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VALCI MELO






INTÉRPRETES DO PADRE CÍCERO

            Desde cedo acompanhava os inflamados sermões do santo nordestino. Era seu ídolo, o exemplo a ser seguido, o infalível protetor.
            Entre seus simbólicos dizeres, cada um carregado de enorme sentido e carente de profunda interpretação, ele se lembrava daquele que alertava os romeiros acerca dos perigos do fim dos tempos.
            Era seguro, sério, destemido. Não precisava daquilo... Sempre passou sem aquela merreca, por que somente agora desobedeceria o padim... Não! Era coisa do demônio. Quem já viu isso?
            Sua esposa, pacientemente, tentava, sem êxito, convencê-lo:
            - Deixe de besteira homem! Quem já viu o diabo andar dando alguma coisa?
            - Meu padim já dizia (e ele não era comedor de feijão como nós!): “No final dos tempos a Besta Fera passará nas portas distribuindo dinheiro.”
            - Mas ele não se referia ao aposento não, cristão! Esse dinheiro é o governo que vê a situação da gente e quer ajudar!
            - Não quero saber de nada! Pra mim isto é o cumprimento da profecia do padim Padre Ciço. E quem quiser se iludir que se iluda. Eu não sou besta... Deus me livre desta precisão!
 


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