Cristina M. Silva






O eu contraditório( partes 1 e 2 )

1.

Canções partidas,versos empoeirados. Folhas secas cadentes à mínima brisa. Passantes apaixonados,ou exímios atores no palco real das aparências cotidianas...
Pesadelos de risos,memória de toques. Tudo escuro,nebuloso,tenso. A rígida mão da sorte assentada sobre meu ombro,ditando em gestos o quanto me cabe dos seus gracejos gratuitos...imensamente pesados pelo aroma do que foi,do que quis e do que nunca vivi...
Não vou chamar teu nome,não mais. Não pertubarei teu sono ou borrarei teu sonhar com meus lamentos. Nunca fostes tão feliz e o que me traria provocar-te dor? Não mais desejar-te-ei fraterno,solícito,leal...Voa! Vai-te pra longe,atravessa rios,sobe montes! Amplia teu domínio,ama de alma,grita de contentamento
Casa-te com o vento oeste,batiza teus filhos com nomes de flores ou de rios caudalosos,ou de nascentes bravas e imortais...
Mas não lembres de mim,nem por um momento,reflexo sequer. Não pronuncies meu nome,não feches os olhos e caias na relva recordando o enlace dos nossos braços,os abraços...
Não cante nossas canções,não ouses jamais repetir as promessas. Silencia,emudece,enterra...esquece,perde,abandona. Corra com ela para onde meus pensamentos não denunciem teus males,teus limites e fronteiras...
Eu ficarei aqui,à espera. Continuarei,reticência viva,exclamação bêbada,aspas degeneradas. Assoviarei sozinha uma rima nova,darei vida aos galhos e troncos secos e tais serão meus bailarinos durante o passar das estações. Vá! Não te detenhas! Não tenhas pena,sorri e cavalga...eu ficarei...
Me achegarei aos solitários e com eles observarei o espetáculo de amor dos transeuntes. Tudo é mesmo isso? Isso será mesmo tudo? Palmas para o beijo e prêmios para os lábios. Mentiras bem ditas e mal representadas. Traídas pelo arrepio no braço,pelo piscar descompassado...
Palmas aos tolos que aceitam migalhas da alma alheia! Palmas aos melhores artistas: os loucos. Fico aqui,honrando cada sessão e troca de cenário. Inevitável admirar o numeroso elenco,e a platéia de pequenas criaturas que se aquecem ao meu lado...Vá! Foi-se? Já era hora...Eu fico,permaneço,sobrevivo e me encanto. Enquanto bebo da taça do tempo,à espera de um outro você,melhor intencionado,menos lírico,mais humano...sobretudo que necessariamente seja em tudo,um outro.

2.

As vezes sou lagoa. Imóvel, sentindo os sussurros do vento e o deboche do tempo que passa orgulhoso de seu dom cruel de tornar-me esquecida.As vezes sou riacho, nascente, doando vida aos passantes sedentos. Fazendo-os um pouco mais fortes e menos curvados. Nessas horas sou o alívio do dia, o gole demorado,a certeza de que no descanso há a chance da continuidade. As vezes sou pura, cristalina.Outra
s sou corrompida, maculada pelos animais que encontraram em mim o elixir da teimosia de continuar vivendo, mesmo quando a vida é somente mais um galope ou um pouco mais de carga.As vezes sou sereno,outras sou geada.E sigo, por que tenho um milhão de eus que vazam em dias de chuva ou sol,lua ou tempestade. Sigo radiante ou negra, sorridente ou nula, vazia ou transbordante. Eu simplesmente sigo e mudo, me apago e desapego, me jogo ou me detenho, faço o que preciso for. Se é pra existir, faço-o por inteiro.

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