobres.  A desigualdade e a exclusão são fatores que corroboram para essa pobreza que aflige nossa sociedade. É necessário que nossas políticas públicas que combatem a pobreza priorizem o fator desigualdade, pois acredito que quando a constituição fizer jus ao que ela menciona em seu artigo 5  todos são iguais, teremos um país justo e liberto.
A fé em Cristo é uma fé libertadora. Seus discursos, suas mensagens foi e é uma busca pela igualdade e libertação dos oprimidos e excluídos. No evangelho de Mateus 8:1-3, podemos perceber que Jesus buscava aqueles que tinham no coração o desejo de se libertar. Libertação aqui digo eu, de qualquer raiz de mal. Um leproso que estava excluído de sua sociedade, e quando vinham as caravanas deveria gritar “Sou leproso”, este sim Jesus ao vê-lo em sua direção tocou-o e imediatamente ficou limpo.   
Na teologia da libertação a figura de Jesus Cristo, como o Senhor e Filho de Deus podemos destacar sua encarnação que foi até certo ponto uma condição social bem determinada: de pobre e trabalhador. [6]
Jesus privilegiou os pobres “Bem aventurado são os pobres”, deles se rodeou e com eles se identificou.  
Jesus é Deus em nossa miséria, o filho eterno que assumiu um judeu concreto, historicamente datado e socialmente situado. A encarnação do Verbo implica a assunção da vida humana assim como vem marcada pelas contradições deixadas pelo pecado, não para consagrá-las, mas para redimi-las. Nessas condições Ele tornou-se “servo” e fez-se “obediente até a morte de cruz” (cf. Fl 2,6-11; Mc 10,45)[7]  
Segundo Leonardo Boff em sua obra Jesus Cristo libertador, Jesus Cristo é um homem livre, um homem que não carregava em si preconceitos ou discriminação. Sua mensagem em primeiro lugar foi o Reino de Deus.  Deus se manifestou através de Jesus Cristo, por isso não podemos encontrar Deus senão por meio de Jesus Cristo.   
Jesus Cristo pregou o Reino como revolução absoluta e libertação integral: espiritual, mas também material (da fome, doença, desprezo), dentro da história e para além da história. [8]
Na pregação de Jesus o reino não permanece apenas como uma inaudita esperança; ele já se concretiza na prática de Jesus. Seus milagres e curas, além de documentarem a divindade de Jesus, visam mostrar que seu anúncio libertador já se historiza entre os oprimidos, interlocutores privilegiados de sua pregação e primeiros beneficiários de sua prática. O Reino é dom oferecido gratuitamente a todos. [9]
Através de Jesus Cristo somos capazes de descobrir Deus e quem é de fato e de verdade o homem. Cristo irrompe todas as barreiras e forças e cria condições para que o reino de Deus transfigure a existência humana e o cosmos. 
Segundo Boff para compreendermos o Jesus Cristo Libertador primeiro é necessário conhecermos a realidade da libertação sócio-politica para a Cristologia e o lugar social a partir de onde se elabora a reflexão cristólogica. 
A América Latina nos convida a vermos em Jesus Cristo o “libertador”. Somos fruto de um meio onde a opressão, a marginalização a pobreza sufocam a população. 
A liberdade que Jesus exerceu perante a Lei e os costumes do tempo, suas exigências radicais de mudança de comportamento na linha das bem-aventuranças provocaram um conflito grave envolvendo as várias instâncias de poder daquele tempo. Jesus conheceu a difamação e a desmoralização, a perseguição e a ameaça de morte. Sua prisão, tortura, condenação judicial e crucificação só se entendem como conseqüência de sua prática e de sua vida. Num mundo que se recusa a aderir à sua proposta e a entrar pelo caminho da conversão a única alternativa que reserva a Jesus, como maneira de ser fiel ao Pai e à sua própria mensagem, era aceitar o martírio. A cruz expressa por um lado a rejeição humana e por outro a aceitação sacrificial de Jesus.  [10] 
No livro Jesus Cristo libertador Boff diz que só em Jesus Cristo o homem é liberto de sua condição humana. A mensagem de Cristo não foi ele mesmo e nem sobre Igreja, mas sobre o Reino de Deus, uma verdadeira utopia que deve estar dentro do coração humano.  
A situação de opressão que vigorava na Palestina nos tempos de Jesus, pode-se comparar a condição do povo latino-americano, por isso o papel fundamental de um Cristo que liberta.  
 A ação de Deus ao longo de todos os escritos bíblicos é de um libertador. É um Deus que sofre ao ver o seu povo oprimido, escravizado e marginalizado. Deus é um Deus libertador.   
A pregação de Jesus sobre o Reio de Deus não atinge só as pessoas exigindo-lhes conversão. Atinge também o mundo das pessoas como a libertação do legalismo, das convenções sem fundamento, do autoritarismo e das forças e potentados que subjugam o homem. [11]
Toda a vida de Jesus foi um dar-se, um ser-para-os-outros, a tentativa e a realização em sua existência, da superação de todos os conflitos. Em nome do Reino de Deus, viveu seu ser-para-os-outros até o fim, mesmo quando a experiência da morte (ausência) de Deus se fez, na cruz, sensível até quase às raias do desespero. Mas confiou e acreditou até o fim que Deus, assim mesmo, o aceitaria. O sentido tinha para ele ainda um sentido secreto e último.[12]
. O homem é desafiado a sair de sua alienação e encontrar em Cristo a plena libertação de todo o mal em si.   
 
