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ANA PAULA LEANDRO CHICARELLI






O Paraiso

 
Ele lembrava de tudo o que realmente tinha significado em sua vida desde os primeiros anos, desde quando tinha começado a falar e nadar. Porque tinha uma ligação muito forte com o rio que passava logo abaixo da enorme casa de madeira onde nascera e onde vivera com os pais e o irmão e nadar ou ficar dentro do rio por horas era quase um sentido como outro qualquer, era o tato do rio acariciando. A casa de madeira não significava pobreza, pois era o comum naquela parte afastada do país onde praticamente não havia construções de alvenaria e  as casas, os estabelecimentos comerciais, escolas e quase tudo eram imensos barracões muito bem construídos em estilo europeu. Com exceção da pequena igreja de alvenaria, de cor amarelada no centro da praça, todo resto era uma cidade de madeira.
 
A família vivia afastada do resto de seus componentes que moravam na cidade grande e as raras visitas que recebiam, ele quase não lembrava mais, o Tio Salvador, o tio Valdemar e o tio Toninho eram os únicos que pareciam lembrar que eles existiam. O Tio Salvador, que já era velho quando ele era criança, era um tipo de velho safado, brincalhão e gozador, enquanto o tio Valdemar, irmão de seu pai, era um boêmio que invariavelmente estava bêbado e quando se hospedava lá por uma ou duas semanas, saia a tarde, depois de acordar e só voltava para casa de madrugada mas ele não entendia isso naquela época e na verdade nem lembrava muito bem desses dois tios que com o passar dos anos acabaram sumindo de sua vida  e depois morrendo.
 
Mas do tio Toninho lembrava bem, foi com ele que aprendeu a nadar aos quatro anos, pois antes disso não entrava no rio, apenas colocava os pés na água ou tentava pegar os filhotes de peixes que costumavam ficar à margem do rio dando rápidas mordidas na lama, hipnotizando seu olhar atento durante horas só percebidas quando o calor do sol causava dor de cabeça ou vermelhidão na pele branca de suas pernas e braços. O rio era simplesmente a melhor e mais doce lembrança dos seus tempos de moleque. Ele e o irmão passavam horas no rio, nadando, pescando ou jogando milho moído de cima da pinguela, uma árvore derrubada de uma margem à outra que servia como ponte e mergulhando em seguida no meio do cardume que se juntava abaixo para tentar pegar os peixes com as mãos, mas tudo ficava na tentativa, nunca conseguiam pegar nada e as poucas vezes que isso acontecia, o peixe escorregava entre os dedos e só dava para ver o reflexo prateado ziguezagueando na água clara iluminada pelo sol.
 
O Sítio onde moravam era muito grande ou pelo menos era grande na sua infância. Além do rio tinha outras atividades, comer amoras, goiabas, subir nas árvores, procurar colméias com mel nos troncos de árvores cortadas, fazer arapucas  e de vez em quando andar a cavalo, mas tudo isso era quase nada comparado ao rio. Eram coisas que faziam nos dias frios, no inverno ou logo depois de uma grande chuva quando era impossível entrar no rio que perdia toda sua beleza de cristal azulado e se tornava sujo, amarelado e ameaçador, dobrando de tamanho, invadindo as margens, deixando atrás de si a vegetação inclinada até o chão. Nestes dias tinha medo do rio. A devastação causada na vegetação, os peixes e lontras mortos enroscados no capim e nos arbustos  parecia uma traição do rio, uma ameaça e um aviso que nem  mesmo o paraíso estava acima da destruição, da dor e da morte. Mas não era a morte que causava dor. A dor verdadeira era descobrir sua existência.
 
Foi quando seu pai faleceu sem mais nem menos deixando dentro dele um enorme vazio. Não havia mais condições de permanecer naquele local, o jeito era vender o sitio e mudar de ares porque a perda de seu Domingos causava muita tristeza, parecia que sua recordação estava em toda parte colocando no coração de cada membro da família uma esperança vã de que ele voltasse a qualquer momento mesmo sabendo que aquilo era impossível. Parecia loucura o que a dor fazia com as pessoas. Então sua mãe dona Dalva anunciou que eles iam sair do interior e morar em outro local, aquela cidade imensa e feia chamada São Paulo. A noticia não lhe agradou, mas sendo apenas um garoto menor de idade não restava outra opção além de ir aonde a família fosse.
 
