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AMAURI CHICARELLI






A MARQUISE

 
  
A MARQUISE
 
  O porão  da Casa Sacerdotal do Município estava cheia de carteiras escolares formando uma meia lua de .frente a  grande mesa de escritório onde Valmir mexia em alguns papéis enquanto coçava o queixo e passava os dedos sobre  a barba quase branca que dava um formato pontudo ao seu rosto magro e esperto. Assobiava muito baixo alguma coisa e continuava o que estava fazendo. Se prestava atenção aos papéis era impossível saber. Parecia inquieto. Seus lábios se moviam escondidos sob o a mata de pelos brancos e pretos. Movimento visível apenas, pelo leve  vai e vem  do bigode que cobria a boca. Na certa fazia  algum cálculo complicado. Anotava alguma coisa no papel  e em seguida, com a mão direita, segurava os dedos da esquerda um a um  da maneira que as crianças fazem contas. Olhou as pontas enrugadas das mãos  e as unhas muito grandes. Assobiou um, pouco mais, deu um suspiro de terras, daqueles que  colocam no chão depois de grande esforço mental e olhou para  frente surpreso e sorriu aquele sorriso de Papai Noel sabido ao notar que Hugo estava parado perto da porta aparentemente interessado em sua figura,,,
   Hugo  conheceu  Valmir logo que mudou para aquele bairro. Suas  conversas não eram muito frequentes, mas o outro sempre o convidava pra assistir às reuniões de uma organização de apoio e tratamento de viciados e alcoólatras como era seu caso. Hugo sempre prometia que ia na próxima semana,  mas é claro que era só por educação e mais claro ainda que Valmir tinha certeza disso por experiência própria, quando dava um sorriso de quem conhecia tudo do assunto.
 E assim passavam as semanas e os meses sem que Hugo se decidisse. Ou melhor,  nem mesmo  levava a sério o convite. Por que precisava levar a vida até o final.? Por que perder ou achar o juízo? Valmir tinha encontrado seu juízo e sua realidade e contava os dias de abstnência. Hugo não queria contar seus passos. Ele achava difícil e inútil narrar seu próprio passado e ficar exposto a comentários e juízos mesquinhos  de seres que ele nem conhecia. Nem tinha o menor interesse em ouvir ladainhas algumas vezes por semana. Não tinha religião, nunca acreditou em nada depois dos oito anos. Para que então ir num porão  qualquer chorar em público sua possível miséria? Eles que se virassem do seu jeito e ele do seu.
 Um dia já meio cansado dos insistentes convites e do malicioso sorriso,  disse o que realmente pensava a Valmir. Falou também que não achava muito bonito um time de marmanjos ficar sentado em carteiras escolares chorando as mágoas uns para os outros como um bando de madrinhas de portão que não tinham outra coisa que fazer na vida. Não falou em tom ofensivo. Disse aquilo de modo meio sério, meio gozador, meio bêbado. Mas  não dá para negar que daquela vez tinha sido  cruel com ele. Talvez,  porque alguns  gostam de julgar a maldade, a crueza e a zombaria  acima das dores. Mas talvez gostasse de criar dores e ver como elas se curam, ou como cortam os  membros.
 
  Podia ver como a cara peluda de Valmir foi mais zombeteira ainda e lembrando disso depois, Hugo pensou muito tempo em quem teria sido o ofendido na verdade. O velho deu aquele sorriso irônico já conhecido de longa data insinuando que ele mesmo tinha falado as mesmas besteiras muitas vezes no passado...
 
  Hugo com certeza não gostava de Valmir. Não gostava de sua  superioridade que insistia em  demonstrar pelos quais, na sua opinião  de boca fechada e sorriso no rosto, eram “fracos” sem força de vontade. A antipatia piorou quando  descobriu que um dos donos de bar que mais gostavam de pisar nele quando estava bêbado  e devendo, era Edílio, filho de Valmir.
 
  Hugo morava perto da banca de revistas de Valmir  e quando dava vontade  de beber freqüentava os bares da região, indo de um para o outro. Quando o crédito acabava no primeiro fazia sua via e, devendo em um de cada vez, refazia o caminho já andado dezenas de vezes bebendo uma atrás da outra  até praticamente perder a consciência. Mas sempre conseguia ir para casa antes disso acontecer e em casa capotava imediatamente. Por isso dizia a si mesmo, ao Valdir e ao resto do mundo, que controlava seu vício e pararia de uma vez por todas quando  bem entendesse. 
  