 
 
 
REFERÊNCIAS:
 
GRENZ, Stanley & OLSON, Roger E. A Teologia do Século 20 – Deus e o mundo numa era de transição. Ed. Cultura Cristã. 2003
GUTIERREZ, Gustavo. Teologia Da Libertação. Ed. Loyola. 2000
BOFF, Leonardo & BOFF, Clodovis, Teologia da Libertação no debate atual, Ed. Vozes, Petrópolis 1985
                BOFF, Leonardo & BOFF, Clodovis.  Como fazer teologia da libertação. Ed. Vozes.  9a Edição.  2007 
             BOFF, Leonardo.  Jesus Cristo Libertador.  Ed. Vozes. 19a Edição.  Petrópolis.  2003
             THEISSEN, Gerd. e MERZ, Annette. O Jesus Histórico: um manual, SP, Loyola, 2002.
 Hino Nacional Brasileiro, letra de Joaquim Osório Duque Estrada
 

 


[1]GRENZ, Stanley & OLSON, Roger E. A Teologia do Século 20 – Deus e o mundo numa era de transição. Ed. Cultura Cristã. 2003. p. 260
[2]GUTIERREZ, Gustavo. Teologia Da Libertação. Ed. Loyola. 2000.  p. 17
[3]GUSTAVO, Gutierrez. Teologia da Libertação. Ed. Loyola. 2000. p. 17
[4]Hino Nacional Brasileiro, letra de Joaquim Osório Duque Estrada
[5]GUSTAVO, Gutierrez. Teologia da Libertação. Ed.Loyola. 2000. p. 41
[6]BOFF, Leonardo & BOFF, Clodovis, Teologia da Libertação no debate atual, Ed. Vozes, Petrópolis 1985, p. 32
[7]BOFF, Leonardo & BOFF, Clodovis.  Como fazer teologia da libertação. Ed. Vozes.  9a Edição.  2007.  p. 87
[8]BOFF, Leonardo & BOFF, Clodovis.  Teologia da Libertação no debate atual.  Ed. Vozes. Petrópolis. 1985.  p 33
[9]BOFF, Leonardo & BOFF, Clodovis.  Como fazer teologia da Libertação.  Ed. Vozes.  9a Edição.Petrópolis   2007. p. 88
[10]Ibid. p. 89
[11]BOFF, Leonardo.  Jesus Cristo Libertador.  Ed. Vozes. 19a Edição.  Petrópolis.  2003.  p. 54
[12]Ibid. p. 74

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