 As pessoas das grandes cidades eram pessoas frias e impessoais, parecia que elas não se importavam muito com ninguém. Em julho a cidade grande fica sufocada pelo ar seco e a poluição que paira acima dela, esconde tudo o que tem de bonito no céu, e na abóbada cinzenta, não há nuvens vagando preguiçosas como se acostumara  e ele sentia falta das formas que podiam ser imaginadas e da lentidão dos movimentos através do espaço onde viajava junto com elas na imaginação. O frio cortante lhe desejou as boas vindas logo de cara e o resultado foi a gripe insuportável e alguns dias de febre alta. O irmão nada sentia porque tinha uma saúde de ferro e raramente ficava doente.
 
A primeira impressão que teve ao chegar jamais se apagaria; em lugar das árvores que pareciam enormes em sua terra distante, agora, havia os prédios gigantescos apontando para o alto e substituindo os sons tranqüilos da natureza, o ruído cortante do trânsito e o barulho infernal de buzinas, vozes e gritos formando um conjunto sem qualquer harmonia, somente dissonâncias absurdas num lugar onde parecia não haver espaço, onde somente o vento gelado e cortante vagava rapidamente pelos contornos dos labirintos de ruas imundas e estreitas suspendendo de vez em quando a sujeira e o lixo acumulado nas sarjetas que margeavam as calçadas onde dezenas  de mendigos e desalojados dormiam enrolados em cobertores sujos ou sob caixas de papelão recolhidas durante o dia no comércio local.
 
A primeira vez que um mendigo lhe pediu esmola lhe causou medo e repulsa, com o passar do tempo ele percebeu que os mendigos nada mais eram do que pessoas inofensivas. Um deles sempre batia na porta de sua nova moradia para pedir comida. Ele sentia pena, mas recebera ordens da mãe e do irmão mais velho proibindo qualquer tipo de ajuda ainda que fosse com um simples alimento. Nessas horas todos o olhavam com desprezo e o deixavam ir embora humilhado e desconsolado. A questão era porque eles estavam naquela situação? A mãe dizia com frequencia: -- Estão nessa vida porque são todos uns vagabundos. Não converse com eles de modo algum senão vão achar que somos parentes e eu não quero ser confundida com esse pessoal.
 
Outra coisa que lhe causou estranheza foi ter que se acostumar a pegar ônibus para ir a escola, tudo era longe e as pessoas precisavam utilizar o transporte para toda e qualquer coisa. O ônibus era sempre cheio de gente, não tinha espaço pra todo mundo, as pessoas se espremiam, caiam por cima umas das outras disputando o máximo possível de oxigênio, as mulheres com crianças de colo tentavam acalmar os filhos que choravam se parar por causa do tumulto. E a cada minuto mais pessoas entravam e nenhuma delas se limitava a descer. Pela janela só se viam bares, lojas de um e noventa e nove, pessoas correndo como se fugissem da policia, cachorros latindo, e uma fileira enorme de carros coloridos. Era um verdadeiro desfile de cores e marcas.
 
A Avenida Padre Arlindo tinha ônibus pra todas as direções, o difícil era o motorista conseguir se locomover. Na escola os colegas de classe debochavam de seu sotaque caipira transformando sua vida num inferno. Quanto mais o tempo passava mais ele tinha certeza de que nunca se acostumaria com aquela rotina, como eram bons os tempos de calmaria onde as horas do relógio corriam lentamente, onde as pessoas não tinham tanta pressa e onde a qualidade de vida era cem por cento melhor. Maldita hora em que seu pai morreu. Seu cabelo ruivo era visto com enorme preconceito e ele foi alvo de tantas brincadeiras de mau gosto que até perdeu a conta, mas ao mesmo tempo em que ouvia piadas também sabia responder na mesma altura e quantas foram as vezes em que ele saiu na porrada? Inúmeras. Logo após ele foi taxado de galo de briga e quando alguém o provocava os meninos da rua diziam:
 -- Cuidado com o galo de briga que ele pode te bicar...
 
Mas aquele inferno astral não duraria por toda a eternidade, era apenas uma fase ruim e foi acreditando nisso que ele mudou radicalmente sua atitude pessimista. Anos mais tarde ele arrumou seu primeiro emprego e finalmente terminou os estudos... Começou a se interessar por bebida alcóolica, tecnologia e rock´n roll, perdeu boa tarde do seu sotaque, adquiriu outras formas de se expressar e com elas aprendeu todo tipo de gíria. Agora sua postura não era mais a mesma e ele até gostava da poluição. O cigarro entrou em sua vida e tudo foi ficando melhor porque a cada frustração era só dar um trago que ele já se sentia mais aliviado. Era bem melhor fumar do que sair por ai quebrando a cara de todo mundo como ele gostaria de fazer.
 
