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LEOMAR BARALDI






O HOMEM QUE ENFIOU O PÉ NO VENTILADOR

Germano chegou no trabalho naquela manhã com o pé engessado. Todos os colegas ficaram preocupados com ele. Alguns previam hipóteses, outros confabulavam sobre o possível acidente que teria comprometido o pé de Germano.
-E aí, cara, conta o que foi?
Ele ficou uns segundos indeciso.
-Do pé? –perguntou ele.
-É! Do pé!
-Enfiei o pé no ventilador.
-Pai do céu! Mas como!?
-Uai! Enfiei o pé no ventilador. As pessoas não podem enfiar o pé no ventilador?!
Germano não podia contar a verdadeira história, todos iriam rir dele. Contar não.
-Sim... Tudo bem... Não precisa ficar assim. Acidentes acontecem.
Durante aquele dia não perguntaram mais nada a Germano. Ele foi para o ambulatório da empresa, foi medicado e deram a ele duas semanas afastado.
Foi um comentário geral. Uns queriam saber o que realmente havia ocorrido. Outros tentaram ligar para a casa de Germano ou para o celular dele, mas sempre dava evasivas. Amigos mais chegados foram até a sua casa, dar um apoio, levar um pouco de solidariedade. Todos com o objetivo de arrancar dele a tão almejada informação. Como foi enfiar o pé no ventilador? Germano mudava de assunto na hora, desconversava, inventava uma desculpa e ia para o banheiro para disfarçar.
Aquela desatenção de Germano para com os amigos estava despertando dúvidas cada vez mais abissais entre todos. Uma pessoa enfia o pé no ventilador. Isso não é todo dia que se ouve falar. O que mais levantava suspeitas era o modo como Germano fugia de perguntas mais contundentes. Por que ele não queria responder? Certamente estava escondendo a verdadeira versão ou queria proteger algo ou alguém. Devia estar metido numa escaramuça, e queria ficar quieto, ficar na sua.
E se fosse uma organização criminosa? Sim, Germano podia estar sendo vítima de uma organização criminosa com ramificações em todos os setores da sociedade. O pé lesionado seria um acerto de contas. Ele deve ter descumprido alguma tarefa. Os homens ficaram furiosos e deram um corretivo em Germano.
-É isso mesmo. –concluiu um dos amigos de Germano, de olhos arregalados.
Sem Germano saber foram até um distrito policial em Itaquera. Contaram tudo para o investigador chefe.
-Pode ser a máfia chinesa. –repetiu Eliakim, o primo de Germano para o policial.
-Não vamos contar nada pra ele. Acho que ele não quer a polícia nessa jogada. Entendem?
Foram acionados agentes especiais para o caso. A ordem era ficar vinte e quatro horas de olho em Germano. Foram grampeados todos os telefones de Germano. Um carro comum com dois investigadores à paisana foram designados para ficar na cola dele.
A vida de Germano virou uma montanha-russa. Não tinha sossego. Percebeu o carro azul sempre próximo à sua casa. Percebeu que onde ia  o carro ia atrás.
-Maria, estou sendo seguido.
-O que, Germano?
-Estou sendo seguido. Não viu o carro azul? Ele nos segue todos os dias.
-Que carro azul, benhê?
-Ah, essas mulheres! Aquele carro azul. Olha lá.
-Ai, credo.
-Viu? Então. Estou sendo seguido. Você não percebeu o telefone grampeado também.
-Nosso telefone grampeado? Ai, credo!
Germano ficou intrigado, nem dormia direito. Lembrou-se do tempo de jardineiro. Fora jardineiro de um assessor a deputado. Mas foi há tanto tempo. Não pode ser. Aquele inferno voltaria? 
No outro dia pela manhã a mulher de Germano acordou com ele a cutucando.
-Temos de deixar este país. –disse ele.
Apontou as malas.
Nem clareava o dia direito e Germano planejava de fugir. Alugara um carro, deixaria o seu na garagem para enganar os agentes. Sairia pelos fundos. Quando os investigadores dessem por falta deles já seria tarde.
Guiou durante horas, já estava próximo da fronteira com o Paraguai. Nesta altura dos fatos os agentes deram por sua falta e da mulher. O alarme foi dado.
-Esse Germano deve ser membro de uma organização criminosa mesmo. –rosnou o investigador chefe.
Foi montado um esquema de captura. A foto de Germano foi enviada a todos os postos de fronteira. Todo o efetivo da Polícia Federal foi mobilizado. Germano apareceu em todos os noticiários. Especialistas em computação gráfica com a ajuda de espiões do antigo AI-5 chegaram à comparação perfeita com o rosto do desaparecido Germano Joakstikan, o general durão, o general impiedoso que torturava e matava no antigo regime de ditadura. O general que fora condenado por seus crimes. O general que todos da imprensa deram por desaparecido.
-Quero ele vivo! –bradou o sargento da polícia de fronteira.
Germano da Silva Pereira, padeiro. Foi cercado e preso, levado para dar declarações. Se tornou uma lenda histórica. Toda a imprensa a seus pés. Todos queriam saber o que ia falar.
-Gente. Eu enfiei o pé no ventilador porque o ventilador estava muito próximo da cama, e eu fui me posicionar para fazer amor com minha mulher, acho que calculei mal meus movimentos e enfiei o pé no ventilador. O ventilador caiu, foi aquela barulheira, o cachorro latiu.

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