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Cristina M. Silva






As memórias do cheiro

Não é engraçado o quanto o cheiro influencia nossas lembranças?
Acho que qualquer pessoa já teve algum tipo de experiência na qual um cheiro revelou ou trouxe à tona uma época distante, muitas vezes a infância. O cheiro de certos locais, o cheiro de terra molhada após uma chuva forte, o cheiro de orvalho que impregna o jardim, os cheiros variados da comida caseira dos avós, do pão fresco da padaria que não existe mais. O cheiro amoroso na roupa da mãe. Locais, pessoas, o trajeto feito por um ônibus, o vento, certos alimentos, o cheiro de conhecimento espalhado nas páginas dos velhos livros, e o cheiro fresco dos novos.Ah! O cheiro de viagens, do viajar, das malas repletas de coisas que não são realmente necessárias mas que teimamos em não deixar pra trás. O cheiro dos corredores da escola onde crescemos, dos amigos que há muito não vemos, mas que reconhecemos no perfume de outra pessoa. As vezes luto com as lágrimas, por que o cheiro não somente traz de volta a lembrança, mas uma saudade que empurra cada osso contra o outro e dá uma vontade danada de correr pra tudo aquilo, viajar no tempo, reunir cada pessoa querida e passar horas e horas comentando sobre tudo aquilo que nunca soubemos ao longo do passar dos anos. O cheiro do sono! Do banho recém tomado! O cheiro de sentir-se limpo! Fragâncias doces, amadeiradas, cítricas, todas juntas envoltas por um turbilhão de sentimentos. O cheiro da raiva as vezes, do suor da preocupação, da saliva que é lançada aos berros pela revolta ou revoltante situação. Cheiros que são mais sabores, por que os canais se unem e é como se algo nos arrebata-se para tempo e espaço que nem ao menos sabemos se foram tempo e espaço suficientes para tanta vida. O chairo do silêncio depois da briga, do tentar dormir e ainda assim temer ter pesadelos que nos acorde na noite escura e nos traga o cheiro do escuro, o cheiro de sentir-se só. Ah!!! E o cheiro da alvorada, os aromas da manhã, da vida voltando após horas de dormência necessária. E cada cheiro, cada trajeto feito ou refeito, cada sopro de brisa que levanta folhas marrons, cada um desses belos momentos que me lembram que tenho milhões de memórias olfativas me fazem querer chorar por não poder reuni-los todos. As lágrimas se apresentam frias e até mesmo elas tem cheiro, aquele cheiro de dor que precisa ser expulsa pra que alguma ferida possa cicatrizar. O cheiro de não poder colecionar os cheiros, mas a doce alegria pelo dom da memória, com todas as suas imagens coloridas e aromas diversos.

E sobretudo o cheiro do Tempo, de fugir dele, pra que com ele não se esvaiam os sonhos, ou mesmo o cheiro dos sonhos.

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