Mudou-se novamente dessa vez para o bairro do Ipiranga, trabalhou como técnico de informática e fez várias amizades. A partir dai ele parou de ser visto apenas como um caipira e virou o que se pode chamar de cara descolado porque nem todos tinham computador em casa e feliz daquele que entendia do assunto. Nessa época ele faturou muito dinheiro e comprou sua primeira moto que foi roubada semanas depois e o ataque de fúria foi tão grande que ele começou a beber com mais frequencia do que de costume. Conforme os computadores chegavam em sua casa para serem arrumados a popularidade do caipira foi aumentando. Ele tinha a pele tão clara e os olhos tão azuis que foi apelidado de Alemão e todos o conheciam. Em qualquer esquina onde ele pisava alguém gritava mesmo que fosse do outro lado da avenida: -- E ai Alemão?
 
Um das figuras mais bizarras do novo bairro não eram os caras que ficavam no bar, mas o homem da calçada conhecido como Vander Lúcio. Os fofoqueiros de plantão insinuavam que ele nunca namorou e nunca dormiu com qualquer mulher. Vander Lúcio tinha um ferro velho e trabalhava sentado em frente a sua casa observando cada passo dados pelos eventuais andarilhos e é claro que Alemão não poderia deixar de ser cumprimentado por aquele que era um verdadeiro Buda, sempre em baixo da mesma árvore, na mesma posição e sempre com aquelas ferramentas. Saindo da rua e virando a esquerda tinha a famosa banca do papai Noel que ganhou esse apelido por ter um dono barbudo e grisalho. Ele frequentava os alcóolicos anônimos religiosamente e também tinha se tornado seu amigo por assim dizer ou talvez colega.
 
E novas pessoas foram aparecendo em sua vida e ele foi construindo suas afinidades com muita calma, como um pedreiro que antes de erguer uma casa retira primeiro os tijolos quebrados para trabalhar somente com os que valem a pena. Mesmo com toda a sua popularidade ele não tinha amigos a quem  podia chamar de verdadeiros pois ele não dava a mínima pra aparência e sua capacidade de raciocínio superava muitos caras que se vestiam de terno e gravata. Enquanto ele com suas roupas velhas ajudava os estudiosos a escrever um relatório, estes por sua vez não sabiam nem mesmo acentuar as palavras de forma correta e mesmo assim eram enviados para cargos de liderança, mas não duravam sequer dois meses. A incompetência pairava tanto nas empresas quanto nos funcionários e Alemão era sempre chamado pra dar uma ajudinha básica lá e cá.
 
Os diretores ficaram sabendo dele simplesmente por causa de colegas em comum que o indicaram para fazer a manutenção de suas máquinas sem as quais eles não poderiam mais viver. E depois do trabalho bem feito esses mesmos clientes  distribuíam seu cartãozinho em retribuição e faziam aquilo de bom grado já que os picaretas tentavam passar a perna em todo mundo e nunca resolviam nada a curto prazo. Alemão era diferente porque ele não fazia discurso sobre nada, ele chegava e solucionava o problema. Ponto final. A empresa do Doutor Santos era um desastre em organização e um fiasco maior ainda em termos de equipamentos. Faltava planejamento, faltava computadores que não travassem o tempo todo, faltava credibilidade em seus supostos gestores, faltava quase tudo...
 
Numa dessas idas e vindas ele se ofereceu para dar algumas sugestões sobre suporte técnico e administração, mas o dono não queria nada daquilo, queria que ele preenchesse uma fixa e entrasse para sua equipe. Foi a primeira decisão sábia tomada em vários meses até então. Ele aceitou a proposta e num período curtíssimo de tempo já estava organizando a papelada e lançando produtos inovadores no mercado que aos poucos foram se expandindo e cruzando a fronteira de outros países. Hoje ele é nada mais nada menos do que o vice- presidente, mas ainda assim ele sente falta do que sua vida foi um dia e dos pontos de referencia que a infância trazia: O rio, o sitio, as árvores e os sons tranquilos da natureza, por essa razão ele agora voltaria pra sua terra e montaria uma nova empresa nos arredores do vilarejo. Já era hora de colher os frutos de seus investimentos e de sua visão ampla de negócio, mas acima de tudo era hora de matar a saudade de um lugar esplendido jamais esquecido.

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