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Ana Flores






PERDEU!

Quase não se percebe sua aproximação. O centroavante surge do nada, confunde o passante como um Garrincha do asfalto, arranca-lhe a pasta da mão e sai correndo. Às vezes são dois zagueiros: enquanto um agarra o incauto, o outro tira-lhe relógio e puxa-lhe a carteira do bolso traseiro da calça, ao som do grito de guerra – Perdeu!. E somem na multidão, num trabalho perfeito de equipe.

Adiante, o exímio tocador de cavaquinho empurra a idosa que passa distraída, solta o grito de guerra enquanto a derruba no chão e fica com o envelope do pagamento de sua aposentadoria. Joga-o para o companheiro e corre cada um para um lado.

Na praia, agrupam-se o técnico de informática, o enfermeiro, o professor, o atleta, o cientista, o mecânico, o piloto, o bombeiro e, bem ensaiados, lançam-se sobre os que tomam sol e conversam despreocupados. Arrastam tudo o que vêem pela frente, assustam os banhistas com seus gritos e sua violência e somem correndo, deixando o caos e o terror atrás de si.

À noite, sentada no meio-fio, uma jovem veterinária, grávida de oito meses, olha de longe seu primeiro filho no colo de uma dentista, que tenta sensibilizar os motoristas parados no sinal a lhe darem dinheiro para cuidar da criança. Em breve, quando o outro bebê nascer, será mais um a ser usado na tentativa de comover outros motoristas em outras esquinas da cidade. Nessa mesma equipe, a enfermeira, o jóquei e o árbitro de futebol limpam os pára-brisas de carros para dividirem a féria do dia com o dono do ponto.

Ao pátio de uma instituição para reabilitação de menores, chega a nova leva de internos do dia - um ator, um salva-vidas e um compositor. Estes já sentiram o gosto de sangue, quase todos são jurados de morte e usam o tempo ocioso na instituição para o planejamento de estratégias e novos golpes para quando saírem dali.

Nas ruas, os que ainda não foram apanhados continuam as ações-relâmpago acompanhadas pelo mesmo grito de guerra. A cada uma dessas vitórias, os profissionais que um dia eles poderiam ser desaparecem antes de existirem. Vão-se poetas, jornalistas e Djs, entre tantos outros, porque Caveiras, Dedinhos e Bilus têm pressa de viver e de aproveitar a qualquer preço o pouco tempo de vida que lhes resta. Exatamente como suas vítimas, que perderam o relógio, a bolsa ou a vida, eles mesmos já haviam perdido todos os direitos antes de nascerem, inclusive o de passar dos vinte anos de idade. Tiveram o azar de nascer num país que, voluntariamente, década após década, deixa uma enorme parcela de sua população à margem de tudo. E que, justamente por isso, é o grande perdedor nesse reality show nacional.
Junho 2005

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