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ANA PAULA LEANDRO CHICARELLI






O natal de Silvia

Silvia nunca gostou de natal e nunca fez a menor questão. Da ultima vez que convidou seus familiares para jantar em sua casa muitos deles nem apareceram. Os motivos eram os mesmos de sempre, os parentes ricos tinham coisa melhor pra fazer e por se acharem melhores do que todo mundo não lembraram sequer de dar um  telefonema desejando boas festas. Os que marcaram presença foram apenas os parentes pobres, que na verdade só estavam interessados em comer e beber de graça já que na maior parte do ano quase todos ali passavam aperto e dificuldades. No fundo Silvia sempre soube que a parte rica da família nunca se misturava com a parte menos favorecida e sabia inclusive que isso acontecia em qualquer família, não só na dela, mas mesmo assim aquilo lhe chateava.

   Dessa vez ela queria que o natal tivesse muita fartura, por isso fez uma comida de dar água na boca, tudo pra compensar sua tristeza. Quando os convidados foram chegando todos eles sentaram-se no sofá e ficaram puxando assunto uns com os outros. A conversa variava a cada cinco minutos, uma hora o tema central eram as expectativas para o próximo ano, em seguida comentavam sobre a nova novela, depois as fofocas do trabalho rolavam soltas. Enquanto isso Silvia se matava na beira do fogão e ninguém se oferecia pra dar uma mãozinha, provavelmente o bate papo estava bem mais interessante. Muito se falava em solidariedade naquela época, mas na hora de fazer a comida e principalmente na hora de lavar os pratos não teve um único membro da família que fosse solidário.

    Tudo bem que quando você convida uma pessoa pra jantar é sua obrigação se responsabilizar pela trabalheira, mas não custa nada o convidado perguntar se a dona da casa quer ajuda, mesmo que seja por educação e ninguém fez essa pergunta, talvez pelo simples medo que de que a tal ajuda fosse aceita. Mesmo com  tarefas até o pescoço Silvia decidiu que aquela seria a melhor ceia que ela já preparou.  Enfim a ceia de natal ficou pronta e bem no momento em que todos se serviam chegou o tio Aluizio bêbado feito um gambá e contando um monte de piada que não tinha graça nenhuma. As piadas causaram constrangimento e Silvia pediu pra que ele parasse por ali. Além dele havia também a tia Ofélia, uma senhora com 65 anos que trabalhou de enfermeira a vida toda e não falava de outra coisa além de doença. 

   Manuela usava óculos fundo de garrafa e tinha uma voz irritante a beça, falava de boca cheia, gostava de interromper os que os outros diziam, comia feito uma porca e quanto mais comia mais repetia. Não se cansava de reparar no jeito como as pessoas se vestiam e odiava ser ignorada. Para ela o único motivo de comparecer num lugar era ser o centro das atenções. Antonieta era outra chata, batia no filho por qualquer motivo, até mesmo se o menino esbarrasse numa cadeira ou derramasse refrigerante sem querer. E foi exatamente isso que aconteceu. Durante o jantar a garrafa de coca cola virou em cima da mesa manchando toalha nova e tapetes, embora Silvia não tivesse dito nada, deu pra ver que Antonieta ficou nervosa, então ela segurou o filho com força e soltou vários berros:
 -- Menino sem educação, eu devia meter a mão nessa sua cara, só não vou fazer isso porque é natal e porque eu não quero estragar a ceia de ninguém, sua sorte é essa, mas deixa só o natal acabar que você vai ver o que é bom pra tosse.
-- Deixa isso pra lá tia, o menino não fez por mal – Interveio Silvia tentando limpar as manchas
-- Esse moleque é uma peste, é sempre assim, em todo lugar aonde nós vamos ele me faz passar vergonha.
-- Ah, mas com certeza ele já se arrependeu pobrezinho! – Falou Ofélia com dó do garoto.
-- Pobrezinho nada. Essa praga tem mais é que apanhar pra aprender a largar de ser desastrado!

   Depois do pequeno incidente Dona Antonieta começou a reclamar da vida e de sua falta de sorte, quase todos ficaram quietos nessa hora pra que a discussão não rendesse mais do que o necessário, só que a tia falava que nem matraca quando se tratava de repreender o filho. Tio Aluizio que já chegou de cara cheia bebeu mais ainda e de tanto beber acabou passando mal e teve que se retirar mais cedo. Dali por diante a conversa girou apenas em torno de tratamento médico, vícios, alcoolismo e aquilo tudo só fez com que Silvia ficasse ainda mais melancólica. Por fim todos foram embora desejando feliz natal uns aos outros e agradecendo a Silvia pela comida. Voltando pra cozinha uma grande bagunça esperava por ela...

   Pratos, tigelas, copos, taças de sobremesa, taças de bebida, tudo sujo e amontoado em cima da pia. O que uma pessoa não faz pra não ficar sozinha na noite de natal? Pensou ela triste e arrependida. Meia hora depois ela abriu a janela e ficou olhando as pessoas soltarem fogos. No caminho de casa seus parentes comentavam entre si que a comida de Silvia ficou salgada demais e que ela podia ser mais caprichosa. Desde então em todo ano que passava Silvia não teve mais a mínima vontade de celebrar essa data, não só por causa da baderna que ela tinha que por em ordem, mas por um ditado popular bastante conhecido: Antes só do que mal acompanhado!

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