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JOSÉ REINALDO FELIPE MARTINS FILHO






Afinal, quem deu asas à lagarta?

Afinal, quem deu asas à lagarta?
 
Afinal, quem deu asas à lagarta? Pergunto-me, atônito, diante de tão surpreendente metáfora da vida. Como conceber que aquele ser viscoso, rastejante, quase vil, possa se mudar em tão bela criatura, feita para os ares e para o beijo das flores? Quem lhe deu as suas asas? Quem, por um presente, lhe elevou às alturas?

– Certamente, não fora o homem. O homem jamais voou, exceto por artifícios outros. E caso pudesse conceder esse mérito a alguém, o faria a si mesmo e não à lagarta. Ser desprezível! “Que desperdício oferecer-lhe asas”, pensaria o homem.
– Quem sabe a divindade tal regalo lhe fizesse. Voar é próprio dos anjos e das criaturas celestes! As aves a eles se assemelham, senão pelas penas, ao menos pela proximidade com o azul. Ora o azul do céu, ora o azul das águas, dos oceanos e dos rios. A ninguém espanta que as aves voem. Voar lhes é próprio. Mas, quanto à lagarta, quem lhe deu as asas?

– Talvez as suas asas não lhe tenham sido dadas. De algum modo, desde sempre, à lagarta pertencessem. Mas, por que somente agora? E, por que, não desde o ovo?

– Rastejar-se sobre o solo, inferior aos outros seres. Como se isso não bastasse, não fosse preço razoável, submissão satisfatória, ainda há que alimentar-se do seu cocô. Constantemente refém de todos os outros. Desprovida de defesas que lhe assegurem a vida. Por que não, desde o início, o céu é o seu lar? Ao contrário dos pássaros, que, infantes, se projetam no azul, suas asas lhe foram dadas. Não nasceram consigo.

– Mas, afinal, quem deu asas à lagarta?

– Afastar-se dos demais e recolher-se no casulo, eis a fórmula da conquista de suas asas. Ninguém outro poderá conceder-lhe tamanho dom, apenas esta dupla: o silêncio e o tempo. Silenciar-se para o mundo e recolher-se para dentro. Voltar-se para sua própria casa, construindo-a. Dar tempo para que o silêncio inicie a transformação. O recolhimento é o preço da mudança e o seu prêmio é a conquista de si mesmo. Do chão às alturas, por suas asas.
                                                                      
José Reinaldo F. Martins Filho  
29 de agosto de 2012 


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