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Arlete Meggiolaro






Ter para nunca perder

Fracionada. Momentos tão desagradáveis. Optar entre os sentimentos e as medidas a serem agilizadas no curto prazo. Isis não queria viajar, para poder estar ao lado de quem mais desejava. Penosa decisão.

Chuvas, chuvas!... São as “águas de março”. Neste ano ela não fechou o verão. Com o calor descomunal, as chuvas enfurecidas precipitavam-se com violência. Estragos infindáveis. Em alguns pontos, a vegetação chicoteada pela tormenta, deslizou junto com a terra - o arrimo. Das encostas dos morros os barracos se desprendiam, carregando consigo frangalhos de vidas. Primeira vez que latas, possíveis panelas, se abasteciam, mas pela lama. Decepção. Flagelo.

Assim, foi a semana de borrasca no Litoral Norte. As telhas da casa de veraneio se sentiam purificadas, livres da falsa maquiagem que tampava os poros. As vigas, sofridas pelas constantes mudanças de temperatura, ajoelharam-se. As ripas do telhado, diante da calamitosa cena, trincaram com o peso da água. Em alguns ambientes, no teto surgiu incontrolável vertente.

Providências?! Sem dúvida. Antes, Isis digitou um e-mail para Andrei, convidando-o para o final de semana. Muito embora soubesse que não poderia esperar pela resposta, a traquina ilusão reinou. Mesmo com o coração esmagado pela tristeza, ela desceu a serra, levando consigo a maior das declarações que já recebera.

Naquela manhã de sexta-feira, foi presenteada por Andrei com a música “Alma gêmea”, cantada por Fábio Jr.. Sublimação. Assim guarnecida, Isis cantarolou a viagem inteira, acompanhada pelo coral dos sonhos. Queria entregar-se, aconchegar-se em seu amado homem, no entanto, estava só dentro do carro. Enquanto seus olhos fotografavam o betume asfáltico, linhas amarelas, lanternas vermelhas, faróis que vinham do sentido contrário. Em seu interior as vibrações da harpa emocional repercutiam querença.

Após duas horas e meia de viagem, ela estacionou o carro de fronte ao portão da casa. Não acreditou ouvir o som que atravessa as paredes. Era a voz de Andrei!... Mas como poderia estar lá?! Por enquanto... sem resposta.

Seu corpo equilibrista sob o fio esticado pela emoção, cambaleou ao descer do carro. Pegou a bolsa no banco. Com as mãos tremulas, Isis revirou-a em busca da chave. Finalmente a encontrou. Com a “abridora” na mão tentou introduzi-la no orifício da fechadura, mas este não lhe ajudava. Por fim, conseguiu. Abriu o portão. Correu para a outra porta. Aquelas chaves quádruplas eram torturantes. Cada uma delas tinha a posição certa, ora parte estreita era para cima, ora para baixo. Sem levar em conta esse detalhe enfiou-a no buraco específico, a chave não rodava, entortava. Ela sentiu a presença de Andrei. Tentou chamá-lo. Suplício... a voz estrangulou-se. Mais uma tentativa com a rebelde chave. Pronto, a porta abriu! Tropeçou no degrau, mas não caiu.

Desvairadamente, Isis entrou na sala e não viu Andrei. Abriu a porta de um quarto, mais outra e outra, dos banheiros, da cozinha... Ninguém! Ela sentia o cheiro dele em sua própria pele. Desnorteada, em prantos, deixou suas pernas dobrarem. Sentada no chão do corredor, sob a escuridão, ela chorou. Nada entendia.

Sentiu um toque estranho dentro do seu íntimo. Demasiadamente abatida, despiu-se da blusa azul celestial, expondo o ávido seio. Com o pedaço do casto tecido, secou sua face lívida. Ainda distante da realidade, amparando-se nos tijolos nus da parede, ergueu-se. Só então deu conta do verossímil.

Alucinação!... O amor a impregnara de Andrei. Ele estava dentro dela por inteiro, tanto com a sonoridade das palavras - nunca nos perdemos - quanto com o cheiro de vontade e urgência. Todo conjunto friccionava seu viceral com as carícias de ter. Sem limites, a reciprocidade dava-lhe a certeza do “nunca perder”.

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