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Vanderlei Antônio de Araújo






os ratos

 Os Ratos
 
O dia estava acabando e a noite se aproximava trazendo um clima frio, mas agradável, quando eu e dois colegas chegamos a  uma fazenda no município de Cavalcante. Estávamos em busca de um lugar para passar a noite. A casa apesar de grande era muito pobre, construída de pau a pique.
Ao lado, num pequeno curral, o dono da casa apartava os bezerros para na manhã seguinte tirar o leite. Quando nos viu, veio ao nosso encontro querendo saber o motivo da nossa visita. Explicamos a ele que estávamos a serviço e que, devido à distância da fazenda ao nosso acampamento, não tínhamos condição de voltar a tempo, antes do anoitecer.
Ele nos ofereceu hospedagem em sua casa, mas nós recusamos porque tínhamos levado material pra acampar. Enquanto armávamos nossas redes de selva na copa de uma árvore, ele começou a falar e não parou mais, como se há muito tempo não aparecesse ninguém da cidade com quem ele pudesse falar. Entendemos logo. Revelou que tinha onze filhos; contou estórias e falou de fatos que aconteceram por lá. Mais tarde, depois do jantar, fomos para nossas redes no alto da árvore para dormir.
Tudo indicava que teríamos uma noite tranqüila. Já passava da meia noite, quandoum relâmpago iluminou a noite e um grande estrondo fez-se ouvir. Um trovão  forte nos acordou. O ar encheu-se de um cheiro de terra molhada, enquanto por entre as copas das árvores, viam-se nuvens correndo levada por um vento enlouquecido. Os trovões ribombavam por detrás das serras e o vento soprava cada vez mais forte. Não tivemos tempo para muitas coisas. A água começou a invadir nossas redes, era a chuva forte que não nos deixava outra saída, a não ser nos abrigarmos na casa da fazenda. Descêssemos da árvore apressados e debaixo de um tremendo aguaceiro, corremos a procura da casa. Com a água nos tornozelos e totalmente ensopados, batemos à porta.
A porta abriu e o dono nos acolheu e nos ajudou a improvisar umas camas na sala, entre sacos de arroz e milho que também serviram de travesseiros. Logo que as camas ficaram prontas, deitamos e apagamos a luz do lampião, na esperança de um sono tranquilo. Lá fora a chuva continuava forte e com muito vento.
Um ruído estranho e inquietante chamou nossa atenção. Era como se alguma coisa se arrastasse rapidamente em nossa direção. No escuro, o medo passou a ser nosso parceiro ao percebermos que não estávamos sós. E tivemos a certeza  quando uma avalanche de seres estranhos, surgindo de dentro da escuridão subiu em nossas camas, pulando em cima de nós. Apavorados e sem entender nada, acendemos as lanternas que trazíamos ao nosso lado para qualquer emergência e então, vimos que centenas e talvez milhares de ratos, assustadoramente grandes, subiram em nossas camas e em nós, num espetáculo assombroso e apavorante. Com a luz das lanternas eles se assustaram, e desapareceram instantaneamente, entre os sacos de arroz, deixando-nos perplexos, olhando para a penumbra do quarto sem saber o que fazer, porém, mergulhados num silencio aterrador. Por um momento, pensei até que estivesse sonhando.
Passado os primeiros efeitos do susto e sem nenhum sinal dos ratos, apagamos as lanternas. Todavia, logo que elas foram desligadas, eles voltaram com a mesma disposição da primeira vez. Ao ligarmos as lanternas eles fugiram. Pareciam fantasmas, sumiam com a claridade e voltavam com a escuridão. Nunca vi coisa igual. Aqueles ratos eram persistentes e espertos. Faziam conosco um jogo aterrorizante: Bastava apagar a luz e eles voltavam, para em seguida, desaparecerem com a claridade das lanternas. Incapazes de dormir levados pela certeza de que os ratos voltariam se apagássemos a luz, acendemos o lampião a gás e literalmente passamos a noite em claro. 
A chuva diminuiu e a noite voltou ao normal. Mas para nós o tempo demorou a passar. Logo cedo, deixamos aquela fazenda e seus misteriosos ratos, para trás. À noite, no acampamento dormimos tranquilos como se nada tivesse acontecido.
 
 
 

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