Meses depois as coisas começaram a piorar muito depressa. Perdeu o emprego e teve que se virar com trabalhos avulsos. Tinha brigas terríveis em todos os lugares que freqüentava, até mesmo em casa. Mas não eram só as brigas. Os espaços entre as bebedeiras encolhiam cada vez mais, assim como o dinheiro.  Devia em diversos lugares, de onde tentava desviar como se fugisse de satanás. Muitas vezes ficava praticamente sem saída no quarteirão fechado pelos donos de botecos imundos e mulheres a quem não queria encontrar.
 
 Nessa época conheceu Ananda enquanto navegava por uma dessas redes sociais a procura de alguma mulher disponível ou disposta. Foi assim: ele era corretor de imóveis desempregado e  trabalhava quase o dia todo na internet agora e usava as redes sociais pra conseguir clientes e ao mesmo tempo conseguir mulheres. Era solteiro e não tinha nenhuma vontade de casar. Por isso não ligava muito com esse negócio de laços ou vínculos. Além do mais, nenhuma mulher ficava  muito tempo com ele por dois motivos: ele não ligava muito para o caráter delas de modo que elas também não exigiam paixões eternas. Quando não era isso, era que as mais ajuizadas escolhiam homens melhores.
 
 Com Ananda foi diferente. Ela era pouco mais que uma menina quando se conheceram tinha acabado de ter um sério desentendimento com os pais porque eles não compreendiam seu isolamento da família e do seu desinteresse por qualquer amizade que não estivesse do lado de lá da tela de um computador. E, mesmo com todos os problemas de Hugo, eles tinham alguns traços e interesses em comum, principalmente a depressão e os livros. No começo suas intenções não eram muito nobres mas percebeu que de maneiras diferentes eles tinham o mesmo problema: um vazio sem explicação e uma solidão imensa. Só a maneira de aliviar a angústia era diferente. Enquanto Hugo buscava o esquecimento de suas dores na garrafa, Ananda voltava-se para seu próprio interior, afastando-se das pessoas e chorando sozinha por alguma mágoa ou inquietação que não podia explicar.  Em pouco tempo moravam juntos.
 
  Antes de se juntarem, como diziam seus pais, Ananda não percebia que Hugo bebia tanto. Ele não escondia o fato de beber. As vezes tomava uma cerveja numa lanchonete junto com ela, que preferia um refrigerante ou suco. E assim o namoro seguiu sem grandes problemas. As vezes as crises de tristeza dela incomodava um pouco mas não era só ela que tinha isso. Só depois da união foi que ela começou a desconfiar da verdade e depois muito decepcionada, teve certeza. Mas continuou com ele. Sentia que um precisava do outro e sabia que ele não era mau. Apenas solitário e confuso, como ela própria.
 
   Ananda era carinhosa com  Hugo e  suportou alguns  porres calada e entristecida. Depois tentou conversar com ele e procurar uma solução ou tratamento, que ela própria já recusara. Ao saber dos convites de Valmir, insistiu com Hugo que ele aceitasse e procurasse um ponto de apoio em sua vida. Mas não adiantou. Hugo ficou furioso só de ouvir falar o nome do outro. Ela era carinhosa, mas não era submissa. Em pouco tempo a vida dos dois virou do avesso, O que ha alguns meses parecia uma harmonia de dar inveja virou um inferno de dar medo. As famílias se envolveram. Houve acusações dos dois lados. Até que Ananda resolveu pegar suas coisas e ir embora, deixando  Hugo bêbado, dormindo profundamente no tapete da sala.
 
  Hugo reagiu ao abandono da maneira como de costume: foi para o bar.mais próximo e  bebeu  durante horas, sozinho numa mesa afastada. Valmir, que ajudava o filho as vezes no bar,  olhava pra ele e balançava a cabeça querendo dizer –Esse não tem jeito mesmo. Todos já sabiam do abandono da mulher e alguns sentiam pesar de verdade, mas a maioria, parecia ter certo prazer na dor do rapaz, pois Ananda era muito bonita. Edilio então, talvez seduzido pela oportunidade de se mostrar e já cansado da presença de Hugo o dia inteiro ocupando o mesmo lugar,  chegou perto da mesa e disse bem alto –Pena que ela foi embora, você até podia beber de graça se ela cooperasse com os amigos. Mesmo quase caindo de bêbado, Hugo foi pra cima dele, mas não tinha forças. Foi empurrado para fora do bar e levado para casa por alguns homens mais compreensivos.
 
