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Ana Flores






Missões

Quando minhas filhas se casaram, passei a ouvir cumprimentos sinceros do tipo "Que bom, hein, missão cumprida!", ou mais descontraídos, como "Já pode descontar as faturas, não é?". E vejo que, de alguma forma, esse é um pensamento mais ou menos estabelecido: filhas casadas, missão cumprida, como se a missão dos pais terminasse no momento da assinatura dos papéis do casamento. O que, para mim, está longe de ser verdade. Posso dizer que sou uma mãe privilegiada, porque tive condições de dar uma pausa no meu trabalho quando minhas filhas nasceram, para acompanhá-las no seu dia-a-dia, no seu desenvolvimento, nos passeios, nas conversas e brincadeiras, assim como nas horas mais difíceis de brigas, febres, escolha de colégio, decisões etc. E faria tudo outra vez, se as circunstâncias fossem as mesmas. Minha missão continua, enquanto elas precisarem de mim para o que der e vier.

Concepção igualmente equivocada e ainda seguida por grande parte de pais é de que a missão principal das escolas é a de preparar seus filhos para o vestibular. Quanto mais "puxado" o colégio, mais garantia de portas abertas para a vida universitária. Se ao lado de seu desempenho nas matérias regulares do ensino médio o adolescente participou de atividades em comunidades carentes, se aprendeu a trabalhar em equipe ou participou do jornal de seu colégio, defendeu as cores da escola na prática de um esporte ou fez parte de grupos voluntários de estudos específicos, isso só é valorizado pelas universidades americanas. Por aqui, com raras exceções, são firulas irrelevantes e dispensáveis, já que "não caem no vestibular".

Ainda persiste o funil do vestibular na seleção de candidatos que, extremamente jovens, são anualmente despejados das escolas secundárias nas nossas universidades, cada vez mais numerosas e de qualidade cada vez mais discutível. E tome de cursinhos adestradores, cuja missão é empurrar goela abaixo de seus alunos fórmulas e recursos decorebas que em um mês serão esquecidos, e fazê-los memorizar resumos de obras literárias em lugar de lê-las, porque não há tempo para curtir literatura. O importante é fazê-los "passar" e transformá-los em estatística na propaganda dos cursinhos campeões em aprovação.

Louvável projeto, o de ingressar na universidade e poder enriquecer-se com as oportunidades oferecidas pela vida acadêmica. Mas não movido pela escolha de carreiras da moda, que muitas vezes estão longe de ser o objeto de desejo do estudante e acabam sendo abandonadas pelo meio. Não passar por passar, para acompanhar os amigos que, também por pressão doméstica, aderem à roda-viva do vestibular para que seus pais possam dizer com orgulho que cumpriram mais uma missão. Muitas vezes à custa da infância e do tempo precioso de seus filhos que, antes de serem alunos e estudantes, são jovens que prematuramente deixam de lado os brinquedos saudáveis para ingressarem na corrida aos cursinhos de informática, de línguas, de balé, de judô etc., preenchedores de espaços "ociosos". Periga um deles perceber, como Chiquinha, personagem de Miguel Paiva, diante de seus amiguinhos super atarefados: "Assim não dá! Quando a gente virar adulto vai querer festejar aniversário em casa de festa de criança."
Maio 2005

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