  Quando acordou no dia seguinte conseguiu lembrar de tudo. Podia suportar as humilhações enquanto estava bêbado. Sabia que ninguém dali tinha coragem de fazer  o mesmo quando  estava são. Mas o que Edílio  fez passou do limite da sua bebedeira. Tinha agüentado muito durante muito tempo mas uma história era cobrar com grosseria suas dívidas, afinal devia mesmo. Só que mexer com a única coisa que poderia chegar próximo de algo sagrado para ele, era outra conversa. Isso não ficaria assim. Por mais fora de moda e irracional que isso fosse, ele se vingaria. Mas como? Não dormiu a noite toda pensando no assunto. Arquitetou mil planos de vingar-se mas descobriu que qualquer deles era o caminho mais curto para a cadeia. Mesmo assim sabia que tinha que acabar com a vida de Edílio. Sabia também que precisava de coragem para matar, precisava praticar de alguma forma segura antes de partir para o jogo decisivo.  Pensou em matar alguns animais e adquirir  o sangue frio necessário. Mas  era muito mais difícil para ele matar um simples rato do que Edilio.
 
Mas conhecia o lugar ideal para o treinamento.
 
    Não havia quase ninguém nas ruas naquela hora. A cidade pouco iluminada não era tão feia quanto à luz do sol mas parecia mais povoada. Os mendigos espalhados sob as marquises dos prédios se arranjavam como dava, na tentativa de se protegerem do frio e da garoa gelada. Hugo olhava entristecido para os amontoados de caixas de papelão e cobertores imundos dos dois lados da rua e se perguntava de onde vinha essa multidão  que não era percebida, pelo menos na mesma proporção, durante o dia? Podia ver olhos brilhantes, curiosos de crianças, velhos e casais abraçados. E perguntava a si mesmo se os abraços eram de ternura ou simplesmente uma maneira como outra qualquer de espantar o  frio da noite ou a solidão da vida. Essa música triste! Pensava ele.
 
  Teria que superar qualquer argumento  moral e encontrar a vítima perfeita que o levaria a ter o sangue frio necessário para seu objetivo. Mesmo não ligando muito para princípios éticos, alguma coisa nele se debatia diante da  possibilidade de enterrar uma faca mesmo num porco morto, num ser mais fraco. Em sua opinião. Mesmo com todas as considerações negativas que tinha pela humildade, não tinha coragem de feri-la.  Não havia sentido destruir algo  que já tinha desmoronado. Não podia machucar aqueles seres.  Precisava derrubar um edifício inteiro ou que ao menos se julgasse como tal.
 
...Finalmente, disse Valmir se levantando e indo em direção à porta –Tomou Juízo? Precisou perder a mulher pra tomar uma decisão na vida?
-Não Valmir, não vim  aqui me tornar membro de nada. Só vim dizer que seu sorriso irônico me taxando de fraco é só pra esconder sua própria covardia.
-Não to entendendo . Respondeu meio assustado.
-Você com esses seus 5 mil anos 123 dias 2 horas e 18 segundos sem beber, foge da bebida porque sabe que o primeiro gole vai ser fatal, então o covarde é você!
-Eu nunca fugi de nada! Eu to curado! Você é que vai terminar debaixo daquelas  marquises se não parar! Respondeu furioso. Ele era famoso pela valentia e teimosia no passado, principalmente quando estava bêbado.
-O que você é então? De dia trata de bêbados e de noite serve pinga pra eles. Se não é covarde, vou estar no boteco hoje a noite, quero ver se você tem coragem de correr o risco. Disse isso e saiu antes que o outro respondesse.
 
  Hugo foi ao boteco pediu uma pinga mas não bebeu de um só gole como de costume, esperou para ver se Valmir aparecia. Edilio que não era muito corajoso evitou sair de onde estava, usou o balcão como escudo e ali ficou tentando manter a calma. Não demorou muito e Valmir entrou. O filho ficou aliviado pois não estava gostando nada dos olhares de Hugo e não via a hora de arrumar uma desculpa e se mandar. Esperava ansioso  que o pai chegasse. Mas ao contrario dos dias anteriores, Valmir ficou do lado de fora e bateu  forte no balcão com a palma da mão.
-Uma Pinga! Voltou a cabeça e encarou Hugo.
-Pelo amor de Deus pai, você não pode!
 Valmir bateu outra vez mais forte e desta vez encarou o filho.
 
  O resultado foi o esperado. Valmir voltou a beber, mas não como bebia antes quando  era jovem. Mas voltou a beber. No começo, tomava uma cachaça antes do almoço e outra antes da janta,. Dizia que fazia bem. Mas pouco a pouco as doses começaram a invadir os intervalos das refeições e com a paciência que tem o vício, ultrapassaram todas elas. Por fim o velho perdeu a aposta. O choro do filho, as lágrimas da esposa e o apelo dos companheiros de atividades na Organização de nada valeram. Valmir bebia e cantava antigas canções esquecidas pela maioria de seus amigos e desconhecidas dos mais jovens. E continuava bebendo. Seu corpo antes magro, estava sumindo. Edilio, desesperado não sabia o que fazer, pois não entendia a recaída do pai sem qualquer motivo. O único que sabia era Hugo, que sorria escondido, satisfeito de sua vingança dupla. Sem sangue algum, mas mortal. As vezes, quando encontrava o velho, os dois se olhavam com ódio e repulsa.  Mas Valmir nunca contou nada a ninguém, levaria com ele para a cova sua vergonha e sua covardia. E levou. Valmir se afastara dos colegas da Organização e dos amigos de então. Dia após dia, depois de fechar sua banca de revistas, entrava no bar, pegava uma garrafa e sem mesmo olhar para a cara desconsolada e aflita do filho, saia e caminhava até o prédio da grande marquise e ali  era rapidamente cercado pelos mendigos e  passava horas sentado na escada ouvindo histórias e cantando meio desafinado, canções antigas. Até não sobrar mais nada na garrafa e os outros se afastarem para dormir  Foi encontrado morto, sentado no lugar de costume, segurando uma garrafa entre as mãos.
 
  Hugo, ao contrário do que esperava, não ficou feliz com este fim. Por algum motivo, sentia remorso por ter causado de maneira indireta a morte do Velho. A vingança era contra o filho mas o pai acabou sendo o instrumento. Então ele lembrava  de Valmir e do seu jeito arrogante. Tentava pensar nas partes ruins e nos sorrisos humilhantes  para afastar a dor que já sentia  por ser responsável pela tragédia. Nos primeiros dias pensava estar feliz, mas com o passar do tempo a culpa incomodava mais que tudo . Ele sabia que mesmo com toda a arrogância do velho, este realmente tentou ajudar. Nem que fosse pra cobrar mais tarde na forma de ironia, ele tentou.  Esses pensamentos o levaram ao mesmo lugar que sempre levava em situações opressivas: ao copo. Ele bebia  com desespero e também passou a freqüentar a marquise onde o velho morreu. Levava sempre uma garrafa também e sentava na mesma escada para ouvir as histórias dos mendigos e também para pensar em Ananda. Pensava nela para afastar o desassossego e a angústia do remorso e esperava que um dia ela voltasse, Mas Ananda não voltou. Por mais que Hugo implorasse perdão e jurasse que juntos enterrariam o passado, ela não voltou. Encontraram-se uma vez.  Ela não disse se estava com outro e nem Hugo quis saber. Depois disso conversavam horas pelo telefone falando de coisas que não tinham nada a ver com o passado, mas as vezes surgia essa conversa e em geral  terminava assim a ligação. Ela também não perguntava se ele continuava bebendo e procurando encontros na Internet. Nem de Valmir. E ele já não pedia mais sua volta. Por fim essas conversas cessaram e Hugo foi entrando cada vez mais dentro de si mesmo e passava cada vez mais tempo sob a marquise, na duradoura companhia dos mendigos, da garrafa, das recordações e da esperança de um perdão que não podia mais alcançar.
 
  A história do fato estranho correu solta pelas imediações. Os moradores de rua não dormem mais em frente daquele prédio e ninguém mais fica na escada durante a noite. O homem foi encontrado sentado com uma garrafa em  cada mão quando descobriram que estava morto.  Mas os mendigos juram que só havia uma garrafa quando foram dormir e o deixaram lá com seus pensamentos. E quando anoitece a calçada fica vazia e mesmo os que não sabem do que aconteceu se afastam pouco tempo depois de arrumarem suas coisas para dormir. Não conseguem ficar no local. Ninguém sabe se é sugestão ou apenas delírio causado pela bebida, mas juram que quando o vento sopra , eles ouvem músicas antigas, um som quase imperceptível cantado em duas vozes. Um dueto desafinado e triste ecoando bêbado sob a marquise.
 
 

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